Obama: decadência e pacifismo

Obama, até agora, exprime uma impossibilidade de superação da decadência. Essa superação não pode se realizar se o que ela produz, como negação de si mesma, é afirmação daquilo que a produziu.

Dito de outra forma: ao afirmar, em seu discurso, um retorno ao movimento de expansão positiva da sociedade norte-americana, Obama pretende instituir aquilo que está sendo negado pelo movimento de decadência que vivemos.
Mas isso é contraditório com a afirmação de que “a mudança chegou aos EUA”. A mudança real só é possível se for negação do movimento de decadência, se for produto (como negação) do movimento que se instaurou no seio da potência norte-americana, da forma como está colocada.
A negação da decadência surgirá num movimento que negue a expansão da indústria da guerra e da consciência da guerra. E o grande problema é que a negação dessa indústria da guerra não parece madura para ser instituída pelo presidente Obama.
Essa indústria fornece combustível essencial para o motor da sociedade de consumo, porque através dela o estado emprega indiretamente milhões de pessoas, através das empresas que lhe prestam serviços na fabricação e manutenção da força de destruição das armas, da vigilância permanente sobre cidadãos e inimigos potenciais.

Líder pacífico ou fantoche da guerra?

A negação da indústria da guerra e da decadência que ela produziu surgirá no tempo em que se tornar madura uma consciência realmente pacifista, que não seja mero contraponto produtivo – antagonista forjado para justificar o uso da violência.
O falso pacifismo – exemplo bem acabado de falsa negação da decadência – é aquele que propõe paz como negação de todos os conflitos, algo totalmente imaginatório, uma vez que a vida se instituiu e se nutre do conflito.
O verdadeiro pacifismo, como afirmação da esperança de um novo começo, nutrido da decadência absolutamente necessária em que estamos inseridos, é o reconhecimento do conflito e da convivência com os antagonistas como única forma possível de harmonia construtiva.
A consciência desse pacifismo surgirá no momento em que for possível transformar a máquina produtora de guerra em algo que produza uma nova forma de lidar com os conflitos, tanto internamente, na doença, quanto externamente, na guerra.
A reafirmação do expansionismo do padrão consumista que nos fascina hoje não aponta nessa direção.
Assim como não aponta nessa direção a injeção de mais crédito para a indústria automobilística, num momento em que o excesso de veículos transforma em inferno a vida das cidades no mundo inteiro.
Realimentar essa indústria é reafirmar a decadência e não superá-la.
Até onde chegou, Obama sugere mais um fantoche superdotado na arte da oratória, treinado e aperfeiçoado no domínio das palavras: um apresentador de TV que dispensa o teleprompter.
Se ele é mais do que isso, se por trás dele existe um movimento de superação da consciência decadente em que estamos mergulhados, ainda é cedo para saber.

O golpe do dólar a galope

Cuidado!

A valorização do dólar frente ao real pode representar tremenda armadilha, enquanto vai impondo desorganização geral na economia, com destaque, nesse momento, para a deterioração das relações Brasil-Argentina, por exemplo.

O ritmo da desorganização imposta por tal valorização coloca a produção, o consumo e o trabalho diante de conflitos inevitáveis, cujo resultado será sucateamento do patrimônio nacional.

A quem interessa isso?

Não seria um golpe essa valorização? Tira-se o dinheiro daqui, a pretexto de liquidar posições em dólar lá fora,  para desvalorizar o real, a fim de que, no momento seguinte, com a moeda nacional fragilizada,  seja possível arrematar ativos na bacia das almas.

Por que o aplicador sairia daqui, onde está faturando, com a economia funcionando, tornando-se  âncora contra depressão global, para tomar prejuízo onde a economia parou, como na Europa, nos Estados Unidos e no Japão?

O dólar aqui aplicado tem mais risco de ganhar ou de perder? Estaria mais ou menos seguro se for para praças onde a paralisia econômica se instalou?

Essa é a questão objetiva

Os governantes dos países ricos pregam o oposto do percurso do dólar que sai do Brasil para outras paragens, nesse instante. Eles defendem investimentos nos países emergentes para que se transformem em consumidores dos produtos industrializados, estocados nos países ricos, gerando prejuízos com sua manutenção, sinalizadora de deflação.

A desvalorização do real abre espaço para os investidores, sob os juros altos, dominarem amplamente o cenário nacional, comprando barato empresas nacionais com o dólar cuja fuga é estimulada para que tal objetivo seja mais facilmente alcançável.

Onde estaria o risco de manter aplicações produtivas no Brasil, se nosso mercado interno torna-se a âncora geral das atividades produtivas diante do fechamento dos mercados externos, afetados pela escassez consumista decorrente do colapso do crédito?

 

Golpe armado à luz do dia

As empresas estão perdendo dinheiro lá fora e ganhando aqui dentro, até agora. Olha o caso da GM. Nos Estados Unidos, falência; no Brasil, vendas em andamento, em meio à recuperação do crédito pós-colapso de 15 de setembro, quando as linhas creditícias para o país foram interrrompidas, completamente.

A lógica diria que se o aplicador está ganhando aqui e correndo perigo de perder lá fora, por que ir prá lá, onde, possivelmente, tomará prejuízo, em vez de ficar por aqui onde está ganhando? Tem caroço nesse angu.

Onde estão as melhores oportunidades de investimento no mundo nesse momento?

Na Europa, onde circula o papel podre que os americanos repassaram nas transações imobiliárias por meio de derivativos dolarizados?

