Lenin no comando do capitalismo em crise

O que está despecando na crise capitalista global é o neoliberalismo ou o keynesianismo americano? Discute-se sobre se os Estados Unidos são liberais, que o liberalismo é a lição deles para o mundo. Será?

Olha o que acaba de acontecer. A propriedade privada está sendo garantida não pela iniciativa privada , mas pela iniciativa estatal, não mais capitalista, mas, essencialmente, socialista, com dinheiro do contribuinte, que pode pagar o pato, embora a sua salvação seja a justificativa da ação estatal americana socializante.

Lênin está no comando do neocapitalismo pós-neoliberal, como destaca o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, em entrevista revista Brasília Em Dia. A solução chinesa, de combinação entre socialismo e capitalismo não é maoista, diz, mas leninista, ditada aos agricultores, em 1922, no auge da crise russa: “Agricultores, ide e enriquecei-vos”.

O líder sovíetico, que sabia bem a lição de Marx de que o socialismo somente emplacaria depois de plenamente desenvolvidas as forças produtivas sob capitalismo, sendo, portanto, necessário o Estado, com sua moeda, conduzir o processo capitalista, deu a díca a W. Bush, no auge da crise financeira , na semana passada, quando o governo americano estatizou a maior seguradora privada americana, a AIG.

Evitou catástrofe política, social e econômica nos Estados Unidos.

As crises monetárias, que destroem o valor das moedas, eliminam, segundo Lênin,  as seguranças psicológicas, diante de perdas bruscas de patrimônio, emocionalmente, desequilibrantes, e predispõem os indivíduos às mudanças politicamente bruscas. Keynes considerou sutil a mente do líder soviético, e apavorou-se.

Esse, na sua avaliação, é o momento ideal para o movimento socialista internacional. Diante das crises monetárias, a solução, frisou Lênin, é a estatização do crédito como contrapartida ao oligopólio financeiro privado, recomendação idêntica feita por Jack London, em Tacão de Ferro, prefaciado por Trotski, em 1910.

A AIG, por acaso, não era oligopólio privado, que não deu conta do recado, sendo estatizado em nome do interesse público?

Caso contrário, emergiria explosão monetária, explosão política, fim do capitalismo, reemergência do socialismo, que mostra não estar morto, mas submerso, expresso em oligopólio estatal triunfante sob W. Bush, mediante orientação leninista.

O presidente americano se transformou em leninista para evitar que o socialismo domine o capitalismo, mas lançou expectativas de que somente o capitalismo não é mais solução, na forma, agudamente, financeiro-especutiva que historicamente atingiu, configurando-se em loucura desatada.

Lênin antecipou Keynes que considerou o governo, com sua moeda estatal, depois do fracasso do padrão-ouro, vigente no século 19,  a única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, expressa na oferta estatal da quantidade de moeda em circulação, para irrigar a economia capitalista afetada pelas incertezas do mercado livre e pela falência neoliberal neoclássica dezenovecentista.

 

O livre mercado é uma ficção

 

Ao utilizar amplamente essa variável independente, diante da qual as demais são dependentes – emprego, salários, juros, dívida, câmbio, inflação etc – o governo, conforme Keynes, cria, artificialmente, o que denominou de eficiência marginal do capital, ou seja, lucro.

O lucro, por sua vez, desperta o espírito animal dos empresários diante de três efeitos decorrentes da ação monetária estatal expansionista: 1 – aumenta os preços, 2 – diminui os salários, 3 – reduz os juros e 4 – perdoa a dívida contraída a prazo, desvalorizando-a, até sumir , graças ao seu poder de, relativamente, regular o meio circulante.

Vale dizer, o empresário vira um animal empreendedor somente quando não precisa enfiar a mão no bolso.

A solução keynesiana, dessa forma, levando os empresários a investir, sem meter a mão no bolso, tirou o capitalismo da crise de 1929, a partir de 1936, quando o presidente Roosevelt decidiu seguir os conselhos de Keynes.

De lá para cá, os gastos governamentais incrementaram novo departamento na economia capitalista, o D3, gasto público, para puxar a demanda global, empoçada na falência dos dois departamentos que entraram na crise de 1929, o D1, produtor de bens de consumo , e o D2, produtor de bens de capital.

D3, gasto estatal, nascia para gerar demanda para D1 + D2, gastos privados, já que nem D2 nem D1, isoladamente ou juntos, conseguiram, sob o neoliberalismo clássico, manter-se de pé.

D3 surge para cumprir a profecia de Keynes para Roosevelt, de que o capitalismo precisava repetir a experiência da primeira guerra mundial, sob o argumento de que embora as guerras produzissem destruição, aumentavam o crescimento do PIB. Equilibrava as as relações capitalistas, impossíves de serem equilibradas sob o regime de livre mercado, lassair faire, implodido no crash de 29.

Armadilha da dívida pega os ricos

 

D3, estado em forma de capital, que dinamiza D1+D2, incapazes de se autodinamizarem, é opção inflacionária, que subsituiria a opção suicida deflacionária. A inflação fortalece o capital e aleija os salários. Mas, a deflação, presente na relação exclusiva de D1+D2, sem a presença de D3, destroi, tanto o capital como os salários. Escolha de Sofia.

A opção pela inflação foi compensada pela expansão da dívida pública, que passa a crescer no lugar da inflação, dialeticamente, como ensina Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”(1980, Ed. Campus).

Com uma mão o governo joga moeda na circulação e com a outra lança título da dívida pública para enxugar parte da liquidez monetária, a fim de evitar explosão inflacionária.

Esse modelo econômico keynesiano fez o  poder absoluto dos Estados Unidos mediante economia de guerra: guerra fria, guerra do Vietnan, expansão do saldo comercial, via câmbio dolarizado relativamente valorizado para se transformar os Estados Unidos em consumidor mundial.

