Apocalipse bushiano é jogo de pânico fascista

O tom apocaliptico adotado pelo presidente W. Bush para tentar convencer o Congresso a aprovar o pacote salvacionista de 700 bilhões de dólares para economia mergulhada em crise bancária, caracterizada por sumiço do crédito, oxigênio da produção capitalista, joga estrategicamente com o medo como arma política, algo tipicamente fascista, para alcançar rapidamente seu objetivo. Na prática, é dinheiro podre, sem lastro, para tentar salvar dinheiro podre, que está apodrecendo a vida dos americanos e lançando desconfianças generalizadas do mundo na saúde do dólar, como moeda equivalente nas trocas comerciais globais. A economia de guerra, tocada com dinheiro estatal fictício, bate biela.

Os americanos, nesse momento, estão, certamente, temerosos sobre o futuro da sua segurança pessoal. Vão apostar numa renovação radical, com Barack Obama, o primeiro negro que ganharia a eleição nos Estados Unidos? Ou, com medo, optariam pelo conservadorismo, deixando renovações e mudanças mais ousadas para depois?

O povo da América,  que traz, psicologicamente, a certeza de ser o enviado de Deus, do destino manifesto na terra, onde a riqueza é o bônus da benção divina, para a salvação eterna como prêmio pelo lucro acumulado no juro composto, sente o medo do imprevisível, do imponderável, do espectro da pobreza. Quem lhe dá mais segurança, depois que W. Bush espalhou a insegurança geral, Obama ou MacCain?

A classe média, super-endividada nos cartões de crédito, com os quais vai rolando seus papagaios financeiros impagáveis – calcula-se que seja de 15 trilhões de dólares a dívida global das famílias no crediário – , como se tal costume representasse segurança eterna em suas vidas, teme pelo pior.

A segurança do futuro abre-se em seu oposto, em abismo sob os próprios pés. Segurança nenhuma. Os aposentados estão apavorados, pois seus sonhos são jogados no mercado de hipotecas e ações, desde sempre. Pavor coletivo.

W. Bush, em discurso dramático, na quarta à noite, não regateou. Falou em perigo de pânico. Pânico vira estratégia política da Casa Branca.

O presidente que alerta para o pânico quer o quê? Chocar. Amedrontar. O estadista falaria como Churchill:” nada tenho a oferecer-lhes senão suor e lágrimas, sendo a salvação a capacidade de enfrentar a realidade adversa”.

O que propõe W. Bush? Papel podre para combater papel podre, o mesmo papel que está financiando a demanda global puxada pelo consumo americano, bem como ampliando, por sua vez, essa mesma demanda, por meio do aumento de gastos na produção bélica e espacial, jogo keynesiano que vem desde 1936.

O Congresso pôs as barbas de molho, porque sabe que os 700 bilhões de dólares não são suficientes. O FMI adiantou e disse ser a quantia insuficiente. Aposta em 1,3 trilhões.

Ninharia perto do mercado de dólares derivativos , raiz da crise, ainda não contabilizados, que somariam entre 45 trilhões e 55 trilhões de dólares, os chamados “credit default swaps(CDS).

Trata-se de quantia superior a quase 4 vezes o PIB dos Estados Unidos. Os 700 bilhões de dólares bushianos seriam pinto perto dessa montanha fantástica de dinheiro podre que o mercado imobiliário pôs para rodar no mercado derivativo, em que dinheiro pare dinheiro, indefinidamente.

Realmente, o capitalismo derivativo regado pelo derivodólar viajou na maionese. Agora, esburracha-se no chão. Não há fôlego keynesiano capaz de levar o tesouro americano a acalmar a situação com apenas 700 bilhões de dólares. Brincadeira.

A solução(keynesiana) que virou problema

 

O que já está acontecendo não suporta panos quentes. Pega fogo geral. Mais dinheiro sem lastro para cobrir dinheiro que apodreceu, simplesmente, resultará em inflação e mais inflação.

A bomba de enxugamento do mercado especulativo, a dívida pública, para tentar dar sensação de escassez de moeda, para que esta suba de preço, desviando a desconfiança na sua saúde, mostra-se incapaz de exercitar a tarefa keynesiana.

Keynes não é mais solução, mas, problema, na medida em que o fôlego financeiro de Tio Sam, para enxutar o mercado de derivativos, esgota-se.

Está parecendo a República de Weimar, que tinha um marco-ouro valendo 12 bilhões de marco-papel, quando todos os pepinos foram contabilizados pelo presidente do Banco Central alemão, Hjalmar Schacht, para que a cotação caisse, repentinamente, para 1 marco-ouro = 4,2 bilhões de marco-papel, como passo inicial, fundamental, para inverter a tendência e dar visibilidade ao tamanho da hiperinflação alemã entre 1919 e 1923.

Evidentemente, se os dólares derivativos, os derivodólares, os CDS – “credits default swaps –  forem contabilizados, pode pintar uma brutal desvalorização da moeda americana, semelhante à do marco-papel, que obrigaria Tio Sam a submeter-se à receita de Hjalmar Schacht, conforme demonstra em “Setenta e Seis Anos de MInhas Vida”( Ed. 34, 1999).

A dívida pública interna americana, que já não está pagando juro nenhum para vender títulos, teria que enxugar, lançando uma montanha de títulos, que, sem rendimento nenhum, sinalizaria negócio desinteressante para o rentista, que se candidataria ao empobrecimento compulsivo, como se a eutanásia rentista fosse a sua opção fundamental.

Os árabes já estão fugindo desse fantasma, buscando jogar o dinheiro arrecadado com petróleo, isto é, os dólares, em terras e outros ativos mundo afora. Dólar virou moeda quente da qual todos tentam fugir para não se queimar.