Nos Estados Unidos, onde os consumidores estão sob ataque da justiça , para reaver seus bens que não estão sendo pagos em face da escassêz creditícia?

Onde Gerdau Johanppeter manteria, prioritariamente, seus investimentos, nas suas siderúrgicas brasileiras, cuja produção atenderá as demandas do PAC ou nas que possuem nos Estados Unidos, onde a escalada do desemprego e do consumo sinaliza queda da taxa de lucro empresarial?

Brasil e América do Sul são os melhores alvos dos novos investimentos mundiais. Dispõem de base industrial moderna e matérias primas abundantes para abastecê-la.

 

Vantagem comparativa inigualável

Importantíssimo: na crise, o Brasil não é comprador, é vendedor. Se vende para si mesmo, da produção metálica e petrolífera, para a indústria de transformação, sem precisar pagar fretes internacionais, dispõe de vantagem comparativa superior aos países carentes desses fatores produtivos, relativamente, escasses, cuja cotação tende a se elevar, diante da manufatura, cuja cotação tende, graças à concorrência imposta pelo aumento exponencial da produtividade, a diminuir.

Vantagem não apenas econômico-financeira, mas geo-estratégica-política. Tais evidências fundamentais são fatos que levam ao questionameto da razão do porque da excessiva valorização do dólar, que se desmoraliza, crescentemente, quanto mais se ampliam os deficits americanos, generalizando consciência da falta de qualquer lastro real para moeda de Tio Sam.

Brasil e América do Sul, cujo lastro não é moeda podre, mas riqueza real, dispõem de vantagens comparativas que precisam ser exploradas por decisões políticas.

Se os governantes dos países ricos rompem regras pré-estabelecidas, para buscar o crescimento como forma de fugir da ameaça da pobreza, por que os governados dos emergentes se renderiam a elas, para se afundarem?

Se eles, os ricos, com suas moedas abaladas pelo excesso de oferta monetária derivatizada dolarizada, descartam tais regras, continuar a adotá-las por parte dos emergentes seria pura burrice.

Petróleo, metais, energias renováveis, terra, regime regular de chuvas que assegura até três safras anuais, biodiversidade infinita, turismo tropical, base industrial forte, classe empresarial diligente etc são lastros reais disponíveis pelo Brasil e pela América do Sul sobre os quais podem ser sacadas moedas fortes. Trata-se de riqueza mais valorizada que os papéis fictícios que tendem a virar poeira nas praças americana e européia.

Quem tem valor real? Os títulos brasileiros ancorados em riquezas nacionais palpáveis, ou os títulos dos países ricos ancorados em moeda carente de qualquer lastro, desacreditadas, despalpáveis?

 

JK não dormiria no ponto com dinheiro disponível

A bancarrota financeira demonstra que o objeto, a aparência, a moeda deslastreada, domina o sujeito, a essência, mercadorias determinadas pela relação capital-trabalho. Valor que se realiza dominado por anti-valor que de autodestroi.

Tal situação requer, sobretudo, decisão e coragem política para ser rompida.

A crise de liquidez mundial, nesse início de século 21, coloca em cena completa inversão dos fatos. Os ricos estão ficando pobres e os pobres dispondo de oportunidades de ficarem ricos.

Falta-lhes, apenas, decisão política, difícil de ser afirmada por cabeças – as lideranças nacionais – que sempre pensaram pela cabeça dos outros, colonizadamente.

Com quase R$ 600 bilhões de reservas e depósitos compulsórios disponíveis, JK ia jogar , pelo menos, a metade disso na infra-estrutura nacional, criando expectativas internas que eliminariam o sentimento derrotista que a crise americana espalhou pelo mundo.

O presidente Lula nem tem mais tempo de gastar esse dinheiro, senão comprometer os recursos, para que o seu sucessor, seja quem for, continue a obra. É hora de UNIÃO NACIONAL para traçar esse projeto, no momento em que o Brasil dispõe das vantagens comparativas indispensáveis.

Os economistas, nesse momento,  têm que ser colocados no baú das raridades. 

A inversão dos fatores dinãmicos da economia que a crise coloca em cena exige afirmação da riqueza real diante da falsa riqueza fictícia, que tenta escravizar, pelo pensamento, a produção e o consumo, como se fosse mais importante do que ambos.

Os árabes deram o exemplo dessa soberania política de afirmação da riqueza real árabe sobre a moeda que a cota, o dólar, no mercado internacional.

Antes do estouro monetário gerado pela implosão do mercado imobiliário americano,  contribuiu para que o estrago fosse apressado a decisão dos governos do golfo em aumentar o preço do barril de petróleo, de forma oligopolizada.

Compensaram , dessa forma, a defasagem cambial decorrente das importações cotadas em euro valorizado em relação ao dólar desvalorizado pelo qual o petróleo é cotado, internacionalmente.

Por que, dispondo de riqueza real, seriam prejudicados por uma riqueza que é mera ficção, a moeda desvalorizada pelos deficits americanos?

 

A armadilha da dívida em ação

O que tem a ver essa conjuntura com a fuga dos dólares do Brasil, deixando o real sobredesvalorizado, sob ameaça de um dólar artificialmente sobrevalorizado?

Não há lógica tal fuga, se a moeda americana, exposta aos deficits destrutivos do Tesouro dos Estados Unidos, encontra-se sob sério questionamento geral no plano global, como instrumento capaz de continuar dando as cartas no plano cambial como equivalente geral de trocas internacionais.