Colocava, dessa forma, gás para recuperar a economia dos aliados – Europa e Japão – no pós-guerra, livrando-os, via aumento da dívida pública americana, das garras do comunismo soviético.

Tal estratégia durou dos anos de 1940 até 1970, com relativa solidez até que emergiu excesso de moeda na economia mundial. O que nasceu para negar o padrão monetário apoiado em reservas de ouro é, agora, negado por lançar dúvidas sobre a capacidade de a dívida pública continuar sendo a dinamizadora do capitalismo bancado pela ficção monetária. Negação da negação.

O excesso monetário, expresso em eurodólares, petrodólares, nipodólares etc, transformou-se em perigo de estouros monetários e lançou sombrias previsões sobre o capitalismo financeiro impulsionado pela liquidez monetária estatal sem lastro.

Os governos americano(Ronald Reagan) e inglês(Margareth Thatcher), ao final dos anos de 1970, deram arrocho geral, especialmente, na periferia capitalista. Em 1979, os Estados Unidos quebraram essa periferia, quando subiu de 5% para 17% a taxa de juro, para enxugar o excesso de liquidez global, que afetava a saúde do dólar.

De 1980 em diante, diz Lauro, os países ricos cairam na armadilha da dívida na qual antes jogavam os países pobres.

Invariavelmente, os países capitalistas desenvolvidos, sempre que emergiam crises de sobreacumulação de capital, função fundamental do próprio capital, que ameaça, no limite, o capitalismo, davam um jeito de desovar os estoques de dinheiro em excesso, emprestando para a periferia em forma de dívida externa.

 

Instrumento de dominação internacional

 

Marx, no século 19, percebeu a jogada que os ingleses armavam contra os países capitalisas periféricos, e considerou a dívida externa instrumento de dominação internacional.

Num primeiro momento, disse, a dívida dinamiza a economia; no segundo, por criar crônica insuficiência de demanda, no processo de acumulação, via juros, joga a economia periférica em crise de realização. Advém, então, ajustes monetários que empobrecem a população.

A tendência de transportar as crises de sobreacumulação do centro para a periferia se inverteu a partir da crise monetária dos anos de 1980, destaca Lauro em “Moeda e mercadoria: metamorfe e crise”. Como a subida brutal dos juros nos Estados Unidos, em 1979, quebrou a periferia, a prioridade do governo americano, na ocasião, foi a de evitar a quebradeira dos bancos americanos que possuiam negócios no Brasil e nos demais países capitalistas endividados da periferia.

O Consenso de Washington e o FMI passaram a agir coordenadamente para impor a nova ordem do unilateralismo econômico americano: liberar, desregulamentar, afrouxar geral para os rentistas, privatizar e arrochar a sociedade, para que, gastando menos, pague mais juros, via pesados superavits primários.

Em vez de entrar dinheiro, na periferia, o jogo armado foi o de tirar grana dela, quanto mais, melhor, para salvar os credores, que haviam emprestado demais, do sufoco.

Enquanto isso, na Constituição, os credores, com a ajuda intelectual do deputado Nelson Jobim, constituinte, hoje, ministro da Defesa Nacional, impunham sua vontade na nova ordem, expressa no art. 166, parágrafo terceiro, letra b, da Constituição de 1988. Aí está fixada a cláusula pétrea defensora do não contingenciamento de recursos orçamentários para liquidação dos serviços da dívida pública interna. 

Constitucionalmente, sob pressão dos Estados Unidos, a dívida pública brasileira se transformou no melhor negócio especulativo do planeta capitalista. Nesse ambiente, o crédito para os países da periferia escassearam. Só vinha para a jogatina na dívida pública, regada pelos juros mais altos do mundo.

Apesar dessa mamata, que criou, no Brasil, a chamada república bancocrática(Lauro Campos), ainda sobrava muito dinheiro nos países capitalistas ricos, para especulação desenfreada.

Onde iria se reproduzir? Não foi. Ficou no capitalismo cêntrico, mesmo. Surgiram as destruições financeiras, não mais na periferia, mas no centro do sistema.

 

A era da irracionalidade econômica

 

Como reproduzir a montanha de moeda que passou a acumular no capitalismo cêntrico, depois da crise monetária de 1980, enquanto no capitalismo periférico os capitais se escassearam diante do enxugamento neolibeal brutal?

Os ecomistas americanos e europeus, com a ajuda dos colegas no terceiro mundo e de uma imprensa que renunciou à crítica capitalista neoliberal, tiveram então que criar situações para ampliar a reprodução do capital a partir do próprio dinheiro acumulado. 

Depois dos eurodólares, dos petrodólares, dos nipodólares, nascidos no pós-guerra, sob o reinado do dólar,surgia, agora, os dólares derivativos, os derivodólares.

A totalidade dos derivodólares não poderia ir mais para a produção. Geraria deflação, jogando os preços para baixo, sob capitalismo, que precisa de relativa escassez para gerar tensão entre produção e consumo, de modo a elevar os preços e os lucros, na economia real.

Entretanto, como a economia real, desde a crise de 1929, tornara-se insuficiente para a reprodução ampliada do capital, tornou-se necessária a economia fictícia. O derivodólar caia bem.

Os dólares derivativos começaram, nesse período, pós crise monetária dos anos de 1980, a apartecer, para exercitar a função especulativa de esquentar negócios, gerando capitalismo de desastre, como destacam os economistas canadenses. Cassino global.

Nos anos de 1990, ressalta o ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Alan Greenspan, em “A era da turbulência”, a economia americana viveu aureo período de exuberancia irracional. Foi além da propria responsabilidade. Abusou do dinheiro. Mas, como este não aceita abuso, agora, deu o troco violento.

