Banco assalta consumidor e gera desemprego

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os bancos estão sendo vítimas de assaltos de bandidos, mas, eles, também, estão assaltando os consumidores. O assaltado é, igualmente, assaltante. O dinheiro dos depósitos compulsórios que o governo, por meio dos bancos oficiais, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, está repassando a juro zero aos bancos e financeiras privadas, para financiar o crediário, na compra de bens duráveis e apartamentos, está espantando o consumidor. Quem tomá-lo, nas atuais circunstâncias, estará sendo, literalmente, garfado.

Os juros subiram, incontrolavelmente, nas lojas e corretoras pelo país afora. O crédito pessoal está na casa dos 100% ao ano e o cheque especial no cartão magnético passou dos 10% ao mês. Os empréstimos para as empresas passaram dos 45% ao ano para mais de 75%. O juro básico selic, de 13,75%, o mais alto do mundo, demonstra dispor de poder de alavancagem dez vezes maiores, quando a realidade se transporta para o mundo movido a crédito na indústria, no comércio e nos serviços. Alavanca do subprime creditício nacional, generalizando o assalto. E ninguém vai preso.

Só o BNDES está se transformando em tábua de salvação geral para a produção. Passou a emprestar a 1,18% ao mês para investimento industrial e comercial e a 0,5% no cartão BNDES. Créditos na casa de R$ 50 mil saem rapidamente, nesse instante, depois das pressões feitas pelos empresários, desesperados na escassêz de dinheiro.

Endividar-se com o dinheiro repassado pela Caixa às financeiras privadas é comprar a corda para ser enforcado, principalmente, porque os horizontes, para o consumidor, ficaram nublados.

O assalto financeiro a ele, com as prestações mais caras e os prazos de pagamento mais curtos, traz o perigo de desemprego e reforça, consequentemente, o espírito anti-consumista, quanto mais altos estiverem os juros.

O presidente Lula, na terra do Papa, essa semana, pregou aumento do consumo ao povo brasileiro. Porém, seu discurso, na terra do juro barato, Itália, Europa em geral,  ficou sem substância na sua terra do juro caro. Mantida tal situação, o desemprego, pior dos mundos para os trabalhadores, cresceria e a popularidade presidencial minguaria.

Se as eleições municipais, recentes, demonstraram a pequena força do presidente para transferir votos, debaixo da sua imensa popularidade, num contexto em que seu prestígio popular caísse, fortemente, em face de possível avanço do desemprego, desapaceriam as possibilidades de fazer a  ministra Dilma Roussef, da Casa Civl, sua sucessora, preferida confirmada em Roma, em meio às bençãos papais.

 

O governo perde controle sobre especuladores

As indústrias, sem mercado, diante da queda de rentabilidade, dada pelo aumento dos custos operacionais, não apenas suspenderão investimento, mas aumentarão as demissões. Em outubro, conforme divulgou a Federação das Indústrias de São Paulo(Fiesp), 10 mil postos de trabalho viraram fumaça – queda de 0,13% no índice de emprego da indústria paulista.

A atitude empresarial, por sua vez, é um tiro no pé da própria empresa, porque , sem apetite para os investimentos, num quadro de desaceleração do consumo, seus papéis, na Bolsa, despencam.

Os custos operacionais do negócio sobem relativamente à taxa de lucro, sinalizando bancarrota, que se expressa em juro mais alto para a produção, por conta do risco falimentar, determinado pelo colapso do consumo.

A semana demonstrou que a estratégia do presidente de repassar dinheiro público para as financeiras privadas dinamizarem o consumo foi completo fracasso. O rítmo veloz da crise exigirá, no inicio da semana, providências urgentes de correção de rumos.

O titular do Planalto voltará de cabeça cheia de Washington, onde, nesse final de semana, o Grupo do 20 reúne para debater a crise e a saída para ela sem que ninguém saiba quão o tamanho do problema que ela desatou, econômica e politicamente, no cenário global.

A sucessão do presidente Lula vai se dar, mantido o rítmo dos acontecimentos, nos próximos meses, em precipitações econômicas e políticas incontroláveis, especialmente, se o aumento do desemprego levar às greves, como fruto dos juros altos que espantam os consumidores e sinalizam desemprego. Pensamento de esquerda tenderia a ganhar força.

Os questionamentos estarão se avolumando no compasso da desaceleração global. As próximas eleições testarão os governos sociais democratas europeus, como ocorreu, nos Estados Unidos, com a vitória de Barack Obama. Foram favoráveis à ascensão do primeiro presidente negro à Casa Branca os estragos que a crise provocou no governo W. Bush, estendendo seus efeitos desestabilizadores para o candidato republicano, John MacCain.

 

Crise favorece inflação e esquerda

A esquerda democrata nos Estados Unidos ganhou maioria no Congresso, na Câmara e no Senado. Na crise, terá que escrever sua história, pautada no discurso obamista da mudança. A social-democracia europeia tenderia a caminhar no mesmo sentido, especialmente, em razão da elevada consciência política do povo, o mais bem formado e sofrido, pelas guerras? As passeatas que começam a ser esboçadas na Espanha e na Argentina demonstram o potencial político explosivo detonado pela grande crise.

Correntes esquerdistas terão diante de si novas oportunidades, no rítmo da queda dos investimentos e do avanço do desemprego. No Brasil, a esquerda estaria preparada para chegar lá?

A ex-senadora e vitoriosa vereadora alagona, Heloísa Helena, que não teve espaço em 2006, teria em 2010, bradando contra o colapso do mercado, que levou o consumidor à incapacidade de consumir, dada a dominação financeira na condução do processo produtivo?

Nesse  ambiente em que todas as certezas se evaporaram e todas as teses econômicas são amplamente questionadas, vai, curiosamente, se destacando que a inflação, como já disse Keynes, passa a ser a solução e não o problema. Ou seja, a “Unidade das soluções”.

