Moeda sul-americana já

EDITORIAL – A pauta principal da União Sul Americana, UNASUL, hoje, em Santiago, sob presidência de Michelle Bachelet, certamente, é a crise boliviana, que ameaça emergência de separatismo na América do Sul.

Trata-se, claro, de algo que interessa às forças desintegradoras internacionais, dominantes no cenário global. Estas, que enfrentam, nesse instante, a derrocada geral do dólar, no contexto da crise bancária, com efeito dominó sobre as grandes instituições financeiras internacionais, não gostariam que ocorresse a união da América do Sul, que, com suas riquezas reais sobrevalorizadas em face do dólar sobredesvalorizado,  virando papel de parede no compasso do século 21, aponta para influente poder futuro no cenário global.

Assim, a UNASUL, além da pauta boliviana, precisa, urgentemente, debater a grande crise, o tsunami financeiro que está varrendo os Estados Unidos e a Europa. Os ricos estão ficando pobres, por conta da desvalorização da moeda de referência internacional, bancada pelo sopro do Estado nacional americano, abalado pelos deficits insuportáveis, incapazes de dar tranquilidade ao mercado, para enxugar a liquidez e evitar inflação exponencial.

Por isso, faz necessário e urgente, a moeda sul-americana, já.

Tal realidade, se fixada, faria emergir nova potência global. Por isso, a clássica lição imperialista, de dividir para governar, continua sendo o objetivo principal das grandes potências, que agem, coordenadamente, no G7.

Ocorre que essa força internacional poderosa está atordoada pela bancarrota financeira neoliberal, cuja responsabilidade cabe exclusivamente, a ela. A sobreacumulação de capital nos países ricos, por conta da desatada especulação financeira com o dólar derivativo, que passou a ser a forma adequada de reprodução ampliada do capital – já que não consegue fazê-lo mais na produção, prejudicada pelas contradições do próprio capital – , deixa os poderosos sem o que fazer, de forma efetiva, senão torcer para que o maremoto não leve tudo de roldão.

Chegou, portanto, a hora da UNASUL aproveitar o embalo para criar não apenas a moeda sul-americana, mas, também, o banco central sul-americano, o parlamento sul-americano, a segurança sul-americana. O lastro que a America do Sul possui é poderoso.

Qual? A riqueza do petróleo, das matérias primas, dos alimentos, do sol, da terra, da água – que garantem até três safras anuais – , ativos reais abundantes em solo sul-americano. Não é ficção, como a moeda referência, que vai sendo corroída pela bancarrota.

Trata-se de superar, rapidamente, as divisões internas sul-americanas e partir para essa unidade, tendo como ponto de encontro a moeda, ancorada em riqueza real, não fictícia.

Chegou a hora da política sobrepor-se à economia.

Esse é o momento da afirmação continental sul-americana, na linha proposta pelos libertadores do continente, como, por exemplo, Vargas, Tiradentes, Tancredo Neves, Marti, Bolivar, Peron, Fidel, Guevara etc.

Mãos à obra UNASUL.

Lula ganha de Chavez espaço na crise boliviana

O presidente Lula ganhou importante espaço político no contexto da crise boliviana, para tentar coordenar a conciliação entre governo e oposição. Está deslocando, com discurso conciliador, o presidente Hugo Chavez, que optou pelo discurso incendiário.

O presidente Evo Morales, contatado pelo titular do Planalto, na semana passada, para ajudar nos entendimentos, recusou apoio, num primeiro momento. A oposição, diante do vácuo, entrou pedindo o passe de Lula para ser agente da solução de consenso entre as duas partes em confronto.

Morales, sob pressão violenta dos adversários, ao dispensar a oferta lulista, deu a entender dispor de cacife suficiente. Não emplacou. A oposição mostrou força. Morales, então, foi ao contra-ataque, para expulsar o embaixador americano, considerando-o fomentador dos conflitos no país, articulado com a força reacionária, contrária ao avanço da democracia direta por meio de referendo. 

A próxima batalha, nesse sentido, deverá ser em 7 de dezembro, quando haverá ou não ratificação, pela população, da nova Constituição, que faz avançar o poder popular, hoje, em mãos dos indígenas, cujo líder maior é o presidente Morales.