A crise imobiliária é apenas o último elo de uma cadeia que vem rebentando há mais de dez anos, sinalizando ciclos cada vez mais curtos de desastres.

O excesso de capital no centro, que não se deslocou para a periferia, é a volta do chicote no lombo de quem mandou dar.

O modelo keynesiano suportará dose maciça de sangria monetária estatal, para enxugar o excesso de liquidez que os dólares derivativos espalharam pelo planeta em montantes incalculáveis, ou sua capacidade, assim como a do neoliberalismo, para dinamizar a demanda global, exauriu-se?

Serão suficientes os 700 bilhões de dólares que o tesouro americano jogará no mercado para dar liquidez à atividade econômica, paralisada pelo empoçamento do crédito, que escasseou geral, dada a desconfiança no mercado bancário dos próprios bancos entre si, sabendo-se que estão todos quebrados?

A primeira grande crise monetária do século 21 demonstra claramente que o capitalismo não está mais nas mãos das forças produtivas, deixadas a si mesma, mas de posse da política estatal leninista, que influencia, nesse momento, decisões de W. Bush.

Big Bang capitalista afeta PAC lulista

O sistema capitalista está em risco, porque a sua parte podre, a dominação especulativa, geradora de renda para a parte boa sobreviver, ou seja, a parte produtiva, entrou em colapso com a implosão dos bancos, que financiaram os setores imobiliários nos Estados Unidos e na Europa, agora, envolvidos em bancarrota, levando de roldão o sistema bancário. Os ricos estão empobrecendo. Já foram jogados na fogueira da especulação 1,5 trilhão de dólares, valor correspondente a dois PIBs brasileiros. E, ainda, o fogo continua alto, requerendo doses maciças de socorro dos bombeiros, os bancos centrais, cuja convicção na tarefa de eliminar as chamas é, por enquanto, inexistente. Joga-se no escuro. Como fica o Brasil, nesse contexto? Apesar das autoridades se mostrarem excessivamente otimistas, uma coisa é certa: o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC – com o qual o presidente Lula pretende continuar dinamizando a produção, para gerar suficiente poder de confiança, capaz de permiti-lo fazer sua sucessora predileta, na eleição presidencial, em 2010, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, pode, junto com a economia global, desacelerar-se, também. Dez bancos de peso, na Europa e Estados Unidos foram para o buraco e os preços das ações dos 50 principais oligopólios financeiros e produtivos – mais fortes que muitos governos juntos – que valorizaram, no mercado, nos últimos cinco anos, caíram em torno de 90%, nas últimas semanas, demonstrando que tanto a produção como a especulação estão no mesmo barco. Simplesmente, viraram pó. O cassino financeiro global, que estava produzindo renda como coelhos se reproduzem, com a utilização do chamado mercado derivativo, em que moeda se torna parideira de moeda, sem que haja lastro real, deixou de funcionar nas duas praças econômico-financeiras mais poderosas, européia e americana. Está sinalizada a recessão forte, que afetará, globalmente, a todos, já que a interdependência financeira é um dado concreto da realidade global mutante em processo de aceleração destrutiva. Não foi possível suportar a dose de loucura que o capitalismo financeiro imprimiu às ações ultra-especulativas ao longo dos últimos cinco anos, no mercado imobiliário. Repetiu-se a mesma manobra que aconteceu nas grandes jogadas ousadas, que visam ganhar dinheiro fácil, sendo a maior experiência histórica, nesse sentido, a grande crise de 1929. Naquele ano fatídico, em outubro, o mercado emitia papel que era caucionado por valorizações especulativas do próprio papel, de modo a permitir novas compras de papéis, acompanhadas de seguidas sobrevalorizações especulativas, de modo a caucionar mais papéis podres, e assim por diante, até a implosão. Assim que os preços despencaram, os aplicadores não tiveram dinheiro para pagar suas contas. Muitos subiram nos últimos andares dos edifícios de Nova York e outras praças, para saltarem de cabeça, desesperados.

Momento de loucura do capital

A cena se repete, dramaticamente, agora, sem maiores suicidios, mas com grandes quebradeiras. Os aplicadores compravam suas casas com empréstimos bancários, as casas, inicialmente, tinham seus preços valorizados, tal valorização servia de caução para levantar novos empréstimos, a fim de comprar mais casas e apartamentos, até que o mercado sinalizou excesso de casas, ou seja, de bananas, no mercado, que começaram a apodrecer, jogando os preços para baixo. Quando a maioria dos compradores foi vender esses ativos, para pagar as prestações, os preços deles estavam pela metade ou menos, quantia insuficiente para quitar os papagaios bancários, acrescidos dos juros. Falência geral.
Nesse ambiente, de falência, os bancos cortaram o crédito e as indústrias, comércios e serviços, sem o oxigênio creditício entraram em desaceleração. Evidenciou-se que deixou de funcionar o mecanismo que mantém a economia capitalista mundial ativada, com os Estados Unidos desempenhando, historicamente, desde o pós-segunda guerra mundial, o papel de consumidor global maior, prioritário, a partir de emissão de papel moeda sem lastro, para, com seus deficites comerciais, gerar superavits comerciais nas demais economias do mundo.
Os bancos, desconfiados da inadimplência generalizada, resistentes a continuar o jogo do crédito direto ao consumidor, somado às desconfianças generalizadas dos consumidores, que, super-endividados, sem poder pagar suas prestações, em face das desvalorizações violentas dos seus ativos imobiliários, suspenderam as compras, perderam a função precípua do sistema bancário, simplesmente, porque começaram a falir.
A roda da fortuna havia quebrado. Se continuasse a situação como ficou, diante da falência dos consumidores endividados, o dominó da quebradeira se tornaria irresistível. O governo americano teve que entrar em campo, para praticar o discurso econômico que prega para os outros, mas não para si mesmo, ou seja, decidiu estatizar os principais agentes financeiros do setor imobiliário americano e a maior agência de seguros bancários do mundo. Já, outros bancos, também, importantes, nas áreas de investimentos, que estavam pela hora da morte, foram empurrados, sem dó, para a cova. Os bancãos viram banquinhos no correr da bancarrota financeira global.
O pânico se genralizou, até que, na madrugada de sexta-feira, o governo americano, exausto, abriu o bico e pediu água. A Casa Branca percebeu que, sozinha, não daria conta do recado. Solicitou socorro aos seis principais bancos centrais do mundo, para tentar salvar o capitalismo. Foram, emergencialmente, injetados mais 250 bilhões de dólares, para tentar acalmar o maremoto financeiro neoliberal, tocado pelo dólar derivativo, o derivodólar derivodoido, que ameaça virar papel de parede.
Ficou claro: o unilateralismo norte-americano, que emergiu depois da guerra fria, em  1989, colocando os Estados Unidos como o bam-bam-bam do mundo capitalista, dá lugar, com a coordenação financeira global, ao multilateralismo político e econômico global, demonstrando a redução do poder relativo do império americano no mundo. A Roma moderna está mais fraca.