O desafio do presidente eleito Barack Obama é, justamente, esse: recuperar o dólar.

Como?

Viria por aí o repetecto do juro alto aplicado em 1979 por Paul Vocker, cotado para voltar, que quebrou a periferia capitalista na década de 1980, em nome do combate à desvalorização da moeda de Tio Sam, produzida pelos deficits gerados pela guerra fria e guerra do Vietnam, como armas para combater os comunistas?

Onde estariam os neo-comunistas, agora?

Mais uma razão para temer a onda de valorização excessiva do dólar. Quando vier a subida dos juros nos Estados Unidos, com Obama, para tentar salvar o dólar, podem apostar: as empresas dos países sul-americanos ficarão mais vulneráveis, para serem compradas pelos dólares que fugiram. Armadilha da dívida à vista

 

Sucateamento e dependência

 

Muito cuidado, portanto, com o dólar que está fugindo para enfraquecer, astutamente, o real, a fim de voltar depois comprando tudo barato.  A hora não é para brincadeiras. Está em jogo o patrimônio nacional, tanto as riquezas primárias quanto as secundárias e terciárias.

A visão jurista do Banco Central, de insistir numa meta inflacionária draconiana, quando o governo está com o cofre cheio de dinheiro , para investir, com o pre-sal para ser explorado, tanto por capital interno, como externo, é temerária.

Apostar no remédio doido de que juro alto combate inflação e descartar o bom senso de que seria melhor conter pressões inflacionárias apostando no incremento da produção e do consumo, com poupança nacional disponível, em forma de reservas e depósitos compulsórios, é dar tiro no pé.

Pior: é dar dinheiro para banqueiro entesourar. Entesourar, como disse, Sócrates, é empobrecer.

Somente o juro mais baixo e o gasto público mais alto , para girar a economia e manter crescente a arrecadação, capaz de produzir novos investimentos, representariam solução segura, em meio às incertezas gerais, mediante as quais as receitas tradicionais são amplamente questionáveis.

O mercado interno é a galinha dos ovos de ouro que o juro meirelliano podem matar.

Neo-poder multilateral exige nova mídia

Domenico de Masi, sociológo italiano, autor de “O ócio criativo”, no domingo , 09.10, disse, em entrevista ao repórter Roberto D’Ávila, em Conexão Internacional, que deixou de ler jornais. Prefere o rádio. Na Itália, destacou, a profissionalização radiofônica é fantástica. O ouvinte dispõe de programação ampla que supre todas as necessidades dos que desejam se informar e se divertir.

Por que os jornais deixaram de interessá-lo? Tornaram-se repetitivos em excesso. Ler um é ler todos. Pão de queijo sem queijo. Não suprem mais necessidades de espíritos mais exigentes. Não possuem fôlego para maiores mergulhos, temerosos de não conseguirem voltar à tona.

O lastro deles é comum. Uma mesma argumentação para uma problemática complexa, como se a uniformização e homegeneização fossem verdades do processo social.

Fazem o que Keynes fez com a economia: redução da unidade de salário relativamente à unidade de trabalho, de modo que o aumento do nível de emprego lance impressão de distribuição de riqueza a partir do sentido homegeneizador da realidade. Ilusão, safadeza.

É isso. Os jornais, essencialmente, têm um projeto editorial comum, isto é, homogeneizar a consciência social, como se a sociedade capitalista não fosse dividida em classes sociais antagônicas em seus interesses econômicos constrastantes.

Se o aumento de uma unidade de salário a menor para uma unidade de trabalho a maior proporciona elevação do nível de emprego, homogeneizam-se os interesses, como se a média fosse a verdade e não as diferenças concretas colocadas pela realidade.

Um editorial do Estadão, da Folha, do Globo, por exemplo, é uma só pasta sem sabor, insossa. Onde estão as diferenças humanas, dadas pelas características sociais determinadas pelo desenvolvimento do capital em sua caminhada rumo à sobreacumulação, à formação das bolhas especulativas e, consequentemente, à explosão das expectativas super-dimensionadas?

Não foi possível, desde setembro até agora, quando estourou a crise, jogando o sistema capitalista para o ar, ler nos jornalões uma resenha crítica decente do capitalismo em sua essência autodestrutiva. Fugiram da verdade como o diabo da cruz.

Por que?

Evidentemente, porque os jornais, sensaboria nenhuma em suas linhas editoriais tortas e alientadas, não se mostraram dispostos a ser verdadeiros relativamente aos leitores. Tentam não formar , mas desinformar opiniões, eternizando-se em suas próprias contradições.

Quando tudo estava, teoricamente, dando certo, não tinha o que discutir. Quando, agora, tudo, praticamente, dá errado, não há porque discutir. Nem po-den-do, como diz o humorista global.

 

O negócio é mentir

Os teóricos mais abalisados, como Keynes, por exemplo, destacaram que o negócio não é a verdade, mas a utilidade, por isso, o essencial é fingir. Fernando Pessoa foi na mesma linha ao destacar que o ser humano é um fingidor nato. O autor de “Teoria Geral do Juro e da Moeda” fingiu, mas não conseguiu esconder de todo a verdade, que não se vê nos editoriais do poder midiático.

