Sarney enrola Lula e abala PT

Vai ficando evidente que o ex-presidente, senador José Sarney(PMDB-AC) deu uma tremenda manobrada, espetacular, em cima do presidente Lula, no episódio da sucessão parlamentar 2009. Pode ser que a situação mude até segunda feira próxima quando serão realizadas eleições na Câmara e no Senado, mas, por enquanto, vai configurando possível vitória sarneysista, na marcha dos prognósticos.  Se o deputado Michel Temer(PMDB-SP) emplacar, na Câmara, onde a maioria do partido e as coligações que realizou se mostram forças amplas e consistentes, será a hecatombe petista e nascimento do parlamentarismo peemedebista, em nova etapa histórica da Nova República em meio a crise global capitalista deflacionária, com Sarney virtualmente de primeiro ministro.
Delfim Netto disse que Sarney, em matéria de política, faz croché com sete agulhas. Sabe tudo do ofício. Começou na bossa nova da UDN golpista de Carlos Lacerta, na década de 1950, depois,  rendeu-se, no lombo da Arena, ao militarismo golpista udenista por 20 anos(1964-1984), dobrou, em seguida, montado no PDS-PFL, a esquina da democracia como primeiro presidente da Nova República(1985), substituindo Tancredo Neves, dramaticamente, morto, e, praticamente, no PMDB, dominou o Congresso Nacional ao longo dos governos neorepublicanos. Primeiro, exercendo o poder executivo, depois, no comando do Legislativo, na Era Lula, exponenciando-se  com o senador Antônio Carlos Magalhaes, na Era FHC. Foi presidente do Congresso na etapa inicial da era Lula e pode repetir a dose na etapa final lulista. Um negociador político da mais alta cepa, urdido na segunda metade do século 20, entrando século 21 adentro. Fora do comando do poder direto, cria seu espaço; no efetivo exercício dele, amplia-o, extraordinariamente. 
 
Se ele faturar mais essa presidência do Senado, pontuando de forma sensacional sua carreira de político conservador, reacionário e renovador, simultaneamente, no cenário político nacional, como, verdadeiramente, única, repetiria pregação do senador Lauro Campos, relativamente, ao senador Antônio Carlos Magalhães, na Era FHC. 
A dobradinha FHC-ACM, disse Lauro, exercitou a ditadura compartilhada sob o regime político neorepublicano eternamente provisório subordinado à bancocracia. Claro, FHC, na segunda metade do seu mandato, enxotou ACM, sob danação da anti-ética política que tomou mandato parlamentar do senador baiano do PFL-DEM, depois, retomado, democraticamente.
 
Emergiria, agora, no mesmo diapasão, a dobradinha Lula-Sarney, na reta final da era lulista, podendo o ex-presidente, poderoso senador do Acre, igualmente, compartilhar uma neo-ditadura provisória neorepublicana na etapa final do falido neoliberalismo que dominou amplamente a Nova República, revertendo-se agora em apelo salvacionista para o nacionalismo protecionista? 
Os fatos apontam para essa possibilidade, embora a política seja pura mudança, impondo, frequentemente, surpresas.
 
A Nova República – democracia política eternamente provisória – ,mais uma vez, tende a permanecer nas mãos dos caciques políticos conservadores da política nacional que inteligentemente souberam adequar-se às novas circunstâncias sempre que são impostas novas e problemáticas formas de reprodução do capital na periferia capitalista.
Curtido, primeiro, no ambiente dos decretos leis militares, depois, no reinado das medidas provisórias neorepublicanas, adequadas aos interesses dos banqueiros, que, de fato, deram as cartas nos governos da Nova República, prisioneira do neoliberal fracassado Consenso de Washington, José Sarney  arrancou com grande disposição de velha raposa astuciosa para tentar conquistar novo mandato no Senado, depois que, ingenuamente, o presidente Lula abriu o galinheiro do PT para ele.
 
Ao deixar correr solto o conto do vigário do aparente desejo sarneysista de não disputar a presidência do Senado – um não desejo desejado – , salvo se fosse chamado para construir consenso, o presidente Lula caiu na conversa de Sarney.
 

Omissão lulista bloqueia Tião

O sonho de Sarney foi embalado pela omissão lulistada mesma forma que tal omissão, igualmente, virou fantasma para a candidatura Viana.
A esperta disposição manifesta por Sarney ao presidente de não disputar não mereceu resposta manifesta do titular do Planalto em forma de apelo e sugestão de cobrança em favor do candidatao Tião, um homem do norte, como Sarney. Ou seja, candidato da coalizão ao Senado com apoio do senador maranhense não disposto a disputar.
A ingenuidade petista-lulista se manifestou na crença em uma regra congressual não escrita de que os poderes nas duas Casas do Congresso não podem ficar em mãos de um só partido. Se o PMDB já tinha costurado , com Michel Temer(SP), a candidatura na Câmara, no Senado, seria a vez do PT. Sarney não acreditou nas coisas não escritas.
Lula acreditou num pressuposto abstrado. Se, como Sarney, não acreditasse, estaria armando estratégia favorável ao senador Tião Viana(PT-AC). Como acreditou, desarmou a candidatura vianense. Vale dizer, condenou Tião Viana à instabilidade, abalando sua força.
Mas, como  “tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda”(Hegel), a aparência sarneysiana deu lugar à essência sarneysiana, enquanto a essência lulista, minada pela omissão política, transformou Tião Viana na aparência sem essência.
 
A não solicitação de  Lula a Sarney relativamente a um compromisso de apoiar candidato da coalizão governista foi lida pela águia política maranhense como o pulo da onça no cangote do bezerro: “Ele não me pediu apoio para o candidato dele; significa que não preciso apoiá-lo”, psiocologizou certamente a sabedoria política manhosa sarneysiana. E estamos conversados.
A partir daí, Lula ficou marolando o assunto, sem sair do lugar. Era o que Sarney queria. Desgastaria Tião Viana, disseminando sua instabilidade-debilidde intrínseca, ao mesmo tempo em que proporcionaria oportunidade cada vez mais ampla para a retórica sarneysiana, engordando-a no vácuo criado pela indecisão do titular do Planalto.
Os petistas não aprenderam com o fiasco na sucessão vitoriosa do deputado pernambucanao Severino Cavalcanti. Deixaram, de novo, de aprender, dessa vez, acreditando em conversa de papai noel. Abriram a guarda para Sarney que passou a atacar por todos os flancos, tricotando com sete agulhas, materializando a pregação delfiniana. Enquanto isso, Tião Viana, sem experiência, espeta o dedo com duas agulhas rombudas, sem a lima necessária, dada por Lula para afiá-lo no jogo sucessório parlamentar 2009.
Lula foi neutralizado pela malícia política do ex-presidente. Esta se expressou em efeito paralisante sobre o presidente em relação ao senador aliado Tião Viana, que ficou sem jogo. Afinal, seu líder maior se recusou a jogar. Em política não tem três erros. Errar uma vez é pecado mortal. Duas, é a morte certa. Tião Viana, com cara de padre piedoso, escorregou no quiabo de Sarney, espalhado com sabedoria no caminho entre a liderança do PT e o Palácio do Planalto.
 
Tião, frango de granja, saiu correndo para um lado, sem apoio de Lula, enquanto Sarney, frango caipira, catador de minhoca, saiu por outro, certo de que Lula ficaria em cima do muro, para não desagradar o PMDB.
Sobretudo, o ex-presidente jogou com a carta maior do partido, tornado mais poderoso depois das eleições municipais do ano passado, conferindo-lhe base capaz de sustentar candidatura presidencial. A capitalização dessa força é a âncora fundamental da candidatura Sarney.

