Nacionalismo petroleiro sul-americano

 

Os governantes sulamericanos, na debacle neoliberal, retomam as políticas nacionalistas, que, em 1930, depois da crise de 1929, foram abraçadas por Getúlio, responsável por fincar os marcos da nacionalidade brasileiraOs presidentes sulamericanos estão tomando posse das riquezas da América do Sul no meio da crise mundial, transformando o continente, conseqnetemente, em atrativo internacional, em cenário onde os investidores, nos países ricos, em falência, não têm oportunidades de reproduzir o capital sobreaculado na especulação globalEnquanto a CPI da Petrobrás tirou apetite político da oposição, porque poderia se enrolar nela, o presidente Lula deu passos decisivos, durante a semana,  acompanhando políticas adotadas por seus colegas presidentes da Venezuela , Hugo Chavez, e Evo Morales, da Bolívia, de tomarem, rapidamente, posse das riquezas sul-americanas do petróleo, nacionalizando 100% das reservas petrolíferas do pré-sal. Acelerou, à moda de Getúlio Vargas, a intervenção do Estado na economia, abalada pela grande crise mundial, que colocou o setor privado de joelhos, sem condições de bancar o discurso da supremacia do livre mercado e do Estado mínimo, submersos em bancarrota, tornando-se meras fantasias ideológicas. O titular do Planalto permitiu ao ministro das Minas e Energia, senador Edson Lobão(PMDB-MA), divulgar informação sobre decisão soberana nacional de criar nova empresa estatal, possivelmente, Petrosal. Com ela, administrará a totalidade da riqueza trilhonária, estimada em mais de 80 bilhões de barris de petróleo, estendendo-se em faixa unitária que iria de Santa Catarina ao Espírito Santo, bombando, agora, no litoral do Rio de Janeiro. Criará fundo de responsabilidade social que canalizará bilhões de dólares para a educação, saúde e infra-estrutura, antecipando receita, na medida do possível, para entregas futuras de óleo aos compradores. Combinando tal movimento nacionalista com redução mais acelerada da taxa de juros, a fim de baixar o custo da dívida e salvar a indústria encalacrada no real sobrevalorizado, Lula, vestido de Vargas, torna-se foco internacional, enquanto a Petrobrás, dividida entre sócios privados(60%), BNDESPAR(10%) e governo(30%) perde poder relativo. Os acionistas da Estatal não seriam mais os beneficiários principais da riqueza do subsolo, mas o povo, constitucionalmente, proprietário dela. Tremendo tapa na cara das elites anti-nacionais.

Potencia mundial. País emergente que mais rapidamente sairá da crise, cuja duração ninguém garante nada. Porto mais seguro para os investidores internacionais que se encalacraram na grande crise financeira que paralisou as economias americanas e européias etc. Esses são adjetivos bombásticos com os quais a imprensa internacional passou a considerar o Brasil, que, no auge da crise, tomou medidas nacionalistas no crédito para sustentar produção e consumo, fortalecendo o sistema financeiro estatal e empurrando contra a parede o sistema financeiro privado, resistente à queda da taxa de juro, embora em situação qualitativamente superior aos bancos europeus e americanos, sem balas na agulha.

O resultado da onda nacionalista, por enquanto, registrou queda – 1,8% – do PIB inferior à que os analistas previram – 2,5%, 3% até 4% – para o primeiro trimestre. Não foi dada continuidade ao desastre do quarto trimeste de 2008, queda próxima de 5%. Não rolou  catastrofismo. Os tucanos estão desesperados. A economia vergou-se, mas não quebrou, segurou toalha encharcada.

Por isso, em plena crise, o Ibope apura que o titular do Planalto está com a popularidade acima de 90%, ao mesmo tempo em que a candidata que escolheu para sucedê-lo, em 2010, ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, alcança os 20%, reduzindo distância relativamente ao favorecido pela opinião pública para suceder o presidente, isto é, o governador tucano de São Paulo, José Serra. A CPI da Petrobrás, em meio ao nacionalismo econômico, esvazia-se.

 

Ameaçado de degola

 

O presidente do Banco Central corre contra o tempo para não ser rifado ao administrar o juro real que atrai especuladores e quebra a indústria, aumenta o deemprego, porque valoriza a moeda nacional em meio ao perigo de deflação

O fato é claro: está dando ibope a onda nacionalista, que embala Dilma e fortalece o senador Lobão, politicamente, no contexto da coalizão governamental, na qual o PMDB é mais forte. Todos os políticos correm para ela.

Os empresários, pré-falidos, idem, desejam proteção contra a China, que está espalhando dólar no mundo para desvalorizar moedas nacionais a fim de que os produtos chineses penetrem com mais facilidade competitiva com seus dólares. São amplamente favorecidos com os juros positivos brasileiros, que atraem dólares desvalorizados para comprar ativos valorizados nas terras tupiniquins, graças ao monetarismo entreguista ainda vigente no Banco Central, sob comando do banqueiro internacional , Henrique Meirelles.

Quebram os chineses o setor produtivo, tomam o mercado e ganham no juro real de 4% ao ano, que pode levar o governo à moratória. Vigora no Brasil situação inversa à enfrentada pelos países outrora mais ricos que, precisando gastar para puxar a demanda privada, jogaram os juros no chão, tornando-os negativos. Se fossem mantidos positivos os juros no capitalismo cêntrico, entrariam, como os bancos privados, em bancarrotas irremediáveis, sinalizando hiperinflação mundial, neo-repúblicas de Weimar, cujos efeitos foram nazismo e fascismo.

Se nas próximas reuniões do Copom, a redução dos juros não for maior ainda do que 1 ponto percentual, que colocou a selic na casa dos 9,25%, mantendo taxa real de 5%, exagerada, excluída a inflação de 4,5%, o presidente Meirelles estará com a cabeça colocada a prêmio, em meio à onda política nacionalista em marcha.

Os juros meirellianos continuariam atraindo fortemente os dólares, principalmente, chineses que estão sobrevalorizando as moedas nacionais e levantando a ira dos industriais. Como as materias primas, em meio à desvalorização da moeda americana, valorizam-se, relativamente, em comparação aos produtos manufaturados, que se desvalorizam no ambiente da competição internacional acirrada, tem-se motivo adicional para depreciar o real e jogar as exportações brasileiras no chão, configurando desastre, como destacou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Desesperados, os empresários , nesse ambiente, estarão desempregando por não poderem exportar, enquanto são enganados pela ideologia neoliberal nas falsas benesses representadas pelo câmbio flutuante, puro fetiche em meio às intervenções seguidas do BC. Estas não seriam suficientes, se os juros não continuarem caindo em meio à resistência do monetarismo meireliano, acrescido do potencial brasileiro que se tornou irresistível para os investidores internacionais. Sem a especulação, não poderão mais continuar a reprodução ampliada do capital sobreacumulado. Enfim, nada mais contrário ao nacionalismo econômico em marcha, responsável, não apenas para tornar a economia aparentemente mais resistente e favorecer Dilma, mas, também, dar sobrevida aos defensores do terceiro mandato lulista.