O lastro real das relações de troca, na economia monetária, dada pela moeda fictícia, disse, deixou de ser convenientemente riquezas reais, palpáveis, para ser a construção abstrata da taxa de juro. Isso está claro na entrevista que ele deu ao repórter e economista Santiago Fernandes, do Jornal do Brasil e do Banco do Brasil, em 1944, em Bretton Woods, transcrita em “A Ilegitimidade da Dívida Externa do Brasil e do III Mundo”, editora Nordica, 1985.

Vale dizer, os países ricos, vencedores da guerra, com os Estados Unidos à frente, ditaram o poder através das suas moedas na fixação da divisão internacional do trabalho. Emprestadas a juros, elas fixam o que Marx chamou de dominação internacional por meio da dívida externa.

A deterioração dos termos de troca são estabelecidas, então, não a partir do poder das mercadorias em si, mas da sua representação fictícia – fetichismo das mercadorias – , imposta ideologicamente pelo poder monetário dominante. Promovem trocas fixando senhoriagem cobrada pelo poder emissor.

Mas, agora, quando se vê que esse fetichismo está exposto à desmoralização total, os economistas que fazem a cabeça da grande imprensa não ressaltam que a deterioração dos termos das relações de troca se vira pelo avesso, com o poder se deslocando das moedas para as mercadorias.

Ficou clara essa jogada, quando os árabes, antes do estouro da crise destrutiva em curso, decidiram subir o preço do barril de petróleo, cotado em dólar, para pagar importações cotadas em euro, como forma de compensação por perdas cambiais. Impuseram a inflação que, na desaceleração, ameaça virar deflação.

Evidenciou o óbvio, a moeda fictícia não é o poder,  mas sim a mercadoria da qual todos necessitam a partir de uma ação política do cartel do petróleo.

Assim, o Brasil – e a América do Sul – , por exemplo, que têm todas as mercadorias disponíveis, em relativa escassez, que eleva o preço, para atender a manufatura mundial, relativamente, abundante, em razão do desenvolvimento científico e tecnológico, que aumenta a oferta e diminui, consequentemente, sua cotação, disporiam de vantagens comparativas no novo cenário de destruição da moeda pela especulação desenfreada na sobreacumulação de capital.

Por que não se discute isso na grande mídia, dominada pelo poder monetário fictício?

 

Falsos líderes cultivados por velha mídia

O espaço está aberto para o novo debate, no momento em que o G 20 se transforma no neo-poder multilateral global. FHC, em recente encontro do PSDB, em Brasília, destacou esse novo perfil do capitalismo global, no contexto da desmoralização da ficção monetária. Inverteram-se os termos das trocas cambiais no plano da superação do unilateralismo ditado pelo dólar que , afetado pelos deficits americanos, sinaliza incapacidade de continuar sendo, sozinho, o equivalente monetário global. Sua expressão real, agora, é uma só: deflação, para os ricos, e inflação, para os pobres.

Mas, quem vai discutir, senão a imprensa, que não deseja essa discussão, mas, tão somente a eternização de conceitos que o vendaval financeiro destruiu?

Uma nova imprensa é reclamada, urgentemente, pelos novos tempos. A que está aí poderá ser ultrapassada, porque não atende a sede de exigência imposta pela nova correlação de forças que emerge dos escombros de uma velha ordem que se esvai.

Certamente, o caos terá que se aprofundar até não poder mais, para que da terra arrasada saiam espíritos renovados pelo sofrimento, que puxa a consciência da sua própria miséria, estabelecida pela divisão intrínseca fixada pela propriedade privada alienante.

O resultado da reunião do Grupo dos 20 é a materialização do fim do Grupo dos 7, cujas certezas estão sendo ultrapassadas. O G7 , depois da queda do Muro de Berlim, tentou eternizar o unilateralismo dos ricos. Querer dizer que somente os Estados Unidos fizeram e aconteceram de 1989 até agora, no auge no unitaleralismo, é falso. O Grupo dos 7 foi o avalista amplo das ações de Tio Sam.

Se, de alguma maneira, os aliados, cinicamente, berraram contra a invasão imperialista do Iraque e do Afeganistão, em busca dos terroristas, que teriam explodido as torres gêmeas, algo que ainda a história não comprovou, ficando, por enquanto, no território das afirmações sem provas cabais, no geral, avalisaram o unilateralismo econômico, que, na prática, revelou-se, igualmente, terrorista em suas destruições generalizadas.

Barack Obama, antes de tocar as duas guerras em curso, terá que priorizar o combate a guerra interna, nos Estados Unidos, muito mais destrutiva – auto-destrutiva -, que empobrece, violentamente, a população, pela ação do capitalismo predatório, sustentado na ficção monetária, cujos efeitos políticos são incognita.

O neo-poder mundial, expresso na emergência do Grupo dos 20, é esperança para renovar o pensamento midiático alienado pelo capital fictício que vendeu como eterno o que não passou de meramente efêmero.

 

O suicídio passa a ser solução

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A efemeridade vazia demonstrou ser característica básica da grande mídia, a ponto de, agora, o prêmio nobel de economia, Paul Krugmam, queridinho do poder midiático, destacar que a virtude do capital para a ser a destruição do próprio capital. A prudência dos medrosos se transforma em opção suicida. O suicídio passa ser a solução para o capitalismo.

Os editorialistas, amarrados em pontos fixos e prisioneiros do circulo de giz ideológico em que se encontram,  não sabem mais o que escrever, como demonstram suas elocubrações cheias de obviedades falsas.

 As teses do mercado único foram para o espaço. Ficam, agora, para consideração dos editoriais, em seu cinismo parcial, uma nova espécie de mercado, cuja face não se sabe bem qual é, reclamada e realçada na reunião desse final de semana, em Washington.