Brasil na roda da loucura

A crise é, apenas, americana e européia, sem maiores transtornos para o Brasil, como tenta vender, de formar ufanista, o presidente Lula e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no auge da loucura especulativa implodida? Mentira.
A economia brasileira, igualmente, corre perigo, e pode ser fortemente afetada, apesar de o colchão de segurança contra ela ter sido dado com o aumento do consumo interno, que evitou desvalorizações cambiais aceleradas, nos últimos anos, para elevar exportações, como forma de desovar estoques internos inconsumíveis, graças à péssima distribuição da renda nacional.
Os programas sociais, bombados com dinheiro público, keynesianamente, valorização do salário mínimo,  aumento dos gastos com previdência e expansão do crédito a juro alto, minimizaram o problemas. O governo colocou poder de compra estatal nos cartões de crédito de alimentação dos pobres para consumirem os excedentes internos. Com isso, evitou desvalorização cambial e provocou o seu contrário, sobrevalorização do câmbio, permitindo, assim, combate à inflação, embora o real sobrevalorizado, em contrapartida, tenha, graças aos juros altos, elevado a dívida pública interna, perigosamente, transformando-a em freio efetivo ao crescimento sustentável.
O perigo maior, agora, está à mostra. O dinheiro valorizado inviabiliza as exportações nacionais, em ambiente de elevada competição global, e provoca deficit em contas correntes, pois as importações crescem mais do que as exportações, no compasso do PIB avançando 6% no segundo trimestre do ano. Somente nos dois últimos meses, o deficit aumentou em 2 bilhões de dólares. Estima-se que, nesse ano, poderá aproximar-se dos 2% do PIB, algo em torno de 30 bilhões de dólares, enquanto, no ano passado, registrou-se superavit de 3 bilhões de dólares. Vale dizer, não há tranquilidade, mas preocupação.
A desaceleração da economia mundial, a partir da redução do consumo nos Estados Unidos, dado pelo freio consumista pelas famílias endividadas, já está se fazendo sentir na redução dos preços do petróleo e das matérias primas e metais, que dinamizam a produção de manufaturados. Sendo estas as matérias primas que mais engordam os saldos comerciais brasileiros, ao despencarem os seus preços, ocorrem, prejudicialmente, deficits, cujos efeitos, aos olhos do mercado, são perigos para saúde da moeda.
O real, nessa batida, estaria seguro, para valer, ou, também, poderia se tornar candidato a sofrer uma corrida especulativa?
O ufanismo governamental, nesse momento, diz que essa possibilidade está afastada, já que o Brasil estaria, suficientemente, garantido por suas reservas de mais de 200 bilhões de dólares. O que seria essa quantia, significativa, sem dúvida, diante dos 1,5 trilhão de dólares que já foram torrados na fogueira especulativa global do sistema neoliberal que está perdendo sua utilidade?  Praticamente, muito pouco.

Mundo da moeda apodrecida

O fato, como ocorreu em situações semelhantes, bem menos destrutivas de capital, que se encontra sobreacumulado na Europa e Estados Unidos, não deixa dúvida: a contração do crédito global, que o governo americano tenta restabelecer, para manter ativa a produção, vai afetar a menina dos olhos de ouro do presidente Lula e da aliança governamental: o Programa de Aceleração do Crescimento. Não dá para tapar o sol com a peneira.
O PAC, que precisa, para colocar em dia as previsões de investimentos governamentais, de algo em torno de R$ 40 bilhões, por ano, para manter os gastos públicos crescendo acima do PIB, de modo a bancar crescimento econômico de 5% ao ano, tende a perder fôlego. A desaceleração global imporia relativa desaceleração brasileira, com reflexos na redução dos investimentos, da oferta de emprego, do consumo e da arrecadação, que bombeia gastos públicos superiores ao crescimento do Produto Interno bruto, para puxar a demanda global.
Certamente, as especulações contra a moeda, nesse momento, estão exacerbadas, como sempre acontece nos momentos de comportamento de manada, mas pode ser algo temporário, se as reservas acumuladas derem conta do recado, no sentido de estabilizar o preço dela.
Ficaria em aberto outro perigo, se aquele for contornado: as elevadas taxas de juros. Como nos países ricos está ocorrendo a chamada eutanásia do rentista, com os governos jogando a taxa de juros para baixo, a fim de evitar recessão, embora correndo o risco de mais inflação, no Brasil, ao contrário, os juros mais altos do mundo tenderiam a atrair os dólares derivativos que estão apodrecendo no compasso da crise bancária internacional.
O dólar derivativo apodrecido, se vier em quantidades excessivas para o paraíso brasileiro dos juros altos, terra brasilis jurista, poderia apodrecer, também, a própria economia, ameaçando, consequentemente,  a vida do presidente do BC, Henrique Meirelles.
A areia movediça está em plena atividade, disposta a engolir os personagens centrais do drama.

