Inflação subterrânea impõe controle cambial

 

A inflação está deixando de crescer para cima, para crescer para baixo. Inflação subterrânea. Os preços, apesar da pressão inflacionária advinda da corrida contra o real, que o Banco Central não consegue conter,  permanecem no lugar ou em queda relativa, como demonstraram os números da última semana de novembro e início de dezembro, mas, em compensação, o governo banca a estabilidade dos preços, garantindo desonerações e renuncias fiscais, para compensar desvalorização cambial e queda dos lucros das empresas decorrentes da desaceleração interna e da exportações. Tal jogo de equilíbrio precário representaria a razão pela qual a partir de janeiro o BC poderia, inventando uma teoria de ocasião, iniciar a redução dos juros, porque a inflação aparente estaria sob controle, enquanto a latente e oculta, estaria crescendo. O positivo é mostrado e o negativo escondido. Mas, a negatividade, que é, segundo Hegel, a verdade, emergiria, mais cedo ou mais tarde, dialeticamente. Seria essa nova inflação falsificada suficiente para conter a taxa de juros, ou o governo, sem outra saída, poderia partir para uma heterodoxia na política cambial?
Avança, portanto, outro tipo de inflação, a inflação de subsolo. Latente e ocultamente ela se desesnvolve, pela ação governamental, com as desonerações fiscais e tributárias, para incrementar, principalmente, a indústria automobilísticas, que se encontra com pátios lotados, especialmente, dos carros populares, sinalizando deflação, se nada for feito. Tal jogada implica em subsídio cujo pagador é o tesouro nacional em forma de emissão, substituída pelo eufemismo semântico de “injeção” monetária. Uma armação, como se o Banco Central tivesse um cofre de dinheiro do qual tira os recursos para repassar aos empresários, sufocados, lembra o economista Carlos Eduardo Carvalho, da PUC/SP, em brilhante artigo no Valor Econômico, em 11.12.
Como o presidente Lula, durante reunião com empresários, na semana passada, destacou que vem por aí novas medidas, capazes de incrementar a produção e o consumo, certamente, as emissões prosseguirão, desempenhando o papel de conter os preços, aparentemente, enquanto, na prática, tal contenção se expressa em seu contrário, em obediência à dialética, ou seja, em forma de aumento do endividamento governamental. A dívida cresce no lugar da inflação de subsolo. Evita que haja mudança na aparência dos preços, cuja essência fica escondida em forma de aumento do endividamento público, expresso em desonerações, que deverão se multiplicar, no compasso da crise, como prometeu o presidente aos empresários, exigindo emissões-injeções monetárias na circulação capitalista nacional, intrinsecamente, inflacionária.

O aparente e o latente freudiano

A essência e a aparência, em representação freudiana. O inconsciente inflacionário não aparece, mas a consciência da inflação entra em cena maquiada, dando vida à inflação de subsolo, como a caracterizou Lauro Campos, no livro “Crítica Dívida Externa”, Senado Federal, em que analisa o fenômeno, que se ampliou no país depois da crise monetária dos anos de 1980, produzida pelo aumento do juro nos Estados Unidos como forma de salvar o dólar. Agora, o fenômeno se repete para evitar falência dos setores produtivos, incapazes de sobreviverem no ambiente em que o crédito foi liquidado pela crise que jogou a economia dos Estados Unidos e da Europa na estagnação, gerando incerteza global.
As desonerações e renúncias fiscais, que garantem ganhos diretos às empresas, como compensação pela sustentação dos juros altos, que espantam consumidores, colocam o governo, num primeiro momento, como salvador geral da pátria, mas, num segundo instante, pode trazer problema, especialmente, porque , com o aumento da dívida pública interna, os financiadores do endividamento estatal, puxam para cima as taxas de juros. A exigência dos grandes bancos já escandalizam, impondo, como destacou a analista e especialista em contabilidade nacional, Maria Lúcia Fattorelli Carneiro, da Secretaria da Receita Federal, juros de 18% para comprar títulos governamentais, ou seja, 5 pontos percentuais acima da taxa básica selic, de 13,75%, considera a mais alta do mundo. Uma farra total que se prenuncia ascendente, quanto mais o governo vai sendo obrigado a bancar a inflação subterrânea.
O fenômeno em curso demonstra que a dívida vai crescendo no lugar da inflação, como fenômeno antiinflacionário, deixando no ar a indagação sobre até quando o tesouro terá fôlego para bancar a escalada da dívida pública interna, que se aproxima de R$ 1,5 trilhão, exigindo, de forma assustadora, no compasso da crise, 30% da receita orçamentária, para ser bancada. Além disso, ressalta Fatoorelli, todas as disponibilidades financeiras orçamentárias oriundas de contingenciamentos vão sendo canalizadas para o pagamento dos juros da dívida. São impostos, dessa forma, amplos sacrifícios aos setores que mais precisam de recursos, quanto mais a desaceleração econômica avança, como os de saúde, educação, segurança, infraestrutura etc.
É possível considerar como razoável tal escalada ou em algum momento a auditoria da dívida se imporá como imperativo categórico, como diria Kant? Por que os demais setores, constantes do orçamento não-financeiro, ou seja, que implica na vida das atividades produtivas, tornam-se alvos de cortes e reavaliações, e o orçamento financeiro, pagamento dos juros, ficam de fora do ajuste ao qual toda a sociedade se submete?
Não é a primeira vez que o fenômeno da inflação de subsolo ocorre. Ao longo dos últimos trinta anos, em diversas oportunidades, a inflação subterrânea se apresentou como fenômeno capaz de mostrar a aparência, mas encobrir a essência. Os preços, para os consumidores, ficam no mesmo lugar, estáveis, mas as desonerações, dadas pelo governo, como sustentação da estabilidade aparente deles, atuam como atenuantes, cujos efeitos se manifestam de forma oculta no aumento do endividamento público. 

