Colapso do Estado burguês

                                                                           
O avanço da estatização financeira nos Estados Unidos, na Europa, no Brasil e por toda a parte , para evitar a bancarrota total da burguesia financeira, exprime a falência do Estado burguês, tal como construído pela história moderna, ou seja, como instrumento de dominação de classe, a mais rica explorando a mais pobre mediante fraseologia político-ideológica parlamentarista, presidencialista, monárquico representativa etc, conforme teorizaram Marx e Engels no Manifesto Comunista, em 1847.
A superestrutura jurídico-econômico-ideológica que compõe o perfil do Estado burguês, como aparato para servir de instrumento do poder da burguesia, no comando estatal, entrou em ebulição porque os parâmetros burgueses que a norteavam entraram em choque com a falência financeira burguesa.
Se a financeirização econômica global era a expressão total e absoluta do poder econômico e politico da burguesia financeira, com a implosão da financeirização comandada pelo Estado burguês, implode, igualmente, o Estado burguês.
Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, ao partir para a estatização disfarçada, detona a burguesia financeira americana. O Banco Central dos Estados Unidos, criado em 1913, ganha nova conceituação. Antes, os bancos privados cuidavam do Banco Central como emissor de moeda, ficando o tesouro responsável pela emissão de títulos do governo. Com a falência da burguesia financeira americana, inverte-se os papéis e concentra-se a atividade estatal.
O governo não apenas emite papéis a serem comprados pelos bancos privados, que comandam o BC, emissor monetário; passa, também, a emitir moeda sob controle do tesouro e não da banca privada que comanda historicamente o BC .  O conceito de Banco Central independente vai ficando para trás porque o BC deixa de ser expressão da banca privada, para ser do tesouro, que, essencialmente, espelho de interesse público. Sob domínio da banca privada, o BC independente era a melhor coisa do mundo, ao desregulamentar geral. Foi tão bom que explodiu tudo.

A previsão do artista

Configura-se a previsão de Jack London em “Tacão de ferro”, de que o capitalismo caminharia para o oligopolio privado total, ameaçador dos destinos da comunicadade, produzindo, no entanto, o seu contrário, o oligopólio financeiro estatal que engoliria aquele em nome do interesse público.
O presidente Lula, no Brasil, está nessa, jogando com as finanças públicas, tendo como lastro a riqueza nacional, que já atrai montadoras japonesas, para transformar o Brasil em plataforma de exportação. Se aqui está a matéria prima, se aqui tem o petróleo, verde e negro, se tem indústria de base, mercado consumidor, terra abundante que dá três safras anuais, biodiversidade infinita, por que não instalar aqui, em vez de importar para fabricar no Japão? Ganharia o frete e o custo geral de produzir mais competitivamente.
Se os japoneses estão vendo a vantagem comparativa dada pelas riquezas nacionais que são lastros reais, por que não emitir títulos para vender na praça global como base para financiar o desenvolvimento nacional,  tendo como lastro as riquezas que atraem os japoneses e continuarão atraindo outros capitalistas, visto que na Europa e nos Estados Unidos as expectativas para a produção competitiva, em meio à falência bancária deflacionária, são sombrias?
Nesse novo contexto, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, já se adianta na pregação de uma refundação do capitalismo. Refundar significa reconstruir. Reconstruir o que foi destruído. Os líderes internacionais já falam abertamente que o capitalismo faliu na Europa e nos Estados Unidos, sob o império da burguesia. O Estado burguês, com sua solução neoliberal, some do mapa. O que sobra é o Estado em si, construído pela burguesia, mas tomando providências para desencarnar-se dela. Por que continuaria com propósitos burgueses, se faliu a burguesia financeira que se sustentava dele, Estado burguês? O serviçal da burguesia pode se transformar em carrasco da burguesia.

Funeral de Bretton Woods

A próxima reunião do Grupo dos 20, em abril, em Londres, deverá ser o funeral do Acordo de Bretton Woods. Assinado em 1944, para vigorar no pós-guerra, sob dominio do dólar, no comando de nova divisão internacional do trabalho, Bretton Woods deixa de vigorar porque o capitalismo sob o dólar reclama urgente refundação dada falência explícita. Não interessaria mais aos Estados Unidos continuar bancando via dívida uma superestrutra econômica que faliu. O dólar desapareceria. Impõe-se o multilateralismo econômico global cujo desfecho poderá ser novas moedas expressando nova correlação de forças econômicas e políticas globais.
O Estado, nesse novo ambiente, não seria tradução de luta de classe em que a burguesia oprime a classe assalariada alienada mediante parlamentarismo. Se a burguesia deixa de ser expressão financeira, porque financeiramente faliu, falida tenderia a ser também sua representação política em rítmo de bancarrota financeira.
O sistema financeiro, que dava as cartas ao Estado burguês, comprando os partidos no parlamento via caixa dois, ao entrar em bancarrota, subordinando-se, com alívio, à estatização financeira inevitável, perde poder relativo, na medida em que o oposto contraditório da situação de prvilégio aos bancos emerge dialeticamente em forma de força política social.
Sarkozy expressa a velha sabedoria dos socialistas franceses aderentes à burguesia e à classe trabalhadora ao mesmo tempo, em tentativa permanente de equilíbrio. Como tal equilibrio se rompeu, negativamente, para o capital financeiro, que se esvai em sangue, insolvente, clamando socorro estatal, o Estado burguês, em processo de total desequilíbrio, deixa, contraditoriamente, de ser serviçal exclusivo da burguesia.
A representação parlamentar do Estado burguês, com a base de sua sustentação financeira falida, ou seja, os grandes bancos insolventes que compravam os títulos públicos do governo, passa a ser impelida a uma nova postura, que poderia ser movimento favorável ao avanço da democracia participativa, dentro do espírito da Comuna de Paris, em que nas assembleias, os eleitos pelo voto popular legislam e executam, ao mesmo tempo.

Neo escravidão jurista

A reforma político eleitoral que o presidente Lula mandou ao Congresso para tentar remover os velhos hábitos dos crimes políticos eleitorais, abrindo-se a uma nova moralidade, pode ser bastante insuficiente para o caldo grosso das reivindicações políticas que a crise financeira global desata em forma de transformações políticas globais.
O acanhamento político lulista é a demonstração de que o presidente encontra-se ainda prisioneiro das determinações do Estado burguês dominando pela financeirização econômica ainda vigente no Brasil por meio da maior taxa de juro real do mundo.
O presidente Lula ainda não aprendeu a conhecer a sua própria força, como fez valer, na terça-feira, 24, o presidente Barack Obama, ao falar ao povo americano que chegou ao fim uma era em que o Estado(burguês) era colocado a serviços de grupos de privilegiados de especuladores e falsificadores das verbas públicas em compras sem licitações no fomento das guerras.
No Brasil, o poder burguês, expresso no juro alto, de um lado, e no salário mínimo miserável de R$ 450 rreais, de outro, continua em meio a um Congresso tagarela que não resolve nada, porque sem nada resolver preserva o Estado burguês da periferia, enquanto o poder burguês, nos países capitalistas centricos, estão indo para o espaço.
Será repetida mais uma vez a história da escravidão, em que o Brasil foi o último a decretar a libertação dos escravos. O novo Estado, que sai da crise, joga os trastes burgueses no mar, porque os burgueses , com sua ideologia utilitarista, faliram. Neo-escravidão jurista.
 
