A vergonha e o Orgulho de Ser Gaúcho

Sob intenso tiroteio, a governador gaúcha pode dançar no cargo, se sofrer impeachment, por parte da oposição, que, no fundo, no fundo, teme que ela seja reeleita, o que ocorreria pela primeira vez no RGS, possívelmente, graças ao prestígio de ter saneado as finanças do Estado em frangalhos, ao mesmo tempo em que contrariou, não apenas adversários, mas, igualmente, correligionários, interessados em detoná-la

Sei que levarei pedradas com o que direi nas próximas linhas. Mas garanto que é menos ruim encarar escoriações e hematomas na pele, do que sentir a corrosão interna da própria alma pela omissão; por não externar o que realmente penso.
 
Em 1999 deixei o Rio Grande do Sul. Voltei a freqüentar mais seguidamente o estado a partir de 2007, especialmente em função do nascimento de minha filha, em Porto Alegre.
 
Mas a saída das terras gaúchas não foi apenas uma questão de oportunidade. Provoquei deliberadamente tal mobilização por não acreditar em um futuro muito próspero para o Estado e, conseqüentemente, para mim próprio.
 
De forma alguma renego minhas origens porto-alegrenses, das quais tenho grande orgulho. Mas esse sentimento realmente não chega a ser exagerado a ponto de prejudicar meu senso crítico. E no final do século passado as coisas não iam nada bem no Extremo Sul do Brasil. E só tendiam a piorar.
 
A perda do investimento da Ford dominava os ânimos da época. Mas talvez o foco de maior força simbólica daquele tempo tenha sido a depredação consentida do relógio do milênio,  logo na virada para o tão esperado (e mistificado) ano 2000. O recado era bastante claro: o Rio Grande do Sul parava no tempo.
 
E incrivelmente isso foi acontecer a partir de uma presunção de sabedoria. Afinal, os gaúchos sempre consideraram a si próprios o povo mais politizado do Brasil, invocando para isso nomes históricos como Getúlio Vargas, João Goulart e outros que freqüentam as páginas dos livros .
 
Mas que tipo de politização é essa? Será que foi tanta sabedoria o motivo que impediu a reeleição de ao menos um governador nos últimos seis mandatos do executivo gaúcho? Ou será que o eleitorado do estado tem compulsão por errar?
 
Sem querer identificar um diagnóstico definitivo, parece que a tal da politização se resume a uma ferrenha dinâmica dedicada a desgastar o poder estabelecido, na esperança de vagar a cadeira de chefe do palácio Piratini nas próximas eleições.
De acordo com essa tradição, os momentos de transição de poder são dedicados a minar a base de trabalho do sucessor e destruir os méritos do antecessor. Quem sai dá aumento de salário ao funcionalismo; e quem entra tende a eclipsar ou destroçar as boas realizações do último governador.
 
E no decorrer das últimas décadas, toda essa politização, associada a clientelismo, acabou por esculhambar com a máquina pública estadual, reduzindo a zero a capacidade de investimento do poder público, o que irremediavelmente afetou a vitalidade das empresas.

 

Fuga dos aliados

 

O presidente do partyido, senador Sergio Guerra, simplesmente, dá uma de Pilatos, lava as mãos , evidenc iando todo o seu distanciamento e medo de se machucar, saindo em defesa da gover nadora que fica, assim , entregue à própria sorte, sem os tucanos para avalizar sua administração sob ataque de desconfianças generalizadasEnquanto os políticos gaúchos ficavam incessantemente politizando uns contra os outros e paradoxalmente trocando gentilezas de poder (cargos) entre si (às custas dos impostos, é claro), seus colegas do Sudeste, Nordeste, Centro-Oeste e Norte atuavam em conjunto nos pontos convergentes, conquistando melhores investimentos em infra-estrutura e privados.
 
Vendo a realidade por esse ângulo, rebati o banco traseiro de meu Uno Mille; carreguei o que tinha de mais importante; e peguei a estrada rumo à Brasília. Nada de política pública! Fui para a Capital Federal contratado por instituições privadas interessadas em alavancar o desenvolvimento econômico do Centro-Oeste e alguns estados do Norte (o saudoso Projeto Mercoeste).
 
Os primeiros meses em Brasília não foram fáceis. Acostumado a conviver com muitas pessoas, me deparei em um lugar onde tinha poucos conhecidos. E numa sexta-feira de 2000, quando preparava o espírito para mais um final de semana em companhia da televisão, tocou meu moderníssimo celular de meio quilo.
 
Era minha amiga, ex-professora da Universidade e então deputada federal Yeda Crusius, que ao mesmo tempo em que me repreendia por ter mudado para o Distrito Federal sem avisar, convidava para um churrasco no dia seguinte no Clube do Congresso, onde reuniria alguns amigos e parentes.
 
Depois daquele dia nosso contato passou a ser freqüente por telefone. A partir de 2003, quando passei a assessorar o recém-eleito deputado Francisco Turra (acabou virando uma espécie de irmão), comecei a freqüentar mais assiduamente o gabinete de Yeda. Pelo menos uma vez por semana ia lá tomar um cafezinho e conversar, normalmente sobre o Rio Grande do Sul.
 
Naquele convívio pude observar como a atual governadora gaúcha faz política. Ela é pragmática; não gosta de frescura e debates estruturalmente inconclusivos. Mas pessoalmente como apreciador do bom humor, não era raro eu falar algo que provocava acessos de riso na parlamentar.
 
O tempo foi passando e chegamos a março ou abril de 2006. Lembro que era final da manhã e tocou o celular (já não era o de meio quilo). Era Yeda.
 
– Eduardo, estou te ligando para comunicar que decidi me candidatar ao governo gaúcho.
 
– Que legal Deputada. No seu governo, vou querer ser secretário especial de manutenção de estátuas de mármore. Posso?
 
Depois de algumas risadas, conversamos um pouco mais sobre o assunto e o destino acabou nos distanciando.
 
Acompanhei minha amiga crescendo nas pesquisas, até conquistar uma brilhante vitória eleitoral. No dia do segundo turno estava em São Paulo. Saí de Guarulhos rumo a Porto Alegre para votar nela e voltar no final do dia. Quase que não consigo. Era o primeiro dia do colapso aéreo (lembra?). Votei, fui ao comitê de campanha e dei meu último abraço em Yeda.
 
Resolvi me afastar. Não gosto do clima de corte e puxa-saquismo (sangue-suga) que normalmente circunda o poder. Detestaria ser confundido com essa gente.
 
E conhecendo Yeda como conheço, sei que ela também não tem muita paciência para os “salamaleques estéreis”. Já disse, ela é pragmática. Quer realizar o que se propõe a fazer. E nessa linha enfrenta as contrariedades de forma direta; sem enrolação.
 