Inflação oculta reduziria juro?

Nesse sentido, a criação do real, a partir do governo Itamar, ganhando notoriedade no governo FHC, pode, igualmente, ser interpretado como promotor da inflação de subsolo. A sobrevalorização do real, de forma artificial, combateu, aparentemente, a inflação, mas fez explodir a dívida, a essência inflacionária, que se expressou de forma oculta. O resultado todos conhecem: o aumento dos juros, que, em 1997/98, chegaram ao absurdo patamar de 45% ao ano. A dívida virou contrapolo da inflação. 
A conjuntura, por sua vez, demonstra inexistir razões para aumento dos preços. Demanda em queda, por conta da crise, sinaliza não pressão inflacionária, mas deflacionária. Os carros sobram nos pátios e lá ficarão se não fluir o crédito, jogando os preços para baixo e toda a cadeia produtiva associada à indústria automobilística, carro-chefe do capitalismo nacional dependente.
Pelas análises econômicas em geral, em 2009 os preços deverão ficar na casa dos 4,5%, ou seja, dentro da meta fixada pelo Banco Central. O consumo interno em retração seria o responsável. Sobraria, então, pressão inflacionária não advinda da pressão consumista, mas por conta da mera corrida especulativa contra a moeda nacional, desvalorizando o dólar frente ao real. Um fenômeno que vai se destacando e se destoando da lógica econômica, possivelmente, a levar a uma solução salomônica para os juros, tipo controle cambial. Do contrário, as pressões inflacionárias, produzidas em cima da moeda, especulativamente, colocaria toda a economia em risco, porque a desvalorização cambial imporia juros altos para continuar financiando o endividamento, como medida de risco imposta pelos bancos, como já está acontecendo.
Tende a nascer e ampliar nas próximas semanas e meses, no Congresso, pressão política para conter o fluxo de entrada e saída de dólar, para que a sua saída, maior que a entrada,  não eleve o preço do real e consequentemente da taxa de juro, mesmo que haja redução do consumo decorrente do juro especulativamente alto. 

Urgente controle do mercado de moeda

O governo vai ter fôleto para bancar a inflação subterrânea até quanto, se o fluxo de entrada e saída de dinheiro fragiliza, crescentemente, o real, colocando sua saúde como ponto central do desenvolvimento econômico ao longo de 2009. Os candidatos da oposição começam a nadar de braçada, antevendo, prognosticando e antecipando o desastre cambial.  Seria vitória na certa da oposição que curtiria a virada da história, com o feitiço virando feiticeiro.
O governo convive contraditoriamente com uma situação que potencialmente reduz inflação, em decorrência da queda do consumo, que leva a uma concorrência cujos efeitos são deflação, mas, ao mesmo tempo, gera pressão inflacionária por conta do câmbio, na troca do dólar pelo real, fragilizando, fortemente, a moeda nacional. Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.
A política cambial estaria atuando como uma variante independente da lógica econômica. Não sofre os efeitos desinflacionários decorrentes do esfriamento econômico, que joga os preços para baixo, via redução do consumo. A lógica cambial impõe a sua própria inflação. O governo, quando bombeia a inflação oculta, enquanto deixa sob controle a inflação aparente, está diante do seu maior desafio.
Em algum momento, a contradição, como é natural, caminhará para sua superação, a tese gerando a antíte em busca de nova síntese. A governabilidade pode se transformar em ameaça, se a política cambial sair do controle. Como ela não está sendo regida pela lógica do comportamento dos preços, poderá sofrer intervenção estatal, assim como o governo se obrigou a intervir no sistema financeiro, para desbloquear – ainda ainda não concretizado para valer – para evitar o colapso econômico.
O que vai impulsionar o governo nesse sentido serão as estatísticas do desemprego. Se no inicio de 2009 as coisas ficarem pretas, como se anuncia, a intervenção no mercado de moeda entraria na dança da intervenção, porque seu comportamento joga perigo constante para a saúde econômica e política do governo, no momento em que o Planalto se volta tanto para a superação da crise como da promoção da candidata Dilma Roussef, ministra da Casa Civil, para suceder o titular do poder.

Mito que se desgasta e se renova

 

 
OK AMIGOS… PERDÃO PELO DESABAFO… MAS NÃO CONSEGUI ME CONTER… BEM QUE EU TENTEI… MAS NÃO DEU!
 
Ouço todos falarem da passagem de Madonna pelo Brasil há muito tempo. No primeiro dia de venda de ingressos, o público mostrou toda a ansiedade que a diva pop trazia com sua vinda ao país desde sua última aparição, há 15 anos atrás. A venda pela internet não funcionou, por telefone entrou em colapso e quem conseguiu ingressos para os shows da cantora enfrentou mais de 12 horas de fila. Isto aconteceu há 3 meses atrás, porém há ingressos para vender até hoje.

Atualmente moro em Buenos Aires e, assim como milhares de pessoas, também tive a curiosidade de conferir de perto o porquê de tanto alarde. Confesso que o que mais me chamou a atenção, mais até do que o show em si, foi a repercussão gerada em torno dele (ou dela?).

A antipatia da cantora durante a sua passagem pela cidade portenha só foi superada pelo cancelamento dos shows, avisado para as pessoas somente dez horas antes dela subir ao palco no primeiro dia do evento, e justificado pelo atraso da chegada de equipamentos de som. O público retribuiu. Ninguém estava lá na porta do hotel Four Seasons para tentar ver Madonna na varanda da sua mega-ultra-gigante suíte. Eu estava e lembro de ter visto um produtor da Globo passar sufoco atrás de um personagem para ilustrar sua matéria que mostrava aos brasileiros o quanto animado estava aquilo tudo.
A assessoria de imprensa da Madonna divulgou um comunicado dizendo que ela chorou muito ao ter que adiar os espetáculos aqui em Buenos Aires, frustando a expectativa de muitos fãs para o que seria sua primeira aparição na América – Latina. Eu tenho lá minhas dúvidas.