Nessa Constituição, tirada de Assembléia Constituinte revolucionária, os estados mais ricos poderão perder autonomia e riqueza. Neles, estão as grandes fontes de petróleo e gás, sobre as quais Morales quer ampliar cobrança de impostos, para bancar programas sociais. Deseja fazer reformas do capitalismo boliviano, semelhantes às em curso, no Brasil, como forma de estabilizar crescimento e inflação, via melhor distribuição da renda nacional.

 

Precipitação chavista

Nesse contexto, em meio à reação diplomática radical de Morales, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, apostando no acirramento diplomático, agiu de forma semelhante, expulsando, no mesmo dia, em solidariedade ao colega boliviano, o embaixador americano no país, enquanto destaca, simultaneamente, que estava desarmando complô golpista contra seu governo.

A corda esticou, puxada pelos dois presidentes, Evo e Hugo, contra Washington, considerada por eles culpada pelo acirramento da crise. Evidenciou, então, para os adversários de Morales que seria impossível contornar a crise boliviana, mediante solidariedade de Chavez a Evo, que dispensara ajuda brasileira ofertada por Lula.

As tensões internas explodiram em dois dias, com 30 mortos e outro tanto de feridos, especialmente, em Pando, para onde tropas governistasse se descolocaram. Evidenciou-se o que os analistas já estavam prevendo: nem a oposição, sozinha, tem condições de vencer a parada, assim como o governo, também, dificilmente, sairia vencedor contra as forças dos oligopólios que dominam a economia nacional, tendo a oposição radicalizada como cabeça de ponte.

Com ambos os lados exaustos, falou alto a defesa feita por Lula pelo entendimento. Só que o apelo para a participação do presidente brasileiro como conciliador não partiu, dessa vez, do presidente Morales, mas dos líderes da oposição.

Ou seja, atenderá o apelo direto dos que são contra Morales, aliado a Chavez, que perdeu, pelo açodamento, condições de liderar, na Bolívia, um consenso, pois radicalizou demais antes da hora.

O que Morales e Chavez deveriam fazer, desde o primeiro momento dos ataques terroristas e fascistas da oposição contra o governo, seria a cobrança ao inimigo deles, o presidente W. Bush, de apoio às forças políticas constitucionais, pois, afinal, os Estados Unidos mantêm cruzada permanente contra os terroristas.

No dia 11 de setembro, teria sido o momento ideal, pois representava data dos atentados terroristas em Nova York, há sete anos. W. Bush, com essa cobrança, ficaria no curé.

Em vez disso, Morales expulsou o embaixador, seguido, no gesto por Hugo Chavez. Deu motivo para Bush ficar na dele, parcial, no ataque, contra as forças democráticas bolivianas, expressas por manobras realizadas pelo seu representante no país, com conhecimento pleno dos seus chefes em Washington, claro.

 

Teste para liderança chilena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nessa segunda feira, os desobramentos da crise rolam em Santiago, Chile, com reunião da União das Nações Sul Almericanas – UNASUL -, sob presidência da presidente Michelle Bachelet, que a convocou para discutir a crise boliviana.

Será o primeiro teste barra pesa da nova organização continental, nascida para promover as demandas por integração econômica e política da América do Sul.

Lula chega lá polarizando com Chavez, no plano diplomático, fortalecido por ter se tornado elemento que poderá gerar consenso entre as partes em conflito, sabendo que o Brasil é o mais interessado no processo de paz, já que depende do gás boliviano para abastecer as indústrias em estados fortes como São Paulo e Rio de Janeiro.

Pode ser a hora do presidente brasileiro destacar-se no plano diplomático sul-americano, com ênfase, dadas as condições favoráveis que dispõe, tanto no plano político, por estar bombando nas pesquisas de opinião, diante da economia nacional em crescimento, enquanto a economia mundial mantém expectativas pessimistas, mas, também, porque o Brasil, com as descobertas trilhonárias de petróleo, na camada pré-sal, passou a ser respeitado no plano continental e global.

Obtém cacife extraordinário, para ser voz de comando no contexto da união sul-americana, pregando moeda sul-americana, banco central sul-americano, segurança sul-americana, tribunal sul-americano e parlamento sul-americano.

As riquezas sul-americanas sobrevalorizadas no ambiente em que as relações de trocas internacionais vivem incertezas diante da sobredesvalorização do dólar, moeda referencia global, podem ser o lastro da união, com o Brasil despontando-se com maior expressão nessa nova conjuntura. 

Ou a riqueza, em vez de união, geraria discórdia?

