Consumo do pobre é salvação do rico

A salvação do Haiti pela fraternidade universal aponta que será também por meio da solidariedade global que a economia mundial encontrará saída para o seu impasse, caracterizado pela sobreacumulação de capital, configurando tendência de que não está mais no capitalismo a solução do problema do capital, mas numa organização social que coordene o desenvolvimento, de modo a evitar a escalada deflacionária destrutiva em marcha, apontando para uma haitização econômica generalizada, caso não haja bom senso internacional no contexto de novo multilateralismo.

A salvação do Haiti pela fraternidade universal aponta que será também por meio da solidariedade global que a economia mundial encontrará saída para o seu impasse, caracterizado pela sobreacumulação de capital, configurando tendência de que não está mais no capitalismo a solução do problema do capital, mas numa organização social que coordene o desenvolvimento, de modo a evitar a escalada deflacionária destrutiva em marcha, apontando para uma haitização econômica generalizada, caso não haja bom senso internacional no contexto de novo multilateralismo.

Politicamente, o assunto dessa segunda-feira, se não fosse o desastre monstruoso do Haiti, teria, obrigatoriamente, de ser a vitória do direitista  Sebástian Pinera, no Chile, desbancando  a centro-esquerda de Eduardo Frei, candidato apoiado pela presidente Michelle Bachelet. A primeira vista, os analistas destacam que a derrota governista decorreu da divisão de suas próprias forças. Estas racharam em três candidaturas. Mas, por que se dividiram? Certamente, depois de 20 anos de exercício de poder, a sociedade resolveu buscar alternativa, para evitar congelamento de mando político, sempre carregado de vícios. A democracia é isso. Mas, o importante é que Pinera destacou que governará buscando apoio daqueles a quem derrotou e ressaltou, ao ser saudado por Bachelet, que buscará, sempre que possível, os conselhos dela, para administrar o país. Algo novo, portanto, impossível de acontecer no calor das rivalidades registradas nos anos anteriores, quando as chamas da ditadura de Pinochet inviabilizavam a possibilidade de que houvesse diálogo entre os adversários. Mas, deixemos de lado esse assunto, importante, sim, porém, menor diante da tragédia haitiana, que mobiliza o mundo atormentado pela bancarrota capitalista.

O Haiti queima corações e mentes globais e mobiliza-os para reconstrução solidária do país em meio ao caos, sinalizando que o resultado dessa empreitada ditará fraternidade universal entre os povos nos momentos de desespero, dor e angústia, quem sabe, conscientizando a todos de que já se faz necessária união não apenas para atacar as catástrofes naturais, mas, igualmente, os desastres econômicos, decorrentes da bancarrota do capitalismo, agora, de joelhos diante do Estado, já quase sem fôlego para dar conta do recado, de sustentar, via endividamento, problemas cruciais em expansão, por enquanto, incontroláveis. 

Novo diálogo sulamericano  

A vitória de Pinera e seu discurso de que recorrerá aos adversários para ajudá-lo a governar representam superação histórica de recentes disputas entre duas forças antagônicas que se digladiaram no Chile, depois da ditadura Pinochet, sinalizando novo tempo de diálogo, que contribui, por sua vez, para fixar novos horizontes para a convivência democrática universal, sensibiizada, nesses dias, com o desastre monumental do Haiti.

A vitória de Pinera e seu discurso de que recorrerá aos adversários para ajudá-lo a governar representam superação histórica de recentes disputas entre duas forças antagônicas que se digladiaram no Chile, depois da ditadura Pinochet, sinalizando novo tempo de diálogo, que contribui, por sua vez, para fixar novos horizontes para a convivência democrática universal, sensibiizada, nesses dias, com o desastre monumental do Haiti.

A mobilização global pelo Haiti, intensificada, destacadamente, pelos Estados Unidos, cujo presidente Barack Obama, negro, certamente, está, profundamente, tocado pela tragédia dos seus irmãos de cor, emerge como desafio incrível, no sentido de que pode estar sendo escrito novo capítulo da humanidade em que se desenha máxima de que a salvação dos ricos, em desespero econômico, pode estar na ajuda aos pobres, em dramática luta pela sobrevivência. Na prática, o que se verifica são paradoxos brutais. Os países, economicamente, poderosos, como os Estados Unidos, Japão e os europeus, depois de alcançarem tudo em forma de bem estar material, vêem-se frente a uma reação econômica distencionista da sociedade, expressa em cansaço consumista. As análises dos especialistas estão repletas desse dissídio pessimista. Já os países pobres, como os latino-americanos e os africanos, aos quais tudo faltam, descobrem suas forças por meio de políticas voltadas para o consumo interno, via incremento de políticas sociais, responsáveis por abrir novos caminhos ao mesmo tempo em que o capitalismo vive suas contradições insolúveis.    

Solução para união interna 

Obama tem no Haiti o fio de Ariadne para tentar conter dentro dos próprios Estados Unidos a resistência a sua política de união nacional, que pode ser sensibilizada pela ação em favor dos haitianos como efeito demonstração, ao mesmo tempo que pode abrir espaço para os capitais empoçados nos Estados Unidos a se voltarem para os investimentos em infra-estrutura, tanto na nação destroçada, mas, igualmente, nas demais nações pobres, como alternativa para a bancarrota financeira interna.

Obama tem no Haiti o fio de Ariadne para tentar conter dentro dos próprios Estados Unidos a resistência a sua política de união nacional, que pode ser sensibilizada pela ação em favor dos haitianos como efeito demonstração, ao mesmo tempo que pode abrir espaço para os capitais empoçados nos Estados Unidos a se voltarem para os investimentos em infra-estrutura, tanto na nação destroçada, mas, igualmente, nas demais nações pobres, como alternativa para a bancarrota financeira interna.

Ameaçados de se sucumbirem, de um lado, pelo excesso de liquidez financeira , que joga as taxas de juros no chão, e, de outro, pela fuga do consumismo, especialmente, por conta do  endividamento excessivo das famílias, ameaçadas pelo desemprego, despontando como principal desastre social, que sinaliza tensões políticas inevitáveis, os países ricos precisarão de algo mais do qual sempre fugiram, ou seja, da necessidade de buscar nos pobres, fortalecendo seu poder de compra, a saída deles. A corrida solidária em massa dos poderosos, tomados pelo espírito humanitário em face da tragédia haitiana, dispondo-se a ajudar os mais destituídos da terra, por processo histórico de espoliação econômica colonial, pode, ao mesmo tempo, significar solução para que tal gesto seja contínuo, igualmente, em tempos normais, não somente para salvar os pobres, alimentando-os, livrando-os da fome, da morte e dos desastres naturais, mas, da mesma forma, conferindo-lhes a necessária infra-estrutura, indispensável como propulsora de condições capazes de gerar produção, consumo e arrecadação aos governos para tocar os investimentos públicos, a fim de consolidar mercados internos. Construídos estes, a produção estagnada nos países ricos teria canais de escoamento. 

 Falência da economia de guerra  

Não há mais espaço para o unilateralismo que levou o mundo à economia de guerra como motor para a acumulação capitalista cujo resultado foi desenvolvimento insustentável em ritmo de bolhas especulativas até a implosão final a demandar, a partir de agora, cooperação internacional, assim como no Haiti a humanidade, sob o impacto do horror, impulsiona-se à fraternidade universal. Os desastres da economia capitalista requerem o mesmo tipo de comportamento salvacionista, sob pena de a economia mundial se transformar num GRANDE HAITI. Ou seja, uma tarefa para o G-20.

