Volta por cima: renúncia à guerra, opção à paz

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No momento em que Israel aceita discutir a instalação do Estado Palestino , revertendo situação antes inimaginável, sob influxo das pressões do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que, politicamente,  desarma, tanto os israelenses, como  os palestinos, abrindo possibilidade para era da paz, pela primeira vez, depois da segunda guerra e da guerra fria; depois que a grande crise capitalista revela a falência do unilateralismo com que os Estados Unidos, como potencial mundial, conduziram o mundo , após a queda do Muro de Berlim, em 1989, adotando posição arrogante frente aos parceiros; depois que Tio Sam esgotou as energias da União Soviética, levando-a a gastar o que tinha e o que não tinha em armamentismo, como se a ideologia capitalista, que necessita da economia de guerra, se indentificasse com a ideologia socialista, para a qual a economia de guerra é a sua negação, vale a pena voltar ao posicionamento político adotado por Gorbachov, resistente aos pregadores do conflito bélico, de disseminar a perestroika, abertura dentro do sistema comunista corrupto soviético, herdado do stalinismo, chamando o capitalismo ao entendimento, tendo o papa João Paulo II como intermediário. Num primeiro momento, foi considerado rendição, com consequente emergência incontrastável dos Estados Unidos. Passados os anos, implodido o modelo neoliberal, que emergiu, no rastro da queda do Muro, mas, que, agora, demonstra fadiga de material, em face da bancarrota financeira americana e européia, ambas, igualmente, implodidas, no plano econômico, o gesto de Gorba ganha dimensão histórica. A emergência dos Brics demonstra a virada da história e vinga a abertura – perestroika – ao multilateralismo que o ex-líder russo, como socialista, prognosticou. Saravá.

Em minhas reflexões, focando no objetivo maior de Rotary, esta formidável instituição com cerca de 33000 clubes em 208 países, a busca constante da paz no mundo, questionei a mim mesmo, qual personalidade merece o  reconhecimento de minha geração?

Cerca de 3 décadas atrás, este mundo vivia uma competição absurda – a imbecilidade humana havia criado condições de auto destruição de toda forma de vida humana na terra – a corrida armamentista onde as duas superpotências com orçamentos crescentes buscavam a dominação através da força. Foi quando o líder soviético – Mikhail Gorbachev – desistiu da disputa. Para os idólatras da competição, ele perdeu a batalha, mas para nós, rotarianos e humanistas, este líder deu um passo gigantesco em prol da distensão mundial. Cada cidadão neste planeta deve muito a ele e entendo que Rotary como instituição planetária e consciência da humanidade deveria promover – tal como o premio Nobel já outorgado a Mikhail – um reconhecimento pelos relevantes serviços prestados a causa humanitária mundial. Merecem destaque também as expressivas e atuantes lideranças da época que estimularam a queda do muro de Berlim em 1989: papa Joao Paulo II que teve reunião privada com Gorbachev pouco antes da queda do muro – queria ser uma mosca para ouvir os conselhos deste polonês rude, curtido em sua juventude pelas atrocidades do comunismo na Polônia e sensível a vasta exclusão social como subproduto do capitalismo. Ronald Reagan, líder da outra potencia mundial que, no inicio de seu  primeiro mandato, cunhou a frase, “governo não pode nos ajudar a resolver os problemas, governo é o problema” 
Refleti também sobre as menções presidenciais de RI – nutrição, saúde e educação – e os fecundos e conseqüentes pensadores que moldaram o mundo em que vivemos – qual deles poderiam ser convidados para ingressar em algum clube rotário? E quais seriam repelidos pelos valores rotários.

 

Atração dos opostos

 

karl-marx-adam-smithTeria justificado orgulho de ter em meu clube rotário, Adam Smith, o professor escocês de ética e moral que viveu na segunda metade do século 18 – não apenas pelo sua obra prima – Riqueza das Nações, mas sobretudo pelo seu livro pouco conhecido e que deu embasamento filosófico ético e moral para seu pensamento – “A teoria dos sentimentos morais” de 1759 .
O polemico e fecundo pensador humanista Karl Marx – ícone do socialismo e talvez o mais pouco compreendido dos pensadores – ele morreu em 1883 e a revolução soviética ocorreu em 1917. Nunca tantos especularam sobre suas intenções – em seu nome foram cometidas aberrações dignas de fanáticos alucinados pelo poder – é preciso dessacralizar sua obra – muitos tiveram a sensibilidade de reconhecer erros no capitalismo porem agiram como sacerdotes marxistas queimando incenso a seu deus – Marx focou muito na analise critica do capitalismo e pouco explicou o funcionamento do socialismo!! Podemos dividir o pensamento de Marx em 2 grandes fases: do jovem Marx e do velho Marx. Teria muito prazer em ter o jovem Marx em meu clube rotário, sua crítica conceitual sobre o trabalho humano no capitalismo, ate hoje não teve contestação – “Ao vender sua força de trabalho – e o operário é obrigado a fazê-lo no regime atual – ele cede ao capitalista o direito de empregar essa força, porém dentro de certos limites racionais. Vende a sua força de trabalho para conservá-la ilesa, salvo o natural desgaste, porém não para destruí-la.” Em outro trecho, Marx destaca: “O homem que não dispõe de nenhum tempo livre, cuja vida, afora as interrupções puramente físicas do sono, das refeições, etc., está toda ela absorvida pelo seu trabalho para o capitalista, é menos que uma besta de carga. É uma simples máquina, fisicamente destroçada e espiritualmente animalizada para produzir riqueza alheia.”

 

Luteranismo econômico

 

luterokeynes-2Após estes dois ícones do pensamento filosófico com profundas repercussões nas formas de convívio da humanidade,  surgiu em 1936 a Teoria Geral de John Maynard Keynes, – é bem verdade que as propostas monetaristas foram gestadas numa conjuntura pós crise de 1929 e discutidas em Bretton Woods em 1944  num mundo com a Europa destruída pela segunda guerra mundial – embora tenha recebido o reconhecimento em sua época, a médio e longo prazo sua teoria mostrou-se um desastre –  os 64 anos de exercício prático desta teoria mostrou que a estagflação foi seu melhor resultado –  solução de compromisso entre o desemprego e inflação – uma ofensa a inteligência humana.