 

Dia do Fica

 

Genoino promete barrar o terceiro mandato, mas só depois que ouvir da boca de Lula que não quer movimento nesse sentido, para fortalecer Dilma, mas efeitos contrários podem surgir , de fora do congresso, pelos movimentos sociais.

A onda está tão favorável ao presidente Lula, em ímpeto nacionalista, que quanto mais ele fala que já está com saudade do poder, repetindo Getúlio Vargas, a fim de descartar, sem maiores energias, o movimento político favorável ao terceiro mandato, mais espalha desconfiança no oposto, isto é, que ele poderia ficar para o que der e vier, se o povo mobilizasse para eventual repeteco não do Dia do Fico, mas do Dia do Fica. 

Sua aparente prematura saudade do poder, se for verdade a assertiva de Freud, copiada de Talleyrand, de que as palavras servem para esconder o pensamento, representaria , ao contrário, sua vontade de continuar no poder. Vontade, porém, nem sempre, é poder.

Os que lutam pelo terceiro mandato, contudo, fortalecem , por sua vez, a onda nacionalista que Lula comanda,  conferindo-lhe prestígio nacional e internacional e, consequentemente, engrossam o movimento fiquista.

As alternativas para Lula, no comando de política econômica nacionalista –  à qual Henrique Meirelles deve , ao reduzir os juros mais rapidamente, que aderir, para não cair, abrem vastas possibilidades políticas.

Pode pintar movimento popular em favor de terceiro mandato, principalmente, se o PIB reagir mais positivamente nos próximos meses, mediante aceleração de investimentos em políticas sociais, abertos pela possibilidade de antecipar recursos mediante lançamento da estatal Petrosal.

 

Bolsa Família Mundial

 

Obama, com o convite para Lula assumir o Banco Mundial, garante terceiro mandato para Lula em 2014Mas, também, se não der certo o terceiro mandato, pode pintar a garantia dele, não em 2010, mas em 2014. Já rola, inclusive, que Barack Obama teria convidado o titular do Planalto para ser o presidente do Banco Mundial, quando deixar o cargo. 

Claro, Lula faria o  Bolsa Família mundial e teria garantida sua volta em 2014, pelas mãos de Obama, esteja na presidência forças governistas ou oposicionistas. Por sua vez, o titular da Casa Branca estaria, com Lula no BIRD, dando novo rumo à política externa americana, exportando política social, a fim de melhor o prestígio americano no mundo, que está mais por baixo que calcinha de madame, como diria Stanislaw Ponte Preta. Teria grandes chances de conseguir segundo mandato nos Estados Unidos.

O genial Ponte Preta, certamente, não perderia a oportunidade de dar sua interpretação sobre a falta de prestígio do governo americano no mundo, afetado pela arrogância de Tio Sam, que foi para ao brejo, na crise globalOs dilmistas torcem por essa opção. Temem efeitos políticos transversais produzidos pela onda nacionalista, como é o caso do deputado José Geonoíno(PT-SP). Escolhido para relatar a emenda constitucional do terceiro mandato, apresentada pelo deputado Jackson Barreto(PMDB-SE) e rejeitada por não atingir quorum, mas não engavetada pelo presidente da Cãmara, deputado Michel Temer(PMDB-SP), que a encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça, José Genoíno promete derrubá-la por inconstitucionalidade. Sério?

 

Com as barbas de molho

 

Os grandes banqueiros do Itaú e do Unibanco que se fundiram na crise para resistir a onda nacionalista colocam as barbas de molho no ambiente da onda nacionalista

O processo político interage totalmente com a onda econômica nacionalista lulista em marcha em meio à  inversão do discurso econômico para o discurso social, a ser assegurado , provavelmente, pelo dinheiro do petróleo, como prometeu o ministro Lobão, ao adiantar a criação de fundo de investimento em educação , saúde , com recursos carimbados, na ordem de até 5 bilhões de reais.

A onda nacionalista em cima do crédito e do petróleo, em plena crise, como resultado natural decorrente da bancarrota privada, vai abrindo novas expectativas e perpectivas para a economia e para a política, tornando o presidente Lula mais forte em sua queda de braço com as forças resistentes.

Os grandes bancos privados e os acionistas priv ados da Petrobrás, que terão redução dos seus rendimentos, em meio à redução da taxa de juros básica, redutora, por sua vez , do tamanho da dívida pública interna, colocam suas barbas de molho.

Configura-se maior força financeira e política ao governo para confrontar o oligopólio financeiro dos bancos privados,  cuja contribuição à política anticíclica governamental, no primeiro momento da eclosão da grande crise, foi um zero à esquerda.

Não só recusaram os grandes bancos a contribuirem com a solicitação governamental para ajudar os bancos menores encalacrados na crise, com dinheiro dos depósitos compulsórios, como fizeram pior, ou seja, jogaram os compulsórios na especulação, comprando papéis do governo, para ganhar nos juros selic, na especulação.

A resposta lulista, de fortalecer o sistema financeiro estatal – B anco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES – , inviabilizou queda mais forte do PIB. Consequentemente, baixou o facho da banca. Ela não deu um pio com a redução de 1 ponto percentual na taxa selic. Se cair mais 2 pontos percentuais, em vez de chiar, a banca pode ler sinal de que enfrentar o nacionalismo financeiro estatal poderia ser uma fria.

Na prática, ao intervir no crédito à produção e ao consumo, ao mesmo tempo em que jogou o orçamento da Petrobrás para assegurar continuidade às obras do PAC, afetado pela diminuição da arrecadação tributária, Lula fez com relativo sucesso, até agora, o que os governos americanos e europeus não conseguiram fazer, porque o sistema financeiro privado na Europa e nos Estados Unidos faliu e os bancos estatais , atuando no varejo, inexistem, como arma alternativa à suspensão do crédito em meio ao maremoto dos derivativos imobiliários dolarizados. O exemplo do BNDES pode transformar-se em modelo mundial, como prevêem os argentinos.

