O colapso financeiro global

 

Os concentradores financeiros “privados”, reais governantes das “democracias” e de suas dependências imperiais, usam o dinheiro como arma absoluta do poder. Maquiavel, o grande mestre da política, já verificara no Século XVI que o ouro e as armas são os meios de conquistar e exercer a autoridade política. Eles interagem: armas podem ser adquiridas com o ouro, que pode ser obtido através das armas. 
A moeda só tem valor como dinheiro se a autoridade o determinar. Na época do sábio florentino, os príncipes dotados de poder, asseguravam-no mediante a cunhagem de peças de ouro e de outros metais, as quais constituíam a moeda de curso legal.
Mas havia também, nas grandes praças financeiras da Europa, e entre si, intensa circulação de letras de câmbio. As bolsas negociavam ações de companhias, e alguns bancos emitiam notas. A família comerciante dos Medici, de Florença, após virar banqueira, em pouco tempo tornou-se dinastia real, mostrando como a finança conduz ao poder supremo.
Financistas prudentes advertiam que os títulos não deveriam corresponder a mais que 3 ou 4 vezes a quantidade da moeda, mas a relação chegou a passar de 15 vezes, em algumas épocas, na Holanda e na Inglaterra. 
A especulação é tão velha como o Mundo, mas não se deve pensar na finança apenas sob esse prisma: esta é necessária para complementar a moeda circulante, cuja escassez e pouca mobilidade emperram o comércio e os investimentos produtivos. Há que prover moeda e finança para o desenvolvimento da economia real. 
Questão fundamental é esta: quem controla a emissão de numerário (meios de pagamento à vista) e a dos títulos de crédito. Os detentores desse poder têm nele a fonte de seu poder sobre a sociedade. 
A eles se subordinam os presidentes e os primeiros-ministros das potências hegemônicas e os de seus associados menores e satélites. Assim, os Estados não estão sendo governados para o bem da sociedade. Ainda mais submissos são os pseudogovernantes dos países periferizados e explorados por meio do livre comércio, dos investimentos diretos estrangeiros e das demais instituições da globalização imperialista.

Oligarquia financeira domina governos

Os bancos centrais têm sido regidos pela oligarquia financeira, a raposa que controla galinheiros como o Banco da Inglaterra, há séculos, e o Federal Reserve (FED), nos EUA, desde sua criação em 1913. 
Como disse, após a criação do FED, Louis McFadden, membro do Congresso dos EUA, depois assassinado: “Um sistema bancário mundial vem sendo preparado. Um super-Estado controlado pelos grandes banqueiros internacionais, agindo em conjunto para escravizar o mundo para o seu prazer. O banco central usurpou o governo.”
Nos EUA quem emite e controla a moeda é o FED, feudo de um cartel de bancos privados. Não é o Tesouro. Kennedy autorizou-o a emitir papel-moeda, mas o decreto foi revogado por Lyndon Johnson, poucos dias após assumir a presidência em seguida ao assassinato de Kennedy. O Tesouro só emite títulos pagando juros.
Está, pois, claro quem emite e controla a moeda e o crédito e para favorecimento de quem. Os bancos, ademais das receitas com títulos públicos, auferem juros por meio de empréstimos a empresas e a pessoas físicas. O lançamento no mercado de títulos de empresas é outra fonte de ganhos. Esses títulos são objeto de vários tipos transações, como opções e swaps, e servem para criar derivativos e títulos colateralizados . Até índices de preços de ações e taxas de câmbio são securitizados. 
Além de receber taxas e comissões, os bancos buscam mais lucro investindo. Primeiro, com recursos do banco central a custo inferior aos juros auferidos pelos bancos. Segundo, emprestando múltiplos dos depósitos à vista livres do depósito compulsório no banco central. Terceiro, com as aplicações das empresas e de outros investidores.
Com tanto dinheiro, inclusive da coletividade, à sua disposição, os bancos, junto com os fundos, querem fazer render essa pecúnia. Ávidos de lucros e poder, criam montanhas de ativos financeiros maiores que o Everest.
Para esse fim e usando sua ascendência sobre os políticos, desmontaram os controles instituídos nos anos 30 em face dos terríveis problemas gerados pela especulação culminada em 1929. Foram formando outra bolha a partir dos anos 80. Grana é o combustível da ideologia (neo)liberal e da globalização comandada pela oligarquia. Não há ninguém limitando suas decisões: essa é a origem do colapso financeiro mundial. 

Titulos podres abalam capitalismo especulativo

Nos últimos vinte anos e, com mais velocidade, nos últimos dez, os ativos financeiros cresceram exponencialmente, em gritante desproporção com a inflação moderada dos ativos monetários. O estoque de títulos de crédito, inclusive derivativos, ultrapassa 500 trilhões de dólares, com grande parte de junk bonds (títulos podres). 
Essa quantidade é tão fantástica, que sua existência material seria impossível mesmo no plano simbólico, como a do papel-moeda, a dos certificados de títulos e a dos lançamentos em livros. Portanto, o atual dinheiro é virtual.
A enxurrada de transações financeiras e cambiais diárias envolvendo centenas de trilhões de dólares só se realiza através de supercomputadores. Grande parte para lavar dinheiro dos tráficos ilícitos: quanto mais movimentações, mais difícil retraçar a origem dos fundos.
David Roche, presidente da corretora Independent Strategy, de Londres, calculou que os ativos financeiros cresceram de 150% do PIB, em 1980, para 400%, em 2005, nos sete países do G-7. Mas não considerou os ativos desses países nos refúgios fiscais (offshore).
Segundo relatório do McKinsey Global Institute, os ativos financeiros no Mundo ultrapassavam 118 trilhões de dólares, no final de 2004. Mais que o dobro de 1993, e 10 vezes o total de 1980. Conforme a fonte, esses ativos correspondiam a três vezes o PIB mundial (em 1980 apenas o igualavam). A proliferação é, na realidade, muito maior, pois esses dados não incluem os derivativos, então estimados pelo BIS, em 278 trilhões de dólares. No 1º semestre de 2007, os ativos financeiros mundiais atingiram US$ 167 trilhões, aumentando 42% em relação a 2004, sem contar os derivativos.
A mega-inflação dos títulos financeiros foi acompanhada de estagnação na economia real, causada pelo baixo investimento na infra-estrutura e nas estruturas produtivas. Daí terem declinado os rendimentos e o emprego da classe média, desencadeando dificuldades para o pagamento de créditos em cima dos quais se criou a montanha dos derivados. A economia norte-americana foi estimulada por consumo a crédito, apesar de a maioria ter perdido renda real com a transferência em favor do segmento de 1% que, sozinho, detém 40% dela. 

