Lula e Chavez à sombra de Vargas

 

Sempre que  o presidente Hugo Chávez menciona de modo elogioso o ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas em suas freqüentes visitas ao Brasil, as reações são variadas. Convenhamos,  para os brasileiros é raro ouvir de um dirigente revolucionário de esquerda, socialista, que cita Marx, Engels e convida à leitura de Trotsky, elogios ao papel histórico desempenhado por Vargas. Há reações de surpresa, outros reagem com incompreensão, há também desconcerto e até mesmo de discordância. Mas, mesmo assim, o presidente venezuelano tem razão ao colocar Vargas na História da América Latina como um líder nacionalista, antiimperialista e responsável pelas mais profundas transformações sociais progressistas que mudaram a cara do Brasil. Não por acaso, o presidente Lula assinou decreto criando a Semana Vargas, destinada a divulgar a obra e o pensamento do líder anualmente, oportunidade em que afirmou ter sido aquele o mais importante presidente brasileiro. Portanto, mais uma concordância entre Lula e Chávez.

 

A própria relação atual entre Brasil e Venezuela produz algumas significativas respostas para as reflexões que os discursos de Chávez  suscita. Os dados indicam um crescimento vigoroso nesta relação, especialmente das vendas brasileiras para o país caribenho-andino-amazônico,  dividindo parte do empresariado brasileiro que não sabe se comemora e apóia a intensificação desta cooperação bilateral ou se segue as orientações intervencionistas emitidas da Casa Branca para que seja vetado o ingresso da Venezuela no Mercosur, buscando transformar Chávez numa ameaça à democracia, sem que haja sustentação factual para tal rotulação propagada arbitrariamente pela mídia controlada pelos anunciantes transnacionais. Neste caso, vale citar declarações de Lula, do alto de sua popularidade:  “o que há na Venezuela é democracia demais!”.  Com uma pecualiaridade que deve merecer atenção mais acurada. Sendo a economia mais desenvolvida do continente sul-americano, o Brasil está possibilitando à Venezuela ter acesso a um conjunto de bens, tecnologias e serviços que, dada sua posição política, talvez fosse mais difícil de obter se procurados, por exemplo,  nos EUA. Registre-se as dificuldades que o bloqueio impõe a Cuba nesta matéria. Os EUA recusam vender aviões a Venezuela. Com oBrasil, a relação tem permitido a instalação de condições para queimar etapas e a Venezuela,  numcurto espaço de tempo vem operando algumas fases de seu próprio desenvolvimento não realizadas antes em razão do pensamento retrógrado, parasitário e colonizado dos dirigentes políticos que comandaram esta verdadeira fortaleza petroleira até a chegada de Hugo Chávez ao poder,

 

                                      A “maldição do petróleo”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não é simples enfrentar a “maldição do petróleo” pela qual países ricos no mineral sofrem intervenções imperiais, golpes de estado, têm seus presidentes levados à morte, como Vargas, e são impedidos de transformar a receita petroleira em alavanca de desenvolvimento para seus povos. Como agora proclama o presidente Lula face à estupenda descoberta de um mar de petróleo, desde já alvo de pressões e tentativas de manipulações pelos poderosos interesses que quebraram o monopólio estatal do petróleo criado na Era Vargas e forçam para uma desnacionalização desta nova riqueza. Lula chegou a ir até a sede da UNE convocando os estudantes a saírem às ruas para uma nova campanha “O petróleo é nosso”…. E tem anunciado que este petróleo novo será industrializado aqui mesmo e será usado em proveito do povo brasileiro, não de meia dúzia de transnacionais. É o Lula retomando Vargas.  Na Venezuela, a  “maldição do petróleo” condenou aquele país riquíssimo a uma atrofia sócio-econômica por décadas, pois, apenas o setor petroleiro se desenvolveu, mas em benefício das camarilhas colonizadas pelo império, impedindo o desenvolvimento global do país,  sua infra-estrutura, sua industrialização, suas políticas públicas, sua legislação trabalhista, sua cultura soberana. O caso da Venezuela é dos mais graves e mais emblemático: era tal o nível de submissão e vassalagem das oligarquias que dirigiram o país antes da República Bolivariana, que as reservas petroleiras venezuelanas eram consideradas como reservas nacionais …. pelos governos norte-americanos! Contavam com elas em seus cálculos de política energética interna! Chávez deu um basta a esta era de rapina colonialista e isto explica o ódio que desperta nas camarilhas entreguistas venezuelanas  –  pelas quais está jurado de morte   – que sempre se sentiram “maiameiras”, de voracidade insaciável.  Por isso, o petróleo venezuelano sustentou o padrão de consumo norte-americano, asfaltou as avenidas de Washington e Nova York, suas guerras, mas o povo venezuelano era obrigado a viver em “en las casas de cartón” como no vigoroso canto-denúncia de Ali Primera, hoje o cantor oficial do processo revolucionário venezuelano, embora morto em 1986, em circunstâncias que levantam fortes dúvidas.

 

                                      A Era Vargas e a Venezuela

 

A oligarquia da Venezuela registrava um dos mais elevados consumos de caviar e champanhe do mundo,  mas não fabricava fósforos, não possuía sequer economia agrícola, apesar da exuberância de suas terras, clima, água e da enorme quantidade de mão-de-obra atirada no abismo do desemprego, devorada por uma gigantesca  criminalidade que só agora vem sendo realmente combatida  de verdade, através da industrialização , do desenvolvimento agrícola e das obras de infra-estrutura, capazes de gerar emprego em massa. Nesta empreitada o Brasil é importante parceiro da Venezuela. É neste ponto que se revela a atualidade de Vargas, o que dá razão às constantes referências que Hugo Chávez ao ex-mandatário brasileiro, que, acossado por um golpe orquestrado pelo capital externo contra seu governo nacionalista, preferiu dar um tiro no peito a aceitar ser deposto.

Fica claro que o Brasil só pode hoje desempenhar este papel de ser uma alavanca para o desenvolvimento venezuelano,  para que as etapas de desenvolvimento não realizadas em função da “maldição do petróleo” sejam agora recuperadas sob uma direção revolucionária, como num processo de revolução permanente, graças a uma estrutura instalada e consolidada pela Era Vargas no Brasil e que mesmo a fúria dos governos da privataria não conseguiu demolir totalmente. É com financiamentos do BNDES  –  banco estatal de fomento, um dos maiores do mundo,  criado por Vargas  –  que são realizadas obras de grande porte na pátria de Bolívar, tais como a expansão do metrô de Caracas, a kilométrica ponte sobre o Rio Orenoco e agora o apoio à produção agrícola. As parcerias entre a Petrobrás  –  empresa criada por Vargas e que foi provavelmente o motivo maior da sua dramática morte, como ele diz em sua Carta Testamento  –   e PDVSA, também só podem ser viabilizadas graças à sólida estrutura estatal que sustenta estas duas grandes alavancas de desenvolvimento, sendo que o processo de recuperação da soberania venezuelana sobre a PDVSA é um forte estímulo para que providências com o mesmo sentido sejam  urgentemente adotadas no Brasil, agora alvo maior de cobiça pelos novos campos de petróleo descobertos, para a plena recuperação do controle nacional sobre a Petrobrás, tal como era a vontade de Vargas, não sem razão, citado por Chávez.

