Fracasso de Obama impõe multilateralismo

O pacote Obama está dançando porque os Estados Unidos não são mais capazes de sairem da crise sozinhos. Previsto para jogar 900 bilhões de dólares na praça, para reanimar a produção e o consumo, de um lado, e equacionar o falido sistema financeiro, afetado por créditos podres, de outro, o pacote econômico financeiro se mostra tímido e incapaz de lançar novas expectativas para o capitalismo em crise. A comprovação veio com o pragmatismo da bolsa. Wall Street despencou. Os demais mercados, idem. Obama eleva a desconfiança, quando se esperava dele a restauração da confiança perdida.Evidenciou o óbvio: os Estados Unidos precisarão dos aliados. Urge consertação global, germe de futuro governo mundial, multilateral.
 
Sobretudo, evidenciou-se que o presidente americano está amarrado a uma conjuntura internacional que somente será restaurada se houver consenso internacional. As dificuldades encontradas por Obama para  aprovar o seu pacote no Congresso representam derrota política, como destacou o repórter Merval Pereira, na GloboNews, e , sobretudo, expõem as contradições internas da disputa pela renda nos Estados Unidos, expressa nos antagonismos partidários. Como será feita a divisão dos recursos para a produção e o consumo e quem bancará os creditos podres?
 
Os antagonismos políticos dentro da sociedade americana disputam os despojos do império sem ainda estarem inteiramente conscientes de que não serão suficientes os recursos, sequer para pagar as dívidas das famílias. Os vencimentos das dívidas são os assombrações maiores, tanto para as famílias, como para as empresas. O quadro, como destacou Yoshiaki Nakano, em “A recessão da deflação de ativos”(Valor Econômico, 10.02), impõe a lógica depressiva de a sociedade armar-se não mais para consumir mas para poupar a fim de liquidar papagaios.
 
 
Nova psicologia social
 
A psicologia social desatada pela crise financeira global joga para baixo a característica básica do capitalismo americano, o consumismo estimulado pelas ilusões de Hollywood. Preocupados com as dívidas, como seguir o glamour caro holiudiano?
 
O estouro especulativo ultrapassou as possibilidades de o pacote Obama emplacar positivamente na medida em que ele inverte a lógica das expectativas, assustando a população, já que não tem condições de tranquilizá-la. Ele teria que se socorrer nos aliados que estiveram ao seu lado até agora, para continuar comprando os títulos da dívida pública americana. Do contrário, adeus “American way of life”.
 
Desde o pós guerra, a situação vinha sob controle monetário do dólar lastreado no endividamento dos Estados Unidos, despreocupados com os deficits fiscais e comerc iais, visto que sua moeda passou  ser emitida sem lastro real. Inicialmente, o governo americano ancorou ela no ouro, mas, em 1971, rompeu a relação dela com o metal, deixando-a autonomizar-se sem maiores regras de prudência financeira.
 
A bancarrota financeira, agora, depois de abusos imprudenciais acumulados, põe ponto final a esse privilégio do dólar , mantido até agora, de ser o bam-bam-bam das relações de trocas, afetado pela desconfianças lançadas pelos créditos podres. O governo, para acabar com os títulos bichados, orçados em mais de 4 trilhões de dólares, teria que se endividar em uma escala cujos efeitos seriam lançar desconfianças insuperáveis do mercado na moeda americana. O pacote Obama deixou claro que o mercado visa essa possibilidade terrível, de bancarrota do dólar, depois da bancarrota do mercado imobiliário.
 
Se a moeda americna está contaminada pelos créditos tóxicos e o governo americano encontra-se diante de aliados reticentes e, igualmente, quebrados, indispostos a apostarem no endividamento crescente de Tio Sam, como alternativa para o capitalismo, o pacote de Obama somente daria certo em caso de uma consertação global. Emergiria governo global.
 
 
 
Novo modelo monetário
 
Uma coordenação monetária global pode ser antecipada, se o pacote Obama não der certo. A crise deflacionária incontrolável vai levando a situação nesse sentido, principalmente, quando o próprio governo americano comprova que não tem cacife suficiente para bancar os créditos podres, quando chama a iniciativa privada para dividir o prejuízo.
É o fim da utilidade do estado keynesiano como única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, na condição de irrigador e enxugador de moeda na circulação capitalista. Se ele precisa do setor privado para fazer essa tarefa, deixa de ser o único ou revela a sua impotência para continuar exercendo essa tarefa, na escala em que se deu desde o pós guerra até agora.
 
A confusão gerada pelo pacote Obama representa a confusão do governo americano em abordar a crise sem visão e humildade suficientes, capazes de convocar os parceiros globais mais importantes para dividir o prejuízo e as novas regras limitativas ao poder do dólar e, também, do euro, em uma nova conjuntura internacional.
 
Na prática, os aliados já se desesperam em favor de tendência para materializar novo Bretton Woods. Assim como a Inglaterra, depois da primeira guerra mundial, perdeu o mercado para os Estados Unidos, em decorrência das crises monetárias detonadas pelo enfraquecimento da libra esterlina diante das falências dos devedores dos bancos ingleses, da mesma forma, o dólar, que iniciou, no pós-guerra, o século 20 americano, perdeu gás, graças ao excesso de endividamento, estimulador de bolhas especulativas que acabaram detonado o sistema financeiro americano.
 