Imperialismo sanguinário


O que está ocorrendo na Bolívia ocorreu no Brasil, em 1964; no Chile, em 1973; na Argentina, em 1976, e quase ocorreu na Venezuela, em 2002. Tudo começou com a usurpação de 1.300 mil km² do território do México, na guerra movida pelo presidente Polk (1846/1848). E em 1856, o mercenário ianque William Walker se declarou presidente da Nicarágua. Podemos deixar de lado o caso bem conhecido da intervenção em Cuba, desde sua “independência” até a Revolução de 1959.

No início do século 20, para construir o canal, os americanos promoveram o movimento separatista do Panamá – que pertencia à Colômbia – e obtiveram, da constituição que eles mesmos redigiram, o direito de intervir no país quando necessário. Entre 1926 e 1933, a Nicarágua viveu a extraordinária gesta de Sandino – em seu tempo, mito maior do que o de Guevara. Ele enfrentou vitoriosamente os marines, foi traído e assassinado por Somoza, em encontro marcado para a conciliação nacional. Como prêmio, o democrata Roosevelt fez do assassino o ditador da Nicarágua, que legou o país a seu filho, até a vitória dos sandinistas em 1979, quando os EUA armaram os contra-revolucionários. Em El Salvador o terrorismo norte-americano matou dezenas de milhares de pessoas, entre elas o bispo dom Oscar Romero, junto ao altar.

Em 1964, os norte-americanos estimularam e orientaram, mediante seus diplomatas e agentes, o golpe contra o governo constituído de Jango. Como hoje na Bolívia, houve a orquestração da imprensa, o incentivo aos baderneiros, a mobilização da extrema direita. Em 1973 foi a vez do Chile. Repetiu-se o mesmo modelo, com o envolvimento das forças armadas, o uso de vultosos recursos financeiros, a cooptação remunerada dos serviços de informação, os atos de sabotagem, o lock-out dos empresários e o estímulo a agentes provocadores. O golpe contra Allende só foi consumado com a morte do grande presidente. O envolvimento dos Estados Unidos no episódio é registrado em documentos oficiais de Washington.

Jogo da brutalidade

A Venezuela, mesmo depois de o presidente constitucional Hugo Chávez ter sido seqüestrado, conseguiu impedir o golpe de abril de 2002, patrocinado pelos Estados Unidos, pelas multinacionais, empresários locais e os meios de comunicação. No fim da última semana, era denunciada nova articulação golpista. Com a experiência que temos do passado, é quase certo que Washington se encontre por detrás da conspiração. Chávez, diante dos fatos na Bolívia, teve a coragem de expulsar o embaixador dos Estados Unidos. Morales também havia decidido declarar persona non grata o embaixador norte-americano em La Paz, e com razões públicas e objetivas: o diplomata estava se reunindo com os governadores da oposição que pregam a independência de suas regiões.

A Bolívia não se encontra nas antípodas. Está ali, ao lado. A nossa posição, no episódio, deve ser orientada pela velha afirmação do princípio de não intervenção. Fez bem o Brasil em acatar a decisão de Evo Morales de declinar do oferecimento dos vizinhos para buscar a conciliação. Morales preferiu convidar o prefeito de Tarija, a fim de conversar. O problema maior é o grande latifúndio: 860 proprietários controlam 46% das terras da planície (quatro deles com glebas de mais de 50 mil hectares cada um), enquanto 54 mil empresários médios só possuem 7,3% da área. Os índios foram despojados de suas terras, e o agronegócio (movido por croatas, sírio-libaneses, norte-americanos e brasileiros) está por detrás das agitações. É ainda mais grave saber que a razão invocada pelos baderneiros é a de que Morales vai usar os recursos do gás para socorrer os bolivianos idosos e pobres.

Não é provável uma saída rápida para a crise. Ainda que se chegue a um acordo entre o presidente e os governadores da região oriental, o problema continuará latente. O caso da Bolívia é também uma advertência para a nossa política fundiária na Amazônia. Estamos permitindo a aquisição de glebas na região por estrangeiros e por grandes fundos de investimentos (que são apátridas, como o Opportunity), o que trará grande risco em futuro próximo.

Aos Estados Unidos não interessa a estabilidade de nenhum país do continente. É evidente que tanto na Venezuela, quanto na Bolívia, seus agentes, oficiais e embuçados, incentivam os inimigos de Morales e de Chávez. Diante da situação, os demais países sul-americanos devem unir-se diplomaticamente e impedir o pior.