Dilma-Lobão: do pré-sal à sucessão

O petróleo do pré-sal pode ser a linha pela qual o PT(Dilma) se unirá ao PMDB(Lobão), para credenciar-se à sucessão do presidente Lula, e o terceiro mandato não vingar, para prorrogar mandatos gerais, atendendo desejos continuisas de presidentes, governadores e prefeitos, de cabo a rabo, na linha bem brasileira do jeitinho nacional, ao qual até a oposição, com medo da disputa em 2010, se alinharia

A grande crise mundial, que paralisou as atividades produtivas globais, lançando a economia em incertezas completas, acompanhadas de bancarrotas generalizadas, responsáveis por fortalecerem o papel da política e do Estado na economia, e a  possibilidade de esvaziamento político e financeiro da Petrobrás por intermédio da CPI, criada para investigá-la, levaram o governo a acelerar decisão soberana  de tomar posse da principal riqueza nacional ao mesmo tempo em que separa da empresa semi-estatal as reservas trilhonárias petrolíferas do pré-sal, estimadas, preliminarmente, em 80 bilhões de barris.  O que Evo Morales, presidente da Bolívia, fez quando assumiu o poder, Lula repete, agora, com o petróleo na área do pré-sal. Na prática, rola a renacionalização do petróleo.

A forma se dá por meio da criação de empresa estatal destinada a gerenciar a nova riqueza. Resultado: maior potencia ao poder brasileiro no cenário da crise global que sinaliza, por sua vez, a dobradinha Dilma Roussef, ministra da Casa Civil, e o ministro das Minas Energia, senador Edson Lobão(PMDB-MA), vitorioso, politicamente, na nova articulação, para enfrentar o PSDB-DEM em 2010.

Isso se a emenda do deputado Jackson Barreto(PMDB-SE), favorável ao terceiro mandato para Lula, não emplacar, no compasso do aumento incrível da popularidade do titular do Planalto na pesquisa Ibope, superando a casa dos 80%, no instante em que a economia, por conta da crise, enfrenta recessão e desemprego.

Como o presidente operário descartou essa possibilidade, não deixando, claro, de agradecer pelo prestígio crescente como sinal de aprovação, a dupla Dilma-Lobão, o sul e norte-nordeste, tenderia a ser a opção que emerge com o poder petrolífero nacional em ascensão.

Separa o governo a empresa semi-estatal das reservas petrolíferas que ela explora, capital que é do povo, ou seja, o que se encontra no subsolo, administrado pela União. Fragiliza relativamente o capital privado que compõe 60% da empresa, enquanto a União possui, apenas, 30%, e o BNDEspar os 10% restantes. Diminui a vantagem comparativa da empresa diante das suas concorrentes internacionais no novo modelo de apropriação do petroleo nacional.

Para garantir prestígio e privilégio para a semi-estatal petrolífera nacional, o governo unitizaria as reservas do subsolo, ganhando mais poder relativo, frente a todos os interessados em explorar tal riqueza, inclusive a Petrobrás, fato que, automatidamente, confere a União capacidade de fazer chamada de capital que poderia permitir a ela adquirir, nesse processo permitido pela lei das S/A, abocanhar parte das ações dos acionistas privados, engordando o capital estatal no negócio. O governo, que  assegura maioria precária dentro da maior empresa, embora seja representante da sociedade que, constitucionalmente, é possuidora das reservas ainda não exploradas, retoma o comando do processo.

 

Linha Hugo Chavez-Evo Morales

 

Lula segue a linha dos dois presidentes sulamericanos no trato do petroleo, para refundar o poder sulamericano em face da crise mundial, na qual destaca como potencia, por possuir a Améica do Sul as riquezas que os países capitalists desenvolvidos necessitam, sem mais dispor do poder da deterioração dos termos de troca dados pelo domínio das manufaturas tecnológicas

Ao renacionalizar-reestatizar o petróleo e abrir espaço para avançar dentro da Petrobrás, deslocando acionistas privados com a unitização das reservas, o novo formato do poder petrolífero nacional assegura condições satisfatórias para a empresa, mas sua autonomia, como foi conduzida até agora, em meio ao avanço dos acionistas privados, fica comprometida.

Requererá a semi-estatal protecionismo governamental  nas licitações, para não ser superada pelos grandes produtores internacionais do petróleo , que, certamente, participarão das explorações, pelas novas regras, simbolizadoras, ao mesmo tempo , do compromisso do Planalto de transformá-las, politicamente, em instrumento financeiro para bombar políticas sociais, engordando os orçamentos da educação, da saúde e da habitação.

Lula fará com o dinheiro do petróleo o que o presidente Hugo Chavez  faz na Venezuela, por meio do qual abre espaço para assegurar seguidos mandatos presidenciais, sob crivo popular via democracia direta referendada em plebiscitos, linha, também, seguida por Morales, presidente da Bolívia.

A soberania nacional, dessa forma, em nome do patrimônio popular, é amplamente afirmada pelo governo Lula, no momento em que, em plena crise mundial, o Brasil torna-se alvo geral dos investidores, nacionais e estrangeiros, por constituir-se em nação emergente promissora, capaz de navegar em mares bravios.

O raciocínio governamental prevaleceu no sentido de que tal poder , reconhecido, amplamente, pela comunidade internacional em face do potencial econômico brasileiro, encontra-se fincado, justamente, nas riquezas petrolíferas e minerais em geral. O Brasil dispõe de mercadorias das quais necessitam a manufatura mundial que disputa entre si o mercado correndo risco de quedas deflacionárias de preços em face da elevada concorrência.

Inverte-se, na crise global, a deterioração nos termos das relações de troca entre, de um lado, os preços das matérias primas e dos alimentos, que valorizam relativamente mais , e, de outro, os preços das manufaturas, que se desvalorizam em meio ao acirramento da competição que sinaliza inflação cadente e deflação ascendente, para horror dos industriais, em busca de intermitente socorro governamental.

Nesse contexto, o valor relativo das mercadorias primárias brasileiras torna-se superior em virtude de apresentarem maiores vantagens comparativas de forma intrínseca. Consequentemente, eleva-se, da mesma forma, o poder político.

 

Reserva garante investimentos

 

A nova conjuntura internacional favorece a renacionalização do petroleo por meio da criação de empresa estatal destinada a administrar as reservas pre-salinas

O valor do petróleo, para o Brasil, que dispõe de autosuficiência do produto, representa riqueza líquida sobre a qual a soberania política nacional pode sacar para contruir a infra-estrutrura nacional, que está, ainda, quase toda por realizar nas regiões norte, nordeste e centro oeste. Representa, da mesma forma, fonte de recursos para fazer a revolução na educação, na saúde e nos equipamentos urbanos, ampliando programas habitacionais etc

Como os capitais investidores, na Europa e nos Estados Unidos, estão em busca dessa realização, para dar respostas aos seus acionistas, que deixaram de ganhar lucratividade na especulação, como vinha acontecendo até o estouro da crise global, o Brasil, simplesmente, deixou de ser um risco, mas uma oportunidade indispensável.

