Fusão para resistir à estatização lulista

Certamente, a fusão entre os dois mega-bancos, Itaú e Unibanco, está sendo estudada, como informam os noticiários, há 15 meses mais ou menos.

Um vai e vem que se conclui no calor dos acontecimentos dramáticos, determinados pela primeira grande crise monetária do século 21, responsável por colocar o capitalismo financeiro de joelhos no país capitalista mais poderoso da terra, os Estados Unidos, seguidos, de perto, em seus desatinos, pela Europa e, igualmente, pela Ásia e a América do Sul.

Ou seja, todos embarcados na grande Arca de Noé, furada pelas violentas especulações financeiras com papel podre, que impõem perigo de recessão mundial em escala jamais vista, desde a grande depressão de 1929.

Trata-se de negociação altamente profissional, como é da marca registrada das grandes instituições bancárias, que, no contexto da bancarrota financeira, perceberam a importância da união dos grandes com os grandes, ameaçados pelas ações estatizantes governamentais, de jogar, no mercado, moeda estatal sem lastro para resgatar títulos podres, derivativos, impulsionados pela engenharia financeira especulativa global. num contexto de desconfiança generalizada do povo contra os especuladores em todos os quadrantes do mundo.

Não foi , portanto, algo intempestivo, atabalhoado. Não há, porém, como desconsiderar que o desfecho do grande negócio do século, pelo menos até agora, no plano bancário nacional, se dá no auge das pressões que o governo do presidente Lula faz em cima dos poderosos grandes bancos nacionais, entre eles o Itaú e o Unibancos, resistentes, no âmbito da Federação Brasileira dos Bancos – Febraban – , a colaborarem no sentido de dar liquidez, com dinheiro dos compulsórios, ao mercado, atolado em crise de confiança.

Fundidos, criam fato novo, surpreendente, pois se fortalecem contra o propósito do titular do Planalto, colocando lenha na fogueira da relação entre ambos. Esta, naturalmente, tende a azedar, no contexto da sucessão presidencial de 2010.

Afinal, sob ameaça lulista, os grandes bancos apoiariam a candidatura da ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, coordenadora do PAC, ameaçado pela resistência bancária, de irrigar o mercado de dinheiro, tornando as atividades econômicas reféns do perigo recessionista, capaz de bloquear os investimentos públicos, que padecerão se a arrecadação cair por conta da escassêz de crédito?

Existirá PAC se a arrecadação, decorrente da escassez de crédito, cair, perigosamente, como fruto da resistência dos grandes bancos em trabalharem no compasso da pregação governamental? 

Estratégia acelerada para fugir dos boatos

Os banqueiros estão ressabiados com Lula. O Palácio do Planalto, sob grandes pressões dos setores produtivos, secos em matéria de crédito, editou duas medidas provisórias, as de números 442, que centraliza o poder de decisão sobre a crise no Banco Central, e a 443, que abre possibilidade de estatização bancária.

Ao mesmo tempo, o presidente passou a fazer fortes pressões sobre os grandes bancos, para que emprestassem a juros mais baratos os depósitos compulsórios a eles liberados a juros zero, de modo a irrigar a praça, e, também, comprassem carteiras dos bancos pequenos, a beira da falência, carregados de pepinos irresgatáveis no crédito direto ao consumidor, especialmente, para compras de bens duráveis, automóveis, eletroeletrônicos, eletrodomésticos, DVDs, celulares etc.

Qual a reação dos grandes bancos diante do sufoco dos pequenos concorrentes?

Ganância, ambição, interesse próprio e fuga ao risco. Tudo compreensível, num ambiente de completa desorganização das finanças globais, expressa no sumiço do dinheiro na circulação capitalista, que joga o sistema em sua maior contradição.

Sem dinheiro circulando, a produção jamais se realiza no consumo, sinalizando emergência, não da inflação, mas da deflação. A inflação aleija os salários e acumula o capital, mas a deflação mata tanto o capital como o salário. Escolha de Sofia.

Nesse contexto, os grandes bancos embolsaram o compulsório e jogaram o dinheiro disponível, não no crédito, nem na salvação dos pequenos, mas na compra de títulos do governo. Demonstraram disposição de não correr risco algum, enquanto as empresas estão frente ao risco total de inadimplência.

Comprariam com os depósitos compulsórios carteiras de concorrentes quebrados?

O governo, apavorado com a situação de deterioração completa do crédito  na praça, reagiu, deixando de remunerar, pela taxa básica de juros, selic, de 13,75% ao ano, 70% do total do dinheiro recolhido compulsioriamente.

Ameaça concreta à banca cujos efeitos políticos poderiam ser surgimento de ressentimentos populares contra a ganância bancária. Contra isso, emergiu o remédio bancário: a fusão irreversível.

 

União fortalece Brasil no mercado mundial

A ação governamental se mostrou clara: endurecimento contra a banca teimosa em colaborar no sentido de irrigar o mercado de crédito. O presidente da Febraban, Fábio Barbosa, titular do Banco Santander, fez corpo mole. Destacou que não poderia haver reação rápida. Ficou, com os companheiros, trocando bola no meio de campo, empoçando o dinheiro.

Primeiro, devagar, disse, seria preciso analisar cada caso de pequeno banco encalacrado, verificando, minuciosamente, suas carteiras bichadas etc e tal. Empurrou com a barriga. Sem saída, as autoridades econômicas, sob bombardeio do Congresso, na semana passada, prometeu novas ações.

Quais?

Certamente, avanço da estatização bancária, dando mais poderes ao Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, para atuarem diretamente no mercado. Os congressistas do Norte, assim como os do sudeste, se uniriam. A Zona Franca de Manaus, sem crédito, vira fumaça. Idem, o ABC paulista, regado ao crédito direto ao consumidor, sumido pela resistência à concessão de novos empréstimos pelos desconfiados banqueiros.

Intensamente, preocupados, os empresários correram para a Confederação Nacional da Indústria(CNI). Sob presidência do deputado federal Armando Monteiro Neto(PTB-PE), pregam moratória dos impostos como forma de disporem de capital de giro. Mas, o governo, que precisa de arrecadação, aceitará?

O que fizeram os grandes bancos sob pressão intensa, tanto econômica como política, que tende a aumentar, extraordinariamente, nos próximos dias? Fugiram e fundiram-se

 

Pressão total dos empresários 

Na retranca, dispuseram-se a recolher suas reservas – estimadas em mais de R$ 250 bilhões –  diretamente ao Banco Central, em vez de realizarem o jogo dos empréstimos de alto risco para os pequenos quebrados, bem como ampliar oferta de crédito aos clientes, que, por sua vez, diante dos juros altos oferecidos, preferem ficar de butuca.

O presidente do Bradesco, Marcio Cipriano, desassombradamente, alertou que a situação, longe de levar os bancos, sob pressão, a diminuirem os juros, provocaria o contrário, isto é, aumento do custo do dinheiro. Uma lógica irreversível, já que em todas as crise capitalisas, o juro sobe em vez de cair. Caso contrário, se enforcariam.

Alguém já viu banqueiro rasgar dinheiro?

Ficou claro o jogo: o Banco Central, com o dinheiro repassado pelos grandes bancos, resistentes aos empréstimos arriscados, teria(tem) que correr o risco total.

Tal disposição da banca, evidentemente, levantaria, ainda mais, a ira do Planalto, que, para se fortalecer, buscaria a articulação política com a coalizão governamental, no Congresso, como alternativa capaz de fazer a bancocracia atender as determinações governamentais.

Conseguiria?

Antes que isso acontecesse, rolou a fusão Itaú-Unibanco. Outras, de tal jaez, com certeza, estão a caminho, porque nessa hora, ovelha separada do rebanho vira comida de onça. Os bancos pequenos se unirão entre si, Banco do Brasil com Nossa Caixa, negócio antigo em pauta alavancaria, o Bradesco buscaria o mesmo rumo etc. Lógica capitalista da crise: fusões e mais fusões, tanto de bancos como de empresas à vista, sinalizando a oligopolização geral do sistema.