Antes do show começar, ao esperar pela cantora quase uma hora e meia no silêncio, o público deu sinais de cansaço desconfiando de que estava ali somente para fazer figuração paras as filmagens do novo DVD.

Finalmente, uma Madonna loira, magra e sarada travestida de Wylly Wonka anuncia sua chegada com um estrondoso e ensurdecedor tic-tac dando seu primeiro recado: “Para mim o tempo não passou”. Atitude digna de dar gosto a qualquer vovó Peter-Pan deformada de botox, mal resolvida com o passar do tempo. Reflito. “Será que ela conseguirá ser feliz quando estiver com 80 anos?” Penso mais um pouco. “Que nada, deve ser inveja de mulher.”

Na seqüencia, em “The beat goes on”, a pop star rodeada por muitos bailarinos e um Rolls Royce, suplica no telão. “Você não tem a vantagem do tempo/você tem que dizer o que pensa/com a cabeça distraída você não consegue chegar a lugar algum/é hora de ler os sinais.” Suspeito não conseguir espaço no meio daquela quantidade de luzes, sons e pessoas para um bom momento introspectivo e cometo a heresia de desobedecer a diva. Continuo pulando.

Com o passar do tempo e da euforia, o que presencio é quase um ataque de megalomania, com Madonna falando de si mesma para si mesma o tempo todo, num ensaiado, coreografado e pirotécnico espetáculo. E então acontece a piada da noite. Em “She’s not me” a cantora luta boxe com “várias ela mesma” brigando pelo namorado como sugere a letra do hit. E daí vem o êxtase. Ela beija na boca a personagem-bailarina vestida de “Madonna-like a virgin”. Mais um movimento cuidadosamente calculado para surpreender. Dessa vez quem desobedece a diva é a platéia. Ninguém parece se importar muito.

Em “Human nature” assistimos Britney Spears no telão tentando se passar por Madonna. Ao final da faixa Madonna berra duas vezes “I´m not your bitch”. A resposta vem, acompanhada de uma leve crise de identidade, estampada em megaclose no telão “It´s Britney bitch!” Fica em aberto o “enigma dialético-existencialista pop”. Tem mais Madonna em Britney ou mais Britney em Madonna?

Entre um bloco e outro, uma troca de roupa e outra, somos distraídos com muitos vídeos. Alguns foram feitos exclusivamente para a turnê, alguns vieram da criatividade dos outros, como nos exemplos da linda imagem apresentada pela grife Prada em um desfile e os grafismos de Keith Haring em “Into the groove”.

Nos novos arranjos para as músicas antigas, Madonna dá sinais de pouca habilidade vocal. Facilmente identificada em “Borderline” que chega a dar falta de ar ao vê-la tentar, sem conseguir, alcançar as notas. Ah! Mas quem estava lá para vê-la cantar? Faça-me o favor!

Chego à conclusão de que preferia a Madonna de antes, aquela rebelde traumatizada porque o pai, muito católico, casou com a empregada depois que a mãe morreu de câncer. Aquela era menos programada e mais autêntica.

No entanto, tenho certeza de que o público brasileiro será mais disciplinado. E corresponderá mais à altura ao ataque megalomaníaco da “cantora-diva-santa” que consegue “se reinventar a cada turnê” e  também, se recusar a aceitar o tempo passar. Até me atrevo a dizer que a gravação do DVD teria sido bem melhor no Brasil. Posso até imaginar todos  lá na porta do Capacabana Palace para ver Madonna comendo biscoito admirando o mar com seus filhos através da janela das suas sete suítes.

E quando ela for embora, aquele beijo que ela deu em uma mulher durante o show será a atitude mais transgressora que já se conseguiu presenciar nos últimos tempos!

Lula aposta na inflação para bancar Dilma

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para o bem e para o mal, a ordem maior do presidente Lula aos seus interlocutores empresários, na quinta, 11,  é uma só:  gastar, gastar, gastar , elevando inflacionariamente a oferta-emissão de moeda na circulação capitalista nacional da ordem de R$ 8,4 bilhões, como compensação em forma de desoneração tributária, para os empresários, e diminuição de impostos, para a classe média, de modo a sustentar o consumo interno, no crediário, especialmente, por meio dos bancos estatais, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, a juros mais baixos, simulando neo-tabelamento.

Evita, com a opção pela inflação, o perigo da deflação, que ameaça as empresas , principalmente, automobilísticas, cujos pátios estão lotados, sem vendas por falta de crédito direto ao consumidor, sob pressão altista da temperatura político-sindical decorrente do medo do desemprego, que, por sua vez, apavora o titular do Planalto. 

O governo ficou numa sinuca de bico: os bancos privados, mesmo com os recursos do depósito compulsório disponíveis a juros zeros, recusaram-se ao apelo governamental, tanto para salvar os bancos pequenos, como para irrigar o mercado com juro mais barato. Jogaram suas disponibilidades nos títulos da dívida pública interna e continuaram sustentando crédito caro. Sem a oferta, antes farta do crédito externo, o governo não teve outro jeito, senão injetar – eufemismo aparente para encobrir o essencial, latente, isto é, o verbo emitir, segundo o economista Carlos Eduardo Carvalho – para ativar a economia, inflacionariamente.
Passou a predominar dois discursos contraditórios: um, o que justifica o juro alto como arma para combater a inflação, agora, sob pressão da fuga de dólares, que levou o Banco Central a segurar em 13,75% a taxa básica, selic, na reunião do Copom, na terça, 10, embora os preços, de acordos com as pesquisas, estejam em queda: outro, que justifica maior oferta de dinheiro estatal para dinamizar a produção e o consumo, ou seja, que gera inflação para combater emergência perigosa da deflação. 
O governo terá que se equilibrar entre inflação e deflação em doses político-artísticas, no compasso do enfraquecimento do real, que, em processo de sobredesvalorização, perde o encanto popular-político-eleitoral, demonstrando que se foi o tempo em que a moeda nacional era orgulho nacional, impulsionadora do populismo eleitoral-cambial. Agora, dialeticamente, virou-se em seu contrário, em ameaça eleitoral, expressa em anti-populismo político-eleitoral-cambial.