A recomendação dos ministros de economia e presidentes dos bancos centrais, em São Paulo, na última semana, na reunião do G 20, que deverá ser reiterada na  reunião, em Washington, nesse final de semana, é a confirmação da tese inflacionária. Que os governos gastem mais.

Vale dizer, como o governo é, sob a economia monetária, dominada pela moeda estatal, o emissor e entesourador geral do sistema capitalista, caracterizado pelo economista inglês, John Maynards Keynes, como a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, o aumento dos gastos governamentais passam a ser o instrumento de combate à crise.

O aumento da quantidade de oferta de moeda no meio circulante pelo agente estatal verdadeiramente independente, segundo Keynes,  gera, simultaneamente, 1 – aumento dos preços; 2 – redução dos salários(diminuição da unidade de salário relativamente à unidade de emprego, que se traduz, homogeneamente, em aumento da oferta global de mão de obra); 3 – diminuição dos juros e 4 – perdão da dívida empresarial contraída a prazo. 

Ou seja, emerge quadro inflacionário salvacionista – que reduz salário e eleva lucros – com solução de paz política diante da alternativa destruitiva de política de guerra que se expressaria na emergência do seu oposto, ou seja, quadro deflacionário, que destroi capital e trabalho. Escolha de Sofia.


Obama pede união; Lula seguiria? 

Em meio ao terremoto financeiro, que leva a uma corrida especulativa contra o real, estimulada, adicionalmente, pela resistência dos bancos em comprar títulos públicos pelo custo oferecido pelo governo, tentando impor seu preço caro, o presidente Lula não consegue efetivar suas medidas anti-cíclicas.

Tenta, inutilmente, repassar dinheiro do contribuinte a custo zero para os banqueiros que resistem a diminuir o custo do dinheiro para o consumidor puxar a demanda global empoçada na inexistência do crediário em condições satisfatórias.

Os bancos impõem seu jogo e subordinam a ação estatal. A prova dessa subordinação é a super-permanência do juro em ascensão, apesar das medidas e dos discursos. 

O panorama econômico, pelo que demonstra a realidade, altamente, volátil, deixou de ser conduzido por regra estabelecida. Os governos poderão precisar, rapidamente, formar gabinetes de crise, para coordenar programas e diagnósticos que poderão ser pura experimentação, sujeitas a chuvas e trovoadas.

A política reclamaria mais espaço, naturalmente. Barack Obama já joga essa alternativa. Abriu espaço para os republicanos governarem com os democratas. Sozinho poderá não dar conta do recado. 

O presidente Lula teria fôlego ou precisará agir na mesma direção?

Em Roma, abençoado pelo Papa, o titular do Planalto, questionado pelas ações anti-ciclicas tomadas por governos oposicinistas de José Serra e Aécio Neves, em ação politicamente sucessória, visando 2010, fez chamamento aos governadores.

O que eles fizerem nesse sentido serão bem vindos. Significaria tal gesto que o governo poderá flexibilizar endividamentos estaduais de agora em diante, para abrir espaços aos investimentos e alianças políticas sucessórias?

Os governadores estarão, totalmente, sufocados pela ascensão dos juros e das pressões dos bancos em exigirem maires vantagens para financiar a dívida pública interna.

O Banco Central, sob monetarismo radical, suportará as pressões conjuntas de governo federal, governos estaduais e Congresso nacional, para flexibilizar a taxa de juro ou insistirá em nadar contra a corrente?

Meirelles prejudica Lula e detona Dilma

 

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está demonstrando que não tem competência suficiente para enfrentar a grande crise financeira que afeta o mundo e o Brasil, com uma violência que dispensa adjetivos.

O desemprego está batento à porta, com as empresas entrando em crise de realização do consumo na produção. O consumo desapareceu diante da escassêz de crédito, antes farto, mediante busca dele pelos bancos, grandes, pequenos e médios, para financiar o consumidor no crediário.

Sem o crédito, evidentemente, o capitalismo, que é regado no crediáro, vai para o buraco. A continuar a situação como está, o colapso vai ser geral, as grandes cidades, onde estão localizadas as empresas virarão um caldeiraão do inferno. Logo, logo surgirão greves.

Aliás, elas já estão pipocando. Na Espanha e na Argentina, operários estão indo às ruas protestar. O problema tende a se alastrar, gerando tensões políticas que poderão levar ao radicalismo perigoso e insustentável.

Nos Estados Unidos, se o presidente eleito, Barrack Obama, não pressionar o presidente W. Bush para tomar providências urgentes, os desempregados e desesperados das grandes indústrias irão para as ruas.

Nesse contexto, os governos, frente às pressões populares que se avolumam, estão recomendando uma receita inevitável, pautada pelo bom senso. Há necessidade de aumento dos gastos públicos. No Brasil, Meirelles condena tal estratégia.

 

Visão monetarista anula PAC

Na reunião dos ministros dos países do Grupo dos 20, em São Paulo, no último final de semana, evidenciou-se essa recomendação como um grito desesperado.

Quem, na economia movida papel-moeda, tem o poder de emitir dinheiro? O governo. Ele é que irriga a praça de moeda, para puxar a demanda. Só ele pode ser suficientemente proativo, para dinamizar a produção que está parada.

As mercadorias estão sobrando nas prateleiras dos supermercados. Inflação? Como, se não há consumo suficiente? Juros mais altos, para conter pressões inflacionárias?

Se as empresas estão sufocadas, mais aumento do preço do dinheiro gerará maiores custos que serão repassados para os preços.

Conter o consumo, agora, com juro alto, como tenta fazer o ministro Meirelles, é receita não anti-inflacionária, mas uma mistura explosiva de aumento de custo, inflação, com falta de consumo, deflação.

O Banco Central adota receita suicida, seguindo na contramão de todo o mundo. Na prática, ele está prejudicando o país e condenando o presidente Lula a uma situação vexatória, enquanto seus adversários, os governadores de Minas Gerais e São Paulo seguem recomendação oposta à receita meirelliana, para ter suas arrecadações, com incremento do consumo, aumentadas. Já a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, que precisa de mais arrecadação, para dinamizar o PAC, vê-se diante do perigo de desaceleração dos investimentos públicos.