Ao oficializar o governo na economia, vale dizer, substituir a inexorável e impessoal lei da oferta e procura pela questionável e personalista égide da vontade humana,  Adam Smith e todos os pensadores conseqüentes devem ter se mexido no tumulo, tentando entender tamanha obscenidade e inconseqüência!! Responsabilizo a teoria monetarista pela vasta exclusão social disseminada em todo o mundo e todos os conflitos armados – muitos recursos nas mãos de poucos para decidirem conforme vontade humana – anti democrático por excelência!!!  E pouca comida na boca das crianças!! Keynes foi para a economia o que Martinho Lutero foi para o cristianismo do século XVI – viabilizou uma heresia!! Ela não resiste a prova quádrupla dos valores rotários. Não me sentiria confortável num clube rotário na presença destes senhores – seus seguidores foram mais irresponsáveis e inconseqüentes ainda – descobriram o moto continuo do processo econômico – geração de capital sem trabalho produtivo – construíram castelos no ar que estão desmoronando na mais terrível e profunda crise que o mundo está  assistindo.

 

Ronaldo Campos – Presidente do Rotary

Onda gay na crise capitalista

A extroversão sexual amplia-se na marcha da desestrutura de uma sociedade em que as relações sociais da produção não são mais capazes de moldar as forças produtivas e espirituais que se libertam da repressão psicológica e material imposta pelo capital, falso moralistaEm tempo de passeata gay, explosão de narcisismo etc – como a de domingo em São Paulo, reunindo mais de 3 milhões de pessoas,  mobilizando economicamente a capital paulista e deixando atentos os políticos que desejam se dar bem com os homossexuais, para obter votos – nada melhor que atentar-se ao sentido psicológico daquela estória sensacional do coronel mineiro do velho PSD – pode ser também nordestino, gaúcho, paulista etc – que só conseguia defecar quando abria o cofre alojado na parede em frente ao vaso sanitário em que se sentava. Quando via o dinheiro, ali, seguro, soltava os esfincteres. Baaaaaaaa. Livrava-se da prisão de ventre. Curtia o prazer anal. Fechava o cofre, emergia a prisão de ventre. Repressão. O reservatório de merda tinha relação direta com a prisão do dinheiro no cofre. Bem disse Marx que merda não é dinheiro, mas dinheiro pode virar merda.

Ou seja, pinta a repressão anal, decorrente e dependente da insegurança psicológica relativamente ao dinheiro guardado a sete chaves. Tal dependência é expressão repressora do prazer. Livre dos aprisionamentos econômicos, o ser humano se soltaria da prisão de ventre permanente que o sistema capitalista, com suas relações sociais polarizadas, violentas, egocêntricas, impõe em forma de desprazer do trabalho, destituindo-o de sua criatividade, para transformá-lo em mero gerador de salário não pago, mais valia.

A repressão sexual seria, evidentemente, necessária para mascarar as anomalias impostas ao processo de trabalho marcado pelas divisões sociais da produção. Reprime-se, por meio da repressão sexual, as forças energéticas humanas que poderiam ser canalizadas para romper outras repressões impostas pelo capital ao trabalho. Restringir à sexualidade reprimida a universalidade das repressões desatadas pelas relações polarizadas capital-trabalho, que alienam o trabalhador de si mesmo, transformando-o em seu oposto, de objeto em sujeito, é o jogo pansexual freudiano de centrar-se no individuo apartado do seu contexto social para analisar sua esquizofrenia.

As crises econômico-financeiras, muitos anos depois de Freud e de supressão das repressões sexuais, evidenciam, como ocorre em plena bancarrota global,  a extroversão humana diante dos seus fantasmas e dão razão a Keynes.

O grande economista, filósofo e artista inglês, John Maynards Keynes(1883-1946), autor da “Teoria geral do juro, do emprego e da moeda”,  que se notabilizou como contestador dos costumes conservadores vitorianos ingleses, criando e associando-se aos grupos de jovens sexualmente despojados e desreprimidos – o “Grupo de Bloomsbury”, do qual faziam parte Wirginia Woolf, E. M. Forster, Lytton Strachey etc – , previu que no final do século 20, a liberação sexual combinaria com uma humanidade cujo desenvolvimento científico e tecnológico das forças produtivas produziria condições que livrariam a sociedade das relações sociais da produção e das suas necessidades econômicas, permitindo-a dedicar-se a outras características fundamentais da vida. Ainda não se chegou lá, pelo visto.

Dentre tais características, destacava a que considerava fundamental,  a arte da convivência, abrindo-se às essências, em vez da predominância das aparências e das resistências, dadas pelo processo econômico marcado por guerras, divisões e repressões,  como necessárias e indispensáveis à reprodução ampliada do capital.

Homossexual assumido, Keynes profetizou ser o raiar do século 21 o tempo da bissexualidade total. Extroversão decorrente do espírito oposto ao que prevalecia no tempo de juventude do genial inglês, sob vitorianismo sexualmente conservador, que havia matado Oscar Wilde.

Sofisticado, disse que a abundância de riqueza auferida pelos burgueses na Europa e especialmente na Inglaterra, onde a revolução industrial chegou primeiro, contrastou com um espírito de poupança cultural, repressor.

Os muito ricos construiram como templo de sua própria adoração a poupança, a riqueza, que, nos Estados Unidos, no século 20,  seria considerada sinal da salvação em vida na terra como benefício do céu. Não estava nos planos da burguesia do século 19 a gastança, mas a poupança.

 

Escravo da utilidade

 

A liberação sexual é a renuncia ao espírito de poupança que torna o ser humano escravo do utilitarismo e da falsa consciência que oprimem as energias humanas em sua potencialidade absoluta“A sociedade” – diz – “era moldada no sentido de transferir uma grande parte da renda ampliada ao controle da classe com menor probabilidade de consumi-la. Os novos ricos do século 19 não tinham sido educados para grandes gastos, e preferiam o poder que o investimento lhes dava aos prazes do consumo imediato. Na realidade foi precisamente a desigualdade da distribuição dos bens que possibilitou as enormes acumulações de riqueza física e a expansão dos capitais, que diferenciavam aquela época de todas as demais”(Keynes,  “A Europa antes da guerra”, 1919).

A poupança, por sua vez ,trazia em si a cultura repressora dos excessos, das transgressões, dado que a acumulação de capital decorre de uma organização sistemática imposta pelo lucro que tem no trabalho não pago, na mais valia, o seu motor. Uma consciência infeliz  toma conta do pensamento burguês, que se traduz em fatores psicológicos que são restritos  à individualidade isolada do seu contexto histórico social. Freud, como descreve, genialmente, Lauro Campos, em “Economia, represssão sexual e o espírito do capitalismo: nem Freud, nem Max Weber”, cometeu o mesmo erro.

A psicologia capitalista cultora da poupança reprime a sexualidade tornando-a alvo da agressividade psicológica que poderia ser dirigida para outros alvos, se, por exemplo,  o espírito poupador do coronel mineiro sexualmente reprimido pelo dinheiro inexistisse. As relações sociais sob cultura poupadora promove repressão sexual como cortina de fumaça, desvio para esconder as verdadeiras causas da infelicidade social.