Bombeamento estatal financeiro-eleitoral

Diante do estrangulamento geral do crédito nos bancos privados, responsáveis pela paralisação do crediário e desaceleração da produção e do consumo, o governo entrou em campo para ativar a produção e o consumo via crédito mais barato pelo Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal ao mesmo tempo em que renuncia à arrecadação de tributos.
 
A ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, candidata do presidente a sua sucessão, em 2010, defendeu, enfaticamente, maior intervenção estatal no mercado de dinheiro por meio dos bancos estatais. Como o governo prometeu, além das medidas anunciadas, novas, que estimularão novos setores encalacrados, é de supor que a opção governamental por neo-tabelamento indireto do crédito visa forçar a concorrência privada a ir para o mesmo caminho. 
Uma guerra de gigantes à vista: de um lado, o oligopólio financeiro estatal; de outro, o oligopólio financeiro privado. A emissão-injeção de dinheiro cria o ambiente dominado pela característica principal que o governo vai adquirindo, de ser o carro-chefe da economia com dinheiro estatal. O poder emissor governamental se transforma no salvador geral.
O perigo é o vício adquirido pelo Partido dos Trabalhadores, no poder, de confundir expansão dos gastos públicos com farra estatal com dinheiro do contribuinte para inchar a máquina do poder para os companheiros, ampliando, consideravelmente, os cargos de assessoramento superior, cuja ocupação exclui concurso público, promovendo desperdícios incalculáveis.

Estado Social e Estado Econômico 

O presidente Lula, do alto da sua confiança ilimitada nas potencialidades do Brasil, detentor das principais matérias primas mundiais que movimentam a manufatura capitalista global em crise, bota   para quebrar, na base do keynesianismo, tentando combinar o desenvolvimento simultâneo do Estado Social e do Estado Econômico. 
De um lado, cuida do econômico, desonerando impostos; de outro, fortalece o social, diminuindo o IRPF, ao criar faixas intermediárias de renda, com alíquotas mais baixas. Uma no cravo , outra na ferradura, para bancar uma oferta extra de quase R$ 10 bilhões na circulação, cujos efeitos, naturalmente, serão sustentação da arrecadação, com a qual garante obras do Programa de Aceleração do Crescimento(PAC).
Até a chegada dos petistas, aliados ao PMDB, ao poder, em 2003, vigorava, amplamente, o poder predominante do Estado Econômico. A entrada em cena do Estado Social, mediante aposta lulista nos investimentos sociais, para aumentar a demanda interna, desovar os estoques e valorizar a moeda, evitando desvalorizações cambiais inflacionárias, criou o fato novo. Este se transformou em equilíbrio na condução do poder entre o social e o econômico por meio de orientação política popular, característica essencial do pensamento lulista. 
No primeiro mandato, o poder lulista conseguiu, graças ao aquecimento da economia mundial, que irrigava o mercado interno, promovendo onda consumista, o equilíbrio entre o Estado Econômico e o Estado Social, mas com a emergência da bancarrota financeira dos Estados Unidos, esse equilíbrio foi violentamente rompido, graças à suspensão do crédito direto ao consumidor. Esgarçou-se, completamente, dessa forma, a base fundamental da armação estratégico-equilibrista-político-econômico-lulista, cuja tentativa de salvação é a opção pela inflação para conter deflação. 

Keynes em dose maciça

Sem o crédito internacional, não restou outra alternativa, senão aumentar a emissão de dinheiro estatal, como fator de compensação. A crise fez parar de chover nas cabeceiras. Ao aumentar, compensatoriamente, oferta de moeda na economia, induzindo ao crédito mais barato, via bancos estatais,  Lula age conforme pensamento de Keynes. 
As emissões monetárias, segundo o grande economista inglês, são as únicas variáveis econômicas verdadeiramente independentes sob o capitalismo, cuja eficiência , em forma de irrigação do mercado, produz o que os empresários esperam, ou seja, o aumento da eficiência marginal do capital, isto é, o lucro. 
Isso ocorre, diz ele, porque o aumento da oferta de dinheiro pelo governo na circulação, como faz Lula, agora, cria os quatro fatores indispensáveis que levam ao lucro capitalista: 1 – diminui os juros, 2 – perdoa as dívidas contraídas a prazo, 3 – reduz salários e 4 – eleva os preços. Ou seja, os empresários, nesse contexto, não precisam enfiar a mão no bolso, para investir, pois essa tarefa passa a ser do Estado. Talvez, por isso, despertem neles o que Keynes chamou de “espírito animal” investidor. 
Claro, os empresários, ao final da reunião com o presidente Lula, elogiaram a decisão governamental de jogar perto de R$ 10 bilhões na circulação, com promessas de, provavelmente, jogar outro tanto, nas próximas semanas, numa praça seca de dinheiro, visto que a reserva existente está empoçada nos grandes bancos, que emprestam caro e a prazo reduzido, em decorrência do aumento dos riscos trazidos pela repentina paralisação econômica internacional.