Depois da segunda guerra mundial, a macroeconmia capitalista – a nova divisão internacional do trabalho – estruturou-se em cima da capacidade de o governo americano emitir moeda enxugada pelos títulos da dívida americana enquanto os aliados comprariam tais títulos em troca da garantia das exportações aliadas para o amplo mercado consumidor dos Estados Unidos.
 
Os deficts comerciais e fiscais americanos dinamizaram a economia global enquanto o tesouro dos Estados Unidos acumulava superavits financeiros, graças ao poder de senhoriagem global do dólar como moeda dominante na intermediação das trocas internacionais. Os créditos podres, cuja destinação o pacote Obama não consegue definir com clareza,  lançam dúvidas terríveis nos aliados dos americanos, aumentando a resistência deles à tarefa de continuarem financiando o governo americano quando o sistema financeiro dos Estados Unidos se encontra quebrado e o governo se mostra impotente para dar suporte a ele em forma de ampliação da capacidade de endividamento dos Estados Unidos.
 
Conscientes dessa dificuldade do governo americano, atolado em deficits, que se aproximam dos 7% do PIB, podendo desgovernar-se para 10%, os aliados, sem o mercado americano para desovar suas mercadorias, como antigamente, recuam, estrategicamente, na tarefa de continuar bombeando a dívida americana em troca de títulos do tesouro dos Estados Unidos, como faziam até antes da crise estourar em setembro do ano passado.
 
 
 
O rei está nu
 
Obama, a caminho do fracasso, se não encomendar sua alma a um novo Bretton Woods, para que os aliados, igualmente, falidos, criem novo sistema monetário internacional, capaz de eliminar os créditos podres, na canetada, com os americanos rendendo-se a um novo poder monetário compartilhado, poderá, já, já, enfrentar estouro bancário americano, que , por sua vez, explodirá a Europa, entupida de créditos podres, passados pelos bancos americanos.
 
Pode pintar umas quatro moedas. Continuaria o dólar, ancorado na riqueza americana, que é poderosa, mesmo baleada, graças ao poder de inovação tecnológica adquirido pela sociedade em seu conjunto. Ao lado da moeda americana, relativamente reavaliada em seu poder de troca, estariam, também, uma moeda européia, uma asiática e, provavelmente, uma sul-americana, se a América do Sul se unir para valorizar o seu potencial econômico em nova conjunutra internacional pós-dólar todo poderoso. Seria possível ainda uma moeda árabe, ancorada no poder do petróleo.
 
O pacote Obama, que abre expectativa de novo contexto, na medida em que obnubila o horizonte, ainda impossível de ser dimensionado em sua total complexidade, demonstra que o unilateralismo foi para o baú da história. Somente pelo multilateralismo será possível resolver o colapso americano e europeu, ou seja, a derrocadas das duas mais fortes moedas capitalistas erigidas ao longo da história do capitalismo, depois do predomínio da libra, nos séculos 18 e 19.
 
Nova divisão internacional do trabalho, no compasso dos desajustes do capitalismo, sinaliza necessidade de nova concertação internacional, governo mundial. A alternativa seria retorno ao protecionismo, isto é, ao retorno do fascismo e possível terceira guerra mundial. Enfim, destruição atômica. O rei está nu.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Energia alternativa, bandeira para prefeitos

Os prefeitos desembarcam em Brasília, hoje, para um encontro nacional com o presidente Lula, em situação de penúria financeira total. A crise capitalista em curso que paralisou a produção e o consumo diante da supressão do crédito afetado pela bancarrota financeira tende a deteriorar a arrecadação tributária, e sem a receita dos impostos, em escala suficiente, os municípios entram em falência.
 
Querem os prefeitos mais dinheiro. A fórmula que buscam é uma moratória em forma de renegociação dos compromissos municipais com o INSS. Seriam esticadas dívidas e reduzidos juros sobre elas. elevando-as constantemente em ritmo incontrolável. Limpos, relativamente, seus passivos, Livres da falência financeira, os governos municipais, desimpedidos legalmente, poderiam renovar convênios com o governo federal. Receberiam recursos estatais para movimentar obras conjuntas governo federal-governo municipal. Acelerariam muitas obras do PAC.
 
Tal renegociação financeira fortaleceria a política anticíclica governamental via transferência financeira estatal ou desoneração de tributos, como é o caso.  Ampliaria o governo federal, consequentemente, sua base de arrecadação tributária, esquentando relação financeira governo-federal-governo municipal, expressa em forma de demanda aos setores produtivos em geral. Sustentaria, ao mesmo tempo, os propósitos governistas, tanto na superação da crise econômica , como na criação de condições favoráveis a uma aliança governo federal e prefeituras com vistas à sucessão lulista em 2010, fortalecendo a candidata do presidente, Dilma Rousseff.
 
 
 
Estatal de energia alternativa
 
Mas, para além dessas medidas emergenciais, o governo poderia aproveitar a motivação que o move a agir favoravelmente aos prefeitos, para abrir para abrir novas oportunidades, especialmente, para o desenvolvimento regional sustentável, favorecendo investimentos municipais, em escala nacional, voltados ao incremendo da energia alternativa sob comando das prefeituras em aliança com empresa estatal de energia renovável, cuja campanha pela sua criação está nas ruas.
 
Estariam assentadas as bases necessárias para dinamizar a nacionalização dessa riqueza – cana, para o etanol, e oleaginosas, para o biodiesel –  por intermédio de uma empresa estatal com a responsabilidade de gerenciar esse programa nacionalista.
 