A decadência econômica da Inglaterra, no tempo de Keynes – como a dos Estados Unidos, sob Barack Obama, em meio à bancarrota do dólar -, proporcionou-lhe visão ampliada da debacle da moral vitoriana sob falência da libra esterlinha como equivalente geral das trocas globais, cujo destino estaria comprometido, principalmente, depois da primeira guerra mundial.

As crises financeiras, decorrentes das concorrências entre as grandes potências em busca de ampliação na periferia pelo dominio colonial, acabariam detonando a guerra e as fontes de renda financeira dos ingleses multiplicadas pelos juros compostos. O fim da bonança trouxe, ao lado da decadência da libra, afetada pelo fim da senhoriagem que garantia superavit permanente nos balanços de pagamentos ingleses, o fim das represssões vitorianas.

A liberação sexual na Inglaterra amplia-se com a derrocada da libra, sob padrão-ouro, que implode na crise de 1929, como ampliou, também – com a derrocada do dólar-ouro, que se abre ao dólar-papel simbólico deslastreado, nos anos de 1960-70 – , os valores carcomidos da cultura ocidental.

Detonaram-se os maios de 1968 mundo afora, tanto nos países capitalistas desenvolvidos como nas periferias economicamente dependentes dominadas pelas ditaduras militares políticas e sexualmente repressoras.

Os esteios econômicos e culturais rígidos, vitorianos, burgueses, represssores, falsamente moralistas, renderam-se à falta de justificativas históricas para sustentá-los.

 A turma de Keynes é totalmente liberal. Ela se reproduziria planetariamente. Sua rebeldia sugere ao brilhante pensador matemático e filósofo, amante das artes e das probabilidades infinitas –  que encantavam Bertrand Russell, para quem Keynes era a maior cabeça que conheceu – previsões ousadas. Estas assustavam e escandalizavam. Ao final do século 20, destacava, o ser humano estaria caminhando celeremente para libertar-se da escravidão da mera utilidade monetária. Emergiria a extroversão em forma de pensamento e comportamento sexual, liberação do sacrifício de viver somente por motivos econômicos. Utopias.

A parada gay, em São Paulo, não pode deixar de ser considerada à luz do pensamento keynesiano sexualmente livre, de sua cintilante inteligência para contextualizar situações históricas. Embora, as liberações mentais de Keynes tenham ido longe, teve a cautela de ressaltar que enquanto não fosse ultrapassado pelo menos cem anos o tempo em que vivia, “seria conveniente fingirmos para nós mesmos e para os outros que o justo é mau e o mau é justo, pois o mau é útil e o justo, não. Ainda  por algum tempo, nossos deuses continuarão sendo a avareza, a usura e a precaução. Pois, somente eles poderão conduzir-nos de dentro do túnel da necessidade econômica para a luz”.

Poesia presente

Aimê

(Kaoê Fonseca Lopes)

Na memória boas lembranças e aprendizado

No dia a dia, família presente para qualquer coisa, qualquer

A gente vai crescendo meio sem querer, mas o futuro bate à porta

Pode entrar  

Ecologia e pré-sal exigem reforma eleitoral

Enquanto a sociedade não for verdadeiramente livre para debater seu próprio destino, sem estar subordinada a regras eleitorais que a marginalizam, ao não poder escolher o seu representante pelo voto comunitário distrital, não terá como evitar que tais representantes lhe enganem mediante poder do dinheiro que corre solto pelos interesses político partidários sem consonância com o poder comunitário inexistenteO debate ambiental, que esquentou, extraordinariamente, nas  últimas semanas, em torno de MP 458 , aprovada no Senado,  flexível em excesso quanto à ocupação da Amazônia, coloca em  cena, fundamentalmente, a necessidade de condução política  desse debate. Afinal, o tema envolve a sociedade em sua composição por classes sociais politicamente antagônicas no contexto dos interesses conflitantes em foco na agenda do meio ambiente, bem como do desenvolvimento sustentável geral. Trata-se de evoluir a discussão  crítica  às regras de representação política que implicará, por sua vez, em outra urgente necessidade, isto é, a remoção dessas mesmas regras. A razão é cristalina: elas criam, no ambiente de governabilidade eternamente provisória,  falsas representações populares, no Congresso. Impedem, consequentemente, evolução democrática da consciência política social.
Nesse sentido, sem reforma eleitoral não haverá debate ambiental – nem qualquer outro – com suficiente credibilidade capaz de estabelecer consenso social em contexto em que o poder do capital se torna desproporcional ao poder da opinião pública, destituída de canais de participação , com suficiente representatividade , graças ao regime político, gerenciado por MPs, que despersonalizam os partidos e inviabilizam lideranças autênticas.
Vigora o oposto no ambiente de provisoriedade governamental: total descrétido dos partidos, meros balcões de negociatas, sem representatividade,  portanto, incapazes de permitirem que os antagonismos sociais percorram as autênticas energias partidárias, para expressar o contraditório democrático necessário saído do debate político-partidário.
 
A Nova República, dominada pelas regras dadas pelos credores, no contexto do Consenso de Washington, vigente desde a crise monetária dos anos de 1980, subordinou-se à governabilidade provisória anti-democrática e abastardou as agremiações políticas, despersonalizando-as perante eleitores e eleitoras. Emergiu a inversão da representatividade popular por meio da falsa representatividade, que joga com os interesses que desejam se verem afastados da crítica social.
 
O debate ambiental, no atual ambiente político de esterilidade político-partidária, é um falso debate, porque prepara campo para que tal esterilidade perpetue, tornando-se destituido de consciência social crítica, dada a escassa credibilidade dos partidos carentes de renovação, decorrente da subordinação deles aos caixas dois eleitorais.
 
Não expressaria, enfim, o debate a realidade social antagônica na apreciação da problemática da relação ser humano/meio ambiente, essencialmente, política. Seria o oposto da pregação de Hegel segundo a qual “a relação homem-meio ambiente passa pelo homem”, isto é, pela política, que confere característica essencial à ação humana. Vive-se, no Brasil, um Congresso politicamente desumanizado.
 
 
 
Discurso do disfarce
 
 
 
O desmatamento na Amazonia tornou-se um dos principais responsáveis pelo efeito estufa que afeta o meio ambiente em meio à destruição proporcionada pelo processo industrial contra o qual os governos não legislou adequadamente para evitar as emissões poluentes cujas consequencias são o desequilibrio do meio ambiente e a ameaça à vida que se tornou frágil diante da propria irracionalidade humanaTremenda incoerencia demonstra o governo Lula quanto ao assunto pela ausência de rumo político no trato para a questão, no momento em que o novo paradigma ambiental emerge a partir do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, despreendendo-se da inflexibilidade política unilateral do Partido Republicano, que, sob W. Bush, aterrorizou a questão do meio ambiente do ponto de vista ideológico.
 