Camelo velho conhece o deserto

O que fará o PSDB? Esperará o voto do governador José Serra, que tem suas divergências profundas com o senador maranhanse, por ter armado cama de gato contra a filha dele, inviabilizando sua candidatura em 2002, envolvendo-a em denúncias de corrupção praticada pelo seu marido, em armação espetaculosa comandada pela polícia federal em plena campanha eleitoral?
Certamente, Serra, de olho em 2010, não teria porque não aproveitar a oportunidade de ouro para remover mágoas passadas em troca de oferta de juros políticos futuros.  Atuaria de modo contrário, criando contencioso sem necessidade, que viesse, amanhã, fazer entrar areia nos seus planos grandiosos de governar o Brasil com eventual apoio de Sarney?
 
Ou Sarney estaria pensando em Minas Gerais, para formar a dobradinha Aécio Neves-Roseana Sarney 2010, a fim de dar um troco em Serra, atraindo o governador mineiro para o PMDB? 
Resta saber qual seria o compromisso de Sarney com a candidatura Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, preferida do rei.
Se for verdade que o presidente Lula ficou pê da vida com a disposição de Sarney de votar atrás e se dispor a disputar a eleição, estaria o possível novo presidente do Senado livre de compromisso explícito com a ministra em 2010. A insatisfação lulista soou temor por eventual vitória sarneysista, pois poderia colocar areia na candidatura da ministra. Cabeças inchadas em profusão  no Planalto.
Lula, certamente, continuará com muito poder, mas Sarney, consciente da hierarquia equivalente entre os poderes da República, não deixaria de exercer sua soberania. E essa será dada pelo pragmatismo político, expresso no apoio da opinião pública. Se as pesquisas favorecerem Dilma, ok; senão… 
Se nem o próprio PT, até o momento, disse sim à Dilma, por que a velha raposa seria a primeira a fazê-lo, sem antes saber o que reserva o futuro? 
O camelo velho, que conhece de cor e salteado o caminho do deserto, que enrola Lula e anula o PT, caminha mais uma vez para atravessar o deserto do Senado , sem beber água suja, profetiza o empresário Sebastião Gomes.
 

Moratória americana à vista

A situação da economia mundial ficou tão crítica diante da evidência de que o sistema bancário americano está, totalmente, falido, que pode caminhar para um beco sem saída, levando o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama,  a decretar moratória, como última alternativa capaz de remover os títulos podres que bloqueiam o crédito internacional e a sobrevivência do capitalismo, perdido no vendaval da especulação desenfreada, sem regras, estimulada pelo próprio governo. Os tombos seguidos da bolsa, depois da posse de Obama, sinalizaram o contexto explosivo.

 

A moratória, que já aconteceu outras vezes, na história americana, no século 19 – em 1971 a desvinculação do dólar do ouro foi um beiço fenomenal no mercado – , seria a troca de títulos públicos emitidos pelo tesouro por títulos hipotecários-derivativos, gerados pela bancarrota imobiliária, alongando prazos de resgates, quem sabe para além dos trinta anos. O negócio ficou tão feio no mercado financeiro que somente o Estado tem moral e poder capaz de desobstruir as artérias entupidas do crédito, sem o qual o sistema capitalista implodiria geral. Seria fundamental apoio político, o que não aconteceu, por exemplo, no Brasil, em 1986, com o ex-presidente José Sarney, primeiro presidente da Nova República.

Configura-se o que vários economistas, ao longo dos últimos anos, têm alertado: que o deficit americano, chegando perto dos 7% do PIB de 14 trilhões de dólares, alavancou dívidas, por meio do sistema bancário, desregulamentado, mais de 50 vezes superiores ao próprio deficit. Especialistas, como o economista Adriano Benayon, professor da Universidade de Hamburgo, autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, dão conta de que o estoque de títulos de crédito, inclusive derivativos, ultrapassa 500 trilhões de dólares, incluídos os chamados “junk bonds”, títulos podres. 

Os ativos financeiros cresceram de 150% do PIB, em 1980, para 400% em 2005, nos países ricos do chamado G7, segundo David Roche, presidente da Corretora Independent Strategy, de Londres. Os ativos financeiros, no mundo, superavam 118 trilhões de dólares, em 2004, 10 vezes mais que o total registrado em 1980, representando 3 vezes o PIB mundial, segundo relatório do McKinsey Global Institute. 

A proliferação é muito maior, incluindo os derivativos, títulos podres imobiliários, estimados em 278 trilhões, calculados pelo BIS, o banco central dos bancos centrais. Ao lado disso, no mesmo contexto, o endividamento das famílias americanas é superior a 25 vezes a sua base salarial. A podridão creditícia fictícia implodiu geral  no mercado imobiliário.

 

Falência explícita

Os bancos americanos, detentores dos papeis, por eles mesmos emitidos, sem controle do Banco Central americano, repassaram-nos para frente, especialmente, aos banqueiros europeus e japoneses. Estão todos micados. Em tal situação, perderam a capacidade de fazer fluir a circulação capitalista, simplesmente, porque ninguém acredita em ninguém, sabendo que todos estão falidos e mentindo uns para os outros, batendo às portas do governo por socorro.

Somente o governo, como poder institucional que se sobrepõe, subjetivamente, sobre as categorias sociais em conflito pela renda que se perdeu na crise, seria capaz de reiniciar o jogo, distribuindo bolas para os agentes econômicos, enquanto, por pressão social, política e econômica, vai entrando, mediante emissão monetária, no capital dos bancos privados, a fim de reanimá-los.

Emerge situação qualitativamente diferente na gestão do Banco Central dos Estados Unidos, em face do avanço financeiro estatal no campo econômico, para reanimar o crédito. Antes, o tesouro americano emitia os títulos da dívida pública que os bancos privados compravam com o dólar emitido por eles. A emissão de dinheiro não é atributo do tesouro, mas dos banqueiros privados. Kennedy tentou reverter essa situação. Acabou assassinado. Lindon Johnson, ao assumir, reverter a medida Entretanto, com a crise atual, os banqueiros , perdidos na alavancagem exagerada da sua base de crédito, passam a depender do tesouro, que entra na circulação dos bancos privados, cobrando o pedágio expresso em maior participação acionária do Estado no capital privado.

Tal mecanismo, forjado pela crise, torna-se única forma capaz de permitir ao governo americano encaminhar solução para os créditos podres que impedem abertura de novos horizontes para o capitalismo americano e mundial. Como a absorção da montanha de dinheiro especulativo não poderá ser feita de uma vez só, pois implicaria em implosão inflacionária global do tesouro tanto americano como dos demais países capitalistas, a jogada seria flexibilizar no tempo a renegociação do papagaio financeiro. 

Renegociar – moratoriamente – é preciso. Adam Smtih, em “A riqueza das nações”, é claro: dívida pública não se paga, renegocia. A capacidade de o tesouro americano endividar-se, seguindo o remédio keynesiano, expresso no avanço dos gastos governamentasis, dependeria, fundamentalmente, da moratória. O que era problema, alardeado como calote, pelos analistas em geral, pode representar solução.

 

MacCaim emplaca proposta

A moratória tende a avançar, nas próximas semanas, como forma de impedir a expansão do desemprego. São 11 milhões de demitidos, nos Estados Unidos. No Brasil, somente, em dezembro, foram 650 mil para o olho da rua. Na Europa, a Alemanha prevê 2009 como pior do que 1949, no pós-guerra. No Chile, que depende da exportação de cobre, a miséria emergiu violentamente, com quebradeira impressionante no comércio. A China está em rítmo cada vez mais lento, sinalizando explosões sociais que implodiriam o sistema misto de socialismo-capitalismo-ditatorial etc. As negociações entre empresas e sindicatos tendem à explosão política ideológica.