A renacionalização do petróleo, ao desvincular as reservas do pre-sal da Petrobrás, certamente, diminuirá o preço das ações e as expectativas dos acionistas nos ganhos especulativos. Isso, evidentemente, não ocorreria se as reservas do pre-sal se transformassem em patrimônio da Petrobrás, como se configurou como hipótese até antes do estouro da crise global, na linha da tucanagem.

O resultado poderá ser pressão baixistas para as ações da empresa,  evidenciando situação em que poderá estimular a ampliação da estatização, no contexto da unitização das reservas do pre-sal, dentro da própria Petrobrás, com o Estado comprando ações por preços mais baixos, via chamadas de capital.

Poderia, igualmente, configurar contexto em que se tornaria irreversível a renacionalização da Petrobrás ou seu enfraquecimento , também, irreversível, especialmente, se a CPI escarafunchar a vida da estatal, a fim de descobrir maracutaias por meio de contratos bilionários mal acochambrados nos quais estariam envolvidos personalidades governistas, deste e do governo passado, hipóteses, altamente, prováveis.

Reforça a renacionalização, certamente, o prestígio político eleitoral do presidente Lula. Com discurso nacionalista, reforçado pela decisão governamental de tomar medidas estatizantes anticíclicas, especialmente, no crédito, de modo a evitar, com sucesso, até o momento, que a economia entrasse em bancarrota, o poder estatal lulista ganhou prestígio adicional.

Adquiriu com tais ações, responsáveis por evitar quedas maiores das atividades produtivas, credibilidade e confiança suficientes que estavam lhe faltando para falar grosso na área do petróelo, antes da eclosão da crise mundial. Depois dela, em que o Estado virou solução e não problema, viabilizou-se a renacionalização das reservas petrolíferas. A privatização relativa da Petrobrás  sofre impacto poderoso diante da renacionalização das reservas.

Ao longo dos últimos vinte anos, a exploração petrolífera, que exige investimentos elevados, foi flexibilizada pelo governo, para atrair parceiros, dividindo o lucro via concessões. Com o pre-sal, entra em cena o regime de partilha. Tudo vai para o caixa do tesouro, que dá as cartas, soberanamente.

 A ação da Petrobrás, até antes do pré-sal,  no processo verificou-se sempre em participações majoritárias nas parcerias realizadas, mas sendo a empresa dominada pela capital privado, embora controlada pelo capital estatal, os verdadeiros beneficiários do valor das reservas do subsolo estavam  sendo os acionistas privados, não os verdadeiros proprietários, o povo.

Com a criação da Petrossal, a situação muda de figura. As condições para realização de parcerias serão feitas não mais pela Petrobrás, mas pela nova empresa, cujo capital será 100% estatal.

Minc e Marina fortalecem Kátia para 2010

O radicalismo de Marina contaminou Minc que resultou na vitória de Kátia que aproveitou o racha dentro da própria coalizão governamentalAbreu jogou na divisão das forças governistas para marcar ponto da categoria social que representa, os capitalistas do campo que estão diante de enormes oportunidades em face da força brasileira para alimentar o mundo em meio à crise globalOs petistas ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, e a senadora e ex-ministra acreana Marina Silva, dançaram politicamente diante da charmosa liberal-conservadora senadora Kátia  Abreu(DEM-TO), que aproveitou a divisão dentro da coalizão governamental para conquistar decisivamente a categoria dos ruralistas ao conseguir aprovar a MP 548 que flexibiliza a ocupação territorial na Amazônia, conferindo, paulatinamente, as bases do capitalismo amazônico. Se o poder do capital estiver atrás de uma mulher para representá-lo nas urnas em 2010, pela oposição, ela pode ser uma opção. O PSDB, depois disso, corre atrás dos ruralistas, ou seja, dela.

Essas bases tentam assegurar o direito de regularização das terras por parte de empresas na área da Amazônia Legal e impedir que vigore o mandamento de que os ocupantes delas sejam apenas gente do município e não proprietários fincados em outras terras, nacionais e internacionais.  O capital não tem pátria.

Mantiveram as bases do capital interessado em explorar economicamente a Amazônia resistentes em seu espírito dominador do desbravamento territorial brasileiro. Foram historicamente favorecidas por cultura jurídica laxista e parcial no trato da relação do capital com a terra e com os que dela foram dessapossados por ele, desde o século 16, na Inglaterra, quando começa a industrialização inglesa. A tradição chegou ao Brasil no descobrimento com o dessapossamento dos índios e a proibição dos negros escravos de alcançarem a propriedade. Afinal eram escravos.

Os trabalhadores foram expulsos para as cidades para que em suas terras fossem cultivadas as ovelhas cuja lã seria a matéria prima essencial para a indústria textil, que colocaria a Inglaterra na dianteira capitalista global sob coordenação da libra esterlina e do sistema bancário utilitarista inglês. Nesse ambiente, a propriedade privada surge como expressão do seu contrário, o oculto não revelado, ou seja, da exclusão da propriedade privada. Consolidou-se desde então o direito de posse pela ocupação que a lei regulariza  normativamente. Configura-se, pela propriedade privada, igualdade jurídica que, contraditoriamente, contrasta com a desigualdade social, polos opostos de um mesmo processo dialético que se apresenta de forma fetichista, invertida.

Sob comando político de Kátia, os ruralistas lutam, evidentemente, pelo predomínio da cultura da posse dada pela ocupação que se regulariza juridicamente, como desde os tempos coloniais.  A luta política no Senado, portanto, teve por trás de si esse histórico econômico e social do desenvolvimento nacional estruturado na legalidade da ocupação pela posse. A aceleração do processo vem se intensificando desde a década de 1970, quando os militares decidiram ampliar as fronteiras nacionais para aumentar a oferta de alimentos, já que as terras cansadas das regiões sul e sudeste não dariam mais conta de garantir a oferta, submetendo a economia às violentas oscilações inflacionárias.

A articulação produzida por Kátia Abreu desarmou os arranjos políticos costurados entre as  lideranças do PT, na Câmara, com o deputado Henrique Fontana à frente, e a oposição. Os deputados tinham caminhado para um consenso, inclusive,  em face do ponto mais delicado, a regularização das terras pelas empresas privadas. Evidentemente, nesse campo, seriam envolvidos compromissos dos neoregulados em forma de pagamento de tributos em condições negociáveis, como ocorreu sempre. Mas, o radicalismo de Marina Silva entrou em cena.