Lula revela-se , totalmente, ambíguo, sendo o Brasil país chave no debate sobre o assunto, por possuir os dois maiores biomas da terra, a Amazônia e o Cerrado do Centro Oeste.
 
O titular do Planalto fica entre duas considerações e se deixa anular pela confronto entre ambas. Primeira: as perspectivas que o potencial econômico natural brasileiro desperta no cenário global em crise financeira no qual a posição nacional vai se tornando privilegiada graças a essa potencialidade infinita aos olhos dos investidores que amargam taxa de juro negativa na Europa e nos Estados Unidos. Como em ambos inexistem possibilidades de investimentos produtivos em novas fronteiras econômicas avançadas capazes de assegurar  reprodução em grande escala do capital sobrecumulado, antes reproduzido na especulação, que implodiu na crise, ganha sonoridade universal o potencial brasileiro incomensurável.
 
A outra posição presidencial  balança relativamente às preocupação ambientais que tendem a ganhar espaço político graças ao engajamento social crescente relativamente ao meio ambiente. Os desmatamentos e os incendios das florestas que se transformaram em maiores poluidores colocam o governo brasileiro na defensiva.
 
O Brasil teria melhores chances entre os emergentes para sair da crise, mas a exploração sem limites de suas potencialidades, ambientais, em forma de destruição sem renovação, com a desregulamentação de frouxas regras ambientais quanto à exploração territorial, romperia a sustentabilidade do próprio desenvolvimento, se predominar irracionalidades determinadas pela visão do lucro absoluto.
 
Sob pressão do desemprego , que avança no compasso da crise global e das incoerências da política macroeconômica que passou a sobrevalorizar a moeda nacional tornando o produto brasileiro incapaz de competir, justamente, quanto a reivindicação social maior é pelo avanço das condições que aumentam a taxa de emprego, o presidente Lula se encontra entre fois fogos.
 
A inexistência de discurso claro do chefe de governo sinaliza falta de transparência, simplesmente, porque a sociedade, afastada da discussão, não dá orientação política a ele, já que não existem organizações político partidárias com suficiente poder de mobilização social para promover correlações políticas diferenciadas. O discurso lulista vira manifestação de mero disfarce.
 
 
 
Freio ao avanço democrático
 
 
 
A demanda da madeira das florestas movimentam serralherias brasileiras que abastecem o mercado interno e de exportação em ambiente onde a fiscalização é insuficiente, porque, no país, a prioridade não é a preservação ambiental e a qualidade de vida, mas o pagamento dos juros, que têm , na Constituição, privilegio especial para os b anqueiros relativamente às demias classes sociais, consideradas, diante do dinheiro, fatores econômicos de segunda categoria, no capitalismo de desastre e depredação geralO debate está afastado da comunidade, porque o poder comunitário é, insuficientemente, organizado. Melhor,  programadamente desorganizado para facilitar a desorganização, que descarta posicionamentos políticos claros.
 
O ex-presidente FHC, em reunião do PSDB, em julho de 2008, antes da grande crise, destacou, por exemplo, que o poder político nos novos tempos estaria nos núcleos comunitários, onde seriam formuladas as reivindicações populares e as discussões da problemática nacional.
 
A partir da comunidade, disse, seriam debatidas  as novas ordens, nesse novo tempo, no qual se inverte a  deterrioração dos termos das relações de trocas globais em que as manufaturas perdem valor relativo frente às matérias primas, cujos preços passam a valorizar mais que o valor das moedas, baleadas.
 
FHC, com seu raciocínio dialético, porém, não colocou como ordem consequente para a discussão dos tucanos a deliberação urgente sobre o fortalecimento do voto comunitário, ou seja, distrital, via reforma eleitoral, para promover a identificação orgânica e política do eleitor com seu representante no Congresso saído dos distritos municipais.
 
Como tal representante não é eleito pelo voto comunitário distritalmente orientado, mas pelo método proporcional, a farsa é total. Eleitoras e eleitores acabam elegendo, por tal artimanha, aquele em quem não votou, quase sempre, pela regra político eleitoral em vigor.
 
Como, então, seria possível combinar a postura do representante popular diante da questão ambiental, se tal representante político não tem maiores identidades com o debate popular inexistente sobre o meio ambiente nas comunidades onde emergiria o novo poder?
 
A reforma política, portanto, representaria  passo fundamental para a deliberação democratica da comunidade, expressa no voto distrital, em cada distrito municipal, sobre a questão não apenas ambiental, mas, sobretudo, à relativa ao desenvolvimento que interessa ao poder comunitário em sua totalidade relacionada às necessidades comunitárias.
 
Haveria sintonia indispensável entre eleitores-eleitoras e congressistas escolhidos pela comunidade para realizar o discurso dela? Sem tal identidade predomina o discurso da força do interesse do capital diante da falsa representatividade política em vigor em Legislativo abastardado.
 
  
 
Cúpulas marginalizam comunidade
 
 
 
O avanço do capitalismo no campo no Brasil atende a uma demanda mundial por alimento porque as terras nos países ricos consumidores afetados pela grande crise mundial estão suficientemente cansadas para dar conta da demanda, por isso, são irresistíveis a sede de lucro que a produção, na base dos adubos minerais agrotóxicos, avançam, destruindo o meio ambiente, de forma irracional sob o olhar do governo que só interessa pelo aumento da arrecadação a qualquer custo, para poder dar conta das demandas sociais em um sistema que destroi a qualidade de vidaAs lideranças políticas são umas durante as eleições e outras no período de suas administrações, em meio a um nepotismo historicamente construído que a Constituição de 1988 ainda não removeu inteiramente. Na prática, a falta de transparência é a norma e os jogos de interesses combinados prevalecem à margem da lei que fica no plano abstrato.
 
Passados os pleitos eleitorais, tudo volta ao que era antes, isto é, domínio de oligarquias que guardam costumes históricos de depredação e fixação de propriedades na base da violência. Seguem, essencialmente, o tipo de ocupação do território brasileiro nos moldes determinados pela coroa portuguesa, desde o descobrimento.
 
A propriedade privada, no Brasil, de acordo com esse molde, fixado pela monarquia portuguesa, ao distribuir as capitanias hereditárias para os seus prepostos, quase sempre capitães do mato, bandeirantes, cuja missão histórica foi a de desbravar riquezas coloniais, para alimentar as metrópoles, resultou na contradição essencial de construção do progresso com simultanea destruição do meio ambiente em meio a uma conjuntura política oligarquica, ditatorial, escravocrata. Essencialmente, a base dessa ditadura ancora-se nos modelos eleitorais plenamente manipulados pelo dinheiro e pela corrupção endêmica.
 