As expectativas psicológicas da comunidade, nesse momento, bombada por um sistema de comunicação instantâneo, que a estressa, extraordinariamente, produzem desastres psicológicos que se materializam em sentimentos de frustração e radicalização.

Tal espírito social irascível emerge irresistível, quanto mais aumenta a sensação popular de perda de poder de compra da moeda nacional.

Sim, W. Bush tem razão. Pânico. O titular da Casa Branca utiliza o pânico como arma política. Com essa estratégia tenta forçar a barra, no Congresso, em busca de solução rápida. 

Conseguirá? Dificil. Todos os políticos que estão disputando eleição, agora, percorrendo o território americano atrás de votos, subordinam-se aos interesses da comunidade medrosa, que quer reaver suas perdas.

Poder executivo faliu. O Legislativo compensará?

Os movimentos sociais que se manifestam pela internet, fazendo pressão sobre os congressistas, para que sejam equitativos na distribuição dos prejuízos, avisam que se não cumprirem essa determinação social, não terão o voto necessário na eleição, para continuar na vida política.

A pressa que W. Bush exige para tentar movimentar a economia e afastar o fantasma da quebradeira choca-se com a característica essencial do parlamento, ou seja, a necessária falta de urgência para tratar o jogo dos contrários, no debate político.

A divisão da sociedade capitalista em grupos sociais antagônicos impõe, dialeticamente, condição que produz o confronto entre a pressa do Executivo e a não-pressa do Legislativo, na apreciação da crise bancária.

W. Bush joga com a pressa, pois pode ser ejetado, antes de terminar seu mandato, pela ira popular. Já se os congressistas, sob pressa de W. Bush, acionarem decisão que tenha como resultado frustração, deixam de ser acreditados, para serem desacreditados pela sociedade.

A pressa de W. Bush, que tem por trás os poderosos interesses financeiros e oligopolistas, que dominam Wall Street, representa, na prática, uma armadilha para os congressistas e uma má conselheiras, deixando o Congresso diante de dois caminhos: ou render-se ao Executivo ou agigantar-se e tornar-se, na crise, maior que o Executivo.

Pode lançar sementes de mudanças, no médio e longo prazo, no comando do próprio poder político, visto que as lições a serem tiradas dos acontecimentos dramáticos do presente se materializarão em possíveis alterações na correlação de forças no contexto da democracia americana.

O que se vê, na bancarrota financeira americana, não é um desastre do mercado, mas do governo, que deixou o mercado comandá-lo. O Congresso, na prática, está sendo jogado no fogo, para resolver problemas criados pelo Executivo. Qual a fatura que cobrará?

 

Casa Branca se autocondenou ao render-se ao mercado

 

 

Como o governo é executivo, legislativo e judiciário, com distribuição de atribuições de poderes relativos aos três entes republicanos no ambiente da democracia representativa, sua capacidade institucional de comandar o processo econômico tenderia a ser democraticamente contestada.

A destinação constitucional do Executivo para executar poderia ser relativizada com o legislativo que além de legislar poderia, também, executar, como se dá no modelo parlamentarista. As chances do legislativo estão colocadas por W. Bush, desesperado.

O executivo, no governo imperial americano, entrou em crise, porque em vez de disciplinar o mercado capitalista, rendeu-se ao mercado, à especulação, à loucura.

Comanda o caminhão capitalista na ladeira rumo ao precipício sem freio, na banguela, a loucura dolarizada-derivativa, proporcionada pelo Executivo, que abandonou as regras da regulamentação, da fiscalização e da prudência, eximindo-se da responsabilidade de ser coordenador geral do processo.

Inevitavelmente, a desmoralização do Executivo se intensficia, quanto mais elevados são os prejuízos financeiros da população, afetada pela irresponsabilidade do próprio Executivo

A questão é econômica, mas, também, política.

A pressa de W. Bush é a pressa de uma Executivo falido, em cima de um poder, o Legislativo, que somente se justifica, constitucionalmente, se tiver condições de impor a relatividade das coisas no ambiente do poder democrático. Sua lei é a flexibilidade.

A lei de W. Bush, enforcado pela crise bancária, é a da inflexibilidade, característica da pressa, semelhantte ao caráter das medidas provisórias que governam o Brasil desde a crise monetária dos anos de 1980.

O jogo do medo de W. Bush é a tentativa de ganhar no grito. O jogo do Congresso, pela sua peculiaridade, é o oposto.

A democracia americana, nas águas da bancarrota financeira impressionante, está diante do seu maior desafio.

Real, sob rapina, marcha para crise

 

 

Para futuro não muito distante gesta-se outra crise do real e mais um desgaste insuportável para a economia brasileira, semelhante ao de 1998, quando a taxa dos títulos públicos chegou a 50% aa., sem que isso tenha evitado a galopante desvalorização do real iniciada em 1999.  

A recorrente vulnerabilidade das contas externas é conseqüência inelutável do modelo comandado por bancos e empresas transnacionais. Enquanto perdure o atual regime (não me refiro apenas ao presente “governo”), não há qualquer chance de serem levadas em conta sugestões de política econômica capazes de sequer reduzir a amplitude e a profundidade do desastre, mesmo porque não há como tratar do problema, mantida a atual estrutura dos mercados.  

Eis como começa a Nota para a Imprensa sobre o Setor Externo, divulgada pelo Banco Central (BACEN) em 28.07.2008: “O balanço de pagamentos registrou superávit de US$ 2,6 bilhões em junho de 2008. As transações correntes apresentaram déficit de US$ 2,6 bilhões acumulando, nos últimos doze meses, déficit de US$ 18,1 bilhões, …. A conta capital e financeira foi superavitária em US$ 6 bilhões. (Grifos meus). 

