Deficit segura desemprego, populariza Lula e inferniza oposição na sucessão presidencial

Na Argentina, o pau está quebrando nas ruas, com as massas desempregadas exigindo mais participação do dinheiro estatal na produção e no consumo, para ev itar bancarrota geral

Os números do desemprego, divulgados pelo IBGE, sinalizando estabilização e ligeira queda, em decorrência das medidas anticíclicas adotadas pelo governo, cujos resultados práticos são deficits crescentes,  para evitar bancarrota geral do setor privado, no colapso global, ajudam a bombar a popularidade do presidente Lula. Consequentemente, tenderiam a favorecer, também, a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a preferida do titular do Planalto para sucedê-lo, se ela desenvolver suficiente empatia com eleitores e eleitoras.

Se estivesse ocorrendo o contrário, ou seja, se a taxa de desemprego, nas sete regiões metropolitanas, registrasse, em vez de redução dos 15,3% em maio para os 14,3% em junho, aumento dos desempregados, com a taxa expandindo, por exemplo, para 20%, o clima político no país estaria mais quente, bem mais agitado.

No lugar de estar com a popularidade beirando os 90%, como têm atestado os institutos de pesquisa, o presidente  poderia estar com ela na casa dos 40%, acossado pelos desempregados, como acontece com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que perde prestígio de forma ascendente, no plano interno, por conta do avanço dos demitidos.

Tudo estaria pior no meio da bagunça política, com a desmoralização total do Legislativo e das lideranças que perderam toda credibilidade. Tal desarticulação de um dos poderes da República, poderia, em meio ao desemprego, gerar motivações revolucionárias bolivarianas, para aprovar legislação trabalhista protecionista.

Pintaria, com grandes chances, movimentação em favor do plebiscito por democracia direta, participativa, rompendo com o jogo democrativo meramente representativo, dominado por lideranças corrompidas.

Lula joga todas as suas fichas no deficit para continuar tentando estabilizar a taxa de desemprego e diminui-la, para não ter que enfrentar as pressões dos desempregados que já começam a acontecer nos Estados Unidos e EuropaA crise do Senado, em contexto de desemprego asc endente e não relativamente cadente, embora no Brasil a situação esteja melhor do que nos países desenvolvidos, financeiramente em bancarrota, poderia se transformar em estopim para radicais acenderem o fósforo.

A política anticíclica anti-deflacionista, inflacionária, expressa no aumento crescente do endividamento governamental, para salvar as empresas, enquanto concede a elas desoração fiscal, de modo a manter relativamente constante sua taxa de lucro, representa o principal sustentáculo do país contra a crise.

Lula está com pé no acelerador. Prega outro PAC, para início do próximo ano e destaca que depois de conceder subsídios à produção, fará o mesmo relativamente ao consumo.

Adiantou que é  melhor colocar dinheiro no bolso do contribuinte consumidor do que no das empresas. Com dinheiro , o consumidor vai lojas e consequentemente ajuda a aumentar a arrecadação, com a qual se faz dinheiro para incrementar investimentos públicos etc.

O aumento dos recursos para o Bolsa Família, no segundo semestre, igualmente, é bombeamento estatal para sustentar a demanda efetiva, jogando mais dinheiro no bolso do pobre, como se faze relativamente ao rico, via desoneração. Se a Bolsa Família, para os miseráveis, de um lado; há o Bolsa-IPI, para os industriais, de outro. O conceito é o mesmo. Deficit e mais deficit contra a desaceleração.

O deficit público, o aumento da quantidade de oferta de dinheiro estatal na economia, mobilizando a produção e o consumo, fazendo o papel que o setor privado, sozinho, não teria condições de fazer, no cenário em que o crédito à produção e o consumo está desacelerado, em escala global, transformou-se na variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, sem a qual o sistema político poderia ir para o brejo.

 

Opção comum de todos governantes

 

Nos Estados Unidos e Europa, berço da crise especulativa, o sistema financeiro, sem dinheiro para irrigar o crédito, mas, ao contrário, sem ele, porque está falido, coloca em risco a estabilidade da democracia

O fenômeno não é brasileiro, é global. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, bem como seus colegas da Europa, que mais sofrem pressões pela avalanche do desemprego, fazem a mesma coisa.

A opção pelos investimentos estatais apressou aprovação na assembléia de Paris de projeto de lei que visa construir uma nova Paris, por cima da velha capital da França. Avenidas flutuantes à vista.

Movimentaria, diz a justificativa do projeto, toda a infra-estrutura nacional, como aconteceu na segunda metade dos anos de 1850. Naquela ocasião, a capital francesa foi inteiramente repaginada, com abertura de largas avenidas, mediante projeto do arquiteto Haussemam. Dinamizou a demanda efetiva global francesa e européia no momento em que havia desaceleração capitalista dada por emergência da deflação. Os economistas do velho continente são escolados.

Presidente Sarkozy , da França, se prepara para renovar e embelezar Paris futurista para sair da crise do desemprego por meio da ampliação do deficit públicoO investimento francês , trocado em miúdos, é o mesmo realizado pelos demais governos, em todo o mundo, voltado para elevar a demanda efetiva que ficou paralisada pela bancarrota financeira, que deixou de promover a acumulação ampliada capitalista.

A impossibilidade de tal acumulação, na escala necessária, para dar rendimento ao capital já excessivamente sobreacumulado, especulativo no ritmo em que o capitalismo financeiro alcançou, girando, segundo o BIS, 580 trilhões de derivativos, voltados ao incremento do varejo mundial, nos últimos 20 anos, colocou ponto final na capacidade do setor privado sobreviver mediante economia de mercado.

Os intrumentos básicos da economia de mercado nos países capitalistas desenvolvidos, que sempre foram o crédito direto ao consumidor a juros baixos, foram para os ares. As empresas perderam a capacidade de levantar dinheiro, descontando seus papeis nos bancos, que os comerc ializavam em escala global, derivatimente ao infinito. Acabou uma era do crédito sem limites. Seria possível existir capitalismo sem o padrão de acumulação necessária capaz de continuar sustentando a acumulação ainda mais ampliada?

Com os mecanismos da reprodução do capital estourados na relação empresas-sistema financeiro, o circuito da produção teve , está tendo, que ser reativado, mais intensamente do que antes, pela demanda estatal, via elevação dos deficits públicos.

Sem déficit, a taxa de desemprego estaria em nível colossal,  explodindo e derrubando governos.

 

Oposição sem discurso

 

Desalento total dos trabalhadores, mesmo os que estão mais preparados, com capacitação profissional, escapam da desaceleração capitalista, que perde, com a especulação, o instrumento de reprodução ampliada do capital

Nesse novo contexto, a oposição fica sem discurso. Os economistas que estão alertando para o perigo de expansão do deficit, não estão vendo que sem ele, o perigo para o capitalismo seria muito maior, em face do colossal desemprego que emergiria.

Foi-se o tempo, na era do populismo cambial, que os economistas ganharam fama de fazer presidentes, como foi o caso do plano cruzado, de congelamento dos preços, e do plano real, com troca de moedas, a ruim, inflacionária, por outra, sem inflação, enquanto se abria espaço , via sobrevalorização da moeda nacional e elevação de juros, para girar a economia atraindo capital externo especulativo.

O governo , nessa nova etapa da economia, entra em choque com os bancos, porque precisa exercitar política monetária que alaga a circulação capitalista de modo a manter juros baixos. Do contrário, a ação anticíclica estatal teria que enfrentar  juros altos, lançando desconfiança generalizada do mercado financeiro relativamente ao fôlego governamental para pagar dívidas.

A crise argentina já levou Cristina Kirchner à derrota nas eleições parlamentares e prepara novas armadilhas para ela em face da desaceleração econômica que sinaliza crise cambial e fuga de capitais na Argentina, sacudindo os trabalhadores e predispondo-os à greve e às agitações políticasNessa semana, por exemplo, o presidente Barack Obama se prepara para lançar 3 trilhões de dólares na circulação. Com uma mão , ele joga moeda para irrigar a base monetária, enquanto, com a outra, joga papel para enxugar parte dela, a fim de evitar enchente hiperinflacionária.