Reforma ou revolução?
 
Entra em cena a velha discussão ideológica. Por um lado, os marxistas consideram o Estado resultado da luta de classes, em que a mais rica cria o aparato estatal, com exército, burocracia e parlamento burguês como expressão do poder da burguesia, seja sob parlamentarismo, presidencialismo ou monarquia parlamentar. Por outro, para os revisionistas, o Estado(burguês) seria expressão do equilíbrio entre as classes, distribuindo ônus e bônus conforme determina a lei votada nos parlamentos organizados pela ideologia burguesa, no berço da revolução francesa.  Quem tem razão à luz da história?
Os antagonismo de classes não são negados nem por marxistas nem por social-democratas , mas sua superação  mereceria tratamentos distintos por uma parte e outra. Se a classe burguesa financeira tivesse se saído bem da grande crise atual, continuarria dando as cartas ao Estado. Como não se deu, por que seriam mantidas as soluções financeiras burguesas, se elas levaram o capitalismo financeiro ao colapso?
Obediente ao princípio da utilidade, segundo o qual “tudo que é útil é verdadeiro, se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”(Keynes), a burguesia financeira, no novo contexto do seu próprio desastre, deixa de ser útil, tornando-se descartável, inútil. Cairia de um só golpe, pela violência, ou seria sua queda amortecida pelo sistema parlamentarista, no qual as classes trabalhadoras ganhariam mais participação no poder nacional?
Marx e Engels teorizaram o Estado Operário em cima dos ensinamentos da Comuna de Paris, em 1871. Como cientistas sociais, separaram os elementos e analisaram-nos a partir das decisões dos comunardos, vitoriosos, pela violência, ante o estado burguês napoleônico. Instalaram uma assembléia “não parlamentar, mas trabalhadora”, ao mesmo tempo legislativa e executiva. Quebram a estrutura do estado montado para explorar os trabalhadores, simplesmente, porque os trabalhadores, via Comuna, não precisam de um aparato para explorarem a si próprios. O Estado ficou barato.

Lenisnismo ou kautskismo?

A pedagogia dos comunardos foi classificada por Marx e Engels que concluiram o óbvio: se o Estado é a expressão da exploração de uma classe rica sobre a classe explorada e se a classe explorada chega ao poder, o Estado torna-se desnecessário, porque desnecessária se torna a exploração do povo pelo Estado burguês que se transforma em Estado operário. A ditadura do proletariado nasce dessa pesquisa empírica executada por Marx e Engels, no compasso das resoluções políticas dos comunardos.
O Estado operário derruba o Estado burguês, via assembléia parlamentar e executiva, e, imediatamente, começa a definhar-se, porque se não há necessidade de aparato estatal para explorar os operários, tal aparato perde, com o tempo, utilidade, em meio ao nascimento da nova sociedade, saída dos flancos da velha sociedade. Os revisionistas, segundo Lenin, em O Estado e a Revolução,  jamais toparam ir fundo na análise marxista da relação Revolução-Estado. Jogaram sempre o assunto para frente, empurrando-o com a barriga.
Qual parlamento do mundo será contra o avanço estatal em nome do interesse público como forma de proteção das riquezas sociais ameçadas pela falência da burguesia financeira que até agora controlou o poder estatal sintonizado com os interesses burgueses?
A burguesia, nesse contexto, vai ser derrubada pelo proletariado, violentamente, como prognosticou Lênin, seguindo os passos de Marx, que vivera e teorizara o Estado proletário sob a Comuna de Paris,  em 1871, quando cunhou o termo ditadura do proletariado , apropriado pelos bolcheviques em 1917, sob os sovietes, como repetição dos comunards? 
Ou os parlamentos burgueses, diante da falência da burguesia, acelerariam reformas que superariam o caráter meramente representativo do poder parlamentar burguês, para ganhar perfil mais popular, como preconizou K. Kaustski, confrontando Lênin?
Sarkozy, pregando refundação do capitalismo, seria um neo-kaustyskista, para evitar emergência neo-leninista? Ou em meio à crise capitalista faltam os líderes necessários para pregar a palavra de ordem revolucionária?

Nacionalização da Embraer e criação da Aerobrás

Não faz muito tempo, em uma de suas viagens pela América do Sul, o presidente Lula mencionou a possibilidade de que o Estado brasileiro viesse a criar uma empresa  aérea regional, caso os empresários não se dispusessem a tal empreitada. Segundo explicou, esta empresa aérea regional seria necessária para dar acompanhamento, suporte, servir de continuidade lógica do processo de integração econômica  em curso na América Latina, aliás, conforme inscrito no preâmbulo da Constituição Cidadã, como ocorre também nas demais cartas constitucionais dos países da Unasul.

 Pois agora o colapso financeiro do capitalismo central reclama  gestos ainda mais arrojados: a demissão de 20 por cento dos trabalhadores da Embraer vem mostrar a quem ainda não havia percebido o lado mais trágico da privatização. Pode-se imaginar quanta dor há em tantos lares de bairros operários hoje? Quantas crises familiares terão sido esgarçadas? Quantos trabalhadores não estarão agora com problemas de saúde agravados? Quantos não se desesperarão para o álcool ou a depressão?   Quanto isto agrava as tensões sociais, a violência juvenil, as estatísticas de homicídio e  a selvageria na sociedade em geral?

 A privatização da Embraer, feita com recursos do BNDES, recursos dos próprios trabalhadores, entregou uma empresa criada com recursos nacionais, com poupança nacional, para um projeto sem sentido, vulnerável à oscilação das tão elogiadas economias do Primeiro Mundo, agora se revelando com o Pior dos Mundos. O mercado externo se retrai e a Embraer lança mão da guilhotina, como se pudesse não dar satisfações, como se não tivesse compromissos a cumprir com os interesses nacionais e , dentre estes, o mais precioso é o povo trabalhador, que não pode ser sacrificado em razão de uma privatização que se revela criminosa do ponto de vista sócio-econômico.