Os pequenos, sejam bancos, sejam empresas, têm destino negro pela frente. Quem vai vencer o oligopólio privado em ascensão, senão o oligopólio estatal, conforme previu Jack London, em “Tacão de Ferro”, com prefácio de Trotski?

 

Estatização da AIG fragilizou Unibanco

Particularmente, o Unibanco teve interesse em apressar o negócio. Depois que o governo americano entrou em campo para salvar a maior corretora do mundo, a AIG, que possui, conforme informação do mercado, 40% das ações do Unibanco, este ficou, visivelmente, vulnerável.

Qualquer boato mais ou menos grosso, na praça, colocaria sob suspeita sua situação, apesar desta ser tida, pelo mercado, como confortável.

Verdade ou mentira, o fato é que a negociação entre os dois bancos, que vinha rolando a quase dois anos, de repente ganhou velocidade.

O Itaú, mais forte – lucro líquido de R$ 4, 084 bilhões, no terceiro trimestre de 2008 – , viu chegar a sua hora de tornar-se ainda mais poderoso na praça nacional e, consequentemente, global, num contexto em que os bancos europeus e americanos estão baleados, sendo salvos pelo socorro estatal, na Europa e nos Estados Unidos.

Abocanhou o Unibanco – R$ 2,2 bilhões de lucro no terceiro trimestre de 2008 , 16,8% a mais que igual período do ano passado – e vai presidir o banco resultante final da fusão, cujo nome, por enquanto, antes de nascer nome-fantasia, passa a chamar-se Itaú Unibanco Holding S/A, com ativos totais de quase R$ 600 bilhões,  patrimônio líquido de R$ 51,7 bilhões, em 20.09.2008, e lucro líquido de R$ 8,1 bilhões. compreendendo total de 99.304 funcionários, sendo 65.089, do Itaú, e 34.215, do Unibanco(números de 2007).

Viram, juntos, o vigésimo maior banco do mundo, plenamente, potente para se transformar num grande concorrente internacional, superando o Banco do Brasil e o Bradesco.

Mais fortes, os dois se tornam mais resistentes às ações estatizantes colocadas em marcha pelo governo federal, com apoio explícito dos governos estaduais, em especial, o governo de São Paulo, preocupado com a escassez de crédito na praça paulista, que ameaça de bancarrota a maior cidade da América do Sul e a produção automobilísitica, que puxa a demanda global da economia nacional, ameaçada de se transformar numa sucateada Detroit brasileira.

Falta de crédito leva SP e montadoras ao crash

 

O governo quer jogar o pepino da quebradeira à vista dos pequenos bancos para os grandes bancos, mas estes, espertos demais, resistem em cair na armadilha, utilizando depósitos compulsórios, poupança pública, para executar a tarefa.

Se continuarem nessa posição, condenarão as montadoras e São Paulo, berço da indústria automobilística brasileira, carrro-chefe da demanda nacional, a tremenda bancarrota, ao crash.

Está na cara que os devedores de prestações , a perder de vista, acertadas, principalmente, na compra dos automóveis, na fase áurea do crediário, a juro extorsivo, com prazos dilatados, não poderão liquidar seus papagaios. Estão na mesma situação dos devedores das prestações das casas próprias, nos Estados Unidos, condenados à forca. Compraram ativos que tendem a se desvalorizar, rapidamente.

Os pátios das montadoras estão lotados. Os caminhões cegonheiros deslocam-se pelas estradas Brasil afora rumo às concessionárias, mas estas reclamam que os clientes desapareceram.

Quem vai consumir com os juros meirellianos e prazos comprimidos, depois que o crédito desapareceu? O que farão com os estoques?  Em Anápolis, porto seco, inundam veículos sem condições de serem desovados.

Serão devolvidos às fábricas? Centenas de desempregados, lojas fechando, famílias amargando desespero etc estão à vista.

 

Bancos tamboretes detêm bomba atômica creditícia

Os pequenos bancos, criados pelas montadoras, como o Banco Fiat, ou os que se especializaram no financiamento das vendas no varejo, como o Banco Votorantim, entre dezenas de outros, que destinam seus negócios ao financiamento tanto de carros como dos demais bens duráveis em geral, eletroeletrônicos, DVD, celulares etc, nesse momento, pendurados na brocha, são candidatos à bancarrota.

Pode pintar estouro monumental. O Palácio do Planalto está agitadíssimo. Bolha tupiniquim em fermentação explosiva. São R$ 133 bilhões dependurados no crediário em julho, 43,8% maior do que o mesmo valor em julho de 2007, correspondente a 4,5% do PIB, bancados em prestações que variam de 42 a 72 meses, de acordo com a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras(Anef). Crescimento vertiginoso do crédito na casa dos 39% do PIB na Era Lula.

Apavorado com a possibilidade de descarrilhamento geral dos negócios, dado que o crédito desapareceu, o governo tenta agir rápido, para evitar o previsível: quebradeira do mercado automobilístico nacional – de resto, possibilidade que ameaça montadoras em diversos países, todos afetados pela suspensão dos financiamentos, nas águas da primeira grande crise monetária do século 21, detonando o capitalismo financeiro altamente especulativo, desregulamentado, completamente, doido varrido.

A saída buscada pelo presidente Lula e toda a equipe econômica, nesse instante de correria atabalhoada, é a de envolver os grandes bancos no negócio. Eles entrarão nessa fria? Caso fujam, poderão ser estatizados. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Teriam que comprar as carteiras dos pequenos bancos, atolados nas prestações que não serão, provavelmente, pagas, como não estão sendo quitadas as prestações dos devedores dos imóveis na terra de Tio Sam. O fenômeno é semelhante.

O descasamento entre o valor dos veículos, que tende a despencar, e o preço, em alta, das prestações contratadas a juros flutuantes, anuncia o colapso, pois, se seus proprietários forem vender, não encontrarão cotações adequadas, senão desvalorizações inevitáveis. Mico brabo.

Assim como nos Estados Unidos estão sendo vendidas, nesse momento, casas por até 1 dólar, igualmente, no Brasil, automóveis poderão ser liquidados na bacia das almas, se estourar a bolha tupiniquim.

Mercado despencou; prejuízo é certo

Com os grandes bancos tendo em sua contabilidade o risco dos pequenos bancos adquiridos com poupança pública, isto é, depósitos compulsórios repassados pelo governo a juro zero, a situação voltará ao normal, se o crédito for retomado ao juro alto de 8% ao mês?

Ganhariam dinheiro ou estariam comprando inadimplências?

O presidente da Federação Brasileira dos Bancos – Febraban – , Fábio Barbosa, do Santander,  em entrevista ao repórter Vicente Nunes, do Correio Braziliense , demonstrou todo o seu temor nesse sentido.

Destacou que não pode ser tomada decisão apressada. Trata-se, disse, de estudar, minuciosamente, os passivos que serão adquiridos dos pequenos bancos pelos grandes conglomerados financeiros. Busca empurrar a situação com a barriga, claramente.

Distribuirão os bancos o prejuízo entre si com dinheiro do contribuinte, oferecido pelo Presidente Lula, em nome da salvação das montadoras, prestes a estourarem, não apenas no plano nacional, mas internacional? Difícil acreditar.

O panorama para as montadoras é tétrico. A capacidade instalada da indústria automobilística mundial, atualmente, é de produção de 70 milhões de veículos/ano, mas o consumo global não alcança, no despencar consumista, sequer, 30 milhões.

Especialistas do setor sinalizam que, no compasso da bancarrota financeira mundial, esse montante pode cair, ainda mais, para 20 milhões.  O que seria feito com 50 milhões de unidades disponíveis, sem consumo?

Tal previsão se ancora na incapacidade de emergir consumidores suficientes, especialmente, na praça consumidora mais poderosa, Estados Unidos, capazes de alavancar, se não houver oferta de financiamentos baratos. A desconfiança generalizada dos agentes financeiros entre si, para azeitar a máquina consumista americana, tornou-se obstáculo número um. No Brasil, idem.