A dívida, crescendo, dialeticamente, no lugar da inflação, alivia, temporariamente, a situação. Há uma clara fuga para frente. Os banqueiros, nesse cenário, têm que conviver com os juros baixos, porque senão emerge a crise política do desemprego, se o Estado sofrer corrida cambial.

Trata-se, enfim, de um jogo de poquer. O governo tem redobrar suas apostas no deficit, enquanto os bancos, mesmo que a cntragosto, entram no jogo, porque a alternativa seria, em meio ao desemprego sob juro alto, pressão para a estatização bancária.

A oposição, se levantar comprar a tese neoliberal, do perigo do deficit público, obrigará o governo a levantar o seu contrário,  a antítese, o perigo do desemprego, a fim de gerar uma síntese cujo perfil ainda não pode ser dado, porque a crise está em pleno curso.

Na prática, escolhe-se o mal menor, ou seja, o deficit para bancar o desemprego. Qual oposicionista guerrearia a favor do aumento do desemprego?

Se os banqueiros não acelerarem a queda dos juros ao consumidor, para que , por meio do consumo possa haver sustentação da demanda efetiva global da economia brasileira, fortalecem o argumento em fav or da intervenção estatal nos bancos privados em nome do interesse público, como já vem fazendo em relação aos bancos oficiais.

Keynes vira El Cid na Era do Gelo

 

keynes, a solução que virou problema, precisa ser mantido vivo, embora esteja simbolicamente morto pela evidencia da montanha dos deficits que anulam a sua proposição como saída para o capitalismoEl Cid é o simbolo do heroísmo segundo o qual o morto comandará o vivo, a exemplo do que se tenta entre os governos capitalistas em crise, no sentido de animar o simbolo que deixou de existir como solução que virou problema

A chegada da economia ao tempo do juro cadente, caminhando para zero, descontada a inflação, a fim de viver na era do gelo, da eutanásia do rentista, no compasso da grande crise global, com estados deficitários e bancos falidos como ocorre nos Estados Unidos e Europa, espalhando onda geral, coloca em cena as controvérsias nas quais debatem os economistas neoliberais que fazem a cabeça da grande mídia brasileira.

 

Eles vêm a taxa de juro não como produto histórico social decorrente da relação conflituosa entre capital e trabalho, que tende à queda da taxa de lucro, mas como um mecanicismo que obedecesse voz que se situa para além das contradições, dispondo de vida própria, a exemplo do consumidor neoliberal que entra na circulação capitalista pelas mãos neoliberalizantes já com dinheiro no bolso, sem conflitos, para gastar e não como o consumidor que é produzido pelo antagonismo social e econômico gerado no desenvolvimento da reprodução do capital. Com esse entendimento equivocado, não conseguem entender Marx, que diz serem valor e preço proporcionais quando a taxa de lucro caminha para zero, caso atual. Bombástico.

 

O fenômeno monetário ficitício em que se transforma o juro na economia monetária keynesiana sob necessária supervisão estatal, passa, na grande crise, a ser lido como necessidade da supressão da própria economia monetária como solução.

 

Representaria tal superação, na visão neoliberal, ingênua, a remoção parcial – ou total – do peso do Estado sobre os ombros do setor privado. Ai haveria, dizem, espaço para retomada ampliada da acumulação capitalista, e a situação se reverteria.

 

E a história, que não é levada em conta pelos neoliberais, mas o é por Marx, como é que fica?

 

 

Solução vira problema

 

 

Marx desnudou a dívida pública interna como instrumento capaz de esconder a inflação e previu que o sistema capitalista deixaria de dinamizar as forças produtivas para animar as forças produtivas, na guerra, via inflação, escondida na dívida pública, como aconteceu no século 20

 

O juro keynesiano, no século 20, cai para elevar a taxa de lucro da economia, desde que se elevem os gastos do governo. São estes que criam a renda para o consumo do setor privado sem que haja oferta, para que o nível de preços continue subindo, bombando os lucros. O governo, departamento III, precisa existir para dar sobrevida aos departamentos I, produtor de meios de produção, e II, produtor de meios de consumo, pois, sem o apoio daquele, estes dois departamentos naufragam, como ficou demonstrado na crise de 1929.

 

A tendência  histórica à sobreacumulação de capital nos dois deparamentos I e II, como destaca Lauro Campos, seguindo as pistas de Marx, em “A crise da ideologia keynesiana(Campus, 1980), somente é amenizada pelo aumento da demanda produzida pelo governo, departamento III. Tal demanda é o consumo, não de mercadorias, mas de não-mercadorias – contratação de pessoal, produção bélica e espacial, gastos improdutivos, destrutivos, adquiridos, necessariamente, a preços altos, sem concorrência.

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego – , exceto em situação de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força” , aconselhou, em 1936, John Maynards Keynes ao presidente Roosevelt, em artigo no New Republic. Não deu outra. Os gastos do governo americano, em 1944, já atingiam 144% do PIB. Viraram potência mundial.

 

Os que defendem enxugamento do departamento III, para que os departamentos I e II consigam sobreviver com mais poupança e investimentos, são suicidas. São os casos notórios de economistas neoliberais como Mailson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda, e Afonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, consultores de grandes bancos, e um penca de outros banqueiros de calças curtas, como denomina Lauro os que deixam o governo para trabalhar no setor financeiro. Imagine se o governo americano escutasse Pastore e Nóbrega!

 

O problema, em 2009, é que, com a emergência da crise, a situação fica muito mais grave para o capitalismo, do que aquela apresentada nos anos de 1930.

 

Naquela ocasião, Keynes apresentou sua solução – remédio conservador de Malthus contra o perigo da previsão de Marx – quando o Estado não tinha dívidas. Malthus percebera que era necessário o aumento dos gastos improdutivos do governo – contratação de pessoal, guerras, etc – para aumentar a demanda efetiva afetada pela lógica do capital que provoca crônica insuficiência de demanda capitalista, jogando o sistema no suicídio da deflação.

 

 

 

Jogo das não-mercadorias

 

 

 

Teórico das não-mercadorias, adquiridas pelo governo para salvar o capitalismo do lassair faire, Lauro Campos demonstra que a solução virou problema e sinaliza desemprego colossal que marcará ressurreição do debate socialista em meio à derrocada capitalista

 

O departamento III, keynesiano, que os neoliberais desconsideram, é moeda estatal intervencionista no processo econômico. Ela irriga e enxuga o mercado de dinheiro – entesourador geral – , movimentando a oferta e a demanda globais, sob comando da taxa de juro, considerada fenômeno monetário, sujeito , consequentemente, à ação da autoridade monetária, governo. Ou seja, torna-se necessária a economia dirigista.

 

O aumento da quantidade da oferta de dinheiro cria o que Keynes denominou de eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro. Mais dinheiro 1 – eleva os preços, 2 – reduz os salários, 3 – perdoa a dívida do empresário contraída a prazo e 4 – diminui a taxa de juro.

 

Vale dizer, não  são, apenas, os juros baixos a solução capaz de levar o empresário ao investimento. Se os preços não subirem e se os salários não diminuírem, bem como as dívidas dos empresários não forem perdoadas no médio e longo prazo, de nada adianta o juro despencar. O Japão, na década de 1990, ficou com juro negativo, algo que está repetindo, agora, levando a economia não ao aquecimento, mas à deflação.

 

Por si só, o juro competitivo, baixo, negativo, não representa atração para o investidor,  não ativa a demanda global. De que adianta tentar aproveitar a onda do juro negativo, elevando os investimentos, se as mercadorias não serão consumidas pela ausência do crédito direto ao consumo? O juro baixo não é sinal de eficiência marginal do capital.

 

Precisa do complemento da demanda estatal, que não é de mercadoria, mas, essencialmente, de não-mercadorias, como destaca, inovadoramente, Lauro Campos.