 Qual a saída?  Os acionistas originários    o povo brasileiro   – merecem respeito. Todo o esforço de décadas para a construção de uma indústria aeronáutica no país de Santos Dumont não pode simplesmente resultar numa verdadeira delinqüência social, em razão do colapso financeiro nos EUA que está longe de ter solução. Afinal, a delinqüência financeira permitida, tolerada, este cassino monetário, ainda tem 600 trilhões de capitais especulativos circulando artificialmente pelo mundo. O pacote do Obama é de apenas 1 trilhão.  Ou seja, a quebradeira está longe de acabar.

 

 A história ensina

 

Entretanto, se  abrirmos os olhos para as lições que História oferece é possível sim perceber que há saídas, desde que haja arrojo para rupturas com estes laços de subordinação e esmagamento às economias em degringolada geral. Márcio Pochmann, em artigo no Valor Econômico, argumenta sobre a necessidade de um novo estado. Sim, foi assim que lá atrás, na década de 30, aquela crise serviu de alavanca para uma nova formatação de estado. Nacionalização do sub-solo, criação do Instituto do Açúcar e do Álcool para abrir a etapa da energia da biomassa que avança pelo mundo, mais tarde a Vale do Rio Doce, também construída com os recursos dos acionistas originários (Povo Brasileiro), depois a Siderúrgica Nacional, a Petrobrás,  a necessária criação de direitos trabalhistas tirando o povo pobre da senzala do emprego-zero,  o ensino público e gratuito e obrigatório. Era toda uma nova plataforma de país. O país arrancou. Sua arrancada foi interrompida em 1945 pela enganosa idéia da alternância do poder, na qual Dutra, eleito por Vargas com uma frase pronunciada entre um chimarrão e uma charutada, traiu clamorosamente tudo o que vinha sendo construído, entregando o país novamente à vassalagem colonial. Vargas volta pelo voto em 1950, voto que pedia a continuidade da plataforma nacionalista iniciada pela Revolução de 1930, quando o povo se levantou de armas nas mãos. Não dos porões escuros da repressão do Estado Novo, mas daquela etapa que dentro do processo contraditório vivido pelo país, via nascer também  a Rádio Nacional e a Rádio Mauá, a Emissora do Trabalhador, o Instituto Nacional do Cinema, o do Livro, o do Teatro. Aquele programa econômico permitiu ao Brasil organizar uma das economias que mais cresceu em décadas sucessivas, ciclo interrompido em 1980. Segundo cálculos do professor Márcio Pochmann, se o programa econômico da Era Vargas tivesse se mantido……… hoje o Brasil seria a terceira maior economia do mundo. As ordens coloniais para destruir a Era Vargas foram muito claras.

 Agora, os 4 mil trabalhadores demitidos da Embraer são um vigoroso chamado à consciência nacional, ao governo Lula, aos sindicatos, aos pensadores, aos militares nacionalistas que se empenharam na levantar aquela indústria aeronáutica, não para vê-la retroceder em favor das concorrentes internacionais de países que lançam mão de modo descarado da impressão      já não é emissão    impressão de papel pintado, moeda falsa, sem lastro, que os países que têm lastro em riqueza física são obrigados a engolir. Este desemprego em massa é um basta!

 A re-nacionalização da Embraer, com a  apuração de responsabilidades sobre o porquê, como e quem fez este crime de lesa-pátria da privataria é medida que torna-se obrigatória e só um presidente como Lula, com 84 por cento de apoio popular , como antes teve Vargas, possui a possibilidade histórica e política de adotar, convocando os brasileiros para sustentar perante o mundo tal gesto de soberania. Os bolivianos não apoiaram a Evo Morales na recuperação da soberania nacional sobre as riquezas minerais? Hoje a Bolívia sai das trevas neoliberais, começa a comer e já foi declarada pela Unesco “Território Livre do Analfabetismo”.

 

 Integração

 

Junto com esta medida é indispensável que o presidente concretize a idéia que anunciou em encontro com presidentes da Unasul: uma empresa nacional de aviação, aliás, revendo a injustificável e insustentável falência da Varig. Como se pode entender que na era das comunicações, da globalização econômica, um país do porte do Brasil não tenha sua própria empresa aérea??? A Argentina acaba de recuperar a Aerolíneas Argentinas, esquartejada no entreguismo carnal de Menen. E a Venezuela também recém  recriou a Empresa Aérea Nacional, a antiga Viasa, falida na tragédia neoliberal agora é a Aeroven.

                                        

Se não há mercado externo      e pelo tamanho e profundidade da crise nos países centrais do capitalismo, tão cedo haverá      é preciso criar mercado interno e mercado regional.  O Brasil precisa ter sua própria empresa aérea nacional para vôos internos e internacionais. Quanto mais avancemos de fato na integração econômica, quanto mais progrida a Unasul, mais possibilidades e demandas haverá para o escoamento da produção de uma nova Embraer nacionalizada e redimensionada para as peculiaridades de um mercado de cidades de grande e médio porte, para vôos regionais, e também para as conexões sul-americanas, latino-americanas e com a África, sem a obrigação de pagar pedágio em aeroportos dos EUA e por uma empresa norte-americana, aliás, sustentada por moeda sem lastro.

 

   Aerobrás

 

Se o BNDES, alavanca fundamental criada na Era Vargas,  tem feito aporte de capitais para uma Embraer que destina sua produção ao exterior, também pode fazê-lo mas para recuperar o controle acionário para o Estado, consolidando a presença da Aeronáutica  neste mecanismo de protagonismo,  de um novo estado que precisa ser desenhado. E pode também financiar encomendas de aviões da Embraer para a Venezuela, a Bolívia, a Argentina, para o Irã, para Angola,  além de criar através da empresa nacional de aviação uma possibilidade de acesso das camadas populares ao transporte aéreo, sobretudo na Amazônia, onde a cada ano centenas e centenas de brasileiros pobres são tragados pelas águas traiçoeiras de uma navegação insegura, precária, muitas vezes delinqüente.

 Aprofundando a linha já adotada pelo governo Lula de fortalecimento do sistema financeiro público, dos mecanismos de financiamento da produção, da construção de obras públicas em grande escala, de elevação dos salários e dos valores de todos os programas sociais e benefícios, haverá  um mercado interno mais robusto, portanto a criação de escala necessária, socialmente justificada, para uma empresa aérea nacional capaz de absorver a produção de uma Embraer novamente controlada pelos acionistas originários, o povo brasileiro. Para isto é indispensável  que sejam criados mecanismos de participação dos trabalhadores na gestão desta nova Embraer, dotando-a de transparência, evitando esta guinada trágica para milhares de famílias de seus operários demitidos. De um dia para o outro a empresa cantada em loas como produtiva, rentável, exemplar, moderna, primeiro mundista mostra toda sua cruel fragilidade, sua selvageria laboral, numa guinada que seguramente poderia ter sido percebida com antecipação, evitada com medidas preventivas, o seria no mínimo obrigatório para empresa com forte sustentação de recursos do BNDES, recursos dos próprios trabalhadores, do FAT,  agora usados para o seu sacrifício.