Dinheiro empoçou nas praças ricas

Em todas as crise capitalistas, o capital se sobreacumula nos países ricos, que, para livrarem dos prejuízos, canalizam o excesso de dinheiro, que deixa de render no centro, para a periferia em forma de dívida externa. Daí, Marx destacar que a dívida externa representa, fundamentalmente, instrumento de dominação internacional, como alternativa às crises financeiras cíclicas.
A partir dos anos de 1980, como explica Lauro Campos, em “Moeda e mercadoria:metamorfose e crise”(Ed. UnB, 1992), o processo se inverteu. Em 1979, diante do excesso de dólares, eudólares, petrodólares e nipodólares, na economia mundial, acumulados desde o pós-guerra, guerra fria e guerra do Vietnan, lançados na economia, para fortalecer os países europeus e Japão, evitando serem atraídos para o comunismo, os Estados Unidos elevaram a taxa de juros de 5% para 17%, em nome do combate à inflação.
Resultado: a periferia capitalista, que dinamizava a economia mediante dívida externa, tornando-se, historicamente, dependente, faliu, como destaca Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto, em “Teoria de dependência”. Os bancos internacionais, que, antes, canalizavam as sobras de dinheiro acumulado, no centro, para os países capitalistas periféricos, trancaram o cofre e chamaram o FMI, que passou a ser capitão do mato, na tentativa de ajustar as economias falidas, mediante orientação do Consenso de Washington, a partir de 1982. A receita ficou famosa: desregulamentação, privatização, corte de gastos e superavits primários elevados, para pagar os juros da dívida. Os empréstimos externos secaram.
O capital acumulado no centro, sem poder descolar-se para a periferia em forma de dívida externa, ficou, mesmo, atolados nos países ricos, dando início a nota etapa de reprodução ampliada do capital, a partir de especulação, não na periferia, mas no centro, mesmo, gerando problemas. A especulação inevitável preparou o campo para os desastres, como reconhece o ex-presidente  do Banco Central dos Estados Unidos, Allan Greenspan, que caracterizou esse período do capitalismo como sendo o da “exuberância irracional”( “A era da turbulencia – aventuras em um novo mundo”, 2007, prefaciado por Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, na Era FHC).
O dinheiro sobreacumulado pela superespeculação no capitalismo cêntrico buscou, na imaginação abstrata, suas formas de reprodução ampliada, por intermédio do esquentamento de negócios, de forma cíclica, até que os mesmos explodissem, deixando rastros de destruição. Aconteceu, nos anos de 1990, no contexto da exuberância irracional, a superespeculação com as empresas ponto.com. As valorizações das ações especulativas serviam de caução para novas ações sobreavalorizadas, da mesma forma que, agora, ocorre com as ações do mercado imobiliário, assim como aconteceu no crash de 1929.
A dívida externa, antes formada nos países pobres, dados os deslocamentos de capital do centro para a periferia, se transformou em fonte de especulação nos países ricos, agora atordoados com a falta de fluxo global dos empréstimos para os países pobres, empobrecidos pela crise dos anos de 1980. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Ricos empobrecem, pobres enriquecem

Os ricos, nesse contexto, estão empobrecendo, porque o excesso de moeda, empoçada pela desconfiança generalizada, perde valor, não exerce mais o papel de impor, via política cambial, deterioração nos termos de troca, relativamente, aos países detentores de matérias primas, das quais as manufaturas mundiais dependem. Por isso, o preço das manufaturas, em excesso, graças ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia, que aumenta a produvidade, tende a cair, enquanto o preço das matérias primas, escassas, tende a subir. Inverte-se a deterioração nos termos de troca, como destaca o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os ricos ficam mais pobres e os pobres, detentores das matérias primas, podem ficar ricos.
Talvez seja por isso, que o ministro Guido Mantega e o presidente Lula, nesse momento, estejam contando vantagem. Mas, não se sabe se conseguirão rir por último, antes de o quadro de destruição capitalista neoliberal especulativa, esteja plenamente desenvolvido.
Uma coisa é certa, o neoliberalismo foi para o buraco, mas o seu sucessor, o keynesianismo, expresso em gastos crescentes do governo, não está com vida garantida, porque, como demonstra o próprio governo W. Bush, o mercado passou a desconfiar da capacidade de os próprios governos darem conta do recado.
Na Inglaterra, berço do capitalismo industrial, cresce tendência de tentar separar a economia especulativa da economia real, dando tratamento adequado para esta, enquanto aquela será jogada no sal. O problema é que a chamada economia real sob o capitalismo não consegue sobreviver sem a ajuda da especulação, como a história já demonstrou.
Antes, nas crises, os especuladores corriam para o ouro, que era a forma de entesouramento. Depois que o padrão ouro fracassou no final do século 19, entrando em campo novo padrão monetário, apoiado na moeda estatal, que passou a puxar a demanda global, o entesouramento passou a ser feito pelo próprio governo, via endividamento público.
Nesse momento, os especuladores correm para o ouro, que é insuficiente, e para os títulos do governo, entesourador final do processo capitalista, mesmo para ser remunerado com juro negativo. Até quando a saúde financeira dos governos conseguirá enxugar a montanha de dólares derivativos no mercado global, ninguém sabe.
O neoliberalismo foi para o buraco e o keynesianismo deixou de ser solução, para se transfomar, também, em problema. Verdadeiro salve-se quem puder no Big Bang global.

