Show de incompetência sul-americana

 

Os líderes sul-americanos estão perdendo tempo precioso.

Em vez de se unirem em torno da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, para debater a grande crise monetária, urgentemente, perdem-se em suas idiossincrasis pessoais, dando espaço às intrigas internas, esquecendo o essencial.

As ações dos líderes europeus, americanos, japoneses e asiáticos demonstram que a política sobrepujou a economia. Não há mais política econômica, mas, sim, economia política. A realidade capitalista está sendo rasgada, com tintas de sangue espalhando-se por todo o lado, com o sistema pedindo socorro, depois dos desastres decorrentes das especulações exageradas.

A Europa, que, em torno da União Européia, com seu euro, relativamente, forte, se mostra apavorada, concluiu que, isoladamente, nenhum país conseguirá superar suas dificuldades. Coordenam os líderes europeus fundos de investimentos comuns, para atacar os problemas gigantescos que emergem incontrolavelmente. Os asiáticos, igualmente, buscam formar seus fundos financeiros, com o mesmo objetivo.

O banco central americano e o banco central europeu, depois de hesitações maiores, pois não sabiam o tamanho real do incêndio monetário, buscavam ações isoladas. Os europeus, num primeiro momento, pensaram poder, cada um por si, dar conta do recado. Debalde. O governo americano, idem. W. Bush, nas cordas, jogou a toalha. A crise é maior que os Estados Unidos. Estes não conseguirão sair do buraco sem a ajuda dos demais aliados.

Tremendo contraste com a posição americana arrogante até há pouco tempo, que pensava ser onipotente. A invasão do Iraque em 2002 foi feita por Tio Sam à revelia da ONU, que condenou a ação. Agora, quando a guerra interna, econômica, assola a economia americana, deixando as famílias desesperadas, o líder americano, fracassado, pede água.

 

O povo nas ruas, tensão ideológica à vista

 

O desespero deixou os asiaticos com os nervos à flor da pele, todos indo para as ruas, algo que apavora o sistema democrático, diante da turba revoltadaO grande perigo é o povão ir para a rua, pedir seu dinheiro de volta. Os asiáticos de Hong Kong já fazem isso com grande alarde. Dançaram os correntistas com sua grana depositada em bancos que estão indo para o espaço, incapazes de serem salvos por si mesmo.

A mobiliação popular, caso se globalize, na Europa, Estados Unidos, América do Sul, fará emergir processo político que tenderia a levar de roldão as social-democracias estabelecidas. Abriria espaço para outras alternativas, cujas consequências poderiam rebentar com a democracia.

Nesse ambiente, em que os líderes na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia se descabelam, correm para um lado e outro, onde ficam os líderes sul-americanos?

Eles, há pouco, criaram a União das Nações Sul-Americanas, a Unasul. O objetivo da instituição, como destacam, é o de unir o continente em torno de um parlamento, de uma moeda, de um banco central, de uma segurança, de um tribunal sul-americanos. 

A eficácia dessa proposta mostrou ser possível, recentemente, quando a presidente pro-tempore da Unasul, a líder do Chile, presidente Michele Bachelet, diante da crise boliviana, ameaçadora em rachar o país ideologicamente, convocou os líderes e amainou as tensões. Mostrou eficiência. Por que, até agora, ela e seus pares não se reuniram, em caráter emergencial, para discutir a grande crise monetária, que pode ser ameaça a todos eles.

 

Desentendimento Brasil e Equador divide America do Sul

 

Ao contrário, os presidentes sul-americanos, arrogantes, acham que podem tocar, cada qual seu país, sem ver o todo da crise. O presidente Lula, numa demonstração de falsa força, cuja materialidade tende a ser negada, demonstrando ser mera impulsividade, fala em sustentar o surto consumista, enquanto o momento sugere cautela. 

Na Argentina, da mesma forma, passadas duas semanas do tumulto monetário, somente, na terça, a presidente Cristina Kirchner resolveu criar um conselho de emergência. O país está caindo pelas tabelas, endividado e pressionado pela inflação. Não dá para sair do buraco sozinho. Na Venezuela, idem, o presidente Hugo Chavez, arroga-se, com sua presunção, em ação isolada.

No Equador, o presidente Rafael Correia, vitorioso em recente eleição, que elegeu nova constituição altamente democrática para o país, consolidando mentalidade socialista sobre o pensamento neoliberal falido pela grande crise, como Lula e Chavez, não falou em uma ação coordenada. Igualmente, o presidente Evo Morales, diante de um país dividido, à beira da revolução separatista, não apelou para a união continental.

Os três, Lula, Chavez, Correia e Morales, reuniram-se em Manaus, há poucos dias, e cada um saiu para o seu lado. Não tiraram uma nota conjunta, sequer convocaram a Unasul, para debater os problemas emergenciais, que superam as questões nacionais. Se os europeus, muito mais ricos que os sul-americanos, concluiram que, isoladamente, não são ninguém, sendo necessária ação conjunta indispensável e rápida, para salvar o continente do incêndio monetário, por que a América do Sul, empobrecida e sucateada pelo neoliberalismo, ao longo dos últimos vinte anos, não requereria ação política semelhante?

Encontro continental está previsto para dezembro! A OEA, que faliu, porque não cuidou da essência fundamental da união e integração latino-americana, tem programada reunião naquele mês, que está anos luz da crise atual, tamanha a velocidade dos acontecimentos. Tremenda incompetência sul-americana.

Está pintando, portanto, trementa incompetência política entre os líderes. Essa seria a hora de lançar o Banco do Sul, para formar um grande fundo sul-americano, ancorado em riquezas reais sul-americanas, que fortaleceriam a moeda sul-americana, capaz de credenciá-la na nova arquitetura monetária global, que nascerá do caos em que mergulhou o dólar.

Até quando ficarão parados, com a boca aberta, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como destacou o poeta Raul Seixas?

Pânico nacionalista testa união européia

Os desentendimentos iniciais entre os líderes europeus relativamente a um consenso capaz de levá-los a tomarem medidas conjuntas para evitar que os países se afundem no vendaval da bancarrota financeira representam perigo para a União Européia.

Podem ativar neonacionalismos cujos conteúdos políticos descabem para fechamentos internos, protecionistas, salvacionistas, incapazes de contribuir para uma visão do todo destinada à ação conjunta no continente.

A arquitetura da união da Europa correria perigo, diante da corrida dos governos, como aconteceu com o da Irlanda, de garantir 100% dos depósitos aos correntistas. Atraiu, dessa forma, dinheiro de outros bancos, em diversos países, que não poderiam ter esse privilégio por parte dos governos. Haveria, consequentemente, uma competição doida entre as entidades bancárias, cujo resultado poderia ser o imponderável.

