O fim da pré-história

 

Onde está Francis Fukuyama, aquele que, sob aplauso da grande mídia nacional e internacional, escreveu em 1989 ensaio famoso intitulado “O fim da história”, como comemoração à vitória ideológica neoliberal diante da queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética e consequente  soerguimento do unilateralismo político americano na condução dos assuntos internacionais, sem levar em consideração a opinião dos outros?

O princípio único fukuyamista, que caracterizou o neoliberalismo em sua tentativa de ressurreição no século 20, a partir do final dos anos de 1970, depois de ter falido no final do século 19 e implodido no inicio do seguinte, no crash de 1929, entrou em parafuso. O cadáver insepulto tentou voltar ao útero materno, freudianamente. Não deu pé. A pretensa concepção fukuyamista do absoluto hegeliano em funcionamento perfeito, com base na unicidade básica pensante, personificada no Estado burguês, ajustado, em sua superestrutura jurídica, à lógica da lei da oferta e da procura, foi para os ares na bancarrota financeira do mercado imobiliário nos Estados Unidos. Levou de roldão grandes bancos, podendo afetar, igualmente, grandes oligopólios. Já era a etapa da pura financeirização econômica global, totalmente, desregulamentada. O império está tremendo em suas bases e, com ele, a grande mídia, que, como mostram os editoriais, analisando o processo em curso, não dispõe de suficiente clareza, para ir fundo, a fim de analisar a evolução do capitalismo em suas contradições históricas. Fica na superfície. Por isso, o panorama permanece furta-cor. Tenta-se separar duas coisas inseparáveis no capitalismo atual, o real e o fictício, sem perceber que o real passou a depender da ficção e a ficção do real, interativamente, de modo que a crise de um é a crise do outro e vice-versa.Mostrar as contradições do sistema e seus impasses seria condenar a própria grande mídia que não jogou com a dialética da realidade, mas com o seu caráter meramente mecânico, distante da concretude do real em movimento contraditório.

O pecado do falso pensador

Pecou o falso pensador americano – e seus porta-vozes do poder midiático alienado – , porque não considerou, corretamente, com amplo conhecimento de causa, a dialética, que impõe rítmo de mudança à história. 
Ficou esdrúxulo. Falar em fim da história, como foi o caso do filósofo, representa a negação da dialética colocada em uso sistemático pelo autor que tenta cultuar, ou seja, Hegel, grande pensador alemão(1770-1831). 
Marx, atrevido, dialético e amante de Hegel, a quem chamou de “O grande Hegel”, reconhecendo que escreveu O Capital com a “Ciência da Lógica”, de Hegel, debaixo do braço, fez o próprio mestre dançar no processo dialético em “Manuscritos Econômicos e Filosóficos”, sem que ele perdesse, entretanto, o passo. 
Tentou mostrar que Hegel colocou a realidade de cabeça para baixo, para ressaltar que a dialética hegeliana se altera em seu movimento, dialeticamente, para sofrer mudanças  nos pressupostos de sua própria conceituação, que ergueu a conformação do Estado burguês. 
E daí? Exausto, na tentativa de sobrepor-se a ele, Marx rende-se ao ensinamento dele, sem conseguir, inteiramente, desbancá-lo, considerando-o, enfim,  fundamental. 
Na prática, Hegel vira a realidade de cabeça para baixo, porque , como filosofo do Imperador, não podia falar as coisas muito claramente. Perderia o emprego. O espírito é a matéria e a matéria é o espírito.
Lênin, em 1922, acompanha Marx em sua admiração pela dialética hegeliana que Fukyama não entendeu amplamente. Pregou criação da sociedade dos amigos de Hegel, na URSS, como forma educativa popular para o povo, levando-o a pensar mediante formação de categorias lógicas que, impulsionam indagações conforme às contradições do próprio movimento do pensamento diante da realidade, essencialmente, dual, que avança por processo de negação.
Fukuyama, que pensou comandar a dialética, foi, ao final, detonado por ela. O fim da história dele é o fim da pré-história que ele esqueceu de analisar, observando a contradição do real concreto em movimento. Agora, é arrastado pelo próprio processo histórico dialético.
O anuncio de Fukuyama foi excessivamente prematuro. Ejaculação precoce. O fim da pré-história que ele e a grande mídia, que o consumiu, acriticamente, não viram , é a confirmação não do fim, mas do renascimento de nova história.

Lição viva da destruição da economia de guerra 

Ambos, Fukuyama e grande mídia, viajaram na maionese escorregadia da alienação, expressa na derrocada do modelo monetário que ancorou a sobrevivência da reprodução ampliada do capital, depois que o padrão-ouro, vigente no século 19, deixou de ser solução, para se transformar em problema, para o próprio capitalismo.
Uma aula de história da economia política está sendo escrita com cores vivas, excessivamente fortes e dramáticas no transcurso turbulento da bancarrota financeira da moeda substituta do ouro, o dólar sem lastro – moeda estatal inconversível – sopro de Tio Sam em pedaço de papel, que, ancorado nas bombas e produtos bélicos espaciais, dinamizou, no século 20, até agora, a economia capitalista, essencialmente, economia de guerra.
O fim da pré-história é o começo do fim da economia de guerra. O strep-tease de Tio Sam é total em cima do palco global iluminado.
Tomba-se, nesse instante, com grande encenação teatral global, a  moeda do estado burguês, que chegou ao poder no final do século 19, para desbancar, definitivamente, o poder das monarquias e suas moedas, impulsionadoras do capitalismo industrial, ancorado no discurso promotor da poupança e do puritanismo conservador que construiu a Era do Capital industrial, sob o padrão-ouro, descrito por Hobbsbaum.
O século 20 nascia não para preservar as virtudes da poupança, mas para pregar a religião consumista como abridora das portas do céu para o consumismo capitalista como passaporte para a salvação eterna.
A ciência e a tecnologia, colocadas a serviço da produção, afastaram os perigos de desabastecimentos. Pelo contrário, exigia consumo e mais consumo para assegurar a reprodução capitalista ampliada. 
Abaixo as virtudes poupadoras. Viva as novas virtudes, consumidoras, a liberação dos sonhos, construídos a partir das bases de uma moeda sem lastro, propulsora da desinibição total.
Quem daria partida a esse processo não poderia ser a velha moeda monárquica, expressão das reservas de ouro, seguras, puritanas, o padrão-ouro anti-consumista.