O país dispõe de riquezas incalculáveis, reserva abundande, depósitos compulsórios elevados. São quase R$ 600 bilhões disponíveis. Para onde vai esse dinheiro?

Se depender do titular do BC, ficará entesourado nos bancos. Estes jogarão suas reservas, num ambiente de crise, não na produção, mas na especulação, como está acontecendo, enquanto as empresas morrem à mingua.

 

Adversários faturam politicamente na crise

O que o Banco Central precisaria fazer, nesse instante, é fixar normas para distribuir esse dinheiro, carimbando-o, emprestando por intermédio dos bancos públicos, pois, se ficar na mão dos banco privados, permanecerá empoçado. Eles deram provas disso, resistindo a cooperar com o presidente, para salvar os bancos pequenos e as empresas, com recursos mais baratos.

A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o BNDES, bancos oficiais, estão plenamente disponíveis para emprestar as reservas brasileiras para o setor produtivo, alavancando o mercado interno, como antídoto ao fechamento do mercado externo, que está paralisado, já que a moeda internacional, o dólar, está, claramente, deixando de ser equivalente confiável para as relações de troca.

Os deficits americanos inconcroláveis, não apenas empobrecem os americanos, mas deixam sua moeda como candidata a se transformar em papel podre.

O real vale muito mais que o dólar, nesse momento, porque o seu lastro disponível não é riqueza fictícia, especulativa, moeda pobre, mas matérias primas – petroleo, alimentos, , metais, energia, água, terras, biodiversidade, base industrial forte, mão de obra preparada e empresários competentes e diligentes.

Por que, baseada nessa riqueza real, o governo não emite para dinamizar, ainda mais os investimentos, atraindo, para cá, investidores internacionais e os nacionais?

Quem tem a moeda forte não são mais os países ricos, atolados na crise. Os Estados Unidos inundaram a Europa de papéis podres do mercado imobiliário que quebrou. O lastro do papel jogado para os europeus e asiáticos são empresas imobiliárias falidas. Tudo virou fumaça.

As grandes empresas americanas de automóveis, diante de uma moeda sem lastro, estão quebrando. Onde elas estão sobrevivendo? No Brasil.

Aqui, o lastro monetário dispõe de riqueza real. A tese de que o lastro monetário é dado pela taxa de juro fixada pela jogo da oferta e demanda da moeda predominante está deixando de ser verdade, porque essa moeda dominante está perdendo valor. Virou discurso. Se o governo emitir moeda, tendo seu lastro real como sustentação, vira o jogo.

 

América do Sul, nova rica do mundo

A alternativa a esse desastre monetário é a riqueza real sul-americana. Na América do Sul, os investidores internacionais dispõem dos melhores negócios do mundo para serem realizados. As matérias primas, que sobem de preço, porque são escassas, para movimentarem a manufatura global, que cai de preço, devido à concorrência internacional, estão no continente sul-americano.

Não é à toa que a GM está quebrando nos Estados Unidos, mas sobrevivendo no mercado interno nacional. Diante desse cenário, resta ao presidente Lula jogar na linha pregada pelos seus colegas europeus: acreditar no mercado interno brasileiro, aplicar aqui nossas disponibilidades financeiras – depósitos compulsórios e reservas cambiais.

Temos que ciscar para dentro, construir nossa infra-estrutura. Portos, estradas, plataformas, grande silagem, para que nossos produtos estejam disponíveis, aos preços do dia, para os compradores, nacionais e internacionais. 

O que vale não é dinheiro entesourado, que gera pobreza, para a maioria da população, porque não circula, e riqueza, apenas para meia dúzia de agiotas bancocráticos. O fundamental é dispor de produtos que, ao circularem, aumenta a riqueza social e a arrecadação do governo, com a qual realiza novos investimentos.

Trata-se de colocar dinheiro para dinamizar o consumo e a produção, para que haja ampliação da arrecadação. Não se deve distribuir as reservas disponíveis, para as empresas, mas para o consumidor.

As empresas, com o dinheiro em caixa, sem consumidor, fica com ele especulando. Na mão do consumidor, ele vai para a circulação, que favorece o governo, elevando os ingressos tributários no caixa do tesouro nacional. Tesoureiro que fica tomando conta do caixa não enxerga essa possibilidade-oportunidade.

 

Mais circulação, mais arrecadação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O exemplo do Programa Bolsa Família está aí mesmo. O dinheiro do pobre faz o nobre, mas o do nobre não faz o pobre. Tem razão o banqueiro dos pobres, Muammad Yunes, ao ironizar que o dinheiro dos ricos estão colocando o mundo em impasse, enquanto reclama que o governo brasileiro ainda não aprendeu emprestar para os pobres, que, consumindo, giram a produção.

Quando o governo emitiu dinheiro para colocar poder de compra nos cartões de crédito dos pobres, destinando-os ao consumo, a circulação de dinheiro aumentou e a arrecadação, consequentemente, subiu, a inflação caiu e a moeda estabilizou-se.

O mesmo deve ser feito, agora, com o dinheiro dos compulsórios, recolhidos em proporção exagerada, para gerar escassez e juro alto para os bancos, e das reservas cambiais.

Com esses recursos, Juscelino Kubistchek faria umas dez Brasília.

O ministro Meirelles é um bom tesoureiro, mas, de desenvolvimento, não entende nada. Está, simplesmente, condenando o governo a que serve ao completo fracasso. Favorece o destino político dos adversários do presidente e coloca em risco o daquela que quer fazer sua sucessora, a ministra Dilma Roussef.

O presidente Lula dispõe de reservas financeiras fantásticas que , se colocadas na produção, contribuirá, não apenas para promover o desenvolvimento nacional e sul-americano, em meio à crise global, mas, também,ajudará os demais países do mundo desenvolvido, que estão empobrecendo e passando a depender, fundamentalmente, dos emergentes.