Tudo ainda está meio sonolento. Porém, uma coisa está clara: a sobreacumulação de capital, sem limites, sem regras, dada pela moeda fictícia, carente de lastro, sofreu baque espetacular, cuja recuperação, a partir das bases da própria ciência econômica capitalista, torna-se problemática.

O cenário impõe, consequentemente, discussão política ampla, que a grande mídia se recusou até agora promover, porque ela é parte da sobreacumulação que explodiu com os seus próprios pressupostos.

Regulamentação e transparência para a ação do capital, essencialmente, acumulador, serão as melhores(ou únicas) alternativas, se a lógica da sua existência é a produção de crônica insuficiência de demanda global, que leva o sistema à especulação e à intrínseca necessidade da negação da regulamentação e transparência?

Ou haverá que se discutir, politicamente, como melhor distribuir a renda, como forma de evitar que a especulação ressurja em novas bases?

Cartazes de protestos contra o sistema, nas grandes cidades americanas e européias,  dão conta de que os líderes levaram a humanidade a um beco sem saída. 

O multilateralismo, que se afirma no fortalecimento do G 20, levaria a grande mídia cínica a rever seus conceitos ou vai tudo continuar como antes no quartel de Abrantes?

Os jornalões seguirão seus passos errados até perder leitores, como expressão da sua falta de utilidade, como destaca Dominico de Masi, ou cairão na real, para salvar as aparências?

Banco assalta consumidor e gera desemprego

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os bancos estão sendo vítimas de assaltos de bandidos, mas, eles, também, estão assaltando os consumidores. O assaltado é, igualmente, assaltante. O dinheiro dos depósitos compulsórios que o governo, por meio dos bancos oficiais, Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil, está repassando a juro zero aos bancos e financeiras privadas, para financiar o crediário, na compra de bens duráveis e apartamentos, está espantando o consumidor. Quem tomá-lo, nas atuais circunstâncias, estará sendo, literalmente, garfado.

Os juros subiram, incontrolavelmente, nas lojas e corretoras pelo país afora. O crédito pessoal está na casa dos 100% ao ano e o cheque especial no cartão magnético passou dos 10% ao mês. Os empréstimos para as empresas passaram dos 45% ao ano para mais de 75%. O juro básico selic, de 13,75%, o mais alto do mundo, demonstra dispor de poder de alavancagem dez vezes maiores, quando a realidade se transporta para o mundo movido a crédito na indústria, no comércio e nos serviços. Alavanca do subprime creditício nacional, generalizando o assalto. E ninguém vai preso.

Só o BNDES está se transformando em tábua de salvação geral para a produção. Passou a emprestar a 1,18% ao mês para investimento industrial e comercial e a 0,5% no cartão BNDES. Créditos na casa de R$ 50 mil saem rapidamente, nesse instante, depois das pressões feitas pelos empresários, desesperados na escassêz de dinheiro.

Endividar-se com o dinheiro repassado pela Caixa às financeiras privadas é comprar a corda para ser enforcado, principalmente, porque os horizontes, para o consumidor, ficaram nublados.

O assalto financeiro a ele, com as prestações mais caras e os prazos de pagamento mais curtos, traz o perigo de desemprego e reforça, consequentemente, o espírito anti-consumista, quanto mais altos estiverem os juros.

O presidente Lula, na terra do Papa, essa semana, pregou aumento do consumo ao povo brasileiro. Porém, seu discurso, na terra do juro barato, Itália, Europa em geral,  ficou sem substância na sua terra do juro caro. Mantida tal situação, o desemprego, pior dos mundos para os trabalhadores, cresceria e a popularidade presidencial minguaria.

Se as eleições municipais, recentes, demonstraram a pequena força do presidente para transferir votos, debaixo da sua imensa popularidade, num contexto em que seu prestígio popular caísse, fortemente, em face de possível avanço do desemprego, desapaceriam as possibilidades de fazer a  ministra Dilma Roussef, da Casa Civl, sua sucessora, preferida confirmada em Roma, em meio às bençãos papais.

 

O governo perde controle sobre especuladores

As indústrias, sem mercado, diante da queda de rentabilidade, dada pelo aumento dos custos operacionais, não apenas suspenderão investimento, mas aumentarão as demissões. Em outubro, conforme divulgou a Federação das Indústrias de São Paulo(Fiesp), 10 mil postos de trabalho viraram fumaça – queda de 0,13% no índice de emprego da indústria paulista.

A atitude empresarial, por sua vez, é um tiro no pé da própria empresa, porque , sem apetite para os investimentos, num quadro de desaceleração do consumo, seus papéis, na Bolsa, despencam.

Os custos operacionais do negócio sobem relativamente à taxa de lucro, sinalizando bancarrota, que se expressa em juro mais alto para a produção, por conta do risco falimentar, determinado pelo colapso do consumo.

A semana demonstrou que a estratégia do presidente de repassar dinheiro público para as financeiras privadas dinamizarem o consumo foi completo fracasso. O rítmo veloz da crise exigirá, no inicio da semana, providências urgentes de correção de rumos.

O titular do Planalto voltará de cabeça cheia de Washington, onde, nesse final de semana, o Grupo do 20 reúne para debater a crise e a saída para ela sem que ninguém saiba quão o tamanho do problema que ela desatou, econômica e politicamente, no cenário global.