Bolsa Família salva Brasil da bancarrota

Minha  vida empresarial me ensinou que é o consumo que move a produção. Sem consumo não há produção. O presidente Lula entra para a história porque, com o programa Bolsa Família, assegura o consumo dos pobres que faz a alegria dos ricos.

O dinheiro do pobre faz o nobre, o do nobre não faz o pobre.

Ao dar poder de compra ao cartão de crédito popular Bolsa Família, com dinheiro estatal, o governo cria a demanda para o setor  privado, mata a fome no país e aumenta a arrecadação diante da expansão da circulação da produção de mercadorias.

Sem isso, o país estaria despencando na bancarrota financeira neoliberal em curso.

Os três pratos de comida que Lula e Alencar prometeram em campanha eleitoral estão na praça. Não há caminhão para entrega, nem se quiser comprar à vista. Somente com sete meses de prazo.

As estradas brasileiras, caindo aos pedaços, estão entupidas de caminhões. Cheios de alimentos, prá baixo e prá cima, pelo Brasil afora.

Antes, sem consumo interno, quando os excedentes realizavam grandes estoques, os empresários corriam, pedindo socorro, ao governo, em forma de sobredesvalorização cambial, para aumentar as exportações.

O subconsumismo era fomentador de inflação crônica, advindo do enfraquecimento da moeda. No rastro do subconsumismo, vinha os golpes de estado em toda a América do Sul. Fidel Castro sabe que não há revolução com a população de barriga cheia.

Com o consumo interno suficiente e em expansão, a moeda valoriza, porque não precisa desvalorizar para desovar estoques. Estes passaram a ser consumidos internamente. Sem desvalorização selvagem, não há inflação incontrolável. O consumo equilibra a inflação.

Os 12 milhões de cartões de crédito do bolsa família, que compõem universo de quase 60 milhões de consumidores, destruiram o excedente, abrindo novas perspectivas para os setores produtivos trabalharem sem medo de inflação.

Os economistas, salvo honrosas exceções, não sabem pensar. Falam  que o Bolsa Família é correspondente a 1% do PIB, não é nada. Esquecem da circulação. É na circulação que o capital se reproduz e o governo aumenta sua arrecadação.

Dona Maria vai à prateleira do supermercado, saca o cartão de crédito, compra a lata de óleo e inicia o processo. O supermercado pede reposição à industria, que pede reposição à agricultura, que vai indústria, que abastece o comércio, que fomenta os serviços. Em cada etapa da nota fiscal, o governo arrecada 40% e os bancos, 10%, no crédito direto ao consumidor, taxa mais alta do mundo, um absurdo. Circulando, arrecadando e enriquecendo.

O presidente prometeu 18 milhões de cartões. Faltam 6 milhões. Será possível? Sim, mas não pode ser de uma vez só, se não, aí, dá inflação. Haveria aumento excessivo do consumo e a carência de infra-estrutura não suportaria. Será preciso ir devagar com o andor, porque o santo é de barro. E mais: Bolsa Família tem que ser aferido pela sua capacidade de alavancar, também, a educação.

Reservas de dólares para investimentos

Imagine se o país estivesse sob o subconsumismo crônico anterior ao Bolsa Família?

A moeda, nesse instante, estaria sem crédito, os especuladores correriam contra ela. Pânico.

Agora, pelo menos, a moeda está segura não apenas pelo mercado interno mais forte, mas, também, porque o Brasil e a América do Sul dispõem de tudo para o desenvolvimento autosustentado: terra, água, sol, que garantem três safras irrigadas anuais; petróleo, energia, alimentos, minerais estratégicos, petróleo.

Temos o lastro real para a moeda sul-americana, em comparação com as moedas podres que quebram os bancos nos Estados Unidos e na Europa. Por que ter medo?

O dinheiro do estado nacional entrou na circulação capitalista por meio do cartão bolsa família para garantir o consumo nacional, cuja ausência, se estivesse presente, nesse momento, seria fatal para a economia, especialmente, em que a demanda global mundial cai, diminuindo os preços das commodities, sinalizando deficit comercial maior, já que as importações crescem mais do que as exportações diante do real valorizado.

O consumo interno, impulsionado pelo poder de compra estatal, materializado nos cartões de consumo dos pobres, é o dissuassivo da crise.

O recomendável não é cortar o consumo, seguindo a receita do juro alto, mas apostar nos investimentos para evitar desequilíbrio entre a produção e o consumo interno, decorrente de falta de infra-estrutura.

O dinheiro das reservas cambiais em dólares, que corre perigo diante da crise bancária internacional, precisa sair do entesouramento, que empobrece, para o investimento, que enriquece.

Com a infra-estrutura, o consumo pode aumentar ainda mais sem medo de inflação.

Medo de inflação?

Se a produção aumentar e não tiver como escoar, os preços caem por causa da falta de circulação suficiente das mercadorias, dada a insuficiência da infra-estrutura. O governo quebra, porque sem circulação, não há arrecadação. Entesouradas nos locais de produção, impossibilitadas de circular, as mercadorias não se transformam em dinheiro, não geram novos investimentos.

O consumo é a arma do desenvolvimento

É a infra-estrutura que dá a segurança tanto ao vendedor como ao comprador. Não adianta produzir, se não pode entregar ou atrasar a entrega. O cliente não espera. Chega o concorrente e leva.

JK apostava tudo no aumento do consumo interno. Vi e ouvi várias vezes, aqui, em Brasília, Juscelino Kubistchek encher os olhos e chorar quando sonhava com as estradas e ferrovias de seis pistas, rasgando o Brasil de fora a fora, para generalizar o consumo para todos.

Convivi com José Maria de Alckim, ministro da Fazenda de JK. Brilhante, via, também, o Brasil recortado de norte a sul e de leste oeste com as estradas e as ferrovias e hidrovias mais lindas do planeta. Visionários. Enxergavam a exuberância da natureza nacional pelos olhos do futuro, fincados no aumento do consumo interno, garantido pela infra-estrutura moderna. Seria a segurança da circulação e do aumento da arrecadação, que proporciona investimentos públicos.