Cartilha consumista lulista

O pacote de consumo lançado na quinta, 11, é a cartada lulista para tentar segurar o tsunami econômico que começou em forma de marolinha. A criação de duas faixas intermediárias de aliquotas, de 7,5% e de  22,5%, para intercalar com as duas que existiam na tabela do IR anterior, de 15% e 27,5%; a redução de 7,5% para zero da alíquota do IPI para os carros populares, 1.0, bem com a diminuição escalonada do imposto sobre as outras cilindradas; a redução em 50% do IOF, de 3% para 1,5% – mantido adicional de 0,38% para compensar perdas com eliminação da CPMF – e o compromisso de usar dinheiro das reservas cambiais para ajudar as empresas exportadoras, estranguladas pela escassez de crédito, no ambiente global, cuja competição aumentou, selvagemente, representaram o esforço inicial do presidente Lula, para, com a emissão-injeção estatal de dinheiro, na produção e no consumo, sustentar a credibilidade do real, que está se afundando com a fuga de dólares, desde o início da crise em setembro. 
Resta, agora, saber qual será o fôlego financeiro governamental, para bancar o ritmo da economia elevando o nível de endividamento. O jogo keynesiano colocado em cena pelo presidente na tentativa desesperada de conter o perigo do desemprego exige capacidade crescente de endividamento do Estado. Na prática, a dívida passa a exercer, dialeticamente, a função de combater a inflação, ao enxugar, permanentemente, parte da oferta estatal monetária para evitar enchente inflacionária.
O fôlego financeiro lulista é o principal calcanhar de Aquiles do Planalto nos dois anos finais da Era Lula. O presidente faz aposta perigosa, inversa à que persegue os países capitalistas desenvolvidos, nesse momento.  Estes, no desespero, reduziram as taxas de juros, tornando-as negativas, se descontada a inflação, que desaparece em forma de deflação, enquanto mantêm a carga tribtária elevada, capaz de garantir os investimentos públicos. Ou seja, afrouxam a política monetária e tentam manter estável a política fiscal. 

Discurso Serra-sindicatos assusta Planalto 

O remédio inflacionário keynesiano, adotado pelo presidente Lula, é versão piorada do remédio  aplicado pelos países ricos, consubstanciando o revigoramento do papel do Estado como não apenas indutor, mas fazedor, promotor e realizador de investimento, via emissão monetária, fórmula única capaz de levar os empresários ao investimento, incorporando-se do espírito animal investidor.
Está em cena um novo Estado nacional, emissor, indutor, interventor  e fazedor, enfim, empresário e banqueiro. Lula joga antecipadamente o jogo do presidente eleito americano  Barack Obama, que promete emitir 1 trilhão de dólares para dinamizar a infra-estrutura americana, de cabo a rabo, com moeda estatal, de modo a gerar cerc a de 2,5 milhões de empregos, para compensar as demissões em massa decorrentes da desaceleração do modelo neoliberal cujo motor explodiu.
Os congressistas americanos condicionam a aprovação de empréstimos salvacionisas para empresas automobilísticas falidas mediante fiscalização do governo dentro das empresas, ao agir em duas pontas, tentando salvar capital e trabalho, já que temem, como Obama,  emergência social radical trabalhista, se o desemprego continuar ampliando-se.
Da mesma forma, Lula está colocando dinheiro e exigindo que a contrapartida seja sustentação da taxa de emprego. Caso contrário, a situação política, em meio à desaceleração econômica, ficaria amplamente favorável para a oposição. 
Os sindicalistas, na última semana, passaram a brandir o mesmo discurso do governador de São Paulo, José Serra, que luta para sair candidato do PSDB, disputando primazia com o governador de Minas Gerais, Aécio Neves. A ordem presidencial para gastar implica, necessariamente, conter, também, a onda serrista-sindicalista, que pode ser fatal à candidatura de Dilma Roussef em 2010.

Energia vira moeda forte na crise global

A criação em andamento da moeda arábe, anunciada semana passada pelos sheiks do petróleo, ligados à OPEP, representa fato novo no cenário da bancarrota capitalista global.  Energia vira moeda. Boas notícias para a América do Sul e o Brasil, que, com o pré-sal, entra na área da moeda-petróleo.

Ao mesmo tempo, a China manda recado ao governo Lula de que está disposta a embarcar, com suas trilhonárias reservas cambiais, na exploração petrolífera nacional. Ou seja, os chineses abrem os olhos para participarem do cartel da OPEP por intermédio da parceria com o Brasil.

Sinais de mudanças qualitativas no cenário internacional nos próximos tempos em que as economias desenvolvidas, afetadas pela crise de crédito, vão perdendo espaço para os emergentes em ações parceirizadas.

A moeda nacional – ou moeda sul-americana – , da mesma forma que a moeda árabe, ganharia status internacional, se o governo Lula, por conta do pré-sal, se filiasse à OPEP. A valorização dela teria o tamanho do potencial da reserva petrolífera trilhonária.

Os árabes querem com sua própria moeda fugir da volatilidade cambial e monetária que está rolando em profusão nas relações de troca depois que o crédito secou nos países capitalistas mais desenvolvidos.

Antes do vendaval detonado pela implosão do mercado imobiliário americano, eles haviam decidido dar os passos iniciais nesse sentido, por meio da elevação dos preços do barril de petróleo até perto de 150 dólares.

A justificativa para essa pressão altista não foi apenas o então aquecimento do mercado da oferta e da procura do óleo, mas a decisão dos governos árabes de compensarem a perda que estavam tendo nas relações de trocas globais.

Como os países do golfo pérsico têm suas importações européias cotadas em euro e suas exportações de petróleo em dólar, estariam, sempre, perdendo valor dado que o euro é mais valorizado que o dólar.

Jogo de compensações. O aumento do preço do petróleo em doses desproporcionais, como justificativa de compensação para a deterioração nos termos de troca dos árabes com seus parceiros, detonou, por sua vez, a inflação mundial.

