Moratória obamista e lulista em marcha global

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vai ficando cada vez mais claro qual a saída dos novos líderes mundiais, seja nos países ricos, seja nos países emergentes e pobres, para enfrentar a crise bancária internacional que levou o crédito ao colapso: o calote. Para afastar o estigma desse nome pavoroso para o mercado, quebrado, e para os comentaristas econômicos em geral, que se mostram como virgens na expectativa da primeira noite de núpcias, quando se pronuncia tal substantivo, torna-se necessário substituí-lo por moratória, para ficar mais politicamente correto.

Nos Estados Unidos, antes mesmo do desfecho eleitoral, o surpreendente John MacCain, que fez discurso belíssimo, reconhecendo a derrota, fato que o engradeceu, já destacara a necessidade de perdoar as dívidas dos mutuários do setor imobiliário, atolados, incapazes de combinar queda dos preços dos imóveis que compraram com os valores das prestações em altas, determinadas pelos juros flutuantes e por uma legislação draconiana, incapaz de sentir pena dos queimados no incêndio financeiro.

Obama, assim que eleito, apressado e sob pressão dos acontecimentos econômico-financeiros extraordinários, que tiram o sono de todos, dele, principalmente, de agora em diante, arregaçou as mangas. Dispõe-se a seguir as recomendações de MacCain., que perdeu a guerra, mas ganha a paz com sua ousada e salvadora proposta. Pode ser aplaudida, porque atende a conveniência de todos, devedores e credores.

Haverá, certamente, sob o novo presidente, moratória obrigatória para os endividados. Tal alternativa representa, para os Estados Unidos, sobrevivência econômica fundamenal. Dois terços da economia americana dependem do crédito direto ao consumidor. Os consumidores, encalacrados, com seus diversos cartões de créditos impossibilitados, nesse momento, de serem renovados e, consequentemente, poderem renovar os estoques das estoques das indústrias e do comércio, fazendo a produção realizar-se no consumo, poderão jogar a maior nação capitalista do mundo no abismo, já, se não puderem, com tranquilidade, irem às compras.

A sugestão maccainiana, assumida pela onda obamiana em ascensão irresistível, é a salvação geral. Fica, assim, demonstrada a essência do discurso da vitória de Obama, de chamamento à união, dado que sua principal ação política será a de seguir à risca a recomendação do seu adversário. 

O capitalismo financeiro, de joelhos, demonstra que precisa do calote como oxigênio, para continuar sua dura luta de acumular riqueza e pobreza, simultaneamente, levando-o, ciclicamente, aos desastres. Sensacional.

 

Adam Smith destrona Keynes

Emerge, no contexto dos Estados Unidos, não a solução de Keynes, de elevar os gastos do governo, para puxar a demanda global, mas a recomendação simples e eterna de Adam Smith, de renegociação das dívidas, já que estas, como destaca em “A riqueza das nações” jamais são pagas, mas roladas.

Como seguir o modelo keynesiano na América, se o que entrou em crise foi exatamente o remédio aplicado pelo grande economista inglês John Maynard Keynes, como solução aplicada, depois de 1936 pelo presidente Roosevelt, algo que Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, previu em 1980, sendo reconhecido, por isso, pelo economista Edmar Bacha, prefaciador do livro, considerando ousadíssima a pregação laurista, afinal, confirmada na grande crise bancária americana de 2008?

Expandir os gastos governamentais, que elevaram, nos últimos 50 anos, a capacidade de os Estados Unidos dominarem o mundo com moeda estatal sem lastro, ancorada na força militar e no jogo dominador da taxa de juros, que impõe, deterioração nos termos de troca na relação favorável aos ricos e prejudicial aos pobres, como reconhece Keynes, representa saída que esbarra em um déficit público próximo dos 6% do PIB.