Os condutores dos debates serão aqueles que , de quatro em quatro anos, graças a essas leis laxistas eleitorais, corruptas, se elegem para o Parlamento. O resultado, evidentemente, torna-se bastante previsível. O sistema eleitoral é coerente: produz sua própria irrepresentatividade em partidos de faz de conta comandados por lideranças políticas empenhadas em sustentar esse status quo politicamente desrealizado.
 
Tal coerência evidencia, fundamentalmente, nas próprias alterações que as falsas lideranças articulam, de promoverem meias solas no sistema viciado de representatividade político-partidária proporcional, alterando o voto proporcional pelo voto em listas partidárias, por meio das quais os caciques escolhem os eleitos a fim de eternizar o mandonismo colonial. Cadeia produtiva de elites farsantes. 
 
Trotski, evidentemente, tem razão quando diz que o sistema capitalista demonstra todas suas contradições no plano político e econômico, graças ao confronto contraditório entre, de um lado, as forças produtivas, que se desenvolvem no ritmo avassalador das descobertas científicas e tecnológicas colocadas a serviço da produção, e, de outro, as relações sociais da produção, amarradas por arranjos políticos-eleitorais, engendrados , historicamente, por cúpulas reacionárias, articuladas pelo capital financeiro para barrar o curso evolutivo da história, mediante governabilidade arranjada por controles artificiais, como são os casos das medidas provisórias.
 
Fernando Henrique Cardoso destaca que o que falta é vontade política. Mas, vontade política soa algo abstrato no contexto eleitoral nacional. Somente as cúpulas debatem, não para aproximar a legislação eleitoral dos interesses populares, mas , tão somente, para preservar interesses delas, no ato de esticar mandatos, utilizando maioria congressual por meio do capital financeiro, como fez FHC. Incoerência fernandina total.
 
Como combinar essa contradição dos interesses sociais com a problemática ambiental, se as lideranças pregam um discurso, mas atuam na direção oposta?
 
 
 
Elites contraditórias
 
 
A qualidade dos alimentos, bombados por fertilizantes minerais com alto poder de destruição agrotóxica atua em grande escala, comprometendo a qualiade dos alimentos que precisam ser produzidos em grandes quantidades sem que se cuida da sua qualidade para a vida human, pois, afinal, o que importa, em primeiro lugar, não é a vida, mas o lucro do capital investido, para atender o mercado mundialA mudança climática, que será debatida em Compenhague, em dezembro próximo, a fim de fixar Convenção do Clima, capaz de promover evolução relativamente ao Protocolo de Kioto, especialmente, quanto à fixação de limites para emissão de gases de estufa, leva posição brasileira tirada dos debates de cúpula e não da essência do pensamento democrático comunitário. Caso houvesse no país legislação eleitoral que envolvesse a comunidade no traçado do seu próprio destino, o papo seria outro.
 
Os políticos, que desejam ampliar de 20% para 50% o desmatamento das áreas consideradas de reserva legal, na Amazônia, no Cerrado, na Mata Atlântica, historicamente, devastada, a fim de atender os investidores, interessados em ampliar a plantação das oleaginosas e as pastagens, de modo a elevar a taxa de lucro obtida por hectare, no agronegócio, não agiriam, sofregamente, para introduzir flexibilidades excessivas nas leis ambientações, relacionadas no decreto 6.514, que regulamentou a Lei de Crimes Ambientais, se a lei eleitoral guardasse relação direta com o poder comunitário, para encaminhar a discussão do assunto.
 
Desdenhando o poder comunitário, no espaço nacional, composto de 851 milhões de hectares, no qual estão disponíveis, segundo a Embrapa, mais de 256 milhões de hectares disponíveis(29%) para as atividades agropecuárias, , além dos 77 milhões de hectares destinados às lavouras e 172 milhões às pastagens, os políticos, sob influxo dos capitais investidores, são atraídos para órbita de interesses econômicos e financeiros  poderosos que ganham força quanto mais laxista é a legislação eleitoral. Ficam, portanto,  distantes dos interesses comunitários.
 
A comunidade, em tal conjuntura, encontra-se , institucional e objetivamente, excluída da possibilidade de concretizar seus interesses, visto que o regime eleitoral de escolha de representantes aumenta em vez de diminuir a distancia entre o representante e o representado.
 

Nacionalismo petroleiro sul-americano

 

Os governantes sulamericanos, na debacle neoliberal, retomam as políticas nacionalistas, que, em 1930, depois da crise de 1929, foram abraçadas por Getúlio, responsável por fincar os marcos da nacionalidade brasileiraOs presidentes sulamericanos estão tomando posse das riquezas da América do Sul no meio da crise mundial, transformando o continente, conseqnetemente, em atrativo internacional, em cenário onde os investidores, nos países ricos, em falência, não têm oportunidades de reproduzir o capital sobreaculado na especulação globalEnquanto a CPI da Petrobrás tirou apetite político da oposição, porque poderia se enrolar nela, o presidente Lula deu passos decisivos, durante a semana,  acompanhando políticas adotadas por seus colegas presidentes da Venezuela , Hugo Chavez, e Evo Morales, da Bolívia, de tomarem, rapidamente, posse das riquezas sul-americanas do petróleo, nacionalizando 100% das reservas petrolíferas do pré-sal. Acelerou, à moda de Getúlio Vargas, a intervenção do Estado na economia, abalada pela grande crise mundial, que colocou o setor privado de joelhos, sem condições de bancar o discurso da supremacia do livre mercado e do Estado mínimo, submersos em bancarrota, tornando-se meras fantasias ideológicas. O titular do Planalto permitiu ao ministro das Minas e Energia, senador Edson Lobão(PMDB-MA), divulgar informação sobre decisão soberana nacional de criar nova empresa estatal, possivelmente, Petrosal. Com ela, administrará a totalidade da riqueza trilhonária, estimada em mais de 80 bilhões de barris de petróleo, estendendo-se em faixa unitária que iria de Santa Catarina ao Espírito Santo, bombando, agora, no litoral do Rio de Janeiro. Criará fundo de responsabilidade social que canalizará bilhões de dólares para a educação, saúde e infra-estrutura, antecipando receita, na medida do possível, para entregas futuras de óleo aos compradores. Combinando tal movimento nacionalista com redução mais acelerada da taxa de juros, a fim de baixar o custo da dívida e salvar a indústria encalacrada no real sobrevalorizado, Lula, vestido de Vargas, torna-se foco internacional, enquanto a Petrobrás, dividida entre sócios privados(60%), BNDESPAR(10%) e governo(30%) perde poder relativo. Os acionistas da Estatal não seriam mais os beneficiários principais da riqueza do subsolo, mas o povo, constitucionalmente, proprietário dela. Tremendo tapa na cara das elites anti-nacionais.