Ele teria condições amplas de gerar uma nova base de produção sustentável sob comando do Estado, que atuaria com as prefeituras de todo o país, tendo como norte principal a geração de emprego e renda para as populações de baixa renda mediante desenvolvimento ecologicamente sustentável.
 
A cana produzida seria comprada pelas usinas que teriam a empresa nacional de energia como receptora e comercializadora do produto mediante mecanismo de distribuição da renda entre estado e prefeituras, como se faz na extração do petróleo, cujo lucro, uma parte é distribuida para as prefeituras em forma de royalties.
 
O estado, que é a solução para a crise capitalista em curso, levando o capitalismo a uma solução não meramente econômica, lucrativa, mas, sobretudo, social, socialista, geraria nova correlação de forças econômicas no plano federativo, de fortalecimento das bases econômicas e políticas nacionais, superando os impasses da concentração econômica predominante no modelo de desenvolvimento nacional.
 
Ocorreria amplo fortalecimento da agricultura familiar, aumentaria a produção de alimentos e desincharia as cidades, afogadas na contradição capitalista insolúvel.
 
 
 
Desenvolvimento sustentável socialista
 
Estariam abertos espaços para ampliação de novos paradigmas econômicos, avançando do capitalismo, que não está dando mais respostas satisfatórias para a reprodução do capital, em sua marcha de destruição da natureza, para o socialismo, que caminharia em direção contrária, distribuindo o capital e bancando a sustentabilidade natural.
 
A empresa estatal de energia alternativa representaria nova proposta de desenvolvimento em que o econômico e o social se mesclam em favor de promoção da produção e do consumo comprometidos com a sustentabilidade ecológica, para além do egoismo capitalista.
 
A municipalização da produção energética nacional significaria, enfim, passo decisivo capaz de bombar uma nova consciência ecológica a partir da base econômica e social que se localiza no município, berço fundamental da sociedade, do movimento social e das pressões em favor de mudanças sob a participação popular.
 
Esse é o movimento que nasceria mais intensamente num contexto em que as contradições capitalistas apontam para superação, ainda sob resistências conservadoras de uma estrutura produtiva concentora de renda, impeditiva do desenvolvimento social no cenário da crise que exige maior participação da sociedade nas mudanças, bloqueadas pela mera representação democrática conservadora.
 
 

Crise fortalece comunismo

A violenta crise econômica em marcha está transformando o Estado em grande banqueiro, grande empresário, grande investidor e instrumento de combate à inflação, irrigando e enxugando a circulação monetária para tentar manter funcionando a produção e o consumo, a fim de evitar explosão do desemprego e do regime capitalista. Mas, para salvar o capitalismo o governo está ganhando, com seu aspecto interventor, a feição comunista, pregada por Lenin, na revolução soviética. Em seu famoso livro “Tacão de Ferro”, prefaciado, de forma entusiástica por Trotski, Jack London, em 1910, traçou em linhas gerais o que está acontecendo, agora, no auge da crise capitalista. 

 

Em nome do interesse público, previu,  o governo é obrigado a dominar a cena econômica, transformando-se em grande oligopólio geral, porque o sistema, sob a lei de mercado, se auto-condena ao suicídio econômico no estouro especulativo suicida. Ergue-se o oligopólio estatal financeiro para dominar o falido oligopólio financeiro privado, atolado nos créditos tóxicos, totalmente, podres, obstruindo o canal global do crédito, da produção e do consumo, jogando o sistema da deflação autodestrutiva.
Entra o Estado em campo para evitar que a moeda seja destruída , como corre perigo o dólar, se a crise bancária avançar perigosamente, e se o pacote Obama não for uma brastemp, como parece que não é, dadas as controvérsias lançadas no Congresso, onde o presidente tem maioria. Imagine se não tivesse…
Configura-se a emergência do governo nos moldes comunistas leninistas em que a interferência estatal na questão financeira se faz absolutamente necessária, para regular as relações de trocas deterioradas pela especulação que detona a desconfiança geral na moeda, predispondo o ser humano, diante da queda do seu poder de compra, a reações radicais. Lenin , em 1914, no auge da pre-primeira guerra mundial, disse que as crises monetárias representam a melhor propaganda para o movimento socialista internacional.

Bancarrota empresarial

O setor privado, falido pela interrupção da circulação do crédito, do qual depende, porque o crédito apodreceu na especulação, entrou em estresse total, recorrendo-se, em última instância, ao espectro político leninista global em ascensão. Sua restauração somente torna-se possível mediante interferência do governo em face da falência privada. Antônio Ermírio de Moraes, maior empresário nacional, que o diga. 
Como instituição que paira acima dos interesses do capital e do trabalho, para evitar desarranjo geral que lança um contra o outro em total autodestruição em forma de desemprego e falência deflacionária de empresas, o governo, que emite e que enxuga moeda, por ser, segundo Keynes, única variável econômica, verdadeiramente, independente sob o capitalismo, vira salvador da pátria.
Mas, ele terá, certamente, que adequar-se às novas correlações de forças políticas geradas no processo, pois este não se faz no exterior da realidade, mas em meio ao antagonismo social, que, na crise, radicaliza. Nesse contexto, os próprios capitalistas pedem água ao Estado, para socorre-los em sua total anarquia produtiva, voltada à sobreacumulação de capital especulativo que, agora, destrói o próprio capital. 
Evidencia-se, pela boca os próprios neoliberais de ontem, a necessidade de o capitalismo ser melhor organizado pela ação estatal. Vale dizer: comunismo em marcha no rastro da crise capitalista global para tentar salvar o próprio capitalismo altamente desorganizado. Ou para destruí-lo?