 

Fim do crédito e do consumo: inadimplência à vista

Na Europa, a situação ainda é pior. Os europeus, atolados nos papéis que lhes foram repassados pelos americanos, correspondentes aos títulos do mercado imobiliário, sem lastro, porque o setor de imóveis americano está quebrado, dificilmente, comprarão carros novos em 2009, na escala necessária para dinamizar as indústrias montadoras. Estas, por isso, já estão, no plano geral, paralisando suas atividades e dando férias coletivas. O minério de ferro da Vale do Rio Doce para fazer chapas de aço ficará debaixo da terra, sem gerar demanda, enquanto a situação crítica perdurar.

Ao mesmo tempo, os grupos empresariais do setor buscam realizar grandes fusões, para fugirem, o mais rapidamente possível, do inevitável, isto é, iminentes prejuízos, cujos efeitos serão destruição de riqueza fantástica e desemprego em massa.

Ora, os bancos grandes, poderosos, cheios de dinheiro no caixa, adquiridos, graças à especulação com a dívida pública interna, onde, no Brasil, principalmente, ganham sem fazer força, no juro real mais alto do mundo, estarão dispostos a irem ao sacrifício, mesmo que com o pescoço do contribuinte, expresso dos depósitos compulsórios? Partirão para o haraquiri? É acreditar em papai noel.

O tempo pedido para analisar a situação de cada banco pequeno atolado em dívidas, conforme destaca Fábio Barbosa, presidente da Febraban, é sintomático. Nesse contexto, o governo Lula tem que ser duríssimo com os bancos.

Ou eles atuam para atender o clamor, desesperado, do Planalto, ou o Planalto, sem alternativa, terá que colocar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, para executar a tarefa, que o secretário da Fazenda de São Paulo, Mauro Ricardo, vocalizando sugestão do governador José Serra, proclama e exige.

A oposição, portanto, pede socorro por meio da estatização bancária, para fazer fluir o crédito, a fim de que a economia não caia no abismo, puxada pelo colosso industrial paulista, dependente, fundamental, das montadoras, para ter crescente a arrecadação de ICMS, da qual o governo estadual necessita, para realizar investimentos públicos.

A queda de braço entre governo federal, certamente, apoiado pelo governo de São Paulo, de um lado, e os grandes bancos, ressabiadíssimos, de outro, diante da ameaça paralisante da indústria automobilística, está sendo e promete ser, ainda mais, tremenda. Grandes lances e tensões se desenham à vista para os próximos dias, semanas e meses. O Congresso se transformará numa fogueira política especulativa.

 

História de sucesso ameaçada

O que está em jogo é um parque produtivo poderoso. O presidente da Anfavea, Jackson Schneider, destacou, durante a abertura do 25.0 Salão do Automóvel em São Paulo, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, na quarta, 29, na presença do presidente Lula e do governador José Serra, acompanhados de uma penca de autoridades, que se faz necessário urgentemente salvar o setor que emprega 1,5 milhão de pessoas.

São 24 fabricantes instalados no país, a partir de 16 de junho de 1956, quando o presidente Juscelino Kubistchek inaugurou o Grupo Executivo da Indústria Automobilística(GEIA), com instalação da primeira fábrica, em São Paulo, da Mercebes Benz do Brasil. De lá para cá foram fabricados 46 milhões de veículos(automóveis, bondes, caminhões, tratores, caminhonetes, ciclomotores, microônibus, motocicletas, ônibus, tratores, utilitários variados etc).

Tal estrutura produtiva e ocupacional representa 12% do PIB, responsável por exportações de 13 bilhões de dólares/ano e 106 mil empregos diretos, dinamizando 500 revendedores em 27 estados da federação.

Tanto o presidente Lula como o governador Serra e o ministro da Indústria e do Comércio Exterior, Miguel Jorge, fizeram promessas. O titular dos Bandeirantes destacou que o banco paulista, Nossa Caixa, vai trabalhar em parceria com o Banco do Brasil, para não deixar a peteca do crédito cair. Conseguirá?

Já o presidente Lula ressaltou que não apenas a indústria automobilística, mas, também, a construção civil, que emprega muita mão de obra, serão socorridas pelos cofres públicos, por intermédio dos depósitos compulsórios repassados aos bancos privados e aos públicos, para executar a tarefa de resgate do consumidor enforcado no juro alto. Por enquanto, apesar de toda a retórica e pressões para não remunerar os compulsórios, obrigando a banca a agir, não está dando resultado satisfatório.

Os grandes bancos, nesse contexto, sob intensas pressões, para que adquiram os bancos pequenos, falidos, porque não conseguem livrar-se das tremendas dificuldades emergentes, jogam na retranca, sentem-se frente aos leões – Lula e Serra – esfomeados.

Brasil diante de sua crise de 1929

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não se deve esquecer que a grande crise de 1929 teve como epicentro a indústria automobilística americana.

Naquele ano fatídico, a indústria de veículos, nos Estados Unidos, produzia 5 milhões de automóveis/ano, para uma frota nacional de 27 milhões de unidades. Com o crash, a produção caiu para 700 mil!(Lauro Campos, “Crise da ideologia keynesiana”, 1980, Campus).

Somente em 1943, 14 anos depois, as empresas voltaram ao nível de produção anterior à bancarrota, mas, aí, já não era mais a indústria de bens duráveis que puxava a demanda global, sob padrão ouro, até 29, mas a indústria bélica e espacial, voltada para a guerra, dinamizada, keynesianamente, pelos gastos do governo, forma encontra pelo capitalismo, via moeda estatal inconversível, para continuar mantendo ampliada a reprodução do capital.

De lá para cá, acrescentou-se ao aumento dos gastos públicos, como locomotiva da economia mundial, a utilização, pelo mercado financeiro, da arquitetura inteligente  para produzir riqueza a partir do próprio dinheiro especulativo, cujo limite foi alcançado, agora, na grande crise monetária nos Estados Unidos, colocando ponto final numa etapa histórica do sistema capitalista, em 2008, depois de vais e vens especulativos ao longo do pós-guerra, quando os Estados Unidos, com o dólar forte, promoveu divisão internacional do trabalho, fixando os termos de trocas internacionais favoráveis aos seus interesses de vencedor da guerra.

No Brasil, a indústria automobílística alvancou porque os Estados Unidos fizeram o transplante da sucata industrial que havia entrado em colapso no final dos anos de 1920. Foram tantos os incentivos oferecidos por JK que o economista conservador Eugênio Gudin destacou ser total desperdício, visto que ela viria sem nenhuma concessão, já que se transformara em estorvo, depois do crash de 1929.

São Paulo pode virar uma Detroit sucateada

Agora, o Brasil pode padecer do mesmo impasse, tendo que enfrentar, 52 anos depois, a sua grande crise automobilística, desguarnecida do suporte que os Estados Unidos levantaram, com a dinâmica keynesiana, para tirar o país do crash. O grande estado de São Paulo, que se ergueu graças a uma infra-estrutura econômica, montada a partir da transferência de riqueza dos estados mais pobres, via extração tributária, capaz de formar um mercado consumidor poderoso no centro sul, corre real perido.

Nas próximas semanas e meses, a indústria automobilística, que, nos Estados Unidos, passou a depender, fundamentalmente, da renda gerada na escala de gastos governamentais em diversas direções – sendo a principal delas a guerra – , sofrerá intensos solavancos, no mundo e no Brasil.

Aqui, onde o crediário implodiu e as prestações se acumulam nas carteiras dos pequenos e médios bancos, o sinal das tensões se intensifica, principalmente, na poderosa praça paulista. Os milhões de nordestinos que, como as empresas americanas, que sairam dos Estados Unidos e agora podem retornar ao país, teriam, também, que retornar à velha terra, para enfrentar, novamente, as agruras da catinga?