Potencia mundial. País emergente que mais rapidamente sairá da crise, cuja duração ninguém garante nada. Porto mais seguro para os investidores internacionais que se encalacraram na grande crise financeira que paralisou as economias americanas e européias etc. Esses são adjetivos bombásticos com os quais a imprensa internacional passou a considerar o Brasil, que, no auge da crise, tomou medidas nacionalistas no crédito para sustentar produção e consumo, fortalecendo o sistema financeiro estatal e empurrando contra a parede o sistema financeiro privado, resistente à queda da taxa de juro, embora em situação qualitativamente superior aos bancos europeus e americanos, sem balas na agulha.

O resultado da onda nacionalista, por enquanto, registrou queda – 1,8% – do PIB inferior à que os analistas previram – 2,5%, 3% até 4% – para o primeiro trimestre. Não foi dada continuidade ao desastre do quarto trimeste de 2008, queda próxima de 5%. Não rolou  catastrofismo. Os tucanos estão desesperados. A economia vergou-se, mas não quebrou, segurou toalha encharcada.

Por isso, em plena crise, o Ibope apura que o titular do Planalto está com a popularidade acima de 90%, ao mesmo tempo em que a candidata que escolheu para sucedê-lo, em 2010, ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, alcança os 20%, reduzindo distância relativamente ao favorecido pela opinião pública para suceder o presidente, isto é, o governador tucano de São Paulo, José Serra. A CPI da Petrobrás, em meio ao nacionalismo econômico, esvazia-se.

 

Ameaçado de degola

 

O presidente do Banco Central corre contra o tempo para não ser rifado ao administrar o juro real que atrai especuladores e quebra a indústria, aumenta o deemprego, porque valoriza a moeda nacional em meio ao perigo de deflação

O fato é claro: está dando ibope a onda nacionalista, que embala Dilma e fortalece o senador Lobão, politicamente, no contexto da coalizão governamental, na qual o PMDB é mais forte. Todos os políticos correm para ela.

Os empresários, pré-falidos, idem, desejam proteção contra a China, que está espalhando dólar no mundo para desvalorizar moedas nacionais a fim de que os produtos chineses penetrem com mais facilidade competitiva com seus dólares. São amplamente favorecidos com os juros positivos brasileiros, que atraem dólares desvalorizados para comprar ativos valorizados nas terras tupiniquins, graças ao monetarismo entreguista ainda vigente no Banco Central, sob comando do banqueiro internacional , Henrique Meirelles.

Quebram os chineses o setor produtivo, tomam o mercado e ganham no juro real de 4% ao ano, que pode levar o governo à moratória. Vigora no Brasil situação inversa à enfrentada pelos países outrora mais ricos que, precisando gastar para puxar a demanda privada, jogaram os juros no chão, tornando-os negativos. Se fossem mantidos positivos os juros no capitalismo cêntrico, entrariam, como os bancos privados, em bancarrotas irremediáveis, sinalizando hiperinflação mundial, neo-repúblicas de Weimar, cujos efeitos foram nazismo e fascismo.

Se nas próximas reuniões do Copom, a redução dos juros não for maior ainda do que 1 ponto percentual, que colocou a selic na casa dos 9,25%, mantendo taxa real de 5%, exagerada, excluída a inflação de 4,5%, o presidente Meirelles estará com a cabeça colocada a prêmio, em meio à onda política nacionalista em marcha.

Os juros meirellianos continuariam atraindo fortemente os dólares, principalmente, chineses que estão sobrevalorizando as moedas nacionais e levantando a ira dos industriais. Como as materias primas, em meio à desvalorização da moeda americana, valorizam-se, relativamente, em comparação aos produtos manufaturados, que se desvalorizam no ambiente da competição internacional acirrada, tem-se motivo adicional para depreciar o real e jogar as exportações brasileiras no chão, configurando desastre, como destacou o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Desesperados, os empresários , nesse ambiente, estarão desempregando por não poderem exportar, enquanto são enganados pela ideologia neoliberal nas falsas benesses representadas pelo câmbio flutuante, puro fetiche em meio às intervenções seguidas do BC. Estas não seriam suficientes, se os juros não continuarem caindo em meio à resistência do monetarismo meireliano, acrescido do potencial brasileiro que se tornou irresistível para os investidores internacionais. Sem a especulação, não poderão mais continuar a reprodução ampliada do capital sobreacumulado. Enfim, nada mais contrário ao nacionalismo econômico em marcha, responsável, não apenas para tornar a economia aparentemente mais resistente e favorecer Dilma, mas, também, dar sobrevida aos defensores do terceiro mandato lulista.

 

Dia do Fica

 

Genoino promete barrar o terceiro mandato, mas só depois que ouvir da boca de Lula que não quer movimento nesse sentido, para fortalecer Dilma, mas efeitos contrários podem surgir , de fora do congresso, pelos movimentos sociais.

A onda está tão favorável ao presidente Lula, em ímpeto nacionalista, que quanto mais ele fala que já está com saudade do poder, repetindo Getúlio Vargas, a fim de descartar, sem maiores energias, o movimento político favorável ao terceiro mandato, mais espalha desconfiança no oposto, isto é, que ele poderia ficar para o que der e vier, se o povo mobilizasse para eventual repeteco não do Dia do Fico, mas do Dia do Fica. 

Sua aparente prematura saudade do poder, se for verdade a assertiva de Freud, copiada de Talleyrand, de que as palavras servem para esconder o pensamento, representaria , ao contrário, sua vontade de continuar no poder. Vontade, porém, nem sempre, é poder.

Os que lutam pelo terceiro mandato, contudo, fortalecem , por sua vez, a onda nacionalista que Lula comanda,  conferindo-lhe prestígio nacional e internacional e, consequentemente, engrossam o movimento fiquista.

As alternativas para Lula, no comando de política econômica nacionalista –  à qual Henrique Meirelles deve , ao reduzir os juros mais rapidamente, que aderir, para não cair, abrem vastas possibilidades políticas.

Pode pintar movimento popular em favor de terceiro mandato, principalmente, se o PIB reagir mais positivamente nos próximos meses, mediante aceleração de investimentos em políticas sociais, abertos pela possibilidade de antecipar recursos mediante lançamento da estatal Petrosal.

 

Bolsa Família Mundial

 

Obama, com o convite para Lula assumir o Banco Mundial, garante terceiro mandato para Lula em 2014Mas, também, se não der certo o terceiro mandato, pode pintar a garantia dele, não em 2010, mas em 2014. Já rola, inclusive, que Barack Obama teria convidado o titular do Planalto para ser o presidente do Banco Mundial, quando deixar o cargo. 