Não há mais espaço para o unilateralismo que levou o mundo à economia de guerra como motor para a acumulação capitalista cujo resultado foi desenvolvimento insustentável em ritmo de bolhas especulativas até a implosão final a demandar, a partir de agora, cooperação internacional, assim como no Haiti a humanidade, sob o impacto do horror, impulsiona-se à fraternidade universal. Os desastres da economia capitalista requerem o mesmo tipo de comportamento salvacionista, sob pena de a economia mundial se transformar num GRANDE HAITI. Ou seja, uma tarefa para o G-20.

Vale dizer, são dessas iniciativas que dependem o capital sobreacumulado nos países ricos para não se sucumbirem na deflação, já que seus mercados internos estão monetariamente aguados , enquanto o comércio internacional, na ausência da cooperação econômica global, pode entrar em crise de guerra protecionista, cujas conseqüências, como a história demonstra, sobejamente, são mais expansões armamentistas como estratégia de conquista de espaços, desembocando em novas e mais intensas guerras. Felizmente, com a grande crise global em marcha, o fôlego financeiro dos governos ricos, especialmente, o dos Estados Unidos, para intensificar gastos em produção bélica e espacial – estratégia que puxou o capitalismo americano depois da segunda guerra mundial -, está curto. Caso os americanos intensificassem a economia de guerra keynesiana, em face dos excessos de déficits que já enfrentam, sofreriam, certamente,  corrida contra o dólar, atacado por processo de intensa desvalorização.

Configura-se, portanto, conjuntura internacional que não favorece a expansão guerreira  unilateral dos americanos, sem fôlego para ampliar, ainda mais, o endividamento público. O perigo que já ronda as finanças americanas, abaladas pela bancarrota financeira global, que a desregulamentação bancária especulativa, facilitada pelo próprio governo de Washington e dos governos europeus, aprofundou, aponta para déficits correspondentes a 150% do PIB. Não haveria gás, por parte de Tio Sam, para agüentar a continuidade de tal rojão. Em 1944, o déficit americano, com a expansão da economia de guerra, chegou aos 140% do PIB, mas, então, a capacidade de os Estados Unidos se endividarem, mediante emissão de dólares sem lastro, era outra; passados mais de 60 anos, o fôlego do Estado Industrial Militar não é mais aquela brastemp.  

Coordenação global 

O Secretário Geral da ONU, Ban Ki Moon, está na obrigação de coordenar, desde já, plano internacional de reconstrução não apenas do Haiti, mas, igualmente, do mundo capitalista em colapso, pois as alternativas nacionalistas em marcha apontam para novos desastres iminentes, impulsionados pela visão equivocada de que a continuidade da acumulação lucrativa do capital, como religião universal, seja a solução, tendo o protecionismo como horizonte visível. Ou seja , terremotos destruidores.

O Secretário Geral da ONU, Ban Ki Moon, está na obrigação de coordenar, desde já, plano internacional de reconstrução não apenas do Haiti, mas, igualmente, do mundo capitalista em colapso, pois as alternativas nacionalistas em marcha apontam para novos desastres iminentes, impulsionados pela visão equivocada de que a continuidade da acumulação lucrativa do capital, como religião universal, seja a solução, tendo o protecionismo como horizonte visível. Ou seja , terremotos destruidores.

Sabendo que foi o fôlego guerreiro keynesiano de Tio Sam o motor que impulsionou o capitalismo mundial, depois da segunda guerra, realizando, de um lado, déficit comercial e fiscal, para puxar a demanda global, e, de outro, superávit financeiro, graças ao poder de emitir moeda deslastreada, capaz de assegurar senhoriagem vantajosa em forma de juros compostos, mas que tal fôlego já acabou, restando avaria por todos os lados, restaria a busca de outra estratégia internacional por parte dos americanos. A opção pela economia de guerra não seria mais solução, mas, fundamentalmente, problema, expresso na possibilidade de corridas destruidoras contra o dólar, algo já em marcha. Assim, se não há mais possibilidade de alavancar a guerra como dinamizadora da reprodução capitalista; se, igualmente, tal reprodução não pode mais ser realizada especulativamente, dada a bancarrota em marcha, decorrente, justamente, do excesso de especulação com o capital sobreacumulado; se as forças do consumo dos países ricos estão baleadas pelo excesso de endividamento, bloqueadas pela avareza dos bancos, em falência, para continuar o jogo especulativo do crédito, restaria, como alternativa, ampliar o consumo não mais dos ricos, mas dos pobres.

Alimentar os pobres, a juro baixo, seria a salvação dos ricos. Reconstruir, não apenas o Haiti, mas toda a periferia capitalista miserável, para que ela pudesse integrar-se à economia global por meio do consumo, capaz de dar dignidade a uma ampla faixa populacional global que vive na miséria, vai se desenhando como saída alternativa para os ricos, que não têm onde remunerar seus capitais sobreacumulados nos países ricos, onde a taxa de juro está negativa, configurando eutanásia do rentista. O problema que se colocaria, de agora, em diante seria outro: o mundo agüentaria a expansão consumista, de modo a dar sustentação à reprodução capitalista com lucro suficiente, na escala necessária para evitar a deflação? Ou haveria necessidade de uma coordenação global do desenvolvimento econômico, via ONU, para limitar a ganância capitalista, de modo a evitar desastre ambiental inevitável, se a exploração, visando o lucro, prevalecesse sobre todas as coisas, como tem acontecido até agora?

 

 

 

 

 

 

 

 

Tragédia abole escravidão e aprofunda democracia solidária no Haiti

Depois de carregar os mortos com os próprios braços, os haitianos terão que reconstruir o país, igualmente, com a força física e mental, sob colaboração internacional, em cenário em que inexistem os líderes políticos corruptos que se evaporaram, deixando vácuo a ser preeenchido pela própria força da organização social popular, criando, consequentemente, novas correlações de forças, diferentes do espírito de poder assentado nos pressupostos privados que foram para o fundo da terra com o direito de propriedade fixado nos cartórios sob escombros.
Depois de carregar os mortos com os próprios braços, os haitianos terão que reconstruir o país, igualmente, com a força física e mental, sob colaboração internacional, em cenário em que inexistem os líderes políticos corruptos que se evaporaram, deixando vácuo a ser preeenchido pela própria força da organização social popular, criando, consequentemente, novas correlações de forças, diferentes do espírito de poder assentado nos pressupostos privados que foram para o fundo da terra com o direito de propriedade fixado nos cartórios sob escombros.

O que as lideranças políticas corruptas não conseguiram, a natureza pode alcançar. A tragédia do Haiti pode representar, ao mesmo tempo, a libertação dos escravos haitianos sob domínio de lideranças corrompidas pelo dinheiro que governam por meio da violência, dividindo, sistematicamente, a sociedade, mantendo-a em estágio tribal, sem estado, sem instituições, sem nenhuma segurança jurídica. A destruição do governo haitiano – o presidente não tem nem onde morar, enquanto seus ministros estão mortos etc – representa, simultaneamente, a eliminação, de cima a baixo, de uma superestrutura jurídica que se impunha pela força. Inexistindo esse pressuposto institucional, depois da catástrofe, o que vier a ser construído, de agora em diante, decorrerá do espírito nacionalista do povo, ajudado pelas finanças internacionais, organizadas, preferencialmente, pela ONU, como forma de representação política da solidariedade universal.