 A alternativa está na nossa própria história. Um novo tipo de estado, a recuperação das empresas estratégicas, a consolidação de uma nova plataforma que permita ao Brasil distanciar-se cada vez mais da instabilidade monetária delinqüente do chamado primeiro mundo aloprado, das vacas-loucas e dos papéis pintados. Cada vez mais distante da cartilha neoliberal, com protagonismo de estado, com a formatação de um estado de novo tipo é que encontraremos o caminho soberano e autônomo para sair da crise, crescendo quanto mais crescerem os países da América do Sul. O chamado primeiro mundo é exatamente o pior exemplo. A alternativa está no sul, o nosso norte é o sul.

 

Bloco dos sujos no Pacotão da sucessão

 

O carnaval 2009 chegou comandado pelo bloco dos sujos que vão animar a sucessão presidencial 2010. O processo sucessório, animado, ilegal e antecipadamente, pelo presidente Lula, ao lançar a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, enroupada, politicamente, no PAC, poderá se desenvolver em meio a uma onda de cassações de governadores considerados corruptos. A semana foi marcada pela denúncias e decisões espetaculares contra os corruptos.

Primeiro, o senador Jarbas Vasconcelos(PMDB-PE), denunciou, em entrevista bombástica à revista Veja, que o seu partido é corrupto. O Globo destacou que 40 integrantes do PMDB enfrentam processos na justiça. O partido saiu do armário com uma nota sem vergonha, inacreditável, tipo avestruz, enfiando cabeça na areia. Jarbas que aguenta o PMDB desde o seu nascimento depois da ditadura militar demorou para dar o seu veredito, pecando por conivência,  e pode ter se suicidado politicamente ao condenar o Bolsa Família que sustenta a popularidade de quase 90% do presidente Lula e que será a bandeira eleitoral da situação e da oposição nas ruas na disputa pelo voto. Queimou a vice candidatura pretendia pelo governador tucano paulista José Serra. O titular do Bandeirantes marcharia no Nordeste com um crítico do bolsa família?

O segundo fato relevante da semana foi a decisão do Tribunal Superior Eleitoral(TSE) de cassar o governador da Paraíba(PSDB), Cássio Cunha Lima, por ter distrubuído 35 mil cheques durante a campanha eleitoral. Resta recorrer ao Supremo Tribunal Federal. O STF desvistiria sua ética política para derrotar o TSE?

Os partidos mais importantes do país estão envolvidos nas mais grossas denúncias de corrupção. O PT sujou-se, definitivamente, na Era Lula, pelo mensalão. Os mensaleiros estão com data marcada com o Supremo Tribunal Federal em 2009. O PMDB está bichadíssimo pela corrupção. e, agora, o PSDB, o tucanato moralista , com sede do poder em São Paulo, jogando na discriminalização da maconha, para despistar, demonstra que em suas hostes a corrupção, igualmente, grassa. Nova República, filha do Consenso de Washington, abastardada.

A campanha eleitoral será uma farsa em matéria de disputa política sob manto da desconfiança moral. O TSE sinalizou que está disposto a jogar no ataque, no sentido de moralizar os costumes. Tenta o TSE ganhar a corrida com o Ministério Público da União, que se transformou em poder mais temido do que o judiciário, envolvo em super-estrutura que o torna suspeito à sociedade. Joga o TSE uma afirmação pela ética nos costumes. STF dirá sim ou não a essa tendência. Se for levar em conta os ímpetos mudanças que o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, tem imprimido suas ações rumo a uma maior celeridade moral à justiça, os governadores corruptores estarão em sério perigo.

Depois de Cássio Cunha Lima, estão na fila dos juízes, os governadores Jackson Lago(PDT), Maranhão, Luiz Henrique da Silveira – olha o PMD aí, catarinense, confirmando a metralhadora giratória jarbista – , Ivo Cassol(sem partido), de Rondônia, Marcelo Deda(PT) – mensalão gerou filhotes gerais – , Marcelo Miranda(PMDB), José de Anchieta Júnior(PSDB), Roraima, e Waldez Góez(PDT).

Tem partido e acusados de corrupção para todos os gostos. A corrupção generalizou-se de norte a sul e de leste a oeste, contaminando o cenário do poder legislativo nacional comandado, sob governabilidade eternamente provisória,  pelo presidente do Congresso, senador José Sarney(PMDB-AP), considerado retrocesso pelo seu colega de partido, senador Jarbas Vasconcelos.

Sem dúvida, trata-se do bloco do sujo do carnaval 2009, correndo atrás  da marchina do Bloco do Pacotão, “Perereca de bigode”, de autoria do grande carnavalesco Joka Pavaroti:

“Perereca de bigode”

Eureca! Eureca!
Quem comeu sapo
engole perereca! (bis)
Estão maquiando a Dilma
Pra enganar o povão
O Lula gritou: Eureca!
Quem comeu sapo
Engole perereca!

Eu acho que vai dar bode
Dilma não tem barba
Mas pode ter bigode!

 
 
 

 

 

 

 

Eureca! Eureca!
Quem comeu sapo
Engole perereca! (bis)

 

 

Nova onda moralizadora

Nova onda moralizado está no ar a partir da cassação de Cássio Cunha Lima. Um buraco sem fundo para a candidatura do tucano José Serra(PSDB-SP) ou do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, à presidência da República. Desmoralização total do tucanato. Todas as lideranças do PSDB subiram à tribuna para elogiar o executivo estadual defenestrado pela corrupção.

Cunha Lima deu uma de Silvio Santos: “Quem quer dinheiro?”. Velhas práticas da política dos coronéis. Antes, disfarçavam com botinas, agora, com moeda sonante, mesmo, representada em cheque sem fundo. Enganação e roubo. O TSE abre picada cujas consequências serão retumbantes durante a campanha eleitoral já antecipada, configurando uma das mais longas da história política do país. Haveria possibilidade de uma candidatura, no meio do caminho, ser cassada pelo TSE? Como ficaria a acusação do senador Jarbas Vasconcelos de que obras do PAC, comandadas pela ministra Dilma, atendem interesses grossos dentro do PMDB. CPI para o PMDB?

Os coronéis estão sob ataques do TSE, que passa a atuar substituindo o próprio legislativo que ao virar corporação política se inviabilizou à tarefa de investigar os próprios legisladores. O judiciário torna-se carrasco do legislativo, que virou uma corporação oligopolizada, defensora dos interesses políticos corporativos. Cuidam da lei que os livra da cadeia, de modo que a proteção recíproca vira corporativismo intrínseco.