A solução de renegociação geral, que se expressaria em ação governamental via moratória, foi, aliás, proposta, em campanha eleitoral, pelo adversário de Barack Obama, o republicano John MacCain. Ele perdeu a batalha eleitoral, mas pode ganhar a guerra. Disse que não haveria outra saída, senão o perdão da dívida dos mutuários que não poderão pagar. Sem condições para tal, os bancos que os financiaram ficaram na mesma situação, ou seja, com dinheiro no caixa que não tem nenhum valor porque a garantia, as casas, foi perdida com a violenta queda dos preços especulativos.

A tarefa do governo Obama seria, fundamentalmente, restituir a interrompida confiança na relação creditícia entre vendedor e comprador, não porque as duas partes tenham entrado em conflito intransponível. Pelo contrário. A culpa não é deles, mas do sistema financeiro, que extrapolou às regras para fazer negócios fictícios, cuja durabilidade se extinguiu na derrocada do mercado imobiliário.

O presidente americano ficou numa sinuca de bico. Ou programa rapidamente a moratória, com a autoridade do Estado, tornando-se oligopólio financeiro, para tirar do atoleiro o oligopólio financeiro privado, limpando seus passivos entupidos pelos “junks bonds”, títulos podres, ou poderá enfrentar corrida bancária. A necessidade urgente de socorrer, há uma semana, o maior banco americano, o Citibank, de falência irremediável teria que ser repetida, sucessivamente, pois a banca privada, como destaca o economista americano Nouriel Roubini, está, literalmente, falida. Sobrevive como mera representação aparente sob amparo indispensável do governo.

Como o governo precisará, não apenas de desbloquear o crédito interrompido, mas, também, de elevar os gastos governamentais para puxar a demanda global, visto que o setor privado perdeu força para executar tal tarefa, se não remover os títulos podres, jogando seu resgate para as calendas, não teria a menor condições de cumprir o papel que a sociedade dele espera no momento de estresse total da crise mundial. 

A necessidade de continuar se endividando, como prega o economista Paul Krugman, prêmio nobel de economia 2008, significa , igualmente, a necessidade de ir esticando, não apenas o novo endividamento, mas, também, o antigo, expresso nos créditos podres, algo somente possível mediante moratória, expressa no avanço do poder financeiro estatal no capital dos bancos privados falidos.

A estatização bancária em marcha – o estado como sócio da banca privada, como emergência de uma grande parceria público privada financeira(PPP) – vai se transformando no maior acontecimento econômico do século 21.

 

Lula-Sarney, dobradinha na crise

O presidente Lula, que já percebeu que não haverá outra saída, senão essa, pois os grandes bancos privados, que ele convocou para ajudá-lo, na salvação dos bancos privados pequenos, fugiram da raia, agiu, durante a semana, ainda mais agressivamente. Injetou, ou seja, emitiu dinheiro, R$ 100 bilhões para engordar o caixa do BNDES, a alavanca da industrialização nacional. 

Ao mesmo tempo, passou a pressionar os bancos públicos a baixarem os juros, a fim de forçar os bancos privados a fazerem o mesmo,depois que levou o Banco Central a reduzir a selic de 13,75% para 12,75%. Oligopolização financeira estatal, igualmente, forçando a ação da oligopolização financeira privada no mesmo sentido.

Nesse rítmo, estariam em cogitações outras estatizações, como produto natural de um novo processo em marcha, no campo dos seguros, podendo, inclusive, reverter privatizações, casos as empresas privatizadas vêem bater à porta do governo para pedir socorro, como chegam as do setor privado. 

É o caso, ocorrido durante a semana, da fusão entre a Votorantim e a Aracruz Celulose, com dinheiro do BNDES, o hospital estatal-empresarial. 

O titular do Planalto não vive mais a bonança internacional que permitiu à economia brasileira, incrementada no mercado interno, graças aos investimentos sociais lulistas, registrar taxa de desemprego recorde de 6,8%, segundo o IBGE. Sem o Estado botando para quebrar nos gastos, o desemprego poderia subir para 20%, rapidamente. 

Ficaria impossível manter o PAC e a candidatura da ministra Dilma Rousseff. 

Lula poderia ficar, isso sim, prisioneiro do novo jogo político que vai se formando, com a emergência do PMDB, dominando totalmente, o Congresso, colocando, possivelmente, o ex-presidente José Sarney, na prática, como primeiro ministro, para compartilhar o poder com Lula, caso vença eleições no Senado. 

 

Ressurreição de Adam Smith

Vai ficando evidente que o jogo econômico global dependerá das soluções dadas por dois grandes economistas ingleses dos séculos 19 e 20. 

No século 19, Adam Smith, autor de “A riqueza das nações”, profetizou que dívida pública não se paga, renegocia. No século 20, John Maynards Keynes destacou que o livre mercado sendo incapaz de puxar a demanda global capitalista, necessitaria do endividamento público, como fator propulsionador do consumo, incapaz de ser mantido, apenas, pela ganância privada. 

A solução keynesiana foi adotada no século passado à larga, em maior escala pela maior economia – de guerra – do mundo, os Estados Unidos. O limite foi alcançado pelos déficits acumulados que geraram excessiva alavancagem financeira privada de forma totalmente desregulamentada. 

A contiuidade do remédio keynesiano, que virou veneno, somente seria possível com a ressurreição de Adam Smith. Sua recomendação seria a renegociação da dívida, para reiniciar o jogo capitalista, visto que a dívida pública, keynesiana, acumulada e transformada, atualmente, em créditos podres, em várias escalas, obstaculiza a continuidade da reprodução capitalista. 

Afinal, segundo ele, não se paga, renegocia, sempre, o débito público, esticando os prazos e flexibilizando as proporções entre dívida e PIB, para manter a moeda relativamente estável. 

Sem a solução smithiana, não poderia ocorrer a recomendação keynesiana de Paul Krugman. Sem o remédio de Adam Smith, a capacidade de sobrevivência dos governos capitalistas ocidentais ficaria seriamente comprometida. Obama perderia, rapidamente, seu capital político, se fosse atacado por uma corrida bancária, em meio à explosão do desemprego e da falta de expectativa dos agentes econômicos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Quando ler jornal faz mal ao fígado…

                                      

      “Eu não preciso ler jornais,

 

mentir sozinho eu sou capaz”                                                                                                                  Raul Seixas    