 

                            A ameaça está em outro lado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem a industrialização brasileira da Era Vargas, sem a estruturação do Estado Nacional, sem a implantação de instrumentos desenvolvimentistas como o BNDES, não teria surgido no Brasil ferramentas como a a Petrobrás, a Vale do Rio Doce, a CSN e, mais tarde, a Embrapa, que hoje, sob acertada orientação de Lula, cumpre decisiva função para ajudar a Venezuela a recuperar os anos perdidos de sua economia agrícola  durante a prevalência da “maldição do petróleo”. Somente agora pode a Venezuela falar com realismo em conquistar a meta da soberania alimentar, supondo-se que o governo Chávez esteja atento para impedir a captura da agricultura venezuela em expansão pela oligopólica das sementes transgênicas. Vale assinalar ainda que a Venezuela compra 100 milhões de litros de etanol por ano do Brasil para reduzir a poluição da gasolina. Assim, o que se nota é que os setores produtivos vão se interligando, tal como na eletricidade venezuelana da usina de Guri que abastece Roraima, sendo esta a única “invasão”, muito benéfica ao nosso povo por sinal, para o desespero  dos setores mais conservadores no espectro político brasileiro, que querem inventar a “ameaça Chávez”.

 

Enquanto responsavelmente a Venezuela fortalece sua defesa, o Ministério da Marinha do Brasil reconhece que não tem condições  de proteger nosso petróleo de algum “espertinho”, como disse Lula com realismo,  ao tempo em que liberou concretamente recursos para a construção do submarino nuclear brasileiro. Está claro que não é da Venezuela que o Brasil tem que se defender, há outros países poderosos que historicamente sempre rapinaram, à mão armada, o petróleo de outros povos. Basta olhar a história…. É contraditório também reconhecer, como fazem os pensadores militares preferidos da mídia conservadora,  que o Brasil sim tem necessidade urgente de reconstruir sua defesa demolida e recriar uma indústria militar para defender sua soberania, mas acusar Chávez de fazer o que se pretende fazer aqui. Diante das reiteradas críticas deste setor a Chávez, resulta  curioso o silêncio mantido ante o impressionante armamentismo da Colômbia, que acaba de receber 600 tanques dos EUA, supostamente para se “combater a guerrilha”. Combate-se guerrilha com tanques??? Afinal, Chávez é uma ameaça ou é um exemplo do que deveria ser feito para recuperar soberania aqui?  Ou não será exatamente por ser um exemplo é que se torna uma “ameaça” para os que querem impedir uma indústria militar ao sul do Equador?

 

                           Integração e cooperação

 

O ideário de Vargas estava rigorosamente presente no mais recente encontro de Lula e Chávez em Manaus. Ante perguntas da imprensa sobre como enfrentar a crise financeira do capitalismo os dois mandatários coincidiram na condenação da irresponsabilidade do fundamentalismo econômico que transformou economia em cassino. E também quanto à necessidade de desenvolver o mercado interno, expandindo a economia real, verdadeira, produtiva, e  consolidar a integração sul-americana, pois, conforme ressaltou o presidente brasileiro, “como maior economia na região o Brasil tem obrigação de ser solidário com os países de economia mais frágeis, para que todos cresçamos juntos”  Desde Vargas não se ouve um presidente do Brasil falar com semelhante lucidez e visão estadista.  Foi preciso um operário chegar ao Palácio do Planalto para que a política externa brasileira superasse a fase da diplomacia de pés descalços do ex-chanceler Celso Lafer e  reaprendesse a praticar os conceitos de soberania, independência, solidariedade e desenvolvimentismo. Tudo junto, seguindo o estabelecido na Constituição Brasileira, muito citada, mas nem sempre cumprida: a integração latino-americana é objetivo da Republica Federativa do Brasil. Assim como os elogios de Chávez a Vargas, também produziram desconcertos as declarações de Trotsky que, em 1938,  considerava positivamente  os processos nacionalistas de Vargas como de Cárdenaz, que lhe concedeu asilo no México. Para Trotsky eram como uma espécie de “bonapartismo suy generis, com conteúdo progressista”, chegando mesmo a recomendar que diante de um eventual conflito entre Brasil e Inglaterra, os revolucionários deveriam posicionar-se ao lado do Governo Vargas, mantendo sua independência crítica, contra o imperialismo inglês. Não por acaso Chávez recorda tanto Trotsky, quanto Vargas, numa espécie de síntese das forças históricas que apontavam para o progresso naquela etapa.

 

                   O Banco do Sul e a nacionalização dos seguros

 

 

 

Diante dos excelentes resultados que a relação bilateral Brasil-Venezuela, animada por uma madura relação dos dois presidentes, apesar da alta dose de intrigas midiáticas de que tem sido vítima,  soa realmente  incompreensível a insistência de segmentos importantes da sociedade brasileira, particularmente no estamento militar,  em rejeitar este processo de crescente cooperação entre estes dois países, cujo passo seguinte, muito provavelmente, desaguará na incorporação da Venezuela ao Mercosur. Que os interesses imperiais se oponham a este curso cooperativo é compreensível. O império quer submissão, incomoda-se com qualquer cooperação, sobretudo, quando dela está ausente, quando nela não dá as ordens e quando ela fortalece a emergência  de um novo mapa geopolítico regional, mas também internacional. Os empresários brasileiros que têm hoje extraordinárias oportunidades de vender equipamentos, serviços e tecnologia para a Venezuela, não possuem qualquer objeção lógica para rejeitar o ingresso da Venezuela no Mercosur. É meio suicida capitalista que não quer expandir mercado….Ao contrário, hoje os sinais de turbulência e instabilidade partem da economia norte-americana, cuja predominância sobre as operações  brasileiras foi providencialmente reduzida, por uma opção política que questionou, embora timidamente,  o “fundamentalismo de mercado”, e encoraja o fortalecimento de relações sólidas com as economias da América do Sul, recomendando apostar num novo curso de desenvolvimento regional, marcado pela integração, inclusive com a adoção de instituições financeiras e até mesmo de moeda própria, tal como o já criado Banco do Sul, lamentavelmente ainda não em operação.