Eficiência capitalista exige Estado ineficiente e guerreiro

Essa filosofia econômica, predominante no século 19, levou o capitalismo, conforme descreve Malthus em “Princípios de economia política”, a viver, permanentemente, a contradição entre produção e consumo.
O desfecho de tal contradição sempre foi o de levar o sistema às recorrentes crises deflacionárias, produzidas pelo subconsumismo, de um lado, e sobreacumulação de riqueza, de outro.
O excesso de eficiência das forças produtivas produzia além da capacidade de consumo da comunidade, afetada pela sobreacumulação de capital, de tal modo que requeria, dialeticamente, o seu contrário, a ineficiência, dada pelos gastos do governo. 
Escândalo para as virtudes puritanas, mas, fazer o que? Era, como reconheceu Keynes, neomalthusiano de carteirinha, dissimulador genial, a solução para o capital. 
Malthus falara a verdade e, consequentemente, fora condenado ao ostracismo eterno.
Como superar, no século 20, essa contradição, que levou o capital à primeira guerra mundial e, em seguida, à derrocada final do modelo de economia de mercado, na crise de 1929?
Simplesmente, deixando de lado o real e adotando-se a ficção. A ficção monetária impõe-se, como arma para sustentar a reprodução ampliada do capitalismo, para livrá-lo da deflação, por meio da sua oposição dialética, a inflação, expressa na moeda estatal inconversível, sem lastro.
Fukuyma ou não viu ou fingiu que viu e fez de conta que entendeu, mas não de todo: a nova moeda, no século 20, é uma representação do Estado, não mais sob o poder do rei, mas dos burgueses, que abandonam o real e adotam a ficção.

Poder monetário abstrato comanda espetáculo

Não são mais as reservas de ouro, mas o próprio poder estatal abstrato, ancorado numa infra-estrutura jurídica, que se ergue como instância poderosa capaz de dar sustentação política à moeda deslastreada, sob domínio burguês, que deslocara o rei do comando do processo político.
Os burgueses vinham, desde a Idade Média, tentando fugir dos altos impostos cobrados pelas monarquias, para sustentar ampliações territoriais por meio de guerras. Entre 1740 e 1974, houve 344 guerras, 85 milhões de seres humanos detonados, relata Lauro Campos em  “Neoliberalismo, crise e miséria”(Senado, 2001).
Em nome dessa nobre causa, os monarcas – depois os burgueses fariam a mesma coisa – , avalizadores do padrão-ouro, extraiam riqueza da burguesia, via tributação cada vez mais elevada, até que a roda a história alcançou as monarquias, destruindo-as.
Primeiro, com a Revolução Francesa, em 1789, depois com as seguidas revoluções burguesas em toda a Europa, no século 19, apogeu do capitalismo industrial.
Faltava à burguesia sua própria moeda, para fugir do equilibrismo orçamentário imposto pelo rei, via controle monetário e fiscal. A oportunidade chegou com crise neoliberal de 1873-1893. 
Esta sinalizou explosão do padrão-ouro neoclássico. A falsa segurança das monarquias rompeu-se e emergiu o Estado que se transforma em capital para contrapar ao lassair faire, ao mercado, não mais sob comando dos reis, mas dos próprios burgueses.
Se o rei teve sua moeda, por que os burgueses não teriam a sua? Por que se limitar ao reino, se destronara o rei?
Nascia, sob o poder burguês, expresso em democracia representativa, o papel moeda inconversível estatal que levaria o capitalismo, depois do estouro do padrão ouro, na crise neoliberal de 1929, a romper os controles monetaristas monarquistas e impor sua nova lei.

Estado é capital em estresse na bancarrota

O Estado, capital em si, por si, para si, por si mesmo,  emerge, no século 20, século americano, nascido nos escombros da libra esterlina, dominante no século 19,  para irrigar a circulação capitalista. 
Essa moeda estatal, que Keynes considerou essencial, para dinamizar o capitalismo depois do crash de 29, tem a missão não mais de desenvolver as forças produtivas, mas as forças destrutivas, na guerra, como previu Marx, em O Capital. 
A moeda estatal burguesa inconversível, sem lastro, impõe, pela sua dinâmica, o fortalecimento militar do Estado burguês mediante gastos crescentes com produção bélica e espacial, como arma macroeconômica. 
São tais gastos, em sua dimensão macro, expressos na moeda estatal, que cria o chamado Departamento III da economia capitalista, para sustentar a reprodução ampliada do capital que havia entrado em crise em 1929, quando, então,  o sistema se apoiava em apenas dois departamentos: D1, produtor de bens de produção, de capital, e  D2 , produtor de bens de consumo. 
As contradições entre produção(D1) e consumo(D2), no contexto do livre mercado, à moda neoliberal, neoclássica, levou a economia à bancarrota deflacionária,que exigiu a emergência de um departamento salvacionaista, o Estado(D3), com sua moeda estatal inconversível, burguesa, sem lastro, ficção pura. 
Com D3, nasce uma moeda que não é, apenas, reserva de valor, meio de troca, aspecto ao qual se prende, neuroticamente, a grande mídia, mas, sobretudo, representa instrumento de poder, de ação política do próprio Estado investidor.  
A reserva de valor se transforma em um não-valor. A crise monetária americana, agora, mostra, claramente, esse aspecto. O dólar, moeda papel, sob ataque, corre risco de virar papel podre, deixando de ser equivalente universal.
O Estado, virando capital, sob poder burguês, livre das monarquias, cujo controle orçamentário enforcava a capacidade de investimento e expansão da própria burguesia, dispõe de uma moeda que não é neutra no processo econômico, como ensina a cartilha neoliberal. 
Os comentaristas do poder midiático, em geral, salvo honrosas exceções, estão, nas páginas da grande mídia, vendidos. O valor que cultuam, transforma-se em não-valor do qual todos fogem.