Ao declarar à Revista Piauí  de janeiro que não lia jornal porque sofre de azia, Lula talvez tenha deixado muitos jornalistas perplexos e desapontados . E também intelectuais inconformados .   Roberto Damatta,  por exemplo, reagiu num típico “pito acadêmico” proclamando em artigo publicado no Estadão  que  não se pode ter discernimento da realidade sem a leitura , mas parece tomar uma crítica informal de Lula a um certo jornalismo como se fosse uma aversão à leitura em geral. Ao repreender Lula  porque este parece “estar seguro de que é mesmo possível saber das coisas por tabela e em segunda mão, por meio de olhos alheios”,   Damatta  talvez polemize mais com Schopenhauer do que com  o presidente . O célebre filósofo alemão também já havia causado muita celeuma,  há mais de século  ,  quando levantou dúvidas acerca da possibilidade de uma correta compreensão da realidade unicamente a partir da leitura, pondo em dúvida  a qualidade dos textos, inclusive nos jornais.  Questionando aqueles que absolutizam a leitura, Schopenhauer afirma que “assim como a leitura,  a mera  experiência  não pode substituir o pensamento” . E para aqueles, como Damatta, que deploram os que não lêem e porque aprenderiam por tabela, o pensador germânico  sustenta ainda que “um livro nunca pode ser mais do que a impressão dos pensamentos do autor”, alertando que “quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar” e que, “a nossa cabeça é, durante a leitura, uma arena de pensamentos alheios”.  Citá-lo, não significa defender suas posições históricas, mas adicionar elementos na polêmica atual, quando vivemos na “idade mídia”, sob intenso dilúvio informativocom variadas possibilidades de informação.   
Pensamento livre 
A celeuma levanta também reflexões interessantes, não só comentários injustos , já que Lula não fez nenhuma apologia da não-leitura, fez uma crítica ao jornalismo atual. E o fez ao seu modo, com um raciocínio nada convencional, porque é o raciocínio simples e direto sintonizado e compreendido pela grande massa da população que durante toda uma vida também foi praticamente proibida da leitura. Assim, poderíamos partir do princípio afirmando que,  tal como a esmagadora maioria do povo brasileiro, o presidente Lula também não lê jornal.  E confessa. As razões são múltiplas e até diferentes em cada caso.    O argumento de que não pode haver discernimento da realidade sem a leitura também pode conter uma injusta soberba acadêmica para com esta  grande maioria de brasileiros  hoje  ainda  proibida da leitura de jornais  e livros , por razões fundamentalmente sócio-econômicas. É injusta porque ignora ou despreza outras modalidades de discernimento, interpretação e ação transformadora das grandes massas sobre esta mesma realidade. Segundo estatísticas da UNESCO, talvez não sejam as mais atuais, a taxa de leitura de jornais e revistas no Brasil é inferior à da Bolívia, país mais pobre da América do Sul, mas que acaba de  realizar uma façanha que exige reconhecimento de todos nós: a Bolívia foi declarada no dia 20 de dezembro último, pela mesma UNESCO, “Território Livre do Analfabetismo”. Segundo a Agência da ONU, enquanto no Brasil são lidos  apenas  27 exemplares de jornais ou revistas  por  cada grupo de 1 mil leitores ;     na Bolívia, são 29 exemplares. Talvez  o que  devesse merecer mais a preocupação da academia  é o fenômeno da leitura-proibida, um  sistema que torna  difícil   acesso dos brasileiros à leitura, que não educa leitores, que não democratiza livros,  ao invés de uma quase indignada/desconcertada reação diante da evidente crítica feita pelo  presidente Lula à qualidade do jornalismo praticado no Brasil.    Será que a informalidade da crítica de Lula  –    preciosa característica do presidente, sobretudo quando a cultiva no exercício do cargo   –    a um certo  jornalismo que já chegou a entrar de modo desrespeitoso e arrasador  na vida pessoal e familiar do presidente em sua primeira campanha, ao mesmo tempo que preservou obedientemente outros presidentes do mesmo desconforto, não tem razão de ser?  Estaria, afinal, acima de críticas, um jornalismo que tem reiteradamente operado mais como desinformação  da  sociedade do que como a  instrumento de comunicação social tal como estabelecido pela Constituição Federal?
Ouça um bom conselho
                                                                                                                                                            
