Comitês comunitários para casa própria

 Lula entra para a história por ter percebido que programa social é projeto de desenvolvimento econômico interno que eleva o consumo e a demanda para a produção e o emprego de forma sustentavel, se o espírito cooperativo for convodado a participar, para baratear os preços para os mais pobres, livrando-os da sangria dos bancos

Prefeitos, governadores, construção civil, arquitetos… O presidente Lula, enfaticamente,  convocou todos, menos a comunidade, para engajar na luta da construção da casa própria para os pobres, por meio do programa habitacional “Minha Casa , Minha Vida”, o Bolsa Casa, com a previsão de erguer 1 milhão de casas populares nos próximos três, quatro anos. envolvendo investimentos de R$ 34 bilhões, com foco maior no Nordeste e no Sudeste, a fim de atender majoritamente os que ganham de 1 a 3 salários mínimos. No programa Bom Dia Brasil, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, enfatizou os agentes, destacou, rapidamente, sem ênfase,  os movimentos sociais como coadjuvantes. Será colocado em circulação dinheiro capaz de construir uma nova Brasília, só que resultante de investimentos disseminados por todo o país, cujos efeitos serão dinamização do mercado interno.  Faz-se necessária a convocação da população pobre, como agente econômico principal. Ela poderia ser organizada em associações comunitárias, para atuar em todo o território nacional. Grupos de 50 moradores se organizariam em suas associações, às quais as prefeituras ofereceriam terrenos e infra-estrutura e a Caixa Econômica Federal os recursos baratos. Garantir-se-ia envolvimento social para produzir casas a preços baratos, sem atravessadores. A população de baixa renda ficaria livre dos bancos sanguessugas, associados às empreiteiras, dispensada de pagar juros. Os comitês comunitários dariam nova feição ao mercado interno, a partir dos quais se desenvolveria e fortaleceria  novo espírito empreendedor nacional, para dinamizar a produção e o consumo, em bases cooperativas e interativas. É do fortalecimento dessa base social, do mercado popular, que a indústria alavancará, tornando-se possante no cenário globalizado no qual os países ricos estão perdendo terreno diante da bancarrota financeira em que se encalacraram.

 

Mercado interno sustentável 

 

Os trabalhadores organizados em associações poderão construir em dois anos não apenas um milhão, mas cinco ou mais milhões de casas populares a custo barato, porque não haveria maiores problemas para arregimentação comunitária, salvo a defesa dos seus interesses

Acreditar no poder comunitário, devidamente, organizado, é acreditar no país. Trata-se de injeção de dinheiro , por meio do Bolsa Casa, para incrementar o consumo das famílias em material de construção, da mesma forma que o Bolsa Família incrementa o consumo de alimentos dos mais pobres, cujos efeitos são dinamizar o parque industrial, o setor agrícola, o comércio e os serviços. A filosofia é a mesma, jogar dinheiro público para aquecer o consumo. Os países asiáticos estão repetindo a solução brasileira. Estão distribuindo dinheiro para o consumo. Garantem, com isso, arrecadação, para tocar os investimentos públicos. O espírito do programa habitacional é esse: apostar no pobre, porque o dinheiro do pobre faz o nobre, mas o dinheiro do nobre , apenas, destroi o pobre. Seguida essa receita haverá um boom de vendas na indústria de material de construção. Serão fortalecidos o setor de transporte, o consumo de gasolina, o aumento de empregos nos postos de abastecimento, o aumento do faturamento dos restaurantes ao longo das estradas, os borracheiros, igualmente, terão mais pneus para consertar, enfim, uma girada de dinheiro na circulação, cujo resultado é aumento da arrecadação governamental. Esse tem sido o papel do Bolsa Família. Embora seja de apenas 1% o efeito do programa no contexto do PIB, ele cria uma circulação de dinheiro, a partir do início do consumo da dona de casa, retirando o óleo da prateleira do supermercado, que implica em movimentação da indústria, do comércio, da agricultura e dos serviços, em geral, cujos efeitos são, em cada etapa da circulação, de um setor a outro, aumentos de recursos para o tesouro nacional. Sustentar o consumo dos mais pobres é a saída para os mais ricos. O consumo dos ricos não é suficiente para girar a produção e consumo. São poucos demais. Programa social é programa de investimento. Lula aprendeu a fazer desenvolvimento interno, conjugando o econômico e o social. Sem a distribuição da renda, haverá estoques acumulados que exigirão desvalorização cambial e pressão inflacionária, sem se ter c erteza de que tal jogada dê certo, diante do mercado externo em colapso. O modelo exportador esgotou suas possibilidades diante da baixa distribuição da renda nacional em meio a bancarrota global.

 

Fiscalizar os prefeitos

 

Os políticos em geral perderam a confiança da comunidade, como demonstra a operação policial castelo de cartas em cima de uma grande empretiera que deu dinheiro para políticos, a fim de receber em trocas investimentos em grandes obras públicas. Por isso, precisam ser fiscalizados, rigorosamenteNão é à toa que o Banco Asteca, do México, do ex-presidente Salinas de Gortari, apostou suas fichas no consumo no Nordeste, financiando compras mediante garantia dada pelo cartão de crédito de alimentação do Bolsa Família. O mesmo deve ser feito relativamente à construção das casas. As prefeituras, que doarão os terremos, terão, por sua vez, de ser bastante fiscalizadas, pois a crença popular nos políticos estão em baixa, graças a uma legislação eleitoral que os torna prisioneiros dos caixas dois eleitorais. Olha aí a política federal dando batidas em cima de uma grande empreiteira, Camargo Correia, suspeita de corrupção no envolvimento com a classe politica. Todo o cuidado é pouco. As associações, trabalhando em mutirão, têm condições de exercer a fiscalização, enquanto dinamizam o mercado interno, na base do movimento econômico de massa.  Fica-se livre dos sanguessugas do juro alto.  Se o dinheiro for para as empresas, que financiarão os pobres, com empréstimos cujos custos se tornem crescentemente insuportáveis, como aconteceu em planos habitacionais anteriores, o processo fracassará, pois poderia pintar inevitavelmente as relações dos políticos com as empresas em larga escala, colocando em risco a idéia do programa. A população de baixa renda, de 1 a 3 salários mínimos , com o dinheiro que ela pode pegar, por meio de associações comunitários , em movimento comunitário nacional,  fará, traquilamente, sua casa com custo baixo.  É preciso evitar o que ocorreu em Alexania, Goiás, e em muitos outros lugares: um prefeito recebeu recursos do estado para construir 300 casas, construiu, apenas, 150 e embolsou o resto do dinheiro. A comunidade organizada em associações não deixaria que isso ocorresse.