As declarações do deputado Edgar Moreira(DEM-MG), dono do castelo da corrupção e do jogo em Minas Gerais, de que se torna difícil julgar colegas, sendo ele larápio, condenam cada vez mais os representantes do povo que se esconderam sob infra-estrutura legal para exercitarem a corrupção. O DEM tenta expulsar a maçã podre, mas haveria mais maçãs…

A desmoralização dos políticos é completa. Passou -se quase uma semana e nenhuma palavra do titular do Legislativo, presidente do Congresso, senador José Sarney(PMDB-AP), à acusação que lhe foi dirigida pelo colega Jarbas Vasconcelos, desonrando a instituição. Nesse contexto em que as acusações se ancoram em processos judiciais que comprometem parlamentares peemedebistas e em que as campanhas eleitorais se fazem ao arrepio da legislação, rompendo-se pelo caixa 2 afora, a decisão do Tribunal Superior Eleitoral criou fato político relevante.

A implosão de Cássio Cunha Lima, subindo no seu lugar o senador José Maranhão – cujo suplente, Roberto Cavalcanti(PRB-PB), está sendo processado na justiça – , cria tendência jurídica que estará produzindo efeitos retumbantes. Outras bolhas políticas corruptas estariam por explodir.

 

Perigo de morte para os coroneis

Os coronéis da política velha brasileira que cuidaram de evitar as reformas políticas que colocariam as atividades político-partidárias sob a luz da transparência pedagógico-popular, de modo a aumentar a fiscalização dos eleitores – como ocorre na Alemanha, com o voto distrital – , estão correndo perigos cada vez maiores. Podem ser atropelados pela democracia participativa, em avanço na América do Sul, na medida em que confirmam as lideranças rançosas dos coronéis hábitos inaceitáveis na era da informação digital.

O feudalismo político que a revista inglesa Economist caracteeizou a ação política histórica do senador José Sarney, considerando-o, como, também, fez Jarbas Vasconcelos, um retrocesso institucional, vence mais uma parada, mas, o poder de fiscalização sobre as práticas feudais, como desmontra a cassação de Cássio Cunha Lima, comprova o avanço institucional como fator limitante das práticas dos coronéis da velha política brasileira, expresso na representação conserrvadora incorporada no senador José Sarney.

A filha do presidente do Senado, senadora Roseane Sarney empunha as mesmas armas para tentar derrotar o governador do Maranhão, Jackson Lago(PDT) , com as quais o governador José Serra, em 2002, empunhou contra ela, para derrotá-la sob acusação de corrupção, conforme argumentam os partidários do titular do Senado. Seja de uma forma ou de outra, o fato é que  a família Sarney consta das velhas práticas nefastas da política dos coronéis. Por isso, não são inaudíveis os sons que vêm dos bastidores dando conta de que a Polícia Federal estaria no encalço de membro da família do senador por práticas ilegais apanhadas em emio a investigações ilegais. A eleição dele para presidente do Senado teria sido lenitivo. O seu poder de barganha pararia investigações em nome de interesses superiores partidários e supra-partidários?

A caracterização do titular do Senado como retrocesso político pelo senador Jarbas Vasconcelos e como expressão do medievalismo político pela revista inglesa Economist joga um balde de condenações morais sobre o ex-presidente. Trata-se de caldo grosso na sopa geral brasileira que prepara o cozimento fumegante dos governadores considerados eleitoralmente corruptos.

A falecimento político de Cássio Cunha Lima, herdeiro de velhas práticas políticas dos coronéis,  é nascimento de tempos novos, renovadores do ar irrespirável que as elites, manipuladoras dos mandatos comprados pelo dinheiro dos caixas dois da corrupção, utilizaram para eternizar sociedade dominada pelo juro alto e pela sobreacumulação da renda nacional que mantém viva a vergonha neo-escravocrata expressa em salário mínimo inferior a R$ 450.

Lula, bem vindo ao jornalismo!

  
 
                                                ” A minha cama… é uma folha de jornal”
                                                                                              Noel Rosa
 

 

Depois de Fidel Castro com suas indispensáveis “Reflexiones del Comandante”, e do presidente da Venezuela, com suas densas argumentaçõs em “Las líneas de Chávez”,  teremos agora a coluna que Lula vai publicar regularmente em jornais espalhados por todo este país, cujo título, conforme está na Mensagem do Executivo enviada ao Congresso, será “O presidente responde”. Talvez poucos jornalistas tenham lido o documento, o que não é raro em se tratando de jornalistas, há muitos que não lêem estes documentos. Será interessante ter na mesma página que ataca o Lula, suas respostas, suas interpretações, e suas análises para fenômenos políticos e sociais..


 

Trata-se de decisão política relevante, com muitos significados e, sobretudo, abrindo novas janelas para os que lutam para transformar os meios de comunicação, o jornalismo em particular, em instrumentos de civilização e democratização. Primeiramente porque o jornalismo ganha em conteúdo informativo, pois, ninguém duvida, trata-se de um “colega” altamente informado. E ganha também porque raramente alguém com a rica experiência de vida e de história que ele possui, com o olhar crítico popular sobre um jornalismo feito pelas elites e para as elites, tem acesso a escrever.

 


Não carece repetir a volumosa tendência antilulista predominante no jornalismo atual, o que tem levado o presidente a criticar com alguma freqüência a mídia, a baixaria televisiva e também um certo jornalismo por lhe causar azia. Pois, a decisão de se transformar um colunista político de jornal indica, primeiramente, que Lula dá um novo passo concreto para  transformar o panorama comunicativo brasileiro, muito embora até mesmo muitos de seus aliados tenham dificuldades em reconhecer mudanças em curso na área, certamente porque a ditadura midiática rigorosamente hegemônica e onipresente, ofusca, confunde e cega.

 

Recapitulemos. Em 2002, um Seminário Nacional de Cultura e Comunicação, realizado em 5 regiões do Brasil, produziu um documento chamado ” A imaginação a serviço do Brasil”, incorporado como programa na campanha Lula-Presidente daquele ano. Este documento programático foi duramente criticado pela mídia conservadora, Veja à frente, como de inclinação “bolchevique-caipira”.. O documento trazia a proposta da TV Pública a partir da fusão entre Radiobrás e TVE, mais tarde realizada pelo presidente Lula, após convocar o primeiro Fórum Nacional de TVs Públicas ocorrido no Brasil. Trazia ainda a idéia de uma nova relação com as tvs e rádios comunitárias, que só agora, vencendo as dificuldades, começa a se delinear, sobretudo a partir da proposta de descriminalização(rádios-com) e também das várias políticas de audiovisual que podem também alcançar as tvs comunitárias.