A Nota é pouco esclarecedora. Traz dados a respeito de componentes do balanço de pagamentos quase que só para o mês de junho, sem mostrar o resultado do 1º semestre. Há apenas uma referência, logo no início, ao acumulado nas transações correntes, nos últimos 12 meses. A Nota parece orientada para minimizar a percepção do que mais interessa: a nítida e rápida deterioração das contas externas do Brasil. 

Para recordar, o balanço de pagamentos compõe-se de dois grandes conjuntos: as transações correntes e a conta de capital. As transações correntes englobam, além das transferências unilaterais (principalmente remessas de trabalhadores brasileiros provenientes do exterior), os balanços: 1) comercial (mercadorias); 2) de “serviços”; 3) de rendas. Fazem parte deste as remessas de lucros e dividendos, e os juros. O balanço comercial teve, nos últimos anos, grandes saldos positivos, mas estes se vêm reduzindo muito. Já os serviços e as rendas resultam tradicionalmente em déficits, que vêm crescendo.

 

Números do desastre financeiro nacional  

 

A Nota do BACEN omite que as transações correntes mostraram déficit de US$ 17,4 bilhões, em apenas seis meses (janeiro a junho de 2008), quantia quase igual à desse déficit nos últimos 12 meses. Ela é 25 vezes maior que a verificada de julho a dezembro de 2007. É inegável, pois, que a situação das contas externas do País se agravou aceleradamente mesmo durante a conjuntura externa ainda favorável para as commodities, que ainda prevalecia no 1º semestre de 2008.

O BACEN “esqueceu”, ademais, de utilizar outro dado de suas estatísticas, a saber, que os lucros enviados pelas multinacionais às matrizes somaram US$ 19 bilhões neste mesmo 1º semestre. Essa estarrecedora cifra é o dobro da do mesmo período em 2007 (US$ 9,8 bilhões).

Apesar de superarem, sozinhas, o déficit total das transações correntes (US$ 17,4 bilhões), as remessas de lucros não são o único determinante desse déficit. Há também: 1) o superfaturamento de importações e o subfaturamento de exportações, que fazem o superávit comercial ser muito menor do que seria de outro modo; 2) as despesas a título de juros e de “serviços”, em favor das matrizes das transnacionais.

Com o crescente déficit nas transações correntes, o balanço de pagamentos vai sendo, por enquanto, “equilibrado” por meio do ingresso líquido de capitais: os de curto prazo, aplicados em diversos ativos do mercado financeiro, aproveitando as obscenas taxas de juros “brasileiras”; e os “investimentos” estrangeiros diretos (IEDs), que totalizaram US$ 16,7 bilhões no 1º semestre de 2008 (US$ 20,9 bilhões no 1º de 2007). Quanto ao balanço de pagamentos o 1º de 2008 terminou com superávit de US$ 19,2 bilhões, menos de 1/3 do saldo do 1º semestre de 2007 (US$ 61,6 bilhões), com grande participação dos capitais de curto prazo. 

A situação confrangedora das contas externas brasileiras não está somente nessas cifras, mas sobre tudo nestes deploráveis aspectos qualitativos:  

1) o Brasil envia recursos financeiros líquidos ao exterior nas transações correntes, não obstante exportar colossais recursos naturais e, abusando destes, bens industrializados de baixo valor agregado;  

2) tenta “equilibrar” o déficit das transações correntes com a conta de capital, subsidiando o ingresso de capitais estrangeiros, que implicam crescentes remessas de ganhos especulativos, e subsidiando a intensificação do controle dos meios de produção por parte de empresas transnacionais, a plataforma de lançamento ao exterior, por exemplo, dos US$ 19 bilhões de lucros às suas matrizes, no 1º semestre de 2008.

 

Vampirismo explícito sobre riqueza nacional

 

As cifras a seguir descrevem a explosão das remessas, que não passam de fração pequena dos lucros reais, transferidos ao exterior por outras contas do balanço comercial e do de serviços. Anotam-se também os ingressos de IEDs.

      Remessas de lucros    Ingressos IEDs

2003 – US$ 5,7 bilhões      US$ 10,1 bilhões  
2004 – US$ 7,3 bilhões    US$ 18,1 bilhões     
2005 – US$ 12,7 bilhões    US$ 15,1 bilhões    
2006 – US$ 16,4 bilhões     US$ 18,8 bilhões 
2007 – US$ 22,4 bilhões   US$ 34,6 bilhões 
2008 – US$ 19 bilhões, em 6 meses.

Vê-se, pois que os novos ingressos de IEDs mal equilibram as remessas de lucros, as quais crescem em velocidade bem maior. E o pior é que esses ingressos são a base para remessas de lucros ainda mais fantásticas no futuro. É evidente que quanto maior for o controle das atividades produtivas pelo capital estrangeiro, mais este disporá de meios de produção para realizar lucros e enviá-los para o exterior, inclusive lucros que não se apresentam como tais na contabilidade das transnacionais, livre para escriturar preços convenientes a fim de, além disso, evitar o pagamento do IRPJ e da CSLL.

No livro “Globalização versus Desenvolvimento” mostro que todos os países hoje ditos desenvolvidos criaram estruturas para isso por meio da participação direta do Estado na economia produtiva, além de todo um conjunto de políticas destinadas a viabilizar o setor privado nacional.

Exatamente o contrário do que o Brasil foi induzido a fazer: subsidiar grandes transnacionais, ajudando-as a apoderar-se dos mercados e a aprofundar seu comando sobre a política econômica do País. Isso decorreu da intervenção política, cultural e militar estrangeira, especialmente a partir do golpe de 1954 que derrubou o presidente Vargas.

 

 

* – Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. benayon@terra.com.br

 

Perigo de neonazismo

 

Qual a garantia que está por trás dos insuficientes 700 bilhões de dólares que o presidente W. Bush tenta embuchar no mercado global, para evitar o desastre financeiro roliudiano americano?