Os Estados Unidos estão deixando de ser os grandes consumidores do mundo e ao mesmo tempo perdem mercado, interno e internacional. A primeira ministra da Alemanha, Ângela Merkel,  deu o recado claro: os ricos estão deixando de consumir, passaram a depender, com as mercadorias estocadas em seus países, do consumo dos países emergentes. Estes precisam de novos investimentos para serem os consumidores das mercadorias estocadas nos países do primeiro mundo, a caminho da penúria.

 

Ricos empobrecem, pobres enriquecem

A América do Sul, com sua imensa riqueza, é a nova rica do mundo e dispõe de cacife suficiente para dinamizar a economia mundial, não mais  como simples fornecedora de matérias primas baratas, explorada, colonizadamente, como sempre aconteceu ao longo da história.

Fundamentalmente, o desenvolvimento do mercado consumidor sul-americano e suas matérias primas passaram a ser indispensáveis à manufatura mundial, que está empoçada, junto com o crédito, nos países ricos.

Na reunião, em Washington, no próximo final de semana, do Grupo dos 20, esse recado deve ser dado, claramente, pelo presidente Lula, que, por sua vez, deve levantar, com vigor, o tema dentro da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, em favor de uma ampla coordenação sul-americana em prol do desenvolvimento sustentado sul-americano.

Trata-se de dar, logo, o pontapé da criação de um banco continental, de uma moeda sul-americana e, na sequência, de um parlamento sul-americano, para que haja imediata conscientização política da sociedade sul-americana sobre o papel que cabe à America do Sul, no novo momento mundial.

Ela pode se transformar na grande receptora dos novos investimentos internacionais, de modo a produzirem riquezas que contribuirão para minimizar os efeitos da grande crise em curso, que deixa os ricos mais pobres, enquanto os mais pobres dispõem de condições se se transformarem nos novos ricos, dentro de uma nova filosofia de cooperação internacional.

O ministro Meirelles, que só pensa em entesourar dinheiro, não demonstra suficiente descortínio para ver, além do controle de caixa, as grandes potencialidades e oportunidades econômicas brasileiras e sul-americanas, capazes de exercer, na nova conjuntura, papel decisivo, capaz de tirar o mundo do atoleiro criado pelos especuladores financeiros, aos quais Meirelles, com os juros altos, tem se aliado.

Ah, se o Brasil tivesse um JK, nessa hora!

Bosque sagrado de Ulisses

“…Política não se faz com ódio…”,            

 Navegar é preciso, Viver não é preciso.  Ulysses Guimaraes  gostava de citar Fernando Pessoa,  para mostrar que o importante era prosseguir. Para Ulysses, de uma energia desmedida,  a luta era a seiva da vida. Eleito deputado por 11 mandatos consecutivos,  de repente, em plena atividade, Ulysses sumiu no mar. Em poucos meses, as manchetes dos jornais com o nome de Ulysses Guimaraes haviam também desaparecido.   A imagem da sua presença na vida política brasileira, contudo  nunca se apagou.

O trágico acontecimento aproxima-o do mito de Dom. Sebastiao,  rei de Portugal, que desapareceu em combate em  Alcácer-Quibir, em 1578, gerando uma mobilizaçao messiânica, consagrada no imaginàrio de seus súditos como “sebastianismo”, em que seu hipotético retorno  é reverenciado, cinco séculos depois, como se ele estivesse  voltando hoje do campo de batalha.
           

Na realidade, não temos um ulyssismo  explícito, como o sebastianismo, e não existe mais esperança de que o corpo de Ulysses Guimaraes possa ser encontrado. Sabe-se apenas que ele está lá, no fundo do oceano. Mas, também aqui, na terra, representado nos resultados da sua luta em favor das liberdades democráticas, da justiça social e dos direitos de cidadania. Esses princípios, inseridos por Ulysses na Constituiçao de 1988,  superaram o espaço da memória, incorporando-se em definitivo na vida cotidiana do povo brasileiro.

Poder-se-ia dizer que Ulysses morreu no mar, mas continua a navegar. Seus sonhos  concretizaram-se na Constituiçao de 1988, expressando a conquista irreversível da cidadania do povo brasileiro. Falava-se em direitos humanos, sustentabilidade, justiça social, mas não se sabia direito o que era aquilo. Ulysses se antecipou, e  colocou tudo lá na Constituiçao… e “se mais terra houvera lá chegara”.
            

 

Uma força irresistível da democracia nacional

Em homenagem  aos constituintes de 1988 que, sob a liderança de Ulysses, elaboraram essa verdadeira  “carta de alforria” do povo brasileiro,   criou-se o Bosque dos Constituintes, através do qual se procura preservar a memória daquela geração constitucionalista.

A Ulysses Guimaraes coube o plantio de um pau ferro (Caesalpinia ferrea), que ele o fez com as próprias mãos.

Está na entrada do Bosque:  frondoso, florido e imponente. Na descriçao da ciência, a Caesalpinia ferrea é uma    árvore de grande porte – chega a 28 metros -, nativa da  Mata Atlantica. Seu nome popular  teria vindo das faíscas e dos ruídos produzidos pelos machados que se atrevem a cortá-lo.

A madeira é  das mais duras. O tronco marmorizado, apresenta uma coloraçao clara, destacada das folhas. Na floraçao, entre agosto e outubro, produz também uma  vagem dura e resistente.  Sua madeira è usada principalmente na fabricação de violões e violinos.
            
              O Bosque dos Constituintes tende a tornar-se um lugar sagrado, um panteão, sem religiosidades messiânicas evidentemente, na medida em que for se concretizando sonhos de outros  constituintes de 1988, como Fernando Gasparian, que  manifestou o desejo de ter suas cinzas espalhadas pela área.

Alguns consideraram o plantio realizado ali como a representação final da sua vida política. Outros, caso de Cristina Tavares, morreram certos de que  Bosque refletia o fim das velhas oligarquias. Era um espécie de bastão  passado às futuras gerações.