Equilíbrio incômodo

 

O líder dos tucanos, no Senado, senador Artur Virgílio, AM, igualmente, fala, fala, fala sobre o caso, mas não esconde, no fundo , a sua desconfiança de que a correligionária governadora gaúcha está mergulhada em grande crise cujas consequências poderão jogar o governo gaúcho na lama total, se for criada CPI, para investigar os fatos que envolvem a Yeda em complicações de caixa 2, algo que envolve, de maneira geral, toda a classe política, submetida a uma legislação eleitoral altamente permissivaAcompanhando sua gestão pelas noticias, vi ela realizar coisas que pessoalmente não acreditava serem possíveis em tão pouco tempo. Duvidava da meta de equilíbrio das contas públicas do RS. Mas ela conseguiu.
 
Em 2009, pela primeira vez em décadas, o estado está podendo investir de verdade (mais de R$ 1 bi). E quem consegue isso, seguramente não brinca em serviço e muito menos dá espaço para malandragens.
Isso mostra ser tão sério para ela que – na qualidade de governadora – não titubeou em demitir aliados próximos (amigos) sobre os quais pairaram suspeitas.
 
Mas a verdade é que Yeda provocou um problema muito sério para ela própria: na medida em que conseguiu dinheiro para investir no estado, ela acabou se tornando uma séria candidata à reeleição, o que contraria a tradição política gaúcha.
 
Daí as tentativas violentas de destruir seu governo. Afinal, no manual das boas práticas partidárias do Rio Grande do Sul ainda deve haver algum capítulo especial insistindo na desmoralização de quem está no poder, seja quem for.
 
Quanto às acusações que pairam sobre a Governadora, acho improvável que sejam verdadeiras. A lógica da corrupção manda proteger os parceiros. Yeda Crusius fez o contrário, demitindo quem eventualmente estivesse fora da linha. Se ela tivesse culpa, os exonerados não hesitariam em colocar a porcaria no ventilador.
 
E o caso de Marcelo Cavalcante, morto em fevereiro? Ele tinha o status de secretário de governo e foi demitido por suspeitas de envolvimento em desvios no DETRAN gaúcho. Claro, ser botado para a rua em tais circunstâncias não faz nada bem para o ego.
 
Culpado ou inocente, o sujeito tende a criar sua própria vertente de realidade… e mentir para si próprio e para os outros. De acordo com artigo do Psicólogo Clínico Rui Manuel Carreteiro (A Mentira, 2004) um ser humano normal mente cerca de 200 vezes por dia (os que dizem não mentir estão mentindo).
 
E daí, numa conversa telefônica informal e sigilosa com um amigo pessoal (que estava gravando), será que não rola alguns atentados à verdade? Lamentavelmente, não temos como perguntar a Marcelo..
 
Então, o que resta? Resta que Yeda Crusius foi a única governadora democraticamente eleita no Rio Grande do Sul que teve sucesso em arrumar as finanças do estado.
 
Para conseguir isso, certamente ela não teve tempo (nem saco) para ser conivente com firulas e incompetências. Daí vem a ciumeira, denúncias e o plano de destruição de uma gestora pública de altíssimo gabarito.
 
Talvez em 2011 eu consiga ligar para a minha amiga e combinar um chope. Mas se isso só for possível em 2015, compreenderei que é para o bem do Rio Grande do Sul; estado que me traz muito orgulho; e algumas vergonhas.
 
 
Eduardo S. Starosta – economista

Real desbanca dólar sob ataque especulativo

Lula e Obama estão prisioneiros dos destinos que serão dadas pelas contradições que enfrentam o sistema financeiro global sob a moeda americana que sofre ataque diante do receio de que o governo americano não seja capaz sozinho de conduzir nova política monetária que seja seguida pelo mundo globalizado

A valorização do real frente ao dólar, durante a semana, no momento em que os poupadores das cadernetas sacam R$ 1,5 bilhão no caixa, com medo de ataque a eles pelo governo ou porque precisam deles para cobrir suas dívidas afetadas pelo desemprego, colocou em cena a expectativa e desconfiança globais relativamente ao resultado que seria obtido pela tentativa do presidente Barack Obama de salvar da falência, sem estatização bancária, os bancos privados, outrora mais fortes dos Estados Unidos, agora, garroteados pela bancarrota financeira internacional. Indiscutivelmente, é o assunto mais palpitante do mundo na debacle da financeirização econômica neoliberal global.

Como o mercado, com as barbas de molho,  especula sobre a verdadeira capacidade de os bancos passarem no teste de estresse aplicado pelo Banco Central dos Estados Unidos, os detentores de dólares continuam altamente desconfiados, predispondo-se a buscarem ativos mais seguros, embora 10 dos 19 testados, mediante apoio financeiro governamental, tenham se saído mais ou menos, deixando dúvidas generalizadas. Temem os americanos que a banca privada, se sair do colo estatal, onde se encontra baleada, não poderia andar sozinha. Vigora firme o dirigismo estatal americano que ganha colorido chinês no modo de conduzir o capitalismo.

Há, por isso, tendência à fuga do dólar, especialmente, para os emergentes, que, dessa forma, vêem suas moedas valorizadas frente à moeda americana, como está sendo o caso brasileiro. Suficiente em abundância de matérias primas para as manufaturas em geral, terras que asseguram até três safras anuais , petróleo e etanol, biodiversidade infinita, além de base industrial competitiva e mercado interno amplo, o Brasil vai chamando a atenção em plena crise. Por duas vezes, durante a semana, o Banco Central teve que jogar água na fervura, sacando reais para comprar verdinhas encardidas , a fim de reanimá-las.

Os exportadores brasileiros já seguem as tendências maiores do mercado em franca especulação contra o dólar, que pode sofrer novos abalos, se intensificar a desconfiança nos bancos privados, semi-estatizados, como forma de manterem vivos. Ao contrário de antes de outubro do ano passado, quando começou a crise, os exportadores deixaram de acumular dólares ou manter os créditos junto aos importadores. De repente, começaram a correr do dólar para o real, diante da sensação de perda psicológica.

O inconsciente instintivo do empresário deu alerta sobre o perigo de os bancos americanos sucumbirem, jogando o dólar no chão, caso retarde demais a estatização bancária, para aliviar as tensões do mercado. Como este deixou de acreditar em si mesmo, passando a torcer e a clamar pelo socorro estatal, busca desovar seus dólares, quanto mais o teste de estresse aos bancos, aplicado pelo governo, sinaliza desconfianças na capacidade deles voltarem a ser saudáveis sem o colo do Estado americano dirigista à moda da China. É como se o sistema vivesse a expectativa de um pré-dilúvio, tendo Barack Obama comandando nova Arca de Noé.

Além dos exportadores, os fundos de investimentos estão recebendo ordens dos aplicadores para sairem dos dólares e comprarem ativos nos países emergentes. O movimento levou o FMI a divulgar relatório de que a novidade econômica de 2009 poderá ser a resistência dos países emergentes sul-americanos, diante da paralisia econômica européia e americana. Motivos para os dólares e derivativos empoçados se dirigirem para as praças emergentes, valorizando as moedas nacionais.O movimento até tem jeito de calote.