 

Banco público popular

 

A força popular tem que prevalecer no grande projeto popular habatacional, do contrário, pode ser uma oportunidade para empreiteiras e empresarios faturarem em cima da exploração popular

Os exemplos estão ai, nessa crise. Os bancos, embora o governo procure capitaliza-los e dispor de garantia para permitir que possam movimentar o comércio, a indústria e agricultura, preferem especular e correr para os títulos públicos. A Caixa Econômica Federal não deve estar preocupada com os lucros do programa. Os lucros virão com o movimento do consumo desencadeado pelo movimento popular destinado a comprar materiais de construção e a movimentar toda a cadeia de produção, envolvendo comércio, industria, agricultura e serviços, para complementar e dinamizar a produção e o consumo que estão parados. O presidente Lula entra para a história por ter percebido e praticado a estratégia de fortalecer a classe pobre, que, durante toda a história brasileira, não foi considerada como agente do desenvolvimento, porque os modelos de desenvolvimento sempre se apoiaram, preferencialmente, nas exportações, desde o descobrimento do país. A grande crise internacional, que é uma crise da produção impulsionada pelo desenvolvimento tecnológico e científico, cujos efeitos são gerar aumento exponencial da produtividade, que traz quedas de preços, dada a oferta maior que a procura, na acirrada competição internacional, serve de alerta. Os modelos exportadores estão falindo. A Ásia, que depende do mercado externo, para os seus produtos de vanguarda tecnológica, agora, distribuem dinheiro para a população consumir os produtos, com cartões de crédito de consumo, os bolsas tecnologias, para desovar os estoques e continuar havendo a produção, como alternativa ao desemprego.

 

País está por fazer

 

Se o governo acreditar no povo terá a resposta positiva para o que deseja ou seja distribuir recursos para o povo gastar em construção e alimentação tendo como retorno arrecadação para novos investimentos públicosdesenvolvimento-popular1

O mercado interno é a salvação nacional, porque o internacional tornou-se ponto de desova geral da produção mundial, onde os preços desabam. Quem não tiver mercado interno, com depressão do externo, estará perdido. Os investimentos de R$ 34 bilhões, que compreendem o total a ser aplicado na construção das casas populares, representam a injeção decisiva, para promover a reação do PIB, que, no último trimestre do ano passado e no primeiro desse ano, mergulharam no abismo. Todas as apostas no mercado interno, eis a solução. O Brasil, ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, ainda é um país por fazer em matéria de infra-estrutura. Como dispõe de matérias primas, base industrial forte , classes empresarial e laboral diligentes etc, os investimentos na infra-estrutura nacional – e igualmente no continente sul-americano – tendem a se transformar no novo pólo de atração dos investidores. Os ganhos que estavam sendo permitidos ao capital sobreacumulado nos países ricos focavam na especulação financeira por falta de espaços na infra-estrutura, visto que esta, nos países ricos, está concluída. Se o investimento especulativo trouxe a destruição, o investimento produtivo, para continuar a acumulação capitalista não se encontra mais nos países ricos, mas nos países pobres. Fortalecendo o mercado interno dos pobres, os ricos, mais uma vez, conseguirão se salvar. Não há outra saída para eles, senão aposta na gente.

Banqueiros manobram Obama e fragilizam dólar

A proposta do governo de emprestar dinheiro público para os agentes privados a juros baixos subsidiados para que comprem créditos podres, a fim de livrar o capitalismo da bancarrota, representa confissão pública do governo americano de ser impotente para ampliar os deficits públicos na escala necessária para suprimir os créditos podresPara cada 1 dólar que o governo colocar na agência público-privada destinada a comprar títulos podres que bloqueiam nos bancos o crédito, inviabilizando o capitalismo, os investidores privados(entre eles, os agentes dos banqueiros, claro) colocarão , igualmente, 1 dólar, só que esse 1 dólar privado terá garantia de 93% do dólar público, emitido pelo governo. Ou seja, de cada 100 dólares do fundo, o investidor entra com, apenas, 7 dólares. Se der tudo certo, lucro total; se entrar areia, o governo , o contribunte, banca tudo. Resta saber se o dinheiro que o governo colocar disporá de garantia, porque não tem lastro nenhum. Busca, apenas, obter confiança da praça global. Vale dizer: joga na circulação capitalista uma moeda sem garantia para salvar uma moeda(títulos) podre. Com isso, os banqueiros americanos conseguiram uma vitória parcial ao evitar a estatização bancária nos Estados Unidos. Perderiam poder se isso acontecesse. Na prática, eles são os verdadeiros comandantes da moeda americana, por intermédio do controle do FED, banco central do país, desde sua criação em 1913. Nos EUA, não é o tesouro nacional que emite moeda, mas o FED. O tesouro emite papel que é comprado pelo FED, como destaca o professor-economista Adriano Benayon, especialista em comércio internacional. Caso houvesse estatização bancária em meio a bancarrota financeira, poderia haver mudança radical na estrutura do poder sobre a moeda, o poder real. Se o governo assumisse diretamente o controle dos bancos privados falidos, o tesouro disporia não apenas da atribuição de emitir títulos, mas, igualmente, a de emitir moeda. Emitiria e enxugaria. Ficaria com o FED a tarefa de controlar a economia por meio da taxa de juro, apenas, como faz, incompetentemente, no Brasil, o Banco Central, conforme ressalta Delfim Netto, no Valor Econômico, demonstrando a presunção da tecnocracia como fator determinante na condução da economia, até levá-la ao precipício. Limitar o FED apenas ao controle dos juros, destituindo-se, na prática, seu poder de emitir, em meio a uma estatização bancária dramática, seria o fim do predomínio de Wall Street sobre o Congresso e a Casa Branca. Obama teria força de quebrar a espinha da bancocracia, sem que pudesse acontecer com ele o que aconteceu com Kennedy?