Tal solução tornou-se principal responsável pelo enfraquecimento relativo do dólar e razão pela qual o mercado mundial cogita de nova arquitetura financeira mundial, depois do estouro monetário global, paralisador da locomotiva econômica internacional, simplesmente, porque a moeda americana vai deixando, no compasso da sua desmoralização, decorrente dos volumosos déficits, de ser equivalente monetário geral nas trocas comerciais.

Não custa lembrar que a onda inflacionária recente começou com a resistência, há pouco mais de oito meses, dos árabes, no sentido de elevarem os preços do petróleo, cotado em dólar, para fazer frente ao aumento do valor das suas importações européias, cotadas em euro. Para compensar a defasagem cambial entre o euro, avançando, e o dólar, recuando, os espertos árabes elevaram o preço do seu produto, do qual depende a manufatura mundial. Resultado: inflação global e explosão da bolha imobiliária.

 

Árabes começaram o jogo da depressão econômica

O petróleo, que, recentemente, chegou a quase 150 dólares o barril, puxando os preços das commodities, recuou, no compasso da desaceleração econômica mundial, para menos de 70 dólares, demonstrando o fator especulativo presente na onda de desvalorização da moeda americana, sob desconfiança dos agentes econômicos em geral.

Obama conseguirá reverter esse processo, mediante unilateralismo econômico, ou o multilateralismo é inevitável, para fixar nova conjuntura internacional, cujo início poderá ser dado , no próximo dia 15, na reunião do Grupo dos 20, a subsitutir, provavelmente, o grupo dos 7?

No contexto da desconfiança generalizada no poder de agregação da moeda americana, cujo resultado, ao final, foi a bancarrota imobiliária, nos Estados Unidos, os devedores, no processo desaceleração econômica, perderam fôlego para continuar sustentando o modelo de desenvolvimento que se apoia no crédito direto ao consumidor em escala exponencial.

John MacCain(da velha escola republicana caloteira americana, algo que sedimentou-se ao longo do século 19, quando os Estados Unidos deram vários calotes na praça mundial, bem como, também, no século 20, como ocorreu com Richard Nixon, em 1971, que, ao desvincular o dólar do ouro, deu, igualmente, tremendo beiço na praça global) foi ao ponto essencial: não há saída fora do calote.

Barack Obama, se quiser ver os americanos, de novo, voltarem às compras, a fim de evitar que a decadência economica dos Estados Unidos prossiga, não terá outra opção: unir, como destacou no seu discurso, republicanos, vencidos, e democratas, vencedores, em torno de um só propósito salvador: limpar os passivos gerais, para que, limpos, possam dar passagem a novas dívidas adamsmitianas.

 

Mantega salva São Paulo e montadoras do crash

O presidente Lula vai na mesma linha caloteira, usando o instrumento estatal, para permitir renegociação e perdão de dívidas. Salva os bancos pequenos e adia pagamento de impostos para que os empresários disponham de capital de giro para tocar seus negócios.

Tentou jogar cooperativamente com os grandes bancos privados. Estes, vendo riscos e fantasmas por todos os lados, pularam fora.

Teria o titular do Planalto outra salvação, relativamente, às indústrias de bens duráveis brasileiras, que estão à beira da falência, como as fabricantes de automóveis, eletroeoletrônicos, eletrodomésticos, microeletrônicos, DVDs, celulares etc e tal, nos seus negócios, diante de consumidores incapazes de saldar compromissos, no contexto da nova ordem desestabilizada pela crise?

A principal cidade brasileira e sul-americana, São Paulo, que sedia a indústria automobilística, responsável por quase 15% do PIB, candidata-se a um monumental crash, se não for socorrida tal indústria com oferta de crédito farto, para continuar a roda consumista. Elas, que criaram seus próprios bancos, agora, falidos, para financiar os consumidores, jogaram a toalha.

Com a impossibilidade desses bancos tamboretes de continuarem buscando no exterior crédito barato para financiar carros, no mercado interno, emergiu a falência inevitável. O presidente Lula, depois de tentar se socorrer junto aos grandes bancos, pensando serem estes seus aliados, na hora do aperto, mesmo dando a eles o dinheiro do compulsório para ser emprestado a juro zero, ficou na rua da amargura.