Portanto, o Ulysses do mar, o mar levou. Mas, o Ulysses Guimaraes épico, guerreiro, o último  romântico visionàrio da política brasileira, seguidor fiel de Santo Agostinho – “ódio ao pecado , amor ao pecador “ , este ficou. É uma espécie de ulyssismo: sonhos que atravessam o coração dos cidadãos  livres deste Paìs.

Aquele pau ferro, com seus galhos voltados para cima, lembram Ulysses, pés na terra, braços abertos, apontando para o céu, e proclamando:  
         
                            “A Constituição passará, mas a memória
                            dos  constituintes de 1988 permanecerá viva
                                  neste Bosque por 300,400, 600 anos”,

Satélite Simon Bolívar põe crítica fora de órbita

O lançamento do satélite Simon Bolívar pela Venezuela na semana que passou, numa cooperação tecnológica com a China, manda literalmente para o espaço e deixa fora de órbita a crítica anti-chavista, seja na lá como aqui no Brasil, onde alguns jornais, na impossibilidade de esconder completamente o acontecimento, embora quisessem, tentaram ironizar o fato de Hugo Chávez ter qualificado o novo aparato tecnológico como satélite socialista.

A pobreza da crítica é estarrecedora, obtusa e chega mesmo a escorregar para algo similar às chamas da Inquisição Medieval que  queimaram Giordano Bruno e chegaram a chamuscar Galileu. Ou seja, é perigosa, revela a estatura político-intelectual dos responsáveis pela linha editorial desses meios de comunicação que deveriam funcionar como serviços públicos em sintonia com a Constituição.

Primeiramente,  vale revelar que a mídia venezuelana, seguindo como vassala a mídia norte-americana, sonegou a informação da  entrada nação bolivariana na era satelital. Por si só, esta sonegação  informativa  constitui afronta a todo o patrimônio cultural da humanidade.

Desde quando Karl Marx bradou a legítima pretensão dos revolucionários de “assaltar os céus”,  numa referência aos comuneiros da Comuna de Paris que, cercados, sem água e sem alimentos, chegaram a beber sua própria urina e comer ratos para defender o sonho de tirar a humanidade da penumbra do atraso social capitalista. E com que dignidade defenderam este sonho, esta rebeldia. Hoje, através do satélite Simon Bolívar, o brado de “assaltar os céus” transforma-se cada vez mais em realidade que só os processos revolucionários podem conseguir. Assim foi também quando décadas depois de abrir uma nova era  na história da humanidade, a Revolução Russa, após resistir  a todos os ataques terroristas do capitalismo, às invasões de exércitos imperialistas, a todas manipulações desinformativas mais grosseiras, lançou o Sputnik, fazendo com todo o mundo reconhecesse a imensa capacidade sócio-econômica e tecnológica do novo modelo de sociedade.

Este é o infinito significado histórico do satélite Simon Bolívar: a Revolução Bolivariana é um fato concreto e está seguindo aquele caminho dos comuneiros de “assaltar os céus” . Esta simbologia histórica é ainda mais importante quando o satélite é lançado a partir de uma cooperação com a República Popular da China que há pouco mais de meio século atrás era conhecida pelas epidemias de fome, pelo atraso cultural e o analfabetismo, pela possibilidade de se comprar mulheres e animais nas feiras,  por um obscurantismo tão atroz que a própria acupuntura era proibida. Anos depois da Revolução Socialista conduzida por Mao, a China é hoje um país com presença no espaço sideral, também está “assaltando os céus”, transformou-se no maior produtor de computadores do mundo e ainda oferece a cooperação tecnológica para os países com menor desenvolvimento. Vale registrar que 150 engenheiros venezuelanos estiveram durante anos participando desta verdadeira façanha de colocar em órbita o Simon Bolívar.

 

Mesquinhez informativa

 Completamente desconcertada com o salto tecnológico da Venezuela, a oposição de direita dirigida desde Miami,  tentou várias táticas para reduzir a importância do episódio. Primeiro sonegou, não informou. Porém, a Venezuela hoje já possui um sistema público de comunicação social bastante expressivo e a Telesur – A nova televisão do Sul    transmitiu ao vivo o lançamento a partir de território chinês. Aqui no Brasil a TV Cidade Livre de Brasília, a TV Paraná Educativa e a TV Comunitária do Rio de Janeiro também transmitiram integral ou parcialmente a entrada da Venezuela,  por meio de uma decidida política estatal, na idade dos satélites.

Fracassada a tática da sonegação,  a mídia do capital tentou criticar os “gastos excessivos” feitos no satélite que traz o nome do libertador e integrador das nações  latino-americanas, tal como o satélite também poderá fazer a partir de agora, colocando-se à disposição de outras nações da região, sobretudo àquelas que sofrem bloqueios e sabotagem do imperialismo norte-americano, como Cuba e Bolívia, já convidadas por Hugo Chávez a compor o projeto satelital. Nesse sentido, os investimentos de 400 milhões de dólares revelam-se uma ninharia se comparados ao significado histórico de ser uma ferramenta que permitirá fantástica dinamização econômica, cultural e social da região. Nesse sentido, o Simon Bolívar é sim uma ferramenta socialista. Além de que, os críticos terminam por tomar as dores do seleto clube de satélites, do qual a Venezuela se liberta agora, com enorme economia para seus cofres públicos.

 Demolida esta tática, a outra crítica inventada pela mídia do capital é a de que o satélite será usado para o terrorismo. A mesquinhez aqui não tem limites! Todos sabemos que a carnificina feita pelos EUA no Iraque teve ampla cobertura satelital, seja para orientar seus mísseis assassinos na destruição de cidades e mais cidades, seja para a prática do “terrorismo midiático” por meio de qual se “justificou” esta matança selvagem, com o uso da mentira sobre a existência de “armas de destruição em massa”, hoje completamente desmascarada. Para bombardear a Yugoslávia, os EUA e a Otan, chegaram mesmo a desligar o canal de tv de Belgrado do satélite, já que esta informava e revelava as mentiras sobre a suposta existência de campos de concentração , outra mentira utilizada para esquartejar aquela brava nação do Adriático.