Num primeiro momento, os principais líderes europeus, da França, Alemanha, Itália e Inglaterra, pisaram no tomate. Acharam que falariam pelo resto da comunidade. Dançaram. As notícias da volatilidade bancária, decorrente da corrida dos correntistas para tirarem dinheiro depositados, fizeram-nos voltarem, correndo, atrás, apavorados. A crise demonstrou ser maior que os quatro poderosos países.

Tiveram os líderes, então, que convocar os 27 países integrantes da comunidade européia. Tal reunião teve como resultado algo mais racional, em termos de proteção da garantia dos depositantes, na medida em que nota conjunta dos governantes assegurou que não haverá quebra de bancos. É uma aposta.

Os poderes públicos, como destacaram os líderes, salvarão as instituições, estatizando-as, se necessário, para, em seguida, vendê-las, se for o caso. Não há segurança de nada.

Essa decisão conjunta das lideranças européias alivou a ação deletéria, unilateral, do governo da Irlanda, que, ao garantir 100% dos depósitos dos correntistas, dividiriam os interesses europeus, de forma perigosíssima.

A situação ficou contornada, aparentemente, pois as tensões explodiram com a desesperada decisão do governo da Islândia de entrar firme para salvar o maior banco do país, afetado por corrida bancária.

Tudo está extremamente volátil e inseguro, mas a postura política das lideranças européias tenta construir um paredão contra o tsunami monetário, que se expressaria numa desperada debandada pelo dinheiro depositado pelos correntistas.

Somente os próximos dias mostrarão se estará sendo eficaz e efetiva a ação conjunta.

A comunidade européia carece de maior efetividade e eficácia, porque a União Europeia ainda não está políticamente consolidada.

Cada país, dispondo de suas instituições e controles nacionalistas, que, na presente crise, se afirmam autonomamente, na base do pensamento protecionista, mostra-se, contraditoriamente, impotente. Ainda bem.

A velocidade dos acontecimentos vai impondo sua própria lógica: não é mais possível ações individualizadas.

O Banco Central Europeu, que tem por objetivo, dar crediblidade à moeda europeia, o euro, coordenado política monetária capaz de assegurar o poder de compra dele, combinando ações estratégicas pautadas pelo Tratado de Maastrich, que fixa limites para a expansão orçamentária, tenta dar conta do recado, mesmo sem haver, ainda, historicamente, a união política no continente.

Nesse sentido, a decisão dos líderes, de garantir a sobrevivência dos bancos, levando o BCE a interferir, sempre que for necessário, dá novo caráter proativo à União Européia.

Os acontecimentos dramáticos forçam, em meio às novas circunstâncias, instâncias mais fortes de ação política sobre a realidade em convulsão econômico-financeira.

O velho nacionalismo europeu, que não morreu de todo com a emergência da União Europeia, tentou, na crise presente, colocar a cabeça para fora, em termos de ação unilateral. Não vingou, por enquanto.

O pânico ameaçou – e continua ameaçando – ações protecionistas, que, ainda, não são possíveis de serem removidas, mas a sabedoria européia, dada pela conquista história da sua própria unidade, está sendo aperfeiçoada na ação política como antídoto à crise econômica.

A economia política supera a política econômica.

Caso contrário, soluções radicais emergiriam, levando ao desconhecido em comparação ao vigente, ou seja, o regime social-democrata.

A unidade da União Européia representaria possibilidade de se caminhar para uma instância econômica mais ampla, já que os continentes, isoladamente, não dariam conta de conter a onda braba detonada pela bancarrota financeira americana?

 

Incertezas podem detonar radicalismos políticos 

A insegurança econômica generalizada traz perigos: detona radicalismos políticos, quanto mais o contribuinte percebe redução viva do poder de compra da moeda nacional, algo que representa, objetivamente, empobrecimento crescente e incontrolável. Lenin, diante das instabilidades monetárias européias no pós-guerra, cujos efeitos políticos representaram foralecimento dos nacionaismos fascistas e nazistas, destacou que tal ambiente significa propaganda efetiva para desenvolver o pensamento socialista internacional.

A social-democracia européia, diante da crise bancária, pode balançar ideologicamente. A onda nacionalista, protecionista, tende a produzir pensamentos ideológicos autoritários, como resposta à irritação social diante de perdas no poder de compra das moedas, empobrecedoras da comunidade. Não é à toa que volta a ser notícia, na Europa, os fatores que levaram Hitler ao poder. Tudo pode precipitar quando se percebe, por exemplo, manobras como a do secretário de Tesouro americano, Henry Paulson, que escolhe duas ou três corretores privadas de Wall Street, para gerenciar a distribuição dos recursos do grande pacote salvacionista do sistema frente à bancarrota. Revolta social a tamanho descaramento não estaria descartada.

Pintaria uma onda socialista, que tenderia a expandir, no rastro da decadência possível da social democracia em meio à bancarrota financeira?

Sobretudo, a grande questão que vai se levantando, forte, é: terão os estados nacionais, isoladamente, força para conter a onda destruidora de riquezas, com suas respectivas moedas, ou o estado nacional será ultrapassado pela necessidade de união de regiões que guardam interesses comuns, no cenário global, buscarem saídas solidárias e não individualizadas?

Interatividade no contexto globalizado

A quimera de uma solução mundial, coordenada, no contexto em que amplia o pensamento nacionalista, fruto do medo da crise, estaria descartada? Talvez o caos seja inevitável, para que da lama saia alguma coisa.

Nesse momento em que o vendaval das compras e vendas de dólares, para liquidar posições, servem para valorizar a moeda americana, especialmente, na periferia capitalista, dada sua condição de equivalente geral nas relações de troca – até quando ninguém sabe – , o panorama pode superdimensionar a aparência e obscurecer a essência. Depois que as posiçõese estiverem liquidadas, para frente e para trás, no mercado, presente e futuro, chegará a hora da onça beber água, relativamente à capacidade da moeda americana de continuar sendo o equivalente monetário global.

Os dólares derivativos disponíveis, depois das liquidações de posições na louca corrida dos agentes econômicos nesse momento, irão para onde, se correrão o perigo de virarem papel de parede, caso continuem empoçados pela paralisia do crédito internacional?

O potencial de insegurança política que tal situação provoca na alma popular dos povos europeus que já viveram destruições de riquezas semelhantes, no rastro das quais surgiram ditadores e regimes de força, poderá ser o rescaldo forte dos tempos presentes nas próximas eleições européias. Imagine se Ângela Merkel deixa a peteca cair, agora. Seria excomungada. Abriria espaço para os socialistas e comunistas, já que a pregação do fortalecimento do estado, num ambiente de fragilidade total do pensamento e práticas neoliberais, ganharia corações e mentes mediante discursos inflamados para aplacar desesperos populares.