Colapso do monetarismo guerreiro

Fukuyama pensou que essa armação monetária para reprodução ampliada do capital seria eterna e estabeleceria um repouso absoluto sob o neoliberalismo capaz de sobreviver a si mesmo. Eterno se transforma em etéreo.
Esse poder monetário estatal, D3, que compra mercadorias que não são consumidas pela sociedade, mas pelo Estado – corrida armamentista, produtos bélicos e espaciais etc – torna-se a fonte de sobrevivência de D1 + D2, que haviam entrado em crise nos anos de 1930.
De lá para cá, D3 puxa D1+D2 até entrar, também, em crise. O dinheiro estatal, keynesiano, é o que, agora, explode na crise dos subprime nos Estados Unidos. Fim de linha? 
D3, conforme destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, impulsiona a produção, não de mercadorias, mas, sim, de não-mercadorias, bancada pela capacidade do Estado de manejar a quantidade da oferta de moeda , única variável econômica  verdadeiramente independente, sob o capitalismo, como reconhece Keynes. 
É ela que desperta o espírito animal dos empresários, pois, quando lança moeda em circulação, o governo 1 – aumenta os preços, 2 – diminui os salários, 3, perdoa a dívida dos empresários contratata a prazo e 4 – diminui os juros. 
Vale dizer, os empresários somente se animam, ou melhor, se animalizam, dispostos aos investimentos, quando não precisam enfiar a mão no bolso. Grande Keynes, cuja solução, no entanto, mostra-se, na crise americana, limitada, quando antes era soberana. 
O governo, diz Lauro,dinamizando D3, aumenta o consumo sem elevar a oferta, nem de D1 nem de D2, para que ambos possam conviver em relativo equilíbrio, sob relativa escassez, para que os preços subam e os lucros, idem, a fim de evitar que a contradição entre produção e consumo de bens e serviços não exploda em deflação. 
D3 é a guerra que sustenta a paz expressa em D1 + D2. Isso, até que a capacidade de endividamento do Estado mereça a confiança do mercado e da sociedade. 
Não está sendo mais o caso, no presente momento da crise monetária, que leva de roldão a arrogância uniltaralista utilitarista de Tio Sam, endeusada por Fukuyama e grande mídia.
Marx disse que o capitalismo dinamizaria as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a dinamizar as forças destrutivas, na guerra. A moeda estatal, no século 20, é a moeda promotora da economia de guerra. 
O fim da pré-história é o começo do fim da economia de guerra. O contrário do fim da história de Fukuyama e dos seus oráculos do poder midiático global.
A humanidade vai, finalmente, entrar na história? Ou ainda vai demorar demais?

Sucessão em ritmo de desaceleração econômica

A sucessão do presidente Lula, certamente, vai ocorrer em clima oposto ao que o titular do Planalto estaria planejando, se for levada em consideração suas  declarações super-otimistas, de primeira hora, quando estourou a crise bancária, levando de roldão o bancão Lehman Brothers e, em seguida a seguradora AIG, exigindo cobertura estatizante.

Pouco antes, já havia estourado os dois maiores bancos imobiliários, também, estatizados, dando dimensão sombria da catástrofe financeira.

Naquele momento, o presidente sorria largo. Que crise? Era sua pergunta irônica. Pergunte ao Bush, gozou. Além disso, falou grosso contra os que ficaram ao longo dos últimos vinte anos dando palpites errados sobre a condução da economia brasileira, como o FMI e o Consenso de Washington. Talvez sonhando com o dinheiro antecipado do petróleo do pré-sal, o presidente jogou para o alto as possibilidades de que consequências mais sérias venham a afetar fortemente a a economia brasileira.

Era uma convicção psicológica expressa sobre a sua segurança relativamente não apenas à economia, mas, também, à política, pois declarou sua confiança em fazer sua sucessora, ao admitir que quem o substituirá poderá ser uma mulher. Os ventos poderiam mudar, abrindo maiores chances à oposição, no momento, sem bandeira?

Confiança abalada

Sintomaticamente, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, supostamente, a preferida do presidente, passou a falar prospectivamente sobre supressão de todas as carências sociais nacionais mediante exploração da riqueza do petróleo depositado no pré-sal. Passou a sacar contra o futuro.

Entretanto, a confiança excessiva presidencial sobre o panorama global mudou da água para o vinho em Nova York, onde foi falar, na terça, 23, na Assembléia Geral da ONU.

Ali, na babel capitalista, a confusão era geral entre os líderes mundiais, todos apavorados. O presidente, que pregou multilateralismo e governo mundial, para tratar do assunto crise americana, sentiu que a barra da bancarrota financeira é , realmente, super-pesada e que o Brasil seria afetado.

Teve que deixar de olhar apenas para o seu umbigo.

Por mais que a economia brasileira esteja bombando nesse momento, no compasso dos números positivos do IBGE, sinalizando PIB de quase 6% em 2008, pode pintar um ressaca braba, se o crédito internacional diminuir para todos, de modo a diminuir o rítmo da economia global, como começou, efetivamente, acontecer.

O presidente Lula pegou onda econômica internacional favorável, depois que havia passado onda desfavorável, que levara o governo FHC, de roldão. Fragilizara-se financeiramente depois de três transfusões de sangue pelo FMI, sob vigilência do Consenso de Washington, nos anos de 1997-2002.

Agora, o titular do Planalto tem a oportunidade de enfrentar situação inversa, negativa, nos dois anos finais de administração petista,  podendo ser mais severa do que a enfrentada por FHC.

O ex-presidente enfrentou vendaval das economias capitalistas periféricas, de 1997 e 1998. Lula, nesse  momento, passa a enfrentar crise da maior economia do globo, no capitalismo cêntrico, do qual todos dependem, organicamente. O buraco é mais embaixo. 

As incertezas não permitem prognósticos confiaveis

 

O exemplo de susto pavoroso foi dado durante toda a semana no compasso do vai-e-vem das bolsas em queda. Os bancos, esperando sinal do Congresso americano, fecharam as torneiras. As empresas, consequentemente, sinalizaram suspensão de investimentos, para compatibilizar com tempos de vacas magras no mercado consumidor mais forte do planeta.

Os empresários brasileiros, com as torneiras fechadas para os financiamentos às importações e exportações, correram para o BNDES, pedindo empréstimos e redução da TJLP – Taxa de Juro de Longo Prazo – na casa dos 8% ao ano. 

Teria dinheiro para todos?