 

 O Banco do Sul  oferece a oportunidade de depositar as reservas sul-americanas em porto mais seguro que os instáveis bancos do centro da economia virtual e especulativa, onde a moeda, o dólar, vem sendo emitida sem qualquer lastro. Todos estes foram problemas analisados por Vargas que sempre os encarou a partir de um projeto soberano para o Brasil e para a América Latina também. E diante das sombras imprevisíveis na economia dita desenvolvida, vítima se seu próprio veneno, cabe estranhar a demora injustificável para a instalação definitiva do Banco do Sul no qual os países que têm ativos reais, riqueza física, poderiam resguardar mais eficientemente suas reservas e emprega-las apenas em projetos de desenvolvimento cooperativo com efeitos benéficos para o conjunto da região que já deu sinais políticos nítidos, pela mobilização de seus povos,  de não querer mais aceitar  viver sob “a maldição do petróleo”.

 

Face à necessidade de adoção de medidas protetoras da economia nacional, cabe pedir reconsideração da quebra do monopólio estatal dos seguros e resseguros, instrumento criado na Era Vargas ante a ameaça das turbulências da guerra  e agora injustificavelmente anulado, permitindo a contaminaçào de seguradoras transnacionais envoltas no “cassino irresponsável” condenado pelo próprio Lula, que sancionou a lei. Ainda é tempo.

 

De todo modo, é salutar que pela palavra instigante do presidente Hugo Chávez se renove o debate e a consciência sobre a importância da Era Vargas para o desenvolvimento autônomo brasileiro, cujos efeitos se fazem notar na alavancagem que alguns daqueles instrumentos varguistas exercem hoje para que a Venezuela supere mais rapidamente  –   já como território livre de analfabetos  –    a herança nefasta deixada pelo não-desenvolvimento programado de quando esteve sob a era da rapina apelidada de “a maldição do petróleo”.

 

 

 

Euro desbanca dólar

 

O governo inglês colocou o euro na vanguarda da nova estratégia monetária global para conquistar confiança dos mercados ao estatizar os bancos, botando dinheiro governamental na capitalização deles, tornando, ao mesmo tempo, seus sócios.

O velho capitalismo inglês se transformou num novo socialismo britânico. Socialismo fabiano?

O dólar perdeu a capacidade de exercer essa tarefa fundamental de forma absoluta. A moeda americana, em excesso na praça, graças à explosão especulativa com os dólares derivativos, deixou de ser referência, dada a desconfiança que levantou em sua saúde, perdendo preço, jogando o mercado na incerteza.

Com a falência dos bancos americanos, cheios de dólares derivativos podres empoçados, sem poder desovar, restou a necessidade de pintar nova representação monetária que subsituisse a moeda americana, desvalorizada, desacreditada, impulsionadora de desconfiança, cuja representação desgastou-se, no compasso dos deficits gêmeos americanos. Estes, ao longo dos anos, foram lançando dúvidas e temores na praça sobre a capacidade do tesouro dos Estados Unidos de continuar enxugando a liquidez monetária derivativa dolarizada apodrecida, para evitar explosão inflacionária.

O que os ingleses perceberam? Que se Tio Sam jogasse mais dinheiro na circulação, já excessivamente encharcada de dólar derivativo, derivodólar, poderia dar chabu. As três últimas semanas de terremoto financeiro apenas confirmaram a impossibilidade de ser mantido o poder absoluto da derivação monetária dolarizada. A moeda americana se tornou absolutamente relativa no papel de representar as mercadorias nas relaçoes de trocas globais, na escala capaz de sanear o mercado afetado por moedas podres.

O mercado vomitaria o excesso de dólar? Essa dúvida impediu o secretário de Estado Henry Paulson, dos Estados Unidos, de ser ousado. Ficou com pé atrás.

Teria credibilidade a máquina do tesouro de Tio Sam para fabricar 2,5 trilhões de dólares para subsituir 2,5 trilhões de dólares derivativos podres, se os papéis emitidos, na prática, não possuem lastro real, dado pela confiança?

 

Árabes começaram processo de fragilização

Tal possibilidade poderia, por outro lado, não acontecer com o euro, alvo do interesse , principalmente, dos árabes, donos do petróleo. Foram eles que iniciaram o movimento de saída do dólar para o euro, como forma de fugir da inflação em moeda americana.

Como o petróleo é cotado em dólar e como os árabes precisavam importar produtos cotados em euro, tiveram, consequentemente, de aumentar seus preços, como forma compensatória, a fim de manter constante sua margem de lucro. Caso contrário, dançaria nas trocas cambiais.

Fugiam da inflação em euro, mas, ao mesmo tempo, lançavam o germe da inflaçao em dólar, fragilizando esta e lançando, consequentemente, alternativas para criar, no espaço econômico global, possibilidades de emergência de novo equilavente monetário global.

Tal movimento detonou pressões inflacionárias globais, cujo resultado  produção desmoralização adicional do dólar. Ficou cada vez mais claro que a mercadoria petróleo, tão disputada no mercado global como o próprio dinheiro, passou a buscar referência no euro para fugir de perdas com a moeda americana. Detonaram, dessa forma, os árabes o movimento inflacionário especulativo global.

Se a grande mercadoria via sua nova representação no euro, moeda européia, por que as demais não se comportariam da mesma forma, estando por trás delas astúcias comerciais e financeiras de grandes investidores na praça internacional?

Nova correlação de forças do poder monetário global

A fuga do dólar para o euro gerou movimento especulativo com a moeda americana em todas as direções, sabendo o mercado que o excesso dela, proveniente das ações maquinadas pelos bancos de investimentos, por meio de engenharias financeiras reprodutivas-especulativas-monetárias, teria como resultado final o óbvio: o descrédito do dólar.

Agora, no auge da crise monetária, em que os europeus resistem em jogar dobradinha com o dólar, preferindo apostar na sua moeda, o jogo ficou bruto e cristalino.

O euro entrou em cena, de forma fulminante, com a jogada estratégica dos banqueiros ingleses, que decidiram , pela ação política do primeiro ministro Gordon Brown, impor nova correlação de forças no mercado monetário global.

A Europa, que havia perdido o poder monetário, depois da segunda guerra mundial, para os Estados Unidos, que, com o dólar, então forte, criou nova divisão internacional do trabalho e nova senhoriagem nas relações cambiais internacionais em favor dos americanos, volta a dar as cartas no mercado cambial internacional. Os americanos, depois de perderem o mercado de bens e serviços para outras praças, como a chinesa, perde, também, o mercado de dinheiro. Sua moeda, desacreditada, é ultrapassada pelo euro.