Lideranças sul-americanas dormem no ponto

 

A América do Sul, nesse contexto, está andando devagar.  Tentarão enfrentar a crise, isoladamente, com base nas moedas nacionais, que, no momento da grande crise, deixa de ser representativas?

O teste sobre a união européia é sintoma de que o destino da América do Sul está em jogo. Se as incertezas rondam os países que se uniram em passado recente, imagine-se as que tomam conta dos países mais pobres sul-americanos.

Cada um pode estar potencialmente sob riscos muito mais sérios do que os países ricos, porque o estado nacional, em face da nova conjuntura, tem poder limitado. O exemplo patente é a reação americana.

O governo agiu descordenadamente no plano internacional, pensando que a Casa Branca e o Congresso, isoladamente, poderiam resolver a parada, e o resultado, nessa semana, demonstra o oposto. A ação congressual americana, sem coordenação com os demais países ricos, tornou-se inútil diante da voracidade do terremoto financeiro global.

Os líderes sul-americanos, em torno da União das Nações Sul-Americanas, Unasul, estão diante de grandes desafios. Por que atrasar a discussão da criação do Banco Sul Americano que teria papel coordenador do poder monetário sul-americano, mediante moeda sul-americana, no cenário internacional, que se prepara para uma nova arquitetura monetária, dada a impossibilidade de a moeda americana continuar dando conta do recado.

Os presidentes Lula, do Brasil, Rafael Correia, do Equador, Hugo Chavez, da Venezuela, e Evo Morales, da Bolívia, se reuniram na semana passada, em Manaus, mas esqueceram o principal.

No auge da crise global, em vez de lançarem uma nota conjunta sul-americana, de união do continente como pressuposto básico para enfrentar os problemas que emergem, deram enfase às suas respectivas ações isoladas. Ficaram sem conteúdo. Até quando?

Ficção e realidade no colapso capitalista

Os repórteres e analistas em geral estão insistindo, catolicamente, em separar a economia real da economia irreal, a ficção da realidade.

Primeiro, a economia real, diziam, estava imune à economia irreal, que está implodindo na crise bancária americana e européia. Agora, também, ela, a real, entrou na dança. Se entrou, é porque está ligada à outra. Seria possível uma sem a outra?

Essa é uma discussão que não foi feita ainda, com profundidade, pela imprensa brasileira, simplesmente, porque a interatividade dialética entre ambas, realidadade e ficção, paira além da visão mecanicista que frequenta as redações.

A colônia, escravizada pelos juros, copia a metrópole. Não pensa com sua própria cabeça. Fica no idealismo imaginado nos laboratórios dos neoliberais e suas caixas de ferramentas salvacionistas.

Como diz Mário Juruna, no filme de Armando Lacerda, “Jururã, o espírito da floresta”, brasileiro pensa pequeno com cabeça de estrangeiro!”.

 

Com a cabeça no século 19

A economia capitalista, no século 20, continuou sendo interpretada pelos neoliberais , juristas, da periferia capitalista, com a cabeça do século 19. Chega-se, agora, ao século 21 sequer com a cabeça do século passado, mas do retrazado.

O pensamento econõmico crítico não frequenta as redações. Prevalece dentro delas, o pensamento marginalista, equilibrista, do tempo do padrão ouro, neoclássico, quando a moeda era ainda, como Ricardo denominava, valorímetro, meio de troca, falsamente, neutra, como se pairasse, incólume, acima das classes sociais. Ou seja, produto da imaginação esquizofrênica.

Marx, professor indispensável, para entender o capitalismo, como destaca Delfim Netto, já tinha mostrado que a realidade iria derrotar o capitalismo e a ficção seria chamada em seu socorro.

A totalidade do valor recebido pelos trabalhadores em forma de salário, disse, não consegue comprar a totalidade do valor correspondente às mercadorias produzidas. Há uma disparidade entre o valor-capital que se acumula e o valor-salário que se desvaloriza.

Pinta uma crônica insuficiência de consumo global. É o preço cobrado pelo investidor capitalista, que visa o lucro e não a satisfação do consumidor, como prioridade fundamental.

O real não suporta as suas próprias dores. Precisa do irreal. A insuficiência consumista produz um estoque crônico cuja lógica reduz os preços e destroi o capital e os salários, na deflação.

O que fazer com o estoque?

Imaginaram os neoliberais que a saida seria o comercio internacional. Se não há mercado interno, massacrado pelo subconsumismo, exportar é a solução.

Mas, se todo mundo exporta… a contradição final do sistema explode, disse, no mercado mundial interligado, globalizado.

 

O nascimento da ficção

Marx detonou o pensamento neoliberal do século 19. Analisou que o capitalismo, nesse período, se baseia em dois setores, o departamento I (D1), produtor de bens de produção, bens de capital, e o departamento II (D2), produtor de bens de consumo.

Concluiu que a contradição entre ambos, entre produção e consumo, D! e D2, isto é, entre mercadoria e dinheiro, levaria o sistema à crônica insuficiência de demanda global, dado seu caráter intrínseco de marchar, dialeticamente, para a sobreacumulação.

De um lado, sobreacumulação; de outro, subconsumismo. Resultado: sobreacumulação e crise sob a moeda falsamente neutra. 

D1 + D2 se autoanulariam, no limite da contradição, o que exigiria sua superação em D3, departamento III, que representaria o Estado, conforme prevê o autor de O Capital.

O que é D3? A ficção que surge para ressuscitar o real, D1+D2, com a moeda estatal. A moeda ouro, no padrão ouro, transformara-se, dessa forma, como reconheceu Keynes, em relíquia bárbara.

Grande Malthus

Essa formulação de Marx em O Capital repetiu o que Malthus já havia dito nos anos de 1850. A eficiencia do capitalismo, impulsionado pela ciência e tecnologia, gera oferta maior que demanda cujo resultado é queda de preços.

É necessário, frisou, que nasça o oposto da eficiência, isto é, a ineficiência. Se o setor privado é eficiente e produz tanto que leva o sistema à crise, se o Estado repetir tal eficiência, igualando-a ou superando-a, para gerar, como o mercado privado, insuficiência de demanda global, para que o Estado? Agravaria a situação em vez de resolvê-la.

Malthus falou a verdade e, por isso, foi excomungado.

A ineficiência estatal, que assusta tanto os analistas econômicos, como se estivessem frente ao próprio diabo, é a solução, já que o capitalismo não suporta o desenvolvimento das forças produtivas em sua potência máxima deixada ao livre jogo dos mercados. Olha o caos aí no mercado imobiliário. Precisa mais prova?