 

 

Se os gastos do governo, departamento III, diminuíssem na escala capaz de atender os reclamos do discurso neoliberal de Mailson, Pastore etc, não apenas morreria subitamente  o departamento III, mas, da mesma forma, entraria em colapso os departamentos I e II, que imaginam estariam protegidos. Pintaria desemprego colossal.

 

 

 

Improdutivo é produtivo

 

 

 

Tomas Malthus fez a cabeça de Keynes que abandonou a economia clássica quando percebeu que ela seria o caixão do capitalismo mantida os pressupostos da economia de mercado sob o padrão ouro responsável por levar o sistema à deflação, à morte

 

As compras governamentais do departamento III precisam aumentar,  necessariamente, para promover o desperdício e a improdutividade, gerando renda com moeda fictícia, para garantir a vida dos departamentos I e II, cuja dinâmica é dada pela eficiência e crescente aumento da produtividade mediante avanço da ciência e da tecnologia colocadas a serviço da lucratividade do capital. A ineficiência estatal é, dialeticamente, indispensável à eficiência privada.

 

A lição de Malthus, criticada por Marx, que não queria salvar o capitalismo,  e elogiada por Keynes, empenhado em tal salvação, é clarividente em meio ao jogo dialético da realidade: a ineficiência expressa nos gastos do governo, com moeda estatal fictícia, torna-se, necessariamente, indispensável para assegurar o seu contrapolo, a continuidade da eficiência e da produtividade do setor privado, dentro de limites razoáveis, de relativa escassez, para manter elevada a taxa de lucro, de modo a não romper o status quo das relações sociais da produção no contexto do desenvolvimento das forças produtivas.

 

Nesse dinamismo da história capitalista, a moeda, para os neoliberais, é algo que se situa no exterior da realidade, ente neutro, a-histórico. Abstração. Ela, fundamentalmente, segundo Keynes, representa, na economia monetária, na qual o juro é fenômeno monetário, portanto, sujeito à ação governamental dirigista, a única variável econômica capitalista verdadeiramente independente, simplesmente, porque o fenômeno monetário, o juro, dirigido pelo Estado, significa o próprio capital em movimento pela mão estatal. O Estado é capital, é poder sobre coisas e pessoas, como disse Marx. Simplesmente, inexiste a neutralidade monetária ficticiamente construída em laboratório neoliberal esquizofrenicamente equilibrista.

 

O problema, agora, na grande crise mundial, detonada pelo estouro financeiro nos Estados Unidos e na Europa, é que o departamento III, considerado a solução, virou problema.

 

Os neoliberais querem voltar à convivência contraditória, vigente no século 19, entre os dois departamentos, o I e o II, precariamente equilibrado, sob padrão-ouro, sem a presença do Estado, do governo, do departamento III, da moeda estatal. Desejam voltar ao útero materno. Freud explica, ironiza Lauro Campos.

 

 

 

Renascimento do socialismo

 

 

 

O enxugamento drástico do departamento III, como pregam os neoliberais, para salvar os departamentos I e II, representa emergencia do desemprego colossal que ressuscitará ondas revolucionárias incontroláveis, fazendo pipocar por todos os lados as pregações guevaristas

 

O colapso previsível do departamento III, que amplia o déficit para salvar o setor privado e os bancos da bancarrota,  é a expressão exata da grande crise que é , por enquanto, um iceberg.

 

O departamento III imobilizado significa emergência incontrolável do desemprego nos departamentos I e II. O renascimento do discurso socialista seria inevitável. Idem o avanço dos movimentos sociais na América Latina, que está apressando a mudança da democracia representativa para a democracia direta, no compasso da derrocada capitalista especulativa.

 

Tais movimentos, que têm se ampliado nas duas últimas décadas em toda a América Latina, estando por trás das renovações políticas, que fortaleceram a democracia participartiva, ganhariam escala, se a crise social se aprofundar. Ganhariam, certamente, conteúdo altamente guevariano em plena floresta cubana, quanto mais venha a prevalecer pregações do tipo da de Mailson e de Pastore.

 

Os movimentos sociais em escala radicalizada atacariam e destruiriam os Batistas conservadores latino-americanos, que voltaram a ser golpistas, como demonstra a destituição tragicômica do democrata Manuel Zelaya, em Honduras, pelos neoliberais lacerdistas sul-americanos, em sua tentativa de envolver os militares nas ondas anti-democráticas, para garantir a reprodução ampliada do capital sob arrocho ditatorial.

 

Os neoliberais, que a contragosto abraçam a ação econômica dirigista keynesiana do Estado, impulsionando o departamento III, avaliam , com medo, seu próprio funeral.

 

 

 

Fuga de si mesmo

 

 

 

Os neoliberais, tipo Pastore, banqueiro de calça curta, são autênticos suicidas, que vêem o desmonte do departamento III como solução para o departamento I e II. Mecanicismo puromailson é puro mecanicismo econômico a serviço da ideologia utilitarista bancária travestido de falsa ciência

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Keynes, espertíssimo, inteligentíssimo – considerado por Bertran Russel a maior cabeça da Inglaterra no seu tempo – , certamente, diante do juro baixo vigente no âmbito da crise global, sinalizando queda da taxa de lucro – proporcionalidade entre valor e preço –  e elevação do desemprego, saberia que a busca da solução keynesiana, em 2009, não seria a mesma coisa do que aconteceu em 1929. Seria muito pior. Provavelmente, fugiria, apavorado, de sua própria solução que virou desastre.

 

No tempo de Keynes(1883-1946), os governos não tinham dívidas públicas elevadas, porque o modelo monetário ancorado no ouro segurava os gastos públicos nos limites do equilibrismo orçamentário ditado pela economia clássica. Tal condição foi implodida no crash de 1929, porque o padrão contraditório de acumulação capitalista, apoiado nos departamentos I e II, deixou de ser útil.

 

A sobreacumulação, que detona a contradição dialética gerada na relação conflituosa entre os departamentos I, de produção, e II, de consumo, exigiu a superação do padrão ouro, que Keynes denominou de “relíquia bárbara”.

 

A remoção do padrão ouro para dar lugar ao padrão monetário estatal – que permite a burguesia financeira fugir dos limites anteriormente impostos pelo equilibrismos orçamentários estabelecidos pelas monarquias – deu  certo, dentro de certos limites, porque os governos estavam em situação financeira satisfatória, para que os banqueiros iniciassem a nova prática de trocar papel moeda bancado pelo estado emissor. O jogo da moeda fictícia durou quase todo o século 20.

 

 

Em 2009, passados 80 anos do crash, o perfil de endividamento dos governos, principalmente, do mais poderoso deles, o dos Estados Unidos , é horroroso aos olhos dos bancos.

 

Inicialmente, os banqueiros foram chamados para financiar as monarquias. Quando viram que o ouro do rei tornara-se insuficiente para sustentar a acumulação capitalista, passaram a apostar no novo padrão monetário, que abria espaço à especulação com o dinheiro fictício, livre do equilíbrio determinado pelo padrão-ouro monárquico. Embarcaram na onda da produção da ficção-derivativo-monetária até implodirem em 2008.

 

 

 

O buraco é bem mais embaixo

 

 

 

barack-obama foi claro: tio sam não tem mais gás para sustentar o departamento III na escala necessária para continuar sustentando via deficits os departamentos I e II, que , sem o III, entrariam em parafuso, colocando o capitalismo de ponta cabeça, sem rumo

 

Em 2009, o buraco é mais profundo. Atualmente, a quantidade de moeda especulativa-derivativa alcança o patamar fantástico de 600 trilhões de dólares, segundo o Banco de Compensação Internancional(BIS).

 

Sabendo que  1 – essa quantia terá que ser trocada por outras emissões monetárias patrocinadas pelo governo, para limpar os passivos dos bancos privados, 2 – que o governo Barack Obama teve fòlego suficiente para trocar, por enquanto, apenas, 14 trilhões, repassados aos bancos, para limpar seus balanços negativos, restando, portanto, outros mais de 500 trilhões para serem trocados por novas emissões e 3 – que os governos, isoladamente, não têm  mais cacife para bancar novas emissões na escala compatível com o pepino financeiro global especulativo,  o impasse para a continuidade da missão do departamento III torna-se, simplesmente, insolúvel.