A relatividade do poder do dólar, em baixa, dá lugar à relatividade do euro, em ascensão.

Se o mercado poderia refugar uma jogada tão ousada como a inglesa, se fosse, primeiramente, tentada na praça america, com o dólar, sob descrédito, com o euro ocorreu o contrário. Um trilhão de euro deu aquele gás que o dinheiro americano perdeu, depois do processo doloroso das votações no Congresso sobre a proposta da Casa Branca de salvar a praça bombardeada pela enchente dos derivodólares apodrecidos.

Sabedoria financeira inglesa entrou em cena

Os ingleses, velhacos de guerra, entraram no vácuo deixado pelo dólar desacreditado e fizeram a grande experiência do século 21, no plano monetário, por enquanto. Isto é, colocam o euro como a nova representação monetária internacional, que tenderia a ser o novo equivalente geral das trocas internacionais, dando partida a uma nova concertação econômico-financeira global.

O dólar, sozinho, poderia não dar conta do recado, saindo de peito aberto na praça. O euro deu. Agora, o jogo, na mesma linha, realizado pelo tesouro americano, ou seja, destinando dinheiro para estatizar os bancos, estão não inovando, mas copiando a manobra inglesa.

Os europeus demonstram força para dar lastro ao euro com o seu grande mercado consumidor. Caso não pintasse a união da Europa, nesse momento crucial, não teria sido possível relançar o germe da confiança.

Com a estratégia européia, dada pela jogada política inglesa, de grande intensidade, com dinheiro especulativo, já que está por trás dele, apenas, a credibilidade e a crença dos 13 governos europeus, inicia-se novo cenário monetário internacional, no compasso da bancarrota financeira. O poder de representação da moeda americana ficou abalado e o do euro fortalecido.

EUA vendem UE e compram BRICs

 

A primeira grande crise monetária do século 21 coloca os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – como principais alvos de desejo do neo-semi-falido Tio Sam, que abandona a neo-semi-falida Europa às traças financeiras destrutivas.

Numa nova concertação monetária poderia pintar a moeda BRICs, sigla inventada pelo banco Goldman Sachs, no estudo “Dreaming with BRICs: the path of 2050”, em que prevê, nos próximos 40 anos, a predominância desse novo grupo no cenário global, deslocando os outrora poderosos absolutos, Estados Unidos e Europa?

O Grupo dos 7 mais ricos(EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Japão e Canadá), que se reuniu, na sexta e no sábado, em Washington, mostrou o óbvio: os ricos europeus não sacariam parte de suas reservas para salvar os Estados Unidos, baleados, na crise, fazendo dobradinha entre o Banco Central Europeu(BCE) e o Banco Central Americano(BCA), para resgatar títulos podres dos bancos falidos.

Resultado: fracasso da reuniâo. O Grupo dos 7 – são eles os patronos do unilateralismo e, não apenas, os americanos – esfarelou-se.

A Europa se recolhe para lamber feridas abertas

 

Os europeus, largados por Tio Sam, voltaram, correndo, para casa, partindo para ação emergencial conjunta – arrumar algo em torno de 2,3 trilhões de dólares(1 trilhão de euros), para irrigar o sistema financeiro europeu em bancarrota – , para não entrarem em crise política aguda.

Se estavam, inicialmente, tendentes a cada um ir para o seu canto, dentro da comunidade européia, depois do fracassado encontro de Washington, na tentativa de coordenação entre os ricos, para agirem conjuntamente, alarmaram-se diante da possibilidade de ficarem sós. No calor da crise, os líderes europeus sentiram a barra. Não haverá saída para eles, senão agirem, conjuntamente, CQC, custe o que custar.

Como, isoladamente, faliram, restaram-lhes, financeiramente, ampliar a união europeia, mesmo que a institucionalidade política do continente não tenha ainda vigando inteiramente. Ela se tornou imperativo categórico.

Do contrário, poderão pintar, nos países europeus, individualmente, tendências políticas nacionalistas variadas em seu conteúdo ideológico, como resposta radical da ira popular contra os governos irresponsáveis que levaram a economia ao desespero especulativo, suspendendo regras e regulamentações, cujo efeito é pobreza reltiva emergente.

Hitler surgiu depois da crise monetária de 1931, na Europa, começando pela Austria, espalhando, em seguida, por todo o continente, gerando tendências fascistas e nazistas irresistíveis.

Repetiriam os líderes europeus a dose hitlerista, como reação ao avanço do pensamento socialista, sintonizado com a pregação de Lenin de que as crises monetárias são parteiras do socialismo?

Se a União Europeia fracassasse, agora, novos hitleres poderiam botar a cabeça de fora. A Europa unida poderia impedir avanço do nazismo. Favoreceria o socialismo, de forma controlada, numa nova versão avançada da social-democracia, em versão avançada relativamente à moda chinesa?

 

W. Bush jogou os europeus a sua própria sorte

 

O presidente W. Bush, parece, jogou calculado. O que teria a ganhar, entrando no barco furado europeu, a menos que a Europa colocasse grana na praça americana, para ajudar Washington a pagar os pepinos da bancarrota do dólar derivativo?

O que tem a Europa a oferecer, se não tem mais grana? Petróleo? Alimentos? Metais? Só teria tecnologia e cultura. Esta, rica, única; aquela, avançada, porém, democratizada, patrimônio de todos, não apenas europeu.

Como o titular da Casa Branca percebeu que não tiraria mais carne do osso, correu, então, para os braços do Grupo dos 20. O semi-falido esfarrapado Tio Sam, no sábado, à noite, no meio dos emergentes foi histórico. Ficou entre os quatro mais ricos em ascensão, os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China. Somados, correspondem a quase 25% do PIB mundial. Tio Sam detesta pobre e adora rico.

Aos europeus, neo-semi-pobres, tchau; aos emergentes, neo-ricos, olá, gente!

W. Bush pontificou ao lado dos ministros dos países em desenvolvimento demonstrando que são eles a companhia que, realmente, interessa ser cultivada pelos Estados Unidos. O ministro Guido Mantega, da Fazenda, colocará o retrato na parede. Como presidente pró-tempore do G 20 ficou de peito cheio ao lado do falido Tio Sam. História.

