Doha sinaliza guerras cambiais

Celso Amorin
Celso Amorin

O fracasso nas negociações de Doha, em Genebra, sinaliza aumento da competição comercial internacional, acompanhada de políticas cambiais cada vez mais flexíveis, como resposta à sobredesvalorização do dólar, que desvaloriza a dívida americana e favorece as exportações dos EUA, simultaneamente, como resposta à desaceleração interna gerada pela crise bancária, detonada pela interrupção do crédito, enforcado pelo colapso imobiliário.

Os impasses explícitos entre EUA e Europa, de um lado, e China e Índia, de outro – com o Brasil fugindo da rinha para uma acomodação mineira – , demonstraram que são grandes as dificuldades para se organizar as trocas comerciais globais.
Há excesso de manufaturados estocados em forma de capacidade produtiva ociosa nos países capitalistas cêntricos, no compasso acelerado do aumento da produtividade impulsionada pela ciência e tecnologia a serviço da produção.
Como desovar?
Guerra cambial. Como competir com o dólar desvalorizado, senão promovendo desvalorizações das moedas nacionais para tornarem compatíveis as relações de troca?
Como subsidiar estoques internos inconsumíveis em face de possível esfriamento econômico gera tensões fiscais, desvalorizar o câmbio pode, no contexto da desvalorização acelerada do dólar, voltar a ser opção.
Doha comprovou que não há entendimento entre produtores de matérias primas básicas e semi-manufaturados, de um lado,  e os produtores de manufaturados de ponta científica e tecnológica, de outro.
Ambos os lados precisam de uma só coisa: mercado, mas os preços que cobram, de lado a lado, são altos e não se chegou, por enquanto, a um acordo.
Os emergentes querem exportar produtos agrícolas para os países cêntricos que não querem importar, mas subsidiar o produto interno.
Os ricos querem exportar suas mercadorias de alto valor agregado que se desvalorizam mediante abertura comercial total dos países emergentes, enquanto apelam ao protecionismo velho de guerra. Angu global.
No contexto inflacionário impulsionado pelo dólar sobredesvalorizado, as mercadorias secundárias – bens industrializados – encontram dificuldadades para se valorizarem, devido à concorrência global, enquanto as mercadorias básicas, matérias primas ganham valorização súbita, impondo deterioração nos termos de troca e, consequentemente, pressões tanto deflacionárias como inflacionárias.
A guerra econômica, em face do fracasso de Doha, salvo ludidez de última hora dos negõciadores, está no ar.

Radicalização contra os emergentes

A exigência máxima dos Estados Unidos e da Europa em favor de corte de mais de 50% nas tarifas de importação de produtos industrializados pelos países emergentes, enquanto resistem a cortar subsídios no montante de apenas 15 bilhões de dólares, cria guerra comercial.
O governo brasileiro, no contexto inflacionário, que o obriga a tomar medidas que evitem o desânimo empresarial, especialmente, na política cambial, terá que jogar mais agressivamente no comércio internacional, para não sufocar a industria nacional, mantida a sobrevalorização do real frente ao dólar.
As declarações empresariais guardam expectativas desaceleracionistas. Elas, por sua vez, criam psicologias que se expressam em restrição ao impulso animal empresarial para o investimento, já que vêem fatores de perturbação no horizonte. Estes colocariam em risco o seu capital. É o momento em que o empreendedor perde a visão do que Keynes denominou de eficiência marginal do capital, isto é , o lucro.
O perigo para o governo Lula é o avanço das incertezas que desatam intensas resistências psicológicas negativas e restritivas em matéria de investimento. Diante das incertezas internas, sobraria a visão do passado, ou seja, as certezas externas, impulsionadas pela mão do Estado por meio das desvalorizações cambiais.
O passado, porém, traz seus pecados: as pressões inflacionárias. Elas, nas águas da desvalorização, jogaria areia no PAC. Os empresários, envolvidos com ele, refariam suas contas, para saber até onde o jogo do juro alto contra a inflação influenciaria suas margens de lucro. Exigiriam preços e reformulações de contratos etc.
Forma-se, com as pressões inflacionárias atacadas pelo juro exageradamente alto, conjunto de expectativas psicologicamente carregadas de receios negativos, que seriam adequadas para os empresários exportadores fortalecerem discursos voltados para a sobredesvalorização do real frente ao dólar.
A moeda nacional está quase 140% mais cara do que o dólar no espaço de 24 meses encerrados em junho. Se fragilizar o gás do governo, para bancar a sobrevalorização do real, crescerão as pressões exportadoras, com o discurso de que são geradoras de saldos comerciais capazes de atenuar o deficit em contas correntes que avança com o dólar barato.
O governo Lula passa a enfrentar novo contexto internacional, inverso ao que saboreou nos últimos quatro anos. Se antes, o mercado estava, para os emergentes, mais comprador do que vendedor, agora, como demonstra Doha, a situação se inverte: os ricos querem desovar seus estoques de qualquer jeito, mediante pregação agressiva de abertura comercial, em Genebra, porque temem deflação em face do dólar sobredesvalorizado que impõe deterioração nas relações de trocas entre produtos primários, em alta, e secundários, em baixa.