Certamente, as torneiras serão abertas, depois da tempestade, mas não se sabe quando a tempestade passará, mesmo depois do acerto político de democratas e republicanos no Congresso, embora os candidatos Barack Obama, democrata, e John MacCain, republicano, relutem diante de W. Bush, para aprovar o pacote de 700 bilhões, quantia considerada insuficiente para cobrir os prejuízos gerais deixados pela implosão do setor imobiliário americano altamente alavancado na base da moeda podre.

Calcula-se que os dólares podres derivativos, que encharcaram o mercado imobiliário, nos últimos dois anos, somando-se a outros créditos podres, herdados de crises especulativas anteriores, alcançam entre 45 e 55 trilhões de dólares, algo três vezes superior ao PIB americano. Seriam os chamados “credit default swaps”(CDS), sobreacumulados na praça.

Trata-se de quantia ainda não contabilizada, inteiramente, configurando fenômeno de reprodução monetária jamais visto na história do sistema, engolfado no excesso de dinheiro que perde valor e pede socorro ao governo para ser enxugado.

Parece hiperinflação alemã dos anos de 1920, que destruiu a República de Weimar e abriu espaço, com a crise bancária de 1931, à ascensão de Hitler e do nazismo, como relata Hjalmar Schacht, o mago das finanças do furher, em sua autobiografia “Setenta e Seis Anos de Minha Vida”, Ed. 34, 1999.

Nesse ambiente, a moeda brasileira seria porto seguro, sabendo que, com a desaceleração da economia global, torna-se mais difícil financiar o deficit em contas correntes de perto de 2,5 do PIB, algo em torno de 30 bilhões, quando, no início de 2007, havia um superavit de quase 1,5%?

Confiança externa maior que interna

 

O presidente Lula, na última etapa do seu governo, veria a sorte abandoná-lo em meio a possível tempestade, invertendo situação que o levou aos pincaros da popularidade de quase 95%, somando os que acham que faz um governo ótimo e os que dizem que realiza governo regular, segundo a última pesquisa Sensus?

A crença do presidente Lula nesse sentido pode ser dada menos pela confiança interna do que a externa. O jornal inglês Financial Times destacou, na quinta, 25, que o Brasil pode ser porto seguro para os investidores.

Há três meses, o primeiro ministro inglês, Gordon Brown, destacou ser necessário ampliar espaço para Brasil e Índia, no Grupo dos 8. O presidente Sarkozi, essa semana, na ONU, bateu na mesma tecla.

O século 21 não seria, pelo andar da carrugagem da crise monetária, um século americano, como foi o século 20, na era do dólar. O dólar, inchado pela especulação, abriu o bico.

Brasil e América do Sul, destacam líderes mundiais, estão na tela dos investidores. Os árabes, que estão preocupados com a saúde do dólar, que cota o preço do petróleo, podem desembarcar no Brasil, em busca de terras para comprar, a fim de garantir alimentação, como já estão fazendo na Ásia e na África.

Se for lançada moeda sul-americana e banco sul-americano, ancorados nas reservas reais sul-americanas disponíveis, os depositantes no banco poderão  pintar, como admitiu agir nesse sentido o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, em encontro com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez.

Os dólares do petroleo iraniano seriam convertidos, no Banco sul-americano, em moeda sul-americana,como nova alternativa monetário no cenário pós-era dólar?

Nesse contexto, o Brasil, de riquezas incomensuráveis, junto com os países sul-americanos, que caminham para uma integração econômica mais acelerada, tem, aos olhos externos mais que os internos, possibilidades de continuar sendo o paraíso dos especuladores e dos oligopólios. Estes, felizes, aumentam a cada ano as remessas líquidas de lucro, já na casa dos 35 bilhões de dólares, valor correspondente ao total dos investimentos externos. Tremenda sangria financeira que se eterniza.

Apocalipse bushiano é jogo de pânico fascista

O tom apocaliptico adotado pelo presidente W. Bush para tentar convencer o Congresso a aprovar o pacote salvacionista de 700 bilhões de dólares para economia mergulhada em crise bancária, caracterizada por sumiço do crédito, oxigênio da produção capitalista, joga estrategicamente com o medo como arma política, algo tipicamente fascista, para alcançar rapidamente seu objetivo. Na prática, é dinheiro podre, sem lastro, para tentar salvar dinheiro podre, que está apodrecendo a vida dos americanos e lançando desconfianças generalizadas do mundo na saúde do dólar, como moeda equivalente nas trocas comerciais globais. A economia de guerra, tocada com dinheiro estatal fictício, bate biela.

Os americanos, nesse momento, estão, certamente, temerosos sobre o futuro da sua segurança pessoal. Vão apostar numa renovação radical, com Barack Obama, o primeiro negro que ganharia a eleição nos Estados Unidos? Ou, com medo, optariam pelo conservadorismo, deixando renovações e mudanças mais ousadas para depois?

O povo da América,  que traz, psicologicamente, a certeza de ser o enviado de Deus, do destino manifesto na terra, onde a riqueza é o bônus da benção divina, para a salvação eterna como prêmio pelo lucro acumulado no juro composto, sente o medo do imprevisível, do imponderável, do espectro da pobreza. Quem lhe dá mais segurança, depois que W. Bush espalhou a insegurança geral, Obama ou MacCain?

A classe média, super-endividada nos cartões de crédito, com os quais vai rolando seus papagaios financeiros impagáveis – calcula-se que seja de 15 trilhões de dólares a dívida global das famílias no crediário – , como se tal costume representasse segurança eterna em suas vidas, teme pelo pior.

A segurança do futuro abre-se em seu oposto, em abismo sob os próprios pés. Segurança nenhuma. Os aposentados estão apavorados, pois seus sonhos são jogados no mercado de hipotecas e ações, desde sempre. Pavor coletivo.

W. Bush, em discurso dramático, na quarta à noite, não regateou. Falou em perigo de pânico. Pânico vira estratégia política da Casa Branca.

O presidente que alerta para o pânico quer o quê? Chocar. Amedrontar. O estadista falaria como Churchill:” nada tenho a oferecer-lhes senão suor e lágrimas, sendo a salvação a capacidade de enfrentar a realidade adversa”.