Corrida aos emergentes

O excesso de dólar na praça global joga o preço da moeda americana no chão quanto mais o mercado desconfia da capacidade de o governo barack obama de remover os créditos tóxicos que empoçam a praça mundial

O medo de reter dólares em meio ao teste de estresse dos bancos americanos valorizam as demais moedas , quanto mais os que acumulam a moeda americana buscam dela se safar para adquirir outros ativos. As informações de que investidores , em larga escala, estão comprando terras no oeste da Bahia, maior espaço mundial para plantio de leguminosas exportáveis, colocam os fundos de investimentos na linha da especulação com ativos nos países emergentes, como fator de reprodução do capital que está sem onde aplicar depois do estouro financeiro nas praças americana e européia. Nelas, ele está ocioso e sucumbindo-se à eutanásia do rentista sob juros negativos em nome da reanimação do consumo e da produção.

Não haveria, para esse capital sobreacumulado, possibilidade de reproduzir-se na construção da infra-estrutura européia e americana, onde ela está bem edificada ao longo dos últimos cinquenta anos, destacam analistas internacionais. Do mesmo modo, os gestores dos fundos perceberam que com o ímpeto anti-consumista que toma conta da Europa e dos Estados Unidos, no auge da bancarrota financeira que paralisou o crédito, os rendimentos das ações dificilmente voltariam a ser o que eram na escala altamente consumista, como destacou aos seus acionistas o empresário mais rico dos Estados Unidos, Warren Buffett, no final da semana passada.

Restariam outras alternativas ao capital especulativo, que está se desvalorizando rapidamente, depois da bancarrota, na qual, calcula-se perdas de mais de 8 trilhões de dólares pelas famílias. A mais importante delas, segundo Buffett, seria a oportunidade dos investimentos em infra-estrutura nos países emergentes, onde quase tudo ainda está por fazer. Do contrário, seus acionistas tenderiam a entrar em perdas maiores, porque não haveria lucratividade nem na especulação bursátil diante de empresas cujos produtos perdem mercado diante na onda anti-consumista em marcha nem na mera formação das bolhas especulativas, animando setores econômicos, para gerar riqueza fictícia, como predominou até à implosão especulativa global.

No novo cenário, os fundos buscam transferir, agora, os dólares e derivativos tóxicos que perderam valor na praça capitalista rica, para a praça dos emergentes. Comprariam nessa praça próspera os ativos reais que os seus ativos fictícios não compram mais na praça do primeiro mundo em bancarrota.

A valorização das moedas dos emergentes começa a ser construída pelo novo movimento dos fundos de investidores que atuam em escala global , bombando possibilidades para sustentar a reprodução do capital acumulado na especulação. Na prática, vê-se uma corrida contra o dólar.

Nova bolha especulativa

Buffett reuniu seus acionistas e destacou que os tempos de bonança acabaram, emergindo a era do não-consumismo, o que leva os invstimentos para os emergentes, onde a especulação pode se instalarArmínio Fraga sentiu o cheiro da nova onda especulativa em cima do real e busca coordenar fundos de investimentos interessados em sair do dólar para aplicar nos ativos brasileirosNOBEL PRIZE ECONOMICS

Configura-se, claramente, que o governo Barack Obama , como destacou o premio nobel de economia Edmund Phelps, não conseguirá sair sozinho da crise. As informações generalizadas nesse sentido, concorda ele, criam o ambiente de desconfiança que condena os bancos à danação, salvo se o governo ajudar.

O sarcasmo dos americanos demonstra o estado de espírito nacional. Antes de deixar o poder, W. Bush, em desabafo perante os banqueiros, disse que o mercado financeiro passara a viver tremenda ressaca. Era a consagração da verdade do fracasso da união do estado americano com a banca privada, que comanda o Banco Central dos Estados Unidos, desde sua criação, em 1913, pautada pelo pensamento neoliberal avesso a qualquer regulamentação.

No plano das finanças, Washington tornou-se totalmente neoliberal, para livrar o capital de qualquer freio à sua própria acumulação, enquanto no plano econômico, continuou mantendo posição protecionista para sustentar setores que perderam a competitividade global.

O requiém final da era neoliberal republicana americana sob W. Bush é o requiém do sistema financeiro que Barack Obama herdou. Sua tentativa de transformar o funeral da bancocracia privada em festa de ressurreição dela coloca o mercado mundial, mergulhado no excesso de moeda americana e seus derivativos tóxicos empoçados, como quem possui brasa no bolso.

No Brasil, a fuga do dólar poderia afetar a política monetária do Banco Central no sentido de tornar desnecessária sustentação do juro elevado, para valorizar o real, atraindo especuladores para os títulos públicos, a fim de bancar investimentos anticíclicos estatais, porque, simplesmente, essa valorização começa a ser dada por outros meios, essencialmente, pela desconfiança dos fundos de investimentos no próprio dólar.

O ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, notório especulador internacional, deu o sinal da nova onda que se forma no rastro da fuga do dólar e da consequente valorização do real ao destacar que as ações na bolsa passaram a ser os alvos dos fundos internacionais.

Se ocorrer corrida dos fundos, trazendo dólares ao país, ao mesmo tempo em que o BC sustenta juro favorável ao especulador nos títulos do tesouro, pintaria supervalorização cambial. Seria o claro sinal de que o Brasil – entre os emergentes – poderia se transformar em nova bolha global.

Banco Global sob comando do G-20

Não há como fugir da interatividade global para organizar a anarquia financeira dada pela irresponsabilidade neoliberal que exige a coordenação da nova força internacional o G-20 por meio do Banco Global, fixando nova divisão internacional do trabalho

A crise mundial somente vai ser superada com a criação de um Banco Global com o aval da nova força internacional, o G-20.

O G-8, que tem por trás o FMI e o Banco Mundial, dispõe de poder de veto na condução dessas duas instituiçãos, criadas pela ordem internacional do pós-guerra sob domínio do dólar que faliu. Como o G-8 foi ultrapassado pelo G-20, na crise da velha ordem, os vetos dos seus financeiramente falidos integrantes – Estados Unidos, Franças, Alemanha, Inglaterra, Japão, Itália e Canadá – mais a Russia – não contribuiriam para a formação de um consenso multilateral que nasce nos escombros do desastroso dissenso unilateral.

Ou seja, o FMI e o Banco Mundial não conseguirão refluir, com credibilidade e confiança, para a praça global, os dólares e seus derivados tóxicos que estão empoçados, porque os demais integrantes do G-20 não assinariam embaixo tal proposta que não atenderia seus interesses como nova força que desponta no cenário internacional.

Os emergentes que demonstraram dispor de força suficiente para influir numa nova agenda financeira e econômica global, certamente, não concordarão com tentativa de desintoxicar os créditos intoxicados por intermédio de instituição à qual, como emergente nova força, se subordinarão ao poder de veto do G-8, a decaída velha força, dentro do FMI e do Banco Mundial.