Simplesmente, nenhuma. É tudo papel podre tentando salvar papéis podres. A Europa já conhece essa história e, naturalmente, está desejando construir uma arca para si, sem precisar embarcar totalmente na arca americana, que está fazendo água.

Evidentemente, a consciência social e política dessa ausência de segurança tende a manter as pessoas desconfiadas na capacidade do governo, já excessivamente endividado, de sustentar o prolongamento do endividamento estatal, para garantir estabilidade da moeda.

Mais moeda podre, significa perigo de hiperinflação, se o tesouro americano não tiver capacidade de enxugar parte dessas moedas pobres, que estão em circulação, podendo se transformar em enchentes inflacionárias. O tesouro é o entesourador que tem a capacidade de evitar a hiperinflação. Mas, até quando?

A reta final da campanha eleitoral americana está colocando em cena, no compasso da primeira grande crise monetária do século 21, que ameaça a sobrevivência do dólar, não os candidatos em disputa, Barack Obama, democrata, e John MacCain, republicano, mas a maior representação da democracia americana: o Congresso.

Qual será a solução final dos congressistas americanos diante da tempestade monetária que ameaça empobrecer a América?

As reações sociais pela internet voltadas para pressionar os congressistas no sentido de que sejam equitativos em suas decisões, salvando, não apenas, os bancos, mas, também, os contribuintes, colocam em cena o perigo de o próprio Congresso, caso não atenda os anseios populares, ser ultrapassado pela radicalização social.

Se isso acontecer, poderia pintar, nos Estados Unidos, um repeteco da República de Weimar, que desembocou em Hitler e no nazismo em 1933, fruto da crise bancária de 1931?

As apostas estão todas em cima do Congresso americano, que se transforma no super-poder, pois a solução, para o bem ou para o mal, em plena bancarrota financeira, sairá de suas fileiras. Se a democracia não der solução…

Uma página importante da história política americana e mundial está sendo escrita, nessa semana em que se reune a Assembleia Geral da ONU em meio ao vendaval financeiro-especulativo na terra de Tio Sam.

 

Crise bancária produziu Hitler

 

A República de Weimar explodiu com a subida de Hitler ao poder, porque, fundamentalmente, perdeu a capacidade de enxugar o excesso de moeda na economia que destruiu o poder de compra do marco alemão.

A Alemanha ficou entre os sociais democratas de esquerda, no poder, de um lado, e a radicalização de outro, dividida, por sua vez, entre os comunistas, influenciados por Moscou, de uma parte, e, de outra, pelo nazismo em ascensão, sob agitação hitlerista.

Na esquizofrenia geral desatada pela crise bancária, iniciada na Aústria, com o estouro do Osterrrichische Kreditanstalt,  espalhando por toda a Europa, principalmente, na Alemanha, deu Hitler na cabeça.

No comando do partido nacional-socialista, como relata Hjalmar Schacht, o mago das finanças tanto da República de Weimar, como de Hitler, em “Setenta e Seis Anos de MInha Vida”, Ed. 34, o furher emergiu com força total no rastro do desânimo e revolta geral dos alemães com a incapacidade dos sociais democratas de controlarem a moeda, isto é, assegurarem o poder de compra da moeda nacional.

Na hiperinflação, entre 1919 e 1923, diz Schacht, acabara a confiança popular na moeda em um pais massacrado pelas dívidas a pagar por reparações de guerra, impostas irracionalmente pelo Tratado de Versalles.

Mas, assim que a hiperinflação, mediante sacrifícios inauditos impostos à sociedade, fora superada, novamente, os bancos, a partir de 1928,  voltaram a forçar emprestimos em alta escala para a Alemanha e paises europeus em geral, sem maiores preocupações com fiscalizações e regulamentações do mercado, semelhante ao que ocorre na presente crise bancária americana, onde reinou o laxismo dos bancos centrais. Os empréstimos despertaram os interesses dos sociais democratas que estimularam endividamento geral das prefeituras, governos regionais e empresas, até estourar a bancarrota em 1931, passaporte para o nazismo.

A república americana está fazendo, agora, o mesmo que fazia a república de Weimar, jogando papel podre para comprar papéis pobres que terão que ser enxugados numa escala infinita cujo resultado pode ser o de o governo americano começar a enfrentar instabilidades intermitentes, como avaliam os analistas em geral.

 

Radicalismo emerge pelo medo

Nesse ambiente, a realidade está demonstrando que se torna inevitável o aprofundamento da desconfiança social e econômica no poder americano, dado que o dólar está sob ataque, quanto mais o sentimento de perda real do poder de compra da moeda vai ficando claro aos olhos dos contribuintes irados, propensos ao radicalismo político.

O estouro do setor imobiliário, produzido pelo excesso de financiamentos para compra de casas, é o estouro da moeda, que tem nos imóveis a sua representação.

Os dólares derivativos, cuja quantidade são trilhões e mais trilhões que perdem valor a cada dia, pedem, pelo amor de Deus, para ser enxugados, a fim de que possam manter seu poder de compra mínimo que seja.

A Casa Branca tem fôlego suficiente para garantir esse poder de compra?

A sensação geral é de que não tem e tanto é verdade que não há força ainda suficiente para dar sossego à intranquilidade geral na economia americana.

A economia monetária fictícia bancada pelo dólar derivativo, derivodólar, é pura psicologia. Os humores variam com a valorização ou desvalorização do valor que, como destacou ironicamente Delfim Netto, no Valor, nesta quarta feira,  está apenas na tela do computador.

 

Moeda capitalista montada a cavalo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Economia de papel podre bate biela. O capitalismo vive a pregação de Marx. O sistema capitalista, disse, desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e crise e passaria a desenvolver as forças destrutivas, na guerra.