Agora, no crash global, a inflação se transforma em deflação nos países ricos e fuga de capitais dos países pobres, desvalorizando a moeda nacional e impondo pressões combinadas de inflação com hiper-deflação.

Nesse novo cenário, os árabes tendem a perder duas vezes. Continuarão  a dançar na troca de dólar por euro e, principalmente, na queda dos preços do barril de petróleo na praça global.

Se não podem ganhar na elevação do preço, como compensação pela perda cambial, nem impedir a baixa do preço do produto na recessão em marcha, os governos do golfo se voltam, então, para a valorização do seu produto. Este adquiriria representação monetária, cujo lastro seria o próprio produto, do qual o mundo depende para sobreviver.

O petróleo, enfim,  viraria moeda árabe, sinalizando novo momento do sistema monetário internacional no mundo capitalista em bancarrota. 

 

O poder real e poder fictício

O cenário, para os árabes, é de prejuízo iminente. Primeiro, porque estão perdendo renda, que toca os projetos internos de desenvolvimento, por conta da deterioração nas relações de troca, e, segundo, porque a queda de preços impõe ainda maior deterioração comercial e cambial.

Que fazer?

Os sheiks, ao que tudo indica, estão se dispondo a uma nova radicalidade para a ação da OPEP como alternativa para valorizar, relativamente, seu produto, do qual depende a manufatura global. 

Repetiriam 1973?

Naquele ano, diante dos preços baixos, munipulados pelas empresas multinacionais, americanas e européias, para garantir consumismo barato de energia e combustíveis nos Estados Unidos e Europa às custas dos árabes, estes decidiram criar a OPEP. Causaram revolução econômica. Os governos do golfo fizeram valer o poder de oligopólio, e o mundo se condicionou à nova realidade, desde então.

Os árabes aprenderam que o poder do petróleo é maior que o peso do papel-moeda. Lá, em 1973, agiram para criar o cartel da OPEP, mas continuaram subordinados à área de influência do dólar. Agora, quando falam em criar sua moeda, a moeda-petróleo, estariam pensando e agindo na reafirmação do poder do petróleo no sentido de acelerar uma nova correlação de forças monetárias globais, quando o dólar balança?

Nasceria novo referencial monetário internacional para balisar as trocas comerciais globais, se for efetivada a moeda árabe. O dólar, como confirma a crise, está perdendo esse referencial, como algo absoluto, de acordo com a divisão internacional do trabalho, estabelecida no pós-guerra pelo acordo de Bretton-Woods, em 1944.

A mercadoria efetiva, riqueza real, lastro palpável, que serviu para a criação do cartel da OPEP, impondo, a partir dos anos de 1970, nova conjuntura energética global, pode estar, em 2008,  no auge das incertezas no cenário capitalista global, agindo para fazer valer, de novo, esse mesmo poder, com avanço qualitativo? A disposição de criar moeda árabe diz que sim.

 

Pobreza relativa do ricos e riqueza relativa dos pobres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A moeda árabe seria, naturalmente, a representação prática do poder do petróleo. O dólar sofrerá natural abalo. Qual o lastro do dólar? Dívidas imobiliárias em profusão que desvalorizam a moeda americana, afetada pela reprodução exponencial dos derivativos dolarizados. Ou seja, não tem lastro real. Perigo total, como prenunciam os próprios árabes, que se lançam à construção de sua própria moeda, para valorizar seu próprio produto. A riqueza fictícia monetária passa a receber outro tratamento no cenário das relações de troca, vindo a emergir a moeda-árabe-petróleo.

Os Estados Unidos e a Europa estão sem sua riqueza visível para dar substância a suas moedas, visto que tanto o euro, como o dólar, estão, na crise, abalados pela bancarrota do mercado imobiliário americano. Os americanos venderam papel podre para os europeus, que distribuiram esses papéis bichados na praça. Tudo falso. Riquezas imensas perdidas, sonhos estourados, fim de ilusões, caída na realidade trágica.

Evidenciou-se o óbvio: os americanos, que haviam perdido para os concorrentes seu mercado de bens e serviço,  perdem, agora, seu mercado de dinheiro. Consequentemente, empobrecem. A prova é a antecipação do discurso da nova Secretária de Estado, do governo Obama, Hillary Clinton, pautado no multilateralismo e não mais no unitarismo bushiano.

O incontrolável aumento do desemprego nos Estados Unidos é o sintoma geral de que a base de sustentação do dólar, o consumo americano, que realiza as importações globais, fragilizou-se.

Obama buscará reafirmar a força do dólar por meio do fortalecimento da capacidade da economia de gerar empregos, ampliando keynesianamente os gastos públicos. Caso contrário, sem a renda proveniente da produção, estimulada pela teta estatal, a moeda americana faliria. Derrocada imperial.

Empobrecimento relativo acelerado, no rítmo de aceleração do desemprego. É disso que Barack Obama quer fugir, preocupadissimo, como demonstra o seu semblante pós-eleitoral.

 

Moeda e agroenergia sul-americanas já

Nesse ambiente de total incerteza, os espertos árabes, donos das principais reservas mundiais de petróleo, perceberam que manter o óleo negro indispensável sob referência do dólar é correr risco ascendente no contexto das relações de trocas globais.

Como o mercado despencou e ficou difícil, senão impossível, continuar praticando preços altos, resta aos governantes árabes apegar-se a sua riqueza real e, ao mesmo tempo, colocar preço nela por meio de representação própria, ou seja, moeda árabe.

O petróleo, sendo poder monetário, pode ser lastro de uma representação monetária regional. Por que não? Esse fato, que a grande mídia pouco explorou durante a semana, tem potencial de fogo para influir na aceleração da criação da moeda sul-americana.

A América do Sul tem a riqueza potencial energética que assegura a estabilidade do mundo, em termos de desenvolvimento sustentavelmente equilibrado. Não teria, igualmente, chegado a hora de os sul-americanos, como os árabes, também, botarem preços nas suas mercadorias essenciais?