A sucessão do presidente Lula vai se dar, mantido o rítmo dos acontecimentos, nos próximos meses, em precipitações econômicas e políticas incontroláveis, especialmente, se o aumento do desemprego levar às greves, como fruto dos juros altos que espantam os consumidores e sinalizam desemprego. Pensamento de esquerda tenderia a ganhar força.

Os questionamentos estarão se avolumando no compasso da desaceleração global. As próximas eleições testarão os governos sociais democratas europeus, como ocorreu, nos Estados Unidos, com a vitória de Barack Obama. Foram favoráveis à ascensão do primeiro presidente negro à Casa Branca os estragos que a crise provocou no governo W. Bush, estendendo seus efeitos desestabilizadores para o candidato republicano, John MacCain.

 

Crise favorece inflação e esquerda

A esquerda democrata nos Estados Unidos ganhou maioria no Congresso, na Câmara e no Senado. Na crise, terá que escrever sua história, pautada no discurso obamista da mudança. A social-democracia europeia tenderia a caminhar no mesmo sentido, especialmente, em razão da elevada consciência política do povo, o mais bem formado e sofrido, pelas guerras? As passeatas que começam a ser esboçadas na Espanha e na Argentina demonstram o potencial político explosivo detonado pela grande crise.

Correntes esquerdistas terão diante de si novas oportunidades, no rítmo da queda dos investimentos e do avanço do desemprego. No Brasil, a esquerda estaria preparada para chegar lá?

A ex-senadora e vitoriosa vereadora alagona, Heloísa Helena, que não teve espaço em 2006, teria em 2010, bradando contra o colapso do mercado, que levou o consumidor à incapacidade de consumir, dada a dominação financeira na condução do processo produtivo?

Nesse  ambiente em que todas as certezas se evaporaram e todas as teses econômicas são amplamente questionadas, vai, curiosamente, se destacando que a inflação, como já disse Keynes, passa a ser a solução e não o problema. Ou seja, a “Unidade das soluções”.

A recomendação dos ministros de economia e presidentes dos bancos centrais, em São Paulo, na última semana, na reunião do G 20, que deverá ser reiterada na  reunião, em Washington, nesse final de semana, é a confirmação da tese inflacionária. Que os governos gastem mais.

Vale dizer, como o governo é, sob a economia monetária, dominada pela moeda estatal, o emissor e entesourador geral do sistema capitalista, caracterizado pelo economista inglês, John Maynards Keynes, como a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, o aumento dos gastos governamentais passam a ser o instrumento de combate à crise.

O aumento da quantidade de oferta de moeda no meio circulante pelo agente estatal verdadeiramente independente, segundo Keynes,  gera, simultaneamente, 1 – aumento dos preços; 2 – redução dos salários(diminuição da unidade de salário relativamente à unidade de emprego, que se traduz, homogeneamente, em aumento da oferta global de mão de obra); 3 – diminuição dos juros e 4 – perdão da dívida empresarial contraída a prazo. 

Ou seja, emerge quadro inflacionário salvacionista – que reduz salário e eleva lucros – com solução de paz política diante da alternativa destruitiva de política de guerra que se expressaria na emergência do seu oposto, ou seja, quadro deflacionário, que destroi capital e trabalho. Escolha de Sofia.


Obama pede união; Lula seguiria? 

Em meio ao terremoto financeiro, que leva a uma corrida especulativa contra o real, estimulada, adicionalmente, pela resistência dos bancos em comprar títulos públicos pelo custo oferecido pelo governo, tentando impor seu preço caro, o presidente Lula não consegue efetivar suas medidas anti-cíclicas.

Tenta, inutilmente, repassar dinheiro do contribuinte a custo zero para os banqueiros que resistem a diminuir o custo do dinheiro para o consumidor puxar a demanda global empoçada na inexistência do crediário em condições satisfatórias.

Os bancos impõem seu jogo e subordinam a ação estatal. A prova dessa subordinação é a super-permanência do juro em ascensão, apesar das medidas e dos discursos. 

O panorama econômico, pelo que demonstra a realidade, altamente, volátil, deixou de ser conduzido por regra estabelecida. Os governos poderão precisar, rapidamente, formar gabinetes de crise, para coordenar programas e diagnósticos que poderão ser pura experimentação, sujeitas a chuvas e trovoadas.

A política reclamaria mais espaço, naturalmente. Barack Obama já joga essa alternativa. Abriu espaço para os republicanos governarem com os democratas. Sozinho poderá não dar conta do recado. 

O presidente Lula teria fôlego ou precisará agir na mesma direção?

Em Roma, abençoado pelo Papa, o titular do Planalto, questionado pelas ações anti-ciclicas tomadas por governos oposicinistas de José Serra e Aécio Neves, em ação politicamente sucessória, visando 2010, fez chamamento aos governadores.

O que eles fizerem nesse sentido serão bem vindos. Significaria tal gesto que o governo poderá flexibilizar endividamentos estaduais de agora em diante, para abrir espaços aos investimentos e alianças políticas sucessórias?

Os governadores estarão, totalmente, sufocados pela ascensão dos juros e das pressões dos bancos em exigirem maires vantagens para financiar a dívida pública interna.

O Banco Central, sob monetarismo radical, suportará as pressões conjuntas de governo federal, governos estaduais e Congresso nacional, para flexibilizar a taxa de juro ou insistirá em nadar contra a corrente?

Meirelles prejudica Lula e detona Dilma

 

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está demonstrando que não tem competência suficiente para enfrentar a grande crise financeira que afeta o mundo e o Brasil, com uma violência que dispensa adjetivos.