Que fez a banca? Deu uma banana para o titular do Planalto. Passo seguinte, para se fortalecerem, os poderosos banqueiros do Unibanco e do Itaú uniram suas forças para uma fusão bancária gigante, a fim de se fortalecerem diante do ímpeto estatizante da administração lulista, expressa na medida provisória 443 em tramitação no Congresso. Não cairam na armadilha planaltina os bancocráticos sorridentes e poderosos.

 

Falta de compromisso com a sociedade

Lula não quis ou não pode seguir o conselho de Lenin, que em “A catástrofe iminente e as formas de conjurá-la”, pregou, no auge da crise financeira que atingiu a União Soviética, boicotada pelos banqueiros internacionais e seus aliados internos, o mesmo que Gordon Brown fez, agora, no auge da crise bancária: partiu para a estatização do crédito como solução. Capitalismo vira comunismo e comunismo, capitalismo, em meios as contradições que levam os dois sistemas a entrarem em conflito encarniçado.

Por que iriam os grandes bancos assumir tamboretes quebrados , colocando em seus ativos sadios passivos podres? Ativos sadios, vírgula, pois o Unibanco, sócio da maior corretora mundial, a AIG, quebrada, socorrida pelo tesouro dos Estados Unidos, também, poderia ser alvo de corrida dos correntistas aos seus caixas, agora salvos pela incorporação dos seus ativos pelo Itaú.

Fugiram os dois bancos como o diabo da cruz de qualquer compromisso salvacionistas dos pequenos bancos, seus concorrentes. Quem já viu concorrente forte salvar concorrente fraco, senão metendo-lhe o pé nos traseiros ou incorportando-o aos seus domínios, como fez o Itaú com o Unibanco?

Ao mesmo tempo, recuaram, igualmente, em emprestar o dinheiro do compulsório como alternativa para esquentar o crédito direto ao consumidor para dar sustentação às demais indústrias de bens duráveis e semi-duráveis, da mesma forma que continuam fazendo corpo mole em sustentar a dinâmica do comércio exterior, mesmo sob protestos dos ministros da área econômica e dos políticos no Congresso.

Restou ao governo entrar na fogueira sem nenhuma proteção, com seus bancos oficiais, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, para resgatar do incêndio as montadoras, as construtoras e demais que estão abrindo o bico, pedindo, desesperadamente, água. Lá, na frente, quem sabe, se pintar um governo neolibertal, outra vez, na linha tucana de FHC, os grandes bancos, diante dos bancos oficiais encalacrados, engoliriam os bancos oficiais. Pode ser? Sim e não, depende das circunstâncias.

Ficou claramente demonstrado o compromisso dos grandes bancos com a sociedade: dela querem somente o sangue, como bons vampiros sanguessugas. Buscam unir-se não para a cooperação, mas para fuga, enquanto são paparicados pelos puxa-sacos de sempre.

Obama: vitória do poder comunitário digital

A fantástica vitória de Barack Obama, primeiro presidente negro da América, conquistando 338 delegados, bem além dos 270 necessários, fazendo, ao mesmo tempo, maioria no Senado e na Câmara, e credenciando-se para enfrentar os desafios impostos pela violenta crise monetária, que ameaça a estabilidade do dólar, no mundo, tem sua base no poder das organizações sociais americanas e na mobilização política da comunidade, onde ele se formou.

Mas sua amplitude extraordinária, de forma organizada, concatenada, objetiva, ancorada no discurso da tentativa de união das contradições desatadas pelo capitalismo financeiro especulativo, que se encontra de joelhoes , em busca de uma nova síntese política, foi amplamente facilitada pela revolução tecnológica digital a serviço do poder comunitário.