O que propõe W. Bush? Papel podre para combater papel podre, o mesmo papel que está financiando a demanda global puxada pelo consumo americano, bem como ampliando, por sua vez, essa mesma demanda, por meio do aumento de gastos na produção bélica e espacial, jogo keynesiano que vem desde 1936.

O Congresso pôs as barbas de molho, porque sabe que os 700 bilhões de dólares não são suficientes. O FMI adiantou e disse ser a quantia insuficiente. Aposta em 1,3 trilhões.

Ninharia perto do mercado de dólares derivativos , raiz da crise, ainda não contabilizados, que somariam entre 45 trilhões e 55 trilhões de dólares, os chamados “credit default swaps(CDS).

Trata-se de quantia superior a quase 4 vezes o PIB dos Estados Unidos. Os 700 bilhões de dólares bushianos seriam pinto perto dessa montanha fantástica de dinheiro podre que o mercado imobiliário pôs para rodar no mercado derivativo, em que dinheiro pare dinheiro, indefinidamente.

Realmente, o capitalismo derivativo regado pelo derivodólar viajou na maionese. Agora, esburracha-se no chão. Não há fôlego keynesiano capaz de levar o tesouro americano a acalmar a situação com apenas 700 bilhões de dólares. Brincadeira.

A solução(keynesiana) que virou problema

 

O que já está acontecendo não suporta panos quentes. Pega fogo geral. Mais dinheiro sem lastro para cobrir dinheiro que apodreceu, simplesmente, resultará em inflação e mais inflação.

A bomba de enxugamento do mercado especulativo, a dívida pública, para tentar dar sensação de escassez de moeda, para que esta suba de preço, desviando a desconfiança na sua saúde, mostra-se incapaz de exercitar a tarefa keynesiana.

Keynes não é mais solução, mas, problema, na medida em que o fôlego financeiro de Tio Sam, para enxutar o mercado de derivativos, esgota-se.

Está parecendo a República de Weimar, que tinha um marco-ouro valendo 12 bilhões de marco-papel, quando todos os pepinos foram contabilizados pelo presidente do Banco Central alemão, Hjalmar Schacht, para que a cotação caisse, repentinamente, para 1 marco-ouro = 4,2 bilhões de marco-papel, como passo inicial, fundamental, para inverter a tendência e dar visibilidade ao tamanho da hiperinflação alemã entre 1919 e 1923.

Evidentemente, se os dólares derivativos, os derivodólares, os CDS – “credits default swaps –  forem contabilizados, pode pintar uma brutal desvalorização da moeda americana, semelhante à do marco-papel, que obrigaria Tio Sam a submeter-se à receita de Hjalmar Schacht, conforme demonstra em “Setenta e Seis Anos de MInhas Vida”( Ed. 34, 1999).

A dívida pública interna americana, que já não está pagando juro nenhum para vender títulos, teria que enxugar, lançando uma montanha de títulos, que, sem rendimento nenhum, sinalizaria negócio desinteressante para o rentista, que se candidataria ao empobrecimento compulsivo, como se a eutanásia rentista fosse a sua opção fundamental.

Os árabes já estão fugindo desse fantasma, buscando jogar o dinheiro arrecadado com petróleo, isto é, os dólares, em terras e outros ativos mundo afora. Dólar virou moeda quente da qual todos tentam fugir para não se queimar.

As expectativas psicológicas da comunidade, nesse momento, bombada por um sistema de comunicação instantâneo, que a estressa, extraordinariamente, produzem desastres psicológicos que se materializam em sentimentos de frustração e radicalização.

Tal espírito social irascível emerge irresistível, quanto mais aumenta a sensação popular de perda de poder de compra da moeda nacional.

Sim, W. Bush tem razão. Pânico. O titular da Casa Branca utiliza o pânico como arma política. Com essa estratégia tenta forçar a barra, no Congresso, em busca de solução rápida. 

Conseguirá? Dificil. Todos os políticos que estão disputando eleição, agora, percorrendo o território americano atrás de votos, subordinam-se aos interesses da comunidade medrosa, que quer reaver suas perdas.

Poder executivo faliu. O Legislativo compensará?

Os movimentos sociais que se manifestam pela internet, fazendo pressão sobre os congressistas, para que sejam equitativos na distribuição dos prejuízos, avisam que se não cumprirem essa determinação social, não terão o voto necessário na eleição, para continuar na vida política.

A pressa que W. Bush exige para tentar movimentar a economia e afastar o fantasma da quebradeira choca-se com a característica essencial do parlamento, ou seja, a necessária falta de urgência para tratar o jogo dos contrários, no debate político.

A divisão da sociedade capitalista em grupos sociais antagônicos impõe, dialeticamente, condição que produz o confronto entre a pressa do Executivo e a não-pressa do Legislativo, na apreciação da crise bancária.

W. Bush joga com a pressa, pois pode ser ejetado, antes de terminar seu mandato, pela ira popular. Já se os congressistas, sob pressa de W. Bush, acionarem decisão que tenha como resultado frustração, deixam de ser acreditados, para serem desacreditados pela sociedade.

A pressa de W. Bush, que tem por trás os poderosos interesses financeiros e oligopolistas, que dominam Wall Street, representa, na prática, uma armadilha para os congressistas e uma má conselheiras, deixando o Congresso diante de dois caminhos: ou render-se ao Executivo ou agigantar-se e tornar-se, na crise, maior que o Executivo.

Pode lançar sementes de mudanças, no médio e longo prazo, no comando do próprio poder político, visto que as lições a serem tiradas dos acontecimentos dramáticos do presente se materializarão em possíveis alterações na correlação de forças no contexto da democracia americana.

O que se vê, na bancarrota financeira americana, não é um desastre do mercado, mas do governo, que deixou o mercado comandá-lo. O Congresso, na prática, está sendo jogado no fogo, para resolver problemas criados pelo Executivo. Qual a fatura que cobrará?

 

Casa Branca se autocondenou ao render-se ao mercado

 

 

Como o governo é executivo, legislativo e judiciário, com distribuição de atribuições de poderes relativos aos três entes republicanos no ambiente da democracia representativa, sua capacidade institucional de comandar o processo econômico tenderia a ser democraticamente contestada.