Balanço do desastre financeiro

A inadimplência de devedores hipotecários detonou o colapso financeiro, mas a abrangência deste é muito maior, alcançando inclusive cartões de crédito e empréstimos de empresas. O sistema financeiro abusou da conversão de dívidas em títulos (securitização), classificando débitos sub-prime como AAA. Para 1 dólar em hipotecas, havia 3 em títulos. 
A implosão tornou-se evidente quando Merrill Lynch e Lehman Brothers suspenderam a venda de colaterais que arrestaram dos falidos fundos hedge do Bear Stearns, por só conseguirem ofertas de 20 centavos por dólar de valor nominal.
Em julho de 2007, alastrou-se a quebra das hipotecas sub-prime. O IKB, da Alemanha foi salvo da falência por um consórcio de bancos desse país, com empréstimo de emergência de US$ 11 bilhões. Houve também a corrida bancária ao britânico Northern Rock.
O colapso já acarreta modificação estrutural no fluxo internacional de capitais. Até agosto de 2007, investidores fora dos EUA compravam mais do que vendiam títulos do governo e de corporações privadas dos EUA. Naquele mês o fluxo tornou-se negativo. Apesar de ter havido recuperação, especialmente em outubro, a média de agosto a novembro (US$ 52,1 bilhões) foi menos que metade da média de janeiro a julho (US$ 113,1).
Nos títulos de longo prazo, as vendas líquidas por estrangeiros foram US$ 86,6 bilhões, em agosto; de janeiro a julho ainda houve compras líquidas de US$ 461,5 bilhões. Só se manteve a procura por notas do Tesouro de curto prazo (até 180 dias). 
Importante: a partir de outubro, parte substancial dos ingressos de divisas nos EUA provém do socorro por fundos soberanos da Ásia e do Oriente Médio, que adquirem títulos conversíveis em ações de bancos dos EUA. Em novembro, ações ordinárias do Citigroup foram compradas pelo fundo soberano de Abu Dhabi, no valor de US$ 7,5 bilhões.
O Citigroup, maior banco dos EUA, registrou, em 15.01.2008, o maior prejuízo de sua história e vendeu ações preferenciais por US$ 14,5 bilhões ao Temasek, fundo nacional de Cingapura. Captou também da Autoridade de Investimentos do Kuwait. Ao todo, US$ 26 bilhões desde o início do colapso. A Merrill Lynch recebeu, em janeiro de 2008, U$ 6,6 bilhões da Companhia de Investimentos da Coréia, da Autoridade de Investimentos do Kuwait e de outros, além de US$ 6,2 bilhões obtidos em dezembro. 

Governos suportarão inflação de papel podre?

O gigante suíço UBS teve prejuízo no 3º trimestre de 2007, decorrente da baixa (write-down) de 3,4 bilhões de dólares em títulos ligados aos mercados sub-prime dos EUA. No 4º trimestre, baixa de mais $10 bilhões. Então levantou US$ 17,6 bilhões: participação de 9% do governo de Cingapura no capital do banco e recursos de investidor não divulgado do Oriente Médio.Estimam-se em US$ 100 bilhões de dólares as recentes injeções de dinheiro em bancos estadunidenses e europeus, por fundos nacionais e investidores de Abu-Dabi, Kuwait, Dubai, Arábia Saudita, China, Cingapura e Coréia do Sul. Também ganham vulto cada vez maior as operações de resgate por parte dos bancos centrais para que os bancos não ponham à venda os ativos podres, o que faria despencar seu valor de mercado. O FED despejou, várias vezes, dezenas de bilhões de dólares em bancos dos EUA nos últimos meses de 2007. No dia 18.12.2007 o Banco Central Europeu, o FED e o Banco da Inglaterra socorreram bancos do continente europeu e ingleses com US$ 548 bilhões. Estão atiçando a inflação, sem lograr sanear os bancos.

Observadores calculam que mais de US$ 1 trilhão de ativos já ficaram sem valor nos últimos meses. A bolha pode atingir US$ 20 trilhões, segundo o Serviço de Notícias da Executive Intelligence Review. 
Tudo isso é escondido dos olhos do grande público. A oligarquia responsável pelo colapso pretende fazê-lo pagar por este. Ilustração tragicômica é esta nota, em destaque no portal do Tesouro dos EUA: “Os EUA têm o mercado de capitais mais forte do Mundo, e essa posição é conseguida através de trabalho duro e estratégias inteligentes.”
O economista-chefe do banco de investimentos Goldman & Sachs teve de admitir: “Muita coisa mudou desde meados de julho, quando dissemos que a economia global continua a desfrutar de uma das mais fortemente sustentadas expansões na história moderna”. Daniel Mudd, executivo-chefe da Fannie Mae, importante instituição hipotecária dos EUA, declarou:“o pior da crise ainda está por vir, pois o mercado não chegará ao fundo antes do final de 2008.”

 

Conclusão
Os efeitos irão além da recessão em curso nos EUA. Virá a depressão, e já está difícil ocultar a natureza fraudulenta do sistema mundial de poder. Por ficar atrelada a este, a sociedade brasileira foi sacrificada demais e tolhida em seu desenvolvimento. O Brasil progrediu nos anos 30 e 40, ao cair o comércio internacional por causa da depressão nos países hegemônicos. Está na hora de o País organizar-se, controlar os capitais e desconcentrar a estrutura econômica.

* – Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. benayon@terra.com.br

Falcões impõem guerra a Obama

Despertar trágico do ano novo. O seu perfil essencial está sendo dado pela guerra-massacre aprofundando-se entre Israel e Palestina, na Faixa de Gaza, Oriente Médio, sinalizando tensões globais. Não se pode desvinculá-la de um contexto que se forma pelos próprios interesses que o compõem, no sentido de afirmar sua necessidade para o capitalismo em sua fase atual de desenvolvimento histórico em crise total.

Esse contexto tem a guerra como conteúdo essencial indispensável à reprodução do capital, como demonstrou a história ao longo de todo o século 20, relatada no excelente livro “Capitalismo global – História econômica e política do século 20”, de Jeffry  A. Frieden, Zahar, 2008.

Os falcões da guerra estão alvoraçados sem saber direito que perigos a bancarrota capitalista em curso, nos Estados Unidos e Europa, reserva aos interesses que preservam, ou seja, os interesses da economia de guerra. De qualquer forma, mandam seu recado ao presidente eleito Barack Obama de que tendências ao pacifismo internacional por parte dos Estados Unidos, sob governo democrata, poderia custar caro aos seus patrocinadores.

Obama se candidataria a ser novo Kennedy, para desarmar o complexo do estado industrial militar norte-americano, cujos designos tenebrosos foram levantados pelo ex-presidente Eisenhower, em 1960?

O conflito sangrento, que condena a inteligência humana, como destacou o escritor judeu, A.B Yehoshua, em entrevista ao Globo, representa o produto final de uma linha de montagem industrial. Ela envolve investimentos alavancados pelo estado capitalista que passou a depender, como previu Marx, não mais da produção das mercadorias produtivas, mas, fundamentalmente, da produção das mercadorias destrutivas, na guerra.

Tal essência emerge brutalmente no Oriente Médio no raiar de 2009, como alerta aos democratas americanos vitoriosos com Obama, cuja promessa de campanha foi a de acenar para a paz e abrir diálogo com os islâmicos, a começar pelo Irã, aliado do Hamas, pregadores da destruição de Israel, aliado das forças armadas americanas.