As forças produtivas entram em colapso em 1929, com a falência do padrão ouro,  e as forças destrutivas passam a ser desenvolvidas por novo padrão monetário, bancado pela moeda estatal inconversível, o statemoney, moeda fictícia sem lastro. Não são mais os bens e os serviços que puxam a demanda, mas a produção bélico e espacial etc.

A produção de mercadoria, como explica Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, dá lugar à produção de não-mercadorias, bancada pela não-moeda, cujo lastro é a ficção abstrata, para tirar o capitalismo do buraco, não mais mediante forças produtivas, mas graças ao somatório das forças destrutivas e especulativas.

O que é a destruição presente de capital na economia americana senão a expressão exata da explosão das forças econômicas destrutivas?

Desmancha, portanto, a moeda que movimentou o capitalismo durante o século 20, especialmente, a partir de 1936, quando Roosevelt segue o conselho de John Maynard Keynes, lançando mão da dívida pública, para dinamizar o sistema.

A moeda estatal é o capital do estado, o estado é o capital, que, no entanto, mostra-se, também, no limite, limitado, para continuar executando sua tarefa na reprodução ampliada do capitalismo contraditório.

Na prática, o que está sendo implodido é a moeda da burguesia capitalista criada no século 20. O estado cumpriu o papel que Hegel determinou.

Ele, o estado, abstrato, ressalta o autor de a “Fenomenologia do espírito” sopra valor no papel para ser a representação objetiva do dinheiro capaz de movimentar as trocas cambiais, tornando-se referência monetária para azeitar as relações sociais.

A burguesia, ao conquistar o poder do estado, aposenta o rei e a monarquia e, consequentemente, a moeda do rei e os poderes monárquicos, o padrão-ouro, para jogar, claro, com sua própria moeda.

A moeda estatal inconversível é a moeda capitalista moderna que toca a economia para manter desperto o espírito animal dos empresários sem que eles precisem colocar a mão no bolso.

A farra, no entanto, como mostra o choro do colosso americano, está dando suspiros derradeiros.

 

O sopro do poder abstrato

 

O estado nacional, juridicamente, construído pela inteligência humana, ao longo da história, tornou-se, com o fim da moeda monárquica, o poder monetário abstrato, ancorado na lei. Esta cria na mente social os fundamentos de garantias do contrato baseado no direito positivo.

Napoleão é o grande iniciador desse jogo, tendo como principal assessor o maior ladrão da história da burguesia, o genial diplomata Talleyrand, retratado, competentemente, pelo historicador russo E. Tarlé, em “Diplomada da burguesia em ascensão”.

Talleyrand faz, em nome da acumulação de capital burguês, o mesmo que o rei fazia com os burgueses, isto é, expropriação. O expropriador passou a ser expropriado.

O negociador de Napoleão se transformou num dos maiores investidores de imóveis em Paris, graças às comissões que extraia a forceps dos reis vencidos pelo avanço da burguesia francesa sobre a Europa, brandindo as armas e o código napoleônico.

 

Moeda burguesa entra em crise

A moeda estatal inconversível, no século 20,  é Napoleão ressuscitado a serviço do estado burguês.

Durante todo o século passado, tal moeda, nascida para tirar o capitalismo do crash de 29, movimentou e fez o serviço previsto por Marx: promover as forças destrutivas, na guerra, ou seja, a economia de guerra.

Keynes considerou as guerras necessárias, para puxar a demanda global, já que as forças produtivas, deixadas ao livre mercado, levaram o sistema ao colapso.

O mesmo faz, hoje, o FMI, batendo palmas para as guerras regionais. Seu combustível, no entanto, a moeda estatal, que nasceu para negar o padrão ouro, está sendo negado pelo esgotamento monetário estatal ameaçado pela fogueira monetária-inflacionária.

Estados Unidos, nova República de Weimar? 

Berço esplêndido da social democracia europeia, dos grandes filósofos e das propostas revolucionárias estruturalistas lançadas no século 20 pela Escola de Frankfurt, a república de Weimar, no momento em que o fantasma da derrocada financeira, paira no ambiente global, volta a impressionar e fazer meditar sobre o que pode acontecer, se o Congresso americano não der conta do recado.

Os americanos, nesse momento de total incerteza, jogariam suas fichas numa promessa, Barack Obama, ou continuarão apostando em suposta segurança, John MacCain?

O momento estaria para experimentações ou conservadorismo?

Multilateralismo ou guerra

– Saiu da minha algibeira.

A resposta de Fêlix a Viana, que, puxando o saco do amigo, perguntou onde conseguia os bons vinhos que servia aos convidados, é a lógica que Machado de Assis expressa por meio do seu personagem, em “Ressurreição”, que fica rico com súbita herança, algo que lhe proporciona tudo, informações e poder em abundância, graças ao dinheiro.

Quando, no entanto, o money falta e os bons vinhos escasseiam, somem, também, as informações e o poder. É o que pode, igualmente, acontecer com as nações. Olhaí os Estados Unidos. Henri Paulson, secretário do Tesouro, diante da bancarrota financeira, não titubeou: “É um momento que exige humildade”.

Ou seja, acabou a arrogância do imperio, diante da falência bancária, que obriga o estado a oligopolizar geral o crédito, cumprindo a previsão de Jack London, em “Tacão de Ferro”, com prefácio de Trotski. Oligopólio estatal contra oligopólio privado em nome do interesse público.

A história gira no balanço das instabilidades monetárias violentas. A Inglaterra, com sua libra poderosa, estourou nas águas da crise neoliberal de 1873-1893, cujo resultado foi a primeira guerra mundial. Agora, são os Estados Unidos que se lascam na, igualmente, crise neo-neoliberal, iniciada na explosão monetária dos anos de 1980, em que se inaugurou o capitalismo de desastres financeiros seguidos, e concluída, nesse momento, gerando indefinições gerais.