Com o Simon Bolívar, os países que buscam um caminho independente do caos financeiro-social traçado pelo neoliberalismo já tem um instrumento a mais para afastarem-se das redes de controle informativo/desinformativo do grande capital. Canais públicos de rádio e televisão já não mais precisam estar sujeitos aos satélites controlados pelos conglomerados midiáticos capitalistas,  novas condições para políticas de comunicação públicas estão abertas e a integração informativo-cultural do sul é cada vez mais uma realidade concreta, visto que era meta impossível sob a ditadura do capital midiático.

 

Ameaça ou exemplo?

 O salto tecnológico da Venezuela é também uma lição muito profunda para a consciência nacionalista do povo brasileiro, sempre atacada pela mídia controlada editorialmente pelos vassalos dos interesses imperiais no Brasil. As repetidas críticas às políticas implementadas por Hugo Chávez no país vizinho, tendem sempre a sinalizar a existência de uma ameaça chavista  aos interesses nacionais. Esta tese, tal como a das “armas de destruição em massa”,  nunca foi comprovada. Mas, os jornais e tvs a repetem frequentemente, como repetiram aquela anterior. O jornal New York Times pelo menos teve a atitude de reconhecer, em editorial, anos após o banho de sangue no Iraque, que jamais pode comprovar que existiram as tais armas e que foi usado pelos planejadores da bárbara agressão militar. Claro,  seus anunciantes são os principais acionistas da indústria bélica….

 E aqui? A mídia reconhecerá que se enganou nestes anos todos diante das transformações em curso na pátria de Bolíviar ou seguirá praticando não-jornalismo e afirmando que a Venezuela é ameaça ao Brasil? A Unesco reconheceu que a Venezuela é hoje um país livre do analfabetismo, e isto jamais foi notícia na mídia brasileira! A Venezuela paga hoje o mais elevado salário mínimo da América Latina e isto nunca foi notícia aqui! Venezuela e Cuba associaram-se para operar de catarata a 6 milhões de latino-americanos, gratuitamente, em dez anos,  e isto nunca foi notícia na mídia verde-amarela! Será que são  fatos irrelevantes???

Quando o governo venezuelano, sob constantes ameaças de golpe de estado e intervenções externas, passou a reaparelhar suas forças armadas (como Lula pretende reaparelhar corretamente as brasileiras), soaram mais alto as vozes que falam em “ameaça chavista”, sempre com espaços generosos na mídia. Mas, quando a Colômbia, que é o país proporcionalmente mais bem armado da região, recebeu 600 tanques dos EUA a título de combate à guerrilha, estas vozes ficaram em silêncio. Sequer balbuciaram jornalísticamente se é possível combater guerrilhas nas selvas com tanques??? Quando a Venezuela se propôs a comprar 150 aviões Tucanos do Brasil, transação comercial vetada pelos EUA, estas mesmas vozes sequer resmungaram qualquer crítica ou dúvida acerca das ameaças que tal proibição representa aos interesses da indústria nacional, nem sobre a prática do livre comércio, aqui violada.

 

Segurança continental, urgente

Quando as próprias autoridades militares confessam não ter hoje o Brasil capacidade militar para defender, por exemplo, o petróleo pré-sal ou os tesouros da Amazônia de algum “espertinho” aventureiro, como disse Lula, como é que se pode reprovar que um país vizinho esteja reconstruindo sua industria de defesa e desenvolvendo soberanamente o que considera pertinaz para defender suas imensas riquezas energéticas e sua soberania? Não seria mais indicado que tais condutas fossem tomadas como exemplo e não como ameaças?  Parece que o presidente Lula já entendeu desta forma, tanto é que determinou a liberação de vultosos recursos para o projeto do submarino nuclear brasileiro, decisão rigorosamente realista para qualquer país que tenha uma costa do nosso porte e que sofreu anos de demolição da indústria bélica e de sucateamento neoliberal de sua Armada, inclusive com a privatização de sua Marinha Mercante. Os oligopólios navais transnacionais até hoje agradecem….

Por fim, como pode um país com a economia e o território do porte que temos não dispor de uma empresa pública de satélite? Vale lembrar que os que vivem a alardear a tal “ameaça chavista” nunca comprovada, apoiaram frenéticamente a farra da privataria que levou a Embratel a se transformar em uma empresa sob controle de capitais norte-americanos. Para se perceber a gravidade deste fato, basta citar que até mesmo informações militares brasileiras hoje dependem da operação de satélites controlados por capitalistas norte-americanos.!!! E ainda há aqueles que por candura eqüina ou por cinismo admitem que num momento de conflito, como os que têm ocorrido no planeta, as informações de interesse nacional que trafegam  por estes satélites serão preservadas corretamente “porque os contratos serão cumpridos”. Aliás, tanto isto não é verdade como já ocorreu situação em que os interesses nacionais não foram preservados: em reunião dos acionistas do Consórcio Satelital Intelsat surgiu a oportunidade de aumento da participação acionária do Brasil, mas tal oportunidade simplesmente não foi comunicada ao Estado Brasileiro pela tal empresa agraciada com a Embratel na farra privateira. Este episódio, juntamente com o exemplo edificante do lançamento do Simon Bolívar, deve promover a necessária reorientação desta nefasta privatização, que  precisa ser revertida e seus operadores devidamente responsabilizados. Por  que os que ficam a acenar com fantasmas de supostas ameaças de um governo que tem sido correto colaborador do governo brasileiro não advertem para os interesses nacionais verdadeiramente ameaçados por estarem as informações militares brasileiras sob controle de uma empresa norte-americana???