Moratória estatal comunista

Assim como nos Estados Unidos o presidente Barack Obama está entre a estatização bancária ou a quebradeira dos bancos, tecnicamente, falidos pelos excessos de créditos tóxicos, podres, em carteira, podendo gerar estouro mundial, no Brasil, também, diante da rápida desaceleração econômica e da resistência dos bancos em ampliar o crédito a juros mais baixos, sinalizando quebradeira de empresas grandes, pequenas e médias, o presidente Lula, pressionado pela avanço do desemprego,  está sendo obrigado a avaliar medidas econômicas salvacionista, que, na prática, representam moratória público-privada com dinheiro público  como antídoto à violenta bancarrota global. Comunismo em marcha com dinheiro do contribuinte.
A queda de 12% da produção industrial em dezembro de 2008 relativamente a novembro e de 14,5% em comparação a dezembro de 2007 está impondo a necessidade de o governo promover amplas renegociações das dívidas de empresas e de governos municipais e estaduais, todos falidos. Para tanto, deverá lançar mão, a partir de agora, das reservas cambiais que estão em torno de 207 bilhões, antes que elas possam virar pó, se o dólar despencar em face de quebradeira bancária americana em marcha acelerada.
Depois de salvar, temporariamente, grandes grupos econômicos que , na fase áurea da economia, abusaram das dívidas e das jogadas especulativas-derivativas, como foram os casos das empresas Votorantim, Aracruz Celulose, Sadia  entre dezenas de outros casos, as autoridades econômicas preparam novos socorros emergenciais, assumindo, agora, dívidas externas de 4 mil empresas exportadoras que perderam gás financeiro por falta de crédito interno e externo. Moratória em forma de estatização da dívida externa privada. Comunismo estatal a serviço do lucro privado?  São 36 bilhões de dólares de buraco financeiro, reservados pelo BC para socorro.

Lula saca reservas contra crise

Ao mesmo tempo, o governo está sendo chamado a renegociar, urgentemente, dívidas dos governos estaduais e municipais, que, na crise de realização da produção no consumo, perdem receitas e se vêem impedidos de cumprir seus compromissos com o governo federal relativamente aos seus endividamentos. Tornam-se necessárias, dessa forma, amplas renegociações, que, como a história tem demonstrado, se estendem no tempo. Na sequência da moratória privada, entra em campo a moratória pública. Comunismo público-privado. Nova China em ascensão?
Dependurados nas dívidas junto ao INSS, prefeitos não podem dispor de cadastro limpo, legalmente, exigido, para realizar convênios com o governo federal que repassa por intermédio deles verbas para realizar obras conjugadas – governo federal-prefeituras. O dinheiro repassado para dinamizar investimentos públicos, entre eles os referente ao PAC, engordado em mais de R$ 142 bilhões, para bombar a candidatura da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, significa aquecimento da produção e consequentemente da arrecadação tributária dos estados e municípios etc. 
Trata-se, portanto, de socorrer prefeituras e governos estaduais, renegociando prazos e juros de dívidas federativas que nunca são inteiramente pagas, mas, eternamente, esticadas, para abrir espaço para novos negócios que seriam trazidos pela circulação do dinheiro previsto para o PAC.  Agora, a negociação se faz com prazos de 20 anos – outros 20 já haviam sido dados – e juros pela TJLP(6,5%/ano) em vez de Selic(12,75%), sendo a fatura bancada, claro, pelo tesouro. O resultado é ampliação do endividamento governamental e maiores tensões financeiras que se traduzem em juros altos, bloqueadores das atividades produtivas em geral. O comunismo renasce cheio de dívidas e pepinos gerais.
O governo, em rítmo comunista, endivida-se, forçosamente, como arma para tentar dinamizar a economia. Prefeituras precisam estar saneadas para enfrentar novos projetos, novas dívidas, novas inadimplências , dentro da lógica do modelo de desenvolvimento concentrador de renda e poupador de mão de obra, enfrentando suas violentas contradições no balanço da crise global, sob batida estatal pró-comunista. Lenin está chegando ao poder.

Esperteza da Febraban

A elasticidade da capacidade governamental para endividar-se no momento de crise estende-se, ainda, à possibilidade de aceitar a proposta dos bancos privados de criar fundo de crédito para emprestar dinheiro para as pequenas empresas sujeitas à inadimplência. Espertamente, os banqueiros querem fazer favor com o pescoço do enforcado, pois pregam que o risco seja bancado pelo governo na intermediação do dinheiro – cerca de R$ 5 bilhões –  que emprestarão, cobrando juros de mercado, ou seja, extorsivos. As pesquisas do Banco Central, demonstrando que os juros no crédito pessoal e no cheque especial alcançam até 1.400% ao ano, colocam os banqueiros nacionais como maiores agiotas do mundo, candidatos ao fuzilamento em praça pública, se um novo Lenin subir ao poder, como resultado da implosão capitalista.
Cairá o Planalto nesse canto de sereia neoliberal da Febraban, ou vai ampliar a estatização bancária leninista , como forma compensatória pelo recuo dos grandes bancos privados em exercer, como concessionários do Estado,  o papel de emprestadores com recursos do depósito compulsório a custo zero como forma de minimizar a crise do crédito?
O contexto econômico em franca deterioração desenha o governo Lula em transformação quantitativa e qualitativa, tomando forma  de banqueiro-empresário-investidor – retrato acabado da proposta comunista de 1917 – , ao mesmo tempo em que vira instrumento de combate à inflação, evitando a expansão da deflação, como aconteceu em dezembro e janeiro, materializando a recessão braba em marcha no setor industrial. 
A resposta de Lula – neo-Lenin? – foi a de redobrar as apostas no aumento dos gastos públicos, lançando mão, de agora em diante, nas reservas cambiais de 207 bilhões para bancar moratórias público-privadas explícitas e implícitas, enquanto avança na estatização bancária forçando os bancos públicos a cobrarem juros mais baixos, para forçar o oligopólio financeiro privado a entrar na concorrência do mercado de dinheiro. Está, por enquanto, perdendo a parada
Volta a ocorrer fenômeno semelhante ao registrado na crise monetária dos anos de 1980, quando, diante da redução da oferta de crédito internacional às empresas privadas, o governo, emergencialmente, lançou mão das empresas estatais, para levantar recursos nos bancos internacionais, a fim de fechar deficits do balanço de pagamento. A crise internacional de 2008/2009, ao fechar, dessa vez, o crédito até para as grandes empresas governamentais, obriga o governo a lançar mão de suas reservas cambiais salvacionistas ou a emitir dinheiro para engordar o Fundo Soberando Brasileiro(FSB), para tentar bancar o PAC, tendo como contrapartida perigosa o avanço excessivo do endividamento governamental..
 