Força multilareal de crédito abrangente

O G-20 é a nova força por meio da qual a circulação financeira internacional voltará ao normal por meio do banco global que ele criaria como alternativa de consenso plurilateralista

Se o G-20 emerge como nova força multilateral, para relativizar o poder do uniltarislismo do G-8 –  na verdade, G-7, porque a Russia tem um pé nos BRICs, Brasil, Rússia, Índia e China – , exigiria, como consequência de sua própria emergência, uma nova instituição financeira internacional da qual participariam seus novos integrantes com poder relativo a sua respectiva força em meio a um conjunto multilateral.

Somente tal conjunto multilateralista daria credibilidade à circulação monetária, para redinamizar as relações de trocas internacionais, interrompidas pela falência do sistema monetário sob o dólar e seus derivados tóxicos.

O Banco Global seria de mais donos. Os dólares e os títulos da dívida pública americana que estão nas mãos dos países emergentes e europeus seriam depositados no Banco Global que os reemprestaria a juros civilizados, compatíveis com o equilíbrio macroeconômico global sustentável no plano da produção e do consumo.

Seria necessária essa ordem, a partir da centralização do crédito e sua distribuição pela rede bancária mundial, sob coordenação do G-20, com o Banco Global, e não mais do G-8, com o FMI.

O Banco Global daria valor ao que perdeu valor porque haveria novo dono desse valor. Certamente, os Estados Unidos não teriam mais o direito de emitir sem prestar atenção às regras do G-20, comandante do Banco Global, que recepcionaria os dólares dos seus novos sócios, dando credibilidade à moeda americana, ao mesmo tempo em que reciclaria os papagaios dos créditos tóxicos.

China, Brasil, Rússia, Índia, Venezuela, México, Europa, Japão etc colocariam seus dólares no Banco Global e teriam como correspondência a força da sua própria moeda nacional, para criar, no âmbito do G-20, uma cesta de moeda , que daria nova cor monetária às relações de trocas globais.

Fracassso unilateral restrito

O G-20 foi ultrapassado pela crise e não dispõe mais de força suficiente para fazer girar o crédito mundial pelas instituições que criou no pós guerra, simplesmente, porque elas faliram e perderam utilidade, condenadas pelo utilitarismo capittalistaO Banco Global seria o irrigador e o enxugador da circulação monetária global em nome de uma nova orientação à qual os americanos teriam que subordinar, porque, simplesmente, o governo Barack Obama não teria condições de, sozinho, sem a cooperação internacional, enxugar os créditos tóxicos que o sistema financeiro americano falido jogou na praça global, afetando toda a circulação e interrompendo o fluxo de comércio.

Os deficits americanos, que se aproximam dos 4 trilhões de dólares – e que tendem a aumentar para suportar as pressões dos falidos gigantes, bancos, montadoras e multinacionais de âmbito mundial – não recomendariam ao governo americano exposição sem limites ao endividamento. O mercado recuaria em continuar comprando os títulos que tenderiam à podridão.

Se o governo americano não pode mais suportar o peso de deficits continuados, necessitará da cooperação internacional. Essa cooperação será dada pela orientação do G-20 ao Banco Global, em nome do consenso multilateral, a fim de restabelecer a circulação monetária.

Em síntese, o Banco Global conferiria credibilidade ao dólar, mas cobraria o preço da nova cooperação em forma de cesta de moedas. Naturalmente, a moeda sul-americana teria condições de nascer, não sob um real sul-americano, como anseiam mentes brasileiras imperialistas associadas ao fracasso do dissenso neoliberal e dissociadas da emergência do novo consenso multilateral.

Objetivamente, pouco importa se os bancos americanos serão nacionalizados, na pressa em que a crise impõe como dinamismo dado pela própria deterioração dela,  ou se manterão privados, ou, ainda, momentaneamente, nacionalizados para em seguida serem reprivatizados.

O fundamental é o G-20, no comando do controle monetário por intermédio do Banco Global, exerçer sua nova função história dada pela sua própria influência e força no sentido de estabelecer nova correlação de forças políticas, para fazer fluir, em sua generalidade mundial , a emergência econômico-financeira humana.

Evidentemente, a história, na crise atual, se acelera, impondo rítmo que avança sobre as relações sociais da produção, rompendo fatores históricos relativamente sedimentados mas que estão sendo ultrapassados pela movimentação da placa tectônica econômica mundial capitalista.


Crise da economia de guerra

À economia de guerra interessa que o FMI esteja no comando pois os estados unidos tem poder de veto nos emprestimos que oferece e dariam conta da continuidade do unilateralismo que faliuO multilateralismo, no novo contexto estabelecido pelo G-20, para tirar o capitalismo da asfixia financeira, seria ideologicamente útil para os Estados Unidos, como demonstra a política externa de Barack Obama, de sinalizar distensões, ampliar cooperações , para tentar encurralar as forças unidas do sistema financeiro internacional com a indústria da guerra bancada pela expansão dos gastos públicos. A contabilidade americana expressa em deficit de mais de 4 trilhões de dólares esgotou.

O Banco Global, orientado pelo G-20, não seria o canal adequado para a indústria da guerra ir buscar dinheiro em forma de gastos públicos expresso em emissão monetária cuja conta é cobrada do contribuinte. Essa tarefa, como deseja a pregação das forças conservadoras dos falcões da guerra americanos, teria que ser facilitada pela extensão das regras unilateralistas, que interessariam dispor do FMI, para reciclar os créditos tóxicos. Dessa forma, seria desafogado o tesouro americano, para continuar imprimindo dólares sem lastros, a fim de sustentar o capitalismo mediante economia de guerra.

O G-20 representaria obstáculo real a essa lógica imperialista que predominou até W. Bush. A Casa Branca, com a emergência da bancarrota financeira, perdeu fôlego para endividar, indefinidadamente, como algo adequado aos interesses da indústria da guerra. Se, por exemplo, Israel voltar a atacar os palestinos na escala em que atacou, de forma racista, até às vésperas da posse de Barack Obama, em 20 de janeiro, significará declaração de guerra a Obama. O presidente americano estaria diante de dois fogos: ou teria que fortalecer os laços militares com os judeus sionistas fanáticos ou partir com tudo para a formação do estado palestino sob consenso internacional.

Ou seja, o Banco Global, dominado pelo G-20 não sairia em socorro a Obama, para aliviar os deficits americanos, trabalhando para enxugar créditos tóxicos, a fim de satisfazer interesses que estão por trás das parcerias entre as forças armadas americanas e as forças armadas israelenses ao longo dos últimos cinquenta anos.