Como indicado, o lançamento do satélite Simon Bolíviar é uma enorme lição para a consciência nacionalista brasileira. Se pretendemos de fato construir um projeto soberano de Nação –   e muitas decisões governamentais acerca da nacionalização do novo petróleo e da recuperação da indústria da defesa sinalizam nesta direção      não podemos ter dúvidas sobre o que é realmente exemplo e o que é ameaça. E  neste mundo de sombras, incertezas  e violência,  não temos o direito de vacilar   sobre a imperiosa necessidade de buscar  independência tecnológica  e de sonharmos sim, como Nação, em “assaltar os céus” , como um dia “assaltou” um ilustre brasileiro, Alberto Santos Dumont. Mas, nem sempre nossas políticas de ciência e tecnologia e de comunicação públicas estão à altura de seu gesto grandioso. E se dependesse de uma certa mídia colonizada, nunca estarão. Nada mudaria e o espaço sideral seria como um latifúndio a mais. Mas, para contrariar tais visões imutáveis, tal mesquinhez informativa, ai estão os câmbios na Venezuela, no Equador, na Bolívia, na Nicarágua, no Brasil , na Argentina.

E aí está  satélite Simon Bolíviar trazendo de volta Galileu Galilei e dizendo ao mundo inteiro “ Eppur si muove” !!!

 

 


Moratória obamista e lulista em marcha global

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vai ficando cada vez mais claro qual a saída dos novos líderes mundiais, seja nos países ricos, seja nos países emergentes e pobres, para enfrentar a crise bancária internacional que levou o crédito ao colapso: o calote. Para afastar o estigma desse nome pavoroso para o mercado, quebrado, e para os comentaristas econômicos em geral, que se mostram como virgens na expectativa da primeira noite de núpcias, quando se pronuncia tal substantivo, torna-se necessário substituí-lo por moratória, para ficar mais politicamente correto.

Nos Estados Unidos, antes mesmo do desfecho eleitoral, o surpreendente John MacCain, que fez discurso belíssimo, reconhecendo a derrota, fato que o engradeceu, já destacara a necessidade de perdoar as dívidas dos mutuários do setor imobiliário, atolados, incapazes de combinar queda dos preços dos imóveis que compraram com os valores das prestações em altas, determinadas pelos juros flutuantes e por uma legislação draconiana, incapaz de sentir pena dos queimados no incêndio financeiro.

Obama, assim que eleito, apressado e sob pressão dos acontecimentos econômico-financeiros extraordinários, que tiram o sono de todos, dele, principalmente, de agora em diante, arregaçou as mangas. Dispõe-se a seguir as recomendações de MacCain., que perdeu a guerra, mas ganha a paz com sua ousada e salvadora proposta. Pode ser aplaudida, porque atende a conveniência de todos, devedores e credores.

Haverá, certamente, sob o novo presidente, moratória obrigatória para os endividados. Tal alternativa representa, para os Estados Unidos, sobrevivência econômica fundamenal. Dois terços da economia americana dependem do crédito direto ao consumidor. Os consumidores, encalacrados, com seus diversos cartões de créditos impossibilitados, nesse momento, de serem renovados e, consequentemente, poderem renovar os estoques das estoques das indústrias e do comércio, fazendo a produção realizar-se no consumo, poderão jogar a maior nação capitalista do mundo no abismo, já, se não puderem, com tranquilidade, irem às compras.

A sugestão maccainiana, assumida pela onda obamiana em ascensão irresistível, é a salvação geral. Fica, assim, demonstrada a essência do discurso da vitória de Obama, de chamamento à união, dado que sua principal ação política será a de seguir à risca a recomendação do seu adversário. 

O capitalismo financeiro, de joelhos, demonstra que precisa do calote como oxigênio, para continuar sua dura luta de acumular riqueza e pobreza, simultaneamente, levando-o, ciclicamente, aos desastres. Sensacional.

 

Adam Smith destrona Keynes

Emerge, no contexto dos Estados Unidos, não a solução de Keynes, de elevar os gastos do governo, para puxar a demanda global, mas a recomendação simples e eterna de Adam Smith, de renegociação das dívidas, já que estas, como destaca em “A riqueza das nações” jamais são pagas, mas roladas.

Como seguir o modelo keynesiano na América, se o que entrou em crise foi exatamente o remédio aplicado pelo grande economista inglês John Maynard Keynes, como solução aplicada, depois de 1936 pelo presidente Roosevelt, algo que Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, previu em 1980, sendo reconhecido, por isso, pelo economista Edmar Bacha, prefaciador do livro, considerando ousadíssima a pregação laurista, afinal, confirmada na grande crise bancária americana de 2008?

Expandir os gastos governamentais, que elevaram, nos últimos 50 anos, a capacidade de os Estados Unidos dominarem o mundo com moeda estatal sem lastro, ancorada na força militar e no jogo dominador da taxa de juros, que impõe, deterioração nos termos de troca na relação favorável aos ricos e prejudicial aos pobres, como reconhece Keynes, representa saída que esbarra em um déficit público próximo dos 6% do PIB.

Tal solução tornou-se principal responsável pelo enfraquecimento relativo do dólar e razão pela qual o mercado mundial cogita de nova arquitetura financeira mundial, depois do estouro monetário global, paralisador da locomotiva econômica internacional, simplesmente, porque a moeda americana vai deixando, no compasso da sua desmoralização, decorrente dos volumosos déficits, de ser equivalente monetário geral nas trocas comerciais.

Não custa lembrar que a onda inflacionária recente começou com a resistência, há pouco mais de oito meses, dos árabes, no sentido de elevarem os preços do petróleo, cotado em dólar, para fazer frente ao aumento do valor das suas importações européias, cotadas em euro. Para compensar a defasagem cambial entre o euro, avançando, e o dólar, recuando, os espertos árabes elevaram o preço do seu produto, do qual depende a manufatura mundial. Resultado: inflação global e explosão da bolha imobiliária.

 

Árabes começaram o jogo da depressão econômica

O petróleo, que, recentemente, chegou a quase 150 dólares o barril, puxando os preços das commodities, recuou, no compasso da desaceleração econômica mundial, para menos de 70 dólares, demonstrando o fator especulativo presente na onda de desvalorização da moeda americana, sob desconfiança dos agentes econômicos em geral.