Tomemos alguns casos recentes de “jornalismo que faz mal ao fígado”, alguns já argumentados pelo próprio presidente ,  para alargarmos este debate. 1) Quando o governo brasileiro propôs à Unasul, em sua primeira reunião, a formação de um Conselho de Defesa Sul-americano, praticamente todos os jornais estamparam,   com fartura,  que a proposta havia sido derrotada, rejeitada, um fiasco afinal. Pouco tempo depois,  a proposta do Conselho, debatida e examinada  com tempo pelos governos, foi oficialmente  aprovada  e é uma hoje uma realidade. Mais do que isso, tem a importância histórica de  ser uma entidade sem a presença dos EUA que sempre tutelaram a região com ferro e fogo das ditaduras, mas também de representar um esforço coordenado de recuperação da indústria bélica regional, com a relevância intrínseca   –  ainda mais destacada por vivermos num mundo de sombras, tensões e violência  –  de promover independência tecnológica setorial.  Afinal, um país sem defesa não tem soberania! Será que os jornais que manchetaram “o fracasso do Conselho”, estariam agora dispostos a confessar seu equívoco e reavaliar a informação defeituosa que difundiram ? E a esclarecer ,  com informações verazes,  o significado de reorientação     estratégica que a nova entidade tem , sobretudo  quando os países emergentes foram praticamente obrigados a aceitar a demolição de suas políticas de defesa e de suas indústrias bélicas? Alguém sabe informar se o Procon também cuida de informação com defeito???                                                                    
A fazenda que não foi vendida…. 
Um segundo caso, diz respeito também à família do presidente, sempre alvo de comentários preconceituosos, como de resto os que se lançam também contra o presidente Evo Morales, por ser indígena, ou ao presidente Hugo Chávez, por suas características  étnicas  e sua origem militar. Refiro-me à  “notícia”  de suposta compra de uma grande fazenda por um dos filhos do presidente Lula.  Até mesmo o portal da Central de Mídia Independente reproduziu a suposta transação, acompanhada  de  inúmeros comentários insultantes e ofensivos ao presidente Lula. E mesmo depois que numa pequeníssima nota da Agência Estado o proprietário da referida fazenda esclarecia que já estava cansado de atender jornalistas ao telefone e desmentir cabalmente que tenha vendido o imóvel para o filho do presidente ou para qualquer outro,  mesmo assim, nem a Central de Mídia Independente dignou-se a corrigir seu erro de difundir versões de um “jornalismo que faz mal para o fígado”, mantendo até bem pouco tempo  no portal ,  a falsa notícia da compra da fazenda e  a mesma  coleção de insultos ao presidente, nem os outros veículos cuidaram de divulgar as declarações do verdadeiro proprietário do imóvel desmentindo a transação. Qual o nome que deve ser dado a este “jornalismo”? Ou melhor, será isto jornalismo? Mas que dá azia… isso dá.                                                             Onde estão os profetas do calote?   Mais recentemente, o Globo estampou em primeira página manchete sobre a preparação de um calote do Equador contra o Brasil, insinuando que até mesmo funcionária da Receita Federal brasileira havia sido cedida para trabalhar nesta operação cujo intuito seria  o de evitar  que os financiamentos feitos pelo BNDES ao país andino fossem saldados. Gravíssima acusação: o governo cederia uma funcionária para preparar calote contra si. Mas,  o jornal não publicou o pedido de direito de resposta da funcionária da Receita informando objetivamente que não tinha prestado qualquer consultoria técnica relativa a financiamentos brasileiros ao Equador, mas sim à Auditoria da Dívida Privada que está curso naquele país,  uma decisão de estado inscrita na Constituição, tal como consta das Disposições Transitórias de nossa Constituição a realização de uma auditoria da dívida. No fundo, este é o temor dos banqueiros refletido por este jornalismo que dá azia, um jornalismo que cuida de preservar os indecentes privilégios que o setor financeiro tem no mundo da economia da especulação que despreza o valor do trabalho, transformando o sistema bancário mundial numa bancocracia ou  verdadeiro cassino, como também lembrou o presidente. Há quanto tempo não temos um presidente que chama as coisas pelo verdadeiro nome!!!! Pois bem,  especulou-se no jornal, depois no rádio, depois na tv, sobre o calote equatoriano ao Brasil, o jornalismo aziago teve todo o espaço do mundo, consultores ligados aos bancos foram hiper-entrevistados, repetiram-se, anunciaram o caos. Mas, quando na semana que passou o Governo Equatoriano pagou a parcela de 243 milhões de dólares da dívida para com o BNDES os profetas do calote se calaram, os consultores desapareceram e o Globo não  informou aos seus leitores,  com a mesma importância que havia dado inicialmente ao tema, que não houve calote.  Eis aqui um exemplo de como a leitura de jornal também pode não conduzir a um correto discernimento da realidade….   
Jornalismo da desintegração
Muitos exemplos justificam  uma maior reflexão e elaboração sobre o que vem a ser um jornalismo de desintegração, aquele que desconsidera ou não informa sobre a implementação de medidas reais, de estado, visando a integração regional latino-americana. A este jornalismo da desintegração, que também pode causar azia, que decreta editorialmente que a integração é apenas retórica diletante do Itamaraty, deve-se contrapor com um jornalismo de integração, ainda por ser elaborado, mas que tem como sustentação teórica, histórica e política nada menos que a Constituição na qual está consolidado que a construção de uma integração latino-americana baseada na solidariedade, na economia, na cultura, na informação é um objetivo da República Federativa do Brasil. Claro, o jornalismo que faz mal ao fígado prefere apenas cultuar e por em prática o artigo 166 da Constituição, aquele que sacraliza a gastança com os serviços da dívida, tornando-os mais importante do que merenda escolar, saúde pública, habitação popular, previdência social etc. Contra esta gastança, esta verdadeira esterilização de recursos públicos nos juros da dívida, o jornalismo aziago nada informa. Quando o Brasil realizou com sucesso o teste do Veículo Lançador de Satélites, em dezembro, a mídia não noticiou, ignorando a dimensão deste fato quando apenas um clube fechado de países tem acesso ao mundo  da estratégica economia satelital. Tal como ignorou quando a Venezuela recentemente lançou o satélite Simon Bolívar, preferindo ironizar que Chávez tenha declarado que é um satélite socialista. Sim, será colocado à disposição de países pobres para a cooperação, onde que cabe a ironia? Ambos os casos são de avanço da independência tecnológica.    
Preconceito acadêmico tupiniquim
Aliás, foi necessário um “presidente que não lê”, conforme define o acadêmico Damatta, para que o idioma espanhol tenha se transformado em matéria obrigatória nas escolas básicas brasileiras, com indiscutível impulso à integração latino-americana, como também para que o Brasil assumisse a construção da Unila (Universidade da Integração Latina-Americana), assim como a Universidade da África, em Redenção, cidade cearense pioneira na abolição da escravatura. Mas, para o jornalismo da desintegração tudo isto é apenas retórica itamarateca terceiro-mundista. Até mesmo a retirada do dólar nas operações comerciais Brasil-Argentina, a cooperação entre os dois vizinhos na construção de um carro de combate, na indústria aeronáutica e na esfera nuclear, ou a participação brasileira na construção de um gasoduto na argentina, ou nas obras de infra-estrutura no Peru e Bolívia, na construção da estrada que ligará finalmente o Atlântico ao Oceano, a presença da Embrapa na Venezuela ou no Timor Leste, da Petrobrás em Cuba tudo isto, apenas retórica,  farta-se de repetir o jornalismo que faz mal ao fígado. Mas,  quando aquele chanceler de sobrenome judeu tirou o sapato ante as ordens de um guardinha da alfândega dos EUA, este mesmo  jornalismo tangenciou a simbologia do gesto. Como qualificar? Vocação para a vassalagem???   Muito ainda precisa ser feito para que o Brasil supere seus níveis indigentes de leitura, sobretudo no campo das políticas públicas. É motivo de preocupação a monopolização do setor editorial, sobretudo a do livro didático, bem como sua desnacionalização e controle por  editoras  estrangeiras muito próximas da Opus Dei. Mas, são salutares e devem ser expandidas fortemente as políticas públicas já implementadas pelo governo Lula e governos como o do Paraná para assegurar o livro didático público e gratuito aos milhões. Estamos na era das mudanças e na mudança de eras também quando o país mais pobre da América do Sul, a Bolívia, consegue extirpar a praga do analfabetismo ou quando a Venezuela, também declarada território livre do analfabetismo pelo Unesco, distribui gratuitamente 1 milhão de exemplares do livro “Dom Quixote”  de Cervantes, de “Os miseráveis” de Vitor Hugo, de “Contos”, de Machado de Assis, este com uma distribuição gratuita de 300 mil exemplares. Basta informar que a tiragem padrão de livros no Brasil é de apenas 3 mil exemplares.  Segundo a Unesco, Cuba chegou a publicar em 1986, 480 milhões de exemplares de livros num ano, quando sua população era de apenas 10 milhões de habitantes. Ainda temos muito que aprender, muito por fazer nesta área.
A dialética do retirante
Mas, esta dívida informativo-cultural despejada pelas elites sobre o povo brasileiro, proibindo-o da leitura, não deve ser mecanicamente dimensionada como um obstáculo intransponível para que os milhões e milhões que não lêem jornal ou qualquer coisa não tenham um discernimento adequado da realidade. Talvez não tenham o  “discernimento”  que segmentos das elites, econômica ou cultural, gostariam que o povo tivesse, sobretudo para uma escolha eleitoral sintonizada  à linha editorial do jornalismo que faz mal ao fígado. Realmente, a maioria do povo, tal como o presidente Lula na sua dialética de retirante, foram obrigados a desenvolver uma interpretação realista do mundo para salvar a própria vida. Lula declarou recentemente que quando um nordestino que nem ele consegue vencer a pena de morte da elevada taxa de mortalidade infantil no nordeste “torna-se um encrenqueiro”. Para os que admiram o fato de que ele tenha levado 13 dias de viagem num pau-de-arara para ir de Garanhuns a São Paulo,  dormindo ao relento  e cozinhando com as águas barrentas do Velho Chico, ele lembrou que seus tios, que também não liam jornal, já tinham feito o mesmo percurso, mas em seis meses, porque o fizeram a pé!!!! São atos heróicos que apontam para uma outra leitura do mundo, a partir da dialética do retirante, tão capaz de permitir um real discernimento da vida como capaz de permitir que salvassem suas próprias vidas e permitindo-lhes  progredir na  mobilidade social, superar os estágios de sobrevivência vegetativa quase animalesca a que estavam condenados no nordeste sem água, sem terra, sem trabalho e sem nada!!!  E sem jornal para ler….             Talvez alguns círculos acadêmicos irritem-se ainda mais com esta abordagem e a condenem como elogio à não-leitura. Mas,  o que se trata de argumentar aqui é que  para aqueles  milhões de brasileiros condenados à não-leitura , por razões do elitismo sócio-econômico   não há outra saída que inventar uma forma nova de  ler  o mundo, de  caminhar  na vida, de discernir sim a realidade e de  uma  forma tão eficiente que  lhes  permitiu, no caso de Lula, sair da indigência do sertão ,  preparar-se si próprio para escapar da pena de morte da fome, preparar coletivamente a classe trabalhadora para fazer política, construir instrumentos como o PT e a CUT para que viabilizar o protagonismo dos próprios trabalhadores na política  e alcançar a Presidência da República. E o fez não exatamente a partir da leitura de jornal, mas informando-se profundamente sobre o funcionamento da sociedade.  Afinal, nem sempre ler jornal é informar-se.  Em muitos casos, como vimos acima, é exatamente o contrário. A provocação de Schopenhauer ainda está bailando por aí. E ele acrescenta: “há eruditos que ficam burros de tanto ler”.           
 O rentista e o faxineiro
 