A reconstrução do país será, essencialmente, obra popular. Os líderes nascerão do próprio sangue nacional, abatido pelo terremoto, mas não vencido, totalmente. Evidentemente, como a ação gera a consciência política sobre a realidade que os grupos sociais constroem, de forma complexa, produzida pela distribuição da renda nacional acumulada, a mobilização social, nacional e internacional, abrirá novo caminho para outras correlações de forças. Os partidos políticos e seus líderes evaporaram e a construção de novos partidos, no caos geral, somente será produtiva se houver esforço conjunto pela reconstrução nacional. O predomínio de uma casta política, cujo poder de sustentação é a violência, poderá dar lugar à emergência de novas forças populares, muitas das quais estariam no exterior, estudando, trabalhando, mas com a alma assentada no Haiti, dispostos à trabalharem para reconstrução. 

Democracia fortalece no caos  

 

Nascida da força de trabalho dos escravos, a libertação política foi alcançada em 1803, mas a independência econômica jamais se concretizou, predominando, na prática, o escravagismo moderno determinado pelo capital, na ausência de estado nacional compatível com o espírito da civilização. A tragédia destroi a base produtiva, mas, igualmente, a base política, jogando o povo em um novo contexto, de liberação da escravidão, mas que dependerá, fundamentalmente, das forças internacionais, para solidificar, em consonância com espírito de solidariedade e fraternidade universal. Aí haveria histórico correspondente à democracia econômica.  A superação do desespero e da angústia haitiana requererá fraternidade universal que SANTA ZILDA ARNS plantou, dando testemunho da própria vida.
Nascida da força de trabalho dos escravos, a libertação política foi alcançada em 1803, mas a independência econômica jamais se concretizou, predominando, na prática, o escravagismo moderno determinado pelo capital, na ausência de estado nacional compatível com o espírito da civilização. A tragédia destroi a base produtiva, mas, igualmente, a base política, jogando o povo em um novo contexto, de liberação da escravidão, mas que dependerá, fundamentalmente, das forças internacionais, para solidificar, em consonância com espírito de solidariedade e fraternidade universal. Aí haveria histórico correspondente à democracia econômica. A superação do desespero e da angústia haitiana requererá fraternidade universal que SANTA ZILDA ARNS plantou, dando testemunho da própria vida.

O quadro, guardadas as proporções históricas, ganha contornos semelhantes ao do Haiti no tempo da colonização francesa em que a organização social dos escravos, a partir da revolta escravagista frustrada de 1791 contra os colonizadores franceses, construiu base popular solidária para libertar a nação em 1804, antes, portanto, da independência do Brasil. Os franceses, primeiros colonizadores escravagistas, não transferiram para o Novo Mundo a cultura política européia, expressa na instalação de instituições de Estado. Paris administrava centralizada e imperialmente tudo. Os construtores do estado burguês na França, saídos da revolução francesa, foram, extremamente, avarentos na tarefa de transferir para o Haiti as mesmas conquistas sociais que alcançaram por meio da revolução. O código napoleônico, que instituiu as bases do estado burguês francês, não se expressou, paralelamente, na exploração colonial no Haiti. A França, como colonizadora, guardou para si, com chave de ouro, suas próprias conquistas políticas, enquanto, em relação aos haitianos, atuou como escravagista. Democracia na França, escravidão nas colônias. Uma nova Grécia burguesa dos tempos modernos é o arremate da civilização francesa na sua expansão imperial. Liberté, fraternité, igualité, apenas, para os franceses; para os haitianos, barbárie. 

Os franceses, no Haiti, foram substituídos pelos americanos, depois que os Estados Unidos desbancaram a França no território da Louisiania e suas ramificações no Caribe, a partir de 1803. A independência política haitiana não se consolidou em independência econômica. Os Estados Unidos ampliariam o domínio ao longo dos anos, culminando, em 1848, com o Tratado de Guadalupe, pelo qual anexam o Texas, Califórnia, Arizona, Novo México. Culminam os americanos com a ocupação geral em 1898 do Haiti e anexação de Porto Rico, Cuba, Filipinas. Naturalmente, não seriam os americanos os novos libertadores, mas os novos escravagistas. Criaram infra-estrutura econômica no país dependente do modelo de desenvolvimento concentrador de renda que desarticulou todas as bases econômicas dos escravos, apoiada, especialmente, na solidariedade de classe social. Não se firmou a política e os líderes saíram das milícias armadas pelos colonizadores, sem nenhuma base institucional, até hoje. Prevalece elite política mercenária.

 A nova realidade política escrita pela catástrofe, unindo forças internas e externas, pode representar, sobretudo, ensaio geral de governo da ONU no cenário internacional, em processo de generalização, como tendência que poderia se aprofundar nas relações sociais globais em choque pela crise econômica internacional. A vontade política se expressou como rapidez de um raio por meio da mobilização dos líderes internacionais em prol da tentativa de reconstruir a nação destruída. A lição estaria à vista. A vontade política, quando é para valer, sai, com dinheiro ou sem dinheiro. Não se verificou tal vontade global, em uníssono, durante os estragos provocados pela grande crise financeira internacional. Os problemas, provocados por esta, estão sendo enfrentado sem coordenação global, mas pela individualidade dos nacionalismos, sinalizando desastres. A visão nacionalista, no entanto, é insuficiente, da mesma forma que o nacionalismo emergente dos haitianos, por mais que se fortaleça, não será suficiente sem a ajuda internacional.  Assim como ação nacionalista dos haitianos se mostra insuficiente para coordenação de sua própria sobrevivência, sendo necessária a ajuda internacional, ações nacionalistas isoladas , no plano monetário, demonstram, igualmente,  insuficiência na tarefa de colocar a economia global nos eixos. A desestruturação do processo monetário, como do processo destruidor dos terremotos no Haiti, requereria coordenação global. 

Com o grande terremoto tudo vem abaixo, o presidente da República, que não tem mais onde morar, com filhos, parentes, assessores e amigos mortos na tragédia, tem seu poder político capado pela tragédia. Até o Palácio veio abaixo. Ou seja, o simbolismo desmoronou-se. O vácuo político total é a realidade atual. Em meio à catástrofe, a realidade clama por novas lideranças, que nascerão, certamente, do fruto do trabalho da reconstrução. O novo poder poderá ser arrancado com as mãos que estão arrancando os corpos dos escombros em regime de solidariedade humana. Como esta dependerá da ajuda internacional, os novos construtores do país, o povo, internamente, e as demais nações, externamente, terão que partir para uma coordenação geral solidária que representaria, na prática, germe de novo Estado.

Desse modo, sem herança institucional, os escravos, liderados por políticos saídas da própria escravidão, em parceria com a boa vontade internacional, estariam, enquanto sofrem desesperos e agonias sem fim, dando os primeiros passos para sua verdadeira libertação. Cresceria, com o tempo, a máxima popular de que Deus escreve certo por linhas tortas? Ou não? O fato é que o Haiti, política e economicamente em desastre, é um papel em branco a ser escrito pela luta popular. 

Governo da ONU para Haiti

O cuidado e o amor para com os mortos, massacrados no grante terremoto, terá que se repetir para com os vivos, os que sobraram, em igual medida, para com tal força, que se lança ao jogo da solidariedade, como salvação coletiva, possa reerguer novo Estado sem os vestígios do escravagismo econômico.
O cuidado e o amor para com os mortos, massacrados no grante terremoto, terá que se repetir para com os vivos, os que sobraram, em igual medida, para com tal força, que se lança ao jogo da solidariedade, como salvação coletiva, possa reerguer novo Estado sem os vestígios do escravagismo econômico.