Assim como ocorreu a explosão capitalista no país mais rico do mundo, os Estados Unidos, no Brasil, a possibilidade de colapso, igualmente, tende a ser produzida no centro do capitalismo nacional, São Paulo.

O desespero, contido, apenas, aparentemente, pelo governador José Serra, temeroso da queda de arrecadação, por conta da interrupção do crediário, que inviabiliza a continuidade da produção em alta escala de automóveis, demonstra o tamanho do problema que o presidente Lula terá que enfrentar.

Seria tal crise o remédio amargo capaz de esvaziar o grande centro urbano invadido pelo mar de gente deslocada de todos os quadrantes nacionais em busca do eldorado nacional, ameaçado, agora, de virar sucata? Ironia da história: sob presidente metalurgico, o colosso industrial se verga, candidatando-se a se transformar numa Detroit sucateada.

Lula perde controle da economia

O presidente Lula e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, estão batendo cabeças. O titular do Planalto, apavorado, porque sua popularidade corre risco, se a economia continuar descambando, pede aos consumidores que comprem mais. Precisa que os negócios girem. Se não, a arrecadação cai. Caindo, adeus investimentos. Sem investimentos, o PAC empaca. Os recursos a ele destinados já sofrem restrições, apesar do discurso oficial. Dilma Roussef, como candidata previsível para sucessão lulista, dançaria.

O que faz o presidente do BC? O contrário, mantém os juros nas nuvens, a maior taxa real do mundo. Quem vai comprar, se cairá na armadilha da dívida cara no crediário? O claro enígma presidencial demonstra que a sua ação política está sendo totalmente bloqueada pelo sistema financeiro, que não cumpre sua determinação. Ao mesmo tempo, o titular do BC parte para uma jogada de completa subordinação a Washington, decidindo trocar o real por dólar, sob argumento de que falta moeda americana no mercado interno, a fim de lubrificar a circulação econômica. 

Mas, como circular a moeda, se o juro meirelliano impede?

O Banco Central imobiliza o governo. Não conseguiu agir duro contra os banqueiros que empoçam dinheiro. Em vez de impor a vontade soberana do BC, sua verdadeira independência, tão reivindicada pelo mercado, transforma-se na expressão completa da dependência governamental aos credores. Como? O exemplo patente é a remuneração dos depósitos compulsórios a prazo. Estes, normamente, são remunerados pela taxa básica mais alta do mundo, a selic, que, na reunião do Copom, nessa quarta, ficou mantida nos absurdos 13,75%, enquanto, no mesmo dia, o BC americano reduzia de 1,5% para 1% o juro básico nos Estados Unidos, em nome do combate à recessão.

Presssionados pelo governo, para que joguem os recursos do compulsório, a poupança nacional por excelência, nas atividades produtivas, a fim de evitar que elas paralisem, elevando, consequentemente, a taxa de desemprego, o BC, em vez de cortar a remuneração bancária dos compulsórios pela Selic, assegura, numa atividade de completa subordinação à banca, a rentabilidade máxima dos bancos, mesmo que eles continuem jogando duro, ou seja, guardando o dinheiro, comprando com ele os títulos do governo, que rendem bilhões, sem precisar trabalhar. Sanguessumismo explícito, enquanto os consumidores fogem e as mercadorias apodrecem, sem poder realizar no consumo.

Lula faz o jogo da depressão econômica. De manhã, na quarta, reuniu-se com assessoria econômica por mais de duas horas, antes da reunião do BC, para decidir sobre a nova taxa. Nos jornais, pululavam comentários dos porta-vozes dos banqueiros, como o economista Affonso Celso Pastore, em entrevista ao jornal Valor Econômico, no qual pregava redução dos gastos governamentais e sustentação do elevado custo do dinheiro e mais desvalorização do real frente ao dólar.

Ou seja, o ex-presidente do BC defende, descaradamente, a recessão. Para Pastore, o Brasil padece de déficict em contas correntes em escala crescente, o que recomenda sua receita contracionista, sob aplausos da banca. O que faria W. Bush, presidente dos EUA,  se Pastore fosse Ben Bernanke, presidente do BC americano, sugerindo-lhe tal saída, mesmo sabendo que a economia americana, em escala muito mais ampla do que a brasileira, padece de crônicos deficits em contas correntes?

Com certeza, sentaria o pé no traseiro dessa inteligência a serviço do capital jurista.

 

Presidente repete desastre político de Cristovam

E o presidente Lula? Dispõe de quase R$ 600 bilhões e não faz, praticamente, nada. Sim, fez, deu aos empresários, graças ao programa Bolsa Família, mercado interno. Importante, sem dúvida. Mas, qual a obra de grande porte inaugurou?

Portos para serem construídos, estradas precisando de investimentos, plataformas da Petrobrás para serem erguidas, consumidores para comprar mercadorias, empresas pedindo água, em face do dinheiro escasso etc. O PAC não decola para valer, e, agora, sob crise de crédito, vai devagar, quanse parando.

São 200 bilhões de dólares de reservas, cerca de R$ 450 bilhões, e R$ 160 bilhões de depósitos compulsórios, que estão parados, esperando um Juscelino Kubistchek, para promover o desenvolvimento nacional. Em vez disso, os compulsórios ficam estacionados, servindo de motivos para manter os juros nas alturas, já que o recolhimento acelerado do dinheiro disponível da poupança popular mantém relativa escassez de oferta monetária cujo resultado é aumento do preço da mercadoria manipulada pelos banqueiros.

Enquanto o titular do Planalto dispõe dessa motanha de recursos, a dois anos do final do seu governo, em vez de convocar as forças produtivas autênticas, para dinamizar o país, já que este possui todas as condições disponíveis, como matérias primas – petroleo verde e negro, alimentos, metais, água, terra etc – , base industrial forte, mão de obra e moeda com lastro real, ou seja, farta dinheirama e condições materiais disponíveis, rende-se ao discurso do tesoureiro Henrique Meirelles. Este, como todo tesoureiro competente, só sabe entesourar, o que, segundo Sócrates já dizia a 2.500 anos, na Grécia, gera empobrecimento.

Faltam apenas dois anos para Lula deixar o governo e insiste em dar uma de Cristovam Buarque, que, quando governador de Brasília(1995-1999), preferiu deixar os servidores, professores e bancários sem reajustes, em nome do equilíbrio orçamentário, do que manter a economia girando. Teve, naturalmente, como resultado, a derrota para o ex-governador Joaquim Roriz, que, esperto, prometeu o contrário do super-inteligente ex-governador, hoje senador, mostrando sua imaturidade como governante.

Lula poderia, com os cofres cheios, colher, com a estratégia que adota, o mesmo, isto é, a derrota, para a oposição, que poderá ter como representante o governador de São Paulo, José Serra, ou o de MInas Gerais, Aécio Neves, ambos do PSDB, vitoriosos na eleição municipal, em SP e MG. 

 

SP e MG já jogam contra Lula

Enquanto o presidente Lula – peru de natal na bandeja dos banqueiros –  perde o controle da economia, por não conseguir determinar ao Banco Central ação enérgica contra os banqueiros, que embolsam o compulsório e ainda continuam faturando a taxa selic integral sobre os depósitos a prazo, comprovando, sobejamente, a condição de bancocracia sob a qual vive o Brasil, no contexto da maior crise monetária mundial, os governadores de Minas Gerais e de São Paulo tomam caminhos que, nas próximas semanas e meses, representarão opções contrastantes com a jogada estratégica do titular do Planalto, de falar uma coisa, mas permitir outra. Os dois governadores correm perigo sob a estratégia lulista dos juros altos, consumo em baixa e domínio bancocrático.

O governador mineiro, percebendo que o titular do Planalto começa a ficar como cego em tiroteiro, toma decisões que seriam de responsabilidade do presidente da República. Convocou, para os próximos dias, reunião dos governadores, para discussão da crise.