Novo rico do mundo

 

O Brasil e a América do Sul precisam pensar juntos com a Unasul, pois, afinal, o continente sul-americano é o novo rico do mundo. Tem indústria competitiva e matéria prima na porta. Não precisa pagar frete para atravessar os mares.

O lastro é seguro, não ficítico, como se percebe no sistema bancário internacional, tocado por moeda especulativa sem garantia.

A força sul-americana está no consumo sul-americano, a ser aquecido não por moeda podre, mas por garantial real, riqueza sul-americana que tem mais valor do que as moedas que estão apodrecendo.

Inverteu-se a deterioração nos termos de troca. Os pobres ficam ricos e os ricos, pobres.

E olhe as mulheres aí, chegando, graças a Deus, com a brilhante performanece  de Michelle Bachelet, na Unasul, para inaugurar o pensamento sul-americano.

Nacionalismo para os seguros

Editorial

 

Adotar já uma legislação nacionalista para os seguros.

O presidente Lula precisa resgatar o projeto de lei (bolado pelo advogado, jornalista e político nacionalista pernambucano Barbosa Lima Sobrinho, ex-governador de Pernambuco, anti-candidato, com Ulisses Guimarães, à presidência da República contra a ditadura militar, e autor de “Japão, o capital se faz em casa”), que o presidente Getúlio Vargas utilizou, na integra, para recriar estatal de seguros, privatizada na Era FHC, como forma de dar segurança à população.

Olha o exemplo que chega dos Estados Unidos, nesse momento da aguda crise bancária mundial. A especulação financeira explodiu o sistema bancário e ficou claro, claríssimo, que o setor de seguros, na mão do setor privado, é como amarrar cachorro com linguiça.

O governo, sufocado pelas pressões, foi obrigado a correr para salvar os segurados, estatizando, na prática, a maior seguradora do mundo, a AIG. Ia ser um explosão mundial.

Tio Sam não brincou com fogo. Quem fez isso, no Brasil foram os tucanos. Colocou o problema nas mãos privadas, as mesas onde explode o capitalismo financeiro capitaneado pelo dólar derivativo, derivodólar, derivodoido.

É esse dinheiro que tende a chegar aos borbotões, no Brasil, nos próximos meses, fugindo dos juros baixos, da eutánasia do rentista em curso nos Estados Unidos, na Europa, Japão e Chinas. Vêm para reproduzir-se no juro-Meirelles.

A histórica capitalista tem mostrado: quando sobra capital especulativo nos grandes centros, onde ocorre a eutanásia rentista, o dinheiro corre para a periferia em forma de dívida externa, buscando render no juro.

No Brasil jurista, paraíso. Mas, quem vai segurar essa corrida, caso não haja freio, se as seguradoras estão livres competindo no mercado, sem o olho do estado por meio da sua própria seguradora e sua lei estatal, para dar guarida? 

Hora de Vargas

Aquestão do seguro emerge como ponto nevrálgio para a sobrevivência do capitalismo financeiro a partir de agora, com a fogueira ameaçando perto do circo.

Já se discute na Inglaterra a separação da economia real da economia fictícia e o estabelecimento de seguros de depósitos para a parte boa , enquanto a parte ruim ficaria a ver navios. Pegará?

Pelo sim, pelo não, onde está o seguro disso, se o mercado privado é dominado pela lei da competição onde o lucro é o foco e o interesse público o sub-sub-sub foco?

W. Bush, no fogo, não teve outra alternativa: estatizou o negócio, seguindo sugestão de Barbosa Lima Sobrinho, adotada por Getúlio. Botou, sem dó, 85 bilhões de dólares, podendo colocar mais, pois trata-se de buraco sem fundo.

Ou seja, mais 85 bilhões de moeda podre na praça.

O presidente americano tomou atitude oposta à de FHC, em nome do interesse público, configurando, para o sistema capitalista, que o estado, por ser o detentor da capacidade de colocar moeda em circulação, é o único, também, que pode atuar e gerenciar o sistema, para dar maior tranquilidade ao mercado.

Solto, o mercado só comete desastres, pois é, absolutamente, dominado pelo egoísmo. O estado é o freio ao egoísmo.

A concessão que o estado dá ao setor privado para gerenciar a oferta monetária, na atividade bancária, levou o setor privado à presunção tentadora de sobrepor ao estado. Quando viu que os seus pressupostos são falsos e a quebradeira tornou-se presente, ajoelhou-se às portas da Casa Branca.

Faltou o pensamento coletivo para coordenar o sistema, cujos comandantes, menos inteligentes que o próprio sistema, apostaram tudo no egoísmo. Bancarrota.

Por isso, a seguradora estatal, atuando diretamente e coordenando o mercado, representou solução que Getúlio Vargas encontrou pelas mãos de Barbosa Sobrinho.

Que visão histórica estreita a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, grande sociólogo marxista, conhecedor profundo das lutas de classe!

Quis aposentar Getúlio, está sendo aposentado pela história!

Derivodólar ameaça Meirelles

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pode dançar no último baile da Ilha Fiscal global. A bancarrota financeira neoliberal representaria seria ameaça a ele.

A política de juros altos, que foi favorável, num primeiro momento, para a economia, tende a se transformar em pesadelo, se os juros brasileiros, os mais altos do mundo, atrairem, irresistivelmente, os dólares derivativos apodrecidos na praça global. Aprodeceria a economia. 

O mundo, depois de viver a pujança e a decadência do dólar, do eudólar, do petrodólar e do nipodólar, vive, agora, os fantasmas da destruição do dólar derivativo, o derivodólar, gerado na bancarrota do setor imobiliário que produz crise bancária aguda.