Os começos de séculos são fatídicos. O que vem por aí, no rastro dos destroços do neoliberalismo: nova guerra mundial, intensficação das guerras regionais em curso, que, segundo o FMI, são boas para puxar a economia, na medida em que aumentam gastos do governo, neo-guerra fria, ou a humildade americana para perceber que o unilateralismo praticado pelos Estados Unidos precisa dar lugar ao multilateralismo?

A conta não poderá mais ser paga com o dinheiro da algibeira americana.

O colapso da ideologia utilitarista capitalista evidencia que Tio Sam esgotou sua capacidade de, pelo dólar ancorado em emissões estatais sem lastro, de comandar sozinho o processo. O keynesianismo americano estressou-se. E se os 700 bilhões de dólares podres que serão jogados na circulação não forem suficientes, como desconfiam os próprios analistas do mercado?

Novos visitantes sentarão à mesa para participar do banquete, depois do fracasso do dólar, que está no topo do comando mundial desde a conferência de Bretton Woods, em 1944?

Surgirá o bankor, moeda que, na ocasião, John Maynards Keynes, grande economista inglês, sugeriu, para equilibrar as relações cambiais internacionais, sendo sua proposta ultrapassada e negada pelos então poderosos americanos, que emergiram soberanos no pós-guerra?

Pode pintar governo mundial, já que os isteites estão brochando? Se o dólar não é mais o todo poderoso para ser o equivalente monetário global, surgirá o que no seu lugar, uma cesta de moedas?

Nasceria, nesse embalo, a moeda sul-americana, lastreada nas riquezas reais sul-americanas, a partir de decisões da Unasul – União das Nações Sul-Americanas?

ONU ou guerra?

 

Entraria em cena a ONU, desdenhada pela Casa Branca, desde sempre? ONU ou guerra?

O dinheiro fictício monetário, emitido sem lastro por Tio Sam, ou melhor, tendo como lastro o poder das armas e da pujança do mercado interno americano, agora, bloqueado pela crise de crédito, daria lugar a uma nova política monetária global, distribuida pelos poderes regionais globais, formados por meio de blocos – bloco norte-americano, bloco europeu, bloco asiático e, por que não, bloco sul-americano?

Não há mais lugar para a visão unilateralista, intensificada depois da queda do muro de Berlim, em 1989. A visão da realidade, desde então, passara a ser a do princípio único. Contrasenso total, pois, essencialmente, a realidade é dual, positivo-negativo, singular-plural, noite-dia, claro-escuro etc, em interatividade dialética. 

Se é(era) a unicidade do pensamento americano que dá(dava) unidade ao mundo, para que o plurilateralismo global, se Tio Sam tem(tinha) a força?

As bases dessa fortaleza atravessou as terras, os mares e os ares, para firmarem-se como imperio poderoso nas asas do dólar ancorado em fetichismo monetário deslastreado.

Os alicerces romperam-se nas ondas do maremoto bancário, contido, por enquanto, pela estatização do crédito, sob comando de política oligopolística, bem à moda da recomendação de Lênin.

O dólar, abalado pelos acontecimentos, perdeu a capacidade de bancar o unilateralismo. Os Estados Unidos, baleado, estão abrindo o bico. Primeiro, pediram socorro aos bancos centrais. Tenta, num ímpeto machista, resolver a parada, emitindo o que pode e o que não pode, ninguém sabe até quando.

Já  enfrentam duas guerras fracassadas, a do Iraque e a do Afeganistão, e tem sua moeda, se o Estado não entra para salvar o barraco do incêndio, correndo perigo de virar papel pintado.

John McCain, candidato do partido republicano à Casa Branca, mostrou-se mais realista e objetivo que Barack Obama. Destacou que a hora é salvar o dólar, que significa salvar os Estados Unidos. Mas, sozinhos?

O Huck econômico global, na tentativa de evitar a bancarrota geral do sistema capitalista, tenta impor-se. Conseguirá, sozinho?

Salvar o dólar, portanto, representa prioridade número um, mais importante do que manter as tropas no Iraque ou no Afeganistão.

O fato é que não se sabe se vai ter dinheiro para continuar mandando para o sumidouro da economia de guerra, antes que sejam salvos os aplicadores que estão dançando na derrocada do setor imobiliário, maior ameaça à moeda nacional.

Desde os anos de 1940, os Estados Unidos seguem o conselho de Keynes, de expandir as forças produtivas via aposta na economia de guerra, visto que é esta que puxa a demanda global capitalista, para bancar o que o presidente Eisenhower denominou o estado industrial militar americano como sustentáculo da democracia contra o socialismo.

No momento em que as forças ameaçam faltar a Tio Sam, para continuar bancando a guerra, custe o que custar, seria possível sustentar, sem limites, a produção bélico-espacial?

Ou o multilateralismo – visão coletiva, socialista -, para além do unilateralismo – visão egoísta, individualista – , torna-se opção irresistível, para, por meio da humildade, detonar a arrogância imperial?

Lenin no comando do capitalismo em crise

O que está despecando na crise capitalista global é o neoliberalismo ou o keynesianismo americano? Discute-se sobre se os Estados Unidos são liberais, que o liberalismo é a lição deles para o mundo. Será?

Olha o que acaba de acontecer. A propriedade privada está sendo garantida não pela iniciativa privada , mas pela iniciativa estatal, não mais capitalista, mas, essencialmente, socialista, com dinheiro do contribuinte, que pode pagar o pato, embora a sua salvação seja a justificativa da ação estatal americana socializante.

Lênin está no comando do neocapitalismo pós-neoliberal, como destaca o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira, em entrevista revista Brasília Em Dia. A solução chinesa, de combinação entre socialismo e capitalismo não é maoista, diz, mas leninista, ditada aos agricultores, em 1922, no auge da crise russa: “Agricultores, ide e enriquecei-vos”.