A Europa ficou para trás. Perdeu serventia para os americanos. Afinal, os europeus não podem mais continuar bancando o financiamento de parte importante do deficit americano de 6% do PIB dos Estados Unidos, algo em torno de 800 bilhões de dólares de um total de 13 trilhões de dólares. Esse jogo foi possível de ser jogado desde Bretton Woods, em 1944, quando Washington, com o dólar todo podereso estabeleceu a nova divisão internacional do trabalho. O dólar de hoje é uma sombra daquele passado glorioso.

Se os governantes europeus, no contexto da destruição monetária, continuassem bancando o jogo de sustentar parte dos deficits americanos, adquirindo títulos da dívida pública lançados pelo tesouro dos Estados Unidos, tendo como lastro o dólar deslastreado, fictício, provocariam crises políticas agudas, dada a consciência política desenvolvida européia. Por que salvar os americanos, se os europeus estão em processo de autodestruição?

Por outro lado, para os europeus, não teria sentido continuarem financiando os déficits americanos, se não haverá possibilidade de a economia européia prosseguir acumulando superavits comerciais na praça americana, em processo de esfriamento no compasso da grande crise monetária.

Se o que está pela frente é a recessão, o mercado americano não absorverá as mercadorias européias na escala necessária para permitir que a Europa continue, como vinha fazendo desde o pós-guerra, financiando Washington.

Neo-divisão internacional do trabalho à vista

Os Estados Unidos, no pós-guerra, com o dólar forte, promoveram divisão internacional do trabalho cuja configuração ficou clara: a moeda americana passaria a ser o equivalente universal nas relações de troca, impondo deterioração nos termos destas em favor dos EUA.

A economia americana seria francamente importadora do mundo, gerando superavit comercial na Europa e na Ásia, para salvar o capitalismo europeu e asiático das garras do comunismo. O Plano Marshall foi isso.

O preço a pagar pelos aliados seria o financiamento dos déficits americanos com o dinheiro adquirido com os superavits comerciais europeus e asiáticos. Jogo de duas mãos.

Tal preço representava a garantia de o capitalismo, super-armado com bombas atômicas e nucleares, ganhar a parada política, econômica e militar da URSS, enquanto era sustetanda a guerra fria e as demais guerras que viriam pela frente como a do Vietnam etc.

Quando os americanos, em 1979, diante a moeda ameaçada pela inflação decorrente do excesso dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, petrodóalres, nipodóares, na praça global, subiram a taxa de juros de 5% para 17%, quebrando a periferia capitalista, para dar sustentação e confiança à moeda equivalente geral nas trocas comerciais globais, o ex-ministro Delfim Netto, no governo Figueiredo, entendeu o jogo: “É o preço que os Estados Unidos cobram para sustentar a democracia representativa e a segurança do mundo contra os comunistas”.

E agora?

A nova ordem relativa do poder estabelecido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A bancarrota financeira global atual mostra quadro inverso. Os Estados Unidos, exaustos de tantos déficits gêmeos, como custo de sustentação do capitalismo global, gastando em consumo e armamentos, à moda keynesiana, abriram o bico.

Não têm mais gás para bancar, com rítmo acelerado, a economia de guerra.

Se a Casa Branca está gastando o que não pode para comprar títulos podres na praça americana, a fim de evitar quebradeira geral não apenas dos bancos, mas dos contribuintes, como continuar financiando guerras caras, como a do Iraque, que já consumiu mais de 2 trilhões de dólares, como destacou Josef Stiglitz, premio nobel de economia? 

Por não poder mais suportar elevados deficits, na escala necessária, capaz de puxar a demanda global, a partir da economia de guerra keynesiana, é de se prever que uma nova geopolítica-estratégica econômica e militar emerja no Oriente Médio, com o Iraque, fragilizado, sendo atraído para o Irã, enquanto Israel terá dificuldades de continuar se financiando no tesouro americano, preocupado com a guerra maior, interna, desatada pela bancarrota financeira. 

Sairia mais facilmente o Estado palestino? Tudo está virando de ponta cabeça.  

A Europa e a Ásia –  Japão, antes, e China, depois – poderão dizer não à continuidade do processo do pós-guerra. Ganharão o que, se o mercado americano vai dar uma esfriada legal?

Teriam que retirar das suas reservas acumuladas para financiar o tesouro americano. Sem capital de giro, enfiarão a mão no bolso?

As posições, de lado a lado, dos Estados Unidos e da Europa, ficaram rígidas. Os europeus, entregues à sua falta de segurança na ausência do mercado americano, em baixa, e resistentes a sacarem suas poupanças, que viraram pó, na crise, perceberam a necessidade de correrem do jogo proposto por Washington.

 

Chavez pode ir à Casa Branca baleada pela crise

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Casa Branca lavou as mãos e correu para conquistar os novos aliados, emergentes, que serão, também, alvos do interesse europeu. Os BRICs e a América do Sul têm muito mais a oferecer a eles do que eles aos BRICs e aos sul-americanos.

Surgem nova correlação de forças políticas e econômicas no cenário das trocas comerciais.

Os preços das matérias primas, das quais toda a manufatura global depende, tendem a aumentar, por serem, relativamente, escassos. Já os preços das manufaturas, por serem fartas, dado o aumento exponencial da produtividade, impulsionada pela ciência e tecnologia, colocadas a serviço da produção, tenderão a cair, relativamente.

Ou seja, os pesos relativos das matérias primas, de um lado, e os preços relativos das manufaturas, de outro, serão alterados em favor dos primeiros e em prejuízos dos segundos, como destacou o ex-presidente FHC em recente reunião com os tucanos em Brasília.

Nesse ambiente, os Estados Unidos se interessarão por uma nova ALCA, não com a cara que antes pretendia imprimir, ou seja, preponderância do discurso de Tio Sam sobre o quintal de sua suposta propriedade, a América do Sul, historicamente,  mas com a fisionomia nova, que os neo-aliados emergentes estabelecerem, na base do consenso.

A ira de Hugo Chavez contra Tio Sam pode dar lugar a uma flexibilidade na era pós-Bush. Da mesma forma, Tio Sam não terá mais vigor para impor a Cuba eterna discriminação, porque os aliados de Cuba, no continente, colocarão, na mesa, a exigência de supressão do bloqueio comercial contra a resitente e brava Ilha caribenha socialista fidelista.

América do Sul e Caribe, cujos ministros da economia, recentemente, se reuniram pela primeira vez, na história – conforme disse o ministro Celso Amorim ao repórter Roberto D’Avila – estão diante de novas possibilidades, prontas a sairam da condição de subordinação para a de coordenação dos seus interesses, fora das influências externas, a partir de um conjunto de interesses convergentes sul-americano-caribenho?