Milagre do PAC rousseffiano leninista

O governo, como banqueiro irrigador e enxugador de dinheiro, entrou num rítmo sobre o qual não tem controle. Ao salvar os bancos inadimplentes, de um lado, e os empresários e executivos estaduais, de outro, configurando a moratória público-privada em ascensão, amplia-se, por sua vez, o deficit público, cujos limites extrapolados deixarão os credores da dívida pública interna ainda mais desconfiados da saúde financeira governamental, reconhecidamente, precária.
 
Nesse contexto, no qual busca espaço para preservar o seu principal triunfo, o PAC, o Planalto, com recursos limitados pela enorme dívida interna, que impõe desembolsos, em forma de juros, da ordem de R$ 200 bilhões por ano, tenta fazer das tripas o coração. Promete colocar mais R$ 120 bilhões nos cofres do BNDES, para sustentar a dinâmica econômica privada e anuncia, como fez na quarta, 05, mais R$ 142 bilhões para o PAC, previsto para ser desembolsado até 2010. Parece mágica.
 
Os números do PAC, apresentados pela ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, demonstram falibidade do programa ao longo dos dois anos de sua existência. O orçamento fiscal de 2008 destinou ao PAC R$ 18, 9 bilhões, dos quais R$ 17 bilhões foram empenhados, mas somente R$ 3,8 bilhões , efetivamente, pagos. Mais papel que realidade. 
No acumulado de 2007 e 2008, os empenhos somaram R$ 33 bilhões, sendo pagos a metade, R$ 18 bilhões. Ou seja, somente 50% de execução. Tal fato demonstra excessivo otimismo governamental quando diz que vai gastar em 2009 e 2010 R$ 145 bilhões, aproximadamente. 
Difícil dissociar tal otimismo inflado dos propósitos lulista de embalar a candidatura Dilma, que avançou dos 10% na pesquisa Sensus, evidenciando dispor de dispor de vigor para crescer. No compasso da crise, o presidente Lula vai tentando chupar cana e assoviar ao mesmo tempo.
De um lado, joga com a moratória público-privado, como esforço de estabilização econômica anticíclica; de outro, tira leite de pedra, inventando recursos para bombar o PAC e candidatura da sua preferida na sucessão presidencial 2010.

Letra do Tesouro para povo enfrentar crise

A melhor forma de superar a crise é ampliar a distribuição da renda por meio dos programas sociais e dar oportunidade para os brasileiros pouparem ganhando como os grandes bancos. Por que a sociedade ganha um juro de poupança ridículo(6%), enquanto o banqueiro fatura o juro absurdo da selic(12,75%), comprando letras do tesouro? Já chegaram a ganhar 45%, em 1997/98, na Era FHC.
Se o governo lança letras do tesouro para serem adquiridas pelo poupador em compras de balcão, sem intermediários e custos financeiros altos de intermediação, garantida pelo tesouro, terá o financiamento popular para o desenvolvimento nacional. No momento em que os bancos se recusam a emprestar a poupança mal remunerada do povo para movimentar o crédito, a produção e o consumo, paralisados pela crise, preferindo jogá-lo na compra especulativa dos títulos públicos, ganhando o triplo, tal possibilidade pode ser ampliada para todos, como solução para o próprio dinamismo do consumo, visto que a poupança virará consumo se houver equalização nos ganhos do poupador e do aplicador(bancos). Tal equalização, produzirá, por sua vez, novas expectativas no mercado para sustentação da taxa de investimento, minimizando os temores presentes quanto ao futuro da economia nacional.
Seria a materialização da poupança nacional popular aliada ao esforço de desenvolvimento nacional, assegurando produção e consumo relativamente equilibrados na crise, em razão da disponibilidade de poupança para gastar e investir. Se o povo obtém não apenas o jurinho de 6% da poupança garantida pelo governo, mas os 12,75% dos juros básicos selic, que os bancos auferem nos títulos, haveria maior justiça econômica e social a partir dos ganhos da poupança nacional que, igualmente, representa o investimento nacional.
Chegou a hora do pobre fazer o nobre. Isso somente será possível se forem elevados os ganhos dos mais pobres. Por que só os bancos terão essa mamata, que leva-os a aplicarem no exterior, etc e tal? O dinheiro do povo, na letra do tesouro popular, não iria para os paraísos fiscais. Ele deslocaria, isso sim, para o comércio, a indústria, a agricultura e a cultura, que, se estiverem girando, estarão rendendo impostos para o governo, que, por sua vez, ampliaria investimentos públicos, PAC etc.
Haveria , ai, uma corrente positiva para promover o desenvolvimento sustentável. A letra do tesouro popular seria instrumento de irrigação do mercado de dinheiro que por sua vez garantiria oferta de crédito mais substantivo a preço mais baixo, dada maior garantia de rendimento dado pela garantia do tesouro em poder dos portadores. Chegou o momento de descolonizar economicamente o país dos financistas, que escravizam o povo com o juro alto.