A vontade política para tal empenho ainda não surgiu, revelando os grandes líderes, mas ela emergiu diante da catástrofe como alternativa para tentar salvar o Haiti. O poder da caridade internacional, da qual deu prova a missionária médica brasileira morta nos escombros, Zilda Arns, demonstrou, sobejamente, que quem manda é a vontade política pela mobilização geral em favor da resolução dos problemas.

Isoladamente, nenhum governo conseguiu mobilização, tanto interna quanto internacional, para a coordenação de esforços globais para solução dos problemas econômicos e financeiros que se aprofundam, sinalizando caos possíveis e imagináveis; mas, bastou uma tragédia de grandes proporções, para que essa vontade aparecesse abruptamente.

Vale dizer, se a economia for vista não pelo interesse do lucro, exclusivamente, mas pelo interesse do desenvolvimento humanitário, a coordenação geral de uma vontade política teria a mesma forma que se apresenta para ajudar humanitariamente o Haiti em colapso.

A humanização do pensamento econômico ganharia, portanto, vontade política que tenderia a sobrepor os imperativos econômicos como se estes se dessem no exterior da realidade, sem o concurso da vontade humana.

Os problemas globais estariam se arrastando, sem soluções, porque, como ensina a mobilização geral pelo Haiti, a vontade política dos líderes mundiais ainda não saiu do âmbito do nacionalismo, embora os desafios clamem por ação multilateralista, que equivale a uma visão para além do meramente econômico.

Sem tal vontade, o mundo viraria UM GRANDE HAITI. A concepção de um governo articulado pela ONU, com as forças populares,  para salvar o Haiti abria o caminho para nova consciência política global.

 

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

Haiti traduz urgência por união global

 

SANTA ZILDA ARNS. Missionária, mulher global, sorriso lindo e puro, imolada no sacrifício em nome da paz , da concórdia e da fraternidade, viúva, mãe de cinco filhos e de milhões de crianças pelo mundo afora, ela demonstrou aos líderes mundiais que a paz está ao alcance das mãos , desde que se abra o coração ao outro que é a extensão do ser em si na generalidade do semelhante, sem fronteiras, para o entendimento de uma só linguagem - a do AMOR.

SANTA ZILDA ARNS. Missionária, mulher global, sorriso lindo e puro, imolada no sacrifício em nome da paz , da concórdia e da fraternidade, viúva, mãe de cinco filhos e de milhões de crianças pelo mundo afora, ela demonstrou aos líderes mundiais que a paz está ao alcance das mãos , desde que se abra o coração ao outro que é a extensão do ser em si na generalidade do semelhante, sem fronteiras, para o entendimento de uma só linguagem – a do AMOR.

Seria mera coincidência a morte trágica da médica brasileira Zilda Arns, dedicada de corpo e alma à caridade humana, dentro de Igreja, enquanto dava sequência a sua missão humanitária, sucumbindo-se em meio aos milhares e milhares de mortos no violento terremoto que abalou a humanidade e a tirou do torpor sob crise econômica global, envolvendo a todos, ricos, pobres e remediados em um vendaval econômico, cujas conseqüências destrutivas ainda se encontram em marcha, abalando espíritos ambiciosos, egoístas, vaidosos, orgulhosos, niilistas, levando-os a um beco sem saída, capaz de levantar questionamentos indispensáveis quanto à adequada e necessária condução do destino humano na terra sob novas relações sociais, econômicas e políticas?

Assim como se mobilizam forças espalhadas por todos os países, movidas pelo mesmo espírito de caridade que embalava Zilda Arns, para coordenarem ajuda ao povo massacrado do Haiti, desgovernado por forças econômicas internas e externas que o sugaram e o impediram até agora de ganhar autonomia sobre seu próprio destino, condenando-o à condição de nação mais pobre e miserável da terra, da mesma forma, essa humanidade perdida e medíocre, que fez evaporar a riqueza mundial na especulação e na irresponsabilidade determinada pela ganância, não estaria necessitando de um esforço de união universal para coordenação da irracionalidade desenvolvida por si mesma em sua perdição materialista?

Estaria fora da união a salvação mundial, assim como não será possível ao Haiti conseguir se superar senão pela ajuda caridosa da solidariedade universal?

Os escombros sob os quais mais de 100 mil mortos e sobrevividos massacrados se esvaem em sangue aos olhos e sentimentos atônicos do mundo sinalizam ou não uma urgência moral, de modo a espantar o egoísmo global alargado pela sede de poder e lucro, impulsionados pela ciência e tecnologia colocados a serviço da produção e da sobreacumulação acapitalista, cujo resultado é a própria população do Haiti, onde a renda média é de, no máximo , dois dólares, incapaz de conferir dignidade ao ser humano?

Terá sido necessária uma sacudida violentíssima dessa natureza, como foi a que atingiu os haitianos, no embalo do tremor, na escala Richter de quase 8 graus, para sensibilizar os humanos, no sentido de que sua força é, realmente, sua fraqueza, se esta não for amparada, permanentemente, pelo espírito de solidariedade universal que embalava Zilda Arns, SANTA ZILDA ARNS?

Debalde, até agora, por causa da ganância especulativa sem fim, não foi possível aos humanos erguer organização social capaz de coordenar a produção global, a fim de evitar o que já começou a acontecer, em escala, por enquanto incontrolável: a do desabalado protecionismo comercial, no rastro da bancarrota financeira dos Estados Unidos, disseminando geral por todos os cantos da terra a sensação absoluta de insegurança, que, em outros tempos, não longínquos, produziu guerras fratricidas. 

As reuniões multilaterais – multilateralismo indispensável – se multiplicam, mas o excesso de capital em mãos de poucos detentores estimula novas guerras econômicas, novas destruições, em busca de mais acumulação, potencializando placas tectônicas, tais quais as que se deslocaram no fundo da terra, para emergirem no Haiti, e sinalizando semelhnças de movimento entre a natureza terrestre e a natureza destrutiva do próprio capital.  

Despertar da solidariedade  

Dor, desespero, agonia dos haitianos sensibilizam o mundo dividido em nome do lucro que destroi a sensibilidade e faz explodir a violência em contexto em que civilização se expressa na contradição entre igualdade jurídica correspondente à desigualdade social, clamando por solidariedade entre os povos, cuja emergência somente acontece quando algo mais forte que a frieza da racionalidade se impõe em forma de tragédia.

Dor, desespero, agonia dos haitianos sensibilizam o mundo dividido em nome do lucro que destroi a sensibilidade e faz explodir a violência em contexto em que civilização se expressa na contradição entre igualdade jurídica correspondente à desigualdade social, clamando por solidariedade entre os povos, cuja emergência somente acontece quando algo mais forte que a frieza da racionalidade se impõe em forma de tragédia.

Os estadistas se sensibilizaram. As imagens nos levam às lágrimas. O sorriso de anjo superior de Zilda Arns, acompanhado de suas palavras de que as necessidades do mundo estão relacionadas, igualmente, às exigências de maior solidariedade e amor, para se alcançar a paz por meio da ajuda ao próximo, representa a indicação sublime da racionalidade humanitária. Esta, naturalmente, se assenta na simplicidade da caridade.

A caridade universal, como disse SANTA ZILDA ARNS, é a salvação universal.