 

Ineficiência premiada

 

O secretário do tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, trabalhou o plano talhado para salvar as aparências dos grandes bancos e fazer valer o princípio do poder financeiro americano baseado no FED sob comando privado, deixando aberta a estatização como possibilidade, se seu plano falharA força dos bancos ficou evidenciada como princípio de comando das finanças americanas, embora tal influência esteja tecnicamente destruída pela falência financeira deles, que requer socorro estatal. Não foi, portanto, dessa vez, que a estatização vingou como salvação. O duelo de titãs, entre o Tesouro, ou seja, governo Obama, e o FED, os bancos, foi ganho, no primeiro round, pelos banqueiros. A luta, porém, não terminou. O plano pode fazer água, porque não está suficientemente calçado pela segurança, nem do público, nem do mercado, nem do governo, ameaçado pelo perigo de expansão dos déficits. Ao fixar um plano público-privado para salvar o sistema bancário, o governo rendeu-se ao discurso dos banqueiros para que a gestão do socorro não fosse exercida exc lusivamente pelo mando estatal, mas pelo novo caráter do poder financeiro americano, público-privado, embora o privado, no ato de tentar salvar o sistema, não entre com dinheiro, mas como mera representação sem valor, apenas para preservar as aparências. Os bancos conseguiram fazer valer o princípio – no momento, mera figura decorativa –  da propriedade privada como valor suficientemente forte para ombrear com Estado, mesmo estando destruída sua reputação pela especulação. O argumento de que o plano Obama requer a indispensável presença do setor privado, representa não apenas a confissão americana de que o governo dos Estados Unidos está fragil, diante de déficits que podem alcançar 3 trilhões de dólares, mas, também, a concordância tácita com a farsa de que a utilidade do privado, que detonou a crise, se mantém intacta. Sustentou-se, tão somente em discurso, como necessária à sobrevivencia “eficiente” do sistema a presença do setor privado, embora este não esteja colocando dinheiro nem correndo risco no negócio que está participando, ou seja, na parceira público-privada. 

 

Desconfiança chinesa aguçada

 

wen-jiabao está deixando seus assessores levantar dúvidas sobre a saúde do dólar e ao mesmo tempo estimula pregação de moeda mundial para determinar novos rumos das relações de trocas globais estressadas sob dominio da moeda americanaA contestação à eficácia do plano Obama já está no ar, especialmente, relacionada à desconfiança dos países compradores dos títulos americanos.  Cheia de  dólares e títulos da dívida pública em suas reservas monetárias, a China, desconfiadíssima quanto à saúde da moeda americana,  passou a reivindicar moeda mundial, para determinar as relações de trocas globais. Esse é o papo predominante que pode pintar na reunião do grupo dos 20, em Londres, em 2 de abril. Não há, eis a verdade, crença na capacidade unilateral de a moeda de Tio Sam dar, sozinha, conta do recado. Depois que o próprio governo americano, por intermédio do Banco Central, comandado pelos banqueiros privados, liberou geral as normas bancárias, para que a reprodução do capital se fizesse nas especulação e na ficção, sem mais necessidade do trabalho, como fator de riqueza – já que no trabalho os antagonismos relativos ao capital produzem acumulação excessiva que reduz a taxa de lucro do sistema ,  levando-o à deflação, como a presente crise mundial demonstra, sobejamente,  o futuro do dólar, em meio à jogatina especulativa em que se transformou a economia americana,  ficou comprometido.

 

Desencanto paulkrugmaniano

 

Krugman já se desencatou de Obama, temendo a possibilidade de seu desgaste se acelerar em meio à descrença que o plano na sua opinião necessariamente provocará porque opta pelo mais dificil, salvar quem já está desmoralizado, em vez de optar pela lição da história, já dada diversas vezes, de o estado entrar para organizar a anarquia provocada pela especulação bancária capitalistaA montanha de crédito podre tem que ser removida por títulos americanos que elevarão extraordinariamente os deficits dos Estados Unidos, cujas consequências são incógnita total. O medo dos chineses diz tudo. O Brasil, que está com suas reservas de 200 bilhões de dólares aplicadas nos títulos americanos, que coloque as barbas de molho. Será que vai dançar nesse dinheiro, sem utilizá-lo na alavancagem decisiva da infra-estrutura nacional, carente de estradas, portos, aeroportos, ferrovias, hidrovias, silos suficientes para dispor de mercadorias para vender ao preço do dia nos portos etc?

O plano Obama, antes de mais nada, gera perplexidades. Evidencia-se, claramente, que o presidente renunciou ao poder governamental de estatizar os bancos, regularizar o sistema e dar curso à economia, como destacou o premio nobel de economia americano, Paul Krugman. Preferiu fazer o jogo da oligarquia financeira. Vai dar certo? O poder dos banqueiros americanos será a expressão do presidente Barack Obama na reunião do Grupo dos 20, quando alternativas monetárias globais estarão em discussão. A receptividade do plano no cenário global impõe a máxima de São Tomé: é preciso ver os resulados para crer.

PMDB tenta poder parlamentarista

Os presidentes do Congresso e da Câmara, ameaçados de ficarem de pés e mãos amarrados sob governabilidade provisória, tentam superar as MPs conferindo-lhes perfil parlamentarista, eliminando a preponderancia presidencialista de utiliza-la em prejuízo das atividades legislativas, que passaram a ser meramente decorativasO presidente do Congresso, Senador José Sarney(PMDB-AP), e o da Câmara, Michel Temer(PMDB-SP), lideranças apagadas, devido ao descrédito em que o Legislativo se encontra perante a opinião pública, tentam manobra parlamentarista cujos efeitos, se pegarem, serão o de, sob presidencialismo falsamente democrático,  esvaziarem a governabilidade provisória, por meio da qual a Nova República buscou sobreviver ao longo dos últimos vinte anos sob regime neoliberal, ditado pelo interesse dos grandes credores do Estado brasileiro, cuja saúde financeira pode entrar em bancarrota, se a crise global se aprofundar. 

No cenário globalizado, em que todos se encontram amarrados, no embalado da grande crise econômica mundial, as esperanças, para  que as coisas armadas pelos dois líderes dêem certo,  estariam fora do seu controle. Dependeriam de  eventual sucesso do pacote do presidente Barack Obama, a ser lançado hoje, de jogar trilhões de dólares, na praça, para enxugar créditos podres, a fim de tentar desobstruir os canais do crédito mundial. Poderia aliviar o ambiente  de sufoco em que vive o capitalismo mundial e nacional, favorecendo os jogos políticos parlamentares, que se encontram ameaçados de legitimidade . Se for tudo bem, a jogada parlamentarista de Sarney-Temer poderia alcançar resultado positivo. Caso contrário, o buraco poderá ampliar-se, erguendo-se confronto entre Legislativo e Executivo, abrindo espaço para novas instabilidades à governabilidade, afetada pela ausência de lideranças. Os falsos líderes presentes estão todos com os rabos contra a parede.

Essenc ialmente, os dois líderes políticos do PMDB, que passou a mandar no panorama político nacional, no contexto da coalização governamental(PT-PMDB-PTB-PDT-ETC), buscam neutralizar as medidas provisórias. Estas bloqueiam as atividades parlamentares, eliminando, na prática, os pressupostos constitucionais do Legislativo, na sua função de legislar e fiscalizar o Executivo, abrindo espaço para que o judiciário entre no campo político, preenchendo vácuo, como tem feito o presidente do Supremo Tribunal Federal(STF), ministro Gilmar Mendes.