Episódio saboroso para refletirmos é o caso Maldof, quando o mega-especulador, ex-presidente da Bolsa Nasdaq, baseada em sua credibilidade neste mundo da economia virtual, arquitetou uma fraude de 50 bilhões de dólares que lesou também rentistas brasileiros. Esta  minoria de brasileiros, experimentados na arte de ganhar dinheiro sem produzir um prego ou sem mesmo trabalhar, escolados na evasão de divisas para paraísos fiscais, provavelmente não imaginassem que um dos seus ícones do mundo financista os lesaria. Pois bem, nem toda a leitura do mundo, ou talvez tenha sido exatamente excesso de certa leitura,  salvou-os do rombo. Talvez não tivessem o correto discernimento de que a economia especulativa era insustentável, que o castelo de cartas ia cair e continua caindo….. Enquanto os poucos rentistas que evadem divisas para o exterior estão sendo lesados por “profissionais” mais experimentados, o faxineiro do Aeroporto de Brasília, que achou um envelope de milhares de dólares no lixo e o devolveu ao dono, nos oferece um fortíssimo exemplo para reflexão. Ele, que também não lê jornais, tem uma leitura do mundo, um discernimento da realidade, que o leva a ser ético, limpo e honesto, com o dinheiro alheio, a despeito da avalanche de exemplos negativos que recebe das elites, sobretudo de financistas.   Montanhas de preconceitos elitistas também foram despejadas contra Evo Morales, o valente presidente  de uma Bolívia que sai das trevas do neoliberalismo. Pois, poucos sabem que Evo viveu quando criança em Tucumã, na Argentina, onde sua família tentou sobreviver trabalhando no corte de cana. E o menino Evo também foi reprovado na escola primária argentina, com um veredicto que deveria ser  amplamente discutido hoje: os pedagogos argentinos chegaram à conclusão que Evo era inapto para o mundo letrado. Um condenação que não levava em consideração sua condição de indígena, sua noção de tempo, sua postura frente a natureza, seu comportamento destoante das relações sociais de uma sociedade consumista e individualista, as dificuldades para pensar e escrever no idioma espanhol que não era o seu idioma originário, a carga do preconceito e humilhações que sofreu por parte de seus colegas não-indígenas…. Hoje, o menino que havia sido condenado como incapaz para o letramento é o presidente da república da Bolívia e foi o mandatário que transformou a economia mais débil da América do Sul em “Território Livre do Analfabetismo”!!! Como então afirmar soberbamente, de modo absoluto e mecânico, sem considerar as dialéticas do retirante Lula e do indígena Evo, que sem leitura é impossível haver o discernimento da realidade??? Aliás, o próprio método de alfabetização cubano, aplicado na Venezuela, na Bolívia, em indígenas da Nova Zelândia ou no Haiti, considera que os educandos já têm acesso a um conjunto de informações que vão decodificando deste mundo complexo da idade-mídia, têm uma capacidade de discernimento sim, razão pela qual é possível reduzir drásticamente o tempo de alfabetização, sendo o tempo, segundo Marx, “matéria prima mais preciosa da humanidade”.
Jornalismo público e cidadão
                                                                                                                                                                   
Foi exatamente o presidente que teve menos acesso à leitura o que teve a grande sensibilidade  de ver que boa parte da programação da televisão brasileira é simplesmente degradante, embrutecedora, animalizante. E criou a TV Brasil, que enfrenta seus desafios para expandir-se, consolidar-se, qualificar-se e caminha positivamente, saldando um pouco daquela imensa dívida informativo-cultural que despejou contra os brasileiros, sobre aqueles proibidos da leitura. Foi ainda o presidente que não lê que trouxe de volta, para o bem estar da civilização, o ensino obrigatório da música e da filosofia nas escolas, abolido antes por presidentes que devoravam livros e… também direitos humanos. Villa-Lobos e Sócrates agradecem.   Enquanto isto, dos rigorosos críticos da academia, jamais se ouviu um queixume sobre, por exemplo, o fato da própria Constituição de 1988, não ser acessível ao povo, não só materialmente, mas também na sua linguagem, bastante incompreensível para a grande maioria proibida da leitura. No entanto, apesar do povo jamais ter tido acesso à Constituição, há uma lei que estabelece que o conhecimento das leis é obrigatório pelo cidadão, que a ninguém é dado o direito de desconhecer a lei. Enquanto o presidente que não crê está criando instrumentos para reduzir o desequilíbrio informativo no país, além de expandir a universidade pública e multiplicar os institutos tecnológicos, ainda não se ouviu da academia uma proposta concreta para reverter este absurdo de termos uma Constituição desconhecida, de conhecimento exigido a todo um povo que não pode lê-la.    Quem sabe não é chegada   a hora, diante de tantas identidades entre Lula e Evo, que a decisão do presidente da Bolívia de criar um jornal público a ser editado aos milhões, com distribuição gratuita ou acessível às grandes massas pobres bolivianas, que agora já sabem ler, fosse também implementada aqui no Brasil? Sempre lembrando que o Brasil tem a maior economia da região, tem uma capacidade ociosa crônica de 50 por cento em sua indústria gráfica, ao mesmo tempo em  que tem um povo tem qualquer acesso a jornal. É bem provável que os círculos acadêmicos que tentaram identificar uma crítica de Lula a um certo tipo de jornalismo como uma elegia à não-leitura não tenham agora razões para não apoiar a estruturação de um jornal popular público, de distribuição gratuita e  massiva, aos milhões e milhões, aproveitando esta indústria gráfica semi-paralisada e os contingentes de  jornalistas e escritores desempregados e sem onde escrever. Ao criar a Voz do Brasil, Vargas permitiu que milhões de brasileiros sem acesso a jornal e não alfabetizados tivessem acesso a informações, sobretudo alguma presença dos poderes públicos nos grotões, numa verdadeira ação radiofônica de integração nacional. Como sabemos, ainda hoje, a Voz do Brasil é a única fonte de acesso de milhões de brasileiros espalhados por todos os grotões sociais, e que não lêem jornais, a informações que a maioria das rádios não difunde, a não ser naquele horário obrigatório. Eis porque a ditadura midiático-financeira trabalha para eliminar a Voz do Brasil.   Não será hora também de se criar um jornal público, popular e gratuito, livre do controle editorial da bancocracia, considerando que o mercado, por si só, dificilmente resolverá o problema de eliminar as várias proibições sócio-econômicas à leitura ainda vigentes? Obstáculos á democratização da leitura de jornal sempre haverá. Monteiro Lobato nos conta um deles. Quando, na década de 40 procurou os poderosos proprietários de um dos maiores jornais paulistas, propondo-lhes que este diário se engajasse numa campanha para erradicar o analfabetismo, obteve uma resposta desconcertante, mas sociologicamente auto-explicativa. “Ô |Monteiro, mas se todos aprenderem a ler, quem é que vai trabalhar na enxada???”  Estamos em plena mudança de eras. Aquele que, para oligarquia midiática , deveria estar na enxada,  está no Palácio do Planalto.  Não lê jornal, mas é dos brasileiros mais bem informado.  
Beto Almeida Presidente da TV Comunitária de Brasília

 

Obama impedido de repetir Roosevelt

O sonho da economia global, nesse momento, é que Barack Obama, que promete mudar com o mundo que mudou, se transforme em Frank Delano Roosevelt.
 
O presidente democrata , diante da crise de 1929, puxou a demanda global com gastos em programas sociais, entre 1933 e 1936, e em seguida, a partir de 1938/39, em guerra, para tirar o capitalismo do crash, à moda keynesiana. O déficit americano, em 1946, chegou a 144% do PIB.
 
A opção pela política monetária ativa em substituição ao velho padrão ouro do século 19, que fixava regras rígidas, para ditar o fluxo de moeda, a fim de controlar deficit de balanço de pagamento dos governos, colocou a economia americana na vanguarda do desenvolvimento econômico global, sob comando do dólar. A moeda americana já dava as cartas depois da primeira guerra mundial e tornou-se soberana depois da segunda grande guerra.
 
A esperança de que Obama faça a mesma jogada de Roosevelt, expandindo os gastos públicos – não necessariamente em guerras, mas em outras demandas estatais a serem descobertas, quem sabe jogar dinheiro pela janela ou ampliar os investimentos inflacionários no espaço etc, porque guerra virou opção incompatível com a nova pregação multilateral obamiana – , implicaria conjugá-la em dois momentos históricos distintos.
 
A distinção é matematicamente simples. Nos anos pós-guerra, a saúde da economia americana era uma, mais potente, viril. Não haveria déficit, mas superavit, além de ampla confiança na moeda. Agora, não há superavit, mas déficit, enquanto a confiança na moeda periclita. No início do século 21, depois de tantas guerras e desgastes, geradores de déficits, que levaram o capitalismo para a jogatina financeira suicida como fator de reprodução do capital, o fôlego não é mais o mesmo.
 