Nova configuração geoestratégica, portanto, coloca os Estados Unidos, não mais como aqueles que vê a América do Sul, a Ásia e a África, como dependentes de Washingotn, aliados menores, mas, maiores, isto é, caminhando para serem independentes de Tio Sam.

Tempo de subordinação abre para o de coordenação

A Casa Branca, como demonstrou W. Bush, na reunião do G20, quer ficar perto dos que têm a oferecer vantagens. Que vantagens a Europa oferece ao capitalismo americano? Os bancos europeus faliram. O mercado consumidor da Europa, para as mercadorias americanas, é insuficiente. Insumos básicos, nada. Enfim, mala sem alça. Igualmente, Tio Sam, para os europeus, virou  avião jumbo sem asas.

Otelo destesta Iago e Iago não tolera Otelo.

Já a America do Sul possui tudo o que os americanos desejam. O que vai ser mais vantajoso, de agora em diante, para a economia americana? A aproximação com quem tem bala ou a com quem está desarmado e falido, querendo comprar fiado?

Como vão precisar de energia em escala crescente, a fim de se livrarem da dependência do petróleo, que exige guerras, cujos custos não podem pagar, na escala em que sustentaram até agora, os Estados Unidos, como alternativa, ampliarão suas alianças com a America do Sul. Os BRICs são sua salvação.

Pode pintar, inclusive, como destacou Delfim Netto ao jornalista William Waack, a necessidade de o governo brasileiro impor uma tarifa de exportação sobre o álcool para evitar que toda a produção, nos próximos tempos, se destine ao mercado americano, colocando pressões inflacionárias sobre o mercado brasileiro de etanol.

A América do Sul estará preparada para viver novos contextos políticos altamente transformadores da mentalidade subordinativa histórica que as liderança sul-americanas, ancoradas nos velhos coroneis e em políticas industriais semi-integradas, dependentes, para incorporar-se do oposto, isto é, de mentalidade coordenativa, em torno da União das Nações Sul-Americanas?

Nova lider sul-americana diante de grandes desafios

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por que Michelle Bachelet, presidente do Chile e pró-tempore da Unasul, ainda não reuniu os líderes sul-americanos, para esse debate, depois de três semanas de terremotos financeiros globais, lançando novas sementes da ordem internacional?

A Unasul, que mostrou sua efetividade na superação parcial da crise boliviana, evitando destruição fascita do governo de Evo Morales, por uma oposição separatista disposta a ir ao extremo da radicalidade, terá pela frente a tarefa de coordenar a América do Sul no novo cenário global.

Trata-se de alcançar os propósitos sul-americanos maiores:  moeda sul-americana, banco sul-americano, segurança sul-americana, tribunal su-americano, parlamento sul-americano, que originarão pensamento sul-americano.

 Qual o lastro real sul-americano, no compasso da crise? A riqueza real sul-americana: biodiversidade infinita, petroleo – renovável e não-renovável – , metais, alimentos, terra, água e sol que garantem até três safra anuais etc. Ou seja, moeda que se sobrevaloriza diante da moeda equivalente internacional, o apodrecido dólar derivativo, que se sobredesvaloriza, pois seu lastro é, tão somente, ficção.

Crash capitalista impõe consciência ecológica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nos mesmos dias em que o mundo acompanhava, perplexo, o farto noticiário sobre as tentativas de conseguir no Congresso norte-americano a aprovação de um plano de US$ 700 bilhões para conter a crise financeira que já se espalhava por todos os continentes, a comunicação praticamente não deu nenhuma importância à notícia, divulgada pela ONG canadense Global Foot Print Network, de que no dia 23 de setembro a humanidade ultrapassara, este ano, o consumo de todos os recursos que o planeta pode produzir ao longo de 365 dias. A partir daí, ocorre um consumo de recursos e serviços naturais além do que a biosfera terrestre pode repor – um sobreconsumo que agravará a crise, pois aumentará a desertificação e a chamada crise da água, produzirá maior perda de florestas tropicais, gerará a emissão de mais poluentes que contribuirão para mudanças climáticas, etc.

 

Esse consumo excessivo, que começou a ser avaliado pela ONG em 1986, uma década mais tarde já superava em 15% a capacidade de reposição; em 2007, estava em torno de 25% e ocorreu a partir de 6 de outubro; este ano, a partir de 23 de setembro. É um sistema de avaliação semelhante ao utilizado no Relatório do Planeta Vivo, do WWF. Este, em 2006, já dizia que esse impacto – a “pegada ecológica da humanidade” – mais do que triplicara desde 1961 e já superava a capacidade de reposição em 25%.      

Certamente é uma crise mais grave ainda que a financeira, mas que continua a ser minimizada, quando não ignorada. Segue-se tratando da atual crise financeira apenas em termos de quanto afetará ou não o produto bruto mundial e o produto bruto de cada país, inclusive do Brasil, sem preocupação com o quadro de realidade concreta que nos cerca. Como se a crise se pudesse resolver apenas em termos de crescimento econômico. E vale a pena relembrar, nesse ponto, o pensamento, já mencionado neste espaço, do biólogo Edward Wilson, apontado como o cientista que mais entende de biodiversidade. Tenta-se, diz ele, acreditar que a solução para os dramas do mundo estará no crescimento econômico puro e simples. Então, pode-se partir da hipótese de que a economia mundial vá crescer 3,5% ao ano – um crescimento modesto, já que se almeja 5% ou 6%, até 10% ao ano, como na China. Se ela crescer 3,5% ao ano, partindo do atual produto global, superior a US$ 50 trilhões anuais, chegaria a 2050 perto de US$ 160 trilhões. Mas não chegará, porque não há recursos e serviços naturais capazes de suportar o aumento de consumo decorrente desse crescimento. Será preciso, adverte Wilson, encontrarmos formatos de viver e consumir compatíveis com as possibilidades físicas do planeta – até porque não há outro disponível (embora nosso ministro de Assuntos Estratégicos já ande acenando com essa possibilidade).

Faz falta, nessa hora, uma figura como o falecido José A. Lutzenberger, que foi secretário nacional de Meio Ambiente de 1990 a 1992. No seu livro Fim do Futuro, que é de 1980, ele já advertia que nos encontramos “num divisor de eras”: “A crise de energia e matérias-primas que hoje solapa os alicerces da sociedade industrial demonstra que os recursos desta nave espacial, o planeta Terra, são finitos. Esta crise refuta as premissas básicas da sociedade de consumo, com sua ideologia de expansão e esbanjamento ilimitados.” Lutzenberger sabia em que terrenos pisava: “Sempre nos acusaram e continuarão nos acusando de radicais, de líricos, quando não de apocalípticos. Apenas somos realistas. A realidade é grave” (foi exatamente como “apocalíptico” que uma revista de grande circulação o qualificou em título, ao anunciar sua ascensão à Secretaria Nacional do Meio Ambiente em 1990).