 

Coisas da Política(JB) 

 

Embaixador separatista

Não é flor que se cheire o expulso embaixador dos Estados Unidos, na Bolívia, Philip Goldberg. Deputados bolivianos acabam de divulgar documento denunciando as articulações promovidas por ele na tentativa de desestabilizar o governo, representante do poder indigenista democrático, sob comando do presidente Evo Morales.

 Considerado especialista em conflitos separatistas, Goldberg, afeito às manobras conspiratórias típicas da CIA, foi enviado a La Paz , depois de chefiar a missão dos EUA no Kosovo, onde trabalhou para consolidar a separação e a independência dessa região, depois da Guerra dos Balcãs.

Os parlamentares do Movimento ao Socialismo, partido do presidente da Bolívia, César Navarro, Gustavo Torrico, Gabriel Herbas e René Marinez, relacionam o conjunto de fatos ocorridos nos departamentos da região lete do país(Tarija, Beni, Pando, Santa Cruz e Chuquisada), dando conta dos fatos que vinculam Goldberg às conspirações, que exploriam em atentados terroristas contra a democracia participativa boliviana.

 São os seguintes:


1 – No dia 13 de outubro de 2006, os Estados Unidos enviam a Bolívia, como embaixador, Philip Goldberg, um especialista em fomentar conflitos separatistas. Entre 1994 e 1996, foi chefe da secretaria do Departamento de Estado para assuntos da Bósnia (durante a guerra separatista dos Bálcãs).

 Entre 2004 e 2006, Goldberg chefiou missão dos EUA em Pristina (Kosovo), onde trabalhou para consolidar a separação e a independência dessa região, marcada por uma luta que deixou milhares de mortos.

Segundo os deputados, Philip Goldberg foi enviado a Bolívia com a missão de desestabilizar o governo de Evo Morales, principalmente incentivando o separatismo das regiões orientais.

 Na Bolívia, depois do triunfo de Evo Morales na eleição de 18 de dezembro de 2005, os partidos tradicionais e as elites sofreram um duro golpe.

 Goldberg, com aval da Casa Branca, encarregou-se de reorganizá-los e de construir um caminho conspirativo para desgastar o novo governo.

2 – O embaixador trabalha, desde então, para fixar Plano midiático de desinformação. Para tanto, organizou grande coordenação com empresários do leste, com donos de meios de comunicação e políticos do movimento Podemos, força política oposicionista, para colocar em marcha um grande plano de desinformação com respeito à gestão de Evo Morales.

Tudo isso dentro do marco de uma intensificação das lutas regionais contra o Estado boliviano. Esse plano de desinformação era constituído pelos seguintes passos:

a) Mostrar que o narcotráfico estava crescendo na Bolívia;
b) Os meios de comunicação precisavam mostrar que Evo estava governando mal e que a inflação, a corrupção e o desgoverno estavam crescendo;
c) Os meios de comunicação também deviam imputar ao governo a responsabilidade pela violência no país.

 Começou a ser difundido aí o conceito de que “Evo dividia a Bolívia”.

 

O jogo da conspiração

Consolidados esses passos, Goldberg reúne-se, na primeira semana de maio, com Jorge Quiroga, líder oposicionista, e acertam a aprovação, no Senado, do referendo revogatório.

Eles estavam convencidos de que Evo Morales não conseguiria obter mais de 50% dos votos e, uma vez deslegitimado nas urnas, a oposição e os prefeitos da chamada “Meia Lua” pediriam a renúncia do presidente por “ilegítimo, mau governante e por dividir a Bolívia”.

No entanto, os prefeitos dos departamentos (equivalentes a governadores) não foram consultados sobre este plano e acabaram se opondo a ele, por achar que não daria certo. Jogo típico da CIA.

No dia 23 de junho, reúnem-se em Tarija e elaboram um pronunciamento escrito para rechaçar o referendo revogatório.

 Dias antes, em 17 de junho, Philip Goldberg viajou para os EUA, alegando uma suposta crise diplomática.

O objetivo real de sua viagem, dizem os deputados, foi definir um plano, junto a agências publicitárias, para desenvolver uma guerra suja que pudesse causar a derrota de Evo no referendo.

No dia 2 de julho, Goldberg regressou a La Paz e, imediatamente, reuniu-se com cada um dos prefeitos opositores para convencê-los a aceitar o referendo.