Desde o primeiro momento, Obama soube, com competência, trabalhar com as novas tecnologias, You Tube, internet, celulares, por meio das quais criou a empatia necessária para fazer seu discurso renovador de mudanças, impondo, no coloquialismo comunicativo, a sua força capaz de atrair os adeptos, até, mesmo, no campo adversário, realizando reviravoltas espetaculaes, como ocorreu no eleitorado do sul, tradicionalmente, republicano.

Mobilizou recursos humanos e financeiros da comunidade, ancorado em uma mensagem expressa em linguagem dela, para conquistá-la com compromisso que soou quase familiar. Conversa de amigo para amigo, na nova comunicação global em que a instantaneidade, alavancada pela tecnologia da informação, proporciona. Obteve, dessa forma, praticamente, a totalidade dos estados americanos, construindo em cada cidade dos Estados Unidos centenas de centros comunitários. Emergiu, nesse compasso, força política irresistívelmente poderosa, interativa, dialética, impulsionadora de movimento sintonizado com ênfase mudancista-obanista. John MacCain, republicano, não conseguiu segurar a onda. Sucumbiu-se.

 

Interatividade tecnológica dialetica impõe nova ética

Barack Obama, produto genuínamente político-comunitário, expressa, dessa forma, de maneira emocionante, como a mobilização social, no compasso do desenvolvimento científico e tecnológico, colocado a serviço da política comunitária, abre novo espaço transformador. Lança exemplo inquestionável para os partidos políticos, em todo o mundo, a fim de agirem nesse sentido.

Sobretudo, demonstra a inconfundível característica americana, de apostar na inovação tecnológica, dando o tom das transformações econômicas, políticas e sociais que, certamente, estarão na base das providências que o governo, sob seu comando, imprimirá aos Estados Unidos, para tentarem continuar dando as cartas no plano global, em meio à maior crise econômica da história mundial dos tempos modernos.

A própria essência do fato político relevante embute nova lógica: a comunicação exige o diálogo interativo, uma nova percepção de que sem a busca de um consenso multilateral, a política americana não superará os seus impasses, bloqueados pelo pensamento unilateral politicamente falido.

A tecnologia digital demonstrou sua força transformadora no campo da mobilização político-social, conferindo, não apenas o compromisso novo no contexto partidário transformador, mas, principalmente, quanto ao carater revelador de transparência desse mesmo compromisso.

No campo das doações financeiras, por exemplo, o candidato deixou aberta na internet, para seus milhões de seguidores, a movimentação dinâmica das receitas e despesas de campanha. A conferência dos dados permaneceu aberta ao crivo, dispondo o contribuinte de acesso on line  a todos os dados da contabilidade partidária.

Nasceu, assim, nas águas da revolução científica e tecnológica, colocada a serviço da política, uma nova ética, pois, a contribuição individual e coletiva pode ser aferidade, dando caráter de honestidade ao movimento dos números associados ao discurso. Os engajados na campanha tiveram a consciência de estar movimentando o seu próprio dinheiro, seu próprio candidato e, consequentemente, suas próprias esperanças. Algo absolutamente inédito.

Mundo digital ganha status político

Claro, essa experiência será levada adiante na formulação dos orçamentos nas cidades, nos bairros, nas comunidades, nos centros comunitários, na formulação das políticas, na condensação das reivindicações populares, para que, assim que chegarem ao poder decisório, em sua mais alta instância, se transformará, objetivamente, em expressão genuína da vontade popular.

O mundo digital ganha status político com a chegada de Obama à Casa Branca. Os demais governos do resto do mundo, dado o efeito demonstração da experiência obamista de movimento de transparência ética total que traduz, em termos de evolução democrática, terão, obrigatoriamente, que seguir esse exemplo, sob pena de cairem em descrétido, caso atuem em sentido contrário.