 

Mestre Lutzemberg previu o caos mas não foi escutado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pouco tempo depois, em 1981, ao dirigir-se a uma turma de universitários que o elegera paraninfo, ele insistia: “Nossa política desenvolvimentista, nossos modelos econômicos e tecnológicos são concebidos como se a natureza não existisse, ou apenas estorvasse, como se nós mesmos não fôssemos parte integrante dela, como se pudéssemos sobreviver à sua demolição.” Quem observa a atual crise financeira constata exatamente isso: seu descolamento da realidade física, a começar pelo mercado de hipotecas de imóveis nos EUA, cada uma delas negociada, renegociada muitas vezes, por valores que nada têm que ver com o concreto. Alavancado, como se diz no mercado. Se quiser, encontrará panorama semelhante nos mercados de commodities, nos quais a safra de um ano de determinado produto pode ser negociada e renegociada por muitas vezes seu valor real. E assim será em muitas áreas.

Lutzenberger seria utilíssimo também para nos ajudar a resolver o drama amazônico, que não sai das manchetes. Foi ele que acabou com os subsídios e incentivos fiscais que estimulavam a derrubada da floresta para plantar soja ou criar bois. Foi ele que mostrou a irracionalidade de inundar a floresta para gerar energia subsidiada destinada a produtos eletrointensivos que os países industrializados não querem fabricar, exatamente por causa do custo da energia. Foi ele que proibiu o Ibama de emitir guias que eram usadas muitas vezes cada uma, para transportar madeira extraída ilegalmente – e foi isso que lhe custou a saída da secretaria, em 1992, por pressão do lobby das madeireiras. Mas não é só. Lutzenberger também foi dos primeiros a fazer muitas contas que ficam escondidas até hoje debaixo dos tapetes (“temos de fazer contas de tudo”, dizia). Sobre as unidades de energia consumidas para produzir, por exemplo, carnes, e que são superiores às que estão no produto. Ou sobre a água consumida com a mesma finalidade.

São lições indispensáveis ainda hoje. Será inútil manter ilusões e retardar soluções verdadeiras. Teremos, a partir da crise financeira, de refazer as contas de tudo. Se não for assim, iremos de recaída em recaída. O que está em jogo são os formatos de viver. 

Artigo publicado em O Estado de São Paulo em 10.10.2008

Washington Novaes é jornalista
E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

Crise abala Lula e fortalece Serra

O presidente Lula e o governador José Serra emergiram como polos opostos na crise bancária mundial que ameaça a economia brasileira. Depois de a bancarrota financeira global detonar os pequenos e médios bancos, está levando para o abismo, também, as grandes e médias empresas, que estavam alavancadas na especulação.

Só não correm perigo, por enquanto, os grandes bancos, que estão sendo abastecidos pelos depósitos compulsórios, que utilizam, não para emprestar ao público, mas para comprar títulos do governo, sem contribuir para a formação da riqueza social.

Os tremendos tombos nos lucros especulativos dos empresários podem criar pânico no mercado brasileiro, se a situação internacional deterior-se, fortemente, como tudo indica que isso venha a acontecer, no compasso da primeira grande crise monetária do século 21, anunciando tempestades econômicas e políticas.

Nesse contexto, o governador de São Paulo, José Serra, sobressaiu atacando os juros altos e colocando-os em campanha eleitoral, enquanto o presidente ficou calado sobre o assunto, até agora, porque se tornou prisioneiro do custo elevado do dinheiro. 

Bancarrota empresarial e financeira à vista tenderia a abalar o presidente Lula, como está abalando os presidentes em geral, no espaço global. Já, Serra, livre atirador contra os juros altos, faturaria no cenário em que se instaurou o “Chaos”, rítmo jazzístico frenético de Wayner Shorter.

Grandes empresas como Sadia, Votorantim, Perdigão, Aracruz Celulose, na qual a Votorantim tem muitas ações, e muitas outras de expressão e peso na economia, com grande influência na saúde ou na doença da bolsa de Valores de São Paulo, concentrada numa totalidade não superior a 200 ações negociadas, certamente, nos próximos meses, baterão à porta do governo, pedindo socorro. Os clamores já estão percorrendo os corredores das federações de indústrias.

 

O hospital das grandes empresas nacionais entra em ação

 

 

O BNDES, velho hospital de empresas falidas, será chamado a exercer o seu eterno papel, de emprestar e perdoar, ao longo do capitalismo nacional, tocado pela concentração da renda, de forma abusiva, desde o desenvolvimentismo keynesiano-jusceliniano dos anos de 1950, seguindo com os militares, de 1964 até 1984, e paralisado, daí, em diante, durante a Nova República, detonada pelos efeitos da crise monetária dos anos de 1980, que instaurou o neoliberalismo jurista estagnante.

As empresas caíram na armadilha dos juros altos. Aplicavam uma parte dos seus resultados na especulação, para obter alta lucratividade, como forma de compensar a baixa lucratividade relativa na produção, afetada pelo jruo composto extorsivo.

Os lucros especulativos complementam os insuficientes lucros produtivos. Estes não sobrevivem sem aqueles.

Conseguiram as empresas, dessa forma, sustentar a taxa de lucro média em ascensão. Caso contrário, se ficassem só na produção, suportando no lombo o prolongado sacrifício, teriam sucumbido à concorrência internacional.

Como suportar tal competição, se na Europa, Ásia e Estados Unidos os juros estão caminhando para serem negativos, descontada a inflação?

 

Desequilíbro se instala na economia especulativa

O jogo de equilíbrio das empresas entre especulação e produção foi para o espaço com a emergência da crise bancária. 

Enquanto nas atividades produtivas, no ambiente da concorrência, a margem de lucro nunca supera a casa dos 10%, ficando na média de 7,5%, e olhe lá, nas atividades especulativas, o lucro se situa(va) no  invejável dos 25% ao 30%. Na média, entre especulação e produção, as empresas lucravam 15% a 20%.

Sem os lucros especulativos, poderão perder tudo.

O jogo da especulação foi, brutalmente, interrompido. Os empresários e os especuladores jogavam no dólar futuro para fazer lucro no presente, em real, multiplicado nos juros altos internos.

Estavam comprados no dólar barato que subiu violentamente de preço. Ficaram como o turista que se encheu de dívida no cartão de crédio no exterior com o dólar barato, que vira dólar caro com a desvalorização da moeda nacional repentina. Facada.