O adversário de Obama, John MacCain, diante da promessa obamista, destacou que ele estaria estendendo as mãos aos terroristas que destruiram as torres gêmeas em setembro de 2001.

Antes que o primeiro presidente negro eleito dos Estados Unidos efetive sua promessa eleitoral, os falcões da guerra se anteciparam, agindo por intermédio das forças armadas de Israel, detonando bombas contra os que consideram terroristas,  os integrantes do Hamas, pouco relevando que se trata de movimento político democraticamente escolhido pela população palestina  na Faixa de Gaza, com discurso radical contra os judeus.

Sua pregação, naturalmente, bateu bem como expressão dos protestos às péssimas condições de vida em que vivem 1,5 milhão de pessoas espremidas, como sardinha na lata, numa extensão territorial de 42 km de comprimento por 12 km de largura – ou seja, um distância do Plano Piloto a Taguatinga, ladeada pelas vias EPTG e Estrutural. Um curral no qual inexiste liberdade de ir e vir, com as atividades essenciais – comércio, desenvolvimento, investimentos, enfim, produção, consumo e empregos, educação, saúde – todas controladas pelos judeus, mediante ditadura militar.

Nesse limitado espaço geográfico, de maior concentração humana do planeta, a indústria armamentista americana, por meio das forças armadas de Israel, exercita seus últimos lançamentos, que constituem a dinâmica em movimento da linha de montagem científica-tecnológica-produtiva que mistura grandes indusriais, grandes banqueiros, poderosos generais, governos obedientes e um pensamento conservador utilitarista ideologicamente construído ao longo do século passado, para justificar sua própria lógica de existência essencial à promoção da reprodução e acumulação capitalista.

 

 

Precisão total no ataque

 

Os moderníssimos foguetes GBU-39, leves, 113 quilos, adequados ao bombardeio subterrâneo, com autonomia de 110 km, disparados a 20 km, monitorados por GPS digital, teleguidos por satélites, garantem , praticamente, 100% de eficácia para atingir o alvo, com precisão quase cirúrgica, como destacou Roberto Godoy, especialista em armamentos, na TV Estadão.

As armas modernas americanas, adquiridas por Israel, competem, desproporcionalmente, com as armas do Hamas, de precisão incerta. Dos 40 foguetes Qassan, mísseis primitivos, disparados na sexta, 26.12, somente um acertou, em terreno judeu, numa casa isolada, matando uma pessoa, sacrificada, talvez, por azar. Ou seja, eficácia quase zero, em comparação à precisão armamentista israelense.

Os palestinos, portanto, trabalham como cobaias para o Pentágono. Por intermédio do poder judaico, sustenta estrutura produtiva guerreira que representa alavanca mundial de vendas das produções armamentistas, a partir de Israel. Geopolítica da guerra.

A Boeing Company, que lançou os foguetes GBU-39, para serem apresentados como atratividade mundial, causando escândalo e revolta social, nas principais capitais do mundo, nos últimos dias, depende,  mais do que nunca, do mercado de guerra, no qual floresce o complexo industrial militar.

A preservação do Oriente Médio como palco da guerra, para atuar como bombeamento de tensões, que se espraiam para outras geografias, representa mecanismo essencial de reprodução do capital, alavancado pelos gastos do governo.

A mobilização guerreira, como arma de combate às agressões ao status quo guerreiro por forças do Hamas – grupo radical de resistência islâmica -cujas energias revolucionárias brotam em terreno fértil em meio a uma população, social e economicamente, segregada, como se estivesse no campo de Auschwitz, obede a uma cientifica formulação política fundamentalmente utilitarista. Diante de um nação sem estado soberano, dominada pelas tendências políticas radicais terroristas – que perdurarão enquanto não se efetivar o Estado da Palestina -, o utilitarismo guerreiro caracteriza a oposição de um não-estado a sua política como manifestação marginal.

Da marginalidade ao terrorismo é questão de semântica construída nos laboratórios da propaganda política guerreira, ao sabor dos interesses da guerra.

 

 

Golias engole Davi

 

O estado de espírito da guerra tornou-se, para o complexo estado industrial militar norte-americano, fundamental, porque representa fonte de renda tributária para o governo continuar sustentado tal complexo como organismo que se alimenta de si mesmo. Um conceito na construção dialética do si por si mesmo.

A produção da indústria armentista – bélica e espacial -, que tem o estado como consumidor de mercadorias produzidas para a guerra, adquiridas por moeda estatal sem lastro, que entra na circulação, dinamizando a produção e o consumo, tornou-se indispensável para o capitalismo como atenuador das contradições do próprio sistema.

A guerra, que aumenta a produção sem aumentar a oferta – quem consome guerra não é o consumidor comum – , atua como fator antíclico para contornar as crises capitalistas, caracterizadas, essencialmente, por acumulação excessiva de capital, cronicamente, tendente à deflação.

Vestindo o perfil anticiclico das crise do capitalismo, as guerras, bancadas pelos gastos do governo, em nome da destruição, repreenta salvação por sua própria negatividade, na medida em que produz ineficiência necessária, para equilibrar-se com o excesso de eficiência acumulada pelo setor privado, como disse Malthus. No ritmo da ciência e da tecnologia, os empresários elevam  exponencialmente a produtividade, jogando os preços para baixo, sinalizando deflação, quanto mais acumula o capital podutivo.

Os Estados Unidos, com a sua sofisticação tecnológica, desenvolvida no departamento bélico e espacial, para produzir ineficiências cientificamente programadas, precisam fortalecer, em Israel o Golias, para enfrentar Davi. Produção que gera renda para consumo compensatório à diminuição do consumo privado, afetado pela crise de crédito. Nesse jogo, não tem dado outra; Golias massacrra Davi. A história bíblica está permanentemente sendo negada na sua representação imaginada pelo incorrigível romantismo humanista.

 

 

O capital vai à guerra

 

O Estado, como consumidor necessário, com sua moeda estatal sem lastro,  para dar suporte à economia de mercado, tendente ao colapso, representa, como disse Keynes, a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, na medida em que tem a autonomia para elevar quantidade da oferta de moeda na circulação capitalista.

Outra coisa não faz o presidente Lula, quando, enfrentando a oposição, engorda o Fundo Soberano Brasileiro com emissão de títulos da dívida pública, que se monetizam no mercado.

O autor de “Teoria Geral do Juro e da Moeda”, não brincou em serviço, ao perceber que a economia de guerra dinamiza o capital: “Duvido que o governo seja capaz de elevar seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer a sua força” , disse o grande economista em artigo no jornal “New Republic”, em 1941, segundo relata Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”. Roosevel captou o recado e mandou ver nos gastos do governo para tirar o capitalismo americano da crise de 1929.

Portanto, 2009, 80 anos depois do crash de 29,  começa com o recado da guerra como fator indispensável à reprodução do capital, principalmente, no momento em que o sistema entra em bancarrota, obedecendo à predição de Marx, de que as possibilidades do socialismo somente aconteceriam onde estivessem plenamente desenvolvidas as forças produtivas.