 

Novo paradigma internacional

 

obma-silv-a

No Senado, não houve acordo. Marina Silva, com apoio de Carlos Minc, foram para o pau. A senadora enviou carta ao presidente dizendo que estava sendo legalizada a grilagem na Amazônia e o ministro , com a ministra, subiram em palanque em frente ao Congresso para taxar os ruralistas de vigaristas. Deram respostas emocionadas e irracionais às pressões advindas de suas bases eleitorais ambientalistas, que se preparam para fazer barulho, em dezembro, em Compenhague,  onde se realizará nova conferência mundial sob o clima, cenário no qual a participação brasileira, por causa da Amazônia, é decisiva, dado o ativo ambiental amazônico, maior bioma da terra.

O mea culpa do ministro para a senadora oposicionistas, chamando-a para um acordo, representa a rendição da sua espetaculosidade político eleitoral ao acordo fechado pelo deputado Henrique Fontana com a oposição. O jogo dele de esticar a corda até rebentar deu com burros nágua, ao sustentar exacerbamento emocional na questão ambiental  em tempo de antecipação da sucessão presidencial.

No plano do meio ambiente o jogo político eleitoral se revelou fiasco,  porque prevaleceu não a emoção, que dividiu, mas a razão, ancorada nos interesses do capital, que uniu. Minc se viu obrigado a ser profissional na negociação com o capital expresso em figura feminina no Senado.

O presidente Lula está diante do desafio de atender os ambientalistas, que desejam negar o direito de  empresa privada regularizar terras ocupadas na Amazônia Legal, só o permitindo para pessoas físicas que moram nos  municípios, bem como negar, também, a redução de 10 para 3 anos o prazo de venda de médias(400 a 1.500 hectares) e grandes propriedades(acima de 1.500 hectares), para não favorecer especuladores.

Igual desafio será o de não atender as reivindicações dos ambientalistas, favorecendo os ruralistas. Fortaleceria a corrente política oposta ao novo paradigma mundial ancorado no discurso de Kyoto, a ser aprofundado na conferencia internacional, ou se posicionaria a favor da corrente ambientalista, à qual se rendeu o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama?

 

Sonho ou realidade?

 

fontana negociou politicamente com a oposição mas sua posição foi atropelada pelo radicalismo marinista avalizado por carlos mincSe tivesse prevalecido, no Senado, o acordo que a colização governamental(PT-PMDB) armou na Câmara, a tarefa do presidente Lula, agora diante do problema, ao qual tem que dar resposta em menos de três semanas, seria menos espinhosa. Ficou politicamente mais complicada depois que Carlos Minc embarcou no discurso incendiário de Marina Silva. Na prática, o governo não tem discurso formado. Pragmatismo é o nome do negócio.

A ida de Minc à senadora Kátia Abreu, para se desculpar, seria mea culpa pelo emocionalismo marinista ao qual se subordinou e adoção da postura do líder Henrique Fontana, que buscou equilíbrio entre o capital e os ambientalistas. Perdeu a oportunidade de posar de pacificador das tensões, preferindo vestir a camisa do atiçador de tensões, em obediência as suas bases políticas. Tentou cariocarizar o discurso ambiental, com pitadas de emocionalismo politico, mas, apenas, perdeu credibilidade de exercitar extrovertidamente seu prório discurso, de agora em diante.

Mangabeira, que pensa ser presidente da República um dia, prega capitalismo popular para a Amazônia em meio a um a economia dominada pelos oligopólios e oligopsôniosSe o presidente Lula foi obrigado a tirar Marina e colocar em seu lugar Minc, ao verificar que Minc é a representação exata de Marina à frente do Ministério do Meio Ambiente, cai na real de que Minc eterniza os problemas agudos que pensou ter removido quando colocou ele no lugar da senadora.

Agora , poderia estar de olho na racionalidade econômico desenvolvimentista do ministro Mangabeira Unger, que, mediante visão social trabalhista, dispõe  de projeto de desenvolvimento amazônico, ancorado na ampliação das oportunidades econômicas, a fim de configurar no cenário da Amazônia capitalismo popular?

Seria uma versão utópica, inversa daquela que rola na realidade, ou seja, o amplo domínio da oligopolização e oligopsonização da economia brasileira, na indústria e no campo. Sonho ou realidade?

 

 

 

 

 

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Expropriação do quintal de Tio Sam

Os Estados Unidos, na grande crise mundial, que abala o dólar , não tem mais força de ditar as regras na América do Sul como se ela fosse seu eterno quintal, dado pela lógica de arrogante perpetuação de uma situação favorável aos Estados Unidos, agora, detonada

A reintegração de Cuba à OEA é a derrota dos Estados Unidos na OEA. É,  também,  na prática , a expropriação do conceito político que ganhou forma com o imperialismo unilateralista americano estabelecido para a região depois do Acordo de Bretton Woods, em 1944, quando os americanos saíram vitoriosos na segunda guerra mundial, com o dólar ultra-fortalecido, para determinar, pela força e pelo dinheiro, a nova divisão internacional do trabalho no pós-guerra.
 
Quatro anos depois de Bretton Woods, Washingon estabeleceria  para a América Latina, via OEA – Organização dos Estados Americanos –  , a nova ordem sob domínio do dólar. Ou seja, regras econômicas adequadas à expansão da economia americana na América do Sul e em toda a perifieria capitalista e no ex-centro do capitalismo, Europa e Inglaterra, que deixariam para trás o reinado da libra esterlina.
 
As Américas teriam que estar abertas ao capital americano em troca da paz mundial garantida, contraditoriamente, pela corrida armamentista, a fim de proteger o capitalismo e a democracia liberal da ameaça do comunismo soviético. A OEA é a armação político-ideológica para ancorar a política econômica americana para o continente.
 
A América Latina, nessa conceituação geoestratégica global de Tio Sam, mediante dólar poderoso, ajoelhou-se. Os sul-americanos, até então, desde os descobrimentos à segunda guerrra mundial, tinham rendido tributo à Inglaterra, à libra, ao padrão ouro do século 19 inglês. A bancarrota da libra, depois da primeira guerra mundial, intensificando sua fragilidade  no entre guerras, 1919-1939, abriu espaço ao dólar, depois da guerra.
 