Os investidores especulativos estão em polvorosa. Nos Estados Unidos, perderam a teta estatal para mamar. Na Europa, idem, apesar de, tanto americanos como europeus e japoneses estarem jogando dinheiro na circulação, nesses dias, para evitar o empoçamento de capital no sistema, perigando falir geral.

Sem chances de reproduzirem nas praças ricas onde se realiza a eutanásia do rentista, com juro baixo para evitar recessão, quem vai perder um negoção chamado juros brasileiros?

Fantástica lucratividade: trocar moeda que está apodrecendo o sistema financeiro internacional por títulos da dívida pública brasileira, cujo lastro é a riqueza do petróleo, dos minérios, dos alimentos, da biodiversidade, da condições naturais – terra, água e sol, que possibilitam até três safras anuais etc.

Nacionalismo ou entreguismo?

Se houver uma corrida de investidores para o Brasil nas próximas semanas, sem dúvida, o dólar, em vez de valorizar-se, seria brutalmente desvalorizado. O presidente do Banco Central tremeria na cadeira. Aumentariam vozes no Congresso pedindo sua cabeça.

Pode ser que tal pedida seja feita pela oposição, sem arma política para combater Lula.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, está colhendo  vitória em cima do discurso jurista neoliberal de Meirelles, no auge da crise financeira.

Como, criticamente, apostou no desenvolvimentista redistributivo- social-nacionalista-getulista-lulista, pregador de juros mais baixos, como faz, também, o vice-presidente José Alencar Gomes da Silva, Guido Mantega vê o chão abrir sob os pés de Meirelles.

Poderia ser tragado pela areia movediça neoliberal em crise de forma acentuada, se houver uma corrida bancária, por esses dias – hoje, ou amanhá, quem sabe? – ou por horas contra eventual enxurrada de moeda podre atraída pelo juro alto. Parece Boró, aquele bichinho que gosta de tudo que é podre, papel, pau etc.

 

Lenin cantou a bola

Em tal ambiente, nada  tão favorável paras as causas socialistas, como destacou Lênin, do que as desorganizações monetárias, que mexem com a segurança íntima do ser humano, já que os movimentos do dinheiro levam a um estresse total, predispondo-o, preocupado, às osciliações politicamente radicais.

O relógio da história está virando contra Meirelles, simplesmente, porque, se o juro alto, até agora, foi solução, daqui para a frente, pode virar problema., causando incertezas generalizadas. O que é positivo numa hora, é negativo em outra, contraditoriamente, dialeticamente.

Para piorar a situação conjuntural, emergente, Meirelles errou fragorosamente na última reunião do Copom, na semana passada. Em vez de conduzir a discordia interna dentro da diretoria do BC para um consenso, jogando , policamente, quis dar uma de machão. Fez política econômica em vez de economia política.

Estrepou-se ao optar por mais uma torcida forte no parafuso dos juros. Pegou mal. O momento pedia ponderação. A coragem para atender os interesses dos especuladores, sob o disfarce de combater a inflação, excedeu-se. Foi mais realista que o rei.

Rendeu-se ao mecanicismo, dançou na dialética.

Resultado: os preços do petróleo cairam fortemente; idem os preços das commodities etc. Pode pintar, em vez inflação, deflação.

Haveria deterioração acentuada nos termos de troca em favor de quem dispõe de matéria prima, América do Sul, relativamente, a quem precisa delas para industrializar, Europa, Estados Unidos, Japão, China etc.

Os preços dos produtos primários, escassos, sobem, enquanto os preços dos industrializados, graças ao aumento da concorrência, caem.

Haveria acirramento violento da competição no comércio mundial, carente de regulações, por causa do fracasso da Rodada de Doha.

Pode vir por aí uma sangria dos preços. A solução meirelliana pode estar deixando de ser útil.

 

Imperfeição é fundamental 

Não está pintando clima para compatibilizar-se com as decisões do BC,  que, visando a meta de 4,5% para a inflação para 2009, estaria arrochando, desde já, o custo do dinheiro.

Necessário? Desnecessário? Inconveniente? Imprudente? Prudente? Estados Unidos, Europa, Japão, Chile, que estão reduzindo os juros, estariam errados? 

Ou Meirelles acredita que elevando ainda mais os juros nas alturas estratosféricas continuará distribuindo renda a partir de bônus para os especuladores da classe média com os títulos da dívida pública que geram consumo bem à moda de um keynesianismo financeiro cuja fonte de renda é a própria moeda em circulação, agitando o consumo popular?

A qualidade do momento econômico internacional mudou para pior. A sinalização é de aumento da concorrencia global, que leva às desvalorizações, mediante políticas monetárias e fiscais altamente competivas.

As praticadas no Brasil, como mostram os resultados da balança comercial, não são. E o mais dramático, ainda: o que era bom, tende a ficar ruim, com muito dólar circulando para fugir do juro baixo, isto é, da morte-eutanásia.

Na Europa, nos Estados Unidos, na China, no Japão, no Chile, etc, os juros caem. Já, no Brasil, graças à estratégia meirelliana….

Não seria melhor jogar as reservas cambiais em maciços investimentos públicos do que ficar com elas num contexto altamente volátil?

Meirelles, em entrevista a Willian Waack, disse que não está afastada essa possibilidade. Talvez seja a sua salvação politica.

O giro dos acontecimentos está sendo veloz, criando situações inesperadas, surpreendentes, incontroláveis, desestabilizadoras.

Bastou poucas horas para o Lehman Broths, de 158 anos de idade, ir para o espaço, como fumaça. 

Não dá para não citar Fernando Pessoa diante da bancarrota do pensmento econômico neoliberal que pensava portar verdade única do pensamento perfeito:

“O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.”