Apenas reduzir salários, para elevar a lucratividade na exploração da mais valia, não asseguraria a sobrevivência do capital. Seria necessária, disse, uma demanda suplementar. Qual? O Estado, D3.

Os liberais e os neoliberais desdenham a formulação macroeconômica malthusiana-keynesiana, analisada criticamente por Marx, porque vêem a moeda como fator que fica no exterior da realidade, como fator neutro, acima das classes sociais antagônicas, no processo de acumulação capitalista.

A demanda complementar proporcionada pelo Estado, com moeda estatal sem lastro, expressão maior de D3, não encaixa na formulação neoliberal, porque os neoliberais não entendem ser válido que a moeda, sob o comando do Estado, constitua em fator econômico decisivo, já que, essencialmente, pela visão neoliberalizante, parcial, e, apenas, meio de troca.

Essa fase dezenovecentista da cabeça neoliberal separou o Estado da produção privada, quando a produção privada, no século 20, somente conseguiu sobreviver , depois da crise de 1929, mediante intermediação da moeda estatal. Esta entra em cena na circulação para dinamizar os setores que haviam perdido gás na grande crise.

Visão anti-histórica da realidade

Essa visão neoliberal do Estado de que os gastos do governo criam desajustes no setor privado de modo que é preciso que haja enxugamento forte da demanda estatal para que a economia capitalista seja sustentavelmente suficiente e eficiente é, tão somente, sonho de noite de verão. Completamente anti-histórico.

A moeda estatal que Marx previu mas não viveu para vê-la em ação é a expressão de D3, sua representação essencial em forma de moeda estatal sem lastro, fictícia. O valor da moeda passa a ser o que dissera Hegel, sopro do Estado num pedaço de papel.

Ao contrário da moeda que ainda vigora no imaginário da cobertura econômica, com seu caráter de neutralidade, pairando acima das classes sociais antagônicas, como se o século 21 estivesse no século 19, a nova moeda, no século 20, não tem nada de neutra. 

O Estado, entidade política, emite sua moeda política, para tentar organizar e dinamizar aquilo que tinha sido paralisado pelas contradições do livre mercado.

O cenário da crise bancária atual é comprovação histórica desse caráter básico da economia monetária, fetiche monetário, predominante no século passado que entra em colpaso.

A ficção movimenta o real, que havia sido destruído pela crise de 1929. O irreal nasce para ressuscitar o real. Não há, do ponto de vista macroeconômico marxista, no seu processo de análise das contradições, divisão entre o real e o irreal.

O autor de O Capital disse que o sistema, contraditoriamente, desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver as forças destrtivas , na guerra.

O prêmio nobel de economia, Josef Stglitz, reconhece que a guerra do Iraque, com custo superior a 2 trilhões de dólares, é a própria dinamização do capitalismo americano, na guerra.

 

O mundo das não-mercadorias

Com a moeda estatal, não-moeda sem lastro, o governo compra não a mercadoria que dinamizava o capitalismo anterior a 1929. A mercadoria que passa a adquirir é o oposto, uma não-mercadoria, conceito desenvolvido por Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”(Campus, 1980).

Vale dizer, a economia capitalista pós-29 é dinamizada pela não-moeda que viabiliza a não-mercadoria consumida pelo governo que vai tirar da crise a economia das mercadorias de consumo social que havia explodia no crash.

O capitalismo bi-setorial, D1+D2, rígido, mecânico, apoiado no padrão ouro dezenovecentista, fora superado pelo capitalismo tri-setorial, D1+D2+D3.

O Estado, D3, com a não-moeda compra não-mercadoria que destroi, para gerar renda e consumo de bens duráveis que deixaram, depois do crash, de serem o carro-chefe da reprodução capitalista, dando lugar ao novo carro-chefe, D3, os gastos do governo.

Para a cabeça mecanicista é difícil entender que a não-moeda surge, dialeticamente, para aumentar o consumo sem aumentar a oferta.

Separar os gastos do governo dos gastos do setor privado que busca reprodução lucrativa é querer tirar a corcunda do sujeito porque ela o deformou. Mata o caboclo.

Somente o Estado pode consumir não mercadorias – produtos bélicos e espaciais, gastos acima da receita, desperdícios necessarios, para dar via à ciência econômica capitalista, segundo Malthus, uma ciência lúgubre, dada seu caráter autodestrutivo.

O espírito crítico da grande mídia, dominado pelo pensamento bi-setorial, rígido, mecânico, nada orgânico, evoluiu muito pouco.

Teria evoluído bastante, se essa visão da moeda,  no conceito de Marx, de Maltus, Keynes, tivesse sido mais debatida, sem preconceitos, criticamente.

 

Preconceito ideológico impediu consciência

A não percepção clara sobre a gênese da moeda capitalista no século 20 ficou ainda mais obscura e acrítica, no plano da cobertura econômica, depois da crise monetária dos anos de 1980, provocada por excessiva oferta mundial de dólares, que levou o governo americano a aumentar brutalmente os juros. Imperou, desde então,  escuridão, o mecanicismo total, vestido de princípio único detonador do fim da história.

D3, gastos do governo que movimentam a economia capitalista, foi eleito alvo preferencial a ser combatido, porque interferiria negativamente na vida privada. Se o governo gasta mais do que arrecadada…

Visão mecanicista, que deseja demonstrar que o ideal de um governo é aquele expresso pela dona de casa: não gastar além da renda familiar.

O que é valido, do ponto de vista da parte, não o é do ponto de vista do todo. Destruir o Estado passa a ser o objetivo do poder midiático alienado.

Na base da ignorância, os neoliberais – e seus oráculos na grande mídia – na periferia passaram a pregar, nada mais, nada menos que a destruição do próprio capital nacional, por desconhecerem, ou abafarem, o caráter não-neutro da moeda capitalista na fase pós-29 em que o Estado vira capital.

A neutralidade monetária era conveniente para os interesses dos bancos, cuja preocupação maior, depois da crise, foi a de receber, em dia, o pagamento dos juros.

Foi tão cega a visão acrítica que a grande mídia passou completamente batida na discussão do artigo 166, parágrafo terceiro, II, letra b, da Constituição que confere, no âmbito do orçamento, causa pétrea ao pagamento dos serviços da dívida. Os banqueiros ficaram imunes, constitucionalmente, a qualquer contingenciamento possível ou imaginável.

Já os gastos com  sáude, educação, investimentos em infra-estrutura etc, esses podiam ser amplamente contingenciados. Ao mesmo tempo, cerraram-se fileiras os neoliberais para destuirem, também, o art. 192 que fixava limite de 12% para a taxa de juro no país.