 

 

 

 Há muitíssimo o que caminhar, mas o sinalizado não está incorreto. Os muitos Pontos de Cultura criados expandem a produção audiovisual comunitária e regional, colocando, é verdade, um bom problema: o de se encontrar espaços de divulgação. Não sem razão a TV Brasil está fazendo a licitação para instalar repetidoras em 200 cidades de grande e médio porte, o que significa sim disputa de audiência. Tímida? Pode ser, mas a direção é corretíssima, confere o que está na Constituição que pede comunicação plural, regionalizada, educativa e civilizatória. Sim, mas tem que chegar aos grotões. Sei o quanto é difícil pedir paciência em comunicação diante do pavoroso audiovisual embrutecedor, mas o fundamental agora é ajudar a construir esta TV Brasil e até muitos dos críticos já se calaram……


 

Pois, Lula agora vai um pouco mais além: ele próprio transforma-se em colunista de jornal o que de certo modo já responde a uma descabido pito acadêmico que erroneamente considerou sua crítica a um jornalismo que faz mal ao fígado, como se fosse elogio à não-leitura. Se desprezasse a leitura, não se transformaria ele próprio em jornalista, disposto com o gesto a enfrentar o debate pouco equilibrado em curso no jornalismo brasileiro, com os conglomerados midiáticos unidos numa linha editorial predominantemente oposicionista ao seu governo.

 
Se o próprio presidente da república sente a necessidade de responder ele próprio às desinformações e manipulações ou às sonegações praticadas pela grande mídia contra si e seus atos         inclusive aquela que recebe enorme quantidade recursos financeiros do governo que ataca, até mesmo para produzir, por exemplo, programas como o Telecurso , de boa qualidade educativa, mas inexplicavelmente exibido de madrugada      imagine-se a vulnerabilidade do cidadão comum indefeso diante do poderio demolidor imagético dos meios.!!!!
 

                                               Vargas, Lula, Guevara e a comunicação

 

 

 

Lições da história, os presidentes mudam a comunicação. Casos positivos: Perón criou a TV que já nasceu pública na Argentina; Guevara tomou o exemplo da Agência Latina de Perón e criou a Agência Prensa Latina em Cuba:  o general Alvarado no Peru foi além  nacionalizando os meios de comunicação e entregando-os aos sindicatos que, sem saber operá-los, os devolveu ao Estado. Chávez criou a Telesur. A grande transformação comunicativa de sentido público havida no Brasil  ocorreu na Era Vargas. Juntamente com a industrialização, a nacionalização do sub-solo, a criação das empresas estatais estratégicas, do Instituto do Açúcar e do Álcool para abrir a era da energia da biomassa, e  da legislação trabalhista que começava a tirar os trabalhadores da senzala oligárquica do direito trabalhista-zero, Vargas sentiu também a necessidade de mudanças no plano comunicativo e cultural. Tendo criado o  Instituto Nacional do Livro, o Instituto Nacional do Cinema, do Teatro, o ensino público obrigatório,  o presidente gaúcho, que também havia sido redator de jornal no movimento estudantil, assume a criação da Rádio Nacional, da Rádio Mauá  a Emissora do Trabalhador    do jornal A Manhã, a União, na Paraíba, tendo inclusive nacionalizado outros periódicos como “A Noite”  e, até mesmo “O Estado de São Paulo”,  durante o período em que o Tenente João Alberto, ex-integrante da Coluna Prestes esteve à frente do Governo Paulista.


 

Vargas criou ainda outras publicações, mas duas delas merecem registro: “O Pensamento da América”, destinado à integração latino-americana e a Revista Cultura, cuja excelência, em ambas, devia-se à qualidade de seu quadro de redatores, entre os quais  Carlos Drummond de Andrade, Gustavo Capanema, Nestor de Hollanda, Clarice Lispector, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira, etc Estas publicações desapareceram soterradas pela mesma ação demolidora do patrimônio nacional que buscou acabar com a Era Vargas.

 
É verdade que o sindicalista Lula fez muitas críticas a Vargas, quiçá pela proximidade que tinha com uma certa sociologia  paulista, inspirada em valores coloniais-oligárquicos, que mais tarde veio a privatizar a Vale do Rio Doce, a CSN, a Telebrás, a Portobrás, e, em boa medida a Petrobrás. Tentaram rebatizá-la de PetrobráX,  lembram-se? Faz muito tempo,  Lula chegou mesmo a declarar que “se Vargas era o pai dos pobres,  era a mãe dos ricos”. Talvez, com a experiência de quem tem que tocar o barco, não as repita hoje. Basta dizer, é o próprio presidente que hoje fala que nunca antes os banqueiros ganharam tanto dinheiro como em seu próprio governo.
 
Mais importante é, debaixo do tiroteio das declarações,  numa caminhada de décadas, que fazem a alegria de uma mídia que quer condenar para todo o sempre a Era Vargas,   descobrir linhas de coincidências históricas entre Vargas e Lula. Lembrando que Lula chegou a se emocionar quando visitou o túmulo de Vargas em São Borja, acompanhado de Leonel Brizola. E , mais recentemente, baixou decreto criando a Semana Vargas para que, segundo explicou, todos conheçam profundamente a obra daquele que foi o maior dos presidentes. Declaração dele.


 

Pois se Vargas criou a Rádio Nacional, a Rádio Mauá, a Voz do Brasil    instrumento de democratização da informação via rádio acessível a uma esmagadora maioria de brasileiros que ainda hoje, como há décadas, continua proibida da leitura de jornal  . Lula, com o mesmo sentido histórico, criou a TV Brasil, a tv pública brasileira, cujo projeto estava sendo trabalhado por Vargas como desdobramento da Rádio Nacional, tendo sido sepultado junto com o gaúcho, para a alegria do capital estrangeiro, das oligarquias nacionais, dos inimigos eternos dos direitos trabalhistas e também da comunicação pública. Hoje continuam tramando contra a Voz do Brasil, atacam o jornalismo chapa-branca, mas perdoam o jornalismo chapa-oligopólio.

 

 

 

 

Há outras identidades, mantidas as diferenças de épocas históricas:  Vargas deu início ao pró-alcool, montou o trem do álcool, Lula o retoma , o valoriza, o expande contra a pressão das potências estrangeiras, ambos os presidentes buscando a independência nacional energética. Vargas concretizou a campanha “O petróleo é nosso”, Lula afirma agora que “o Petróleo Pré-Sal é do povo brasileiro não das transnacionais” , as mesmas que levaram Vargas ao suicídio-golpe. E ainda convocou a UNE a sair ás ruas para uma nova campanha “O petróleo é nosso”. Vargas criou o BNDES, o maior banco de fomento do mundo, que FHC usou contra o Brasil na privataria, mas não conseguiu demolir.  Lula recupera parcialmente a função social do BNDES, o fortalece enormemente, fortalece o sistema financeiro público. Outras coincidências: a política externa da Era Vargas, como a da Era Lula, afirmativas da integração latino-americana, da soberania nacional,  da independência,  não são de tirar os sapatos e  rebaixar-se ante ordens de qualquer guardinha de alfândega dos EUA……


 

                         Jornal Público

 

Como o tema é comunicação, a partir da decisão de Lula tornar-se colunista, somos levados a pensar num sentido histórico para acreditar que estão sendo criadas as condições para que o mesmo desejo do presidente de democratizar informações, de intensificar o debate democrático de idéias possa ser feito não apenas com sua coluna, mas com a criação de novos instrumentos de comunicação dirigidos à grande massa que continua proibida de ler jornal. Ou seja, uma idéia leva à outra.