 

 A pregação de Afonso Celso Pastore favorável ao enxugamento de departamento III, antes que ele vá para o espaço, é, igualmente, a pregação do desaparecimento imediato dos departamentos  I e II, é retroceder do século 21 ao século 19, na vã esperança de que o equilibrismo orçamentário seja suficiente para salvar o capitalismo encalacrado em 600 trilhões de dólares derivativos, responsáveis por empoçar o crédito global e fazer emergir pregação pela superação do dólar como condição sine qua non capaz de promover, de novo, as trocas internacionais, antes que o mundo vá à guerra.

 

O avanço da China, do Japão e dos asiáticos, cheios de dólares, no mercado mundial deslocando os concorrentes, inapelavelmente, por meio da valorização de suas moedas, valorizadas pelos reservas em dólares que dispõem, assemelha-se à devastação concorrencial que o capitalismo alemão promoveu na economia mundial no final do século 19, deslocando os ingleses e os franceses, levando o capitalismo à super-concentração oligopólica, cujo resultado foi a primeira guerra mundial.

 

Os gastos em guerra foram úteis para dinamizar a economia, porque eram bancados pelo departamento III, que, como disse o próprio presidente dos Estados Unidos, hoje não pode mais garantir a dinâmica mundial, por meio do consumo americano que realizava a produção dos asiáticos e dos europeus. C’est fini.

 

 

 

Plástica no corcunda

 

 

 

 

say foi desmoralizado por marx que disse ser possível a teoria dele de que toda oferta gera demanda correpondente dar certo desde que as mercadorias dos capitalisas fossem vendidas sem lucro. Impossível

 

O departamento III transformou-se, 80 depois da crise de 1929, num monstrengo desfigurado por uma corcunda monumental. Os neoliberais pregam uma plástica para o monstro,  eliminando sua corcunda, que o enfeia. O remédio – remover a corcuna horrorosa – seria veneno que mataria o monstro. Morreriam todos afogados.

 

O juro baixo ou negativo, que era solução quando o remédio keynesiano não apresentava perigo de virar veneno, na medida em que contribuía para elevar os preços, ao promover aumento do consumo, gerado pela renda estatal, vira, agora, em seu contrário. Em vez de elevar os preços, bombados pelo consumo que o juro baixo promove, este passa a derrubar não apenas os preços, mas os lucros em geral, configurando deflação, remédio mortal para o capitalismo. A inflação aleija, mas a deflação mata.

 

Keynes veio, com a sua lição inflacionária , copiada de Malthus, salvar os neoliberais , que acreditavam no marginalismo equilibrista de Alfred Marshall, do qual Keynes foge para escrever seu famoso livro “Teoria geral do emprego, do juro e da moeda”. Detona, com ele, a economia clássica de livre mercado, ancorada na ficção equilibrista de Jean Bapitiste Say , segundo o qual toda oferta gera demanda correspondente, colocada amplamente em xeque por Marx.

 

 

 

Cadáver insepulto

 

 

 

a solução keynesiana se transformou de solução em problema, virando um cadáver insepulto que os liberais desejam ressuscitar como se fosse possível voltar ao útero materno. precisam do colo de freud.

 

O juro negativo de agora é fenômeno muito mais complexo. Significa que não apenas os departamentos I e II não sobrevivem sem o departamento III, mas, também, que o próprio III não suporta mais a missão de continuar salvando o I e o II, para promover a reprodução ampliada do capital.

 

O juro que detona a deflação mostra que o Estado não pode mais combatê-la com o fenômeno oposto, a inflação, instrumento eleito salvador do capitalismo por Malthus e Keynes.

 

As crises simultâneas, no momento atual, dos departamentos I, II e III, interativos, dialeticamente, entre si, em processo de negação, sinaliza o colapso final da economia monetária keynesiana, como destaca Lauro Campos em “A crise completa – Economia Política do Não”(Boitempo, 2002).

 

O aplauso em geral, carregado de elevado pressentimento, aos remédios keynesianos adotados, na grande crise de 2009. que aprofunda a crise sistêmica do departamento III, coloca Keynes como cadáver insepulto que os governos vestem de general para enfrentar sua última batalha. É o El Cid, em cima do seu cavalo, ancorado numa armadura de madeira para dar a impressão de que o morto está vivo.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Chavez acelera acordo Brasil-Paraguai

Lula correu para fechar novo acordo com Lugo para não ser ultrapassado pelas propostas mais radicais dos movimentos sociais ligados à onda democrática socialista bolivariana pregada por Hugo Chavez, que levou ao golpe militar em Honduras, desestabilizando o governo constitucional de Zelaya, sinalizando lacerdismo golpista sul-americana de resistência ao avanço da democracia direta, pregada, agora, no Brasil pelo senador Cristovam, para desestabilizar Sarney

As tensões políticas no Paraguai, que estão levando os movimentos sociais a ganharem dimensão extraordinária por conta da pregação mudancista acelerada do presidente Fernando Lugo, colocando-o em confronto direto com as elites tradicionais do país, responsáveis por conduzirem o poder paraguaio nos últimos cinquenta anos, até a chegada da nova ordem popular, levaram o presidente Lula a apressar as negociações em torno da principal bandeira econômica e política paraguaia, a renovação do contrato da destinação da energia de Itaipu. Tal aceleração decorre da necessidade de evitar perda de espaço político para o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, sintonizado com a demanda paraguaia, impulsionada pelos movimentos sociais, que têm queda favorável pelo avanço do socialismo bolivariano na América do Sul por ele comandado, envolvendo parceiros como os presidentes da Bolívia, Evo Morales, do Equador, Rafael Correa, e o presidente deposto de Honduras, Manoel Zelaya.

Maiores demoras por parte do governo brasileiro em atender as demandas do governo Fernando Lugo, sob pressão das oligarquias, que desejam derrubá-lo, em razão dos escândalos políticos que enfrenta, gerando desgastes consideráveis, intensificariam as pressões dos movimentos sociais de esquerda rumo ao bolivarianismo socialista, cujo desfecho poderia resultar em novo golpe de Estado, semelhante ao que derrubou Zelaya. As chancelarias latino-americanas se alarmam com essa possibilidade. Estaria criada zona politicamente conflagrada na América do Sul, somando-se à que se espalha na América Central, levando o status quo sul-americano, que passa por desajustes econômicos consideráveis, em decorrência da crise econômica global, a uma total instabilidade.

Há alguns meses, a elite política do Paraguai vem produzindo tensões na relação com o Brasil, exigindo revisão do acordo de Itaipu, assinado entre os governos Geisel, brasileiro, e Stroessner, paraguaio, no tempo da ditadura, sob supervisão do governo americano. O aumento da temperatura interna no Paraguai entre as correntes políticas divergentes fugiu, porém, do controle institucional precário interno, levando os movimentos sociais, que colocaram Fernando Lugo no poder, a atuarem coordenadamente com  as demandas políticas bolivarianas. Estas, taticamente, não apenas se somam às demandas da própria elite paraguaia, interessada em novo acordo financeiro Brasil-Paraguai, mas, igualmente, ultrapassam tais demandas, intensificando defesas no plano da mudança política, a fim de levar à superação da democracia representativa para a democracia direta, compatível com o processo socialista bolivariano.

Nesse contexto, como estão sendo comprovadas as ações políticas práticas decorrentes das palavras de ordem bolivarianas, as elites tradicionais correm o risco de serem amplamente ultrapassadas. Não foi outra coisa o que aconteceu em Honduras, no momento em que Manoel Zelaya, ancorado no discurso da democracia direta, avançou sobre as elites tradicionais hondurenhas, cujo caráter e motivação históricos é semelhante, ideologicamente, ao das elites paraguaias, com o discurso de aprofundamento institucional, a fim de mudar de mão o poder, tirando-o dessas elites conservadoras, para tentar colocá-lo, revolucionariamente, sob democracia direta, em mãos dos movimentos sociais.