No dia 5 de julho, os prefeitos opositores anunciam que aceitam disputar o referendo.

Os donos das grandes empresas de comunicação também participaram deste plano, denunciam os parlamentares. Isso explicaria, por exemplo, porque nos principais programas políticos destes meios as pesquisas sempre apontavam Evo Morales com cerca de 49% dos votos.

A tentativa de derrubada do governo pelo voto estava em marcha. Além desta campanha nos programas políticos, também foi executada uma outra no terreno da publicidade.

A oposição contratou uma agência de publicidade para elaborar os primeiros spots contra Evo Morales. Ao dar-se conta que os roteiros e o dinheiro vinham dos EUA, esta agência decidiu não produzir mais os comerciais. 

 

O Plano B do embaixador

Passo um – o plano para tirar Evo do governo acabou sendo frustrado pelo resultado do referendo. O presidente se legitimou com mais de 67% dos votos e Goldberg passou então a colocar em marcha um Plano B, que incluem greves, bloqueios e ações violentas que buscariam dois resultados alternativos.

O conflito se generaliza sobre o leste e parte do oeste do país. A população começa a se cansar, as forças da ordem entram em ação, com muitas mortes.

Neste caso, Evo teria que convocar eleições ou deixar o governo depois dos conflitos com mortes. A insistente provocação para que as forças policiais e as forças armadas atuem se encaixa neste plano.

Passo dois – caso não ocorra o cenário anterior, a oposição contaria ainda com uma segunda possibilidade: uma vez desalojada a polícia e o Estado Nacional das regiões, em meio à violência, Goldberg oferece aos prefeitos opositores a vinda de mediadores internacionais, inclusive tropas da ONU para concretizar o separatismo dos quatro departamentos rebeldes, como fez no Kosovo.

Seguindo esse plano, Goldberg viajou a Sucre e se reuniu com a prefeita Savina Cuellar, que pediu a renúncia do presidente.

No dia 21 de agosto, o embaixador encontrou-se, clandestinamente, com o prefeito de Santa Cruz, Rubén Costas, e com quatro congressistas norte-americanos.

No dia 25 de agosto, mais uma reunião com Rubén Costas. Paralelamente, a oposição rejeitou o chamado de diálogo feito pelo governo e, no dia 24 de agosto, convocou uma greve geral.

Seguindo a linha proposta por Goldberg, denunciam ainda os parlamentares do MAS, os prefeitos impuseram um plano de desgaste de médio prazo, incluindo destruição de instituições públicas e provocações à polícia e às forças armadas.

Na mesma linha golpista, em Santa Cruz e em Tarija começou-se a falar de federalismo e até de independência.

Como o empresariado cruceño estava mais interessado na Feira de Santa Cruz (que deve iniciar no dia 19 de setembro) que nas greves e bloqueios, o Departamento de Estado convocou Branco Marinkovic para uma conversa nos EUA.

No dia 1° de setembro, em um pequeno avião Beechcraft, matrícula C-90A, Marinkovic viajou aos Estados Unidos onde o convenceram de que o plano estava em sua trama final e que era preciso jogar-se todo nele.

No dia 9 de setembro, horas depois do regresso de Marinkovic a Santa Cruz, iniciam protestos violentos, com invasão e queima de instituições públicas e novas agressões às forças armadas e à polícia.

Este é o plano golpista que está em marcha com o apoio da embaixada dos EUA, dizem os deputados. Foram essas razões, asseguram, que levaram o governo boliviano a pedir sua saída do país.

Eles manifestam confiança de que esse plano fracassará, porque o governo de Evo Morales segue controlando o conflito, com paciência e dentro da legalidade, mantendo-o em sua dimensão regional.

Concluem os parlamentares:

“A violência gerada por grupos impulsionados por este plano golpista é a forma pela qual os setores conservadores mostram sua decisão de acabar com a democracia, já que ela não serve mais aos seus interesses”, concluem. 

 

 

Democracia direta detona guerra civil na Bolívia

Não dá para tapar o sol com a peneira. Os adversários radicais do presidente Evo Morales, depois de perderem a parada do referendo nacional sobre se Morales continuaria ou não presidente, adotam o terrorismo político, para tentar melar o jogo democrático.