Claro, Lula faria o  Bolsa Família mundial e teria garantida sua volta em 2014, pelas mãos de Obama, esteja na presidência forças governistas ou oposicionistas. Por sua vez, o titular da Casa Branca estaria, com Lula no BIRD, dando novo rumo à política externa americana, exportando política social, a fim de melhor o prestígio americano no mundo, que está mais por baixo que calcinha de madame, como diria Stanislaw Ponte Preta. Teria grandes chances de conseguir segundo mandato nos Estados Unidos.

O genial Ponte Preta, certamente, não perderia a oportunidade de dar sua interpretação sobre a falta de prestígio do governo americano no mundo, afetado pela arrogância de Tio Sam, que foi para ao brejo, na crise globalOs dilmistas torcem por essa opção. Temem efeitos políticos transversais produzidos pela onda nacionalista, como é o caso do deputado José Geonoíno(PT-SP). Escolhido para relatar a emenda constitucional do terceiro mandato, apresentada pelo deputado Jackson Barreto(PMDB-SE) e rejeitada por não atingir quorum, mas não engavetada pelo presidente da Cãmara, deputado Michel Temer(PMDB-SP), que a encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça, José Genoíno promete derrubá-la por inconstitucionalidade. Sério?

 

Com as barbas de molho

 

Os grandes banqueiros do Itaú e do Unibanco que se fundiram na crise para resistir a onda nacionalista colocam as barbas de molho no ambiente da onda nacionalista

O processo político interage totalmente com a onda econômica nacionalista lulista em marcha em meio à  inversão do discurso econômico para o discurso social, a ser assegurado , provavelmente, pelo dinheiro do petróleo, como prometeu o ministro Lobão, ao adiantar a criação de fundo de investimento em educação , saúde , com recursos carimbados, na ordem de até 5 bilhões de reais.

A onda nacionalista em cima do crédito e do petróleo, em plena crise, como resultado natural decorrente da bancarrota privada, vai abrindo novas expectativas e perpectivas para a economia e para a política, tornando o presidente Lula mais forte em sua queda de braço com as forças resistentes.

Os grandes bancos privados e os acionistas priv ados da Petrobrás, que terão redução dos seus rendimentos, em meio à redução da taxa de juros básica, redutora, por sua vez , do tamanho da dívida pública interna, colocam suas barbas de molho.

Configura-se maior força financeira e política ao governo para confrontar o oligopólio financeiro dos bancos privados,  cuja contribuição à política anticíclica governamental, no primeiro momento da eclosão da grande crise, foi um zero à esquerda.

Não só recusaram os grandes bancos a contribuirem com a solicitação governamental para ajudar os bancos menores encalacrados na crise, com dinheiro dos depósitos compulsórios, como fizeram pior, ou seja, jogaram os compulsórios na especulação, comprando papéis do governo, para ganhar nos juros selic, na especulação.

A resposta lulista, de fortalecer o sistema financeiro estatal – B anco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES – , inviabilizou queda mais forte do PIB. Consequentemente, baixou o facho da banca. Ela não deu um pio com a redução de 1 ponto percentual na taxa selic. Se cair mais 2 pontos percentuais, em vez de chiar, a banca pode ler sinal de que enfrentar o nacionalismo financeiro estatal poderia ser uma fria.

Na prática, ao intervir no crédito à produção e ao consumo, ao mesmo tempo em que jogou o orçamento da Petrobrás para assegurar continuidade às obras do PAC, afetado pela diminuição da arrecadação tributária, Lula fez com relativo sucesso, até agora, o que os governos americanos e europeus não conseguiram fazer, porque o sistema financeiro privado na Europa e nos Estados Unidos faliu e os bancos estatais , atuando no varejo, inexistem, como arma alternativa à suspensão do crédito em meio ao maremoto dos derivativos imobiliários dolarizados. O exemplo do BNDES pode transformar-se em modelo mundial, como prevêem os argentinos.

Dilma-Lobão: do pré-sal à sucessão

O petróleo do pré-sal pode ser a linha pela qual o PT(Dilma) se unirá ao PMDB(Lobão), para credenciar-se à sucessão do presidente Lula, e o terceiro mandato não vingar, para prorrogar mandatos gerais, atendendo desejos continuisas de presidentes, governadores e prefeitos, de cabo a rabo, na linha bem brasileira do jeitinho nacional, ao qual até a oposição, com medo da disputa em 2010, se alinharia

A grande crise mundial, que paralisou as atividades produtivas globais, lançando a economia em incertezas completas, acompanhadas de bancarrotas generalizadas, responsáveis por fortalecerem o papel da política e do Estado na economia, e a  possibilidade de esvaziamento político e financeiro da Petrobrás por intermédio da CPI, criada para investigá-la, levaram o governo a acelerar decisão soberana  de tomar posse da principal riqueza nacional ao mesmo tempo em que separa da empresa semi-estatal as reservas trilhonárias petrolíferas do pré-sal, estimadas, preliminarmente, em 80 bilhões de barris.  O que Evo Morales, presidente da Bolívia, fez quando assumiu o poder, Lula repete, agora, com o petróleo na área do pré-sal. Na prática, rola a renacionalização do petróleo.

A forma se dá por meio da criação de empresa estatal destinada a gerenciar a nova riqueza. Resultado: maior potencia ao poder brasileiro no cenário da crise global que sinaliza, por sua vez, a dobradinha Dilma Roussef, ministra da Casa Civil, e o ministro das Minas Energia, senador Edson Lobão(PMDB-MA), vitorioso, politicamente, na nova articulação, para enfrentar o PSDB-DEM em 2010.

Isso se a emenda do deputado Jackson Barreto(PMDB-SE), favorável ao terceiro mandato para Lula, não emplacar, no compasso do aumento incrível da popularidade do titular do Planalto na pesquisa Ibope, superando a casa dos 80%, no instante em que a economia, por conta da crise, enfrenta recessão e desemprego.

Como o presidente operário descartou essa possibilidade, não deixando, claro, de agradecer pelo prestígio crescente como sinal de aprovação, a dupla Dilma-Lobão, o sul e norte-nordeste, tenderia a ser a opção que emerge com o poder petrolífero nacional em ascensão.

Separa o governo a empresa semi-estatal das reservas petrolíferas que ela explora, capital que é do povo, ou seja, o que se encontra no subsolo, administrado pela União. Fragiliza relativamente o capital privado que compõe 60% da empresa, enquanto a União possui, apenas, 30%, e o BNDEspar os 10% restantes. Diminui a vantagem comparativa da empresa diante das suas concorrentes internacionais no novo modelo de apropriação do petroleo nacional.