O desemprego está batento à porta, com as empresas entrando em crise de realização do consumo na produção. O consumo desapareceu diante da escassêz de crédito, antes farto, mediante busca dele pelos bancos, grandes, pequenos e médios, para financiar o consumidor no crediário.

Sem o crédito, evidentemente, o capitalismo, que é regado no crediáro, vai para o buraco. A continuar a situação como está, o colapso vai ser geral, as grandes cidades, onde estão localizadas as empresas virarão um caldeiraão do inferno. Logo, logo surgirão greves.

Aliás, elas já estão pipocando. Na Espanha e na Argentina, operários estão indo às ruas protestar. O problema tende a se alastrar, gerando tensões políticas que poderão levar ao radicalismo perigoso e insustentável.

Nos Estados Unidos, se o presidente eleito, Barrack Obama, não pressionar o presidente W. Bush para tomar providências urgentes, os desempregados e desesperados das grandes indústrias irão para as ruas.

Nesse contexto, os governos, frente às pressões populares que se avolumam, estão recomendando uma receita inevitável, pautada pelo bom senso. Há necessidade de aumento dos gastos públicos. No Brasil, Meirelles condena tal estratégia.

 

Visão monetarista anula PAC

Na reunião dos ministros dos países do Grupo dos 20, em São Paulo, no último final de semana, evidenciou-se essa recomendação como um grito desesperado.

Quem, na economia movida papel-moeda, tem o poder de emitir dinheiro? O governo. Ele é que irriga a praça de moeda, para puxar a demanda. Só ele pode ser suficientemente proativo, para dinamizar a produção que está parada.

As mercadorias estão sobrando nas prateleiras dos supermercados. Inflação? Como, se não há consumo suficiente? Juros mais altos, para conter pressões inflacionárias?

Se as empresas estão sufocadas, mais aumento do preço do dinheiro gerará maiores custos que serão repassados para os preços.

Conter o consumo, agora, com juro alto, como tenta fazer o ministro Meirelles, é receita não anti-inflacionária, mas uma mistura explosiva de aumento de custo, inflação, com falta de consumo, deflação.

O Banco Central adota receita suicida, seguindo na contramão de todo o mundo. Na prática, ele está prejudicando o país e condenando o presidente Lula a uma situação vexatória, enquanto seus adversários, os governadores de Minas Gerais e São Paulo seguem recomendação oposta à receita meirelliana, para ter suas arrecadações, com incremento do consumo, aumentadas. Já a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, que precisa de mais arrecadação, para dinamizar o PAC, vê-se diante do perigo de desaceleração dos investimentos públicos.

O país dispõe de riquezas incalculáveis, reserva abundande, depósitos compulsórios elevados. São quase R$ 600 bilhões disponíveis. Para onde vai esse dinheiro?

Se depender do titular do BC, ficará entesourado nos bancos. Estes jogarão suas reservas, num ambiente de crise, não na produção, mas na especulação, como está acontecendo, enquanto as empresas morrem à mingua.

 

Adversários faturam politicamente na crise

O que o Banco Central precisaria fazer, nesse instante, é fixar normas para distribuir esse dinheiro, carimbando-o, emprestando por intermédio dos bancos públicos, pois, se ficar na mão dos banco privados, permanecerá empoçado. Eles deram provas disso, resistindo a cooperar com o presidente, para salvar os bancos pequenos e as empresas, com recursos mais baratos.

A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o BNDES, bancos oficiais, estão plenamente disponíveis para emprestar as reservas brasileiras para o setor produtivo, alavancando o mercado interno, como antídoto ao fechamento do mercado externo, que está paralisado, já que a moeda internacional, o dólar, está, claramente, deixando de ser equivalente confiável para as relações de troca.

Os deficits americanos inconcroláveis, não apenas empobrecem os americanos, mas deixam sua moeda como candidata a se transformar em papel podre.

O real vale muito mais que o dólar, nesse momento, porque o seu lastro disponível não é riqueza fictícia, especulativa, moeda pobre, mas matérias primas – petroleo, alimentos, , metais, energia, água, terras, biodiversidade, base industrial forte, mão de obra preparada e empresários competentes e diligentes.

Por que, baseada nessa riqueza real, o governo não emite para dinamizar, ainda mais os investimentos, atraindo, para cá, investidores internacionais e os nacionais?

Quem tem a moeda forte não são mais os países ricos, atolados na crise. Os Estados Unidos inundaram a Europa de papéis podres do mercado imobiliário que quebrou. O lastro do papel jogado para os europeus e asiáticos são empresas imobiliárias falidas. Tudo virou fumaça.

As grandes empresas americanas de automóveis, diante de uma moeda sem lastro, estão quebrando. Onde elas estão sobrevivendo? No Brasil.

Aqui, o lastro monetário dispõe de riqueza real. A tese de que o lastro monetário é dado pela taxa de juro fixada pela jogo da oferta e demanda da moeda predominante está deixando de ser verdade, porque essa moeda dominante está perdendo valor. Virou discurso. Se o governo emitir moeda, tendo seu lastro real como sustentação, vira o jogo.

 

América do Sul, nova rica do mundo

A alternativa a esse desastre monetário é a riqueza real sul-americana. Na América do Sul, os investidores internacionais dispõem dos melhores negócios do mundo para serem realizados. As matérias primas, que sobem de preço, porque são escassas, para movimentarem a manufatura global, que cai de preço, devido à concorrência internacional, estão no continente sul-americano.