A Constituição, que acaba de fazer 20 anos, representa o domínio da bancocracia(Lauro Campos). 

Resultado: sucateamento do Estado e, claro, também, da iniciativa privada. Afinal, sob a economia monetária, o Estado, abstração, o irreal, e a iniciativa privada, o real, são dois lados de uma só moeda, unha e carne, mediados pela moeda estatal sem lastro, durante todo o século 20.

 

Novo Keynes ou o velho Adam Smith?

O fato novo, agora, com a crise americana, não é  a derrocada neoliberal, mas a keynesiana, expressa nos déficits americanos que desvalorizam o dólar e jogam a economia global, com a implosão do setor imobiliário, seguido de bancarrota financeira, no empoçamento geral do crédito.

O lubrificante, a moeda dominante, está deixando de lubricar as peças do sistema.

Keynes destacou que o sistema precisa fingir para si mesmo que o útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade. Máxima ideológica utilitarista inglêsa cínica que cobra preço alto ao própro Keynes. Ele mesmo, com sua solução, está, na grande crise do governo keynesiano americano, indo para o buraco.

Novo Keynes, como clamam muitos, pode pintar, isto é, nova  ficção, novo D3? Seria americano ou mundial? Valeria se fosse apenas para bancar o capital em crise ou somente teria sucesso se o social, quem sabe um D4, surgisse para dividir prioridades com o econômico?

O grande economista inglês pregou, em Bretton Woods, em 1944, moeda mundial, o Bankor, que representaria caixa de conversão geral, para equilibrar os desequilíbrios decorrentes do domínio dos ricos sobre os pobres por intermédio da moeda, via deterioração nos termos de troca, impondo senhoriagem.

Sua proposta  não emplacou, porque os americanos sairam da guerrra com a força total, impondo o dólar como moeda mundial. 

Tio Sam, agora, na primeira grande crise monetária do século 21, parece, está entre tomar uma dose monstra de viagra, para ver se recupera a potência, para continuar dominando unilateralmente o cenário global, correndo risco de ter um infarto, ou partir para o conselho, não mais de Keynes, mas de Adam Smith.

Em “A riqueza das nações”, Smtih não deixa dúvidas: a dívida pública, os deficits, existem para não serem pagos, mas rolados, indefinidamente.

A ficção que entra na moeda com um sopro do estado pode desmanchar, igualmente, com outro sopro, para salvar o real?

O calote emergiria como solução. Seria engraçado a grande mídia bater palma para o calote global, logo ela, que, religiosamene, condenou os calotinhos brasileiro e argentino, depois da crise monetária dos anos 80, imposta pelos países ricos sobre os pobres, mediante Consenso de Washington e debaixo do chicote do capitaão do mato FMI.

Colapso da economia de guerra

A bancarrota financeira americana, que está levando a economia global à recessão e provocando tremendos equívocos em líderes políticos, como o presidente Lula, que quis parecer maior que os problemas do mundo, desdenhando fatos dramáticos, coloca ponto final na dinâmica da economia de guerra, bancada por moeda estatal sem lastro real, fictícia, que, agora, no estouro do mercado imobiliário, se revela podre.

Balança perigosamente o poderio do Estado Industrial Militar Americano, assim concebido, em 1960, pelo presidente Eisenhower, a partir dessa moeda guerreira, altamente, contraditória, intervencionista, ditatorial, permanente ameaça à democracia. 

Na base dela ergueu-se visão imperial para dominar unilateralmente o planeta terra do pós-guerra. 

Os Estados Unidos seriam os consumidores-mor do mundo, puxando a demanda global com moeda estatal deslastreada, ancorada em títulos comprados pelos exportadores para o mercado americano. Em troca, seria o gendarme protetor do mundo contra os fantasmas do comunismo.

Tal armação, estrategicamente, concebida em 1944, em Bretton Woods, no pós guerra, que prosseguiu com novas guerras,  inaugurou o poder do dólar, que, agora, em 2008, balança na desvalorização monetária detonada pela especulação desenfreada.

O dólar emergiu dos escombros da guerra e da falência da libra esterlina inglesa todo poderoso, cobrando senhoriagem na imposição de deterioração nos termos gerais de troca cambial, para enriquecer os americanos. 

O poder de uma nação sobre a outra é, segundo Keynes, exercido pela moeda. O dólar de 2008 é, apenas, sombra turva desse passado glorioso.

O que está entrando em tremenda crise não é, propriamente, o neoliberalismo. É o keynesianismo, a moeda estatal deslastreada keynesiana que construiu o estado imaginado por Eisenhower como algo que se eternizaria. 

É essa solução do estado gastador para puxar a demanda global, na guerra, que bate biela.

O pensamento de Keynes, que orientou a direção da economia de guerra americana a partir de 1936, com Roosevelt, revelou, na crise bancária presente, seus próprios limites. A moeda sem lastro do estado capitalista, na crise financeira incendiária, que pode trazer revolução política no seu rastro, deixou de ser solução, para se transformar em problema ainda sem solução.

A contradição explode, agora, dentro dos próprios Estados Unidos. A economia de guerra, bancada pela moeda estatal, que dinamizou o capitalismo no século 20, entrou, agora, em guerra contra seus próprios soldados, o povo americano.

O modelo de guerra passou a escalpelar violentamente os contribuintes e mutuários americanos, na crise bancária , fruto da anarquia financeira detonada pela dinâmica capitalista impulsionada por moeda fictícia. Em nome dela foram detonados todos os controles e regulamentos capazes de impedir sua autonomização suicida. O Estado, na prática, sob o modelo keynesiano, suicidou-se, como havia se suicidado, em 1929, o neoliberalismo de mercado. 

Bancada com o dinheiro estatal, a estratégia de guerra americana no pós-guerra está, ao que parece, esgotando-se. Se o governo está sem bala para colocar dinheiro para salvar os contribuintes prejudicados pela ganância financeira, como bancaria, diante do povo empobrecido, os gastos crescentes com guerras externas, como as do Iraque e do Afeganistão, cujo custo supera 3 trilhões de dólares?

A expressão política da bancarrota da economia de guerra ainda não está desenhada, podendo ser um anjo ou um monstro.

Guerra interna maior que externa

O governo americano está diante de uma guerra interna muito mais perigosa, potencialmente, que as guerras externas. As externas não detonaram governantes. Pelo contrário, elas produziram heróis. John MacCain, candidato republicano, é um deles. 

Ao contrário, a guerra interna pode expulsar governantes do poder, dada a ira popular contra a ganância financeira, como destacou o economista Paulo Nogueira Batista Junior, representante do governo Lula no FMI.