O pré-sal, nesse novo contexto, representa, efetivamente, base de sustentação monetária do país. Não seria à toa, portanto, que a China manda o recado ao governo Lula, mostrando-se interessada em ser parceira na exploração do óleo nas profundezas do pré-sal.

O poder energético, como não cansa de pregar o professor Bautista Vidal, agora na defesa da criação da empresa brasileira de agoenergia, emerge como poder monetário, no compassos de derrocada do neoliberalismo, que jogou o capitalismo na anarquia total, produzindo a contradição capital do sistema, expressa pelo choque entre as forças produtivas e as relações sociais da produção.

A hora da moeda sul-americana e da Empresa Brasileira de Agroenergia é agora. Lastreada pela riqueza mineral, energética e industrial da América do Sul, a moeda sul-americana, como a moeda árabe, em nascimento, teria influência decisiva no contexto multilateral pós-explosão neoliberal. Muda o conceito de riqueza monetária: o papel-moeda fictício sem lastro emitido pelos países ricos tenderiam a perder substancia para emissões sustentada em lastros reais, concretos.

Desemprego põe Meirelles na corda bamba

O avanço do desemprego na economia em desaceleração, sinalizando recessão, passou ameaçar o emprego do presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles. O crescente prestígio popular do presidente Lula(78% de aprovação na pesquisa DataFolha) corre perigo. Meirelles terá, na próxima quarta feira, o desafio de comandar mais uma reunião do Conselho de Política Monetária(Copom), sob pressão total dos empresários, trabalhadores, governo e coalizão governamental, no Congresso. Todos levantam uma só bandeira: redução das taxas de juros como antídoto à queda geral do nível de atividade econômica em marcha.

Nesse momento, as indagações generalizadas se voltam para a intensificação das especulações financeiras em cima da moeda nacional. O real já se desvalorizou quase 50% ao longo de outubro e novembro, mas a inflação, ao contrário de explodir diante do aumento da sua fragilidade, diminui, de acordo com os números anunciados ao longo da semana, embora as pesquisas dos banqueiros, seguidas pelo BC, sinalizassem o contrário.

Por isso, a surpresa geral está perpassando o mercado, sentindo cheiro de pólvora no ar. Por que o dólar, na quinta feira, 04, pulou para mais de R$ 2,50? Por que o Banco Central somente atuou no final do pregão, para evitar a especulação, quando, nas semanas anteriores, estava jogando no ataque? Hoje, novamente, R$ 2,50, R$ 2,60. Especulação pura. Estaria interessado em manter pressão sobre a moeda nacional, para evitar redução das taxas de juros, já que dólar alto significaria, teoricamente, mais inflação à vista? Jogada especulativa para evitar a redução das taxas de juros na próxima semana, a fim de continuar mantendo os altos lucros dos bancos, enquanto o setor produtivo vê o barco da economia afundar?

Essas perguntas estão na cabeça dos políticos da aliança governista, no Congresso, que começam a ficar desesperados diante do aumento do desemprego, que, no início de 2009, pode ampliar consideravelmente.Seria desgaste total para o presidente e sua candidata à sucessão nas eleições 2010, ministra Dilma Roussef, ao mesmo tempo em que estaria ampliando as chances dos adversários, José Sera, governador de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, que disputam, dentro do PSDB, a vaga para candidatura tucana.

 

Desemprego em marcha, prestígio em alta

Durante a semana, as notícias pioraram , consideravelmente, pintanto anúncio tétrico: a Companhia Vale do Rio Doce(Vale), uma das maiores mineradoras do mundo, demitiu 1.300 trabahadores e colocou em férias coletivas outros 5.000. Os preços dos minérios, com recessão mundial, cairam e a produção siderúrgica, consequentemente, encolheu. Resultado: a empresa, outrora estatal, privatizada na Era FHC, rendeu-se à lógica das demissões trabalhistas quando a procura cai diante de uma oferta abundante. Entre a deflação visível e a demissão de trabalhadores, não titubeou.

O governo Lula tentou minimizar o assunto, jogando com o otimismo, enquanto a realidade desmentiu-o. No Congresso, onde depunha, na terça feira, 02,sobre a situação atual, a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, não conseguiu vender o produto que o seu chefe tem ofertado em abundância no mercado em desaceleração: esperança em doses exageradas. Sua contenção, relativamente, ao avanço das demissões, ficou transparente, evidenciando que o governo busca correr contra o prejuízo, preparando série de medidas fiscais, como diminuição de impostos e adiamento de pagamento de tributos, enquanto a queda dos juros não vem.

O incômodo governamental aumentou, substancialmente, com a conjugação dos discursos dos empresários e dos trabalhadores, no mesmo diapasão. Embora os representantes de seis entidades sindicais tenham se reunido na Esplanada dos Ministérios, na quarta, 03, para fazer pressão sobre os parlamentares, a fim de livrarem da cassação o deputado Paulinho da Força(PDT-SP), envolvido no escândalo de jogo de influência para liberar empréstimos do BNDES, os sindicalistas corporativistas aproveitaram, também, a oportunidade para defender a redução urgente das taxas de juros e a diminuição do superavit primário. Somente com dinheiro mais barato na praça e menos recursos destinados ao pagamento dos juros da dívida, para que sobre mais aos investimentos, destacaram os líderes sindicais, será possível evitar a recessão e depressão econômica em rítmo crescente.

Na mesma linha, os líderes empresariais, sob coordenação da Confederação Nacional da Indústria(CNI), defenderam, igualmente, diminuição das taxas de juros, mas sem falar em ação semelhante sobre o superavit primário(receita menos despesas, excluindo os juros), como antídoto ao desemprego. Se este não for contido por medidas preventivas, urgentes, poderá disparar, nas próximas semanas, entrando 2009 adentro com previsões catastrofistas.