Jogo geoestratégico itamaratiano

O chanceler Celso Amorim jogou politica e geoestrategicamente para minimizar a influência em ascensão do presidente Chavez, no Paraguai, no rastro do avanço dos movimentos sociais, que colocariam as relações Brasil-Paraguai em novo patamar de eletricidade diplomática, capaz de dificultar os acertos em torno de uma diplomacia convergente não totalmente aderente ao bolivarianismo socialista chavista

O Itamarati , diante da movimentação política contraditória paraguaia e consciente da relativa semelhança dela com o movimento que detonou a crise de Honduras, costurou, rapidamente, novo acordo Brasil-Paraguai, para fortalecer a posição fragilizada de Fernando Lugo, internamente, em razão da sua fama de padre mulherengo, que escandalizou a classe média conservadora, ligada às elites políticas tradicionais.

A renovação do acordo em novas bases, que permitirá aos paraguaios disporem de maior volume de capital proveniente das receitas energéticas de Itaipu, fortalece Lugo, mas, também, os seus opositores, enquanto relativiza a força que a pressão dos movimentos sociais produzia em favor do avanço do discurso chavista no Paraguai.

Pelo acordo inicial, o Paraguai e o Brasil dispõem, cada qual, de 50% do total da energia produzida pela maior hidrelétrica do mundo. Como o Paraguai utiliza somente 5% do total de energia a que tem direito, comprometeu-se, quando o país era dominado pela ditadura do general Stroessner, a vender, obrigatoriamente, os 45% restantes para o Brasil, descontado o pagamento da dívida e dos juros.

Pelo novo acordo, que deverá ser assinado nesse sábado, 25, em Assunção, depois da reunião dos países do Mercosul, na capital paraguaia, as regras mudam substancialmente. O Paraguai poderá vender no mercado livre a sua parte, tanto para as empresas privadas, no Brasil, como para a Eletrobrás, empresa estatal. Os acertos continuariam comprometidos com as duas partes negociando entre si. Não haveria possibilidade de o Paraguai vender sua parte para a Argentina ou Chile, por exemplo, exceto a produção de outras usinas que dispõem no país.

A previsão é a de que o governo paraguaio venderá pelo triplo do preço, segundo as informações dos bastidores. Atualmente, a Eletrobrás compra por 120 milhões de dólares os 45% do direito paraguaio. Deverá essa quantia pular para 360 milhões, uma despesa que será debitada ao contribuinte brasileiro.

Tal débito virá não, certamente, em forma direta, de assalto ao bolso, via aumento da tarifa de energia, mas em forma indireta, de imposto, cobrado mais à frente, porque o governo assumirá  custo em forma de aumento de déficit público – inflação de sub-solo – , elevando-o em escala ainda mais intensa do que a que ocorre, nesse momento, em que  concede vantagens fiscais e creditícias aos diversos setores produtivos, financeiramente, encalacrados na bancarrota produzida pela grande crise global.

Dólar pode ser descartado

As reservas em dólar da China e do Japão que estão sendo jogadas maciçamente na América do Sul estimulam discussões para acelerar trocas comerciais em moedas locais, para evitar colapsos cambiais

Não estaria fora de cogitação, no novo acordo, uma mudança da referência monetária a  nortear o contrato entre as duas partes. Como avança , na América do Sul, proposta de trocas comerciais por moedas locais, inicialmente, colocadas em prática entre Brasil e Argentina, com tendência a generalizar-se na relação dos demais países sul-americanos entre si, no compasso da desvalorização acelerada do dólar, poderia constar do novo acordo, novidades surpreendentes.

Os termos do novo acordo , que não vieram, inteiramente, à luz, considerariam , em cláusulas específicas, como se admite nos bastidores petistas, cláusula de pagamento por meio de moedas locais, brasileira e paraguaia, conforme interesse soberano dos dois países. Tal inovação, se ocorrer, criaria fato político extraordinário. Pode ser que não venha num primeiro momento, para não levantar controvérsias explosivas, mas estaria aberta porta para que, num segundo instante, houvesse consideração nesse sentido, no ambiente em que a moeda americana sofre contestação internacional como pressuposto para continuar como equivalente mundial nas relações de trocas globais.

Pelo lado brasileiro, os empresários, que já estão enfrentando redução geral do nível de atividade econômica, temem consequências a serem produzidas pelo aumento do déficit público brasileiro, principalmente, no instante em que a taxa de juro cai e leva os banqueiros a resistirem, de agora em diante, a financiar, em escala acelerada, a dívida pública interna. A selic recuou, na última reunião do Copom, nessa semana, de 9,25%, para 8,75%, embora as taxas de juros , para o comércio e a indústrias continuem escorchantes, criando fato inquietante para os bancos continuarem bancando compra de títulos da dívida pública interna de forma permanente.

Por outro lado, no entanto, os empresários paraguaios, com o aumento da renda interna, proveniente dos recursos de Itaipu, em escala bem mais ampla, terão novas oportunidades de investimentos. Como a base industrial paraguaia é insuficiente, para atender uma demanda crescente de consumo, caso ocorra, seriam, naturalmente, os empresários brasileiros os que disporiam de chances para atender as demandas paraguaias, salvo se não conseguirem competir com a concorrência chinesa.

Favorecidos pelo excesso de reservas em dólares, os chineses e, também, os japoneses, intensificam a desova de moeda americana, em processo de ampla desvalorização, adquirindo ativos seguros na América do Sul, para fugirem dos prejuízos, ao mesmo tempo que a entrada de cambiais dolarizadas no continente sul-americano valoriza as moedas dos países, detonando a indústria brasileira e argentina, principalmente, levando os investidores dos dois países ao confronto, expresso, de ambos os lados, na defesa do protecionismo. Nada melhor para os chineses e japoneses. O Japão, por exemplo, durante a semana, fechou contrato para importar etanol brasileiro, pagando, naturalmente, a mercadoria com as reservas em dólares desvalorizados que dispõem. Assustadas, as autoridades japonesas tentam, de todas as formas, desovarem moeda americana disponível em seu caixa. Estão completamente temerosos quanto ao futuro incerto do poder monetário de Tio Sam, atolado em déficits que impedem a capacidade dos Estados Unidos continuarem a ser o carro-chefe da demanda global, como alertou o próprio presidente Barack Obama, na recente reunião do G-14, na Itália.

Moeda sul-americana em marcha

O acordo Brasil-Paraguai pode acelerar moeda sulamericana e consequentemente fortalecimento das trocas sulamericanas, ancoradas em banco sulamericano e parlamento sulamericano, que se deslancham no compasso da crise global, mesmo diante das resistências gerais dos que ganham com a dependencia sulamericana dos capitais externos que, referenciados em dólares, desvalorizam-se aceleradamente

Os paraguaios, nesse contexto, continuarão preferindo, logicamente, os produtos manufaturados chineses, muito mais baratos do que os produtos brasileiros e argentinos, cujas exportações estão sendo limitadas pela valorização do real e do peso. A busca de trocas comerciais na América do Sul por meio de moedas locais tenderia a ganhar adeptos, não somente para nortear a realização do novo contrato de Itaipu, mas, principalmente, para evitar que os asiáticos, cheios de dólares em caixa, destruam as moedas dos países sul-americanos, no compasso da crise global.

A não resolução do impasse monetário – que coloca o dólar em escala acelerada de desvalorização como ameaça à estabilidade sul-americana, nesse momento – cria ambiente, tanto para intensificação de trocas comerciais por meio das moedas locais, como, da mesma forma, para emergência da moeda sul-americana.

O Banco do Sul, que já está pronto para ser lançado, e o Parlasul, parlamento sul-americano, igualmente, articulado, para começara a funcionar,  tenderiam a acelerar sintonias sul-americanas capazes de coordenar ações econômicas, sociais e , sobretudo, políticas integracionistas como resposta às ameaças que o vendaval monetário dolarizado-desvalorizado produz em escala incontrolável.