 

Se somadas todas as tiragens dos pouco mais de 300 jornais diários existentes no Brasil hoje não alcançamos o número de 7 milhões de exemplares. Ou seja, temos no Brasil indigência de leitura de jornais. Temos aí uma charada que o mercado, por si só, mostrou-se incapaz de resolver: como levar os brasileiros a ter pleno acesso à leitura, tornar acessível a eles uma tecnologia do século 16, a imprensa de Gutemberg.?

 

Seja bem-vindo o presidente Lula ao mundo do jornalismo, até porque com certeza se ocupará mais diretamente dos desafios da comunicação que ainda fazem com que o Brasil seja um país com informação controlada por uma ditadura vídeo-financeira .  Apesar de que exista uma capacidade ociosa crônica de 50 por cento de nossa indústria gráfica, parada enquanto o povo não tem o que ler! Isto ilustra quando Lula diz que ainda não resolvemos problemas de outro século….

 

                                               Lula e Evo: identidades no social

 

 

 
Quem sabe o colunista Lula não esteja já pensando    diante da expectativa positiva que criou ao anunciar que suas próprias palavras serão reproduzidas em centenas de jornais     em  como superar os limites  impostos pelo sistema de proibição da leitura. Diante de dilema similar de uma mídia de corte oligárquico, que ignora até mesmo que a Bolívia é hoje considerado “Território Livre do Analfabetismo” pela Unesco ou que já retomou corajosamente o controle nacional sobre suas riquezas minerais, Evo Morales viu-se impelido a lançar um jornal do poder público, já que o “livre jogo do mercado” conduz apenas à concentração, a um jornal para as minorias e a uma linha editorial rigorosamente antipatriótica. Mercado não democratiza, mercado concentra, carteliza, exclui, discrimina, sonega, embrutece…. Como hoje até mesmo os inimigos do estado estão agora “convertidos” a reconhecer o estado como solução para a grande crise do capitalismo,  no campo da comunicação podemos trabalhar com ainda mais desenvoltura as teses que reivindicam mais protagonismo do estado: só o fortalecimento da comunicação pública, sua qualificação, sua capacidade de disputar audiência, leitores, poderá finalmente possibilitar que a invenção de Gutemberg  seja acessível a todos os brasileiros, como aos bolivianos. Evo alfabetiza e democratiza a leitura. Lula cria a universidade da integração latino-americana UNILA e torna o ensino do espanhol obrigatório. Muitas identidades. A coluna de jornal de Lula é apenas o primeiro passo, no sentido correto.

 

Que não se diga que os poderes públicos não podem editar jornal!!!. Será um decreto escrito nas estrelas? Ué, por que os críticos não ficam esbaforidos, nem indignados com o fato de que é o estado que banca grande parte do jornalismo privado?. Mas,   jornalismo público, não??? Aí seria um crime?????  Na França existe um jornal editado pela Previdência Social que chega a todos os segurados e não apenas com notícias previdenciárias. É um jornal, traz notícias, do país, do mundo, do futebol, das cidades, do clima, da economia, da cultura. Por que será impossível pensar que o Programa Bolsa Família, que leva farinha, café, macarrão a 13 milhões de famílias não pode também levar um jornal, talvez o único que os brasileiros pobres possam segurar em suas mãos não para forrar banheiro ou para servir de cama como na música de Noel Rosa. Mas, um jornal que respeite os mais pobres como cidadãos, que lhes traga informação sobre a vida, sobre o funcionamento da economia que eles, os mais pobres, movimentam.Um novo jornalismo precisa ser criado para falar não apenas de bolsa de valores que ninguém sabe o que é, mas para falar do preço da latinho e do papelão que movem milhões de seres na economia dos recicláveis . Que não fale apenas de crimes, mas fale dos programas públicos, das oportunidades, da música popular, dos heróis nacionais. Que explique sobre medidas simples para a prevenção de doenças contagiosas, como o câncer de pênis, que pode ser prevenido em boa medida com informação em saúde, mas que os jornais sustentados por anúncios da indústria de medicamentos não querem divulgar.  Que lhes dê a oportunidade de criar finalmente um hábito de leitura, convenhamos que isto é impossível se não existe um jornal de distribuição gratuita, com linguagem simples e clara    não nos faltará talento para isto, afinal já demos um Monteiro Lobato, um Paulo Freire, um Ariano Suassuna, somos um país de preciosos cordelistas e payadores, mas  que não têm onde escrever.


                                  

 

               PAC da informação e da cultura

 

Este é o grande desafio: está muito bem que Lula seja colunista de jornal, sobretudo por ser cidadão de excepcional inteligência política     muito mais bem informado do que os mais bem informados jornalistas      e com sua capacidade de discernimento e leitura do mundo e de escrever uma outra história política para o povo brasileiro ao ter criado instrumentos, a Cut e o PT, que estimularam a participação  direta dos mais pobres e excluídos na vida política e nos destinos do País.  Mas, esta coluna precisa também de um jornal para que seja lida por milhões, distribuído pelo mesmo mecanismo do Bolsa Família, pelas Redes do SUS, pelos sindicatos, fábricas, estádios de futebol, metrôs, ônibus e trens. Já que Lula se animou a entrar no jornalismo, tomara que seja o preâmbulo de um esforço para criar, além da TV Brasil, um jornal para os milhões de brasileiros proibidos da leitura. Aliás, a EBC é empresa de comunicação, não apenas de rádio e de televisão.

 

 

 

 

 

Esta proposta já havia sido levada pelo Sindicato dos Jornalistas do DF ao Congresso Nacional da categoria: um Programa Público de Popularização da Leitura e Edição de Jornal, aproveitando a capacidade ociosa da indústria gráfica. É o PAC da informação e da cultura. Gera emprego, mas sobretudo, gera um cidadão novo, informado, cidadão completo. “A gente não quer só comida”, diz a música. Ou como diz o meu chará “Saciar a fome de pão e a fome de poesia também”. Aquela masturbação acadêmica que procura a porta de saída do Bolsa-Família certamente não poderia rejeitar: além de nutridos,  seres humanos com acesso à leitura, para enxergar mais longe na vida e na história.. Os acadêmicos conservadores criticam o povo que não lê, então não podem rechaçar, devem apoiar,  que se trabalhe para demolir o sistema de proibição da leitura né?