Ora, quem deveria atuar nesse sentido, auscultando os executivos estaduais, que caminham para uma crise federativa irreversível, no compasso da desaceleração do crédito, que bloqueia a circulação de dinheiro e, consequentemene, a arrecadação tributária? Claro, o presidente da Repúlbica. Não o fez até agora. Fica como o personagem de Raul Seixas: parado, boca aberta, cheia de dentes, esperando a morte chegar.

Aécio Neves marca, dessa forma, importante tento político, no plano federativo, demonstrando, efetivamente, o que faria se estivesse, no Planalto, no comando do governo, no lugar do ex-operário presidente, que demonstra não dispor de tirocínio necessário, para tocar a economia, em momento de alta delicadeza política, por falta de visão, dispondo, ao mesmo tempo, de tanto dinheiro no caixa. Entraria para a história como não fazedor de obras. Vai continuar fazendo economia, entesourando, empobrecendo, ou não sabe o que fazer com a grana, incapaz de reunir as lideranças no Congresso, para um pacto pela salvação do real?

Assim como Aécio Neves, que toma decisões de estadista, sendo governador de um dos estados mais importantes do país, onde demonstra ser possível fazer uma aliança política capaz de unir, relativamente, a sociedade em torno de discurso político desenvolvimentista, o governador de São Paulo, José Serra, da mesma forma, joga com o desenvolvimentismo , para pressionar o titular do Planalto a sair do discurso e partir para a ação.

Serra está mais preocupado, ainda, do que Aécio Neves, porque comanda o estado mais rico do país, cuja dinâmica econômica puxa a demanda econômica nacional global, dado que em SP está o peso maior da indústria nacional afetada pelo crédito.

 

BC destroi candidatura Roussef

O que diz José Serra? Basta ler as declarações de Mauro Ricardo, Secretário da Fazenda, do governo paulista. Os bancos, destaca o secretário, estão empoçando dinheiro, impedindo a circulação monetária e, dessa forma, detonando o consumo, a produção, os investimentos e a consequente arrecadação governamental.

Inviabilizam, dessa maneira, os planos de desenvolvimento da administração bandeirante. Claro sintoma de que vem por aí muita cacetada na cabeça do Palácio do Planalto.

Em São Paulo, informa Mauro Ricardo, no Valor Econômica, nessa quinta, 35% da arrecadação dependem da atividade industrial. Por isso, uma contração do consumo e da produção terá efeito nefasto sobre a arrecadação paulista, cujo crescimento para 2009 está estimado em 19,92% em relação ao orçamento de 2008. Da receita total, 11,8% devem ser destinados a investimentos no próximo ano. Em 2010, ano das eleições presidenciais, os investimentos ddevem subir para 12%.

Claro, nada disso acontecerá, se a situação se deteriora, por conta da falta de credito. Toda essa armação do governo de São Paulo, assim como a dos demais governadores, que fizeram suas contas, baseando-se no rítmo de crescimento pré-crise, vai para o brejo.

Serra não cairá calado, saído de uma vitória eleitoral espetacular de seu candidato em São Paulo, Kassab, em cima de Marta Suplicy, afetada pelo homofobismo político de seu marketing eleitoral contra o prefeito reeleito. O mesmo pode ser dito de Aécio Neves.

O governador paulista portanto, afia suas garras para tocar fogo em cima da política jurista de Meirelles, que afeta, diretamente, as pretensões políticas dele, de sair candidato tucano em 2010 contra a candidata previsível de Lula, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil.

Roussef, por sua vez, dificilmente, emplacaria sua candidatura, caso o crédito continue empoçado, prejudicando a produção e o consumo, favorecendo, tão somente, os banqueiros e o seu porta-voz, Henrique Meirelles, que, agora, resolve comprar dólares com reais, jogando a moeda nacional, com lastro forte nas riquezas reais, diante de outra que não tem lastro nenhum e se encontra , totalmente, balançando nos tesouros dos países aliados dos Estados Unidos, temerosos de sofrerem bancarrota.

Desmoralização da moeda nacional

A opção meirelliana de trocar reais, com lastro, por dólar, sem lastro, para atender clamor do governo americano, para que os demais governos, como o brasileiro, detentores de títulos da dívida do tesouro dos Estados Unidos,  não decidam descontá-los, para limparem seus balanços de moedas podres, demonstra subordinação brasileira completa à estratégia desesperada da Casa Branca.

Para evitar a liquidação dos títulos americanos bichados pela crise, Washington emite dólares, sem lastro, para emprestar aos países que estão afetados pela bancarrota financeira.

Equivalente universal nas relações de trocas globais, desde o pós-guerra, o dólar é requerido pelos negócios em geral, para liquidação de posições entre credores e devedores, mesmo que sua saúde monetária, no ambiente global, seja um zero à esquerda, nesse instante histórico.

No Brasil, por exemplo, os aplicadores retiram dólares do país, para acertarem suas posições a descoberto em moeda americana, seja no próprio país, seja no exterior. O governo brasileiro, sob pressão, lança mão das suas reservas para acalmar o mercado.

Agora, diante da estratégia americana, deixa de fazê-lo. Em vez de jogar dólares das reservas no mercado, opta por utilizar os depósitos compulsórios, em reais, para comprar dólares do tesouro americano, trocando moedas, dando a Tio Sam a garantia de não resgate dos seus títulos, que se acontecesse seria um desatre para a saúde da moeda americana.

Trata-se de manobra que desvia poupança nacional, que poderia ser aplicada no crédito interno, não efetivado, por conta da resistência dos bancos brasileiros em emprestá-los, em clara desobediência à recomendação do governo Lula, que se mostra, dessa forma, sem força política para fixar posições diante da banca privada.

Por que não jogar o depósito compulsório nos bancos estatais – Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES – para exercer o papel que os bancos privados recusam em fazê-lo, preferindo o Banco Central, em vez disso, trocar real por dólar, em prejuízo das atividades produtivas nacionais? 

O tesoureiro do reino condena ao desastre o seu patrão, o rei.

Crise prenuncia paz

 

O que a primeira grande crise monetária do século 21 está demonstrando, sobejamente? Que a mediocridade humana passou da conta.

Com seus exclusivismos, individualismos, egoísmos, narcisismos, amor próprio exarcerbados, o ser humano, que detesta o outro, que não perdoa um grande favor por pura inveja, reconhece, subitamente, no colapso, que é pequeno demais, que não dá conta do monstro que criou para si, tocado pela alienação ideológica do capital.

Prisioneiro dos baixos instintos detonados pela ambição, manobrou, historicamente, sob o capitalismo, situação global que destroi ele mesmo, porque, ao não pensar no outro, mas, em si, preferencialmente, colocou no chinelo a pregação de Adam Smith.

Deu em lambança geral  a tese do formigueiro, que inspirou o autor de “A riqueza das nações”, do formigueiro humano, que, trabalhando, como formigas, acumularia riquezas equitativamente, distribuindo-as como se trabalha para realizá-las, coletivamente, de modo a que o preço se equilibraria por meio de uma abençoada mão invisível. 

 

Formigas atômicas anti-solidárias 

Diferentemente das formigas, que trabalham, instintivamente, a besta humana acreditou na supremacia absoluta da racionalidade perdendo a instintividade. Quanto mais se afastou da natureza, mais perdeu os instintos, como destaca o professor Tomio Kikuchi, em  “Estratégia”. Sem sensibilidade instintiva, dada pela natureza da qual o ser humano é extensão como pretensa forma de protegê-la, julgou-se superior a ela, destruindo-a.  

Detestou ser considerado natureza. Partiu, idiotamente, para seu próprio aniquilamento. Muita inteligência acumulada pelos desvios ideológicos do utilitarismo mecanicista.

Na bombástica crise monetária neoliberal,  os vaidosos correm, prá lá e prá cá, buscando gente, para juntar, em torno de uma só causa. Qual? A salvação de todos. O que isso demonstra? Incapacidade do individualismo.