Fundamentalmente, os opositores bolivianos, nas regiões ricas da Bolívia – Pando, Beni, Santa Cruz, Chuquisaca, Tarija, formando a chamada “Meia lua”, agora, lua vermelha, manchada de sangue, na região leste, de norte a sul, fronteira com Brasil –  estão temerosos de que o referendo constitucional, no próximo dia 7 de dezembro, dê outra vitória acachapante ao representante político do pensamento socialista indigenista sul-americano.

Partiram para a ignorância fascista. Poderá dar, é claro, nova reviravolta na questão política, favorável à nova ideologia política no poder boliviano, extraída da força popular. Acelerará a democracia ou antecipará o golpe?

O referendo e o plebiscito são as novas armas da revolução sul-americana, que, estão, também, na constituição dos Estados Unidos, como suprassumo da representatividade democrática.

A conscientização política, sob governos dispostos a praticar a democracia participativa, assombra os fascitas, que tentam esconder-se por trás do biombo da democracia representativa, como falsos democratas.

Pretendem, resistindo, conservadoramente, ganhar o poder e exercê-lo com os interesses de cúpula política, mediante sistema viciado de distribuição do jogo eleitoral do poder em que os partidos carecem de representatividade popular.

Pode ser que próximas etapas de mudanças serão dadas pelo referendo. Antes, virá o referendo maior, o de 7 de dezembro de 2008, que chancelará ou não a nova Constituição.

Depois, não estaria afastada hipótese de novos avanços da democracia participativa para discutir e votar sobre política energética nacional, como já reivindicam os partidários de Morales.

Historicamente, o poder sempre esteve em mãos da cúpula política e empresarial associada ao capital externo que mandava e desmandava na política energética. O poder indigenista sentou à mesa e quer participar, legitimamente, via democracia direta, do novo poder. Força política consciente irresistível.

Tudo deixa de ser previamente dado para ser tudo plenamente discutido nas ruas. As cúpulas sempre tiveram medo das ruas. Preferem o udenismo golpista. A nova Constituição boliviana está adequada aos interesses das forças políticas que chegaram ao poder e sentiram que, por serem maioria, terão o mando de campo por algum tempo, que pode ser longo, se souberem manter-se unidas. Seu ponto de unidade é o pensamento indigenista, o mais humilhado na história da América do Sul.

Pensamento socialista indigenista

Agora, tal pensamento, que foi teorizado por José Carlos Mariategui, em livro genial, internacionamente, respeitado,  “7 ensaios de interpretação da realidade peruana”(1927), e que vem fazendo a cabeça ideológica da nova esquerda sul-americana, voltada para cultivar as tradições políticas indígenas, destruidas pelos colonizadores, começa a fazer efeito bravo no compasso dos plebiscitos e dos referendos democráticos. Revolução democrática.

Como sempre foram minorias que só conseguiram maiorias por meio da manipulação da democracia representantiva, cujo peso maior é o jogo econômico associado do capital interno e externo, os interesses econômicos privilegiados pelo status quo sob ataque se desesperam. Não dispõem de base popular suficiente para se submeterem,  com sucesso, aos pressupostos básicos da neodemocracia direta. Vêem seu poder esfumarçar-se sob impactos de referendos e plebiscitos democráticos.

Deixa de ser útil, para os interesses conservadores, os pressupostos democráticos em sua radicalidade popular, expressa na democracia direta, que supera, quantitativa e qualitativamente, a democracia representativa, viciada pela corrupção do capital. Um salto ousado e perigoso.

Seria diferente no Brasil? Aqui, por exemplo, a democracia representativa se transformou em farsa, depois que se subordinou, completamente, aos interesses dos credores, que induzem o governo a administrar o país por medidas provisórias. Os interesses que sustentam essa situação não ficariam de pé sob impactos de referendos plebiscitários.

Novos donos do poder

Nova Constituição, via assembléia constituinte, como rola na Bolívia, poderia  eliminar o suprassumo do poder dos banqueiros, expresso na letra b, do inciso II, do parágrafo terceiro do artigo 166, da Constituição brasileira, que transformou em direito e causa pétrea o pagamento dos serviços da dívida, tornando-o livre de contingenciamentos.

Estes somente podem abater-se sobre o lombo da população em forma de contingenciamentos de recursos destinados aos investimentos em educação, saúde, segurança, infra-estrutura. Tudo garantido por medidas provisórias que excluem o debate social entre as forças antagônicas por intermédio dos partidos.