Temer e Sarney querem conduzir o legislativo trabalhando mais com  os projetos de lei complementar e com projetos de emenda constitucional, já que os projetos de lei ordinária, diante das medidas provisórias, perderam utilidade. Tudo cabe dentro das MPs. Sarney e Temer querem tirar os PLC e as EC de dentro delas. Acreditam poder contornar a situação, que já está sendo contestada, no Supremo Tribunal Federal, pelos oposicionistas.

A limitação do poder das MPs coloca freio ao presidencialismo constitucional brasileiro que assumiu as características parlamentaristas contidas na Constituição de 1988, como reação da classe política nacional, no processo de elaboração da Assembléia Nacional Constituinte, ao autoritarismo do Executivo sobre o Legislativo durante a ditadura militar(1964-1984), quando o país foi governado, essencialmente, por decretos-lei.

As Medidas Provisóias – versão dos decretos-lei – , que, nos regimes parlamentaristas, garantem a governabilidade, fortalecendo os parlamentos frente aos executivos, que perdem poder relativo à representação popular, foram, no Brasil, assumidas pelo Executivo, deixando o Legislativo sem ação.

 

Constituição cidadã traída

 

Ulisses Guimarães tentou o parlamentarismo mas os credores, nos anos 90 e 2000, jogaram contra a cidadania para impor a bancocraciaEssa inversão de papéis ocorreu, mais aceleradamente, durante a crise monetária dos anos de 1980, quando , a partir de 1979, os Estados Unidos, diante do perigo da inflação, decorrente do excesso de dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, na economia global, subiram a taxa de juros de 5% para 17% ao ano, para salvar a moeda americana. Resultado: a periferia capitalista, endividada, dependente da poupança externa, faliu. Falida a economia, faliriam, em seguida, os parlamentos, porque a economia sobrepujou a política.

O governo americano, a partir de 1982, criou as bases do Consenso de Washington, destinadas a administrar as economias capitalistas periféricas, priorizando realização de duros cortes orçamentários, para sobrar mais recursos ao pagamento dos serviços da dívida, que, com os juros altos, subiram, incontrolavelmente. Os credores impuseram suas vontades , inclusive, na Constituição. Forçaram e conseguiram, durante a Constituinte, materializar o artigo 166, parágrafo terceiro, item II, letra b, que proibiu contingenciamento de recursos orçamentários destinados ao pagamento dos juros. Todos os demais setores, constantes do chamado orçamento não-financeiro, foram sacrificados em favor do orçamento financeiro. Reinado total da bancoc racia.

Prisioneiros do Consenso de Washington, os governos neorepublicanos – Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula – subordinaram-se ao jogo dos credores, assegurado pela Con stituição cidadã(?) – assim apelidada por Ulisses Guimarães – , tendo como arma para atender as pressões externas sobre a economia, os ditames econômicos neoliberais de fora para dentro, coordenados pelo FMI e supervisionado pela Casa Branca.

As prioridades foram invertidas. Os governos estaduais, que, depois do aumento dos juros, nos Estados Unidos, entraram em falência, tiveram que vender na bacia das almas para os bancos privados os bancos estaduais. A contabilidade dos governos estaduais foram centralizadas, sob rígido controle do Tesouro. A centralização financeira estatal, sob pressão do FMI, impôs ao Congresso não apenas a privatização dos bancos estaduais, mas ,  igualmente, a Lei de Responsabilidade Fiscal(LRF), em nome do equilibrismo orçamentário neoliberal.

Com isso, criou-se a verdade segundo a qual o crescimento potencial da economia brasileira estava limitado ao crescimento do PIB de no máximo 3,5% ao ano, sob pena de promover, além desse patamar, a inflação, que, preventivamente, passara a ser controlada via juros elevados, enquanto a indústria nacional, em meio ao alto custo do dinheiro, era submetida às reduções irracionais das tarifas de importação, impondo sucateamento industrial.

 

Para que 513 deputados?

 

Clodovil, com pouco tempo de legislatura, percebeu que estava fazendo papel inutil no legislativo, dominado pelas corporrações. Por isso, foi radical, propondo corte de 50% na representação parlamentar. Corajoso.O Congresso Nacional, nesse contexto, mergulhou , sob medidas provisórias, na inutilidade total. Sem poder – e sem querer , porque a vontade política congressual foi comprada a peso de ouro – , os congressistas ficaram sem ter o que fazer. Cabeça vazia, oficina do diabo. A corrupção na distribuição dos recursos orçamentários, mobilizados para atender bases parlamentares, passaram a ser a diversão dos congressistas. Para fazer isso, prá que 513 deputados? Não foi à toa, portanto, que o deputado Clodovil Hernandez(PR-SP) – 500 mil votos, recorde – , falecido, na semana passada, propôs projeto de lei que determina 50% de corte na representação parlamentar. Os congressistas deixaram de lado funções precípuas do legislativo, de legislar e fiscalizar o Executivo.

A governabilidade provisória é a governabilidade bancocrática, à qual os parlamentares se renderam. Deram tiro no próprio pé. A sociedade, agora, cobra ação política decisiva de uma classe que perdeu a sua capacidade de exercitar os mandamentos constitucionais, porque ficou absorvida pela prática da corrupção, empenhada não em seguir a Constituição, mas rasgar o texto constitucional em todas as suas dimensões, inclusive, no plano administrativo. Os funcionários comissionados e terceirizados passaram a ser mais importantes que os concursados, invertendo a recomendação máxima constitucional.  Lamaçal apodrecido.

O acúmulo de medidas provisórias em nome da governabilidade acabaria, certamente, em barrar a própria governabilidade, que, agora, na crise global, se expõe cruamente, deixando os parlamentares, apenas , diante das suas irregularidades. Sob as MPs, estão desmoralizados.

 

STF vira obstáculo

 

O presidente do STF tornou-se o maior crítico da governabilidade provisória, mas estaria diante de sério impasse entre a disposição do legislativo de ampliar o parlamentarismo para combater as próprias medidas provisórias presidencialistasO jogo de Temer-Sarney, que peca por falta de liderança,  se insere nessa tarefa geral de voltar a dar credibilidade ao Legislativo que, meramente, representativo, sem conteúdo participativo, deixa de ser útil. O esforço parlamentarista dos dois líderes do PMDB encontrará dificuldades para materializar-se. Afinal, o partido perdeu sua honorabilidade, fundamentalmente, porque entre suas preocupações fundamentais está a de não alcançar o poder, mas dominá-lo nos bastidores, submetendo os executivos à sua manobra corporativa, obscura, manchada de más intensões, que contribuem para a sua pouca ou nenhuma autenticidade.

O presidente Lula, no compasso das manobras de Temer e Sarney, pode ficar de pés e mãos amarrados, se o Supremo Tribunal Federal chancelar o jogo parlamentarista em construção, no momento em que o presidencialismo necessitaria de maiores liberdades para enfrentar a crise financeira global em ascensão destrutiva.