Tal desenvolvimento, no seu limite, produz, segundo o autor de O Capital, a contradição entre o desenvolvimento das relações sociais da produção , de um lado, e o das forças produtivas, de outro, fazendo emergir destruição tanto do capital como do trabalho via deflação.

Alguma dúvida de que esse mal ataca, no momento, a economia dos países capitalistas desenvolvidos? Onde, senão na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, tais condições pre-concebidas por Marx se encontram, plenamente, maduras?

Interessariam aos falcões da guerra o avanço da discussão socialista, no rastro da debacle financeira capitalista, senão como fator de estímulo ao rearmamentismo guerreiro de resistência? 

A indústria da guerra emergiu justamente para evitar o amadurecimento das condições que levam ao socialismo, segundo a tese marxista.

 

 

Limites estreitos para agir

 

Barack Obama pilotará uma conjuntura altamente explosiva, se a desaceleração econômica ganhar força auto-destrutiva, nos próximos meses, temor de muitos especialistas. Poderia, pressionado pelo Pentágono, redobrar sua aposta na pregação de Keynes, cuja essência é aumentar a produção de não-mercadorias, ou seja, a guerra, produtos bélicos e espaciais.

A Secretária de Estado do presidente eleito, senador Hillary Clinton, será a voz da guerra ou da paz?

O grande repórter inglês, Robert Fisk, do Financial Times, disse que escarafunchou todos os discursos de Obama até agora e não viu nenhum indício de plano para a paz no Oriente Médio. Apenas vagas referências à disposição de criar ambiente para aprofundamento do diálogo… Puro éter.

Como Obama priorizaria a paz , se só a agressão imperialista ao Iraque rendeu gastos públicos de cerca de 10 trilhões de dólares para dinamizar o complexo industrial militar norte-americano, segundo o economista Josef  Stiglitz, prêmio nobel de economia?

A guerra fria, que se estendeu dos anos de 1950 até final dos 80, jogou na circulação capitalista 15 trilhões de dólares, segundo o Instituto Pew, admirado por tal fenômeno não ter sido considerado pelos economistas, no período, como fator fundamental da praxis da macroeconomia capitalista.

Não fosse esse dinheirão todo, expresso em emissão monetária, que implodiu o padrão-ouro, nos anos de 1970, os Estados Unidos não teriam cumprido a previsão de Keynes, de que Tio Sam conheceria sua própria força se apostasse todas as suas fichas na economia de guerra. O estado industrial militar é o produto final da pregação keynesiana, como destaca Lauro Campos, em “A crise completa – Economia política do não”(Boitempo, 2002).

 

 

Jogo do engana que gosto

 

O avanço da guerra no Oriente Médio significa a garantia da preservação dos interesses do estado industrial militar americano. O resto é ficar na marolinha de fixar responsabilidades em torno da questão de (falta de)  princípio quanto a quem, nesse momento, começou a jogar pedra um no outro. Jogo do engana que gosto.

Exime-se da questão de fundo, ou seja, da existência de um contexto social, econômico e político, no qual se insere o conflito árabe-judeu, no laboratório explosivo da indignidade humana que se realiza na Faixa de Gaza.

Tal estrutura produtiva guerreira , para os palestinos, representa uma agressão permanente, porque produz, na Palestina, a falta total de perspectiva para a população, engaiolada sob experimentação de cientistas que testam armas de última geração contra armas obsoletas.

Encurralados, sob agressão, os palestinos se exercitam psicologicamente para o revide à castração da sua identidade como povo. Tudo se transborda em doses cada vez mais radicais, como comprova a preponderância do discurso do Hamas como expressão da maioria palestina.

Se eles se sentem agredidos permanentemente, sem liberdade para o comércio, para a cultura, para a política, para se organizar nos moldes da civilização, os foguetes lançados pelo Hamas  representam, evidentemente,  revide à essa permanente agressão, em forma de expansão das colônias judaicas sobre o território alheio e de escaramuças diárias contra a população na sua tentativa de afirmar o que não possui, o direito de ir e vir.

Isola-se a agressão, como fator em análise, não como fruto de uma conjuntura construída, historicamente, mas como se fosse fenômeno exterior à realidade, com vida autônoma, abstrata.

 

 

Senhora da guerra ou da paz?

 

A impossibilidade de os palestinos conquistarem o Estado Palestino, assim como aconteceu com os judeus, até antes de 1948, quando, com apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, principalmente, conquistaram o Estado Judaico, impõe-se como fator positivo para a indústria de armas.

Ela significa fogo de resistência palestina à indignidade humana que mantém o clima de guerra propício à reprodução do complexo industrial militar em escala global.

Sem se constituir em estado, a nação palestina, do ponto de vista da civilização organizada pelo direito positivo ocidental, simplesmente, inexiste.

Na marginalidade do concerto das nações, no mundo atual, a expressão política palestina torna-se essencialmente marginal, portanto, ilegal, enfim, terrorista.

Manter o clima de exclusão da nacionalidade, imposto pela conjuntura de guerra, germina, aos olhos dos falcões da guerra, semente terrorista, oxigênio para sobrevivença da estrutura produtiva e ocupacional guerreira em Israel.

Obama recebe o duro recado: se for falar com o Irá, que arma o Hamas, estará dando um tapa na cara do complexo industrial militar americano. Hillary Clinton, secretária de estado do governo obamista,  iria a Teerã ou ficaria, apenas, no circuito Washington-Telavive?

Crise fragiliza democracia

 

Cria novo ambiente político e econômico no país a decisão do presidente Lula de emitir títulos da dívida pública, via medida provisória, para garantir recursos ao Fundo Soberano Brasileiro(FSB), capaz de alavancar investimentos governamentais, destinados a sustentar o desenvolvimento das forças produtivas, ameaçadas pela paralisação do crédito, barrado pelos juros altos monitorados pelo Banco Central em favor dos interesses da bancocracia nacional.

A providência presidencial dá conta da necessidade de a governabilidade, sob a crise, ganhar celeridade, algo somente possível por meio de MPs, que impõem, no processo democrático em curso, permanente provisoriedade democrática.

Esse caráter institucional deteriorado da democracia brasileira, configurado pelos governos neorepublicanos, produz, como consequência, precarização da própria democracia, na medida em que as decisões, para superar os impasses que emergem, no calor da desaceleração econômica global, exigem efetivações mais rápidas que as prolongadas discussões em torno delas, decorrentes do antagonismo natural do confronto democrático no parlamento. O executivo passa a funcionar como trator sobre o legislativo, alterando suas determinações. Viola atribuições do Congresso, impondo uma ditadura branca.

Os congressistas tentam reagir, mas se encontram prisioneiros da nova conjuntura econômica e política emergencial. Eles haviam aprovado a lei 11.887, que cria o FSB, com recursos previstos de R$ 14,2 bilhões, mas impediram a utilização deles  por meio de aberturas de crédito orçamentários sem deliberação congressual, salvo mediante projeto de lei. Sem poder lançar mão de MP para obter rapidamente o dinheiro que julga necessário para enfrentar a crise, em forma de abertura de crédito orçamentário, proibido por lei, o titular do Planalto decidiu inovar, na base da ditadura executiva. Emitiu nova MP – a de número 452 – , agora, destinada a autorizar emissão de títulos públicos no valor previsto para a formação do próprio FSB. No mesmo dia, 26.12, em que a lei foi publicada no Diário Oficial, nascia, ao seu lado, MP que a alteraria. Show de autoritarismo executivo.