O grupo Votorantim, do grande empresário Antônio Ermírio de Moraes, histórico investidor na produção, não titubeou diante do jogo especulativo no tempo das vacas gordas. Abriu seu próprio banco. Foi participar do jogo do crediário em todas as direções, nos investimentos especulativos e no crédito direto ao consumidor. Alanvacou com Arquimedes, o grego. Os lucros bancários passaram a ganhar dimensão equivalente aos lucros obtidos pelo grupo na produção e comercialização oligopolizada do cimento.

Assim, como o grupo Votorantim, outras grandes empresas desenvolveram a bissexualidade empresarial brasileira: faturar prá frente, na especulação, e prá trás, na produção. E vice-versa. Uma equilibrando a outra.

O desastre financeiro global americano e europeu, que puxa o mundo para baixo, colocando os demais continentes em situação de total instabilidade, pegou os empresários comprados no futuro com expectativas de explosões financeiras iminentes no presente.

O exemplo da Sadia é sintomático. Desesperada diante dos prejuízos, a direção da empresa, que estava atuando de forma concessionária pelo presidente que havia se afastado, teve que apelar para a  volta imediata do verdadeiro chefe. O ex-ministro Luis Fernando Furlan, proprietário da empresa, foi obrigado a assumir seu próprio negócio, que estava sob comando de empregados. O olho do dono estava ausente?

Furlan pode já estar batendo às portas do BNDES.

 

Os próximos momentos são de angústia

Nas próximas semanas, com os possíveis agravamentos e rescaldos da grande crise monetária global, cujos prejuízos são calculados, até agora, em 14 trilhões de dólares, cinco brasis, a onda de desastres financeiros pode avançar em meio ao discurso desenvolvimentista do presidente Lula como arma para manter o otimismo nacional.

Os governos nacionais foram ultrapassados num mundo onde a economia passou a ser dominada pelos grandes oligopólios cujo poder impõe vontade aos próprios governos. O grupo dos sete grandes, convocados às pressas por W. Bush, nesse final de semana, em Washington, resolverá a parada? Difícil.  Com a crise, tanto os governos, como as grandes empresas, todos balançam e revelam suas fragilidades.

A balburdia estará instalada nesse sábado e domingo na capital americana, pois, junto com o grupo dos sete, estará, também, o grupo dos vinte. Certamente, pintarão propostas de todos os naipes, como, por exemplo, a de realizar, já, uma nova coordenação monetária global, porque o dólar teria sido ultrapassado em seu papel de equivalente monetário global por falta de gás financeiro do governo americano.

Essa situação, coloca o governo do presidente Lula diante da possibilidade de ser obrigado a salvar tanto os bancos como empresários, emergindo como super-empresário estatal no contexto desenvolvimentista nacional, dado pela crise bancária.

Os bancos privados grandes fugiram do compromisso de salvarem os bancos privados pequenos, mesmo com dinheiro subsidiado do governo. O impulso nacionalista governista vai se tornando irresistível, no rastro do processo de bancarrota privada.

O governo está tendo que assumir as contas do desastre, claro, com dinheiro do consumidor, jogando as reservas cambiais no fogo. Os repórteres de O Valor, Cristiano Romero e Cláudia Safatle, informam que serão sacados pelo menos 20 bilhões do total de 207 bilhões de dólares acumulados, para salvar bancos, empresas e garantir investimentos em infra-estrutura.

O perigo de o dinheiro ser torrado pode ser grande, principalmente, se a onda especulativa com o dólar , no país, onde seu valor sobe, proporcionalmente, mais do que em outras praças, se os juros internos continuarem elevados, estimulando novas ondas especulativas com a moeda nacional, num segundo momento da crise.

teve que assumir pepino, emitindo medida provisória salvacionista, que poderá ser ampliada. Não seria, apenas, suficiente salvar os bancos pequenos. Os representantes dos setores produtivos, também, são candidatos ao socorro governamental.

Os efeitos da grande crise tenderão a desatar consequências cujos elos se estendem em todas as direções do sistema econômico. Nesse contexto, ganha dimensão politica a discussão sobre a taxa de juros brasileira, a mais alta do país.

 

José Serra-José Alencar, novo fato político

 

Nesse sentido, saiu na frente o governador José Serra, de São Paulo. Na quarta, 09, depois de encontrar-se com o presidente Lula e a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, preferida pelo titular do Planalto para sucedê-lo, conforme disse o ministro da Justiça, Tarso Genro, ele abriu fogo contra a política monetária comandada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

Politizou o assunto, para ajudar, não apenas a campanha eleitoral do prefeito Gilberto Kassab, do Democrata, 17 pontos à frente de Marta Suplicy, do PT, no DataFolha. Sobretudo, com o discurso de tiro ao juro, Serra alavanca sua própria candidatura presidencial para 2010, pelo PSDB.

O governador paulista fechou sua posição com o discurso do vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva. Racha, dessa maneira, o próprio governo.

Qual o novo discurso de Marta Suplicy e de Dilma Roussef diante do de José Serra? Falarão a favor dos juros altos, quando trabalhadores e empresários buscam, justamente, o contrário, para sobreviver?

Os juros altos, no estouro da crise bancária, que destroi riquezas especulativas, deixaram de ser solução para os especuladores, para se transforarem em problemas altamente explosivos. Não trabalham mais para produzir riqueza especulativa, mas para produzir destruição de riqueza na especulação.

O PMDB, maior vencedor das eleições municipais, comprará o discurso do juro alto ou do juro baixo proposto pelo governador de São Paulo, como alternativa para a sobrevivência da economia, que detonou, na crise, o esquema de reprodução do capital na especulação?

Serra assumiu a vanguarda do novo discurso, com o qual pode atrair aliados à direta, à esquerda e ao centro.

O presidente Lula, que estava com o tempo trabalhando a favor dele, está sendo obrigado, agora, a correr contra o tempo. Sem outra alternativa, teve que assumir o pepino neoliberal com dinheiro do contribuinte.

Se não salvasse os pequenos bancos e se não salvar grandes, médias e pequenas empresas, certamente, a Era Lula estará encerrada, politicamente.

José Serra colocou o presidente da República em uma armadilha. Por ter tocado na ferida, o titular do Palácio dos Bandeirantes deixou o titular do Planalto entre apoiar os juros altos e perder prestígio ou conter os juros altos e seguir a orientação do próprio Serra.

Estrategicamente, Serra passaria a ser o mentor de nova política econômica em que a intervenção do Estado na taxa de juro se faz necessária para evitar que tanto o capital como o trabalho sejam destruídos.