Depois da crise de 1929, cada país foi para o seu canto, tocar seu nacionalismo nazi-fascista. Foram, cada qual, buscar seu Hitler, seu Mussolini, seu Getúlio, seu Roosevelt, seu Stalin etc. Roosevelt, no seu livro “Mil dias”, reconhece que o que fazia nos Estados Unidos, na sua ocasião, era a mesma coisa que Hitler e Stalin estavam fazendo, só que ele atuava de maneira mais organizada… 

E agora, na grande crise de 2008, muito mais global do que a de 1929?

Vai pintar neo-nazismo, neo-fascismo, se o que está entrando em crise é justamente a moeda fascista, estatal, sem lastro, keynesiana, impulsionadora da economia de guerra, da qual os Estados Unidos lançaram mão para neutralizarem avanço do comunismo, durante todo o século 20. Roosevelt teve amplas razões para compará-lo a Stalin e Hitler.

O nazismo perdeu a guerra, mas ganhou a paz.

 

Individualismo dançou na ganancia bancária

Os gritos nacionalistas não se ecoam, fortemente, nesse instante, porque a experiência de cada um tentar se salvar sozinho já foi negada historicamente. Repetir falsa e farsamente a história?

Tudo é relativo. Além do mais, a bomba atômica, expressão maior da economia de guerra, erigida pelos Estados Unidos, na força do dólar, que agora pede água, não confere mais poder geoestratégico.

Perdeu sua função, de fazer afirmação pela força por parte de quem a detém. Soltar a bomba seria mais uma vez tentar destruir o outro sem imaginar que o si mesmo explodiria também. O si e o outro são o outro e o si, interativamente, dialeticamente. Sucata atômica.

Para beleza geral, fortalecendo o discurso da paz,  os americanos, pelo menos, por enquanto, não terão fôlego para continuar mantendo em pé o estado industrial militar dos Estados Unidos, assim denominado por Eisenhower, em 1960, para ser o gendarme do mundo contra o avanço comunista.

Qual seria a opção preferencial do império americano, sob Barack Obama, Democrata, ou sob John MacCain, assim que pisarem o pé na Casa Branca, a partir de 2009? Jogar a poupança popular, expressa na capacidade do estado americano emitir moeda, na guerra do Iraque e na do Afeganistão, para abater Bin Laden, ou tentar, urgentemente, salvar os americanos do terremoto financeiro que, como uma guerra autodestrutiva, empobrece os outrora ricos e poderosos?

A guerra não é mais externa, mas interna. Até agora os governos nacionalistas americanos construiram seus heróis nas guerras externas. Poderão, de agora em diante, virar bandidos a serem caçados, como acontece, politicamente, em relação aos banqueiros nos Estados Unidos.

Os problemas internos requererão gastos prioritários que resultarão em diminuição de recursos para os setores da guerra, antes prioritários, agora, podendo ficar secundários. A paz aplaudiria, ou não? A grande crise da economia de guerra entra em total contradição, abrindo espaço ao seu contrário, a paz, como solução. Show.

O caos capitalista seria seguido pelo caos nacionalista, o caos individualista? Seria optar pelo caos para se salvar do caos!

 

O susto cria novas realidades

02Os sucessivos encontros dos assustados e assustadas líderes, como Angela Merkel, da Alemanha, mostra que alguma humildade está pintando. Os europeus, que cairam no conto de Tio Sam, comprando papéis podres do mercado imobiliário, para distribui-los na praça européia, correram para juntar-se aos asiáticos, também, caloteados. Rearrumação geral da casa global em novas bases.

No próximo dia 15 de novembro, data, seguramente, histórica – aliás, os dias atuais estão burbulhantes, historicamente – os ricos, Grupo dos Sete, outrora grandes, vão se reunir com o Grupo dos 20, atuais emergentes, não se sabe até quando, para discutirem juntos a saída da abismal bancarrota financeira global.

O que isso sugere senão reconhecimento do fracasso doindividualismo a pedir socorro a um espírito cooperativo?

Os estados nacionais, isoladamente, fonte do poder nos séculos 18 e 19 , quando surgem com avanço do capitalismo, alterando , no século 20, o status quo das monarquias, com suas moedas de ouro e prata, demonstram ser, nesse instante, menores do que a crise.

Ela sobrepujou a todos, monstrando o poder educativo das tempestades. O todo orgulhoso de Wall Street, Henry Paulson, secretário do tesouro americano, coitado, abriu o bico e disse que ser humilde é a melhor saída. Fazer o que?

Depois da queda do muro de Berlim, todos lembram, Tio Sam arrotou unilateralismo eterno. Tal qual Hitler, que pregou poder de mil anos para o nazismo, sob hitlerismo suástico, o velho caquético do Norte, do alto dos escomboros do envergonhado muro, que veio ao chão, com o comunismo, pregou o fim da história. Pretensão infinita.

 

Feliz início da decadência do inútil

Esqueceu de ver que seria o inicio da decadência de sua própria história. W. Bush, completamente, desmoralizado, pede unidade mundial, porque todos, segundo ele, são os náufragos. Confissão do fracasso.

O mea culpa espetacular de Alan Greenspan é altamente educativo. Sua velhice lhe confere dignidade, para reconhecer o grande erro histórico que praticou. Não deixou a vaidade cegá-lo, pondo-o a negar evidências que a história confirmará – já está confirmando. Sensacional.

Foi uma enxurrada monumental de equívocos porque a abstração tomou conta da realidade, deixando todos iludidos com a falsidade de suas próprias fragéis certezas e convicções furadas. Trem bão essa crise, sô. Que purgante brabo, meu!

Os temerosos de que a democracia pode ruir, como o economista e sociólogo Eduadur Gianetti, têm que se antenarem, antes, na possibilidade de o individualismo, que destroi o sistema democrático, transformar-se em alternativas.

O próprio comportamento dos falsos líderes-profetas mundiais atuais, de correrem para se aninharem no colo um do outro, demonstrando impotência para enfrentarem, isoladamente, o monstro, é sintoma de comportamento comunitário buscado ansiosamente como antídoto ao comportamento individualista. Quem tem buraco tem medo.

Utilitarismo perde utilidade na crise global

O jogo da guerra está deixando de ser interessante para os sete grandes, porque terão que gastar muito internamente, transformando-se os conflitos bélicos em preocupões, no quadro de emergencias catastróficas econõmicas gerais, de segundo plano.

Os orçamento da guerra tenderiam a murchar em nome da paz para conter ameaça interna de guerra civil dentro dos próprios Estados Unidos, caso aprofunde a expropriação financeira das famílias americanas e européias.

Teria que haver guerra antes de haver paz? Tudo pode acontecer, com a emergência da irracionalidade econômica capitalista, que, como Marx demonstrou, sobrevive, sob a moeda estatal, dinamizando as forças destrutivas, na guerra.

O grande bem da grande crise é a negação explícita do modelo da economia de guerra, porque o seu promotor, o governo, mediante moeda estatal deslastreada, perdeu o fôlego financeiro, está sob desconfiança na praça.

Outro dado excelente da crise é que ela questiona as lideranças nacionais. Estas se revelaram um bando de incompetentes, os verdadeiros empecilhos ao avanço da humanidade, como sentenciou Trotski.

Os governos que tais desmoralizadas lideranças comandam foram estimulados, por legislação, amplamente, avalizadas por eles, a apostarem na ilusão especulativa em detrimento da visão realista dos fatos e de sua produção como fruto, não de construções cerebrais, formuladas nos laboratórios de macroeconomia, em esquizofrenia completa, mas da relação entre classes sociais antagônicas, que circulam, contraditoriamente, no interior dos partidos.

 

Falsas lideranças, maior problema nacional

Viajaram na maionese, todos a serviço da elaboração de produtos especulativos, derivativos, pura arquitetura maquiavélica jurista-bancária-fictícia. Esse mundo implodiu geral no colapso do subprime. Positivo, para as mentes em busca de clareza, liberadas da ideologia despistadora neoliberal.

No novo ambiente, em que as bases do velho status quo viraram fumaça, as formulações novas estão pedindo líderes, como papel em branco para ser escrito com criatividade. Tal hipótese ainda está por surgir, pois o que de novo existe na praça é velharia que tenta ressuscitar.