O jogo parlamentarista sarneysiano-temeriano deixa o PMDB disponível para atender a dois senhores. De um lado, a situação, se o poder continuar com a coalizão lulista, depois de 2010; de outro, a oposição, se alcançar o poder o tucanado, seja com o governador de São Paulo, José Sera, seja com o de Minas Gerais, Aécio Neves. O jogo dúbio de poder do PMDB se adequa às manobras dos dois líderes peemedebistas. Sarney é aliado de Lula, mas simpático a Aécio; já, Temer, também, aliado lulista, joga suas fichas em José Serra. O jogo parlamentarista peemedebista manteria equidistância dos dois pólos de poder em disputa, para faturar em cima daquele que for vencedor, pragmaticamente.

O STF daria ao Legislativo a carta parlamentarista tentada por Temer e Sarney, para minimizar o presidencialismo lulista, embora o tenha criticado por não exercer o papel republicano que a Constituição o reservou, porque subordinou-se à orientação presidencialista abastardada pelas MPs?

Estado usa inflação contra luta de classes

Lauro, téorico das não-mercadorias, segue a linha de Marx para fixar a crise capitalista americana, no século 20, destacando-se em três livros fundamentais, "A crise da ideologia keynesiana", "A crise completa - economia política do não" e "Inflação, instrumento de controle social", atualíssimo, no momento, em que a luta de classe explode e os governos, para enfrenta-la , lança mão da expansão inflacionária, escondendo a inflação na dívida pública, dialeticamenteA expansão do desemprego nos paises capitalistas desenvolvidos e emergentes tende a acirrar o que se imaginava, sob social-democracia representativa, presidencialista-parlamentarista,  superado pelo capitalismo, ou seja, a luta de classes. Engano.  Ao anunciar que jogará 1,5 trilhão de dólares na circulação capitalista americana, para a economia dos Estados Unidos continuar, via consumo, puxando a demanda mundial e fazer preponderar politicamente o pensamento dominante de Tio Sam na cena global em crise aguda, o presidente Barack Obama demonstra a tese do professor Lauro Campos, “Inflação, instrumento de controle social”. O Estado investe inflacionariamente para tentar, na crise de realização da produção no consumo, aliviar o que realmente é emergente e socialmente perigoso para o capitalismo,  a explosão da luta de classes.

O antagonismo social amplia-se na conjuntura em que a disputa pela renda aumenta, no ambiente em que a riqueza da comunidade, em um total de 15 trilhões, desapareceu na especulação, destaca o ex-embaixador brasileiro na Alemanha, China e Estados Unidos, Roberto Abdenur, no programa do jornalista William Waack. As tensões internas, nos Estados Unidos, representam uma nova guerra americana. A diplomacia externa americana tenderia a diminuir de importância relativamente às tensões sociais, econômicas e políticas emergentes, que fazem explodir nas ruas a luta de classe. Se o governo salva os ricos, a população em sua diversidade de classe passa a exigir o mesmo tratamento. O Estado não pode ser mais exclusivamente burguês. A superestrutura jurídica do Estado balança para nova correlação de forças que emerge no rastro da falência bancária que detonou a luta de classes.

As greves já estão nas ruas. Na França, amplia greve geral contra o governo que não toma partido na situação do desemprego. Sarkosy, no desespero, clama por refundação do capitalismo. Ou seja, o que está aí, bancado na especulação como forma de reprodução do capital, deixou de ser útil, ao levar à recessão global. Nos Estados Unidos, com o seguro desemprego alcando 6 milhões de desempregados em seis meses,  os grupos organizados  protestam contra a injusta distribuição da renda nacional  em que os mais ricos ganham os bonus mesmo diante da quebradeira, como se tentta alcançar na AIG.  Com o desemprego avançando entre os europeus na casa dos 10% a 15%, a luta de classes impõe a sua dinâmica na greve política. Não é o empresário que quer arrochar salário e que obriga o trabalhador a ir à greve por melhores salários. Trata-se de contestação a uma situação concreta que deixa de produzir empregos. Ou seja , em que não existem rendas, apenas pobreza.

 

América do Sul ferve

 

O sutil embaixador brasileiro meteu o dedo na ferida ao dizer que o explode nesse momento é a luta de classe que obriga os EUA a priorizarem a agenda interna em vez de a externa, dada o estrago provocado na vida nacional, detonado 15 trilhões de renda da comunidade, empobrecendo-a e levando os americanos a relativizar sua riqueza relativamente ao resto do mundo. CrashNa América do Sul, periferia capitalista dependente da poupança externa, que desapareceu, os movimentos de libertação econômica podem pipocar, se as dificuldades ficarem intransponíveis, no confronto que a crise promove das forças produtivas, expansivas em face do desenvolvimento científico e tec nológico,  com as relações sociais da produção, estreitadas pela concentração de renda,  levando à luta de classes. A Argentina, que depende das exportações, porque o neoliberalismo menemista destrui o parque industrial portenho, no tempo da Era FHC, no Brasil, não realiza a produção interna no mercado externo bloqueado pela crise. A receita interna implicaria em maior distribuição de renda. Mexeria no bolso dos grandes latifundiários. Luta de classes emergente.

Na Venezuela, a queda da receita do petróleo e a escassez da oferta de alimentos em decorrência da irracional concentração da propriedade no país, detona a destruição simultanea da deflação com inflação. Deflação, no ambiente geral da crise global. Inflação, decorrente da baixa oferta de alimentos que elevam os preços em meio a uma política monetária que produz o câmbio negro e a corrupção cambial em larga escala. O Estado venezuelano não apenas irriga a circulação capitalista, com menos recursos advindo das receitas do petróleo, para puxar a demanda interna, mas passou a atuar diretamente na distribuição do produto privado alimentício, a fim de evitar especulação inflacionária. Chavez repete Sarney no tempo da busca do boi no pasto.

 

Líderes se mostram impotentes

 

Lula e Lugo precisam atuar juntos para os movimentos sociais não emergirem e espalharem faíscas políticas revolucionáriasPARAGUAY-INAUGURATION-LUGO-LULA DA SILVACristina e Lula estão condenados a andarem juntos para que não sofram as consequencias políticas das mobilizações sociais que avançam no compasso arrasador do desempregoChavez, empenhado no socialismo bolivariano, sofre chantagens dos capitalistas venezuelanos, que escondem os produtos alimentícios, especulando inflacionáriamente, destruindo a confiança do povo no governo, que perde dinheiro com as receitas do petróleo, enquanto não atacou a infra-estrutura para valer, a fim de elevar a produção e o consumo, a fim de evitar pressão altista

 

 

 

 

 

No Paraguai, o presidente Fernando Lugo, sem condições de atender as demandas populares emergentes, salvo se abrir  o governo mais escancaradamente a elas, contrariando os velhos coronéis, que mandam nas forças armadas, pode enfrentar greve geral. Lugo somente teria sossego se conseguisse uma acomodação com o presidente Lula para fixar uma parcela maior de dinheiro para o Paraguai decorrente do faturamento de Itaipu. Do contrário, se explodir movimento popular no Paraguai, respingaria fogo para todos os lados sulamericanos. 