Os aviões se deslocam do norte para o sul e do leste para o oeste e vice-versa, cheios de mantimentos, médicos, assistentes sociais, profissionais de toda a natureza, medicamentos, materiais indispensáveis à ajuda dos que estão soterrados, mortos ou ainda vivos no Haiti. São como almas humanas caridosas deslocando-se no espaço, apressadas em prestar serviço humanitário que até agora faltou sob regime de normalidade.

Precisa emergir a anormalidade, os momentos trágicos, para que a natureza humana se sensibilize com a desgraça do outro. Sob a normalidade, predomina a violência, o roubo , a imoralidade, a anti-ética em nome da acumulação capitalista sem freio, que compra políticos e governos a preço vil, enquanto o outro é o estorvo universal de sempre.

O inferno, disse Sartre, são os outros. O ser outro em si mesmo, como ressaltou Hegel, só se deslumbra na desgraça. Os mineiros somente são solidários no câncer, como diz ditado popular.

Não se passa pela cabeça, em tempos de normalidade, que o outro é a generalização de nós mesmos, que a exploração econômica do outro é a nossa própria exploração de si, cega, faca amolada.

Ainda não se disseminou a crença de que o ser humano é um ser genérico, que o ser outro em si mesmo é a construção de si. Sobretudo, ainda, não se chegou às mentes mediocrizadas, de forma genérica, que é mais negócio dar do que receber etc.

Que fazer diante dessa ignorância de si senão balançá-la, violentamente, por meio de acontecimentos trágicos, tocantes, de modo uníssono, à sensibilidade universal, que, de outro modo, fica recolhida em sua mediocridade individualista, sem saber que a coletividade é o contrapolo necessário da unidade humana em si mesma ao lado de cada individualidade?  

Nova Arca de Noé 

Será que a humanidade entenderá dessa vez que a união para salvar uma nação é a mesma que deve ser realizada para construir um mundo novo não dividido pela ganância que estimula a divisão permanente dos povos em nome da sobreacumulação de capital que ameaça a estabilidade global?
Será que a humanidade entenderá dessa vez que a união para salvar uma nação é a mesma que deve ser realizada para construir um mundo novo não dividido pela ganância que estimula a divisão permanente dos povos em nome da sobreacumulação de capital que ameaça a estabilidade global?

O mega-especulador George Souros, em artigo pessimista, destacou que o caos financeiro seguirá em frente – como o caos haitiano sob escombros do terremoto – enquanto predominar o nacionalismo monetário, incapaz de perceber que a desregulamentação financeira global, responsável pelo terremoto econômico ainda insolúvel sob areia movediça, somente será superado por uma visão global, indispensável para promover a coordenação geral das necessidades de ricos, pobres e remediados, embalados pela decadência do dólar como equivalente geral que se autodestruiu na sobreacumulação de capital.

Ou os luminares do pensamento não estão entendendo o que realmente acontece sob suas barbas, tentando insistir em fórmulas erradas, nacionalistas, que visam o umbigo de cada qual, na vã tentativa de se salvarem, isoladamente, sem saber que, abstratamente, o ser humano é uma generalidade do si mesmo no ser outro em si?

A ONU, que, no Haiti, foi destruída pelo terremoto, seria o lugar da coordenação geral de esforços globais, de modo a superar os individualismos nacionalistas xenófobos, na linha proposta por Keynes, em 1944, durante Bretton Woods. Sua idéia, de criar o BANKOR, moeda internacional, gerenciada por um conjunto de países – hoje poderia ser o GRUPO DOS 20 , por que não? – para que houvesse sintonia monetária global, articulando os balanços de pagamentos no rodízio das trocas internacionais – quem sabe mediadas por cesta de moeda, visto que o dólar já era, para exercitar esse papel, por conta da bancarrota americana – tenderia a ser o germe de um sistema monetário novo. Ou , então, outra imaginação mais adequada aos novos tempos, embora o espírito monetário coletivo guarde o mesmo sentido.

Do mesmo modo que se juntam todos para ajudar o Haiti a sair do seu inferno, levando-os a identificarem o si mesmo com o ser outro em si – o Haiti , enfim, é aqui, em termos éticos e morais – igualmente uma ação semelhante, maior, planetária, exuberante, é reclamada da ONU, para o plano monetário em meio à falência global.

Impõe-se, moralmente, como imperativo categórico, a coordenação geral, sob supervisão individual dos países, destituídos, certamente, da sua visceralidade individualista irracional e destrutiva. Talvez, quem sabe, movidos pelo interesse comum de preservação da humanidade como espécie, materialize-se abstração espiritual do racional segundo o qual o ser outro em si mesmo é a verdade que une a todos em uma mesma Arca de Noé.

 

 

 

 

 

 

 

 

Mandela deve pairar na cena nacional

O espírito de Nelson Madela está faltando nas discussões em torno do Programa Nacional de Direitos Humanos, no Brasil, no momento em que a sociedade se prepara para escolher quem comandará o destino do país em substituição ao presidente Lula. Pairando o revanchismo, a herança lulista estará carregada de ressentimento, cujas consequências afetarão as relações sociais, econômicas e políticias, colocando os lados em disputa em posições de confronto que impedirão a remoção das resistências psicológicas necessárias à união nacional.
O espírito de Nelson Madela está faltando nas discussões em torno do Programa Nacional de Direitos Humanos, no Brasil, no momento em que a sociedade se prepara para escolher quem comandará o destino do país em substituição ao presidente Lula. Pairando o revanchismo, a herança lulista estará carregada de ressentimento, cujas consequências afetarão as relações sociais, econômicas e políticias, colocando os lados em disputa em posições de confronto que impedirão a remoção das resistências psicológicas necessárias à união nacional.

A questão da  anistia volta perturbar a vida nacional, sob o argumento de que a tortura é imprescritível.  A virtual revisão da Lei da Anistia, de iniciativa do General-Presidente Figueiredo, mas aprovada pelo Congresso Nacional, de 28 de agosto de 1979 e que anistiou os dois lados envolvidos na luta pela redemocratização, está embutida no Decreto que instituiu o III Plano Nacional de Direitos Humanos. A idéia é colocar os torturadores no banco dos réus.

Vale registrar que a questão da anistia não se esgotou no diploma legal de 1979. Essa lei, considerada a Lei da Anistia, foi o momento culminante da luta pela redemocratização e teve um caráter eminentemente político. Graças a ela os processos em curso contra os que se levantaram por quaisquer meios- ou fins… – pela redemocratização foram arquivados, alguns (ainda) presos foram soltos e dezenas ou centenas de líderes políticos que estavam no exílio voltaram para casa. Em contrapartida, também os que participaram da repressão a esses movimentos de resistência também foram anistiados. A anistia foi um perdão tão amplo, geral e irrestrito quanto a abertura política que a inspirou naquele momento, há trinta anos.

A Constituição de 1988, em seus Artigos 8º e 9º do Ato das Disposições Transitória, ratificou a Lei da Anistia da 1979, não lhe impondo outro alcance senão o de responsabilizar, dentro de limites precisos, a responsabilidade econômica do Estado por danos de natureza política havidos durante a ditadura. Sem maiores explicações e até mesmo plausível justificativa retrocedeu esses benefícios a 1946. Mas tão claro é o direito dos atingidos por atos de natureza politicamente motivada que o dispositivo constitucional foi automaticamente aplicado por autoridades competentes aos que a ele recorreram. Eu mesmo, requeri minha readmissão no IPEA, que constituiu uma Comissão Interna de Avaliação com os intuito de analisar caso a caso cuidadosamente, e voltei ao trabalho, muito embora se direito a qualquer indenização econômico-financeira.