Dinheiro ao portador

Até o valor R$ 1.000 reais portador a letra teria poder de compra para pagamentos e recebimentos, esquentando o meio circulante. 
A utilização requererá flexibilidade. O poupador poderá fazer a sua carteira com letras de diferentes datas de resgates de acordo com seus compromissos. O pai de família, por exemplo, que tem compromisso de pagar colégios, aluguéis e outras dividas mais, todo mês, se organizaria na compra dos papéis com prazos de vencimento adequados ao cumprimento de seus compromissos. 
A letra do tesouro cobriria os prazos dos compromissos assumidos pelo cidadão, mantendo seu poder de compra. Flexibilidade seria, portanto, principal da regra de utilização da letra do tesouro popular. Seria criada cultura popular de o poupador ir ao banco, adquirir no balcão, sem intermediário, com prazo de resgate fixado, tendo como garantia o valor de face dado pelo teosuro nacional. No mercado, pode ser negociável. Naturalmente, nesse contexto, o preço da letra flutuará, como qualquer outra mercadoria, no compasso da oferta e da demanda.
As principais vantagens seriam transparência, facilidade e custo barato. Acabam as taxas que o sistema financeiro cobra para emprestar ao cliente sujeito ao saguessuguismo jurista. O custo da letra é minimo, seu portador vende a hora que quiser, ao próprio banco, ao preço do dia, dispondo de uma variedade de renda decorrente da variedade dos prazos dos títulos que possuir em sua carteira de letras do tesouro nacional.
 

Cooperação contra ganância

Os banqueiros privados estão dando largas demonstrações de que não são solução para o desenvolvimento enquanto agentes cujos interesses são somente lucros especulativos. Ao contrário, estão se revelando problema. Não utilizaram os depósitos compulsórios que recebem a juro zero para emprestar, a fim de minimizar a crise financeira. Não aceitaram as recomendações do governo para que os grandes bancos adquirissem os pequenos, com dinheiro público, para atenuar as expectativas pessimistas, evitando o que já está acontecendo, ou seja, a recessão. Sobretudo, os bancos passaram a cobrar juros mais altos em um cenário de desaceleração. Fizeram tudo para agravar a crise. Buscaram segurança no juro mais alto e nos títulos do governo, aos quais têm acesso exclusivo. Por que só eles?
Demonstraram os banqueiros inexistir entre os próprios grandes bancos qualquer espírito cooperativo. Revelaram-se, do ponto de vista do interesse público, no qual se centra  o governo, nesse instante, incompatíveis com a mais importante lei ideológica do capitalismo, o Utilitarismo. Jogaram no luxo o critério de utilidade, tornando-se inúteis, problemáticos.
A solução não é acabar com os lucros dos bancos, mas o privilégio dos bancos. O povo merece ser o agente número um do desenvolvimento, sem os intermediários financeiros, para se transformar, com sua poupança , em motor do desenvolvimento nacional, no ambiente da crise mundial. O país dispõe das riquezas de que o mundo capitalista precisa e a mão de obra diligente para conquistar o espaço capaz de transformar a economia nacional na mais forte do mundo nos próximos vinte anos. No ambiente monetário, onde moedas podem se transformar em pó, o Brasil dispõe de riqueza real cujo potencial abre as portas do mundo ao país nos foros internacionais. 
Basta sair da canga financeira, da armadilha da dívida , que se transformou na escravidão nacional imposta pelo juro alto. Se o juro alto só tem beneficiado os grandes, a saída é beneficiar, com ele, também, os pequenos, permitindo acesso aos ganhos que os grandes conseguem obter por meio da democratização das oportunidades para o poupador. Se o juro alto distribui a renda para o rico, poderá distribuir, também, para o pobre, a partir das letras do tesouro.

Globo(quem diria!) estimula chavismo

Transversalmente, o jornal Globo, na linha neoliberal, está, curiosamente, apostando suas fichas políticas no movimento chavista nacionalista sul-americano. Se não aposta, estimula. A possibilidade de estar caminhando nesse sentido fica explícita com sua posição tendenciosa e alienada relativamente a providências econômicas do governo Lula que estabilizariam a economia e a sociedade, na hora de crise aguda, como é o caso da decisão governamental de incrementar os gastos sociais como prática econômica anticíclica, bombando o Programa Bolsa Família. Critica a providência que evitaria aprofundamento da deterioração econômica e social, dada pela crise mundial, levando ao avanço do desemprego e dos movimentos sociais em escala considerável com o discurso nacionalista chavista que tanto o sistema global esculacha, temendo avanço da promessa de democracia participativa bolivariana revolucionária na América do Sul.