A destinação constitucional do Executivo para executar poderia ser relativizada com o legislativo que além de legislar poderia, também, executar, como se dá no modelo parlamentarista. As chances do legislativo estão colocadas por W. Bush, desesperado.

O executivo, no governo imperial americano, entrou em crise, porque em vez de disciplinar o mercado capitalista, rendeu-se ao mercado, à especulação, à loucura.

Comanda o caminhão capitalista na ladeira rumo ao precipício sem freio, na banguela, a loucura dolarizada-derivativa, proporcionada pelo Executivo, que abandonou as regras da regulamentação, da fiscalização e da prudência, eximindo-se da responsabilidade de ser coordenador geral do processo.

Inevitavelmente, a desmoralização do Executivo se intensficia, quanto mais elevados são os prejuízos financeiros da população, afetada pela irresponsabilidade do próprio Executivo

A questão é econômica, mas, também, política.

A pressa de W. Bush é a pressa de uma Executivo falido, em cima de um poder, o Legislativo, que somente se justifica, constitucionalmente, se tiver condições de impor a relatividade das coisas no ambiente do poder democrático. Sua lei é a flexibilidade.

A lei de W. Bush, enforcado pela crise bancária, é a da inflexibilidade, característica da pressa, semelhantte ao caráter das medidas provisórias que governam o Brasil desde a crise monetária dos anos de 1980.

O jogo do medo de W. Bush é a tentativa de ganhar no grito. O jogo do Congresso, pela sua peculiaridade, é o oposto.

A democracia americana, nas águas da bancarrota financeira impressionante, está diante do seu maior desafio.

Real, sob rapina, marcha para crise

 

 

Para futuro não muito distante gesta-se outra crise do real e mais um desgaste insuportável para a economia brasileira, semelhante ao de 1998, quando a taxa dos títulos públicos chegou a 50% aa., sem que isso tenha evitado a galopante desvalorização do real iniciada em 1999.  

A recorrente vulnerabilidade das contas externas é conseqüência inelutável do modelo comandado por bancos e empresas transnacionais. Enquanto perdure o atual regime (não me refiro apenas ao presente “governo”), não há qualquer chance de serem levadas em conta sugestões de política econômica capazes de sequer reduzir a amplitude e a profundidade do desastre, mesmo porque não há como tratar do problema, mantida a atual estrutura dos mercados.  

Eis como começa a Nota para a Imprensa sobre o Setor Externo, divulgada pelo Banco Central (BACEN) em 28.07.2008: “O balanço de pagamentos registrou superávit de US$ 2,6 bilhões em junho de 2008. As transações correntes apresentaram déficit de US$ 2,6 bilhões acumulando, nos últimos doze meses, déficit de US$ 18,1 bilhões, …. A conta capital e financeira foi superavitária em US$ 6 bilhões. (Grifos meus). 

A Nota é pouco esclarecedora. Traz dados a respeito de componentes do balanço de pagamentos quase que só para o mês de junho, sem mostrar o resultado do 1º semestre. Há apenas uma referência, logo no início, ao acumulado nas transações correntes, nos últimos 12 meses. A Nota parece orientada para minimizar a percepção do que mais interessa: a nítida e rápida deterioração das contas externas do Brasil. 

Para recordar, o balanço de pagamentos compõe-se de dois grandes conjuntos: as transações correntes e a conta de capital. As transações correntes englobam, além das transferências unilaterais (principalmente remessas de trabalhadores brasileiros provenientes do exterior), os balanços: 1) comercial (mercadorias); 2) de “serviços”; 3) de rendas. Fazem parte deste as remessas de lucros e dividendos, e os juros. O balanço comercial teve, nos últimos anos, grandes saldos positivos, mas estes se vêm reduzindo muito. Já os serviços e as rendas resultam tradicionalmente em déficits, que vêm crescendo.

 

Números do desastre financeiro nacional  

 

A Nota do BACEN omite que as transações correntes mostraram déficit de US$ 17,4 bilhões, em apenas seis meses (janeiro a junho de 2008), quantia quase igual à desse déficit nos últimos 12 meses. Ela é 25 vezes maior que a verificada de julho a dezembro de 2007. É inegável, pois, que a situação das contas externas do País se agravou aceleradamente mesmo durante a conjuntura externa ainda favorável para as commodities, que ainda prevalecia no 1º semestre de 2008.

O BACEN “esqueceu”, ademais, de utilizar outro dado de suas estatísticas, a saber, que os lucros enviados pelas multinacionais às matrizes somaram US$ 19 bilhões neste mesmo 1º semestre. Essa estarrecedora cifra é o dobro da do mesmo período em 2007 (US$ 9,8 bilhões).

Apesar de superarem, sozinhas, o déficit total das transações correntes (US$ 17,4 bilhões), as remessas de lucros não são o único determinante desse déficit. Há também: 1) o superfaturamento de importações e o subfaturamento de exportações, que fazem o superávit comercial ser muito menor do que seria de outro modo; 2) as despesas a título de juros e de “serviços”, em favor das matrizes das transnacionais.

Com o crescente déficit nas transações correntes, o balanço de pagamentos vai sendo, por enquanto, “equilibrado” por meio do ingresso líquido de capitais: os de curto prazo, aplicados em diversos ativos do mercado financeiro, aproveitando as obscenas taxas de juros “brasileiras”; e os “investimentos” estrangeiros diretos (IEDs), que totalizaram US$ 16,7 bilhões no 1º semestre de 2008 (US$ 20,9 bilhões no 1º de 2007). Quanto ao balanço de pagamentos o 1º de 2008 terminou com superávit de US$ 19,2 bilhões, menos de 1/3 do saldo do 1º semestre de 2007 (US$ 61,6 bilhões), com grande participação dos capitais de curto prazo. 

A situação confrangedora das contas externas brasileiras não está somente nessas cifras, mas sobre tudo nestes deploráveis aspectos qualitativos:  

1) o Brasil envia recursos financeiros líquidos ao exterior nas transações correntes, não obstante exportar colossais recursos naturais e, abusando destes, bens industrializados de baixo valor agregado;  

2) tenta “equilibrar” o déficit das transações correntes com a conta de capital, subsidiando o ingresso de capitais estrangeiros, que implicam crescentes remessas de ganhos especulativos, e subsidiando a intensificação do controle dos meios de produção por parte de empresas transnacionais, a plataforma de lançamento ao exterior, por exemplo, dos US$ 19 bilhões de lucros às suas matrizes, no 1º semestre de 2008.