O jogo da guerra estava sendo possível de ser bancado enquanto a dívida pública interna, avalista dos consumidores, tinha credibilidade ilimitada, no papel de regular o valor da moeda, por meio da política monetária dirigista do Banco central americano. 

Se essa possibilidade está sendo colocada em risco, na fogueira monetária em curso, por que os americanos continuariam bancando guerras externas. A jogada imperialista está em risco.

John Maynard Keynes foi profético ao conferir que o capitalismo necessita da guerra na fase pós padrão-ouro de 1929 : “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego – , exceto, em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensbilizarem com uma grande dissipassão de recursos na preparação das armas, aprenderiam a conhecer sua força, e aprenderiam de uma forma como nunca poderão aprender em outra ocasião; aprenderão uma lição que logo poderá servir para reconstruir o mundo que compreenderá os principaís princípios que governam a produção da riqueza. As preparações de guerra, longe de requererem um sacrifício, serão um estímulo que nem a vitória nem a derrota do New Deal pode oferecer para um maior consumo individual e um melhor nível de vida” (trecho de artigo de Keynes, em  New Republic, em 1940, citado por Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, 1980, Campus, prefácio de Edmar Bacha).

Não há dúvida: a estratégia capitalista keynesiana, que Roosevelt adota, expressa na decuplicação dos gastos do governo, movimenta, dinamiza e reproduz o capitalismo americano que havia entrado em crise em 1929, mas com uma particularidade importante: a dinâmica do sistema seria dada pelos gastos do governo, não mais da iniciativa privada. Essa revelara os seus limites na crise de 1929. Todos os presidentes americanos, depois de 1936, não deixaram cair a lição keynesiana, cuja força é contestada na crise do subprime.

 

Nova divisão internacional do trabalho

 

O que entra em crise, agora, é o modelo de estado keynesiano americano ancorado em moeda deslastreada que organizou a economia mundial a partir da visão americana no pós guerra, tendo a divisão internacional do trabalho subordinada aos interesses dos Estados Unidos e sua moeda, o dólar.

Os americanos, com o dólar competitivo, para ajudar os aliados, transformou-se no polo consumidor global, enquanto os aliados se posicionaram no lado oposto, no polo das exportações de mercadorias para o consumidor americano. As exportações dos aliados se revelam nas importações americana, assim como as importações americanas se transformam em objeto de desejo dos exportadores aliados.

O mercado financeiro, para bancar essas relaçóes de troca, apoiado no dólar, foi convocado para ter como grande negócio a dívida americana, que passou a ser o avalista global do capitalismo no pós-guerra. O preço a pagar pelos aliados seria o crescente armamentismo americano, sustentado pelos gastos do tesouro americano cujos títulos passaram a ser adquiridos pelos aliados. Parceria econômica geoestratégica capitalista do pós-guerra para derrotar a União Soviética comunista.

O jogo econômico do pós-guerra pode ser superado porque sua âncora, o dólar, como equivalente geral, está sob ataque insano do mercado global, abrindo vácuo  para outras forças que já se organizam, no rastro da primeira grande crise monetária do século 21. Os efeitos políticos poderão ser imensos.

Como os esforços americanos terão que ser canalizados para dentro, a fim de resolver os estragos internos provocados pela desvalorização do dólar, no patrimônio dos americanos, certamente, as guerras externas poderão perder gás. A guerra interna ameaça ser mais feroz que a guerra externa.

A impotência americana se expressa na falta de fôlego do presidente W. Bush de salvar o mercado, simplesmente, porque rendeu-se às regras do mercado, todo o seu governo, incluindo o próprio poder legislativo, responsáveis por aprovação de leis laxativas que deixaram as raposas soltas no galinheiro.

Essa anarquia monetária é a anarquia do próprio modelo econômico em que o irreal movimenta o real e vice versa. Na prática, entra em colapso a economia de guerra e a moeda que movimenta a guerra, dada a falta de confiança nela disseminada no merc ado.

Marx, em O Capital, diz disse que o sistema capitalista ativaria ao máximo as forças produtivas, entraria em crise de realização e passaria a dinamizar as forças destrutivas, na guerra. A guerra exigiu nova moeda, porque o novo molde de reprodução do capital não cabia mais dentro do padrão ouro do século 19. Agora, a moeda do século 20, que movimenta a guerra, também, precipita no abismo.

 

Visão católica, equívoco dos economistas neoliberais

Os economistas liberais e neoliberais sempre tiveram resistência à formulação macroeconômica marxista desenvolvida pelos neomarxistas no século 20, obedecendo as pegadas do mestre. 

Marx considerava que a economia no século 19 era composta de dois departamentos, o departamento I, produtor de bens de produção, de bens de capital(D1) e o departamento II, de produção de bens de consumo(D2). 

Estudou as relações entre ambos e concluiu que o sistema capitalista, sob esses dois departamentos, entraria em crise, diante da contradição entre produção e consumo, cujo destino é crônica insuficiência de demanda global que leva à deflação. 

Previu que surgiria o departamento III, Estado(D3), cuja função seria a de puxar a demanda global, na guerra. Nesta, como destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, o que dinamiza o capital não é a produção de mercadorias, mas de não-mercadorias, consumidas pelo governo-Estado, D3. 

A produção de mercadorias, impulsionadas por D1+D2, seria superarada e requereria complemento de D3, ou seja, ampliação dos gastos do governo.

D1+D2 = D3. Vale dizer, forma-se uma nova unidade na economia monetária, pós padrão-ouro, somando os dois departamentos da economia de mercado,  D1+D2, dependentes de D3, gerador de moeda que vai para a circulação gerar consumo sem que seja preciso aumentar a oferta.

Essa formulação macroeconômica simples, apoiada na observação da contradição e da superação da contradição que detona novas contradições foi substituida pela fantasia matemática neoliberal que evitou o todo para priorizar as partes do sistema, negando a organicidade intrínseca dele, em movimento dialético. Imperou-se com o neoliberalismo a visão meramente mecanicista da realidade. Viajaram na maionese.

Os neoliberais, segundo Marx, têm uma visão católica da moeda. A moeda, para eles, é apenas mediadora de trocas, valorímetro, quase um relógio, algo neutro, que fica acima das relações sociais. Aparentemente, essa suposição vigorou contraditoriamente no tempo do padrão ouro, século 19. Do século 20 em diante, a moeda é capital do Estado, ou seja, moeda política, que organiza a economia e sociedade cuja essência é o antagonismo, sob o capitalismo.

As forças liberais, que haviam levado a economia capitalista à total anarquia, cujo resultado foi, em 1929, a deflação, foram ultrapassado pelo novo tempo. 