Novo oxigênio da cadeia produtiva

Com os cartões de crédito de consumo, os pobres, antes impossibilitados de consumirem, foram aos supermercados; os supermercados, diante do aumento da demanda, dirigiram-se às indústrias para renovar estoques; as indústrias, por sua vez, recorreram à agricultura; esta, na sequência, gastou em máquinas, equipamentos e insumos, impulsionando cadeia produtiva, alavancando serviços etc.

Expandiram-se os investimentos e seu corolário foi a dinamização da política de crédito. Hoje, graças a tal estratégia, o crédito direto ao consumidor atinge R$ 240 bilhões, beneficiando 80 milhões de novos consumidores, cujo destino financeiro é uma incognita. Dependem do comportamento da inflação, detonada, agora, pelo dólar sobredesvalorizado, no plano global, responsável pela instabilidade bancária e explosão do terceiro choque de preços do petróleo.

Enquanto o desastre não vem – se é que virá – , o consumo interno segue aquecido. Cadeias de supermercados populares se instalaram no Nordeste, palco maior da miséria histórica nacional. Da mesma forma, bancos ampliaram agências na região. O consumo interno elevado dispensou os empresários de buscarem, nos governos, o socorro das políticas cambiais inflacionárias.

A inflação – “unidade das soluções”, segundo Keynes – vinha em forma de desvalorização da moeda. Agora, sem precisar desvalorizá-la, como antes, amenizaram-se, graças às políticas sociais, as pressões inflacionárias. Emergiu, por isso, o contrário da desvalorização, isto é, a valorização monetária, transformando-se em fonte de combate à inflação.

Caso não houvesse fortalecimento dos programas sociais, na linha seguida por Ruth Cardoso e continuada por Lula, certamente, o país estaria em situação muito pior, possivelmente, diante de hiperinflações selvagens, no momento em que o dólar entra em parafuso global. .

A prova de que Lula segue a lição de Ruth foi dada na semana em que ela se foi, lançando sentimento de tristeza sobre a alma nacional: mandou reajustar em 8% o orçamento do Programa Bolsa Família, como forma de compensar a queda do poder de compra dos miseráveis, afetado pela desvalorização da moeda de Tio Sam, detonadora da inflação global.

Se não fizesse isso, sua popularidade começaria a declinar. As crises subconsumistas anteriores poderiam renascer com muito maior força destrutiva.

Lula segue lição de Ruth

Morta, na terça, 24, de arritmia cardíaca, aos 77 anos, Ruth Cardoso, antropóloga socialista marxista, nascida em Araraquara, em 19 de setembro de 1930, criadora e gestora do programa Comunidade Solidária, no Governo FHC, 1995-2002, deu pontapé histórico na virada das políticas governamentais, que passaram a trabalhar a superação da fome, no Brasil, como estratégia de economia política para impulsionar a política econômica.

Lula, com o programa Bolsa Família, segue lição dela, que poderia ter chegado à Presidência da República, se FHC tivesse antevisto o poder político-eleitoral do solidarismo comunitário e a lançado sua sucessora, para enraizar o PSDB nas massas, algo ainda não materializado, historicamente. Teria, talvez, pintado a Evita Peron Cardoso nacional consagrada nas urnas.

Tratou-se de alternativa que iniciou, lentamente, a tarefa capaz impulsionar o capitalismo nacional, livrando-o dos perigos agudos das crises deflacionárias-inflacionárias crônicas decorrentes do subconsumismo propulsor de derrocadas cambiais. Estas foram responsáveis por desmoralizar a moeda nacional e levar o país às recorrentes instabilidades políticas, econômicas e sociais, que balançaram e derrubaram governos, instaurando ditaduras, fragilizando e atrasando processos democráticos.