A oposição, que tentou colocar um freio na governabilidade provisória em que vive o país desde o nascimento da Nova República, em 1985, afetada pela crise monetária dos anos de 1980, que a subordinou aos ditames do Consenso de Washington, partirá para contestatação da decisão presidencial no Supremo Tribunal Federal. Conseguirá, no momento em que o governo age sob impacto da bancarrota financeira internacional, que torna todas as ações governamentais essencialmente emergenciais, conforme espírito das próprias MPs, de modo a criar expectativas positivas nos agentes econômicos apavorados com o fantasma da desaceleração econômica e da emergência do desemprego?

Ou concordarão os juízes com o caráter autoritário que vai tomando conta do poder executivo, rendido pelos acontecimentos, que impõem a precarização crescente do processo democrático, já super-afetado pelo excesso de MPs, bloqueadoras do funcionamento normal do poder legislativo?

 

 

A tentação autoritária

A questão central, como destacou o economista Luís Carlos Mendonça de Barros, na GloboNews, ao repórter Carlos Alberto Sardemberg, é a operacionalidade entre a decisão tomada e a ação efetiva provocada por ela, no ambiente novo da crise global, que atropela o legítimo jogo democrático caracterizado, essencialmente, pelo contraditório.

Nesse sentido, o economista previu que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, poderá enfrentar grandes desafios, cuja superação, rápida, implicaria expedientes semelhantes ao das medidas provisórias brasileiras. Tudo bem rapidinho, para não sofrer atrasos exagerados.

O governo de composição consensual obamista, que prevê participação de republicano e democratas, conferindo perfil novo no cenário americano, como sinal dos novos tempos, a exigir consensos em torno de polêmicas emergentes, requer essa nova lógica. Além disso, há a vantagem de garantia de maioria na Câmara e no Senado americanos, para tornar céleres as decisões executivas, algo ainda considerado incognita no contexto da democracia americana, em que os embates se efetivam com grande dose de confrontos de interesses.

O presidente eleito promete jogar na circulação, também, o seu fundo soberano, na casa dos 800 bilhões de dólares, para começar, a fim de renovar, de cima a baixo, a infra-estrutura dos Estados Unidos. Pretende, dessa forma, gerar, rápido, até onde for possível, 2,5 milhões de novos empregos, pelo menos.

O xis da questão, como destacou Mendonça de Barros, estará na operacionalização. Não se faz imediatamente a ponte entre a decisão e a ação. O processo implica em discussão no Congresso, onde Obama, poderá contar com a maioria democrata disponível.

Mas, ainda assim, não se tem a tradição de rapidez. Basta observar o tempo entre a decisão governamental do desmoralizado presidente W. Bush de destinar recursos para enfrentar a crise e a liberação deles para salvar a indústria automobilística do caos.

O processo, no ambiente de sufoco, parece que não anda, lento, incapaz de evitar o pior, ou seja, o avanço do desemprego, fantasma que apavora a todos.

A morosidade democrática seria empecilho ou a celeridade democrática emergia como resposta às imposições da própria crise?

 

 

Lapso freudiano chinês

A democracia americana estará, sob Obama, enfrentando grande teste. Ao mesmo tempo, como destacou o economista neokeynesiano, Paul Krugman, ao lado dos investimentos públicos, tem que estar uma estrutura poderosa, estatal, de fiscalização, para acompanhar a aplicação dos recursos, algo, também, que não acontece de uma hora para outra. Um mês já é tempo demasiado.

Como compatibilizar essa aparente morosidade intrínseca à instalação de uma nova institucionalidade, dada pela decisão governamental de colocar o Estado, mais decisivamente, à frente do processo econômico, com a pressa exigida pelos estragos produzidos pela crise em forma de demissões em massa nas fábricas, no comércio e nos serviços, produzindo desaceleração, recessão e depressão, com o elemento desconfiança instalado no coração do sistema capitalista?

Luís Carlos Mendonça de Barros, num lapso freudiano, disse a Sardemberg que tudo seria mais fácil se o fato ocorresse não nos Estados Unidos, mas na China, onde não há demcracia. A distância entre a decisão para agir e a ação efetiva propriamente dita, operacionalizando providências, rapidamente, seria minimizada. O parlamento seria ultrapassado. Ditadura seria solução?

Ou seja, o cenário da provisoriedade democrática, que está sendo expressa na ação do presidente Lula, acelerando medidas provisórias, em resposta à emergência recessiva global, estaria sendo instalado como salvaçao do capitalismo em bancarrota.

As consequências que a democratização provisória em marcha, justificada por nova conjuntura, impõe, representam desafios para a própria democracia, cuja capacidade de superação somente o tempo dirá se será efetiva ou não.

Vive la France!

O fracasso financeiro neoliberal que ameaça destruir a economia real colocou o Brasil em alerta para proteger suas riquezas que, no ambiente da globalização e do salve-se quem puder, no compasso da grande crise em curso, tornam-se alvos generalizados dos investidores, especuladores e aventureiros.

A aposta nos investimentos em segurança nacional, mediante plano elaborado pelo Ministério da Defesa, para proteção das riquezas brasileiras – pré-sal, Amazonas, reservas hídricas, minerais, biodiversidade etc –  , desponta como renascimento da indústria de defesa naval, bélica e espacial, agora, em parceria Brasil-França, com cláusula de ampla transferência científica e tecnológica, para absorção das forças produtivas.

Envolvendo 8,6 bilhões de euros(R$ 12 bilhões), para construção navios, submarinos, a diesel e nuclear, aviões, equipamentos bélicos e espaciais, o acordo Brasil-França cria ambiente para mobilização de capital, produção, emprego, consumo, que ajuda espantar o fantasma da desaceleração econômica, por força de ação binacional estatal.

Batem bem as preferências históricas francesas e brasileiras ligadas ao pensamento estatizante como alternativa à economia de mercado cujas contradições explodem em crises cada vez mais complexas impossíveis de serem resolvidas apenas pelas forças produtivas em seu pleno desenvolvimento capitalista contraditório e crítico.

Tende a ser ampliado, novamente, o parque industrial bélico-espacial, no Brasil, detonado pela Nova República, herdeira dos governos militares super-endividados e dominados pela expansão da inflação, depois da crise monetária dos anos de 1980.

Produzida pelo aumento de 5% para 17% dos juros nos Estados Unidos em 1979 como argumento para salvar o dólar, sob regras ditadas pelo Consenso de Washington, a crise monetária levou a periferia capitalista à falência e , no Brasil, obrigou o presidente Fernando Collor(1990-1992) a desativar a indústria de defesa nacional.