As elites sulamericanas, no novo contexto, viraram seus interesses para Washington, esquecendo Londres. Cumpriram e continuaram a cumprir o seu papel: promover o desenvolvimento interno sob coordenação dos empréstimos externos e suas determinações pelos credores. Seguiram o mandamento de Ruy Barbosa – cabeçudo entreguista, segundo Glauber Rocha, em Myzérya do lyberalysmo”. Passaram a ancorar o conceito de liberdade não por intermédio da revolução francesa, mas por meio da revolução americana. A Constituição republicana brasileira copia as lições de Washington, adaptando-as às determinações dos interesses do dólar forte na América do Sul.
 
O quintal sulamericano se transformou em insignificância política e os antagonomismos foram contidos à bala. As ditaduras se repetiam como se fossem algo dado pela natureza da história. O pensamento americano, ancorado no dólar, ajustou a diplomacia regional ao comando washingtoniano, que patrocina a diplomacia de guerra, como contrasenso explícito.
 
Os ditames econômicos deixaram de ancorar-se em Londres. Transferiram-se para Chicago. A América Latina vira, nesse novo ambiente da divisão internacional do trabalho sob domiínio do dolar, américa latrina. Bebia toda a descarga de Washington.
 
A Casa Branca rejeitara Keynes e impusera sua moeda. O economista inglês, em Bretton Woods, queria driblar o poder do dólar. Em vez do dólar, pregou moeda global – o Bankor – para equilibrar o balanço de pagamento dos países nas relações de trocas internacionais por meio de um jogo de compensação geral. O equilibrismo conceitual keynesiano não vingou. Os interesses do dólar, vitorioso na guerra, falaram mais alto. A OEA sintoniza, sobretudo, com tais interesses, contra os quais Cuba se rebelou e foi expulsa do organismo.  A volta por cima de Cuba é a derrota da diplomacia do porrete.
 
 

 
Capitalismo x Comunismo
 
 
 

 

A OEA é produto da guerra fria que criou estrutura política e econômica ditatorial na América Latina para frear o avanço das forças produtivas em meio ao desenvolvimento das relações sociais da produção que excluia a maioria do consumo, fixando subconsumismo no capitalismo periférico

Os mandamentos básicos da OEA , contra os quais Cuba se rebelou, fincam-se nas determinações neoliberais anglo-saxonicos que impregnam o Acordo de Bretton Woods. Repudiam as orientações da esquerda , que tentou, desde o final do século 19, seguindo o 20 adentro, introduzir a dialética de Marx no lugar do mecanicismo econômico de Ricardo e dos economistas clássicos e neoclássicos ingleses, que criaram, no século 17, a economia política, a partir da qual dominaram o mundo com a libra esterlina.
 
Os soviéticos, que tentavam a transição entre capitalismo e socialismo, para chegar ao comunismo, conforme diz o programa básico de Lenin, fixado no XI Congresso do PCR, em 27 de março de 1922, seriam, aos olhos dos americanos, os inimigos a serem extirpados. Deveria acontecer com eles o que aconteceu com Zapata, no México. Extermínio.
 
A guerra fria é o mote diplomático guerreiro que justifica a criação da Organização dos Estados Americanos(OEA) – organização da ordem unida – , para difundir a democracia do capital norte-americano na América Latina. Cuba, em 1962, atravessara o samba de uma nota só americano neoliberal para a America do Sul via OEA. Tinha que cumprir o mandamento contra Zapata.
 
A expulsão de Cuba da OEA representou resposta americana aos que tentaram romper com as regras de Bretton Woods, para a política e para a economia, em combinações explosivas, na America Latina.
 
A expansão do capital americano na América do Sul voltou-se para orientações ditadas por Washington cujas características foram e continuam sendo a permanente concentração da renda, como estrutura básica dos modelos econômicos. As consequências das determinações de Bretton Woods foram polarizações políticas sinalizadoras de radicalismo. Este, por sua vez, emergiria como principal razão das elites conservadoras para resistirem às reformas políticas, tratando-as, apenas, no plano da abstração.
 
A criação da OEA coincide com a disposição de Washington de transplantar para a América do Sul, Africa do Sul, Ásia, Austrália e Nova Zelândia a indústria automobilística americana que entrara em crise em 1929, como destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”.
 
O consagrado economista conservador Eugênio Guddin, em suas memórias, chegou a chamar o presidente Juscelino Kubistchek de playboy esbanjador das reservas financeiras, porque estava pagando a mais o que poderia pagar a menos, para trazer para o Brasil as industrias automobilísticas, sucateadas pela crise de 1929, mediante vantagens fiscais e creditícias excessivas.
 
Ou seja, conforme Guddin, o governo americano, nos anos de JK,  tinha pressa para se livrar de um abacaxi podre, como, EM 2009,  quer se livrar do excesso de dólar, que apodrece em derivativos tóxicos, na grande crise mundial. Em vez de pagar barato, nos anos de 1950, JK pagou caro, como pode pagar caro o governo Lula, se a política do Banco Central continuar sendo a de acumular dólares em vez de utilizar os dólares acumulados em desenvolvimento interno, como faz a China pelo mundo afora, a fim de livrar do acúmudo que dispõe de moeda americana.
 
Se hoje o dólar vira moeda candidata a podre, em 1929, o excesso de automóveis era a expressão das mercadorias podres que deixaram de ter consumidores, depois do crash. Naquele ano, os Estados Unidos produziam 5 milhões de automóveis, com uma frota nacional de 27 milhões. Com o crash, a produção caiu para 900 mil carros produzidos. Somente 14 anos depois, em 1943, diz Lauro em “A crise completa – Economia Política do Não(Boitempo,2002), foi possível retomar os níveis de produção de 1929.
 
A partir daí, porém, a indústria automobilística e a de bens duráveis em geral, movidas pelo crediário, não eram mais o centro da dinâmica da reprodução do capitalismo, mas a guerra, bancada pela moeda estatal inconversível. Em 1944, o deficit americana alcançara de 173% do PIB, bancando a expansão econômica americana, mediante economia de guerra, produção bélica e espacial.

Materializava-se o recado que Keynes, em 1936,  deu a Roosevelt: “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala capaz de fazer valer minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força”.

Não deu outra. Enquanto isso, a sucata, a indústria automobilística, viria para o Brasil, Argentina, México etc, exigindo investimentos em estradas, energia, ou seja, juscelinismo sucateado, em meio a uma estrutura dependente de poupança externa, concentradora de renda e poupadora de mão de obra ,  cujo preço a  pagar representaria bancarrotas políticas que levariam o país à ditadura, financiada por Washington.