No Brasil, o presidente Lula , na conjuntura instável, que derruba sua popularidade, conforme aferiram pesquisas Datafolha e CNI-IBOPE, e a arrecadação em  R$ 40 bilhões para este ano, em meio a tantos desafios,  como a expansão do desemprego para a casa dos 800 mil demitidos, colocando a luta de classes em primeiro plano,  está diante de outro grande pepino que envolve mais luta de classes. Terá que arbitrar o ganho financeiro dos grupos sociais no momento em que a taxa de juro cai. Nesse ambiente, o ganho do rentista especulador também cai, mas o do pequeno poupador da caderneta de poupança, que engorda a Caixa Ecômica Federal, sobe. A selic, taxa básica, de 11,25%, descontada a inflação perto de 6%, ficaria entre 5% e 5,5%. Ou seja, eutanásia do rentista nos títulos do governo. Estes perderiam para a poupança que paga 6% mais TR, tendo 60% de garantia total. Para afastar da tentação da poupança o grande investidor, o presidente prejudicaria o pequeno poupador, acirrando a luta de classes?

Qual seria o meio termo, capaz de permitir o governo continuar jogando seus títulos na praça para garantir o financiamento da dívida pública e os investimentos anticíclicos indispensáveis para amenizar a caida da produção e do consumo? Certamente, fixar novos limites, no contexto socialmente explosivo, pois, caso contrário, mais um capítulo do acirramento da luta de classe começaria a ser escrito na prática, no ambiente de deterioração econômica, já acelerada.

 

Remédio contra revolução

 

O Grupo dos 20 países mais influentes do mundo ultrapassa o poder do G-8, na grande crise mundial, para dar novo curso ao capitalismo em crise financeira totalO acirramento do antagonismo social se acelera com a intensificação do desemprego. A contradição – o confronto das relações sociais da produção, estreita, com o desenvolvimento das forças produtivas, largo – busca a superação dialética, política. Nesse ambiente, a  inflação, no sistema capitalista,  deixa de ser problema e se transforma em solução. Ela evita , pelo menos temporariamente, a luta de classes que as situações deflacionárias desenham explosivamente, sinalizando inevitável mudança brusca de regime político, no ritmo do empobrecimento coletivo. A inflação deixa de ser instrumento econômico e passa a ser arma política do capitalismo contra a emergência socialista,  destaca Lauro Campos,  em “Inflação, instrumento de controle social”, tese de mestrado de 1957, orientada pelo economista italiano Cláudio Napoleoni. Há 52 anos, o senador brasiliense e professor de 11 matérias de economia na Universidade de Brasilia, autor do clássico “A crise da Ideologia Keynesiana”(1982), já cantava a bola. Com tanta antecedência, em meio a um mundo enebriado pelo capital, só poderia ser considerado louco. “Minha loucura é minha lucidez”(Glauber Rocha). Ele previu a derrocada keynesiana americana e, agora, a solução, contraditoriamente, volta a ser Keynes, configurando a negação da negação do sistema.

O capitalismo lança mão da inflação para evitar que o comunismo suba ao poder no rastro da deflação. Ao investir, o Estado evita o confronto social a que é levado o sistema em epidemia deflacionária, que leva o salário a zero ou negativo, na sua expressão matemática do termo, como destaca Marx.  Como o que se encontra em excesso na deflação presente é justamente o excesso de oferta de moeda em circulação global que deflaciona seu p reço, contra essa deflação monetária o governo joga a inflação monetária. Retira a moeda podre e tenta colocar uma sã. Até quando os compradores de títulos do governo americano, os governos do mundo capitalista, suportariam emissões em massa de dólares, jogando o valor dos títulos para baixo.  A dívida pública, que esconde a inflação, poderia não suportar e a inflação se soltar exponencialmente.

Todos os governos capitalistas desenvolvidos e emergentes, nesse momento, estão numa mesma onda, seguem voz keynesiana unida, que deverá soar forte na reunião do G-20, o novo poder internacional. . Mudança drástica de principio. Se até ontem, antes de outubro de 2008, o princípio único era o Estado fora da economia. Em 2009, com o aprofundamento da crise, o princípio único passa a ser o Estado todo na economia.

Qual seria o meio termo, se, historicamente, chegaram ao estresse os dois extremos ideológicos: de um lado, o capitalismo especulativo, que quebra na grande crise de 2009, e o socialismo stalinista que já quebrara com a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989?

 

Novo papel do Estado burguês

 

Os governos se lançam à inflação, elevando os gastos, que ampliam a dí vida púb lica, contrapolo do processo inflacionário, a fim de evitar superação do capitalismo e emergencia socialista na bancarrota financeira globalO Estado burguês, que, segundo os teoricos marxistas, estaria a serviço dos ricos em prejuízo dos pobres, no processo de sobreacumulação do capital protegido por leis votadas em parlamentos cuja consciência é comprada por caixa dois eleitoral, está diante do seu maior desafio. Se não proteger os interesses dos mais pobres, pode sumir do mapa, se ocorrer uma nova versão mais ampliada de um maio de 1968 em escala global, sintonizada pela tecnologia da informação.

A greve política geral, na França, é o primeiro sinal perigoso para o sistema capitalista em total desarticulação. O presidente Sarkosy foi às ruas conversar com os líderes. Estes, em face da bancorrota, perdem suas lideranças. Surgem novos discursos, pautados pela pressão dada pelo desemprego galopante.  As lideranças políticas e sindicais que estão engordando nos recursos do orçamento da máquina política lulista que se cuidem.

A inflação se transforma em solução. O jogo é de disfarce. Com uma mão, o governo joga papel moeda na circulação; com a outra, joga papel do governo, para enxugar parte da circulação monetária, a fim de evitar enchente inflacionária. A dívida cresce, dialeticamente, no lugar da inflação. Diante da destruição deflacionária, que desaparece tanto com o trabalho como com o capital, a solução inflacionária que acumula capital e aleija os salários, mantendo relação de dominação em processo de contestação sob a crise, torna-se a benção dos céus.

 

Pré-história do comunismo?