Nos anos de 1970, o parque industrial brasileiro de defesa militar havia expandido fronteiras, na América do Sul, Europa e , principalmente, no Oriente Médio. Caminhava para representar 10% de formação do PIB. Grandes capitais, privados e estatais, aplicados nos investimentos em construção pesada, fabricação de tanques, armas e aviões, bem como obras de engenharia, ao lado desenvolvimento do ciclo nuclear pela Nuclebrás, deram dimensão extraordinária ao potencial brasileiro, capaz de competir internacionalmente.

 

Destino selado no século 21

 

Os Estados Unidos, que estavam implicados com o acordo nuclear Brasil-Alemanha, fechado no governo Geisel, em 1976, levantaram bandeira proibitiva à periferia em bancarrota financeira de armar-se, bradando em defesa dos direitos humanos, com Jimmy Carter. Pressionaram e conseguiram, durante Collor, desativar a base industrial da segurança nacional. Não interessaria à indústria armamentista americana ter uma concorrente na América do Sul para fornecer o mercado do Oriente Médio, onde disputavam com europeus e russos. Fernando Collor fez o jogo da reação americana à expansão bélico-espacial brasileira.

As condicionantes impostas pelo sistema financeiro para limitar o desenvolvimento econômico nacional, que, na ditadura militar, tinha alcançado a casa dos 10% do PIB, entre 1966 e 1979, mataram o sonho do Brasil Potência, alimentado pelos militares enquanto estiveram no poder.

A prioridade macroeconômica passou a ser o pagamento dos juros da dívida, que cresceria, extraordinariamente, depois do plano real, em 1994, apoiado na sobrevalorização da moeda nacional, como arma de combate à inflação e de abertura da economia para o capital externo, expressa na aceleração da privatização tucana.

Os elevados superavit primários(receitas menos despesas, excluindo pagamento dos juros), impostos pelos credores, impossibilitaram a continuação dos investimentos em segurança nacional. Emergiu, consequentemente,  a ideologia neoliberal anti-nacionalista, avessa aos propósitos da segurança alimentado pelos nacionalistas.

A crise neoliberal, que detonou nos Estados Unidos e contagia brutalmente a Europa, o Japão e a China, mudou a expectativa geral.

Os ricos estão ficando pobres e os pobres podem dispor de chances de ficar rico. O Brasil e a América do Sul, por exemplo, detentores de base industrial e de abundância de riquezas minerais, energéticas, alimentícias, estratégicas, das quais demanda a manufatura global, tornam-se alvos estratégicos.

A França, que nunca acreditou no neoliberalismo pregado por Washington, que está penando com a recessão, acelerou sua estratégia de conquista de espaço em meio ao apocalipse econômico, buscando aliar-se, mediante lances efetivos, com o Brasil. Destino selado no século 21.

 

 

Charme francês para fechar negócio

 

A pregação de Sarkozi, presidente francês, de que se faz necessário e urgente a presença do Brasil no Conselho da ONU, no rastro do faturamento dos 8,6 bilhões de euros para a indústria francesa programar a ressurreição brasileira na produção da segurança interna e externa, enquanto o mundo enfrenta recessão, dá o tom da nova disputa dos paíseis ricos entre si para realizarem sua produção de inteligência e conhecimento no espaço global. Desenvolvimento comum das indústrias francesa e brasileira, em projeto binacional, cria a nova plataforma de lançamento de produtos para disputar o mercado mundial;

O Palácio do Eliseu, pelo que tudo indica, venceu a concorrência, tanto com a Casa Branca como com o Krelim, na disputa pelo mercado de segurança e defesa brasileiro. W. Bush, prisioneiro das contradições desatadas pelas invasões no Iraque e no Afeganistão, descuidou-se, estrategicamente, da América do Sul e do Brasil. Putin, por sua vez, jogou com as armas do individualismo exclusivista excessivo.

A velha França vestiu a camisa da humildade e veio jogar a lição de Sócrates: “A metade é maior do que o todo”. Abriu mão do exclusivismo científico e tecnológico e reimpõe  sua influência, que foi grande, no Brasil, até primeira metade do século 20.

O governo brasileiro, por sua  vez, consciente do seu cacife, dado pelas riquezas incomensuráveis, nas quais estão de olho os investidores internacionais, exerce a sua nova influência global, rearmado pela indústria francesa.

Lula não se conteve: Vive la France, erguendo a taxa de champanhe com primeiro ministro francês.

Sarkozi, que cai nas graças da indústria e do trabalhador francês, depois dessa, relaxou. Foi com sua bela Carla Bruni para as praias baianas, nos braços de Iemanjá, saravá, pouco importando com o tititi da mídia francesa, que, criticando sua esticada praieira em tempo de recessão, parece não entendeu o grande negócio bilionário que ele fechou com Lula.

Crise neoliberal acirra mercado da fé

Quando o terreno e o profano fracassam, as almas se voltam para o divino maravilhoso no espaço sideral infinito, incompreensível em seu todo contraditório, dialético e cheio de mistérios espetaculares e incomensuráveis.

Irresistível, principalmente, pelos mais simples, destituídos de tudo por um modelo de desenvolvimento poupador de mão de obra e concentrador de renda, socialmente, excludente.

O que lhes resta, senão a fé, sua força interior, resistência espiritual, que, segundo Tomio Kikuchi, autor de “Natureza – Mais forte que Deus” , fortalece, na pobreza, a natureza instintiva e a auto-educação?

Na grande crise neoliberal em curso, que balança, violentamente, o capitalismo, as certezas abrem-se às incertezas. Grande espaço passam dispor as pregações abstratas.

A Bíblia torna-se alvo de desejo geral. Ampliam-se os pregadores especialistas nela. Não apenas os norte-americanos se consideram possuídos do destino manifesto, mas todos, em si, alcançam, no plano da globalização, essa graça etc.

Ou seja, o fracasso do neoliberalismo pode estar sendo terrível para a economia, mas, para a religião, pode ficar uma beleza. A agressividade dos programas religiosos na TV, de manhã à madrugada, 365 dias no ano, martelando, demonstram que a disputa pelo mercado da fé está e continuará acirrada.

A demanda e a oferta se ampliam, extraordinariamente.  

A doutrina neoliberal ganha espaço no divino,  enquanto se desmoraliza no terreno. Todos podem pregar. Os mais acreditados passam a ser não mais os economistas, mas os bispos e bispas no credo geral da comunidade. Do púlpito para as câmaras de vereadores, assembléias legislativas, Camara e Senado Federal. Presidência da República? Sim, no Paraguai, deu padre: Fernando Lugo. Frei Beto e Leonardo Boff se habilitariam?

Como se perdeu a fé na economia, busca-se compensação na religião, por parte dos pobres, e na política, por intermédio das novas correlações de forças que a crise desata, grandemente, mediada pelo poder religioso.

O perigo é dar em um novo W. Bush, filiado a correntes religiosas reacionárias fatalistas, que transformam a guerra em religião do estado capitalista.

Os tempos floridos para os pregadores estão chegando. O Congresso está cheio deles. Depois que a pregação conservadora do neoliberalismo econômico deixou de ser útil na boca de inteligentes e brilhantes mecanicistas e positivistas, no Senado e na Câmara, sobra lugar para os que estavam deserdados, ou seja, as forças da dialética e , igualmente, as do além.