Para garantir prestígio e privilégio para a semi-estatal petrolífera nacional, o governo unitizaria as reservas do subsolo, ganhando mais poder relativo, frente a todos os interessados em explorar tal riqueza, inclusive a Petrobrás, fato que, automatidamente, confere a União capacidade de fazer chamada de capital que poderia permitir a ela adquirir, nesse processo permitido pela lei das S/A, abocanhar parte das ações dos acionistas privados, engordando o capital estatal no negócio. O governo, que  assegura maioria precária dentro da maior empresa, embora seja representante da sociedade que, constitucionalmente, é possuidora das reservas ainda não exploradas, retoma o comando do processo.

 

Linha Hugo Chavez-Evo Morales

 

Lula segue a linha dos dois presidentes sulamericanos no trato do petroleo, para refundar o poder sulamericano em face da crise mundial, na qual destaca como potencia, por possuir a Améica do Sul as riquezas que os países capitalists desenvolvidos necessitam, sem mais dispor do poder da deterioração dos termos de troca dados pelo domínio das manufaturas tecnológicas

Ao renacionalizar-reestatizar o petróleo e abrir espaço para avançar dentro da Petrobrás, deslocando acionistas privados com a unitização das reservas, o novo formato do poder petrolífero nacional assegura condições satisfatórias para a empresa, mas sua autonomia, como foi conduzida até agora, em meio ao avanço dos acionistas privados, fica comprometida.

Requererá a semi-estatal protecionismo governamental  nas licitações, para não ser superada pelos grandes produtores internacionais do petróleo , que, certamente, participarão das explorações, pelas novas regras, simbolizadoras, ao mesmo tempo , do compromisso do Planalto de transformá-las, politicamente, em instrumento financeiro para bombar políticas sociais, engordando os orçamentos da educação, da saúde e da habitação.

Lula fará com o dinheiro do petróleo o que o presidente Hugo Chavez  faz na Venezuela, por meio do qual abre espaço para assegurar seguidos mandatos presidenciais, sob crivo popular via democracia direta referendada em plebiscitos, linha, também, seguida por Morales, presidente da Bolívia.

A soberania nacional, dessa forma, em nome do patrimônio popular, é amplamente afirmada pelo governo Lula, no momento em que, em plena crise mundial, o Brasil torna-se alvo geral dos investidores, nacionais e estrangeiros, por constituir-se em nação emergente promissora, capaz de navegar em mares bravios.

O raciocínio governamental prevaleceu no sentido de que tal poder , reconhecido, amplamente, pela comunidade internacional em face do potencial econômico brasileiro, encontra-se fincado, justamente, nas riquezas petrolíferas e minerais em geral. O Brasil dispõe de mercadorias das quais necessitam a manufatura mundial que disputa entre si o mercado correndo risco de quedas deflacionárias de preços em face da elevada concorrência.

Inverte-se, na crise global, a deterioração nos termos das relações de troca entre, de um lado, os preços das matérias primas e dos alimentos, que valorizam relativamente mais , e, de outro, os preços das manufaturas, que se desvalorizam em meio ao acirramento da competição que sinaliza inflação cadente e deflação ascendente, para horror dos industriais, em busca de intermitente socorro governamental.

Nesse contexto, o valor relativo das mercadorias primárias brasileiras torna-se superior em virtude de apresentarem maiores vantagens comparativas de forma intrínseca. Consequentemente, eleva-se, da mesma forma, o poder político.

 

Reserva garante investimentos

 

A nova conjuntura internacional favorece a renacionalização do petroleo por meio da criação de empresa estatal destinada a administrar as reservas pre-salinas

O valor do petróleo, para o Brasil, que dispõe de autosuficiência do produto, representa riqueza líquida sobre a qual a soberania política nacional pode sacar para contruir a infra-estrutrura nacional, que está, ainda, quase toda por realizar nas regiões norte, nordeste e centro oeste. Representa, da mesma forma, fonte de recursos para fazer a revolução na educação, na saúde e nos equipamentos urbanos, ampliando programas habitacionais etc

Como os capitais investidores, na Europa e nos Estados Unidos, estão em busca dessa realização, para dar respostas aos seus acionistas, que deixaram de ganhar lucratividade na especulação, como vinha acontecendo até o estouro da crise global, o Brasil, simplesmente, deixou de ser um risco, mas uma oportunidade indispensável.

A renacionalização do petróleo, ao desvincular as reservas do pre-sal da Petrobrás, certamente, diminuirá o preço das ações e as expectativas dos acionistas nos ganhos especulativos. Isso, evidentemente, não ocorreria se as reservas do pre-sal se transformassem em patrimônio da Petrobrás, como se configurou como hipótese até antes do estouro da crise global, na linha da tucanagem.

O resultado poderá ser pressão baixistas para as ações da empresa,  evidenciando situação em que poderá estimular a ampliação da estatização, no contexto da unitização das reservas do pre-sal, dentro da própria Petrobrás, com o Estado comprando ações por preços mais baixos, via chamadas de capital.

Poderia, igualmente, configurar contexto em que se tornaria irreversível a renacionalização da Petrobrás ou seu enfraquecimento , também, irreversível, especialmente, se a CPI escarafunchar a vida da estatal, a fim de descobrir maracutaias por meio de contratos bilionários mal acochambrados nos quais estariam envolvidos personalidades governistas, deste e do governo passado, hipóteses, altamente, prováveis.

Reforça a renacionalização, certamente, o prestígio político eleitoral do presidente Lula. Com discurso nacionalista, reforçado pela decisão governamental de tomar medidas estatizantes anticíclicas, especialmente, no crédito, de modo a evitar, com sucesso, até o momento, que a economia entrasse em bancarrota, o poder estatal lulista ganhou prestígio adicional.

Adquiriu com tais ações, responsáveis por evitar quedas maiores das atividades produtivas, credibilidade e confiança suficientes que estavam lhe faltando para falar grosso na área do petróelo, antes da eclosão da crise mundial. Depois dela, em que o Estado virou solução e não problema, viabilizou-se a renacionalização das reservas petrolíferas. A privatização relativa da Petrobrás  sofre impacto poderoso diante da renacionalização das reservas.

Ao longo dos últimos vinte anos, a exploração petrolífera, que exige investimentos elevados, foi flexibilizada pelo governo, para atrair parceiros, dividindo o lucro via concessões. Com o pre-sal, entra em cena o regime de partilha. Tudo vai para o caixa do tesouro, que dá as cartas, soberanamente.

 A ação da Petrobrás, até antes do pré-sal,  no processo verificou-se sempre em participações majoritárias nas parcerias realizadas, mas sendo a empresa dominada pela capital privado, embora controlada pelo capital estatal, os verdadeiros beneficiários do valor das reservas do subsolo estavam  sendo os acionistas privados, não os verdadeiros proprietários, o povo.

Com a criação da Petrossal, a situação muda de figura. As condições para realização de parcerias serão feitas não mais pela Petrobrás, mas pela nova empresa, cujo capital será 100% estatal.