A regulamentação dos benefícios econômicos da Anistia instituída pela Constituição de 1988 e que traria à tona a discussão de supostas pensões de elevado valor ou pagamentos vultosos de uma só vez foi feita pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, no final do seu mandato,  através da aprovação da Lei  10.559/2002. Por esse instrumento criou-se, junto ao Ministério da Justiça a Comissão de Anistia, para a qual todos os processos de Anistia em curso no território nacional – aprovados ou não – foram remetidos, e à qual competiria, doravante, conceder administrativamente indenizações aos “oficialmente” anistiados. Desde então, essa Comissão funciona regularmente junto ao Ministério da Justiça analisando milhares de processos que não cessam de lhe serem submetidos, pois que a própria edição da Lei que a instituiu revogou o instituto da prescritibilidade.

Mas ao longo desses anos todos – trinta anos – a questão da anistia aos torturadores , grande parte deles militares envolvidos na repressão , não parou de povoar a imprensa. Tendo evoluído, nesse meio tempo,  o tema no âmbito internacional, paralelo à Criação do Tribunal dos Crimes contra a Humanidade junto à ONU, a imprescritibilidade de crimes desse tipo contra a pessoa humana, trazia sempre a hipótese da revisão da Lei da Anistia no Brasil. A colocação de militares de alta patente no banco dos réus na Argentina, no Chile e no Uruguai só fazia aumentar, em alguns círculos da esquerda brasileira, essa idéia, finalmente, inscrita no Decreto do III Programa Nacional de Direitos Humanos, formulado, precisamente, no âmbito do Ministério da Justiça.

Seria, pois, oportuna, conveniente e justa essa revisão?

O assunto é complexo e envolve juízos. Há a questão contemporânea dos crimes contra a humanidade, dentre os quais a tortura, sujeita à denúncia por qualquer pessoa, em qualquer parte do mundo, no Tribunal da ONU, o que constitui um avanço considerável em termos de Direitos Humanos. Mas há também a avaliação da questão da anistia no seu momento histórico, em 1979.

Tenho para mim que o assunto encerrou-se jurídica e politicamente naquele ano.

Do ponto de vista jurídico a Anistia de 1979, com todas as imperfeições que seriam corrigidas pela Constituição de 1988 e pela Lei 10.559/2002, ambas no curso de um processo legislador suficiente, foi um ato jurídico perfeito do qual não cabe recorrer a não ser para ampliar direitos de quem quer que seja, jamais suprimi-los. Nem poderia a Lei da Anistia de 1979 ser revogada por um Decreto , muito menos por qualquer outro ato menor. Fazê-lo, corresponderia a, em futuros governos, cortar benefícios concedidos pela atual Comissão de Anistia sob o argumento de que não são justos. Pode, aliás, qualquer processo de concessão destes benefícios ser reavaliado à luz da evidência de apresentação de documentação fraudulenta ou falsas testemunhas, mas jamais à bel-prazer de futuros governos que, porventura, não comunguem as mesmas idéias sobre “direitos à indenização “ de Fernando Henrique Cardoso ou Luiz Inácio Lula da Silva.

A Anistia de 1979 deve ser situada , ainda, no contexto de sua época, como fruto de uma distensão lenta, segura e gradual comandada pelos detentores do poder, os quais, embora colocados contra a parede pela opinião pública, pela conjuntura internacional pós Carter, e pela forte oposição no Congresso Nacional, jamais perdeu o controle da situação. Tanto que, ainda em 1983 derrubaria a Emenda das “Diretas Já” neste mesmo Congresso. O regime militar no Brasil agonizou mas não foi derrubado por um processo capaz de colocá-lo no banco dos réus. Ele  negociou seu trânsito à redemocratização através, precisamente, da Lei da Anistia, e consolidou essa transição no Governo do Presidente Sarney durante mais cinco depois, depois dos seis do General Figueiredo. Certo ou errado, justo ou injusto, esse foi o processo da

Abertura, no Brasil, um processo que se instaurou, precisamente, depois de aniquilar – pela violenta repressão – todas as tentativas de suprimi-lo também pela força das armas. No grande vácuo das lideranças mais agressivas contra o regime, os liberais se impuseram como interlocutores e ocuparam o espaço da representação política do país firmando os acordos para a transição que, ao final, anos depois,  traria, bem comportados, embora sem qualquer auto-crítica, muitos dos combatentes mais enragés do período da resistência. Mas há que se registrar que foram os liberais, Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, à frente, durante anos, que lhes pavimentaram esse caminho, pontilhado de armadilhas, retrocessos e desventuras, mas graças ao qual chegamos à redemocratização. Nosso processo, nesse sentido, é muito mais parecido ao da África do Sul, do que do Chile ou Argentina. E veja-se que lá o preço da transição à Presidência de Mandella foi exatamente o da instituição do “Perdão”, jamais o da perseguição implacável aos executores do Apartheid.

Revisar agora a Lei da Anistia, portanto, não é um imperativo de consciência, como pretende o Decreto do III Programa Nacional de Direitos Humanos. É uma exigência extemporânea e inoportuna que expõe, às vésperas de uma nova eleição presidencial, a fragilidade de nosso processo de redemocratização. O assunto dos “torturadores”, ainda assim, não estará sepultado com a eliminação deste item no referido Decreto. Ele pode, muito bem, ser encaminhado à Justiça, que , com mais propriedade deverá tratá-lo. E, mesmo assim, ser levado por qualquer uma das vítimas desse bárbaro crime ao Tribunal Internacional da ONU, em Roma, pois que prerrogativa de qualquer cidadão atingido por crimes contra a humanidade, em qualquer ponto do planeta, fazê-lo.

Dissentir deste ponto do Programa Nacional de Direitos Humanos, enfim, não significa contrariar a sua importância, inaugurada por José Gregory ao tempo em que foi Ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, para a vida nacional. Contemplar ali, também, questões fundamentais à defesa dos direitos humanos , como direitos dos trabalhadores à terra e à livre expressão, não significa que está decretada uma “revolução” a favor de pobres e oprimidos. Como dizia o bravo Caxias: “O Brasil espera que cada um cumpra com seu dever”. E isso a Secretaria de Direitos Humanos do Ministério de Justiça procurou fazer. Realizou dezenas de Congressos Regionais e Nacional, reuniu sindicatos, ONGs, especialistas e agentes públicos e por fim, como fez de outras vezes, apresentou à Nação o III Plano Nacional de Direitos Humanos, uma peça digna de atenção e consideração, como os anteriores. Isto coloca o Brasil à altura de suas responsabilidades no mundo civilizado. Pode-se, até, aproveitando-se do embate com algumas das idéias ali contidas, contribuir para aperfeiçoar o processo de elaboração do referido Plano. Eu próprio, incumbido da difícil tarefa de ministrar a cadeira de Direitos Humanos no Curso Superior da Polícia Militar do Governo do Distrito Federal – uma exigência do I Plano Nacional de Direitos Humanos -, incumbi meus alunos coronéis, no princípio das aulas muito desconfiados, a elaborar, como trabalho de final de curso,  um Projeto de Lei regulamentando a realização da Conferência Nacional de Direitos Humanos e de levá-lo ao então Deputado Federal Agnelo Queiroz. Por esse Projeto todas as Policias Militares, Polícias Civis do país, Forças Armadas e outros órgãos de Governos, seriam convocados a participar das reuniões preparatórias de forma a não serem redutos exclusivos da sociedade civil engajada no tema.Outros aperfeiçoamentos, poderão, certamente, vir a acontecer, de forma a abranger na elaboração do Plano Nacional de Direitos Humanos todo o arco de sociedade cujos atentados à pessoa humana ele pretende atingir de forma a protegê-la. Assim ninguém, jamais, seria pego de surpresa…

                                          

                                                     ***

PAULO TIMM – Economista, Pós Graduado ESCOLATINA, U.deChile, Presidente do Conselho Regional de Economia do DF , Professor da UnB, Ex-Professor de Direitos Humanos do Curso de Oficiais Superiores da PMDF, Professor da UnB.