Dólar afunda sem cooperação

Isolado e com seus créditos podres empoçados, o governo americano precisa urgemente da cooperação por meio do G-20, para não ter que enfrentar grande bancarrota financeira que destruiria o dólarO estresse deficitario financeiro americano dificilmente suportaria pressões para priorizar a guerra quando a prioridade nacional, do ponto de vista da população, seria tirar a economia que, desde o pós segunda guerra mundial, depende da expansão dos gastos com guerra, para formação e solidificação do Estado Industrial Militar Americano, conforme caracterizado por Eisenhouwer, em 1962. A economia de guerra que dependeu fundamentalmente do poder americano de emitir moeda sem lastro ao longo de todo o século passado encontrou seus limites na grande crise financeira internacional.

Os instrumentos que a ordem mundial que estabeleceu a divisão internacional do trabalho sob dominio do dólar a partir de 1944, em Bretton Woods, criou foram por água abaixo. Essa ordem se assentou com a predominância dos Estados Unidos, no plano econômico, criando o FMI e o Banco Mundial; e no plano político, dando as cartas imperialmente no Conselho de Segurança da ONU.

Em ambos os assentos os americanos estabeleceram poder de veto para eles e seus aliados. Essa ordem criou o chamado G-8. A nova ordem, que nasce nos escombros do G-8, detonado pela crise mundial, tem o G-20 por representação política e o Banco Global, por expressão econômico-financeira.

Essencialmente, a função do Banco Global será a de redistribuir as bolas de gude que estão empoçadas em uma só mão. É a velha história do menino bom de jogo de bola de gude, as biloquinhas. O cara ganhava todas. Acabou ficando com elas sozinho sem ter com quem jogar. Precisou distribui-las, de novo, para reiniciar a partida.

Essa é a tarefa socratina do Banco Global sob comando do G-20. Sócrates, genial, disse que a metade é maior do que o todo. Quem tem o todo, explicou, tem todos contra sí. Quem distribui , tem todos a favor de si.

Fora disso é a guerra, é o unilateralismo, que esgotou, em favor do multilateralismo do G-20.

Caras e caros,
perdão por ter cometido erro histórico na matéria sobre o câncer da ministra Dilma quando destaquei que Petrônio Portella se preparava para suceder Figueiredo, quando na verdade, foi para suceder Geisel. Não foi possível porque ele morreu de infarto antes. Tive que aprender com o excelente coleguinha Rubinho Azevedo Lima, em sua coluna no Correio Braziliense, a lição da correção dele e do erro meu. Lamento ter irritado vocês por terem vomitado uma mercadoria sem valor. Perdão para o imperdoável, a distração. O bom da internet é que a gente pode corrigir, fugindo daquela danação eterna de que não existe o verbo desimprimir quando o erro sai na letra impressa. Mais uma vez, perdão,
césar

Serra politiza juros e desestabiliza Planalto

José Serra pegou o calcanhar de aquiles de Lula, os juros altos que o povo é obrigado a suportar por conta da prática de uma políticamonetária que visa elevar o valor do real , aumentar a dívida e desestruturar o parque produtivo, gerando milhares de desempregos, enquanto se privilegia os interesses do sistema financeiro

O governador José Serra, de São Paulo, descalçou as luvas com que estava tratando o governo Lula e sua candidata Dilma Rousseff e partiu para o pau. Deitou falação aberta na Fundação Getúlio Vargas, na capital paulista, sobre o absurdo dos juros vigentes no Brasil. O Banco Central, sob comando de orientação ultrapassada, para os novos tempos, disse, insiste em valorizar a moeda nacional, mantendo juro alto para atrair especuladores. Tudo em nome do falso combate à inflação, que já está nas cordas. O resultado , segundo o governador, seria aumento ainda maior da dívida pública interna, e consequente desindustrialização no ambiente acirrrado da competição protecionista mundial em meio à bancarrota financeira que paralisou o crédito.

O governador de São Paulo, velho crítico dos juros altos, entra no vácuo da fragilidade lulista. Parte com tudo: considera que a política monetarista do governo Lula é puro Charles Ponzi, o famoso especulador italiano , que, nos anos de 1920, enganou, nos Estados Unidos, milhares de pessoas por meio do velho, manjado e, eternamente, repetido jogo da Pirâmide. O BC seria adepto do charlesponzianismo, também, repetido, recentemente, pelo neo Ponzi, Bernard Madof. Maior ataque do que esse ainda não tinha sido dado ao governo, de representar a figura do assaltante à bolsa popular.

O titular do Bandeirantes partiu para o confronto, politizando a discussão. Está amparado por pesquisas da Fundação Getúlio Vargas que dão conta de que 46% dos eleitores e eleitoras consideram os juros fatores essenciais para a vida econômica e política nacional. Perde, apenas, para o desemprego, que mobiliza as preocupações  de 74% dos que votarão em 2010. Quanto mais o Banco Central continuar vendo falso perigo de inflação – que valoriza capital e prejudica salário – em meio à ascendente deflação – que destroi capital e salário – mais jogará o jogo de José Serra, em plena campanha, malhando o judas nacional: o juro excessivo que escraviza o povo por meio do capital.

O Planalto está sem o que responder a Serra, porque também está dividido relativamente à política econômica, amarrada aos velhos pressupostos do Consenso de Washington. Este morreu de morte decretada pelo primeiro ministro da Inglaterra, Gordon Brown, na reunião do G-20, mas, no Brasil, ele persiste, como cadáver insepulto,  na existência de dois orçamentos, no contexto da União, comandados por critérios políticos diferenciados que prejudicam a sociedade em nome do privilégio ao sistema financeiro.

Meirelles favorece PSDB

A crise pegou a política economica jurista do presidente do banco central no contrapé transformando-a em perigo potencial para o governo lula , descartando possibilidade de sucesso político sucessório se ela continuar fazendo estragos, impedindo investimentos e tensionando as contas públicas, sustentando juros altosO jogo especulativo de valorização da moeda determinado pelo juro altamente positivo praticado pelo Banco Central, cujos efeitos são redobradas incertezas que garantem juros extorsivos ao consumo e à produção, aprofunda as contradições nas relações politicamente explosivas do orçamento financeiro e do orçamento não-financeiro no contexto do orçamento da União. Tal divisão foi realizada pelo Consenso de Washington, depois da crise monetária dos anos de 1980, para estabelecer prioridades explícitas da política econômica.

Os ajustes fiscais e monetários, até agora, têm sido feito, apenas, em cima do orçamento não-financeiro, alvo de contingenciamentos generalizados. Por isso, faltam recursos necessários para saúde, educação, segurança, cultura, infra-estrutura. cujos recursos orçamentários são intermitentemente contingenciados em nome de economia forçada para garantir a prioridade número um da política econômica em vigor: pagar os juros que colocam em dia as contas do orçamento financeiro, que diz respeito, exclusivamente, aos interesses dos credores. Este jamais pode ser contingenciado, conforme determina o artigo 166, parágrafo terceiro, item II, letra b, da Constituição. Os constituintes fizeram a festa dos banqueiros, demonstrando seu perfil de classe.