O presidene do Banco Central, por exemplo, acredita que o dólar continua forte. Por isso, quer utilizar o real para comprar moeda americana, a fim de lubrificar a praça que está especulando com ela, jogando contra a moeda nacional.

Meirelles, na prática, quando faz isso, está jogando, também, contra o real, ele e os banqueiros. Por que? As resistências dos grandes bancos em trabalhar com os depósitos compulsórios, em reais, para irrigar a praça, a fim de combater a inflação, demonstram insegurança que transferem para a moeda, detonando-a, na medida em que lançam desconfiança. Ou seja, total falta de compromisso com o real e total compromisso com o dólar.

Preferem apostar no dólar. Qual é o lastro do dólar, nesse momento? Nenhum. Pura moeda podre. Emite-se moeda sem lastro para cobrir papéis sem lastro que apodreceram.

Qual o lastro do real? Petróleo, metais, alimentos, terras, energia, biodiversidade incalculáveis, brasileiras e sul-americanas.

Não acreditar no real, em tal contexto, é não acreditar em si mesmo. O Congresso vai cair nessa conversa fiada do presidente do BC?

Apostar no rico que está ficando pobre e desdenhar da força do podre, emergente, que tem condições plenas de ficar rico? Falta total de autoestima e disposição política para lutar pelo que é autenticamente nacional, sua moeda.

Se depender das falsas lideranças nacionais, para sair da crise, o Brasil está lascado. Historicamente, essas lideranças sempre pensaram com a cabeça dos outros, dos europeus , dos americanos e de suas medicações extravagantes.

Ora, os outros, como reconheceu Greenspan, entraram pelo cano. O espírito de manada é o de entrar na tubulação geral?

 

Economia política do NÃO

“A crise completa – Economia Política do Não”(Lauro Campos, Boitempo, 2002) candidata-se a ser orientador geral dos fracassados líderes nacionais e internacionais, a partir de um pensamento autenticamente brasileiro-sulamricano, florescido, abundantemente, na Era FHC, enquanto exerceu senatoria, mas, completamente, escanteado pela grande mídia, que o considerava doido.

“Minha loucura é minha lucidez”, disse Glauber Rocha aos seus críticos, quando defendeu o nacionalismo de Geisel contra o neoliberalismo de Carter, em 1976, com a grande imprensa torcendo pelo americano, alienadamente. Agora, os mais inteligentes e espertos estão excitados com o “poder” do dólar, sem lastro, que precisa do real, como troca.

O Congresso começa a debater a grande crise a partir dessa semana com a corrente neoliberal falida, comandada pela grande banca, pedindo reais para comprar dólares, dos quais os japoneses, por exemplo, estão fugindo.

Por que ? Perceberam que as dívidas americanas de posse do tesouro do Japão são papeis podres. Preferem o yen, valorizando a moeda nacional na crise. Qual o lastro do yen? A vontade política japonesa, já que os japoneses não têm riquezas reais para alimentar sua própria manufatura.

Já o Brasil, dispõe das riquezas reais, mas não tem vontade política, subtraída pela subordinação de falsos líderes a uma conjuntura que explodiu e exige novos paradigmas.

Vendilhões dos templos assustados, sem condições de formulações sadias, porque pensarem sempre pela cabeça alheia, detonada pela crise.  Como construir o modelo da paz, se sua cabeça é formada pela economia de guerra? O fim desta é o prenúncio da paz ou da guerra. Negação da negação.

Poder midiático dantesco

Enquanto a mídia estiver acima do bem e do mal, livre de qualquer controle social civilizatório, humanizador e democrático da sociedade, estaremos sendo surpreendidos por espetáculos animalescos em que a televisão termina envolvendo-se irresponsávelmente em crimes, tal como ocorreu agora no sequestro que terminou com a trágica morte da adolescente Eloá Cristina.   Toneladas de falsa lamentação estarão sendo difundidas pela mídia incapaz de olhar no próprio espelho e reconhecer que ela própria tem sido fator de disseminação de mensagens que cultuam a violência. No caso Eloá, as redes de tv deram um funesto passo adiante no desrespeito às normas mais básicas do processo civilizatório: pelo menos tres redes de tv comunicaram-se diretamente, por telefone celular, com o assassino Lindeberg Fernandes, durante o transcurso do ato criminoso, revelando a mais absoluta irresponsabilidade e, até que se prove o contrário, com capacidade de interferir negativamente no desfecho do episódio, quando ainda estava ocorrendo uma negociação  das autoridades policiais na tentativa de evitar o pior, que acabou ocorrendo.   Conforme já divulgado, a apresentadora Sonia Abraão, da Rede TV, chegou mesmo a entrevistar longamente Lindberg por celular no exato momento em que o oficial da PM tentava desesperadamente um contato telefônico com o criminoso. Resultado: o celular estava ocupado!!! Isto é de uma gravidade gigantesca!!! Quem dá o direito aos meios de comunicação de sentirem-se acima das normas da sociedade, de considerarem-se mais importantes que a própria polícia, de decretarem arbitrariemente   –   revelando prepotência   –  que mais importante que a negociação é a entrevista que faziam como o sequestrador? Será a sacrossanta lei do “vale tudo pela audiência” ?  Êpa!!! Aqui se verifica a transposição apavorante do limite entre civilização e barbárie!   A menos que a psicologia tenha desistido de tudo diante do ceticismo que tais episódios podem causar sobre a capacidade humana de avançar no processo civilizatório, é inegável que uma negociação adequada, uma persuasão na dose certa, uma palavra precisa orientada por critérios científicos podem sim sensibilizar um sujeito transtornado e até a demovê-lo de chegar às últimas conseqüências, salvando vidas em risco. Sim, há uma longa trajetória de acertos e erros nesta matéria, mas, até onde se sabe, os especialistas em saúde mental conseguem inúmeros êxitos basicamente através de técnicas de  neutralização dos disturbios destrutivos, evitando que os protagonistas de atos violentos, como o Lindeberg, cheguem às últimas conseqüências. É rigorosamente inaceitável que se despreze o legado de Freud, Adler, Reich, Jung e os progressos já alcançados na área da saúde mental pela humanidade assim em troca um pontinho a mais no Ibope. Afinal, os amigos do Lindeberg testemunharam que ele sempre foi um cara normal, boa praça, camarada, um jovem pobre de periferia enfrentando as adversidades que o capitalismo colocou à sua frente. Portanto, será que uma pessoa assim não poderia afinal ter se sensibilizado pela negociação conduzida sob orientação de psicólogos?  