 

Vampirismo explícito sobre riqueza nacional

 

As cifras a seguir descrevem a explosão das remessas, que não passam de fração pequena dos lucros reais, transferidos ao exterior por outras contas do balanço comercial e do de serviços. Anotam-se também os ingressos de IEDs.

      Remessas de lucros    Ingressos IEDs

2003 – US$ 5,7 bilhões      US$ 10,1 bilhões  
2004 – US$ 7,3 bilhões    US$ 18,1 bilhões     
2005 – US$ 12,7 bilhões    US$ 15,1 bilhões    
2006 – US$ 16,4 bilhões     US$ 18,8 bilhões 
2007 – US$ 22,4 bilhões   US$ 34,6 bilhões 
2008 – US$ 19 bilhões, em 6 meses.

Vê-se, pois que os novos ingressos de IEDs mal equilibram as remessas de lucros, as quais crescem em velocidade bem maior. E o pior é que esses ingressos são a base para remessas de lucros ainda mais fantásticas no futuro. É evidente que quanto maior for o controle das atividades produtivas pelo capital estrangeiro, mais este disporá de meios de produção para realizar lucros e enviá-los para o exterior, inclusive lucros que não se apresentam como tais na contabilidade das transnacionais, livre para escriturar preços convenientes a fim de, além disso, evitar o pagamento do IRPJ e da CSLL.

No livro “Globalização versus Desenvolvimento” mostro que todos os países hoje ditos desenvolvidos criaram estruturas para isso por meio da participação direta do Estado na economia produtiva, além de todo um conjunto de políticas destinadas a viabilizar o setor privado nacional.

Exatamente o contrário do que o Brasil foi induzido a fazer: subsidiar grandes transnacionais, ajudando-as a apoderar-se dos mercados e a aprofundar seu comando sobre a política econômica do País. Isso decorreu da intervenção política, cultural e militar estrangeira, especialmente a partir do golpe de 1954 que derrubou o presidente Vargas.

 

 

* – Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. benayon@terra.com.br

 

Perigo de neonazismo

 

Qual a garantia que está por trás dos insuficientes 700 bilhões de dólares que o presidente W. Bush tenta embuchar no mercado global, para evitar o desastre financeiro roliudiano americano?

Simplesmente, nenhuma. É tudo papel podre tentando salvar papéis podres. A Europa já conhece essa história e, naturalmente, está desejando construir uma arca para si, sem precisar embarcar totalmente na arca americana, que está fazendo água.

Evidentemente, a consciência social e política dessa ausência de segurança tende a manter as pessoas desconfiadas na capacidade do governo, já excessivamente endividado, de sustentar o prolongamento do endividamento estatal, para garantir estabilidade da moeda.

Mais moeda podre, significa perigo de hiperinflação, se o tesouro americano não tiver capacidade de enxugar parte dessas moedas pobres, que estão em circulação, podendo se transformar em enchentes inflacionárias. O tesouro é o entesourador que tem a capacidade de evitar a hiperinflação. Mas, até quando?

A reta final da campanha eleitoral americana está colocando em cena, no compasso da primeira grande crise monetária do século 21, que ameaça a sobrevivência do dólar, não os candidatos em disputa, Barack Obama, democrata, e John MacCain, republicano, mas a maior representação da democracia americana: o Congresso.

Qual será a solução final dos congressistas americanos diante da tempestade monetária que ameaça empobrecer a América?

As reações sociais pela internet voltadas para pressionar os congressistas no sentido de que sejam equitativos em suas decisões, salvando, não apenas, os bancos, mas, também, os contribuintes, colocam em cena o perigo de o próprio Congresso, caso não atenda os anseios populares, ser ultrapassado pela radicalização social.

Se isso acontecer, poderia pintar, nos Estados Unidos, um repeteco da República de Weimar, que desembocou em Hitler e no nazismo em 1933, fruto da crise bancária de 1931?

As apostas estão todas em cima do Congresso americano, que se transforma no super-poder, pois a solução, para o bem ou para o mal, em plena bancarrota financeira, sairá de suas fileiras. Se a democracia não der solução…

Uma página importante da história política americana e mundial está sendo escrita, nessa semana em que se reune a Assembleia Geral da ONU em meio ao vendaval financeiro-especulativo na terra de Tio Sam.

 

Crise bancária produziu Hitler

 

A República de Weimar explodiu com a subida de Hitler ao poder, porque, fundamentalmente, perdeu a capacidade de enxugar o excesso de moeda na economia que destruiu o poder de compra do marco alemão.

A Alemanha ficou entre os sociais democratas de esquerda, no poder, de um lado, e a radicalização de outro, dividida, por sua vez, entre os comunistas, influenciados por Moscou, de uma parte, e, de outra, pelo nazismo em ascensão, sob agitação hitlerista.

Na esquizofrenia geral desatada pela crise bancária, iniciada na Aústria, com o estouro do Osterrrichische Kreditanstalt,  espalhando por toda a Europa, principalmente, na Alemanha, deu Hitler na cabeça.

No comando do partido nacional-socialista, como relata Hjalmar Schacht, o mago das finanças tanto da República de Weimar, como de Hitler, em “Setenta e Seis Anos de MInha Vida”, Ed. 34, o furher emergiu com força total no rastro do desânimo e revolta geral dos alemães com a incapacidade dos sociais democratas de controlarem a moeda, isto é, assegurarem o poder de compra da moeda nacional.

Na hiperinflação, entre 1919 e 1923, diz Schacht, acabara a confiança popular na moeda em um pais massacrado pelas dívidas a pagar por reparações de guerra, impostas irracionalmente pelo Tratado de Versalles.

Mas, assim que a hiperinflação, mediante sacrifícios inauditos impostos à sociedade, fora superada, novamente, os bancos, a partir de 1928,  voltaram a forçar emprestimos em alta escala para a Alemanha e paises europeus em geral, sem maiores preocupações com fiscalizações e regulamentações do mercado, semelhante ao que ocorre na presente crise bancária americana, onde reinou o laxismo dos bancos centrais. Os empréstimos despertaram os interesses dos sociais democratas que estimularam endividamento geral das prefeituras, governos regionais e empresas, até estourar a bancarrota em 1931, passaporte para o nazismo.