O orçamento não-financeiro e o orçamento financeiro foram separados para que o equilíbrio na relação dívida-PIB fosse realizado em cima do primeiro em favor do segundo, segundo regras fixadas pelo Consenso de Washington. Quem descumprisse tais regras estaria violando a Lei de Responsabilidade Fiscal(LRF). A verdade eterna, estabelecida de fora para dentro,  subordinou os governos neorepublicanos às ordens da Casa Branca. Se a reação de dentro para fora emergisse seria irresponsabilidade fiscal.

A grande crise está demonstrando que a gritaria dos prefeitos e governadores, perdedores com a queda da arrecadação, proveniente da redução do nível de atividade econômica, demonstra, do ponto de vista do interesse nacional, em oposição ao interesse dos credores amparados pelo Consenso de Washington, que, na prática, a Lei de Responsabilidade Fiscal se transforma, simultaneamente, em seu contrário, em Lei de Irresponsabilidade Fiscal. Brevemente, prefeitos e governadores poderão estar aplaudindo Serra, fortalecendo sua cruzada anti-jurista.

Nova Carta aos Brasileiros

O ex-ministro Palocci negociou os termos da Carta aos Brasileiros que caducou inteiramente diante da emergência da crise que desestruturou as bases econômicas do capitalismo nacional, colocando os bancos em situação de privilégio insustentávelO presidente Lula busca reduzir os pagamentos dos juros, diminuindo economia para fazer superavit primário, mas o excessivo endividamento, na casa de R$ 1,3 trilhão, produz, em seu movimento vegetativo, uma despesa crônica, cujas consequências são as resistências dos grandes bancos em embarcarem na redução dos juros. A sucessão, em decorrência disso, já fixa hora e lugar do confronto entre o governo e o sistema financeiro.

Assim como prefeitos e governadores entraram em falência, no contexto da crise que desacelerou a produção , o consumo , a arrecadação e o consequente repasse de recursos da União aos estados e municípios, da mesma forma, no ritmo da desestrutução em marcha, o governo federal , também, terá que reprogramar seu endividamento, em função dos fatores contigentes irresistíveis.

Em 2002, o titular do Planalto assinou a Carta aos Brasileiros, na qual se comprometia em cumprir os compromissos financeiros entre governo e banca privada. Comprou o passe do sistema financeiro para jogar no time do governo lulista. Em troca , o presidente adquriu, também, o passe dos miseráveis ao assegurar que faria uma política fiscal expansionista para ampliar programas populares , a fim de cumprir com sua promessa de campanha, de garantir três pratos de comida a todos os pobres do Brasil, com o programa Bolsa Família. A sustentação dessa promessa, no entanto,  não cabe mais, no ambiente do juro alto, dentro da Carta aos Brasileiros.

De um lado, o presidente atendeu os banqueiros; de outro, o povão. A crise emergente bagunçou , completamente, o jogo armado por ele. Haveria, então, que rever as bases econômico-financeiras do contrato que tem de ser alterado em razão de correlações de forças políticas novas dadas pela grande crise capitalista.

Além do mais, o governo acumula insatisfações com o sistema financeiro que o deixou na mão na hora mais cruciante da crise. Pediu aos grandes bancos que ajudassem os bancos menores, ameaçados de falência. Nada. Pediu a eles que jogassem as reservas do depósito compulsório no crediário. Nada, preferiram aplicar nos titulos públicos. Para se fortalecerem, dois grandes bancos se juntaram, para resistirem, mais, às pressões governistas.

Não restou alternativa ao governo, sob pressão da falência de inúmeros setores, senão a de partir para uma estatização branca, bombando o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, BNDES, para apagar os incêndios e manter o barco, que, no entanto, está sem rumo.

O confronto entre Governo e banqueiros demonstra que a Carta aos Brasileiros de 2002 está rasgada. Não faz mais efeito, porque não há correspondência expressa em relações cooperativas entre as duas partes. Ao contrário, passaram a se morderem. O governo diz que cumpriu sua palavra, mas os bancos não fizeram o mesmo. Mantiveram e mantêm os juros ao povo como o assaltante diante da vítima indefesa.

Corda para enforcado

Os tomadores de dinheiro para o consumo popular podem se ver enforcados se se endividarem em face de uma situação de desemprego iminente e falta de garantia de trabalho que assegure dignidade à pessoa humana em meio à bancarrota financeira especulativa que empoçou o crédito

Os bancos brasileiros, que atuam, no juro, na base do oligopólio, sustentam crédito à produção a 4% ao mês, girando duplicatas, e ao consumo a 10%, esfolando o comprador no crédito pessoal. Um absurdo. O Banco Itaucred financeira, por exemplo, cobra, conforme informações do Banco Central, 13,84% ao mês para crédito à compra de bens. O presidente Lula está estimulando o Banco do Brasil a financiar compras de geladeiras no crediário, para tentar forçar queda dos juros. Terá , em primeiro lugar, que abrir concursos para contratar funcionários. As agências do BB, pelo país afora, especialmente, no interior, apresentam atendimento insatisfatório. Imagine o povo entrando no banco pelas portas eletrônicas para pegar crédito rápido para trocar sua brastemp! Atendido esse pré-requisito, pois, caso contrário, se mal atendido o cliente falará mal do governo e votará contra ele em 2010, as autoridades econômicas teriam que acelerar queda do juro para combater perigo de inadimplência, principalmente, se o tomador perder o emprego.

Dada a insegurança espalhada como brasa pela crise, que suspendeu os investimentos e o crédito em geral, aumentou a intranquilidade do tomador de crédito ameaçado pelo desemprego. Seria desmerecer a inteligência do trabalhor dizer que ele não está de olho no custo do juro mas no preço da prestação, apenas, quanto mais avançam os sinais de crise que elimina qualquer garantia de emprego, na volatilidade global. Esse cliente desesperado tenderia a ver os juros, no ambiente de perigo de desemprego, o bandido que atua livremente porque não tem o mocinho para derrotá-lo.

Os juros nos bancos públicos precisarão cair, para que o endividado no crédito, candidato ao desemprego, não identifique neles a sua ruina, de agora em diante. Desse perigo, os bancos privados estão se livrando. Não ajudaram os grandes bancos a salvarem os bancos pequenos, sob recomendação do governo, pois tiveram medo do risco e da inadimplência; não jogaram os depósitos compulsórios liberados pelo Banco Central no crediário, preferindo aplicá-los nos títulos da dívida pública, por, igualmente, temeram riscos e inadimplência. E, agora, resistem, em nome do santo risco e da santa inadimplência, ao jogo governamental de levar o Banco do Brasil a adquirir perfil popular, tornando-o campeão do crediário para compra de bens duráveis, porque temem a inadimplência e o risco, se houver aumento do desemprego.

Conspiram a favor dos banqueiros a própria crise. Pesquisa do Dieese mostra que, em março, 254 mil pessoas perderam o emprego em todo o país, sendo 28 mil só no Distrito Federal. O índice nacional de desemprego, 15,1%, é o maior registrado nos últimos onze anos. Desastre para as pretensões continuistas de executivos, federal e estaduais, para as eleições em 2010.