 
 
 

Decisão afeta EUA e a Cuba

 
 

Cuba e Estados Unidos estão condenados a subirem à mesa porque um negro americano não poderia deixar de negociar com os negros cubanos que sinalizam uma só especie humana que esteve marginalizada historicamente mas que os caminhos cruzam na história em contextos opostos e instigantesA OEA é, fundamentalmente, fruto dessa expansão econômica americana em nome do combate ao comunismo. O organismo expressa a arrogância americana, que, agora, 60 anos depois de Bretton Woods, rende-se aos fatos que determinam a fragilidade do dólar em meio aos déficits americanos que balançam as bolsas internacionais.
 
A cada da entrevista do presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Ben Bernamke, o mundo financeiro vira de cabeça para baixo, demonstrando que o dólar deixa dúvida sobre sua capacidade de continuar sendo equivalente geral das trocas internacionais. Afetado pelos deficits americanos, que alcançam 15 trilhões de dólares, o alerta de Bernamke  traduz as limitações do poder financeiro de Tio Sam, que, outrora, determinou as regras no mundo, unilateralmente,.

Ben Bernamke, com seus alertas, é o anuncio antecipado de que novos abalos estão por vir onde os ícones do capitalismo desabam, como a GM. As bases de Bretton Woods apodreceram. Sendo filha de Bretton Woods, a OEA, igualmente, decompôs-se.

 A resistência de Cuba às políticas emanadas da OEA pelo dedo de Washington representou, sobretudo, resistência aos mandamentos do dólar nascidos em Bretton Woods, que, com a grande crise financeirra mundial em curso, 60 anos depois, deixa de ter utilidade.

Mas, a resistência cubana pode, a partir de agora, representar armadilha ao atual modelo cubano de centralização política do partido único – na clássica ditadura do proletariado leninista.
 
De um lado, a resistência de Cuba em retornar à OEA passa a ser a expressão da vitória cubana sobre os Estados Unidos. Significa passo inicial de rompimento diplomático da América Latina com o unilateralismo americano. De outro lado, porém, representa contradição para o regime de partido único a ordem multilateralista substituta da unilateralista que vigorava sob comando de Washington.
 
Ao detonarem os mandamentos da OEA, que inviabilizavam a união latino-americana, os integrantes do organismo detonaram, também, em grande parte, as razões que sustentaram em Cuba a ditadura do proletariado, onde sequer há parque industrial forte.
 
O partido único representa tese que gera a antítese, isto é, o fim da OEA. A síntese não seria, então, nem a tese, o partido único, nem a antítese, a OEA. Qual seria?
 
Se tanto a Unasul, como a Alba, como, também, a OEA passam a pregar o multilateralismo, não haveria como não discutir, dentro de Cuba, o multipartidarismo como produto dos antagonismos dentro do próprio regime.

Cuba, depois da ação da nova OEA, estará diante do seu maior desafio, tratar-se das suas próprias contradições, cuja superação emerge como energia, dialeticamente, arrebatadora.

A OEA impôs, na prática, mandamentos de mudanças tanto para os Estados Unidos como para Cuba, ao mesmo tempo em que se anula por falta de credibilidade histórica.

História: primeiro operário, primeira mulher

A história registraria com destaque a Era Lula e a Era Dilma , se ela for candidata vitoriosa, como o primeiro e a primeira a chegar lá, operário e mulher, simbolos dos oprimidos sob o modelo de desenvolvimento concentrador de renda e poupador de mão de obraPesquisas, pesquisas, pesquisas. Caso Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, chegue à presidência da República pelo PT e aliados, sob coalizão governamental, a história registraria que o Partido dos Trabalhadores conseguira  proeza de colocar no poder o primeiro presidente operário e a primeira presidente mulher do Brasil na primeira década do século 21. As duas últimas pesquisas, Data Folha e Sensus, sinalizam, claramente, essa possibilidade, detonando, para valer, a campanha eleitoral. Por elas, a ministra avança sobre o campo do governador tucano de São Paulo, José Serra, e deixa para trás o também tucano mineiro, governador Aécio Neves, ambos, aparentemente, acertados, mas, essencialmente, separados, dada a falta de democracia partidária para escolha do candidato, algo que, também, ocorre no PT, pois Dilma é uma imposição imperial lulista. O avanço dilmista dá, ao mesmo tempo, chega prá lá no ambíguo PMDB, partido mais forte da aliança governista, mas que mais parece gigante com pés de barro, como demonstra sua situação delicada frente à CPI da Petrobrás. Pode, na aparência, tudo, mas, também,  pode, na essência, perder tudo, porque tem rabo de palha, passível de pegar fogo no episódio da investigação sobre a estatal do petróleo.

Configuram-se reais as chances de mudança qualitativa no processo político e histórico nacional. Justificaria o PT sua existência renovadora , ao deslocar, paulatinamente, do centro de decisões a carcomida elite tradicional escravocrata-conservadora, aliada do capital externo desde o descobrimento. Abriria e ampliaria espaço para a mão de obra operária masculina e feminina, politicamente organizada, mais valia que sustenta o capitalismo brasileiro em perigo diante da China na concorrência global  oligopólica e oligopsônica em marcha inexorável em meio à bancarrota financeira internac ional.

Para além das idiossincrasias circunstanciais , que evoluem no cotidiano da política ao sabor da inveja, da ganância, da esperteza, do oportunismo, da vaidade, da corrupção e do roubo deslavado em meio a uma estrutura político partidária em que os partidos são ficção – semelhantes à moeda fictícia especulativa global que implodiu na crise do subprime imobiliário nos Estados Unidos , espalhando destruição econômico-financeira geral – os estudantes de história, no ano 3.000, se Dilma Rousseff  faturar em 2010, conheceriam o princípio da renovação do poder político brasileiro.

Nesse princípio, o PT , evidentemente, não estaria livre das acusações piores possíveis no campo da anti-ética – dado que se desmoralizou completamente no episódio do mensalão – , mas teria, de forma incontestável, impulsionado mudanças nas correlações de forças políticas na sociedade brasileira sob bastão de uma Constituição que elevou o grau da conquista dos direitos humanos e da cidadania, embora, contraditoriamente, o próprio PT tenha negado a assiná-la em 1988.

O talento político de Lula pode estar aí. Ser o primeiro presidente operário deu-lhe o sabor dessa primazia. Sua insistência em Dilma talvez represente sua grande sensibilidade política de que a ministra está condenada pela história a experimentar tal sabor como missão do seu partido, como produto da força dos novos tempos, caso ela chegue lá.  As pesquisas Data Folha e Sensus sinalizam esse objetivo estratégico presidencial ao qual os petistas se alinham, sob a orientação tática do ex-deputado José Dirceu, de garantir o poder central e o controle do Congresso em troca dos poderes estaduais e municipais para os aliados. Combinaria  ação política realmente transformadora das instituições brasileiras , capazes de assegurar justa distribuição da renda nacional?