 

O Grupo dos 20, o novo poder, poderá, sob orientação das novas ideias do FMI, lançar novo padrão monetário global, como anuncia o economista brasileiro no Fundo Monetário InternacionalKeynes disse que na crise a moeda estatal inconversível – papel que vira papel moeda – é a única variável verdadeiramente independente sob o capitalismo, gerando o que chamou de “eficiência marginal do capital”, que desperta o espírito animal investidor do ser humano empreededor. Ao jogar dinheiro na circulação o governo, segundo o grande economista inglês, cria as quatro condições necessárias à produção da “eficência marginal do capital”, ou seja, o lucro: 1 – aumenta os preços, 2 – reduz os salários, 3 – baixa a taxa de juro e 4 – perdoa a dívida do empresário contraída a prazo. Vale dizer, o espírito animal somente desperta quando o investidor não precisa meter a mão no bolso. A inflação, ou seja, a acumulação, vira alternativa à deflação, a destruição. Escolha de Sofia.

Tal esquema bancado pelo Estado, gerando renda fictícia na moeda, gerou a bancarrota financeira atual, como modelo de reprodução ampliada do capital. Qual seria o novo modelo se o que está em crise perdeu credibilidade, para continuar beneficiando categoria social especulativa destruída pela ganância?

O governo, doador e o entesourador universal, molhou e enxugou o mercado depois que ele entrou em crise em 1929 sob padrão ouro predominante no século 19. Agora, a grande crise monetária internacional de 2009, 80 anos depois, demonstra o esgotamento do sistema monetário substituto do padrão ouro, o do padrão papel moeda sem lastro, produzindo constestações políticas globais,  porque perdeu a confiança geral.  O que virá por aí? O G-20 dará resposta. Ou não. O fato é que o estado burguês, diante da falência da burguesia financeira, precisa buscar  nova representação, quando seus gestores estão falidos. O economista Paulo Nogueira Batista Junior, representante da América Latina no FMI,  do centro do furacão, informa que vem aí novo modelo monetário a ser apresentado em Londres, pelo G-20. Nova aurora do capitalismo ou pré-histórica do comunismo?

Comuna de Paris para Brasília

A falência moral dos parlamentos burgueses levou o povo à revolta para criar assembleias populares, a fim de intensificar democracia direta no lugar de democracia representativa das elites

O que seria , realmente, a Comuna de Paris, se tivesse emplacado em 1871, na França, no rastro da grande desmoralização do parlamento dominado amplamente pela corrupção? Em torno dela dividiram-se, encarniçadamente, as esquerdas passadas, presentes e, provavelmente, as futuras, também. A bombástica entrevista dos deputados Roberto Magalhães(DEM-PE) e Humberto Souto(PPS-MG), ao repórter Tarcísio Holanda, à TV Câmara, na quarta, 18, é como se o país estivesse às vésperas de uma nova Comuna, a Comuna de Paris em Brasília, em ebulição contra a corrupção amplamente dominante no Congresso representado pelo poder do caixa dois.

Os dois experientes parlamentares da velha guarda conservadora escancararam que o Congresso está praticamente dominado pela corrupção , que os corruptos acuam o que ainda resta de moralidade, para dominarem, amplamente, o comando do poder legislativo, na base do corporativismo. O poder neorepublicano neoliberal, eternamente provisório, herdeiro da ditadura militar, encontra-se totalmente bichado.

Os alarmes representam o teor dos debates em Paris às vésperas da Comuna, entre 1870-1871, que derrubou a burguesia monárquico-parlamentarista. Os desabafos dos parlamentares conservadores pernambucano e mineiro são prova concreta da falência do parlamento representativo burguês, financeiramente, decadente, dominado pelo dinheiro. Nada de interesse público. Como é essa velha guarda que deu guarida à legislação que hoje abastarda o processo político eleitoral, viciado pela corrupção, colhe seu próprio veneno.

Cópia dos parlamentos burgueses que derivaram da revolução burguesa de 1789, sofrendo acréscimos para adequar modernismos constitucionais à força bruta da dominação colonial na periferia capitalista, nos séculos 19 e 20, o legislativo nacional meramente representativo, na grande crise mundial, vai deixando à mostra suas vulnerabilidades, vai perdendo  seu caráter aparentemente útil. Não governa, embora tenha perfil parlamentarista;  não fiscaliza; não executa; não legisla. Só tagarela. Palavrório interminável. Burocracia caríssima. Sob a Comuna de Paris, esse custo desaparecia, conforme resoluções dos comunardos, em 1871.

Fala, Marx: “A Comuna realizou o governo barato, essa esparrela em que caem todas as revoluções burguesas, suprimindo o exército permanente e os funcionários do Estado. Ela devia ser , não uma corporação parlamentar, mas sim uma corporação laboriosa, ao mesmo tempo legislativa e executiva”(Lenin, “O Estado e a Revolução”, Hucitec). Ou seja, trabalhndo como legislador e executor, o representante do povo não se esconderia atrás das secretarias e ministérios, onde cresce o aparato caríssimo do Estado, para construir a superestrutura de classe por meio da qual o mais forte domina o mais fraco.

 

Laboratório de larápios

 

O velho conservador mineiro está escandalizado com os frutos que o Congresso colhe por produzir legislação que aqueles mesmos velhos elaboraram para elimina-los do cenário político , colocando em seu lugar a representação real, sem subterfugios, a cara da corrupção, limpa, lavada, cínicaHerdeiro das velhas oligarquias do açucar do nordeste, o político pernambucano, ex governador e exprefeito de Recife, nãosuporta mais a convivência com os corruptos que subiram na vida ancorado na legislação que as oligarquias ergueramO veterano repórter tem esquentado o debate político na TV Câmara, tocando o dedo na ferida das misérias institucionais nacionais ameaçadas pela grande crise global que ameaça arrastar os conservadores e suas ideologias falidas

 

 

 

 

 

O Congresso brasileiro, atualmente,  sob o comando do PMDB, no Senado e na Câmara, criou um laboratório de larápios que desenvolve reativamente o ânimus social comunitário contra os abusos, apelando ao poder constitucional representativo que assegura direitos e garantias individuais no processo civilizatório nacional em escala ascendente. Será suficiente?

Os dois conservadores políticos mineiro-pernambucano da oposição estariam falando o que falaram se no poder estivesse não Lula, mas FHC , ao qual serviram, ou se o senador José Sarney ouvisse o canto de sereia deles e abandonasse o presidente, para enfraquece-lo no Congresso? 

As considerações e motivações políticas dos conservadores são alarmantes, mas a culpa deles em ajudar a criar no país status quo institucional viciado eleitoralmente para manter elites eternamente no comando do poder nacional é total. A construção da superestrutura jurídica-política-ideológica do Estado nacional é a colocação em prática de um veneno que agora ameaça de morte seus criadores conservadores.