O Estado é a resposta da realidade à loucura neoliberal de 29, como passou a ser, também, agora, a pretensa resposta para a crise bancária, de 2008, como clamam muitos. 

A diferença fundamental  é que entre 1929 e 2008 o Estado não é mais aquela potência financeira de outrora. Precisa de muito viagra, pois se encontra excessivamente endividado, impotente, adiposo e desacreditado pelo mercado.

Se o governo não consegue mais controlar a inflação, via enxugamento do excesso monetário que lança na circulação para girar a produção, a alternativa é sombria: ou instaura-se a desconfiança e o medo, ou o governo passa uma borracha na dívida e começa a endividar-se novamente.

Adam Smith, em “A riqueza das nações”, é claro: dívida não se paga, renegocia, rola. Essa possibilidade estaria limitada para a ação exuberante do império ou suas forças se esgotaram?

 

As diferenças entre 1929 e 2008

 

 

Na crise de 1929, o Estado entrou na economia, para salvá-la do colapso do lassair faire, ou seja, da anarquia dos mercados em concorrência livre das mercadorias. Na crise de 2008, 78 anos depois, o Estado, que entrara, antes, para salvar o mercado, perdeu a capacidade de controlar o mercado.

Entregou sua própria cabeça aos especuladores, ou seja, suas próprias atribuições, sua capacidade de regulamentar a economia, como forma de contribuir para a reprodução ampliada sem freios do capital. 

O Estado, visto do ponto de vista do Direito Administrativo, deixa, no colapso da moeda estatal deslastreada, de ser entidade política, constitucionalmente, constituida, que determina, para ser entidade administrativa, que é determinado.

Tal dinâmica foi imposta pela própria moeda estatal deslastreada. Teria perdido sua dinâmica o capital estatal, única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, segundo Keynes, para organizar a economia e a sociedade mediante capacidade de ofertar quantidade de moeda na circulação capitalista?

Nessa circulação, o produto real e irreal são polos e contrapolos que se interagem dialeticamente, sob modelo keynesiano, agora, abalado, diante da bancarrota financeira estimulada pela desregulamentação do estado keynesiano.

As discussões entre bancos centrais e líderes políticos na ONU já demonstram a necessidade de nova concertação econômica global, no compasso da derrocada da lógica de Bretton Woods, montada sob império da moeda sem lastro real.

O pacote Paulson-Bernamke, alterado pelo Congresso, para tentar salvar o país da bancarrota financeira, é o retrato da ruína da moeda de Tio Sam. Em 1929, explodiu o padrão ouro. Em 2008, explode o padrão monetário especulativo estatal.

Paulson falou o inimagínavel, pediu humildade. O império abriu o bico.

O senador Aluísio Mercadante(PT-SP), excitado pelos acontecimentos e pelas consequências dramáticas que a crise bancária detonará, para negar o excessivo otimismo do presidente Lula, desprovido de realidade, está dizendo que Keynes é a solução. 

Afinal, não é a solução keynesiana que está entrando em crise nos Estados Unidos? Devia ler, urgente, “A crise da ideologia keynesiana”. Do contrário, pode jogar o presidente Lula numa fria.

Estagnação capitalista favorece planeta terra

A situação do capitalismo está chegando a tal ponto que a estagnação ou semi-estagnação econômica temporária – não se sabe por quanto tempo – pode ser uma boa para ele.

Seria mais vantajosa do que a alternativa oposta à vista, a destruição, caso não haja um esforço global comum para evitar a bancarrota financeira, expressa na supressão/empoçamento do crédito em mar monetário que deixa de azeitar as relações econômicas globais.

Entre destruição e estagnação não há discussão. Vencerá o utilitarismo.

A natureza, por sua vez,  deve estar achando excelente essa possível paralisação ou semi-paralisação da economia americana, com reflexos globais.

No ritmo do super-consumismo ultra-exacerbado americano, que se espalha para China, Japão, Europa, Africa e América do Sul, uniformizando comportamentos culturais suicidas, rola, perigosamente, tremenda destruição ambiental.

Com a bancarrota financeira, entra em xeque tal modelo de vida, que ameaça a humanidade.

Se os Estados Unidos, punidos pela lógica da irracionalidade, que levou a nação ao buraco negro monetário, serão obrigados a viver possivelmente fase recessiva dura, significa que haverá menos demanda sobre o planeta, cujo resultado tem sido, claramente, crescente desequilíbrio do meio ambiente.

Desde 1987, os cientistas, preocupados com o avanço da irracionalidade capitalista, que avança destruindo a natureza, alertaram sobre o impasse decorrente das excessivas emissões dos gases C02, gás carbônico, e CH4, metano, responsáveis pelo aquecimento terrestre. 

Em 1997, foi assinado o Protocolo de Kyoto, em que os signatários se comprometeram a reduzir suas emissões de CO2 em 5% quando comparados aos níveis resgistrados em 1990. O acordo estipulava que ele só se tornaria efetivo quando fosse ratificado por, pelo menos, 55% dos países signatários e que somassem 55% das emissões.

 

Unilateralismo faliu. Multilateralismo ocupará o vácuo

 

Os Estados Unidos, maior economia poluidora do meio ambiente, responsável por 25% do total das emissões de gases de efeito-estufa, não assinaram o protocolo. Frustração mundial.

A contaminação do ar, das águas e do solo, seja pela queimadas das florestas, pela emissão dos gases tóxicos das indústrias químicas e de beneficiamento de minerais, ou pelas toxinas geradas na decomposição do lixo urbano, seguiu em frente, destruindo as forças naturais.

Cenário apocalipto, apresentado pelo Painel Internacional de Mudança Climática(IPCC), descortinou-se forte:o efeito estufa estaria estreitamente ligado ao aumento da ocorrência e intensidade de inundações e secas, amboas resultando em redução das reservas de água potável. Além disso, aquecimento da atmosfera aumenta mortalidade de velhos, crianças, graças a expansão de casos de doenças pulmonares e do aparelho digestivo.

O aquecimento global mudou características fundamentais do clima europeu, proporcionando elevação de temperaturas em continente onde o frio predomina, impondo temperaturas superiores a 40%. No Brasil, o aquecimento se expandiu com a destruição das florestas em escala irracional, estimulando ampliação da produção e exportação de soja, carne, milho, algodão e, sobretudo, madeira. 

A lista do desastre é interminável, no compasso do ritmo da destruição ambiental imposta pela busca insaciável do lucro, que não visa o interesse do contribuinte.

A natureza pede, desesperadamente, um tempo, racionalidade ao estouro consumista. Nada. Os interesses individualistas, preponderantes, relativamente, aos interesses coletivos, continuaram e continuam a destruição.