O Globo combate ideologicamente o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, mas condena decisões lulistas que arrefeciariam, no Brasil, caminhada chavista, expressas em melhor distribuição da renda como principal antídoto da crise, traduzido no investimento no Bolsa Família. Os herdeiros de Roberto Marinho atiram num rumo, mas podem acertar em outro, contrário aos seus próprios interesses. Qual seria o interesse dos Marinhos, fomentar Chavez ou opor-se a Chavez?

A manchete do Globo, quinta-feira, 29.01, “Lula amplia Bolsa Família um dia após cortar orçamento”, induz o leitor a concluir que o programa social é mero gasto público sem vinculação com a economia e a crise que amplia o desemprego, portanto, ônus para a sociedade, que, no ambiente de contenção de despesas, exigiria austeridade e corte de gastos e não ampliação deles. Os comentaristas globais carregaram a mão sobre o assunto, enfatizando, pelo tom da apresentação da (des)informação, ser a decisão inconveniente à luz dos acontecimentos, cujos desdobramentos não são possíveis, por enquanto, de serem contidos em sua arrancada deflacionária autodestrutiva do capitalismo mundial.

Correram os repórteres globais para escutarem a oposição. Seus oráculos pregaram prioridades – não falaram quais – e fim do desperdício. A manchete cumpria seu papel: caracterizar o programa Bolsa Família como um desperdício, criticado pela oposição, que já está em campanha para 2010, jogando contra o governo, incomodada por ele estar apertando os banqueiros, maiores anunciantes da grande mídia.

 

Alienação informativa

Na prática, a manchete global é pura alienação. Ora, se o pobre, que tem no seu cartão de crédito popular do programa Bolsa Família poder de compra para adquirir uma lata de óleo de soja, esta vai ser reposta na prateira do supermercado pela indústria que comprará da agricultura que irá ao comércio comprar máquinas, equipamentos e matéria prima. Ao mesmo tempo, o ato de consumir dos pobres, gerará circulação de dinheiro e, consequentemente, imediata arrecadação aos cofres do tesouro. 
No ato de gastar do consumidor, o governo já começa a arrecadar 40%, peso da carga tributária no lombo da população sem benefício social correspondente. Se a circulação abrange até cinco etapas – comércio, indústria, agricultura, serviços, transportes etc – , e sabendo que em cada etapa da circulação do dinheiro lançado pelo governo, entra no cofre do tesouro 40%, ocorre o milagre da multiplicação pela circulação. Se ele joga 100 reais no meio circulante, recebe de volta, no máximo, 500; no mínimo 350/400 reais. Grande negócio para o Estado, para dispor de investimentos públicos na hora da crise. Onde está o desperdício? Keynes diria: burrice global.
Na verdade, a grande mídia ainda não entendeu que o relativo desenvolvimento na Era Lula decorreu da opção lulista em matar a fome dos pobres com três refeições diárias, conforme prometeu em campanha eleitoral. Ampliando a oferta dos cartões de crédito do bolsa família terá cumprido a promessa que estabilizou relativamente a economia, por meio da distribuição da renda nacional via programas sociais. Entraria para a história.
A excessiva concentração da renda nacional, característica do modelo concentrador de renda e poupador de mão de obra, foi, sob Lula, melhor atacada socialmente. Ao colocar em circulação 50 milhões de quilos de comida-dia no mercado por meio do consumo dos miseráveis, keynesianamente, bancado pelo governo, o presidente Lula deu uma virada qualitativa na economia capitalista brasileira, relativamente, ao status quo colonial predominante de Cabral a FHC. Antes predominava capitalismo sem consumo, sustentado, apenas, pelos subsídios estatais à classe média consumista. Depois, com Lula, passou a predominar o consumismo popular, antes inexistente. De barriga cheia o miserável empreendedor vou ganhar um trocadinho a mais para consumir mais etc. Pragmatismo lulita distributivista é a contribuição histórica do operário que chegou à presidência da República, no panorama histórica da super-concentração da renda nacional.
Até então, ganhavam keynesianismo estatal apenas as empresas por meio do BNDES, o hospital-empresarial criado por Getúlio Vargas para tomar conta dos falidos empresários nacionais, eternamente dependurados na teta nacional.
Como disse Delfim: “Se não fizer chover nas cabeceiras….” Lula passou a chuviscar, também, para os excluídos. Evitou, garantindo comida aos miseráveis, a perigosa insuficiência crônica de consumo, subconsumismo, tema de tese de mestrado em economia nacional do governador tucano de São Paulo, José Serra.

Burguesia midiática burra

O programa Bolsa Família garantiu barriga cheia, que, segundo Fidel Castro, evita revolução. O consumo do pobre incrementou a indústria do rico. Evitou que os empresários caissem na armadilha da perversidade do modelo econômico capitalista tunipiniquim nos moldes neoliberais radicais.
A concentração da renda nacional tornara a economia dominada pelo subconsumismo, que levava sempre à formação de estoques, exigindo desvalorização cambial para exportar, cujo resultado final era hiperinflação, queda dos salários e aumento dos lucros, enfim, mais concentração.
O aumento do consumo interno, via barriga cheia da pobreza, expressa no poder de compra popular inserido no cartão de crédito do Bolsa Família, evitou a formação de estoques, valorizou a moeda e diminuiu a inflação importada, enquanto perdurou a farra da economia dos países ricos regada pelos derivativos que ficaram tóxicos na bancarrota imobiliária e bloquearam o crédito mundial, jogando o capitalismo no imponderável.  Mas, aí, é outra história. Não foi Lula que jogou o país no desemprego ascensional presente.
 