A não superação desse risco, que coloca em xeque as atividades produtivas na América do Sul e a própria integração econômica sul-americana, vai se transformando, quanto mais ameaçadora se torna, em combustível para o fortalecimento e ampliação dos movimentos sociais que desfraldam a bandeira chavista socialista bolivariana.

Seu arco de influência, acaba, inclusive, de chegar ao Brasil por meio do senador Cristovam Buarque(PDT-DF), ao pregar plebiscito bolivariano contra o presidente do Congresso, senador José Sarney(PMDB-AP). O parlamentar brasiliense, descrente da democracia representativa, que elege para conselho de ética, para julgar  o presidente do Senado, a própria anti-ética em pessoa, o senador Paulo Duque(PMDB-RJ), que desdenhou, vergonhosamente, a opinião pública, considerando-a descartável e volátil. Escândalo que apenas fortalece o jogo político chavista.

A onda socialista bolivariana pegou carona na crise política do Senado, que se desenrola em plena crise econômica, detonando desempregos, queda de arrecadação e fragilização do PAC, com o qual o presidente Lula pretende fazer da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua sucessora na eleição presidencial de 2010.

Chavez entra na crise do Senado e na sucessão 2010 pela mão de Cristovam Buarque

cristovam-buarque joga na democracia diret para tirar sarney ancorado na democracia representativa que perdeu legitimidade popular e está totalmente desacreditada hugo chaves com sua proposta democratica bolivariana em que a participação direta popular via plebiscito e referendos deu novoca coloração política na América do Sul vai influen ciando o comportamento de Cristovam com sua proposta de tirar Sarney por meio de consultra popular semelhante à onda bolivariana
 O senador Cristovam Buarque(PDT-DF) está definindo, claramente, seu esquema político estratégico para 2010. Aposta, abertamente, na radicalização política popular, que se articula, com a crise do Senado,  na onda da desaceleração econômica e do desemprego,  a colocar o capitalismo sob debate na sociedade e sua continuidade como produto histórico social que muda, constantemente, ao sabor das correlações de forças políticas em permanente flexib ilidade global. Ao defender plebiscito para julgar o presidente do Congresso, senador José Sarney(PMDB-AP), para ver se ele tem condições ou não de continuar no comando do segundo poder da República, o Legislativo, desmoralizado, o senador brasiliense joga o assunto na  rua, onde, ao final, deitarão as discussões que culminarão na eleição do próximo ou próxima presidente do Brasil. Trabalha, enfim, com a solução bolivariana do presidente da Venezuela, Hugo Chavez, de acelerar a participação direta da população na questão política e econômica nacional.
 
Cristovam Buarque põe em cena novo PDT, que viabiliza seu nome no espaço nacional, ligado a uma proposta de democracia direta, a nova moda sul-americana,  ao mesmo tempo que dá sustentação ideológica aos candidatos pedetistas Brasil afora nos estados e municípios. O nome do senador brasiliense, que desejaria renovar seu mandato, ou repetir a dose de uma candidatura presidencial, fortalece, no DF, o nome do deputado distrital, José Antônio Regufe, que, ao longo da atual legislatura, adotou comportamento oposto ao da classe política, ancorada no excesso de mordomias e permissividades anti-éticas que transformou a Cãmara Legislativa na “Casa do Espanto”, tal as barbaridades legislativas ali perpetradas.
Regufe, na onda ética , aprofundada, agora, pela proposta de democracia direta cristovista, pode ser candidato forte ao governo do Distrito Federal no próximo ano. O discurso renovador da representatividade política teria condições de virar bandeira eleitoral, numa linha que, certamente, o fundador do PDT , Leonel Brizola, e seu guru intelectual, ex-senador Darcy Ribeiro, apoiariam, no cenário da degradação geral do Legislativo, comandado por legislação eleitoral cuja essência se rende ao peso do dinheiro do caixa dois que financia mandatos de norte a sul e de leste a oeste nos 27 estados da Federação, espalhando corrupção por todos os lados.
 
A entrada dos estudantes no Congresso defendendo Fora Sarney elevou a sensibilidade política do professor universitário Cristovam aos píncaros do alerta capaz de direcioná-lo a um posicionamento mais radical, dessintonizado-se da democracia representativa, cujos impasses crescem e demonstram sua caminhada rumo a soluções cada vez mais conservadoras. A comprovação dessa evidência foi claramente dada com a indicação do senador Paulo Duque(PMDB-RJ), para comandar o conselho de ética do Senado, tendo como bandeira destroçar, debochadamente, da própria ética. Escandâlo.
 
Cristovam ao optar pelos gritos dos estudantes, nos corredores do Congresso, sinalizando o teor futuro dos discursos nas ruas durante a eleição do próximo ano, no compasso do desemprego e da redução relativa da renda, sob crise global, que afetará, por sua vez, o ritmo da economia brasileira, pautada em modelo de desenvolvimento, totalmente, dependente do capital externo, joga politicamente no espaço ainda não ocupado pelos concorrentes na corrida sucessõria.
Trata-se, pragmaticamente , do aprofundamento da defesa da participação direta da sociedade no processo político, como contrapolo da falta de participação ela, expressa no ambiente da democracia representantiva, que se mostra distante dos interesses populares. Afinal, o Legislativo passou a ser administrado não pela política, mas pelas medidas provisórias, que aposentaram a política.
 

Enrolação nacional

Rogerio CArdoso   criou o personagem que o protótipo geral do político brasileiro da atualidade, enrolador e antiético
Há tempos, Cristovam Buarque vem levantando radicalização em torno de propostas mais ousadas. Já declarou estar os senadores e a classe política em geral, dessintonizados das demandas sociais autênticas. Sem essa sintonia,  mergulhados na abstração das idéias, que norteiam os líderes políticos, cujas estratégias, tanto governista quanto oposicionista, se tornam equivalentes no ambiente da governabilidade eternamente provisória, o desgaste político popular estressou Cristovam. Seus pronunciamentos recentes o tornam incompatível com o utilitarismo democratico meramente representativo-ideológico. Expôs, radicalmente, propondo plebiscito para Sarney, seu rompimento com o caráter de Rolando Lero, criação genial do ator Rogério Cardoso, que tomou conta da classe política nacional.
Na toada do lero-lero,  em pleno ambiente de derrocada capitalista a abalar a superestrutura jurídica em que se assenta o sistema privado, sendo necessária a tábua de salvação do Estado, o episódio Sarney , que abala o Legislativo de cima a baixo, caiu como uma luva para o jogo da radicalização cristovista.
 
Cristovam pediu a cabeça de Sarney, sendo o primeiro a defender a entrada da polícia federal no caso, bem como da Procuradoria Geral da União. Pânico geral.
O senador Francisco Dornelles(DEM-RJ) alarmou-se com a ousadia de Cristovam e considerou a providência complicador extraordinário. No entanto, a proposta prosperou.
O senador brasiliense passou a ser seguido por toda a oposição, revelando seu distanciamento da coalizão govermental, formada, principalmente, pela dupla PT-PMDB . 
 
 
Fogueira decisória do plenário
 
 
heraclito-fortes promete transformar o plenário em fogueira política para dar um mínimo de credibilidade à democracia representativa acossada pela proposta de democracia direta para resolver o impasse sarney
A entrada dos procuradores e dos policiais federais no Congresso abala geral a honorabilidade dos políticos. Nos últimos anos, a Procuradoria Geral da União e a Polícia Federal revolucionaram os comportamentos da ação de busca dos promotores de maracutaias e grandes roubos do erário público por força das influências políticas que têm suas raízes no plano político. O perigo de ações espetaculares da polícia federal em cima dos eleitos pelo povo criaria novo ambiente político de alta temperatura.
 
Cristovam provocou o fogo da radicalidade, quanto mais iam sendo divulgadas informações comprometedoras da honorabilidade ética do presidente do Senado. No rastro aberto por Cristovam, as vozes se generalizaram. O plenário do Senado promete ser, no segundo semestre, fogueira política chamada a decidir pelo voto as questões incendiárias, em ritmo de campanha eleitoral, como promete o primeiro secretário, senador Heráclito Fortes(DEM-PI).
 