Os gastos públicos, no governo Obama, precisarão seguir a lógica imprimida a sua campanha vitoriosa, com a qual nasce uma nova consciência sobre a necessidade da transparência em todos os sentidos, jogando para o espaço as armações dos ladrões que se disseminam por todos os cantos, pautando-se pela obscuridade quanto às informações fundamentais relativamente ao dinheiro do contribuinte.

No rastro da decadência do capitalismo financeiro americano, nasce um novo comportamento que exigiria, para ser coerente, uma nova mentalidade capitalista. Seria isso possível, sabendo que a lógica do capital é a lógica da acumulação, de um lado, e da exploração, de outro? Contradições a mil à vista, para conferir novo status à democracia representativa na terra de Tio Sam.

Ganha, portanto, novo impulso o poder político comunitário digital, nos Estados Unidos, cuja Constitição já prevê a democracia direta, capaz de corrigir erros dos políticos, até mesmo para ejetá-los do poder – exemplo esse existente em Constituições na América do Sul, como na Bolívia, na Venezuela e no Equador, enquanto, no Brasil, infelizmente, tal contexto continua tateante, com a classe política, relativamente à contabilidade do dinheiro de campanha política, representa uma vergonha, como demonstra o exemplo da excrescência praticada pelo governador Ivo Cassol, de Rondônia, felizmente, cassado pelo tse.

 

Núcleos comunitários digitais, nova força politica

A experiência histórica da campanha de Barack Obama lança raízes globais. No Brasil, onde o discurso anda à frente das ações efetivas, não passando, ainda disso, como demonstra os 20 anos de existência da Constituição de 1988, ainda sem regulamentação uma série de reformas transformadoras no campo econômico, social, político e ético, o desafio é redobrado, em meio ao desenvolvimento científico e tecnológico, na era da informação eletrônica instantânea.

Os planos dos governos são vários, mas os interesses obscursos ainda impedem avanços significativos, para firmar uma nova relação governo-comunidade, pautada pela ciência da informação, impulsionada pela tecnologia digital.

As cidades tecnológicas, as avenidas digitais, por meio das quais a comunidade vai trafegar, com suas propostas comunitárias renovadoras, requererão investimentos que ainda estão no plano das promessas, mas sob intensas pressões sociais e políticas, que não querem esperar mais, para efetivar a relação democrática mais intensa da sociedade com os seus representantes, ainda inconscientes do papel renovador da transparência total, dado que são impedidos pelos seus interesses pessoais, desligados do compromisso social.

Experiências exitosas em diversas cidades estão em curso. Na recente campanha eleitoral, a maior promessa, por exemplo, do candidato Fernando Gabeira, do PV, derrotado no Rio de Janeiro, teve como âncora a tecnologia da informação e seu engajamento numa plataforma política voltada para a impulsão das cidades digitais.

 

Brasilia Capital Digital, por enquanto, no papel

No Brasil, o governo Lula trabalha para intensificar a sociedade do conhecimento, mas a prioridade, ainda, não é essa, mas o pagamento da dívida pública interna, que exige desembolsos de quase R$ 200 bilhões aos bancos, enquanto o conhecimento fica em segundo plano, por enquanto, apesar de os projetos governamentais serem grandiosos, porém, devidamente, guardados nas gavetas da burocracia.

No DF, igualmente, o secretário de Ciência e Tecnologia, Izalci Lucas, realizou, nos últimos tempos, intensa mobilização com os empresários, para a construção do projeto Brasília Capital Digital, por enquanto, andando a passos de cágado, porque não se chegou, até o momento, ao consenso sobre a parceira governo-iniciativa privada, a fim de dar curso mais veloz ao empreendimento, embora a sociedade esteja ávida para participar dos avanços que tal progresso proporciona no campo do conhecimento.

Não é mais possível o ensino verdadeiro sem a instrumentação da tecnologia digital, que coloca o ser humano diante da informação que deseja e precisa, para resolver seus problemas relacionados ao conhecimento, antes acessível, apenas, a uma minoria de privilegiados.