Pintaria clima de final dos tempos bíblicos, quanto mais as teorias econômicas liberais fracassam, redondamente, como solução útil para a humanidade?

Tempo de Natal. Saúde e paz a todos, com amor.

O espírito religioso – que floresce, mais intensamente, nessa ocasião, especificamente, mas que dispõe, também, de outra grande motivação, historicamente, dada pela grande crise mundial em curso, apavorante e fantasmagórica – está diante de grande oportunidade de expansão.

Globalização religiosa altamente concorrencial. Muitos interesses.

“Riqueza é poder e poder é riqueza. Comércio externo produz riqueza, riqueza produz poder, e poder preserva nosso comércio e religião”(Capitalismo Global – História econômica e política do século 20”, Jeffry A. Frieden , ZHAR) -máximas da monarquia mercantilista no secúlo 18, que ainda estão no pensamento dos líderes modernos.

A destruição das riquezas traria nova moda pautada na pobreza em ascensão como algo chique? Vamos esperar pelo lançamento das novas coleções…

 

 

Poder católico perde mercado

 

Um dos fenômenos mais interessantes dos novos ares brasileiros é a mutação religiosa. Catolicismo, Espiritismo, Presbiterianismo, Evangelismo, Judaismo, Islamismo, Budismo, Umbandismo, Mormonismo, Sidhartismo etc. O tema, evidentemente, é mundial.

Tem crença para todos os gostos. Os sites de todos eles são muito bem feitos e cheios de informação, demonstrando organização e gana para disputar os clientes espirituais.

São mais de 20 religiões oferecento suas mercadorias divinas, segundo levantamento do IBGE, em 2000(veja tabela). Destaca-se evidente redução do poder católico, antes, amplamente, dominante, até final dos anos de 1950.

Todas as cores, todos os odores. Democratização religiosa total no território nacional debaixo de uma mesma cultura linguística. Nos templos, nas ruas, nas praças, nas praias, nos morros, nas favelas, a palavra de Deus flui, livremente, pela boca de diferentes pregadores. De comun entre eles, naturalmente, o conhecimento da Bíblia, em maior ou menor escala, com suas leituras heterodoxas.

Não são possíveis as várias interpretações, visto que os escritos foram passados de boca em boca pelos tempos eternos por seres humanos passíveis de erros, levados às correções de rumo, de forma ininterrupta?

O poder, praticamente, exclusivo da Igreja Católica, predominante no Brasil, desde os primeiros tempos da colonização portuguesa, posteriormente, inglesa e americana,  simplesmente, acabou.

Basta ver a expansão das igrejas evengélicas, com destaque para o poder midiático do qual lançaram mão, como é o exemplo maior da Igreja Universal do Reino de Deus, criada e expandida por mais de 170 países pelo bispo Edir Macelo.

 

 

Escalada do sincretismo religioso nacional

 

A representação católica, excessivamente, pomposa, criou barreira à sua interação com os humildes, embora tenha sua base espiritual calcada no mais humilde dos seres humanos, Jesus Cristo.

Muita emplumação e pomposidade para o gosto popular. A prática inserida pelos bispos e bispas Macedos e Macedas tornou tudo muito mais simples e acessível às vocações religiosas, confrontando-se com o artificialismo paramentado católico. As pessoas simples se sentem inibidas. Se puderem sair disso, para ter sua alma salva, toma decisão útil.

A fé, no mercado religioso, antes monopolizado pela santa madre igreja, no Brasil e na América Latina, sofreu abalos, ao longo do processo de modernização econômica, que carrega consigo rastro de santidade, dor, sangue e ganância, no compasso de desenvolvimento capitalista.

A realidade neoliberal abre o mundo a novas leituras e o impregna de novas culturas. O avanço religioso descontraído pela boca dos bispos evangélicos, por exemplo, criou competição acirrada que levou o catolicismo populista dos grandes espetáculos religiosos comandados pelo padre Marcelo.

Rezar passou a ser menos reflexão e mais pulsação. Rock brabo. Caso contrário, como competir com os evangélicos e suas criatividades estéticas impressionistas, tornando-se visco irresistível para os fiéis consumirem?

 

 

Democracia religiosa

 

A fé, jogada nas palavras dos padres católicos, de um lado, e na dos bispos evangélicos, espiritualistas e espiritistas, budistas etc, de outro, transformou-se em mercadoria amplamente democratizada.

A concorrência na produção religiosa, de ambos os lados, conseguiu colocar a palavra de Deus ao alcance de todos.

As vocações religiosas puderam ser feitas livremente. Nesse contexto, a busca da utilidade ganhou espaço. Evidenciaram-se as formas e suas respectivas regras como fator de atração ou de repulsão.

Quanto mais exigências para a prática da religiosidade e do culto religioso, maiores as dissidências, mais amplas às escolhas, afinadas aos interesses pessoais.

Sob o capitalismo – ao qual todos os cultos, praticamente, se renderam – , cujo germe se assenta na propriedade privada, no egoísmo, agora, na crise neoliberal, implodidos, o mercado religioso registra um dos maiores fenômenos de multipardidarismo democrático global. Vitória neoliberal reliosa ampla, a demonstrar que o neoliberalismo representa o promotor da verdadeira democracia religiosa, dado o seu poder de destruição que promove buscas variadas de salvação.

 

 

Subordinação ou coordenação?

 

O utilitarismo venceu. Mais sucesso histórico angariaram os que pregaram que o fiel não tem que subordinar-se ao interesse da igreja, mas, ao contrário, a igreja é que tem de subordinar-se à liberdade de escolha do fiel, do interesse dele, como tática para conquistá-lo.

Foi o que fez, por exemplo, o bispo Macedo e assemelhados em geral, com marketing de primeira linha. Tiro no alvo.

A Igreja Católica, fixada, historicamente, nos seus dogmas pétreos, irremovíveis e altamente questionáveis, dado o caráter anti-natural de muitos deles, foi, paulatinamente, transformando-se em alvo das críticas dos que desejavam desenvolver sua religiosidade, mas sem renunciar à natureza para poder ampliar sua espiritualidade.

A subordinação aos dogmas explodiu em desejo de coordenação do próprio exercício da fé individual sintonizada com a natureza.

Afinal, dá para acreditar numa pregação, como a católica, que vai contra a natureza, como é o impulso sexual?

Seriam naturais as aberrações sexuais existentes no seio da madre igreja, entre padres e freiras, dando conta de taras, pedofilias, loucuras afetadas pelo demônio do sexo etc e tal, devidamente exorcizados com a queima na fogueira das Joanas Darcs históricas?

E o medo da ciência e da tecnologia em seus avanços de caráter essencialmente renovadores e revolucionários desenvolvidos pelos Giordanos Brunos?

Se fossem naturais tais comportamento anti-históricos, não implicariam, para a própria Igreja, processos reivindicando milhões de dólares de indenização e desmoralizações sem fim.

Pelo menos são impostas necessidades de pedir perdão. Cinismo insuportável.