 

A esquerda que a direita gosta

Tarso e Vanuchi escolheram hora errada para levantar polêmica que divide a sociedade em vez de uni-la em torno do presidente Lula que se empenha, por tal união, em favor do bombeamento eleitoral da candidata Dilma Rousseff, que a estratégia dos dois ministros prejudica, lançando-a contra os  militares, religiosos, agricultores, imprensa etc, desnecessariamente. Macacos em loja de louça brandindo bandeira do dogmatismo revanchista. José Serra agradece.
Tarso e Vanuchi escolheram hora errada para levantar polêmica que divide a sociedade em vez de uni-la em torno do presidente Lula que se empenha, por tal união, em favor do bombeamento eleitoral da candidata Dilma Rousseff, que a estratégia dos dois ministros prejudica, lançando-a contra os militares, religiosos, agricultores, imprensa etc, desnecessariamente. Macacos em loja de louça brandindo bandeira do dogmatismo revanchista. José Serra agradece.

Parece que a esquerda, pelo menos a brasileira, gosta de jogar a favor da direita neoliberal nos momentos decisivos. Darci Ribeiro tinha razão: eles, os esquerdistas, fazem o jogo que a direita gosta. Veja, por exemplo, essa polêmica idiota – no sentido grego, de se ignorar o mundo – , relativamente à questão dos direitos humanos que divide, inutilmente, os setores formadores de opinião. Claro, não se trata de desconhecer a dignidade da pessoa humana e a necessidade fundamental de que seus direitos sejam devidamente respeitados ontem, hoje, amanhã, sempre. Mas, fazer o jogo do adversário, lançando mão da bandeira dos direitos humanos, como se achasse que estivesse contribuindo para o avanço do processo democrático e das forças progressistas, na sua luta para remover a contradição básica do estado burguês, expressa na superestrutura jurídica, em que a máxima da igualdade jurídica corresponde, dialeticamente, à injustiça social, no caso do terrorismo político que predominou no país há 45 anos, não passa de equívoco total.

O genial Darcy Ribeiro entendeu a alma conflituosa da esquerda brasileira, que, quando quer ajudar, atrapalha, e, quando quer atrapalhar, ajuda.
O genial Darcy Ribeiro entendeu a alma conflituosa da esquerda brasileira, que, quando quer ajudar, atrapalha, e, quando quer atrapalhar, ajuda.
Os jornais conservadores estão nadando de braçadas. Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, Globo etc encontraram motivações espetaculares para preencherem, diariamente, quatro, cinco páginas com o assunto, estimulando espíritos contrários entre si a levantarem bandeiras revanchistas cujos efeitos políticos sobre o povão, que vai votar,  é, praticamente, nenhum. Mas dá caldo grosso da classe média para cima, já que as classes C,D e E, que passaram a comer, não estão nem aí. Durante a campanha eleitoral, a esquerda, rendida, psicologicamente, ao dogmatismo, ao fanatismo , à intransigência, à intolerância etc, que tem toda uma programação que poderia ser dinamizada, ganhando maior espaço, no rastro da popularidade do presidente Lula, no âmbito das classes C,D e E, as que garantem eleição, para que consiga avançar programaticamente em plataforma reformadora econômica, política e social, dá espaço para a direita, carente, nesse instante, de bandeiras firmes e convincentes, detonada que foi pela ideologia neoliberal, falida na grande crise global. O que tem as forças governistas a ganharem, em tempo eleitoral, ao  levantar polêmicas desnecessárias , no sentido do time , que dividem em vez de unir a sociedade? Burrice.

 

Assunto fora de hora  

 

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, vestiu, claro, a camisa dos militares, assumindo a indignação deles contra a estratégia e a tática de Vanuchi e Genro, de tentarem fazer do Programa dos Direitos Humanos bandeira eleitoral, que abre polêmicas sem fim, enquanto os temas fundamentais que elevariam a força do presidente e de sua candidata, como são os sucessos dos programas sociais, ficariam em segundo plano. Jobim vê racha na coalisão governamental na jogada fora de propóstico dos seus dois colegas de ministério. Demais.
O ministro da Defesa, Nelson Jobim, vestiu, claro, a camisa dos militares, assumindo a indignação deles contra a estratégia e a tática de Vanuchi e Genro, de tentarem fazer do Programa dos Direitos Humanos bandeira eleitoral, que abre polêmicas sem fim, enquanto os temas fundamentais que elevariam a força do presidente e de sua candidata, como são os sucessos dos programas sociais, ficariam em segundo plano. Jobim vê racha na coalisão governamental na jogada fora de propóstico dos seus dois colegas de ministério. Demais.

O Programa Nacional de Direitos Humanos, agitado nessa hora, é isso aí. Tremenda facada no presidente Lula e em sua candidata, ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, cujo passado de guerrilheira , tornou-se motivo oculto dos militares para buscarem revanchismo besta , que remexidos no caldo de cultura da ignorância e bestialidade tupiniquins podem fazer estragos gerais. Lula, em recente discurso, falou, em tom engrandecido, em sua disposição de sublimar os desentendimentos forjados pela história. Nesse ambiente, o País poderia ter na presidência uma ex-guerrilheira. Por que não? Mas, em meio à disposição inteligentíssima da esquerda de misturar essa alegoria presidencial como a disposição de mexer nos porões da ditadura, o barco começou a balançar, movido, é claro, pelas incompreensões, alimentadas pelos ressentimentos.

O povo está interessado nisso?  Em que, realmente, ele está ligado, no momento em que os candidatos esquentam os tamborins, para atrair as multidões às suas propostas na avenida da eleição que leva às urnas sob o som da batucada da vida?

No que aconteceu nos porões da ditadura militar faz quase 50 anos, com todo o seu rol de indignidades, que estão sendo purgadas pelo tempo, envolvendo personagens trágicos, cujas famílias, inclusive, embora tenham sofrido horrores, acomodaram-se, relativamente, às circunstâncias determinadas pela correlação de forças sociais e econômicas em país onde predomina violenta concentração de renda?

Ou , ao contrário, as preocupações se voltam, justamente, para a remoção histórica dessa injustiça social e econômica em forma de atitudes governamentais concretas, expressas em inclusão social ampla das massas, como são os casos dos programas sociais, como o Minha Casa, Minha Vida, o Bolsa Família, o Luz para Todos etc, que determinaram equilíbrio entre o social e o econômico, responsáveis, por fim, em contribuir para dinamizar o mercado interno e salvar o Brasil da bancarrota capitalista global?