O espetáculo da morte para ganhar audiência

Sim, em tese poderia, pois desconhecem-se antecedentes de conduta violenta ou anti-social de Lindeberg. Sim, poderia, mas não com as televisões, com sua capacidade de alterar o comportamento de qualquer ser humano  –  e é impossível negar isso  – telefonando para ele, querendo entrevistá-lo “ao vivo”, sabendo-se que ele tinha a televisão ligada, conforme foi informado. O que estas entrevistas interferem num sujeito que já estava completamente transtornado por um surto violento? Qual a possibilidade de que ao insuflar o seu ego, lançando-o no terrreno escorregadio da “fama”, transformando-o uma “celebridade”, tornando ainda mais complexa a cena do crime,  adulterando todo o processo de diálogo negociador que vinha sendo mantido com o policial encarregado, a mídia terminou por entrar em cena num crime em andamento, com entrevistadores que não são especialistas nem em segurança pública, nem em saúde mental, nem em ciências jurídicas, mas simplesmente à busca do desprezível “juro jornalístico”, aumentou os fatores de risco das adolescentes sequestradas?     Ainda que estas perguntas não sejam todas respondidas facilmente, terá a mídia o direito de estabelecer por decreto que ela pode colocar-se em contato direto com um sujeito que está comentendo um crime simplesmente porque para ela o furo jornalístico está acima da vida? Uma sociedade que desenvolve as tecnologias da comunicação mas não desenvolve os instrumentos de sua humanização, revela-se uma sociedade com componentes bárbaros. E revela também o risco de termos meios de comunicação tão ágeis, tão abrangentes, mas, por estarem sem controle social humanizador, capazes de ampliar a insegurança, resvalar para o papel de cúmplice de um ato criminoso na medida em que . à revelia de qualquer orientação das autoridades policiais, adentra eletronicamente a cena do crime, introduz a retro-alimentação de valores e mensagens que aprofundam o distúrbio de um sequestrador já em transe psicótico, que  passa então  a ver o seu ato na tela da televisão ligada no apartamento transformado em cativeiro. Que efeitos isto pode ter na sua decisão de mater ou render-se?     Com a palavra os especialistas em saúde mental, particulamente aplicada à área de segurança pública: ao se ver na tela, entrevistado por estas desastradas apresentadoras, o efeito psicótico do fato comunicativo que o torna “celebridade”, não pode agravar a complexidade de seu transtorno, não pode insuflar ainda mais seus instintos violentos, não pode  interferir negativamente no desfecho ao entorpecer o processo de negociação, que, afinal, sofreu várias interrupções para que as televisões, como abutres, celebrassem o seu “vale tudo pela audiência”??? Como alternativa não seria mais lógico, mais sensato, sobretudo mais humano do que espremer aquelas 100 horas de sequestro para que produza o máximo de sensacionalismo possível, simplesmente não dar nenhuma divulgação até o desfecho final do episódio?  Especialmente, porque os magnatas da mídia  –    especialmente os do departamento comercial das TVS, de olho no Ibope minuto a minuto   –   sabiam que Lindeberg tinha uma tv ligada. Insufladas pelo departamento comercial as redações se agitam: “Vamos entrevistar o sequestrador ao vivo!!!”. Se isto aumentava o risco de vida de Eloá e Nayara… não era o elemento mais importante. Afinal, vale tudo pela audiência, decreta a barbárie do mercado! Mas, também as autoridades policiais sabiam desta ação irresponsável das tevês: por que não determinaram a suspensão destas entrevistas? Por que não há rigorosamente nenhum controle social sobre os meios de comunicação social no Brasil hoje se vamos acumulando tragédias desta natureza?.   

Risco, jogo atraente ao capital anunciante

A mídia pode ampliar o risco de vida no desfecho de um sequestro. No sul também já houve um episódio assim, onde reportagem negociou  com um sequestrador tendo como pano de fundo conseguir que a sua rendição fosse aprazada por um tempo para que o fato fosse noticiado ao vivo dentro do horário do telejornal da emissora gaúcha. Quando Marx fala que ainda estamos na pré-história da civilização muitos não acreditam….   Para revelar esta barbárie  basta lembrar outro carnaval televisivo de culto à violência: o caso do assassinato da menina Isabela Nardoni. No dia a reconstituição do crime, as redes de televisão transmitiram nove horas seguidas ao vivo, sem interrupções para comerciais, derrubando mesmo a grade comercial. Sim, mas igual “esforço de reportagem” não é feito para uma divulgação apropriada, equilibrada, humanizada de informações sobre a violência doméstica, pano de fundo daquele crime. Quando uma menina é assassinada alteram-se a duração dos telejornais, dos programas, derrubam-se até grades comericiais. Mas, para uma política preventiva, de humanização das relações familiares, de construção de consciência amorosa, revelando e abordando adequada e delicadamente a existência do grave problema de saúde e de segurança pública que é a violência doméstica, as tevês fazem o mais absurdo dos silêncios, aproximando-se assim da cumplicidade, pela via da omissão, por deixar de cumprir o que reza a Constitução, segundo a qual, a mídia deve ser fator de elevação educacional, cultural e civilizatória.                                  Espalhar terror para vender segurança….privada   Hoje a nossa mídia predominantemente “espalha terror para vender segurança”. Os desenhos animados são aterrorizantes, emitem sons frenéticamente agressivos, os personagens matam com a maior facilidade, as armas são os ícones mais difundidos, não são os livros, os heróis da nacionalidade. Armas têm sua imagem super divulgada como poder, prazer, ação, emoção ou simples objeto de consumo, atributo de status. Desse desfile permanente de armas na telinha depreende-se quase que uma máxima ” que sentido tem uma vida sem armas?” Talvez alguém cinicamente tente dizer que a multiplicação de empresas de segurança privada para ricos, de milícias armadas em bairros pobres e o enxugamento da segurança pública como parte da demolição neoliberal do estado não tenha nada que ver com isto tudo que estamos tratando. Foi este critério pretensioso e prepotente , sempre na linha do vale tudo pela audiência, que conduziu Tim Lopes ao seu suplício, quando a TV Globo já dispunha, com antecedência,  de todas as informações sobre o risco que o repórter corria.   Mas a tv segue com o circo de horrores.  Assim como, pela lógica da divulgação em tirânica abundância parece que “não tem sentido um mundo sem cerveja, sem Coca-cola, sem a velocidade  dos súper carros anunciados, velocidade impossível pelos engarramentos de um transporte inviabilizado pelo individualismo em detrimento do coletivo”.

O circo da loucura lucrativa midiática insaciável

Provavelmente jovens como Lindeberg não se transformassem em criminosos se lhes alcançasse uma televisão humanizada, civilizada, que não cultue e não propagandeie a arma. Uma televisão que não realimentasse permanentemente o animalesco critério de que ” eu amo tanto esta mulher que se ela não me quiser eu a mato de tanto amor”. Temos uma tv machista também, temos uma tv debilóide, uma tv para brancos, para adultos, uma tv embrutecedora, destinada a vender e vender e vender, a formar consumidores, e quem não puder comprar um tênis caro é impelido a matar alguém para roubar um tênis, como ocorreu em Brasília. Afinal, a vida não tem sentido sem um desses tênis carríssimos…. Temos uma tv de erotização doentia, uma tv que nos empurra para o alcolismo, que nos recomenda, como a Lindeberg, a intolerância e o machismo, particularmente com armas nas mãos, quando enfrentamos um angústia ou uma dor amorosa.   Temos uma tv bárbara. E não tem que ser assim, pois  há no mundo experiências de tvs que são vetores educativos, culturais, humanizadores. A TV em Cuba evita a divulgação de crimes e não há publicidade comercial. Mas divulgam-se livros, filmes, datas históricas, heróis do país e do mundo. espetáculos de balé e música clássica. Crimes não!  Aqui podemos assistir desde sexo o mais vulgarizado até seres humanos espancando-se infinitamente com chutes e cotoveladas no rosto uns dos outros. Há canais para leilões de cavalos, bois, tapetes, corridas de cavalo, mas raramente há programas sobre inúmeros problemas de saude mental para uma população carente de informação educativa, tal como pregou o presidente Lula ao determinar a criação da TV Brasil. Aliás, registre-se a sóbria e equilibrada cobertura da TV Brasil sobre a tragédia de Eloá. Este é o caminho. A televisão é uma ferramenta muito importante para estar sob o controle da lógica bárbara e anticivilizatória do mercado, deve estar sob controle social, humanizador e democrático. Aliás, vale lembrar, as tvs que cometeram este espetáculo de barbárie no caso Eloá são as mesmas que durante anos enalteceram, recomendaram, sustentaram, sem discussão democrática,  os valores do mercado como diretriz para o funcionamento da sociedade e agora, diante do enormes prejuízos que as fraudes mercadológicas especulativas causaram ao contribuinte norte-americano, pondendo nos atingir, estas tevês não reconhecem o seu erro. Estão acima do bem e do mal.    É portanto urgente o desenvolvimento de mecanismos de controle social da mídia no Brasil. Ou ,se nada for feito neste sentido, como dor e realismo somos obrigados a nos perguntar: qual  será a próxima façanha da tv-barbárie? Sei que na Espanha alguns canais chegam a transmitir suicídio ao vivo…. Foi para isto que se criou a televisão?     Carlos Alberto de Almeida Presidente da TV Comunitária de Brasília