Se, como dizem, o Congresso está dominado pela corrupção, graças a uma legislação eleitoral regada a dinheiro, que sustenta, por sua vez, uma burocracia necessária, para compactuar com essa corrupção, a fim de continuar o baile da ilha fiscal, o seu oposto , em nome do espírito público, seria a  moralidade completa como forma de exumar a imoralidade completa que ajudaram a criar.

 O barco congressual está à deriva porque perdeu utilidade ao não exercitar sua própria soberania como poder republicano montesqueano. “Tudo que é útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”(Keynes). Eis o suprassumo da ideologia utilitarista capitalista ao gosto do cinismo sofisticado inglês que ataca de morte o Congresso brasileiro nesse momento.

 

Ensaio de democracia direta

 

O cansaço popular explodiu em revolta organizada dos trabalhadores comunardos contra o poder do estado burgues assentado no roubo e no seu carater de classe destinado a oprimiar as categorias sociais mais fra cas em favor das mais fortes

Os órgãos do poder congressual meramente representativo estão entrando em falência múltipla em escala introlável para as elites conservadoras que tentam agir formando comissões para discussões cujos resultados serão palavrórios inúteis etc. O senador Sarney, como o velho político pernambucano, Agamenon Magalhães, conterrâneo de Roberto Magalhães, são mestres nessa jogada. Resistirão aos impactos violentos da bancarrota financeira americana e européia que já produziu, no Brasil, mais de 500 mil empregos nos últimos seis meses? Ou se candidatam à transformação  antes que sejam ultrapassados por voragem que a realidade em movimento determinará?

Marx destaca que o Estado burguês, sob a Comuna, tem sua espinha dorsal quebrada, para que no seu lugar instale o novo poder, o Estado popular,  sob ditadura do proletariado, em seus primórdios, na pre-história do comunismo,  conduzida pela superestrutura burguesa, pois, afinal, a história não dá saltos espetac ulares.  A instauração da Assembleia, no lugar do Parlamento, une executivo e legislativo, teoria e prática. Ou seja, seria materializada democracia direta, sob batuta da superestrutura burguesa, sem burguesia no poder, por muito tempo ainda, dizia Marx.

A Comuna de Paris , legislativa e executiva, na prática,  com instauração do salário operário, equalizando ganhos, acabando com a mamata geral e dos gastos excessivos em burocracia e segurança, é o ensaio geral da democracia direta. Seria expressão da nova versão da ditadura do proletariado, que dispensa aparato burocrático e de segurança, barateando o Estado e potencializando suas ações práticas a serviço da comunidade sob comando comunitário. Se se elimina o Estado burguês que precisa desses aparatos para evitar emergência do Estado popular, por que o Estado popular, se instalado, gastaria na manutenção de um aparato que perderia sua utilidade?

Faliria, consequentemente, a ideologia utilitarista,  suprassumo ideológico do capitalismo. “Tudo que é útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”(Keynes). O sistema financeiro na Europa e nos Estados Unidos encaixariam perfeitamente, nesse momento, no conceito de utilidade que o genial cinismo inglês criou.

O fato relevante no momento é que os atores do estado burgues burocraticamente custoso ao bolso do povo estão falido. A burguesia financeira internacional está em bancarrota. Ela é o agente do Estado  burguês, criado em requintes de burocracia, caríssmo, corruptíssimo, desde os tempos de Talleyrand, genial diplomata da burguesia sob Napoleão.

Se ela entrou em falência, se se encontra prostrada na porta da Casa Branca e do Palácio do Planalto, pedindo socorro diante da marcha batida do dólar sob recessão rumo à renúncia de sua própria utilidade, como regente monetário universal das relações de troca, deixaria de ser útil para o povo a própria superestrutura burguesa cuja representação congressual é mantida pelo caixa dois.

 

Colapso da moeda burguesa

 

Em A crise Completa, economia política do não, Lauro Campos demonstra o carater dual da realidade de todas as crises, demonstrando dialeticamente a interatividade entre elas e a sua superação por intermedio da negatividade que supera o infantilismo mecanicista burguesa  m oeda burguesa é teorizada por Keynes que não acredita na capcidade de o padrão ouro dar conta da crise de 1929, sendo necessario ser superado pela moeda burguesa ficticia sem lastroO capital desmascara a essencia do estado burgues que tenta universalizar seus conceitos por meio do direito positivo para justificar a propriedade sem que entre com tal direito na investigação da formação da própria propriedade que estimula a superesttutura juridica do estado a formatar uma estrutura de classe dominante nas letras da cnstituiçãoFundamentalmente, a moeda do estado burguês pós-1929, o papel moeda,  está deixando de ser útil. Sob as ordenações burguesas napoleônicas, que ancoraram o padrão-ouro, no século 19, ainda , havia o lastro real monetário. Foi possível coordenar a confiança global. O ouro era a garantia, a confiança.

Depois de 1929, o mundo acreditou na moeda sem lastro. Ao contrário do que acontecia, no século 19, com a moeda monárquica, ancorada no padrão-ouro, a moeda burguesa, que se livra do rei, impondo-lhe impostos para custear guerras,  se ancorou não no ouro, mas no papel moeda. Detonava a nova moeda a antiga, a “relíquia bárbara”(Keynes). A confiança no ouro foi substituida pela confiança no papel.

A crise de 2009, 80 anos depois do primeiro ensaio do crash global de 29, significa que a confiança no papel evaporou-se com a emergência fenomenal dos créditos podres, o lixo monetário tóxico, produzido pela irresponsabilidade do Estado burguês desregulamentador. A burguesia financeira atirou no próprio pé.

Acabou o lastro imaginário que sustentava abstratamente o poder monetário do dólar. Ao multiplicar-se, sem regulamentação, por intermédio da imaginação bancária, na sua laboriosa tarefa mental de criar produtos financeiros abstratos, a moeda burguesa, que reinou no século 20, entrou em decadência total no início do século 21.

Lauro Campos, em “Neoliberalismo, crise miséria(Senado, 2001), canta essa pedra em prosa e verso. Na Era FHC, em que o sonho neoliberal reinou, em que o marxista Cardoso disse que rasgaria o que havia escrito, que garantiu que mentia ao país, Lauro foi luz intensa que não mereceu a atenção da grande mídia, porque era professor de crise, matéria que inexiste nas universidades.

Pedagogizar a crise, como ele faz em “A crise completa – a economia política do não”(Boitempo, 2002), ver o seu lado negativo, sempre jogado para debaixo do tapete, sem que se perceba que a realidade é a negatividade, representa outra coisa. Seria honestamente preparar seus alunos para pensar livremente, criticamente, criativamente,  dialeticamente, e não mecanicamente, como expressam os consultores dos grandes bancos para explicar a implosão do crédito sem considerar que está em jogo o conflito de classe na base da nova distribuição da renda dada pela crise. Os parlamentos que se cuidem.