Tio Sam precisa de viagra

Se Roosevelt poderia fazer o que fez, sem precisar de viagra, porque eram mais que suficientes, para tanto, a juventude, a energia e a potência americana no pós-guerra, que estabeleceu a divisão internacional do trabalho sob controle do dólar, Obama, ao contrário, não estaria com essa bola toda.
Depois de tantos déficites acumulados ao longo de mais de sessenta anos, Tio Sam precisaria de uma injeção de potência cavalar. Poderia ser fatal , sabendo que estado do carro é precário, com lataria estourada em cima de pneus totalmente carecas. Essa é a diferença substancial entre Obama e Roosevelt.
 
Sob Roosevelt, Tio Sam, no pós-guerra, era a grande potencia mundial. Sob Obama, seis décadas depois, envelhecido, corcunda, adiposo, asmático, sexualmente baleado e enfartado – como se encontra nesse momento, no auge da crise capitalista – , o titio precisa de ajuda do Boston Medical Group.
 
Enfim, Roosevelt ergueu o que viria a ser o unilateralismo econômico americano ao longo do século 20. Obama não aguentaria essa barra. Terá que optar pelo multilateralismo, como anuncia Hillary Clinton, Secretária de Estado do novo governo. Os deficits acumulados criaram os limites expressos pela desconfiança do mercado na capacidade de endividamento do tesouro americano. 
 
 

Bancarrota à vista

Nas próximas semanas, podem quebrar mais bancos nos Estados Unidos. Haveria necessidade urgente de novos socorros estatais, levando a uma completa estatização bancária dos grandes segmentos de crédito. A era da dominação dos bancos privados dando orientação ao FED, banco central americano, como ocorre desde 1913, quando foi criado, pode estar chegando ao fim.
Pode fragilizar a posição dos bancos, no compasso da bancarrota, impulsionada pelos créditos podres, principalmente, se o fôlego do governo para absorvê-los não for suficiente, levando o mercado a uma corrida especulativa.
Os próximos anúncios de contabilidades bancárias atuarão como terremotos, mostrando o tamanho fenomenal dos créditos podres irresgatáveis. O governo estaria diante de dois pólos: de um lado, os bancos pedindo socorro; de outro , a população criticando os privilégios concedidos aos bancos por meio de emissão monetária estatal salvacionista com o suor da comunidade.
Opção radical nesse sentido baixaria imediatamente o capital político inicial de Barack Obama. Correria esse risco perigoso para salvar os especuladores, vistos criticamente pelo povo americano?
Se houver percepção aguda pela sociedade de que o buraco sem fundo exigirá empobrecimento social relativo para salvar os bancos, pode emergir pressão política contrária à continuidade de medidas salvacionistas no Congresso.
 
 

Teste para democracia americana

O debate democrático, no ambiente economicamente caótico, tenderia a chocar com os fatos contingentes que exigem pressa e põem pressão incensante, estressante, politicamente, explosiva.
A complexidade do novo contexto em que vive a economia exige decisões rápidas, mas as respostas, em ambiente democrático, não vêm com a velocidade requerida pela situação contingencialmente explosiva. Vem aos poucos, no compasso dos antagonismos sociais que permeiam o debate nacional a desembocar-se no Congresso.
Contradição em marcha que colocaria em teste a democracia americana. A marcha do processo deflacionário, mais ou menos intensa, seria o termômetro.
A agitação que a própria dinâmica produz implica representação econômica e política americana totalmente oposta àquela representação que vigorou no tempo de Frank Delano Roosevelt.
Sob Roosevelt, o capitalismo americano tinha futuro radioso pela frente; com Obama, a radiosidade futura é opacidade congestionante do presente que não deixa ver o horizonte com nitidez.
Os relatórios dos bancos centrais dando conta de crescimento entre zero e  1% dos EUA e Europa, em 2009, significa bola de neve.
 
Com Roosevelt, o dólar, que derrubava a libra e o capitalismo inglês, todo poderoso no século 19, tinha a confiança do mundo. Com Obama, o dólar torna-se a própria desconfiança do mundo.
Sem poder sacar contra o futuro, Obama, ao contrário de Roosevelt, que tinha o vigor e a juventude da moeda americana no pós guerra, tem que buscar aliados. O poder absoluto de Tio Sam se transformou em absolutamente relativo.
A relatividade cadente do poder americano inicia na Era Obama nova fase histórica mundial.
 

Tensões protecionistas balizarão dólar

As controvérsias levantadas pelo Congresso sobre a real capacidade financeira do tesouro para sustentar a demanda americana, que puxaria, por sua vez , a demanda global, evidenciam os limites da própria capacidade americana de exercer o velho papel de locomotiva econômica do mundo.
Um deficit gêmeo – fiscal e monetário  – da ordem de 6% do PIB, em meio à recessão global, representa barreira à ousadia monetária de Tio Sam. As palavras de Lawrence Summers, principal assessor econômico da Casa Branca, com Obama, são de alerta sobre a fragilidade e os limites das finanças americanas nesse momento. Tio Sam está baleado.
 
Por isso, as esperanças em Obama podem ser dissipadas, se predominar o comportamento protecionista da elite econômica americana que vigorou depois da primeira guerra mundial e da crise de 1929.
 
A novidade tende a ser a de que o livre comércio pode não ser mais totalmente interessante para a economia americana, se as grandes indústrias tentam recuperar mercado diante da avalanche de importações baratas, fortemente competitivas com a produção interna nos Estados Unidos.
O livre comércio era bancado pela capacidade infinita de endividamento do tesouro americano, para sustentar saldos comerciais positivos para os aliados e negativos para os EUA, sob o dólar-ouro.
A continuidade desse jogo, iniciado no pós guerra, está em questão. Para complicar, a emergência do desemprego eleva a taxa de nacionalismo econômico.
 
A rejeição relativa ao livre mercado, que deixaria de ser interessante para os Estados Unidos, financeiramente, falidos, sinalizaria, por sua vez, tensões cambiais a serem produzidas pelo acirramento da concorrência internacional, cuja expressão maior poderia ser desvalorizações aceleradas de moedas nas trocas comerciais globais, como fatores compensatórias.
Todos buscariam se salvar.

Construção abstrata, midiática

Todo o complexo econômico americano, sob o governo Obama, no ambiente da crise mundial em curso, desenha conjuntura qualitativamente oposta à que vigorou no tempo de Roosevelt, acrescentando dificuldades e não facilidades.
 
A força da economia americana em 2008, em termos de potencial de endividamento, mediante crença regeneradora do mercado financeiro, não é mais aquela do pós-segunda guerra mundial.
Não existe mais a ilimitada força propulsora de plena confiança dos aliados, que depositaram todas suas esperanças na economia americana para liderar o mundo.  
Um novo Bretton Woods, hoje, teria desfecho diametralmente oposto.
Em 1944, sob o dólar forte, inaugurava-se uma nova divisão internacional do trabalho, ditada pela força econômica dada pelos gastos governamentais em programas sociais e guerra. Em 2009, sob dólar fraco, ocorre o funeral daquela divisão, que abre discussão para novo modelo monetário global, enquanto Obama sinaliza diálogo pacífico.
O complexo industrial militar americano que Roosevelt ergueu depois do New Deal, para dinamizar a economia de guerra, como principal política anti-desemprego, vai berrar.
Ou seja, a aproximação tentada entre Obama e Roosevelt representa construção abstrata, midiática, salvacionista, que tem grandes chances de dar errado.
Tornaram-se estreitos os limites da capacidade de endividamento de Tio Sam e a confiança que ele desperta no mercado, estando abarrotado de dívidas, que levam o ativo americano – cercado de monumental quantia de créditos podres – a apresentar risco que assombra geral a economia mundial. 

Capacetes azuis em Gaza, urgente!