Se a superestrutura jurídica vigente, que dá conformação ao estado burguês nas periferias capitalistas miseráveis, das quais o Brasil, infelizmente, ainda, é parte, não foi capaz de eliminar os horrores que acontecem nas cadeias atuais, nos grandes centros urbanos, por que intensificar, mentalmente, os horrores do passado, se o presente horrorizado está mais vivo do que nunca e deixando os pobres cada vez mais apavorados, diante da confirmação de que as injustiças, os desmandos e a violência patrocinados pelo Estado continuam nas cadeias putrefatas, cheias de presos subjugados em sua dignidade humana?

Será que os que sofrem os horrores de hoje, sempre os pobres, se sensibilizarão com os horrores de ontem, cujas vítimas foram filhos da classe média, no tempo em que o Brasil vivia o milagre econômico, em que os trabalhadores empregados sequer ouviam os gritos dos torturados nos calabouços da ditadura?

Sobretudo, é politicamente inteligente, por parte da esquerda, que encampa campanha de rediscussão sobre os destinos dos torturadores do tempo da ditadura , 1964-1984, , quando os torturadores do Estado continuam, em 2010,  massacrando os miseráveis nas delegacias carentes de infra-estrutura pela multiplicação dos crimes cuja origem, majoritariamente, está na injustiça social crônica nacional? Darci, Darci, ó grande Darci Ribeiro, onde está você!

 

Jogo desnecessário da divisão  

 

A esquerda colocou a bola na marca do penalti para Serra bater, fazendo gol contra Dilma, no momento em que começa a campanha eleitoral, na medida em que em vez de centrar fogo no que soma, aprofundou o que divide, jogando com os adversários. Muita inteligência.
A esquerda colocou a bola na marca do penalti para Serra bater, fazendo gol contra Dilma, no momento em que começa a campanha eleitoral, na medida em que em vez de centrar fogo no que soma, aprofundou o que divide, jogando com os adversários. Muita inteligência.

Os torturadores e os torturados, evidentemente, não devem e não podem ser misturados no mesmo saco, mas se a história brasileira, no tempo e nas circunstâncias possíveis, dadas pela correlação de forças, encontrou uma solução por meio da anistia, mal e porca, por que abrir essa caixa de marimbondo logo no momento em que começa a disputa eleitoral, sabendo que sua discussão extensiva fortalecerá os adversários que buscam brechas para dividir o campo governamental, aparentemente, forte, graças ao prestígio impressionante do presidente da República junto às massas, empenhado em  transferir tal capital para Dilma Rousseff?

De repente a oposição, manchada pelo em vigor neoliberal entreguista, ganhou presente: o Programa Nacional de Direitos Humanos, versão 3, disparado pela presunção dos ministros Tarso Genro, da Justiça, e Paulo Vanuchi, dos Direitos Humanos, na qual o presidente Lula caiu como patinho. Os esquerdistas cutucaram onça com vara curta. Os militares se levantaram(ou seja, podem seus familiares em todo o País desistirem de votar em Dilma, optando pelo seu adversário, o governador de São Paulo, José Serra, se o calor da discussão esquentar para valer); como os militares, levantou, também, a Igreja(as comunidades eclesiais de base, sob a voz da madre, igualmente, podem dar no pé); como a Igreja e os militares, os agricultores, da mesma forma, estão em pé de guerra(milhões deles, inconformados, já viu, né); juntando tudo, a grande mídia aproveita para fazer barulho, porque o Programa de Genro e Vanuchi quer cercear, segundo ela, a liberdade de imprensa.

Os quartéis não aceitam que se faça barulho sobre os torturadores, lembrando que os seus foram, também, assassinados pelos terroristas etc; os agricultores, capitaneados pelo ministro da Agricultura, Reinhold  Stephanes, criticam a emergência repentina de insegurança jurídica que determina diálogo dos agricultores com os que invadem suas terras antes da decisão soberana da justiça; a Igreja, por sua vez, reclama contra a descriminalização do aborto e a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Gays e lésbicas, por sua vez, avalizam o texto governamental. Ou seja, as controvérsias se estendem ao infinito. O editorial do Estadão, muito justamente, pede revogação do Programa, caleidoscópio de temas conflitantes, polêmicos e mal colocados, sobrepujando até mesmo o texto constitucional, assinado, SEM VER, pelo presidente Lula, como este próprio reconheceu. Coisa de louco. Prato cheio para os adversários.

 

Na marca do penalti  

 

Se a campanha governamental pegar a proposta de Requião, do PMDB, aliado do Planalto, em favor do salário mínimo de R$ 780, pago aos trabalhadores paranaenses, estendendo-o a todos os brasileiros, agita positivamente o país, ao contrário da proposta de Genro e Vanuchi que agita negativamente. A primeira soma, a segunda divide. Qual a melhor: a opção nacionalista que avança com a democratização econômica ou a regressista que racha a sociedade?
Se a campanha governamental pegar a proposta de Requião, do PMDB, aliado do Planalto, em favor do salário mínimo de R$ 780, pago aos trabalhadores paranaenses, estendendo-o a todos os brasileiros, agita positivamente o país, ao contrário da proposta de Genro e Vanuchi que agita negativamente. A primeira soma, a segunda divide. Qual a melhor: a opção nacionalista que avança com a democratização econômica ou a regressista que racha a sociedade?

Faria melhor a esquerda se, nessa hora que antecede a grande luta política, que desembocará em outubro, escolhesse poucos pontos, mas vigorosos, para debater, que acabariam unindo militares, igreja, agricultores etc, como , por exemplo, a defesa do salário mínimo de R$ 780 que o governador nacionalista do PMDB do Paraná , Roberto Requião, está pagando aos trabalhadores no Estado, generalizando para todo o País, como ele promete, se candidato do partido, for eleito. Não teria dinheiro? E os 250 bilhões de dólares das reservas cambiais, alojadas no BC, que não rendem nada, não poderiam ser colocadas a serviço da produção, do emprego, do consumo, da arrecadação, que elevam os investimentos, que gerariam novas rendas capazes de sustentar o mínimo em novo patamar histórico? E o aumento do mínimo não geraria, por sua vez, renda disponível para o consumo , que fortaleceria, ainda, mais o mercado interno, como alavanca de Arquimedes, dinamizando a poupança interna etc?  Por que deixar as reservas cambiais paradas a título de segurança nacional, se a verdadeira segurança, como a crise demonstrou, é o bombeamento do mercado interno, com maior poder de compra da população? 

Em vez de concentrar o debate nos pontos fortes do governo que favoreceriam suas pretensões, a esquerda, que está ao lado dele, supostamente, para ajudá-lo, joga merda no ventilador, ampliando o debate para temas fora da órbita popular.

O presidente Lula , que está voltando de férias, nessa segunda feira, terá que dar uma de Getúlio Vargas, ou seja, jogar os assuntos incômodos na gaveta, para mofar um pouco. Se não fizer isso, rapidamente, as propostas de Tarso Genro e  Paulo Vanuchi ganharão foros de crise política. A OAB já pede a cabeça do ministro da Defesa, Nelson Jobim, que, sob pressão dos militares, tentou, sem sucesso, amenizar o texto do Programa Nacional de Direitos Humanos, tornando-o palatável.

 O caldo está engrossando, desnecessariamente. Se o presidente Lula não agir rápido, o governador José Serra, de São Paulo, abrirá guerra política contra o revanchismo governamental. A esquerda colocou , para ele, a bola na marca do pênalti para detonar Dilma. Acertará?