Diante desse quadro, a política econômica do governo, amarrada a regras econômicas que estão sendo consideradas ultrapassadas no mundo inteiro, entra em parafuso. O presidente Lula tenta romper os obstáculos de velhas regras que ainda vigoram como herança das ordens do Consenso de Washington, operadas pelo FMI durante toda a Nova República, herdeira da ditadura militar.

Predomina, como cadáver insepulto, como parte dessa herança a existência, no contexto orçamentário da União, de dois orçamentos que merecem tratamentos políticos distintos, cujas consequências novas dadas pela grande crise mundial impõem novas mudanças que mexem com as correlações das forças políticas no ambiente da sucessão.

Coleira colonialista limita cobertura econômica

O Brasil foi o último a decretar a abolição da escratura. Está sendo o último a decretar a abolição dos juros, a nova escravidão

Hoje é mais um dia decisivo para a economia brasileira que está dançando um ritmo frenético de decadencia de reputações gerais, espraiada pela grande crise internacional que virou o capitalismo de cabeça para baixo. A reunião do Copom, que deve decidir mais uma redução conservadora da taxa de juro, evidencia estar o Brasil, externamente,  despontando como esperança para os investidores do mundo, mas, internamente,  como perigo sempre presente para as previsões dos banqueiros e economistas que trabalham para eles que obedecem a leis que estão sendo superadas pelos fatos. As coleiras da escravidão ideológica persistem sob o juro alto no capitalismo brasileiro periférico. Os jornalistas de economia brasileiros estão diante de desafio histórico. A cabeça deles , no contexto da cobertura do dia a dia nos últimos vinte e cinco anos de desajustes fiscais e monetários em que o país sobrevive, como consequência da crise monetária dos anos de 1980, foi feita pelos pressupostos macroeconômicos estabelecidos pelo Consenso de Washington, ainda vigentes, no ambiente orçamentário da União, embora os que criaram o Consenso tenham declarado a sua morte, como foi o caso do primeiro ministro inglês Gordon Brown na reunião do G-20 em Londres. Mais uma vez a Inglaterra anuncia o fim da escravidão para as elites escravocratas resistentes ao abandono dos velhos hábitos de exploração colonialista.

Orientado pelos banqueiros, operado pelo FMI e supervisionado pela Casa Branca, o Consenso de Washington, depois que os Estados Unidos, em 1979, elevaram de 5% para 15% a taxa de juros, para enxugar excesso de dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares,  na praça mundial e evitar inflação, entrou em campo para administrar a falência, estabelecendo o jogo capaz de combinar crescimento, baixo, com o pagamento de juros, alto, fixando, assim, o que denominou de equilibrio da relação dívida/PIB, sustentado em crescentes superavits primários.

Esse jogo de equilíbrio construido em laboratório, amplamente, apoiado pelo poder midiático, seria, aos olhos e ouvidos dos banqueiros, necessário para evitar pressões inflacionárias, cujas consequências, obviamente, seriam juros altos em respostas aos riscos contingentes. Como o equilíbrio jamais existiu porque representou ficção inalcançável em país pobre e dependente de capital externo, o risco Brasil manteve-se alto para que o juro, igualmente, ficasse permanentemente nas alturas. Os lucros médios dos bancos, nos últimos vinte anos, ficaram na casa dos 25% ao ano, enquanto os demais setores não ultrapassaram a média dos 10%.

O jogo de laboratário macroeconômico elaborado pelo Consenso de Washington-FMI-Casa Branca dividiu o orçamento da União em dois: o orçamento financeiro, que diz respeito aos interesses diretos dos bancos credores da dívida pública rolada a juros escorchantes, e o orçamento não-financeiro, que representa o povo em sua totalidade, dependente dos serviços públicos prestados pela União com dinheiro do contribuinte nas áreas de saúde, educação, segurança, cultura, infra-estrutura etc.

Ao estabelecer os dois orçamentos, imediatamente, os articuladores do Consenso de Washington, nos inícios da Nova República, buscaram influir os constituintes para se garantirem na Constituição. Conseguiram a proeza de emplacar no texto constitucional o artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, que fixa como cláusula pétrea proibição relativa a contingenciamento dos recursos orçamentários destinados aos serviços da dívida pública.

Criou-se jurisprudência, que se constituiu espinha dorsal do direito brasileiro na Nova República. Levou, consequentemente, o Judiciário, sob governos neorepublicanos, à crise moral atual onde se expressa espasmodicamente em vergonhoso bate-boca de ministros na mais alta corte de justiça nacional.

Ou seja, o orçamento financeiro, ditado pelo Consenso de Washington,  jamais poderia merecer ajustes fiscais e monetários. Já o orçamento não-financeiro, esse, coitado, virou pau para toda a obra. Dia sim, dia não, intermitentemente, as autoridades econômicas, atentas aos pressupostos do Consenso, decretado morto, mas, ainda, vivo no Brasil, fisgam nacos de carne do coração dos brasileiros, para satisfazer um eterno voraz Shilock shakespeareano.

Tsunamis destroem arranjos ideológicos

A cabeça ornamentada da economia brasileira está sendo toda desarrumada pelos ventos fortes da grande bancarrota capialista financeira responsavel por desarrumar conceitos que foram feitos em tempos passados cujas estacas foram arrancadas pelo vendaval tornando-se leves como o ar totalmente volátilA inexistência de equidade de tratamento estabelecido pelo Congresso, no artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, demonstrou que a prioridade nacional, na Nova República, seria o pagamento dos juros. Estes, constitucionalmente, estariam protegidos; o povo, ao contrário, ficaria exposto, constitucionalmente, às chuvas e trovoadas.

O argumento ideológico vendido pelos arquitetos da construção dos orçamentos financeiro e não-financeiro, de modo que este se lasca, na tarefa de ser constantemente ajustado, para gerar àquele crescentes superavit primários ao pagamento dos juros, foi sempre uma churumela mecanicista. O ajuste permanente no orçamento não-financeiro, excluído o orçamento financeiro,  equilibraria as finanças e seguraria as taxas de juros. Mentira pura.

O orçamento financeiro ficaria, sempre, livre de qualquer lipoaspiração; ao contrário, o orçamento não-financeiro estaria sendo permanentemente lipoaspirado, com a benção do Congresso, vendido por prato de lentilha, sob governabilidade eternamente provisória, e aplauso ideológico da grande mídia.

Podres poderes neorepublicanos construidos no lastro da garantia constitucional neorepublicana neoliberal de conferir privilégio ao sistema financeiro em detrimento da maioria do povo. A grande mídia encampou, amplamente, a armação institucional do Consenso de Washington e o esqueceu como motivo de pauta permanente.

Baseado no pretenso equilibrismo laboratorial macroeconômico, o Consenso-FMI-Casa Branca engessou a economia, para que houvesse equilibrio na relação dívida/PIB. O país não poderia registrar crescimento do PIB superior a 3,5%, para não gerar pressões inflacionárias que trariam juros altos. E tome churumela ideológica, verdadeira lavagem cerebral.