A bancarrota financeira, enfim, pode dar uma parada técnica na loucura, impondo a necessidade do interesse coletivo, socialista, impor-se, politicamente, sobre o individualista, capitalista, abrindo espaço a uma maior cooperação internacional, algo que os Estados Unidos se negaram a pratica, até agora, recusando assinar o Protocolo de Kyoto.

 

Chegou a hora de uma parada na busca louca do lucro

 

A crise bancária, que destroi riquezas puramente fictícias, sinalizando redução do nível de atividade geral, a partir dos Estados Unidos, conspira a favor dos interesses da natureza. Poderá arrefecer a destruição ambiental e dar uma orientação racional à irracionalidade anárquica capitalista.

A desaceleração econômica nos Estados Unidos, cujo consumo sustenta, organicamente, a economia mundial, dados os fios do tecido econômico traçados por ele, impõe novo rítmo aos parceiros comerciais, detonando lógica desacelarativa nos elos gerais do capitalismo global, em termos proporcionais.

Gigantes parceiros comerciais dos Estados Unidos, como China, Japão e Europa, que sofrerão sérias consequências decorrentes da derrocada financeira americana, terão novos comportamentos diantes dos demais elos mais fracos da cadeia econômica capitalista global? Ou será preciso chegar mesmo ao caos total, para surgir nova Arca de Noé?

Não estaria descartada possibilidade de acontecer com os Estados Unidos o que aconteceu, na década de 1990, com o Japão. Depois de viver, nos anos de 1970 e 1980, a farra dos nipodólares, expressos na euforia das exportações de produtos tecnológicos avançados, os japoneses se transtornaram nas angústias do empoçamento excessivo de dinheiro, que levou à deflação. O nacionalismo japonês, feito em casa, como está ocorrendo, com a China, trouxe, como resultado, paralisia. O capitalismo ficou parado, juro zero, deflação na porta, só jogando na exportação, com moeda desvalorizada.

Seria esse o futuro do nacionalismo chinês que abarrota o mundo de mercadorias de toda a natureza, sustentando o mercado de matérias primas global?

 

A terra se agita contra a expoliação destruidora do capital

 

A bancarrota americana pode servir de ponto de inflexão à lógica anteriormente desenhada pela exacerbação egoística capitalista global tocada por moeda podre especulativa implodida no excesso de dólares derivativos.

Viria por aí um relativo repouso econômico global determinado pelo estresse de Tio Sam? A natureza começaria a sorrir.

O perigo maior para os Estados Unidos é o excesso de moeda podre – fala-se em 60 trilhões de dólares derivativos, coisa de doido –  e a consequente desmoralização monetária que dificultaria a saúde do governo americano de continuar enxugando a base monetária global para evitar inflação exponencial.

O fato novo, portanto, é a crise do keynesianismo americano e não do liberalismo, que já havia entrado em colapso na crise de 1929.

O próximo presidente americano adotará as medidas neoliberais que a Casa Branca sempre pregou para a periferia capitalista, a fim de enxugar o excesso de gordura podre?

A natureza baterá palmas, porque o protocolo de Kyoto vai sair. Haveria parada obrigatória no gigante consumista , guerreiro devastador, impulsionador da economia de guerra, bancada por moeda estatal fictícia sem lastro.

A ordem unilateral está se rompendo, para dar lugar ao seu oposto, o multilateralismo. A tese produz a antítese. Qual será a síntese?

A primeira grande crise monetária do século 21 pode ser uma boa. Negação da negação. O keynesianismo negou o neoliberalismo e agora se vê negado.

Representaria freio ao capitalismo devastador e a imposição de uma nova ordem dada pelo excesso do próprio homem, que, de agressor, passou a ser agredido e condicionado pelas forças naturais racionais em substituição às forças humanas irracionais?

Estagnar, nesse contexto,  tornou-se útil.

Consumir menos significaria prejuízo ou avanço?

O que o crash financeiro pode conseguir, ou seja, menor demanda destrutiva econômica sobre a terra, minimizando desproporção incompatível com a sustentabilidade ecológica, representaria na prática, por outras vias, nova conjuntura que leva a humanidade a outros questionamentos.

Novas possibilidades, novas culturas comportamentais transformadoras, nova economia, nova ética?

Se não foi possível, enquanto o unilateralismo político-militar americano predominou, à custa de moeda sem lastro, com a destruição financeira, que coloca Tio Sam desmoralizado, pode ser que surjam as condições reparadoras, naturais, que impõem suas vontades supremas. Bloqueariam, consequentemente, o avanço da economia de guerra.

Pintaria a economia da paz, no rastro da falência keynesiana guerreira?

 

Explosão da falsa consciência consumista empobrecedora.

 

O modelo de desenvolvimento econômico apoiado na escala super-consumista, que desequilibra o meio ambiente, tornando-o irrespirável, tenderia a sofrer abalos.

Qual seria o perfil da economia, combinando forças produtivas compatíveis com a sustentabilidade ambiental?

Essa pode ser a grande promessa do século 21, sinalizando mudanças quantitativas e qualitativas, no compasso da desaceleração capitalista destrutiva?

O debate está aberto.

Haveria espaço para ampliação do individualismo, que levou à loucura, na medida em que se julgou absoluto, como forma de vida, ou o coletivismo ganharia nova dimensão, como forma equilibradora, capaz de mudar paradigmas culturais e psicológicos?

O socialismo real soviético, que levou a ideologia coletivista ao paroxismo, bloqueando potencialidades individuais de se afirmarem em sua plenitude, teve como antítese o capitalismo ultra-individualista e egoísta, depois da queda do muro de Berlim, em 1989.

Resultado prático: explosão das bases de sustentação humana na terra. O capitalismo, como já disse Marx, não pode desenvolver exponencialmente as forças produtivas, porque, na busca prioritária dolucro, explode a si mesmo. Atual.

Assim, entre as radicalidades de um e outro, de um lado, o coletivismo, de outro, o individualismo, qual seria a saída?

Individualismo mais coletivismo divididos por dois? Se o unitaleralismo explodiu na crise do subprime, o pluripartidarismo emerge como natural candidato a ocupar o vácuo político.

Por enquanto , as respostas emergentes são nacionalismos. Seriam suficientes, sabendo aonde desemboca o nacionalismo capitalista japonês, na deflação, caminho que pode, ser, também, o do nacionalismo chinês, como está sendo o nacionalismo americano guerreiro destruidor da natureza?

Nova era está se iniciando, no sentido de relativizar individualismo e coletivismo em nome de um acordo para permitir sustentabilidade ambiental terrestre.