Ora, se a crise aumenta o desemprego, que reduz o consumo já afetado pela desaceleração global, forçada pela escassez de crédito, o Bolsa Família revigorado para bancar o consumo não mais dos pobres, mas, também, dos desempregados, que engordarão as filas da pobreza, mantido o rítmo violento das demissões, resultará em relativa estabilização da própria produção nacional. O Globo, ao não entender a lógica do fator anticíclico do Bolsa Família, deixa de prestar serviço ao seu consumidor, o leitor. Não o informa, aliena-o.
O governo, gastando em programa social, estará gerando consumo, garantindo a produção industrial e a estabilidade do trabalho no ABC, por exemplo, onde gesta a insatisfação social, no ritmo deflacionário que vai destruindo, primeiro, os salários, em seguida, o capital.  O Globo ainda não entendeu que a inflação, sim, aleija, mas a deflação, mata. Escolha de Sofia. Os globais vêem a inflação sem o seu conteúdo político, de evitar a emergência do socialismo, como diz Lauro Campos, em “Inflação, instrumento de controle social”.
 

Governista ou oposicionista?

A manchete do Globo é totalmente desfocada da realidade. É pura ideologia marginalista. Dá o discurso errado para a oposição, que, sem discurso, está pegando qualquer porcaria. 
É, o poder global, quem sabe, manipulando o PSDB e o DEM, pode estar sendo útil para o presidente lula, embora simule querer destruí-lo. O tiro poderia sair pela culatra, se o Bolsa Família, engordado para sustentar o consumo que está sendo destruido pelo avanço do desemprego,  começar a esvaziar os estoques acumulados do setor privado.
A grande mídia colonizadamente está aplaudindo, sem restrições, o keynesianismo explícito  do presidente eleito Barack Obama. A cobertura do Congresso americano está mais quente do que a cobertura do Congresso nacional, onde o PMDB poderá ter , de agora em diante, Sarney com cara de Ulisses Guimarães, aaargh.
Já, relativamente, a Lula, o poder midiático impõe seguidas restrições, como se as finanças do governo americano não estivessem mil vezes piores do que as do governo brasileiro, cercadas de desconfiança global. Os governos dos países ricos demonstraram à grande mídia que não seguem o discurso que ditaram para ela relativamente aos países pobres. Por que os pobres não poderiam então seguir o exemplo dos ricos visto que a pregação deles para o mundo entrou em colapso?

Lula repete Getúlio sob ataque burguês

Getúlio Vargas, se vivo fosse, leria a manchete do Globo, coisa que Lula disse não gostar de fazer, deixando a tarefa para Franklin Martins, e concluiria: “Estou querendo ajudar esses capitalistas burros brasileiros e eles não estão entendendo”. Se o Bolsa Família não for acionado , o desemprego avançará, incontrolavelmente, e as barricadas urbanas serão levantadas, imediatamente, sinalizando guerra civil e emergência socialista. 

A manchete do Globo demonstra que a inteligência global não percebeu que o Estado, como disse Malthus, é o complemento da demanda que não se realiza pelo setor privado, visto que sua lógica é a de promover, no capitalismo, crônica insuficiência de consumo, de um lado, e sobreacumulação de capital, de outro, como diz Marx em O Capital.

Roosevelt é endeusado pela grande mídia por ter mandado plantar cactus no deserto de Tennesses, como forma de gastar para gerar consumo e arrecadação para o governo investir, mas, se Lula faz a mesma coisa com o Bolsa Família, é sacaneado como promotor do desperdício. Medidas anticíclicas não podem ser adotadas pela periferia capitalista, apenas pelo capitalismo cêntrico. 

Estado é capital

O fato é que, como diz Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”(Campus, 1980), um clássico da economia política,  o Estado é capital. O dinheiro estatal na economia monetária, que substituiu o padrão ouro do século 19, para salvar o capitalismo da crise de 1929, movimenta a circulação e eleva a arrecadação. 
Como representa desperdício, se , na circulação, o capital estatal arrecada 40% de imposto, que vai proporcionar investimentos públicos e consumo para bancar o setor privado, que está afogado na falta de demanda, em meio à derrocada global?
A incompreensão da grande mídia relativamente ao papel dos programas sociais, na Era Lula, de estabilizador do poder da própria burguesia nacional, eternamente, falida nos cofres do BNDES, é dada pelo vício do pensamento mecanicista midiático que raciocina como se a realidade fosse a priori dada por modelos matemáticos, sem perceber que a matemática, como disse Hegel, se realiza no exterior da realidade, não podendo, pois, determiná-la.  
Na prática, os programas sociais, na fase do capitalismo em que o emprego acabou, como destaca Jeremy Rifikin, em “O fim dos empregos”, são os bombeadores do consumo dos que ficaram excluídos socialmente. Como ainda lhes restam uma função essencial, sob o capitalismo, ou seja, a de consumir, pois , os pobres consomem, na medida em que tal consumo for assegurado, a insuficiência de consumo, que tende a destruir o capitalismo, como reconheceu Malthus,  estaria arrefecida, salvando o próprio sistema. 
Mas, vai tentar colocar essa dialética na cabeça global…. Perdidos no vendaval das falidas ilusões econométricas dos modelos capitalistas de reprodução do capital em condições ótimas de temperatura e pressão equilibristas, sujeitas a chuvas e trovoadas, os globais tentam adicionar mais neoliberalismo no fracasso neoliberal tóxico explícito. Inteligência global é isso aí.