Os programas sociais, até então trabalhados como assistencialismos populistas, na linha do Programa Legião da Boa Vontade, substituído pelo Comunidade Solidária, a partir de 1995, passaram a exercer papel de estabilizador da inflação. Ao elevarem o consumo interno, por meio de ampliação do poder de compra dos miseráveis, dotados de cartão de crédito, evitaram as repetidas sobredesvalorizações cambiais, baixadas para ampliar as exportações, como forma de diminuir os estoques inconsumíveis.

Antes, os empresários, sob pressão dos estoques altos, impossibilitados de serem consumidos, graças ao crônico subconsumismo nacional histórico, corriam aos governos em busca de depreciações da moeda nacional.

O resultado, invariavelmente, era pressão inflacionária. A taxa de câmbio, ajeitada pelo governo, para permitir desova dos estoques, elevava os preços, corroia os salários, agitava os sindicatos. Impulsionava, enfim, a corrida preços-salários. A instabilidade econômica se transformava em norma cujos efeitos eram, consequentemente, tensões sociais e desestabilizações políticas.

Com os programas sociais, ganhando impulso, a situação começou, gradualmente, a mudar. Primeiro, timidadamente, com FHC, por meio da orientação social, imprimida por Ruth Cardoso ao Programa Comunidade Solidária; posterioremente, com Lula.

Nascido, no Brasil, na Universidade de Campinas; copiado pelo ex-governador Cristóvam Buarque, quando governador do Distrito Federal; semente do Programa Renda Mínima, proposto como projeto de lei pelo senador Eduardo Suplicy(PT-SP), copiado, por sua vez, de ideólogos americanos liberais, o Bolsa Família se afirmou como política governamental indispensável ao sistema capitalista nacional.

Ruth Cardoso, autora de teses antropológicas sobre o desenvolvimento econômico, social e político dos emigrantes japoneses, intelectual de peso específico próprio e respeitada pelos trabalhos acadêmicos que realizou, colocou em prática modalidade de promoção social gestada pela necessidade de preservar o próprio capitalismo.

Enxergou-a como atenuante indispensável ao sistema contra sua tendência natural à sobreacumulação de renda e capital, cujas consequências, como destacou Marx, são crônica insuficiência de demanda global. Ruth Cardoso aprendeu a lição do autor de “O Capital”: “Produção é consumo. Consumo é produção”. Ambos se interagem dialeticamente.

O presidente Lula, como a prática demonstra, intensificou ação nessa linha, fomentando os investimentos sociais. Deu virada histórica capaz de impulsionar o consumo interno, conferindo, por meio do Programa Bolsa Família – extensão quantitativa relativa ao Comunidade Solidária – maior poder de compra aos miseráveis.

Olhar conservador decadente

Colaborador do conservador New York Times, Krugmam finge de morto. Não sabe como tocar o assunto dialeticamente. Se fosse fundo no mesmo, teria que mostrar as entranhas do poder americano apodrecido, ou seja, sua moeda, que vai deixando de ser referência internacional, para dar lugar àquilo que Keynes propôs, um sistema monetário baseado no Bankor, expressão prática de uma cesta de moedas internacionais.

Somente essa nova estrutura monetária daria segurança suficiente aos produtores de matérias primas para evitar especulações com os preços delas, como ocorre com os minérios e o petróleo, levando suas cotações às alturas, gerando pressões inflacionárias incontroláveis. Sem referência numa moeda saudável, o petróleo e o minérios se autotransformam em moeda, em poder monetário irresistível.

Os empresários, em geral, vêem essa evidência com muito mais clareza do que os economistas. Mas, na economia monetária, os empresários, racionais, deixaram de ser referência principal da grande mídia. Esse papel passou a ser representado pelos irracionais, economistas dominados pelo pensamento abstrato, mecanicista, funcionários de elite dos bancos que faturam horrores com a dívida pública interna deslastreados dos governos, propulsora de pressões inflacionárias nos diversos países no compasso da derrocada do poder monetário americano.

As próximas eleições no mundo capitalista desenvolvido, certamente, serão pautadas pela instabilidade do dólar. Como destacou Lenin, são as desorganizações monetárias que podem fortalecer o pensamento socialista internacional. Por isso, apostava nelas.

Krugmam, com certeza, teme a previsão leninista, pois sua materialização representaria fim do poderio imperial americano no mundo e perda da alavanca do pensamento alienado que domina a grande mídia ancorada no fetichismo monetário.