 

Voz majoritária

 

A força feminina ganha espaço em meio à crise global porque elas também estão sendo demitidas no calor da crise financeira global, engrossando críticas ao capitalismo financeiro neoliberal que dá seus últimos suspiros

Conta Dilma Rousseff, indiscutivelmente, com a vantagem de que o eleitorado feminino brasileiro corresponde a 51% do total. A consciência política feminina, em meio à crise global, que lança as mulheres no desemprego, como antes acontecia com os homens, tenderia a avançar mais rapidamente em busca de organização política para defender melhor distribuição da renda em termos sociais e espaciais no cenário político e territorial nacional.

Sensibiliza o eleitorado, ainda, a situação atual da ministra, em luta contra o câncer, como sensibiliza, também, o vice presidente canceroso José Alencar Gomes da Silva. Sua condição de cancerígena não apenas sensibiliza, mas, também, atrai solidariedade, algo que envolve a figura do vice em sua grande batalha pela vida. Na primeira declaração que fez depois dos exames das dores nas pernas como produto do efeito colateral da quimioterapia agradeceu a solidariedade nacional. Emocionou.

Somando o útil – a condição de ser feminina e de poder ser a primeira mulher presidente do B rasil – ao desagradável – o câncer linfático – , mas que gera atração emocional, que dá força espiritual e energética incomuns, em meio a uma sociedade altamente mística , Dilma Rousseff, caso as notícias positivas do seu tratamento evoluam – uma torcida de todos – , tenderia a empolgar um eleitorado tocado pela emoção da garra feminina. O negócio poderia ganhar tons de partida de futebol ou de uma maratona, com torcidas empolgantes na reta final, como aconteceu com a brasiliense Marizete dos Santos. Menina pobre da Ceilândia que brilhou na pista da sexta maior cidade do mundo, levantando a massa num belo domingo de sol e chuva.

O fecho das c ircunstâncias positivas, caso sejam formadas em torno da ministra, nos próximos meses, ganharia ainda mais importância pelo fato de que Dilma Rousseff comanda com energia de ferro e determinação o principal programa de investimentos do governo, que tem muita propaganda mas pouca realização até agora. Antes mesmo da crise, as previsões dos investimentos já contrastavam com os parcos resultados, como destacam os políticos, tanto da base aliada govenista, como os da oposição. A situação piorou consideravelmente depois de outubro de 2008, quando a bancarrota financeira emergiu para valer nos Estados Unidos.

O rítmo de banho maria do PAC – concluídas, apenas, 3% das 10.914 obras previstas -, comandado pela ministra, seria o grande teste dela para as urnas, vindo a ser a candidata da aliança governista. A CPI da Petrobrás, empresa responsável por mais de 40% dos investimentos contidos no PAC, responsável por puxar o grosso da demanda industrial brasilera, surge como empecilho. O falatório internacional contra a empresa começou semana passada depois de matéria publicada sobre o assunto no New York Times. Os negócios podres dentro da estatal pipocarão nos próximos dias. Diretores dela colocados por injunções políticas petistas e peemedebistas estão na corda bamba por conta de indícios de corrupção. A imagem da coalizão pode balançar negativamente.  Restaria a guerra entre as duas forças em conflito. Os podres da Era FHC, dentro da empresa, viriam, igualmente, à tona.

 

CPI anula governo e oposição

 

Ciro correu para os Estados Unidos para estudar melhor a situação mundial, a fim de afinar seu discurso para 2010. O discurso radical anti-capitalista teria chegado a sua hora com Heloísa Helena em 2010, na onda das mudanças internacionais em meio a crise global?Minas, o símbolo da síntese mineira, na figura de Aécio, fora do PSDB, seria o chamamento da unidade esgarçada pela crise, em meio à eventual bancarrota política do PSDB e PT-PMDB no cenário de implosão na CPI da Petrobrás?governador de São Paulo e a ministra da casa civil podem sofrer revezes na CPI da Petrobrás

 

 

 

 

Tanto o governo como a oposição, ou seja, tanto Dilma Rousseff como José Serra, se candidato tucano, afastando Aécio, poderiam sair chamuscados, abrindo espaço a um a discurso político radical. Este, na prática, está sendo germinado pelas categorias sociais altamente preocupadas com os efeitos da crise em forma de desemprego e desestabilização geral, especialmente, em meio ao real sobrevalorizado. Ou seja, instabilidade geral que detona as empresas exportadoras ao mesmo tempo em que abre as portas para o oligopólio e oligopsônio econômico e financeiro chinês movido pelos trilhões de dólares desvalorizados na carteira de portfólio da China que está chegando na América do Sul sobrevalorizando as moedas e sucateando as indústrias afetadas pela estratégia chinesa de trabalhar com moeda sobredesvalorizada.

Quem seria uma terceira voz, com discurso  diferenciado, a emergir na cena nacional, como síntese dos antagonismos em cena, expressos por situação e oposição sujas em uma mesma causa, a CPI da Petrobrás? Uma pregação mais radical, tipo Heloísa Helena, do P Sol, ou um Aécio Neves, como voz conciliadora mineira, desde que saia do ninho tucano? Ou ainda Ciro Gomes, do PS?

Na prática, excluídas abstrações, os candidatos se movimentam num contexto econômico nacional e internacional em que as chances brasileiras são reconhecidamente razoáveis, dado o potencial econômico nacional, de dispor de base industrial competente e matérias primas abundantes para abastecê-la. As vantagens comparativas brasileiras no ambiente em que mudou as relações e as deteriorações nos termos de trocas internacionais, evidenciam, cada vez mais, em favor do Brasil. Ou seja, condição requerida pelos capitais nacional e internacional, que se movimentam por meio de fundos de investimentos rumo à economia brasileira, gerando especulações esquizofrências, contra a qual alerta, inclusive, o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles.

Se em meio a essa conjuntura, o governo Lula manobrar com inflação baixa e possível retomada do desenvolvimento que sinalize PIB, pelo menos positivo, esse ano, e promissor, no próximo, ano eleitoral, as chances de Dilma, se vencer o câncer, tenderiam a crescer. A estratégia de Lula e a tática de José Dirceu, que pensa o governo , embora esteja fora dele, teriam chances de emplacar, vindo a CPI da Petrobrás transformar-se em elemento neutro. Seria um dado necessário como condição adequada aos interesses tanto do governo como da oposição, no sentido de anulá-la. A ordem governista e oposicionista desembocaria na marchina carnavalesta: “Não faz marola, prá canoa não virar”.