Pegará bem, do ponto de vista eleitoral, para os senadores, atuarem como os imperadores  no plenário romano, queimando os infiéis em nome da moralidade pública, em tempo de eleição, em amb iente e conômic o marcado por desemprego em alta, lucro em baixa e deflação emergente. O pior dos mundos para o capitalismo.
 
Nesse ambiente de economia e ética deterioradas, o senador brasiliense joga lenha e gasolina na fogueira, dando um passo além do que ele mesmo já dera com a proposta de levar para dentro do Legislativo a Polícia Federal e os procuradores gerais da República com suas armas ensarrilhadas.
Agora, quer que as ruas se pronuncie. Avança, com a proposta da democracia participativa, direta, em contexto em que a democracia representativa mostra estresse total e, simultaneamente, resistência a qualquer teste de renovação.
 

Pavor da participação popular

O medo da democracia direta levou os conservadores da democracia representativa golpista a reagir com golpe que enterra a democracia em honduras
A resistência conservadora latino americana pode ser aferida pelo golpe de estado em Honduras. O presidente Manoel Zelaya foi defenestrado porque , simplesmente, queria colocar em teste a democracia direta, para além da democracia representativa, que abalou seus representantes, dispondo-os a irem sofregamente ao golpe de Estado contra tal ação política renovadora.
Aquilo que já é comum nas democracias européias, que é a sucessividade dos mandatos sob autorização popular; aquilo que se encontra inscrito na constituição dos Estados Unidos, que é a manifestação popular democratica direta via plebiscito e referendos, ainda, na América Latina, é considerado tabu, absurdo e radicalidade política contra a proprieade privada.
 
No compasso em que a ideologia utilitarista neoliberal deixa de ser solução, para se transformar em problema, a democracia representativa, que levou a economia capitalista à crise, na medida em que os parlamentos burgueses aprovaram legislação amplamente permissiva ao capital especulativo global, encontra-se diante do seu maior teste.
 
Como ela vai deixando de ser útil, consequentemente, deixando, também, de ser verdade, segundo a ideologia utilitarista, que os ingleses inventaram, transformando-a em religião ortodoxa, os legislativos demonstram impotência e abrem o bico, ou seja, criam vácuo político, quanto mais a crise se aprofunda, impedindo a realização efetiva da produção no consumo global, cujas consequências são deflação, desemprego e desarticulação política.
 
Cristovam, no fundo, ao radicalizar, defendendo a convocação das ruas contra Sarney, põe em cena novo fato político, a democracia direta, que vai se transformando em rotina na Bolívia, no Equador, na Venezuela, sintonizando-os  com as práticas institucionais existente nos países capitalistas desenvolvidos, em processo de empobrecimento relativo, no contexto da grande crise global.
 

Crise engole quem não a decifra

A grande mídia é parte da crise que ameaça devorá-la

No mês passado foi a vez do fechamento do jornal Gazeta Mercantil, com 90 anos de história e deixando a marca de ter sido um periódico qualificado, avaliação partilhada até mesmo pelos discordantes de sua linha editorial, voltada para o público empresarial.

Antes havia ocorrido o fechamento do também legendário Tribuna da Imprensa, agravando o problema do desemprego crônico de jornalistas, já sem ter para onde correr, além de fazer aumentar a também trágica concentração da informação nesta sociedade.

Se olharmos para cenário internacional também registram-se sucessivos fechamentos de jornais, seja nos EUA ou na Europa. No Brasil, especialistas prevêem a continuidade desta trágica tendência de falência de jornais, de redução de postos de trabalho e de lamentável estreitamento das fontes informativas.
 
A tragédia está em curso e não se escuta ainda uma proposta alternativa capaz de resolver uma das grandes dívidas acumuladas durante mais de século para com o povo brasileiro, a dívida informativo-cultural. O povo brasileiro é vítima de indicadores raquíticos de leitura de jornal e revista, são trágicas as estatísticas da Unesco, estamos em pior posição que o nível de leitura de jornal na Bolívia, país mais pobre da América do Sul.
 
Comecemos nos indagando se o mercado será capaz de evitar o fechamento do jornais, o desemprego de jornalistas e gráficos e a concentração da informação em poucas empresas. Não tem sido. Ao contrário, o mercado tem se tornado cada vez mais cartelizado, cada vez menos concorrencional, inclina-se notavelmente para o oligopólio, devasta as esperanças dos que ainda sonhavam com um jornalismo com capilaridade, com regionalização, capaz de assegurar informação diversificada, plural e acessível a todo os brasileiros. Falemos do tamanho da tragédia: somadas, as tiragens de todos os pouco mais de 300 jornais diários brasileiros não atingem a marca dos 7 milhões de exemplares. Indigência democrática! O povo brasileiro está praticamente proibido da leitura de jornais, portanto, proibido de ter acesso a uma tecnologia do século XVI, a imprensa de Guttemberg.
 
 

Desemprego e desorganização política
 
 

 

não interessa aos empresários o consumo de jornais, mas o lucro que os anúncios neles contém, para sustentar uma relação de dominação do capital sobre o trabalho, embora o capital do jornalismo seja não o capital, mas o trabalho do jornalista, que ainda não descobriu essa riqueza por falta de organização política

O mercado tem discutido alternativas a isto? As universidades? O movimento sindical? Não se registram debates sobre como assegurar a massificação da leitura de jornal e revista. Nem mesmo a Fenaj que acaba de ser derrotada na sua luta para manter a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo apresenta – nem antes, nem agora – alternativas para evitar que estes profissionais não formassem apenas um imenso exército de diplomados-desempregados. É preciso regulamentar a profissão, mas também é preciso assegurar o fim da proibição à leitura de jornal. Também devemos elaborar políticas públicas – já que o mercado exibe sua incapacidade – para que os brasileiros assim como recebem do estado merenda escolar, remédios, camisinhas, dentaduras, bolsa família, também recebam jornais e revistas para a sua informação. Seria nada mais do que assegurar o cumprimento da Constituição quando esta estabelece a informação como um direito do cidadão. Para que , afinal, que isto não seja apenas retórica legislativa…
 
Para se avaliar como o sistema de proibição da leitura de jornal vigente contra os brasileiros é tão trágico e paradoxal basta informar que a indústria gráfica registra capacidade ociosa crônica de 50 por cento de suas instalações anualmente. E isto é crônico! Ou seja, povo sem ler, jornalistas e gráficos desempregados e indústria gráfica paralisada na metade do tempo!!! Por que não juntamos os tres ingredientes acima numa política pública de jornalismo para a sua superação  desta crise ? Será que com a nossa indigência de leitura, com a nossa dívida informativo-cultural podemos nos dar ao luxo de ficar esperando indefinidamente por soluções de mercado, quando  este apenas nos sinaliza com  exemplos frequentes e exuberantes  a sua tendência de fechamento de mais e mais empresas jornalísticas, mais desemprego e mais concentração?
 
 

Uma oportunidade perdida
 

 

O jornalismo popular ainda não nasceu na capital da República porque a categoria dos jornalistas não acreditaram no seu potencial para lançar projeto que não tenha como fim o lucro mas o consumo de notíciais verazes e honestas em meio ao vendavel ideológico midiático mentiroso vigente

Não é que não existam tentativas de criar condições e instrumentos para que o povo tenha acesso à leitura e à informação cidadã e qualificada. Uma destas tentativas se deu quando em 1994 o professor Cristovam Buarque elegeu-se governador do Distrito Federal. Um grupo de jornalistas reunidos pelo Sindicato dos Jornalistas de Brasília apresentou ao recém eleito um elenco de medidas destinado a assegurar à população candanga o acesso a informações, a jornais etc. Propunha-se a criação de uma Fundação Brasiliense de Comunicação, com a participação e controle social, capaz de reunir a Rádio Cultura FM, montar uma tv a cabo mas com a democratização e popularização de tvs receptoras que superassem o confinamento sócio-econômico da Lei da Cabodifusão e um sistema de imprensa que se uniria à idéia da Agência Brasília de Notícias, que funcionou, embora sem muita repercussão.
 