 

Banqueiros abandonam Planalto

Sob pressão total dos trabalhadores e dos empresários, do capital e do trabalho, bem como dos integrantes da coalizão governamental, no Congresso, o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, começou a ratear em seus argumentos. Sua sustentação favorável ao juro real mais alto do mundo como fator de contenção inflacionária ficou prejudicado. Os números da inflação de novembro, comparados ao de outubro, mostram recuo, mesmo em face do avanço do dólar.

Não bateram as pesquisas realizadas pelos bancos, por intermédio da Focus, que serve de balisamento para ação do BC. Em novembro, o IPC ficou abaixo de 0,3%, quando os bancos sinalizaram perto de 1%. Sem a pressão altista prevista pela pesquisa Focus, alvo de críticas de diversos setores da economia, os argumentos de Meirelles, enquanto avança o desemprego, perderam força.

Tal contradição ouriçou o Planalto, que está, especialmente, irritado com a banca privada, depois que ela se negou, no auge da crise, a colaborar com o esforço governamental, para, utilizando depósitos compulsórios a juro zero, irrigar o mercado com custo estável do dinheiro, bem como socorrer bancos pequenos em bancarrota.

Ao contrário, os grandes bancos, como Itaú e Unibanco, correram para a oligopolização bancária, enquanto elevavam os juros, mesmo com o governo aumentando a oferta de dinheiro na praça, por meio do BNDES. Não teve outra alternativa o governo senão partir, também, para a oligopolização financeira estatal.

Está no ar, no auge das tensões, o confronto entre o oligopólio financeiro privado, de um lado, e o oligopólio financeiro estatal de outro, cujos contornos somente o compasso da crise poderá dizer nas próximas semanas e meses. Na prática, o jogo da banca privada alimenta, entre os governisas, a convicção de que o jogo duro do BC na manutenção do juro alto beneficia os banqueiros e prejudica a estratégia política e econômica do presidente Lula, para enfrentar a crise e bancar a candidatura Dilma.

O titular do Planalto está numa sinuca de bico. Ao intensificar a pregação favorável ao consumo, estimulando os trabalhadores, temerosos do desemprego, a aumentar as compras no crediário, ele poderá ficar, completamente, desmoralizado, caso os juros continuem em alta, como evidenciam os números. As pequenas empresas, sufocadas para pagar o décimo terceiro salário, correm aos bancos para pegar dinheiro a 45%, 50%, 60% ao ano, enquanto o cartão de crédito avança para a casa dos 12%, 15% ao mês. Enforcamento total.

 

Mantega fatura desprestígio de Meirelles

O desespero das empresas diante do dinheiro caro ficou comprovado com o avanço das empresas de Factoring, cuja demanda, nos últimos 30 dias, subiu mais de 30% em dois meses. Além disso, os empresários ressaltam a necessidade de terem de retirar suas aplicações pessoais de fundos de investimentos de modo a fazer frente ao recuo dos empréstimos caros oferecidos pelos bancos.

Entre o desejo do presidente e a realidade configura-se a força desta diante daquele, expressa na onda de desemprego que se amplia. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, em sua tentativa de desmentir os fatos, deixou de ver recessão, inclusive, nos Estados Unidos, onde a situação está preta, para anunciar crescimento interno de 4% do PIB em 2009, está tendo que voltar atrás. O contraste emergiu forte entre seu otimismo sem freio e as previsões da ONU e do Banco Mundial que prevêm avanço de somente 1,5% a 2% do PIB brasileiro no próximo ano.

As reações governamentais, na verdade, se baseiam em argumentos prospectivos, porque, na prática, em outubro e novembro, mesmo diante da catástrofe capitalista nos países ricos, a oferta e a demanda, no Brasil, continuaram fortes, sinalizando a possibilidade de crescimento do PIB de quase 5% este ano.

 

Cabeça a prêmio 

 

A comprovação desse clima satisfatório se expressou na pesquisa DataFolha, na sexta, 05, dando conta do enorme prestígio do presidente Lula: 70% dos entrevistados concordam que seu governo está na faixa de bom e ótimo. Avançou 6 pontos percentuais em relação à última pesquisa. O entusiasmo com o presidente se revelou espetacular no Nordeste, onde o percentual de ótimo e bom pula para 81%.

Não foi à toa que o chefe do governo decidiu acelerar a discussão da reforma tributária, em tramitação no Congresso, cujo teor favorece os estados nordestinos relativamente aos do sul e do sudeste, tema que, no entanto, foi para o próximo ano, dada a emergencial situação econômica deteriorada, colocando em cena, de forma intempestiva, a conjugação dos discursos críticos dos empresários e dos trabalhadores, em desespero.

Debaixo desse clima, a situação do presidente do Banco Central ficou complicada.

O titular do BC, ao que tudo indica, sentiu a barra. Durante a semana, circulando no Congresso e nas entidades empresariais, para sentir o clima geral de deterioração e de críticas fortes quanto à condução da política monetária, reconheceu o perigo que ronda a sua porta e se dispôs, para tanto, a encontrar-se, de agora em diante, com os congressistas, para avaliações periódicas do quadro nacional.

Sua posição caminha para a insustentabilidade lógica. Ao longo da semana, não apenas vieram ao ar notícias sobre a inflação em queda, que contrastram com os juros altos, mas, também, as que dão conta de ações de governos pelo mundo afora jogando o custo do dinheiro para baixo, a fim de salvar as economias de bancarrotas iminentes, em escala inusitada.

Se, na próxima quarta feita, na reunião do Copom, a direção do BC não se mexer para diminuir os juros, mantendo posição conservadora, Henrique Meirelles poderá balançar fortemente, com empresários, trabalhadores e congressistas pedindo sua cabeça.