Não é à toa que a GM está quebrando nos Estados Unidos, mas sobrevivendo no mercado interno nacional. Diante desse cenário, resta ao presidente Lula jogar na linha pregada pelos seus colegas europeus: acreditar no mercado interno brasileiro, aplicar aqui nossas disponibilidades financeiras – depósitos compulsórios e reservas cambiais.

Temos que ciscar para dentro, construir nossa infra-estrutura. Portos, estradas, plataformas, grande silagem, para que nossos produtos estejam disponíveis, aos preços do dia, para os compradores, nacionais e internacionais. 

O que vale não é dinheiro entesourado, que gera pobreza, para a maioria da população, porque não circula, e riqueza, apenas para meia dúzia de agiotas bancocráticos. O fundamental é dispor de produtos que, ao circularem, aumenta a riqueza social e a arrecadação do governo, com a qual realiza novos investimentos.

Trata-se de colocar dinheiro para dinamizar o consumo e a produção, para que haja ampliação da arrecadação. Não se deve distribuir as reservas disponíveis, para as empresas, mas para o consumidor.

As empresas, com o dinheiro em caixa, sem consumidor, fica com ele especulando. Na mão do consumidor, ele vai para a circulação, que favorece o governo, elevando os ingressos tributários no caixa do tesouro nacional. Tesoureiro que fica tomando conta do caixa não enxerga essa possibilidade-oportunidade.

 

Mais circulação, mais arrecadação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O exemplo do Programa Bolsa Família está aí mesmo. O dinheiro do pobre faz o nobre, mas o do nobre não faz o pobre. Tem razão o banqueiro dos pobres, Muammad Yunes, ao ironizar que o dinheiro dos ricos estão colocando o mundo em impasse, enquanto reclama que o governo brasileiro ainda não aprendeu emprestar para os pobres, que, consumindo, giram a produção.

Quando o governo emitiu dinheiro para colocar poder de compra nos cartões de crédito dos pobres, destinando-os ao consumo, a circulação de dinheiro aumentou e a arrecadação, consequentemente, subiu, a inflação caiu e a moeda estabilizou-se.

O mesmo deve ser feito, agora, com o dinheiro dos compulsórios, recolhidos em proporção exagerada, para gerar escassez e juro alto para os bancos, e das reservas cambiais.

Com esses recursos, Juscelino Kubistchek faria umas dez Brasília.

O ministro Meirelles é um bom tesoureiro, mas, de desenvolvimento, não entende nada. Está, simplesmente, condenando o governo a que serve ao completo fracasso. Favorece o destino político dos adversários do presidente e coloca em risco o daquela que quer fazer sua sucessora, a ministra Dilma Roussef.

O presidente Lula dispõe de reservas financeiras fantásticas que , se colocadas na produção, contribuirá, não apenas para promover o desenvolvimento nacional e sul-americano, em meio à crise global, mas, também,ajudará os demais países do mundo desenvolvido, que estão empobrecendo e passando a depender, fundamentalmente, dos emergentes.

Os Estados Unidos estão deixando de ser os grandes consumidores do mundo e ao mesmo tempo perdem mercado, interno e internacional. A primeira ministra da Alemanha, Ângela Merkel,  deu o recado claro: os ricos estão deixando de consumir, passaram a depender, com as mercadorias estocadas em seus países, do consumo dos países emergentes. Estes precisam de novos investimentos para serem os consumidores das mercadorias estocadas nos países do primeiro mundo, a caminho da penúria.

 

Ricos empobrecem, pobres enriquecem

A América do Sul, com sua imensa riqueza, é a nova rica do mundo e dispõe de cacife suficiente para dinamizar a economia mundial, não mais  como simples fornecedora de matérias primas baratas, explorada, colonizadamente, como sempre aconteceu ao longo da história.

Fundamentalmente, o desenvolvimento do mercado consumidor sul-americano e suas matérias primas passaram a ser indispensáveis à manufatura mundial, que está empoçada, junto com o crédito, nos países ricos.

Na reunião, em Washington, no próximo final de semana, do Grupo dos 20, esse recado deve ser dado, claramente, pelo presidente Lula, que, por sua vez, deve levantar, com vigor, o tema dentro da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, em favor de uma ampla coordenação sul-americana em prol do desenvolvimento sustentado sul-americano.

Trata-se de dar, logo, o pontapé da criação de um banco continental, de uma moeda sul-americana e, na sequência, de um parlamento sul-americano, para que haja imediata conscientização política da sociedade sul-americana sobre o papel que cabe à America do Sul, no novo momento mundial.

Ela pode se transformar na grande receptora dos novos investimentos internacionais, de modo a produzirem riquezas que contribuirão para minimizar os efeitos da grande crise em curso, que deixa os ricos mais pobres, enquanto os mais pobres dispõem de condições se se transformarem nos novos ricos, dentro de uma nova filosofia de cooperação internacional.

O ministro Meirelles, que só pensa em entesourar dinheiro, não demonstra suficiente descortínio para ver, além do controle de caixa, as grandes potencialidades e oportunidades econômicas brasileiras e sul-americanas, capazes de exercer, na nova conjuntura, papel decisivo, capaz de tirar o mundo do atoleiro criado pelos especuladores financeiros, aos quais Meirelles, com os juros altos, tem se aliado.

Ah, se o Brasil tivesse um JK, nessa hora!