O líder sovíetico, que sabia bem a lição de Marx de que o socialismo somente emplacaria depois de plenamente desenvolvidas as forças produtivas sob capitalismo, sendo, portanto, necessário o Estado, com sua moeda, conduzir o processo capitalista, deu a díca a W. Bush, no auge da crise financeira , na semana passada, quando o governo americano estatizou a maior seguradora privada americana, a AIG.

Evitou catástrofe política, social e econômica nos Estados Unidos.

As crises monetárias, que destroem o valor das moedas, eliminam, segundo Lênin,  as seguranças psicológicas, diante de perdas bruscas de patrimônio, emocionalmente, desequilibrantes, e predispõem os indivíduos às mudanças politicamente bruscas. Keynes considerou sutil a mente do líder soviético, e apavorou-se.

Esse, na sua avaliação, é o momento ideal para o movimento socialista internacional. Diante das crises monetárias, a solução, frisou Lênin, é a estatização do crédito como contrapartida ao oligopólio financeiro privado, recomendação idêntica feita por Jack London, em Tacão de Ferro, prefaciado por Trotski, em 1910.

A AIG, por acaso, não era oligopólio privado, que não deu conta do recado, sendo estatizado em nome do interesse público?

Caso contrário, emergiria explosão monetária, explosão política, fim do capitalismo, reemergência do socialismo, que mostra não estar morto, mas submerso, expresso em oligopólio estatal triunfante sob W. Bush, mediante orientação leninista.

O presidente americano se transformou em leninista para evitar que o socialismo domine o capitalismo, mas lançou expectativas de que somente o capitalismo não é mais solução, na forma, agudamente, financeiro-especutiva que historicamente atingiu, configurando-se em loucura desatada.

Lênin antecipou Keynes que considerou o governo, com sua moeda estatal, depois do fracasso do padrão-ouro, vigente no século 19,  a única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, expressa na oferta estatal da quantidade de moeda em circulação, para irrigar a economia capitalista afetada pelas incertezas do mercado livre e pela falência neoliberal neoclássica dezenovecentista.

 

O livre mercado é uma ficção

 

Ao utilizar amplamente essa variável independente, diante da qual as demais são dependentes – emprego, salários, juros, dívida, câmbio, inflação etc – o governo, conforme Keynes, cria, artificialmente, o que denominou de eficiência marginal do capital, ou seja, lucro.

O lucro, por sua vez, desperta o espírito animal dos empresários diante de três efeitos decorrentes da ação monetária estatal expansionista: 1 – aumenta os preços, 2 – diminui os salários, 3 – reduz os juros e 4 – perdoa a dívida contraída a prazo, desvalorizando-a, até sumir , graças ao seu poder de, relativamente, regular o meio circulante.

Vale dizer, o empresário vira um animal empreendedor somente quando não precisa enfiar a mão no bolso.

A solução keynesiana, dessa forma, levando os empresários a investir, sem meter a mão no bolso, tirou o capitalismo da crise de 1929, a partir de 1936, quando o presidente Roosevelt decidiu seguir os conselhos de Keynes.

De lá para cá, os gastos governamentais incrementaram novo departamento na economia capitalista, o D3, gasto público, para puxar a demanda global, empoçada na falência dos dois departamentos que entraram na crise de 1929, o D1, produtor de bens de consumo , e o D2, produtor de bens de capital.

D3, gasto estatal, nascia para gerar demanda para D1 + D2, gastos privados, já que nem D2 nem D1, isoladamente ou juntos, conseguiram, sob o neoliberalismo clássico, manter-se de pé.

D3 surge para cumprir a profecia de Keynes para Roosevelt, de que o capitalismo precisava repetir a experiência da primeira guerra mundial, sob o argumento de que embora as guerras produzissem destruição, aumentavam o crescimento do PIB. Equilibrava as as relações capitalistas, impossíves de serem equilibradas sob o regime de livre mercado, lassair faire, implodido no crash de 29.

Armadilha da dívida pega os ricos

 

D3, estado em forma de capital, que dinamiza D1+D2, incapazes de se autodinamizarem, é opção inflacionária, que subsituiria a opção suicida deflacionária. A inflação fortalece o capital e aleija os salários. Mas, a deflação, presente na relação exclusiva de D1+D2, sem a presença de D3, destroi, tanto o capital como os salários. Escolha de Sofia.

A opção pela inflação foi compensada pela expansão da dívida pública, que passa a crescer no lugar da inflação, dialeticamente, como ensina Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”(1980, Ed. Campus).

Com uma mão o governo joga moeda na circulação e com a outra lança título da dívida pública para enxugar parte da liquidez monetária, a fim de evitar explosão inflacionária.

Esse modelo econômico keynesiano fez o  poder absoluto dos Estados Unidos mediante economia de guerra: guerra fria, guerra do Vietnan, expansão do saldo comercial, via câmbio dolarizado relativamente valorizado para se transformar os Estados Unidos em consumidor mundial.

Colocava, dessa forma, gás para recuperar a economia dos aliados – Europa e Japão – no pós-guerra, livrando-os, via aumento da dívida pública americana, das garras do comunismo soviético.

Tal estratégia durou dos anos de 1940 até 1970, com relativa solidez até que emergiu excesso de moeda na economia mundial. O que nasceu para negar o padrão monetário apoiado em reservas de ouro é, agora, negado por lançar dúvidas sobre a capacidade de a dívida pública continuar sendo a dinamizadora do capitalismo bancado pela ficção monetária. Negação da negação.

O excesso monetário, expresso em eurodólares, petrodólares, nipodólares etc, transformou-se em perigo de estouros monetários e lançou sombrias previsões sobre o capitalismo financeiro impulsionado pela liquidez monetária estatal sem lastro.