Os jornalistas haviam feito um levantamento do número de equipamentos gráficos e de profissionais de comunicação disponíveis na estrutura do GDF para a edição de um jornal diário, que seria sustentado pelas empresas estatais locais, com distribuição massiva e possivelmente gratuita. Havia capacidade gráfica ociosa, havia jornalistas disponíveis, havia a proposta, havia e ainda há a necessidade social de democratizar a informação. Sonhava-se com um jornal de espírito público, plural, diversificado, chegando às grandes massas trabalhadoras, à população mais carente na periferia do Plano Piloto, havia disposição sustentar este sistema público de comunicação. Entretanto, não havia decisão política para implementá-lo.
 
A primeira reação da assessoria do novo governador foi: “Não vamos fazer um novo Pravda!” Aliás, ninguém havia proposto um jornal nesses moldes. A proposta previa participação social, haveria diversidade informativa, aliás, provavelmente superior ao jornalismo praticado pelo mercado, dado o grau de interferência do cartel de anunciantes na linha editorial, via departamento comercial das empresas, seu verdadeiro “editor”. Não era um pravda, mas a verdade é que faltou audácia, faltou acreditar nas utopias para além dos discursos.
 
A oportunidade foi perdida. Nem mesmo as antenas e torres de repetição do sinal da Rádio Cultura FM foram instaladas, com o que o sinal da emissora, que poderia inclusive ser uma cabeça de rede de rádios públicas, educativas e universitárias, continuou e continua até hoje alcançando sofrivelmente apenas o Plano Piloto. A TV educativa ou cultural do GDF até hoje não foi criada. E os 93 por cento dos recursos gastos em publicidade naquele período destinaram-se apenas à maior rede de tv e ao maior jornal local.
 
A amarga ironia é que a idéia do jornal de distribuição gratuita foi aproveitada, anos depois, por um grupo empresarial local, sendo hoje o jornal “Coletivo” um sucesso e uma das poucas possibilidades de informação a que tem direito o povo pobre do Distrito Federal. Setenta mil exemplares são distribuídos diariamente a cada fim de tarde na Rodoviária do Plano Piloto, chegando a todas as regiões do DF. Gratuitamente. Sustentado com publicidade das estatais locais. Descartada pela esquerda,a idéia foi assumida pelo empresariado. Ou seja, pelas mãos dos que sempre impedem e travam o desenvolvimento da comunicação pública, comprovando-se que a idéia do jornal público e gratuito era e é plenamente viável.
 
Será que nem diante do irreversível processo de fechamento de jornais nos tomamos de senso de realismo , de audácia e de responsabilidade para propor um programa público para a massificação da leitura de jornais?

 

 
Nasce o público, morre o privado 
 
 

 

No comando do Estado, as elites, que influem nos destinos da mídia, estabelecem o conceito de público e privado que lhes interessa, enquanto não há mídia pública para desmascará-las

Exemplos nos chegam a cada dia. Evo Moralez, cansado de perceber que os jornais privados estão editorialmente comprometidos com a fragmentação da Bolívia, com os planos nacionais e internacionais de desestabilização da democracia, e que eram jornais inacessíveis à grande massa pobre de bolivianos, lançou o jornal “Cambio”, destinado a ser um órgão de informação de circulação popular, a preços populares. Também agora na Venezuela, quando praticamente todos os jornais encontram-se enfileirados na oposição ao governo eleito de Hugo Chávez, ressurge o jornal popular e público “Correio do Orenoco”, recuperando o nome original do periódico fundado por Simon Bolívar, no qual foi redator o General José Inácio Abreu e Lima, brasileiro que lá é considerado herói na luta de libertação contra o Império Espanhol.
 
Mas, não apenas em governos considerados de esquerda surgem iniciativas deste naipe, como alguns poderiam objetar. Também na França há sólidas experiências bem sucedidas de jornalismo público, como o periódico editado pelo sistema previdenciário francês que chega à casa de cada segurado, com informações sobre toda a realidade nacional e internacional, sobre a cultura e a economia, e não apenas sobre temática previdenciária.
 
Assim, há razões públicas defensáveis para que o governo salvasse um jornal de tradição de 90 anos como a Gazeta Mercantil. Não apenas porque provavelmente também estará em débito com os cofres públicos. Quantas vezes empresas jornalísticas em dificuldades financeiras recorreram aos cofres públicos para superar suas crises? E seguiram depois condenando editorialmente o papel do estado mas , na primeira dificuldade, batem à porta do estado?
 
Por que ao invés de empréstimos, não pode o estado assumir o controle acionário de um jornal como o Gazeta Mercantil, ou como o Tribuna da Imprensa, aproveitando sua estrutura industrial, empresarial, seus recursos humanos, sua tradição informativa, sua marca social na sociedade e, com novos critérios administrativos, transformá-los em jornais de ampla circulação popular, com tiragens realmente massivas, de milhões de exemplares, a preços módicos ou mesmo distribuição gratuita, já que o direito à informação é um direito constitucional do cidadão?
 
 

Papel protagonista do estado

 

Enquanto a mídia privada depender das subvenções públicas enquanto se amarra àqueles que sugam o Estado via juros altos na dívida pública não tem porque falar em jornalismo verdadeiro em meio à mentira generalizada que o dinheiro patrocina como arma para sua própria reprodução em ambiente adequado pautado pela ausência da verdade

No início governo Lula, em 2003, divulgou-se a existência de um Proer da Mídia, pelo o qual as empresas de comunicação endividadas , tal como os bancos a que alude a sigla, recorreriam ao estado para escapar a ameaça de falência. Houve solicitação ao BNDES para reestruturação das dívidas das grandes empresas de mídia. Na época o então Ministro José Dirceu pronunciou a frase forte “a Globo é uma questão de estado”. Foi proposto então que a serem empregados recursos públicos no salvamento da empresa das dificuldades, que estes recursos fossem investidos como compra de ações, passando o estado a ser acionista destas empresas desvedoras, assegurando que os recursos não fossem empregados em vão, como já ocorreu, e em certas circunstâncias, mais de uma vez, com as crise repetindo-se.
 
Agora estamos diante de uma crise sem precedentes, crise internacional, até mesmo City Bank e a General Motors já se transformaram em empresas estatais, ocorrendo o mesmo com inúmeros bancos na Inglaterra, na Alemanha, na França. Aqui a Caixa Econômica anuncia que irá lançar um cartão de crédito próprio para não mais depender do cartel internacional que domina e impõe regras discricionárias ao segmento. Os exemplos estão aí. Será que mesmo assim não teremos capacidade, como sociedade, de realizar um debate sobre como garantir que o povo brasileiro tenha finalmente o acesso à leitura de jornal?
 
São muito positivas as iniciativas de comunicação partidas do campo público recentemente, seja o Blog da Petrobrás, as colunas O Presidente Responde, a criação da Empresa Brasil de Comunicação, além da convocação da I Conferência Nacional de Comunicação. Mas, o público ainda se queixa: “como sintonizar esta TV Brasil? Ela só pega na tv a cabo? Isto é pra quem pode pagar!” Da mesma forma que as colunas escritas diretamente pelo presidente, embora importantes, não chegam ao grande público, já que as tiragens de jornal continuam raquíticas e não existe ainda um jornal ou vários jornais populares de grande circulação, seja gratuita ou a preços bem módicos. Existiria alguma proibição escrita nas estrelas determinando que não se possa também uma política pública para a democratização da leitura de jornal no Brasil? Não é razoável que a EBC assuma também a publicação destes jornais? Não é razoável que o BNDES que tanto financia grandes empresas privadas e até transnacionais apoie um projeto de um jornal público, de massa, gratuito?
 
Enquanto isto, jornais fecham as portas e há prenúncios de que novas falências venham a ocorrer. Não é hora, portanto, de debater um programa público de massificação da leitura de jornal?
 

 
Beto Almeida

Presidente da TV Cidade Livre de Brasília