No contexto do referendo e do plebiscito, é outra história. A sociedade é chamada a dar opinião. Por isso, Morales está causando a rebelião fascista contra si. Os fascitas estão temerosos de perderem o poder no plebiscito no próximo dia 7 de setembro. Querem rebentar, antes, um golpe, dividindo, perigosamente, o país. Separismo radical.

Hugo Chavez, presidente da Venezuela, percebeu o jogo dos golpistas, pois sofreu na pele. Reagiu e avisou que mandará bomba. Expulsou o embaixador dos Estados Unidos na Venezuela, sob pretexto que descobrira golpe interno contra si por militares aliados de Washington, repetindo o gesto de Morales, que justificou a expulsão do embaixador americano por estar conspirando contra os interesses da democracia boliviana.

Washington considerou absurdo e expulsou, também, os embaixadores dos dois países nos Estados Unidos.

Morales bobeou por não ter cobrado, na hora, dos Estados Unidos apoio ao governo boliviano contra o golpe fascista e terrorista, antes da radicalização final. Precipitou-se, quando poderia tirar partido da data de 11 de setembro, quando, em 2001, Nova York foi bombardeada pelo terrorismo.

Seria um teste para a política anti-terrorista bushiana.

A radicalização política favoreceu a Casa Branca, que ficou livre de maiores explicações, por ter o governo boliviano pré-julgado participação do governo americano em conspiração contra Morales, ancorado no novo poder indígena.

O campo ficou aberto para as bombas. O terrorismo político está sendo a resposta dos temerosos de perderem o poder sob plebiscitos e referendos. A luta pelo poder sempre foi sangrenta, na América do Sul, mas os referendos e plebiscitos surgiram como possibilidades de mudanças sem sangue, mas com paz.

A quem interessa, numa economia dominada pelos oligopolios privados, a guerra que põe em campos opostos o governo popular e os interesses contrariados com a mudança brusca via plebiscito democrático?

Atualidade jacklondoniana

Emergiu na Bolívia a previsão de Jack London, em “Tacão de ferro”(1907), prefaciado por Trotski, de que do ventre do oligopolio privado nasceria, em nome do interesse público, o oligopólio estatal.

A estatização total das riquezas energéticas bolivianas é a emergencia do oligopólio estatal que desbanca, via referendos e plebiscitos, o oligopólio privado na exploração das riquezas do gás e do petróleo, razão maior do radicalismo fascista.

As prioridades políticas que levaram Morales ao poder exigem que tire mais dinheiro dos ricos do petróleo e do gás, para fazer o mesmo que o presidente Lula está fazendo no Brasil, bombando com dinheiro público os programas sociais, para sustentar o consumo interno e dar estabilidade econômica à Bolívia.

Diante da exigencia de maior transferência de riqueza, via política fiscal, os interesses contrariados jogam bombas na democracia direta, pois ela se transformou em seu algoz.

O cinismo mostra que não tem limites. Os fascitas se auto-intitulam “grupos cívicos”, neologismo com o qual tentam encobrir o que realmente são, ou seja, grupos terroristas, jogando bombas nas armas da economia, as exportações do gás, e da política, referendos e plebiscitos.

No último referendo, que assegurou sua continuidade no poder, 65% apoiaram Morales.  Se rolar o mesmo percentual no próximo dia 7, estará dada a base legal para aprofundar reformas econômicas, que, necessariamente, implicam maior distribuição da renda nacional, concentrada nas mãos dos falsos democratas que passaram a ter como arma não a palavra mas bombas.

Faltou solidariedade bushiana

A falta de solidariedade de Washington à democracia participativa de Morales, semelhante à democracia participativa direta americana, responsável por levar o governador da California, Arnold Schwarzenegger, ao poder, demonstra caráter anti-democrático. Para ele, as Farcs contra o presidente Álvaro Uribe são terroristas; mas, os bombardeadores da democracia boliviana são “grupos cívicos”.

O jogo, pelo menos nessas horas quentes, é de radicalização, mas pode, também, ter muito fogo de palha, porque os opositores e governistas, na Bolívia, já sabem que, isoladamente, não conseguirão governar. Os antagonismos fizeram explodir as contradições que buscarão sua superação dialética.

A tese – o pensamento econômico colonialista – fez emerger radicalmente a antítese – o pensamento econômico socialista indigenista. Qual a síntese?

A política, segundo ensina Sócrates, na República de Platão.

As partes terão que sentar à mesa. O banquete da renda nacional terá que ser dividido por bem ou por mal, graças ao predomínio do plebiscito.