Os governos americano(Ronald Reagan) e inglês(Margareth Thatcher), ao final dos anos de 1970, deram arrocho geral, especialmente, na periferia capitalista. Em 1979, os Estados Unidos quebraram essa periferia, quando subiu de 5% para 17% a taxa de juro, para enxugar o excesso de liquidez global, que afetava a saúde do dólar.

De 1980 em diante, diz Lauro, os países ricos cairam na armadilha da dívida na qual antes jogavam os países pobres.

Invariavelmente, os países capitalistas desenvolvidos, sempre que emergiam crises de sobreacumulação de capital, função fundamental do próprio capital, que ameaça, no limite, o capitalismo, davam um jeito de desovar os estoques de dinheiro em excesso, emprestando para a periferia em forma de dívida externa.

 

Instrumento de dominação internacional

 

Marx, no século 19, percebeu a jogada que os ingleses armavam contra os países capitalisas periféricos, e considerou a dívida externa instrumento de dominação internacional.

Num primeiro momento, disse, a dívida dinamiza a economia; no segundo, por criar crônica insuficiência de demanda, no processo de acumulação, via juros, joga a economia periférica em crise de realização. Advém, então, ajustes monetários que empobrecem a população.

A tendência de transportar as crises de sobreacumulação do centro para a periferia se inverteu a partir da crise monetária dos anos de 1980, destaca Lauro em “Moeda e mercadoria: metamorfe e crise”. Como a subida brutal dos juros nos Estados Unidos, em 1979, quebrou a periferia, a prioridade do governo americano, na ocasião, foi a de evitar a quebradeira dos bancos americanos que possuiam negócios no Brasil e nos demais países capitalistas endividados da periferia.

O Consenso de Washington e o FMI passaram a agir coordenadamente para impor a nova ordem do unilateralismo econômico americano: liberar, desregulamentar, afrouxar geral para os rentistas, privatizar e arrochar a sociedade, para que, gastando menos, pague mais juros, via pesados superavits primários.

Em vez de entrar dinheiro, na periferia, o jogo armado foi o de tirar grana dela, quanto mais, melhor, para salvar os credores, que haviam emprestado demais, do sufoco.

Enquanto isso, na Constituição, os credores, com a ajuda intelectual do deputado Nelson Jobim, constituinte, hoje, ministro da Defesa Nacional, impunham sua vontade na nova ordem, expressa no art. 166, parágrafo terceiro, letra b, da Constituição de 1988. Aí está fixada a cláusula pétrea defensora do não contingenciamento de recursos orçamentários para liquidação dos serviços da dívida pública interna. 

Constitucionalmente, sob pressão dos Estados Unidos, a dívida pública brasileira se transformou no melhor negócio especulativo do planeta capitalista. Nesse ambiente, o crédito para os países da periferia escassearam. Só vinha para a jogatina na dívida pública, regada pelos juros mais altos do mundo.

Apesar dessa mamata, que criou, no Brasil, a chamada república bancocrática(Lauro Campos), ainda sobrava muito dinheiro nos países capitalistas ricos, para especulação desenfreada.

Onde iria se reproduzir? Não foi. Ficou no capitalismo cêntrico, mesmo. Surgiram as destruições financeiras, não mais na periferia, mas no centro do sistema.

 

A era da irracionalidade econômica

 

Como reproduzir a montanha de moeda que passou a acumular no capitalismo cêntrico, depois da crise monetária de 1980, enquanto no capitalismo periférico os capitais se escassearam diante do enxugamento neolibeal brutal?

Os ecomistas americanos e europeus, com a ajuda dos colegas no terceiro mundo e de uma imprensa que renunciou à crítica capitalista neoliberal, tiveram então que criar situações para ampliar a reprodução do capital a partir do próprio dinheiro acumulado. 

Depois dos eurodólares, dos petrodólares, dos nipodólares, nascidos no pós-guerra, sob o reinado do dólar,surgia, agora, os dólares derivativos, os derivodólares.

A totalidade dos derivodólares não poderia ir mais para a produção. Geraria deflação, jogando os preços para baixo, sob capitalismo, que precisa de relativa escassez para gerar tensão entre produção e consumo, de modo a elevar os preços e os lucros, na economia real.

Entretanto, como a economia real, desde a crise de 1929, tornara-se insuficiente para a reprodução ampliada do capital, tornou-se necessária a economia fictícia. O derivodólar caia bem.

Os dólares derivativos começaram, nesse período, pós crise monetária dos anos de 1980, a apartecer, para exercitar a função especulativa de esquentar negócios, gerando capitalismo de desastre, como destacam os economistas canadenses. Cassino global.

Nos anos de 1990, ressalta o ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Alan Greenspan, em “A era da turbulência”, a economia americana viveu aureo período de exuberancia irracional. Foi além da propria responsabilidade. Abusou do dinheiro. Mas, como este não aceita abuso, agora, deu o troco violento.

A crise imobiliária é apenas o último elo de uma cadeia que vem rebentando há mais de dez anos, sinalizando ciclos cada vez mais curtos de desastres.

O excesso de capital no centro, que não se deslocou para a periferia, é a volta do chicote no lombo de quem mandou dar.

O modelo keynesiano suportará dose maciça de sangria monetária estatal, para enxugar o excesso de liquidez que os dólares derivativos espalharam pelo planeta em montantes incalculáveis, ou sua capacidade, assim como a do neoliberalismo, para dinamizar a demanda global, exauriu-se?

Serão suficientes os 700 bilhões de dólares que o tesouro americano jogará no mercado para dar liquidez à atividade econômica, paralisada pelo empoçamento do crédito, que escasseou geral, dada a desconfiança no mercado bancário dos próprios bancos entre si, sabendo-se que estão todos quebrados?

A primeira grande crise monetária do século 21 demonstra claramente que o capitalismo não está mais nas mãos das forças produtivas, deixadas a si mesma, mas de posse da política estatal leninista, que influencia, nesse momento, decisões de W. Bush.