A república americana está fazendo, agora, o mesmo que fazia a república de Weimar, jogando papel podre para comprar papéis pobres que terão que ser enxugados numa escala infinita cujo resultado pode ser o de o governo americano começar a enfrentar instabilidades intermitentes, como avaliam os analistas em geral.

 

Radicalismo emerge pelo medo

Nesse ambiente, a realidade está demonstrando que se torna inevitável o aprofundamento da desconfiança social e econômica no poder americano, dado que o dólar está sob ataque, quanto mais o sentimento de perda real do poder de compra da moeda vai ficando claro aos olhos dos contribuintes irados, propensos ao radicalismo político.

O estouro do setor imobiliário, produzido pelo excesso de financiamentos para compra de casas, é o estouro da moeda, que tem nos imóveis a sua representação.

Os dólares derivativos, cuja quantidade são trilhões e mais trilhões que perdem valor a cada dia, pedem, pelo amor de Deus, para ser enxugados, a fim de que possam manter seu poder de compra mínimo que seja.

A Casa Branca tem fôlego suficiente para garantir esse poder de compra?

A sensação geral é de que não tem e tanto é verdade que não há força ainda suficiente para dar sossego à intranquilidade geral na economia americana.

A economia monetária fictícia bancada pelo dólar derivativo, derivodólar, é pura psicologia. Os humores variam com a valorização ou desvalorização do valor que, como destacou ironicamente Delfim Netto, no Valor, nesta quarta feira,  está apenas na tela do computador.

 

Moeda capitalista montada a cavalo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Economia de papel podre bate biela. O capitalismo vive a pregação de Marx. O sistema capitalista, disse, desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e crise e passaria a desenvolver as forças destrutivas, na guerra.

As forças produtivas entram em colapso em 1929, com a falência do padrão ouro,  e as forças destrutivas passam a ser desenvolvidas por novo padrão monetário, bancado pela moeda estatal inconversível, o statemoney, moeda fictícia sem lastro. Não são mais os bens e os serviços que puxam a demanda, mas a produção bélico e espacial etc.

A produção de mercadoria, como explica Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, dá lugar à produção de não-mercadorias, bancada pela não-moeda, cujo lastro é a ficção abstrata, para tirar o capitalismo do buraco, não mais mediante forças produtivas, mas graças ao somatório das forças destrutivas e especulativas.

O que é a destruição presente de capital na economia americana senão a expressão exata da explosão das forças econômicas destrutivas?

Desmancha, portanto, a moeda que movimentou o capitalismo durante o século 20, especialmente, a partir de 1936, quando Roosevelt segue o conselho de John Maynard Keynes, lançando mão da dívida pública, para dinamizar o sistema.

A moeda estatal é o capital do estado, o estado é o capital, que, no entanto, mostra-se, também, no limite, limitado, para continuar executando sua tarefa na reprodução ampliada do capitalismo contraditório.

Na prática, o que está sendo implodido é a moeda da burguesia capitalista criada no século 20. O estado cumpriu o papel que Hegel determinou.

Ele, o estado, abstrato, ressalta o autor de a “Fenomenologia do espírito” sopra valor no papel para ser a representação objetiva do dinheiro capaz de movimentar as trocas cambiais, tornando-se referência monetária para azeitar as relações sociais.

A burguesia, ao conquistar o poder do estado, aposenta o rei e a monarquia e, consequentemente, a moeda do rei e os poderes monárquicos, o padrão-ouro, para jogar, claro, com sua própria moeda.

A moeda estatal inconversível é a moeda capitalista moderna que toca a economia para manter desperto o espírito animal dos empresários sem que eles precisem colocar a mão no bolso.

A farra, no entanto, como mostra o choro do colosso americano, está dando suspiros derradeiros.

 

O sopro do poder abstrato

 

O estado nacional, juridicamente, construído pela inteligência humana, ao longo da história, tornou-se, com o fim da moeda monárquica, o poder monetário abstrato, ancorado na lei. Esta cria na mente social os fundamentos de garantias do contrato baseado no direito positivo.

Napoleão é o grande iniciador desse jogo, tendo como principal assessor o maior ladrão da história da burguesia, o genial diplomata Talleyrand, retratado, competentemente, pelo historicador russo E. Tarlé, em “Diplomada da burguesia em ascensão”.

Talleyrand faz, em nome da acumulação de capital burguês, o mesmo que o rei fazia com os burgueses, isto é, expropriação. O expropriador passou a ser expropriado.

O negociador de Napoleão se transformou num dos maiores investidores de imóveis em Paris, graças às comissões que extraia a forceps dos reis vencidos pelo avanço da burguesia francesa sobre a Europa, brandindo as armas e o código napoleônico.

 

Moeda burguesa entra em crise

A moeda estatal inconversível, no século 20,  é Napoleão ressuscitado a serviço do estado burguês.

Durante todo o século passado, tal moeda, nascida para tirar o capitalismo do crash de 29, movimentou e fez o serviço previsto por Marx: promover as forças destrutivas, na guerra, ou seja, a economia de guerra.

Keynes considerou as guerras necessárias, para puxar a demanda global, já que as forças produtivas, deixadas ao livre mercado, levaram o sistema ao colapso.

O mesmo faz, hoje, o FMI, batendo palmas para as guerras regionais. Seu combustível, no entanto, a moeda estatal, que nasceu para negar o padrão ouro, está sendo negado pelo esgotamento monetário estatal ameaçado pela fogueira monetária-inflacionária.

Estados Unidos, nova República de Weimar? 

Berço esplêndido da social democracia europeia, dos grandes filósofos e das propostas revolucionárias estruturalistas lançadas no século 20 pela Escola de Frankfurt, a república de Weimar, no momento em que o fantasma da derrocada financeira, paira no ambiente global, volta a impressionar e fazer meditar sobre o que pode acontecer, se o Congresso americano não der conta do recado.

Os americanos, nesse momento de total incerteza, jogariam suas fichas numa promessa, Barack Obama, ou continuarão apostando em suposta segurança, John MacCain?

O momento estaria para experimentações ou conservadorismo?