A partir da posição emitida pelo presidente Lula em ato público no dia 30 de dezembro, em Recife, declarando que “a ONU não tem coragem de intervir no conflito de Gaza porque não quer enfrentar os EUA”, tornou-se mais evidente a percepção de que  há conflitos de várias dimensões ou de várias categorias ceifando ´vidas pelo mundo afora. Em inúmeros outros conflitos registrou-se a intervenção de tropas de paz da ONU, os famosos capacetes azuis, mesmo que nem sempre estas intervenções tenham alcançado imediatamente o seu objetivo, mas, em muitos casos, permitiram condições que facilitassem a solução negociada e pacífica destes conflitos.
 
Para o senador Critovam Buarque (PDT-DF), que já presidiu a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, o governo brasileiro deveria tentar convencer as partes envolvidas da necessidade do envio de tropas de paz para o Oriente Médio. “Por que não não colocar soldados da ONU para preservar as fronteiras reconhecidas pelas Resoluções da entidade, ainda que sejam as fronteiras provisórias?”, indaga, lembrando que ali mesmo, na região do Sinai já houve a presença dos capacetes azuis, incluindo tropas brasileiras, que hoje encontram-se no Haiti, mas já estiveram em Angola, na Yugoslávia, detendo as ações armadas até que sejam encontradas soluções definitivas no campo diplomático.
 
O senador trabalhista tem avaliação positiva sobre as ações adotadas pela política externa brasileira sobre o conflito, mas lembra que há outras iniciativas a serem adotadas. Cita, por exemplo, o acordo firmado entre o Mercosul e Israel  que, segundo disse, é bem mais favorável a Israel do que acordo firmado entre este país  a União Européia , que não inclui nas relações comerciais os produtos fabricados nas regiões ocupadas por Israel mas que são direito palestino conforme as  Resoluções da ONU que preconizam o estabelecimento de dois estados naquela área.  Cristovam entende que este acordo firmado pelo Mercosul com Israel  constitui um erro que contradiz as próprias resoluções da ONU e que, segundo disse, pode perfeitamente ser corrigido tomando em consideração os critérios usados pela UE, que respeitam as resoluções da ONU.
 
 
O Embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim El Zebem, em entrevista concedida à TV Comunitária de Brasília, enfatizou que não existe guerra em Gaza e sim um genocídio. “Guerra é quando existe enfrentamento de dois estados, dois exércitos. Ali só há um estado e um exército, enquanto o povo palestino não dispõe nem de seu estado, nem de exército”. Zebem avaliou como muito acertadas as iniciativas do governo brasileiro que em nota oficial condenou o uso desproporcional da força e deplorou a incursão terrestre quando todo os países do mundo estavam apelando para o cessar-fogo. Para ele, o presidente Lula acertou quando afirmou que “de um lado estão os palestinos com um palito de fósforo e do outro os israelenses com um arsenal dos mais poderosos do mundo, inclusive atômico”.
 
 O Embaixador entende que hoje a causa palestina é cada vez mais conhecida do mundo todo, especialmente na América Latina, sobretudo, conforme frisou, pela nova realidade política de governos progressistas e populares na região. De fato, confirmando a análise do representante palestino, há poucos dias o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, expulsou o embaixador sionista em Caracas e denunciou que no golpe de estado de abril de 2002 a embaixada israelense conclamava o povo venezuelano a derrubar o governo constitucionalmente eleito. Mesmo assim, Zebem denunciou que alguns países sul americanos estão comprando armamentos israelenses, incluindo aviões sem pilotos, reservando ao direito de não informar que países seriam estes. ” Israel está fazendo um demonstração macabra de sua indústria bélica”, declarou, acrescentando que é exatamente em função do complexo militar industrial, sobretudo o norte-americano que se torna praticamente impossível alterar a posição dos EUa de vetar toda e qualquer resolução da ONU que tente parar os crimes cometidos pelo estado israelense. Zebem também destacou existir uma fortíssima vinculação entre a indústria bélica e os conglomerados de comunicação privados internacionais, que sempre atuam em favor das posições israelenses.
 
Enquanto praticamente todos os países do mundo apelam para um imediato cessar-fogo, para o levantamento do bloqueio israelense à Faixa de Gaza e pelo cumprimento das Resoluções da ONU, especialmente pela reconhecimento do direito ao Estado Palestino independente e autônomo, o encarregado de negócios  da Embaixada de Israel no Brasil afirmava que o Hamas é um grupo que não pode ser reconhecido, dando a entender que a ação militar destina-se a depor o governo do Hamas que foi eleito pelo voto direto dos palestinos. De fato, em nenhum documento oficial do governo israelense aparece o reconhecimento territorial histórico dos palestinos tal como deliberado pela ONU quando da criação do Estado de Israel. Encurralados em uma exígua faixa territorial do tamanho similar ao município de Guarulhos ou 16 vezes menor que o Distrito Federal mas com uma população de i milhão e meio de habitantes, os palestinos governados pelo Hamas se vêem numa situação de um gueto, tal como a vivida pelos judeus encurralados pelos nazistas no Gueto de Varsóvia, na Segunda Guerra, com uma enorme e trágica diferença:  enquanto o Gueto de Varsóvia não foi bombardeado, a Faixa de Gaza vem sendo submetida a bombardeios indiscriminados, o que, numa densidade populacional tão alta, significa bombardeio generalizado de população civil, com grande matança de crianças, inclusive a partir de armas condenadas pelas Convenções de Genebra, com as bombas de fósforo.
 
Assim, podem ser notadas enormes discordâncias entre as posições assumidas pelo Brasil e aquelas emitidas por Israel  para justificar está bárbara ação que não pode ser tipificada como uma guerra. Especialmente a partir da posição brasileira apresentada pelo chanceler Amorim em viagem a diversos países do Oriente Médio, inclusive ao governo israelense, reivindicando a inclusão do Hamas nas negociações oficiais. Os documentos oficiais israelenses afirmam ainda que suas ações militares não visam apenas a questão palestina mas também atingir o Irã. De fato, transpirou em setores da imprensa endinheirada norte-americana, em boa medida sob controle estrito do setor financeiro, que tem forte presença sionista, que Israel teria solicitado ao governo Bush autorização para atacar também as instalações nucleares iranianas, tendo recebido um desencorajamento por parte do governo que termina seu mandato como dos mais impopulares da história política dos EUA. Além disso, mais do que por prudência ou por sensatez –  aliás, o governo Bush demonstrou não ter nenhuma coisa nem outra  –   vale destacar o posicionamento político e militar da Rússia, cada vez mais presente em temas estratégicos internacionais. Medvedev além de enviar substantiva ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, gesto que foi acompanhado pelo Brasil e pela Venezuela, determinou a instalação de mísseis e anti-mísseis de última geração no Irã, atitude que foi avaliada pelos especialistas militares de várias posições ideológicas como de grande alcance, lembrando que se a Yugoslávia tivesse estas armas na década de noventa não teria sido submetida ao descomunal bombardeio da Otan, que destruiu boa parte de sua capacidade militar e sua infra-estrutura. Estes movimentos significativos no tabuleiro de xadrez mundial estariam a indicar que, se por um lado Israel, embora cada vez mais isolado, só se movimenta com esta ferocidade em razão da criminosa sustentação dos EUA, por outro, a aproximação de países como Rússia, China e Brasil do Irã, e, também a decisão do Irã de ingressar como membro associado da Alba, com expressivos investimentos para a industrialização da Venezuela, da Bolívia e da Nicarágua,  indicariam a conformação de um grupo de países que têm atuado com razoável sintonia e identidade, ainda que preservem suas diferenças políticas. Esta polarização de ser valorizada e apoiada pelas forças progressistas dos diversos países, pois representam uma política de isolamento dos EUA e de Israel, e uma  maior cooperação entre países e povos que estão preconizando um novo equilíbrio e novo desenho no mapa político internacional.
 
Beto Almeida
jornalista