 

Que não se venha a inverter o verdadeiro debate falando de diploma: o desafio é criar um jornal para milhões. Se o Bolsa Família é dos maiores programas sociais do mundo,  que ele seja enriquecido com a oferta de um jornal respeitoso ao pobre, civilizador, educativo, lúdico e informativo.

 

Quanto a diploma, é indispensável sim uma regulamentação, mas uma que permita à classes populares o exercício do jornalismo. Fica o tema para debate, mas definitivamente, o colunista Lula está dentro da lei, além do que seu único diploma, como declarou de modo comovedor, é o diploma de Presidente da República que lhe foi dado por 63 milhões de  eleitores-professores.

 

 

 

 

 

 

 

Lula acelera peronismo protecionista

Os inteligentes argentinos perceberam antes da oposição brasileira que a decisão de Lula de enfrentar a crise elevando agressivamente os gastos públicos como sustentação da demanda global coloca o Brasil, rico em matérias primas e base industrial sólida, como potencia econômica incontestável na América do Sul. Daí se disporem ao protecionismo peronista nacionalista como defesa frente a um país em que o governo joga a força estatal para bancar a produção e o consumo, subsidiando todo mundo.

A indústria argentina, naturalmente, não aguenta. Nem as estruturas industriais sul americanas , incapazes de suportar a concorrência com o Brasil, cuja capacidade de investimento, nos últimos cinco anos de bonança capitalista global, fortaleceu modernização industrial. Os investimentos em bens de capital estavam, até o estouro da crise, em outubro de 2008, crescendo 17% ao ano. Nessa batida modernizadora, a indústria nacional ganharia fácil o mercado sul-americana, em processo de integração em marcha, ao longo dos próximos dez anos.

A praça argentina hoje é dominada pelos produtos industriais brasileiros. A indústria do país vizinho maior importador da manufatura verde-amarela simplesmente não existe. Houve uma inversão relativa entre Brasil e Argentina no processo de industrialização sob as ditaduras militares, nos anos de 1970-80. No Brasil, os ditadores jogaram no nacionalismo econômico. Os Planos Nacionais de Desenvolvimento(PNDs) dos militares são os mesmos que ancoram o PAC lulista. Na Argentina, os militares se vestiram de Chicago boys, seguindo Pinochet, no Chile. Adotaram a prática econômica ultra-neoliberal. Destruiram a indústria portenha, como se fosse produto do comunismo soviético.

 

Destruição militarista

 Os militares argentinos foram realmente muito burros. O nacionalismo de Geisel versus o entreguismo neoliberal de Videla compuseram, na relação Brasil-Argentina um compartativo favorável aos brasileiros. A indústria de base argentina foi destruída pela ditadura militar quando a indústria de base brasileira era sustentada pelos militares, alavancando grandes obras para construção representação política militar expressa no Brasil Potência.

O ministro Mário Henrique Simonsen, em 1972, previu que no ano 2.000 o Brasil estaria cheio de problemas macroeconômicos, mas estaria montado numa infra-estrutura industrial que teria valor político estratégico na ampliação do mercado sul americano para os empresários brasileiros. Lula, na crise, bomba a indústria de estímulos que estão sendo enxergados pelos argentinos como fator descompensatório para os interesses da Argentina.

Na medida em que o Brasil, mediante política macroeconômica keynesiana anticíclica, bombeia de crédito subsidiado a produção nacional como arma de proteção contra os abalos produzidos pela crise americana, os argentinos vêem esse bombeamento como arma mortífera para a economia portenha. A Argentina é um elo mais fraco da cadeia capitalista periférica sul-americana do que o Brasil, porque o seu parque industrial foi destruido pelo militarismo argentino neoliberal, oposto ao militarismo brasileiro nacionalista.

Os militares brasileiros ergueram uma infra-estrutura industrial nos anos de 1970-80, cujo percurso, nos últimos 24 anos de Nova República, foi submetido ao neoliberalismo do Consenso de Washington, para tirar dinheiro da periferia,capaz de salvar o dólar dos excessos de deficits. Eterno sanguessuguismo do capalismo cêntrico sobre o capitalismo periférico. O neo-nacionalismo lulista, agora, impulsionado pela própria crise que coloca novas responsabilidades sobre o Estado nacional, torna-se, dessa forma, um peso insuportável para os argentinos, candidatos à desindustrialização acelerada.

 A longa reunião realizada entre as autoridades econômicas e diplomáticas brasileiras e argentinas, em Brasília, na terça, 17, representou um momento de estresse na relação entre os dois países dada pela crise mundial. Os interesses da infra-estrutura produtiva e ocupacional brasileira, caracterizada por base industrial competitiva, cujos interesses se encontram estreitamente relacionados com o capital externo, entraram em duro choque com os interesses da infra-estrutura produtiva e ocupacional argentina, estruturalmente, fragilizada. Os sócios externos dos capitais comerciais fortes argentinos passaram a ser os próprios brasileiros ou argentinos investidores no Brasil.

 

Moeda sul-americana, urgente

A interatividade econômica Brasil-Argentina colocou o comércio exterior brasileiro dependente dessa relação, quanto mais estiverem obstaculizados os canais americanos e europeus, paralisados pela recessão na Europa e nos Estados Unidos. Não interessa para nenhumdos lados, mas as contradições dos interesses no interior do modelo econômico colocam indústria e comércio argentinos em choque entre si relativamente ao Brasil. O comércio argentino prega a integração. A indústria, a separação. Dificilmente será possível a vitória de um lado sobre o outro , sem que ambos se desabem. Daí dispor de chances de crescer a proposta de nova moeda sul-americana para mediar as relações comercinais na América do Sul. Haveria compensações recíprocas na intermediação monetária integracionista capaz de remover os desbalanços provocados pelas oscilações cambiais sob domínio do dólar cuja sáude tende a ser contestada quando mais a recessão mundial se aprofunda. Argentinos e brasileiros estão condenados a marcharem juntos.

Possível conflito comercial mais agressivo entre Brasil e Argentina, no contexto da crise global, é caixão. Trata-se do mais perigoso obstáculo levantado pela nova conjuntura à integração sul-americana. Haveria tendência de agressividade comercial. O peronismo protecionista nacionalista tenta resgatar o militarismo entreguista que desbalanceou estruturalmente a relação Brasil-Argentina.

Para os argentinos, o inferno é Lula, nesse momento, jogando, agressivamente, para inveja da oposição, nas providências para a enfrentar a crise, sobretudo, pressionando os bancos estatais a sairem em bloco oligopolizado para bombear o crédito à produção e ao consumo obstaculizado pelo juro praticado pelo oligopólio financeiro privado. O titular do Planalto tenta erguer o oligopólio financeiro estatal para ombrear com o oligopólio financeiro privado, enquanto os argentinos traduzem essa luta interna brasileira como ameaça total à estabilidade econômica portenha. Perigo político de morte para Cristina Kirchnet.