A mentira foi amplamente consumida pelo poder midiático. Até outubro do ano passado, o PIB estava crescendo a 6,8% com inflação cadente na casa dos 4,5% em 12 meses.  O inverso da pregação bancária mecanicista. A realidade desarticulou a teoria de laboratório do Consenso de Washington, presente , ideologicamente, na cabeça dos jornalistas de economia, salv o honrosas exceções.

Desarticulação federativa neoliberal

O pensamento petrificado do neoliberalismo está indo aos ares em suas verdades absolutas abrindo campo para o novo que não está em cogitação na discussão da grande mídia que tem medo do temaA prioridade ao pagamento dos juros fez com que os governos neorepublicanos neoliberais, sob o Consenso, rendessem ao aperto fiscal washingtoniano, expresso na criação das contribuições sociais, para dar início à centralização tributária no país em detrimento das unidades federativas. Pela Constituição, as arrecadações dos impostos de renda e sobre produtos industrializados são obrigatoriamente distribuidas entre união, estados e municípios. Com as contribuições sociais, não. Toda a arrecadação delas vai para o tesouro nacional. Haveria maior volume de recursos para cumprir com o pagamento dos juros , mediante fixação de superavits elevados, que chegaram ao limite de 6,5% do PIB! Era e continua sendo, até agora, necessário continuar cumprindo o mandamento constitucional neorepublicano de privilegiar a categoria financeira em prejuizo das demais categorias sociais.

Jamais a mídia realizou grandes coberturas sobre as razões das distinções de tratamento em relação aos dois orçamentos fixados pela lógica do interesse dos credores e seu substrato epistemológico em forma de influência em toda a cadeia produtiva da superestrutura juridica e macroeconômica nacional, construindo ideologia para consumo do populacho sobre o que é e o que não é prioridade.

A explicações sempre foram invariáveis, mecânicas. Os superavits primários, dizem os comentaristas, eram e são necessários porque representariam equilíbrio permanente da relação dívida/PIB. O jornalista Carlos Alberto Sardemberg, por exemplo, no Jornal das Dez, na Globonews, previu, mecanicamente, que a redução de 3,8% para 2,5% do superavit primário, decretado pelo presidente Lula, como fator anticíclico para enfrentar a crise, vai alterar a relação dívida/PIB e levar a juro mais alto etc. Manual que nem o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está adotando, mais, pois passou a pregar juro mais baixo no mundo em que o juro está negativo.

Se tudo acontecesse como construíram ideologicamente os interesses bancários, consumidos pela mídia, haveria o tal equilíbrio expresso em juro civilizado. Embora os superavits fossem eternamente altos, os juros não cairam; ao contrário, continuaram subindo. E tome explicações acadêmicas relativamente às razões do porque do juro alto no Brasil, enquanto o Banco Central mantinha escassez da oferta de dinheiro, mediante compulsórios elevados, garantindo o lucro bancário extorsivo. O banqueiro adora escassez de oferta de dinheiro.


Bancarrota do pensamento mecanicista

Shopenhauer disse que o pensamento interno é mais poderoso que o externo e que este não pode determinar àquele porque está fora da realidade do sujeito porque é simples objeto. A grande mídia transformou-se em objeto de manipulação ideológica que invete a realidade, alienando o povoA conjuntura macroeconômica neorepublicana neoliberal é uma construção do pensamento mecanicista especulativo bancário construído no exterior da realidade como a grande crise financeira internac ional está demonstrando à larga.  Um repeteco em torno de falso dilema.

A partir de um mandamento constitucional que privilegia uma categoria social em determento das demais construiu-se uma ideologia para consumo interno ditada de fora para dentro. O conjunto formado pela lógica que ancora os interesses garantidos constitucionalmente ganhou um fecho moral com a aprovação pelo Congresso da Lei de Responsabilidade Fiscal, também, conduzida pelo Consenso de Washington.

Os pressupostos do equilbrio orçamentário, que traduzem os interesses dos credores, em primeiro lugar, enquanto os da sociedade são jogados para segundo, terceiro e quarto planos, teriam que subordinar-se à Lei de Responsabilidade Fiscal. Seria fiscalmente responsa´vel aquele que, evidentemente, se enquadrasse na ideologia equilibrista do Consenso de Washington, para cumprir a pregação bancária favorável aos crescentes superavits primários realizados em cima do orçamento não-financeiro, forma adequada de fazer transfusão de sangue quente para o orçamento financeiro vampirista.

Dez entre dez colunistas de economia jamais questionaram na grande mídia a injustiça de se adotar dois pesos e duas medidas no âmbito orçamentário. Ao contrário, quando a sociedade dava e dá sinais de reação ao equilíbrio potencial neoliberal estabelecido pelo Consenso, exigindo maior crescimento econômico, logo os colunistas entravam e entram em cena para dizer que poderia haver, se o país crescesse mais do que as regras fixadas pelos banqueiros, pressão inflacionária que, evidentemente, exigiria juro alto etc.

A bancarrota financeira internacional está fazendo o que a grande mídia não fez, ou seja, pedagogizar o rítmo do real concreto em movimento em oposição à ficação de labora´torio, expondo o ridículo jogo ideológico que ainda faz a cabeça dos coleguinhas em geral, cerceados na tarefa de pensar com liberdade , porque atendem a uma estrutura mental mecanicista ideológica que está indo aos ares.

Mais uma vez, o Brasil é o último a livrar da escravidão, mister Gordon Brown. O molde do Consenso demonstrou fadiga de material, mas suas idéias continuam ditando, no Brasil, a absurda crença na Lei de Responsabilidade Fiscal como pressuposto ético da condução dos gastos públicos dentro dos limites fixados de fora para dentro pelos credores, que se revelaram os responsáveis pela desarticulação econômica global com suas teses espalhadas para consumo da periferia colonizada.

O berreiro dos prefeitos e dos governadores, que cresce, de forma expressiva em todo o Brasil, no momento em que a crise se amplia, reduzindo arrecadação e transferência de recursos aos estados e municípios, não mereceu da grande mídia a interpretação correta de que estava sendo decretada , nas ruas, o fim do Consenso de Washington que norteia a condução do orçamento da União.

O mundo , na crise, está decretando o fim da escravidão humana imposta pelos juros, visto que se tornou necessário, o juro negativo, para animar a produção e o consumo estagnados. Mas, no Brasil, a escravidão continua. Coloca-se, ainda, na coleira no pescoço dos colonizados flores com cheiros sedutores e inebriantes para atenuar a dor, o incômodo e a humilhão, quando, na verdade, se trata de arrancá-la e enfiá-la no baú da história.

Salve o cadáver insepulto do Consenso de Washington, que a grande mídia conduz como El Cid morto em cima do seu cavalo de batalha como se estivesse vivo, para manter as aparências.