Obama conseguirá reverter esse processo, mediante unilateralismo econômico, ou o multilateralismo é inevitável, para fixar nova conjuntura internacional, cujo início poderá ser dado , no próximo dia 15, na reunião do Grupo dos 20, a subsitutir, provavelmente, o grupo dos 7?

No contexto da desconfiança generalizada no poder de agregação da moeda americana, cujo resultado, ao final, foi a bancarrota imobiliária, nos Estados Unidos, os devedores, no processo desaceleração econômica, perderam fôlego para continuar sustentando o modelo de desenvolvimento que se apoia no crédito direto ao consumidor em escala exponencial.

John MacCain(da velha escola republicana caloteira americana, algo que sedimentou-se ao longo do século 19, quando os Estados Unidos deram vários calotes na praça mundial, bem como, também, no século 20, como ocorreu com Richard Nixon, em 1971, que, ao desvincular o dólar do ouro, deu, igualmente, tremendo beiço na praça global) foi ao ponto essencial: não há saída fora do calote.

Barack Obama, se quiser ver os americanos, de novo, voltarem às compras, a fim de evitar que a decadência economica dos Estados Unidos prossiga, não terá outra opção: unir, como destacou no seu discurso, republicanos, vencidos, e democratas, vencedores, em torno de um só propósito salvador: limpar os passivos gerais, para que, limpos, possam dar passagem a novas dívidas adamsmitianas.

 

Mantega salva São Paulo e montadoras do crash

O presidente Lula vai na mesma linha caloteira, usando o instrumento estatal, para permitir renegociação e perdão de dívidas. Salva os bancos pequenos e adia pagamento de impostos para que os empresários disponham de capital de giro para tocar seus negócios.

Tentou jogar cooperativamente com os grandes bancos privados. Estes, vendo riscos e fantasmas por todos os lados, pularam fora.

Teria o titular do Planalto outra salvação, relativamente, às indústrias de bens duráveis brasileiras, que estão à beira da falência, como as fabricantes de automóveis, eletroeoletrônicos, eletrodomésticos, microeletrônicos, DVDs, celulares etc e tal, nos seus negócios, diante de consumidores incapazes de saldar compromissos, no contexto da nova ordem desestabilizada pela crise?

A principal cidade brasileira e sul-americana, São Paulo, que sedia a indústria automobilística, responsável por quase 15% do PIB, candidata-se a um monumental crash, se não for socorrida tal indústria com oferta de crédito farto, para continuar a roda consumista. Elas, que criaram seus próprios bancos, agora, falidos, para financiar os consumidores, jogaram a toalha.

Com a impossibilidade desses bancos tamboretes de continuarem buscando no exterior crédito barato para financiar carros, no mercado interno, emergiu a falência inevitável. O presidente Lula, depois de tentar se socorrer junto aos grandes bancos, pensando serem estes seus aliados, na hora do aperto, mesmo dando a eles o dinheiro do compulsório para ser emprestado a juro zero, ficou na rua da amargura.

Que fez a banca? Deu uma banana para o titular do Planalto. Passo seguinte, para se fortalecerem, os poderosos banqueiros do Unibanco e do Itaú uniram suas forças para uma fusão bancária gigante, a fim de se fortalecerem diante do ímpeto estatizante da administração lulista, expressa na medida provisória 443 em tramitação no Congresso. Não cairam na armadilha planaltina os bancocráticos sorridentes e poderosos.

 

Falta de compromisso com a sociedade

Lula não quis ou não pode seguir o conselho de Lenin, que em “A catástrofe iminente e as formas de conjurá-la”, pregou, no auge da crise financeira que atingiu a União Soviética, boicotada pelos banqueiros internacionais e seus aliados internos, o mesmo que Gordon Brown fez, agora, no auge da crise bancária: partiu para a estatização do crédito como solução. Capitalismo vira comunismo e comunismo, capitalismo, em meios as contradições que levam os dois sistemas a entrarem em conflito encarniçado.

Por que iriam os grandes bancos assumir tamboretes quebrados , colocando em seus ativos sadios passivos podres? Ativos sadios, vírgula, pois o Unibanco, sócio da maior corretora mundial, a AIG, quebrada, socorrida pelo tesouro dos Estados Unidos, também, poderia ser alvo de corrida dos correntistas aos seus caixas, agora salvos pela incorporação dos seus ativos pelo Itaú.

Fugiram os dois bancos como o diabo da cruz de qualquer compromisso salvacionistas dos pequenos bancos, seus concorrentes. Quem já viu concorrente forte salvar concorrente fraco, senão metendo-lhe o pé nos traseiros ou incorportando-o aos seus domínios, como fez o Itaú com o Unibanco?

Ao mesmo tempo, recuaram, igualmente, em emprestar o dinheiro do compulsório como alternativa para esquentar o crédito direto ao consumidor para dar sustentação às demais indústrias de bens duráveis e semi-duráveis, da mesma forma que continuam fazendo corpo mole em sustentar a dinâmica do comércio exterior, mesmo sob protestos dos ministros da área econômica e dos políticos no Congresso.

Restou ao governo entrar na fogueira sem nenhuma proteção, com seus bancos oficiais, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, para resgatar do incêndio as montadoras, as construtoras e demais que estão abrindo o bico, pedindo, desesperadamente, água. Lá, na frente, quem sabe, se pintar um governo neolibertal, outra vez, na linha tucana de FHC, os grandes bancos, diante dos bancos oficiais encalacrados, engoliriam os bancos oficiais. Pode ser? Sim e não, depende das circunstâncias.

Ficou claramente demonstrado o compromisso dos grandes bancos com a sociedade: dela querem somente o sangue, como bons vampiros sanguessugas. Buscam unir-se não para a cooperação, mas para fuga, enquanto são paparicados pelos puxa-sacos de sempre.