A burguesia boliviana, porém,  ainda não percebeu que o combate ao subconsumismo nacional, como está sendo feito no Brasil, com maior distribuição da renda, via garantia de consumo dos mais pobres, dinamiza a economia,  alavanca a própria renda nacional, estabiliza relativamente a inflação e fortalece a democracia.

Ninguém faz revolução de barriga cheia. Fidel Castro que o diga. Lula , igualmente, nada nas alturas da popularidade.

O jogo na Bolívia é como se invertesse a história. Os índios chegam ao poder para explorar os brancos e dominar suas riquezas, a fim de exportá-las e obter o fruto para aplicação nos projetos sociais indígenas.

Estes passam a obedecer a uma lógica econômica dada pela política indigenista, inversa ao pensamento predominante historicamente desenvolvido pelos outrora detentores exclusivos do gás, dos minérios, do petróleo e da política.

Entra em cena a força ou a fraqueza do estado nacional para conter os oligopólios econômicos.

O Estado nacional já era

O economista Marcio Porchaman, presidente do IPEA, tem destacado que os estados nacionais, no contexto da globalização, foram ultrapassados pelos oligopólios econômicos. Estes, na Bolívia, eram os donos absolutos do poder.

Agora, são os donos relativos. Vencerá o absolutismo ou a relatividade? Como resgatar o poder do estado nacional em meio à contestação social violenta em reação à melhor distribuição da renda no país?

Para Porchman, o episódio, preocupante para toda a diplomacia sul-americana, destaca a necessidade de sedimentar a união sul-americana, alvo de grandes resistências que cobiçam as riquezas da América do Sul.

Desejam dividir para governar. A Bolívia tem sido alvo dos separatistas, depois que o pensamento socialista indígena josecarlosmariateguiano chegou ao poder.

A decisão de estatizar o petróleo e o gás e as demais riquezas estratégicas levantou a ira dos velhos grupos oligopólicos energéticos, que atuam na Bolívia, como extensão da sua abrangência global, desde a primeira metade do século 20.

Em outras ocasiões, derrubaram governos nacionalistas, para sustentar seus interesses. Contavam sempre com argumentos, repetidos no Brasil pelos tucanos sobre a expropriação ilegal de riquezas dos investidores, referindo-se à Petrobrás, para resistir, se possível com tropas nas fronteiras Brasil-Bolívia.

Os interesses petrolíferos internacionais, acionistas da Petrobrás, depois da abertura do capital da empresa na Era FHC, somente não radicalizaram demais o discurso anti-Morales, porque o presidente Lula não caiu no conto golpista tucano neoliberal-guerreiro.

Evitou neo-Iraque sul-americano, via armadilha contra Saddam Hussein, estimulando-o a invadir o Kuwait, para, em seguida, ser invadido e executado.

Lula desarmou a bomba que os interesses multinacionais projetavam, vale dizer, criar zona de conflito na América do Sul. Acirraria, ainda mais, a polarização guerreira entre o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, e o dos Estados Unidos, W. Bush. Fogueira.

Beleza pura para os interesses da guerra.

 

Com a América do Sul, rica em petróleo, sob guerras separatistas, o mercado de armas se ampliaria extraordinariamente.

A gravidade política do momento pode exigir dos 12 países sul-americanos maiores esforços para intensificar a UNASUL – União das Nações Sul Americanas, como instância política maior para debater os problemas sul-americanos, buscando soluções próprias, para além do estado nacional, vulnerável, possíveis, já que o continente, graças as suas riquezas reais, aumentou seu cacife político na negociação global.

Por que a quarta frota norte-americana estaria avançando em mares sul-americanos, quando estouram conflitos separatistas e terrorismo político na Bolívia?

O Congresso nacional discute a bisbilhotice da ABIN, na CPI dos Grampos, mas não debate a bisbilhotice da Casa Branca em terras e riquezas  da América do Sul. Depois reclama quando Hugo Chavez o chama de papagaio de Washington.

A América do Sul está diante das possibilidades de integração e de desintegração, simultaneamente.

Brasil e Argentina deram pontapé  no sentindo da integração, dispensando o dólar das relações comerciais brasileiro-portenhas, a partir de outubro, lançando germe da moeda sul-americana. Os radicais terroristas do separatismo boliviano sinalizam o contrário, desinteração.

Quem vencerá? Bomba ou democracia?