 

 

Liberou geral

 

Ora, o que fizeram os evangélicos, os neo-luteros, o que fez e faz o bispo Macedo, com sua estratégia comercial-religiosa? Liberou geral.

Podem ser pregador-pregadora tanto os casados-casadas, como os descasados-descasadas ou solteiros-solteiras; pode haver bispo e, também, bispa.

Conhecedores e conhecedoras da Biblia: estabelecem-se, plenamente, quem mais têm competência no conhecimento e na comunicação. 

Liberdade ampla de oportunidades. Fomento ao empreendedorismo individual religioso e comercial. Puro capitalismo neoliberal. Jogo amplo de conquista de clientes.

Os mais convincentes conhecedores da religiosidade que pregam tornam-se os mais acreditados e afamados, principalmente, se conquistarem os corações dos fiéis pelo amor ao trabalho desenvolvido.

O amor, lei geral da vida, é a palavra-chave. As indulgências são o preço a pagar pela graça recebida. Todos pedem para sobreviver da fé do cliente que busca conforto espiritual.

Seja mulher, seja homem, aquele ou aquela, capaz de conquistar o coração dos fiéis, tudo está valendo para o bispo Macedo e os seus assemelhados, que pontificam não apenas nas igrejas, mas, igualmente, nas câmaras de vereadores, nas assembléias legislativas, distrital, Câmara Federal e Senado.

O genial autor de Os Sermões, Padre Vieira, glória humana da pregação religiosa-dialética, não teria podido fazer o que fez se sua religião não fosse a católica e a ela subordinasse sua disciplina religiosa, obediente aos dogmas de Roma e às proibições contra a natureza essencialmente católicas, castradoras.  Seria astro na igreja do bispo Macedo.

 

 

Culturalismo reprimido ainda não vencido

 

A liberdade estabelecida pelo bispo representou a negação da anti-liberdade fixada pela igreja católica quanto à oferta de oportunidade para os fiéis.

Resultado: as igrejas dos bispos evangélicos bombam de gente, enquanto a do papa e padres católicos perdem adeptos.

O lassair faire religioso, como a realidade tem demonstrado, tem sido, concorrencialmente, faturado, em termos relativos, pelos evangélicos, ao longo dos últimos sessenta anos.

Muito poder no Congresso, nos meios de comunicação. Tremenda neo-oligarquia que condiciona comportamentos dos poderes republicanos, impondo-lhes influência política decisiva.

Também, pudera. Não dá para aguentar a parafernália fora de moda histórica de um papa todo paramentado em cima de um altar todo rodeado de ouro. Pura fantasia de escola de samba.

A hierarquia católica, amplamente, vista em tempos natalícios, nas missas do Vaticano, televisionadas para todo o mundo, é a exposição do ridículo.

Trata-se de aparência, totalmente, incompatível com o espírito de humildade do próprio Cristo, que andava de sandália, ou descalso, com pedaço de pano por cima do corpo, leve, solto, despojado, extrovertido, pela estrada afora. Sem frescura.

O bispo Macedo e os pastores atuais perceberam o vácuo de poder e jogaram na simplicidade. Estão ganhando mercado.

 

 

Libertação religiosa e sexual da mulher

 

Um dos grandes méritos dos evangélicos e dos espiritualistas em geral, tendo a igreja do bispo Macedo faturado no marketing, copiado, amplamente, foi o de libertar a mulher para a pregação religiosa.

Imagine a mãe do homem, Nossa Senhora, as mulheres,  não poderem dar o seu recado, arregimentar fiéis, como acontece na igreja católica.

Expressão do amor, abençoada por ser natureza e gerar natureza, a mulher não tem voz na igreja católica.

Preocupada em preservar as heranças, para não ser dividida com as mulhures, o Vaticano proibiu o padre de casar. O celibato tem em sua base a ganância católica pela acumulação monetária, não o espírito de renúncia que impõe, no ser humano, a castração sexual.

A Igreja católica negou, com sua estratégia acumuladora de capital, o acesso da mulher ao púlpito. Sem ter a mulher como ser humano divino representado na igreja, os padres tiveram que vestir saia-batina, para dar ares de verdade para uma falsa representação.

A não valorização de Nossa Senhora como essencialmente pregadora é uma injustiça praticada pelo catolicismo. Seu exemplo de pregadora não prosperou no compasso do desenvolvimento do machismo católico acumulador de capital.

Castrou-se a vocação divino-pregadora de Maria como detonou-se o espírito de liderança singular de Joana Darc.

Jesus, sem dúvida, é grande, mas foi geminando na barriga de Maria. Quem tem o dom do amor para pregar aos fiéis, senão a mulher expressão do amor natural?

 

 

Freud explica

 

Maria teve sua voz negada pela igreja católica, como, igualmente, tamparam os dogmas católicos os ensinamentos e pregações revolucionárias-libertárias-socialistas do seu filho.

Quando a mulher, na igreja evangélica, dispõe da liberdade de dar o recado bíblico, é de se supor que as vocações religiosas femininas busquem, sinceramente, a oportunidade aberta pela liberdade para sua própria pregação.

Os evangélicos garantem essa liberdade; os católicos, comandados por Bento 16,  não.  Elas podem não apenas pregar, mas, da mesma forma, liberar sua natural sexualidade, sem pré-condições estabelecidas arbitrariamente a partir de considerações abstratas.

A igreja católica elimina a mulher do altar como pregadora,  mas adota a representação feminina, na figura do padre de saia-batina. Mulher é um negócio tão bom que até padre usa saía. Freud explica.

 

 

Poder do dinheiro ou poder da fé?

 

Enfim, a santa madre igreja católica apostólica romana não é nada santa. Ligada ao dinheiro, de forma quase atávica, ela, instalada no Vaticano, virou estado e dispôs de seu próprio banco, tornando-se banqueira.

Marcinkus, Marcinkus, Marcinkus, seu nome é corrupção no altar do Ambrosiano.

A santa madre exagerou-se tanto nas indulgências, a ponto de promover o seu contrário, isto é,  Lutero, que pregou, em 1517,  a exterminação dela em nome do restabelecimento da ética, rompida pela ganância dos papas banqueiros pregadores das indulgências para salvação eterna no outro mundo.

O luteranismo, evidentemente, desembocou, também, com o tempo, na pregação, necessariamente, acompanhada da recompensa financeira solicitada aos fiéis.

Os bispos macedos da vida não são outra coisa do que neo-luteros abastardados.

Não há como Roma reclamar do bispo Macedo por estar recolhendo dinheiro dos fiéis, para construir suntuosidades mundo afora e império de comunicação competente, que já faz sombra forte à Globo.

Os neo-luteros acabaram com os exclusivismos religiosos no coração dos homens. Marx, judeu, não aguentou o próprio judaísmo com seu exclusivismo abstratamente construído. Em “A questão judaica” detona a chatice e a arrogância. Para ele, não teria que haver uma emancipação exclusiva dos judeus no seio da humanidade. Como poderia haver a emancipação judaica, sem existir a emancipação essencialmente humana?