No plano político, como demonstrou a campanha vitoriosa de Obama, os núcleos comunitários tendem a se transformar nas plataformas a partir das quais a organização política ganharia força, formulando questões a serem encaminhadas à administração pública, sinalizando intensa interatividade político-administrativa, para conferir à administração pública suficiente autenticidade na relação governo-comunidade. Esse é o novo tempo da democracia participativa, que ultrapassa a democracia meramente representativa, que, deixada à sorte dos políticos, sucumbe pela falta de suficiente autenticidade, bloqueda pela corrupção.

De Obama para Lula: Governo de união nacional

O candidato do partido Democrata dos Estados Unidos, Barack Obama, que poderá ser o novo presidente da República, se as pesquisas de opinião forem confirmadas nas urnas, nessa terça-feira, deu o mote para o novo tempo, cuja essência é união nacional.

Promete o primeiro presidente negro americano a possivelmente chegar à Casa Branca que se eleito convocará as forças políticas da nação, para governar o país atolado na maior crise econômica de sua história, tão ou mais intensa do que a grande depressão de 1929. Reconheceu que sem tal chamamento não conseguirá governar. Vibrante.

A tarefa de Obama ou de John MacCain, caso este seja o vencedor – esperamos que não! – é hercúlea. A impossibilidade de o governo americano, sozinho, resolver a parada da grande crise financeira internacional, detonada a partir dos Estados Unidos, com estouro do setor imobiliário, super-alavancado nas especulações do subprime, cujos efeitos destrutivos espalharam, perigosamente, pela Europa e Ásia, já ficou patente. Não conseguirá enfrentar o pepino econômico, acompanhado dos compromissos de enfrentar duas guerras em curso, emitindo moeda sem lastro, desgovernada pelos fantásticos acontecimentos.

O presidente W. Bush demonstrou toda a sua impotência, no auge do momento histórico. Compareceu tantas vezes em público , para falar da necessidade de união, capaz de ajudar os Estados Unidos a enfrentarem os descaminhos econômicos, politicos e sociais explosivamente emergentes que não restou dúvida alguma de que somente a união internacional, num contexto multilateral, conseguirá superar os impasses.

Vale dizer, o unilateralismo arrogante norte-americano é coisa do passado. Ele jogou a moeda nacional numa tremenda buraqueira, marcada pela desconfiança generalizada no seu poder de continuar sendo o equivalente universal nas relações de trocas comerciais globais. Resta buscar novos socorros, a fim de encaminhar soluções convergentes, no plano internacional, no sentido de fixar nova divisão do trabalho no plano geral do mundo.

 

Evidente contradição presidencial 

Obama, com visão de estadista, ao se dispor a chamar os aliados internos, democratas e republicanos, para o acordo, sendo o vencedor do pleito de hoje, dá a dica do que pretende, igualmente, realizar no plano das relações externas, dando novo conteúdo aos planos de política global dos Estados Unidos.

Certamente, MacCain, caso seja eleito, não teria outra alternativa, também, algo que não explicitou, embora se esforçasse para parecer distante dos compromissos assumdos por W. Bush, seu aliado partidário, porque, talvez, carregue no seu peito a arrogância típica dos herois de guerra americanos, falsamente, conscientes de que a América pode tudo sozinha, o que não ocorre mais.

Resta aguardar os acontecimentos.

O que essa estratégia obaniana diz para o presidente Lula, que, também, enfrenta desafios homéricos, no calor da crise, depois que a ficha lhe caiu, desbancando otimismo excessivamente cândido segundo o qual o Brasil estaria livre das consequências do maremoto financeiro global, que fez sumir da praça o crédito, jogando o capitalismo, mundial e nacional, em completa incerteza?

Claro, não há solução fora de uma união nacional. Tal evidência é tão gritante que joga dúvida sobre a real capacidade do titular do Planalto quanto a sua competência política, por não ter aventado essa possibilidade até o momento, se, quando ele viaja ao exterior, não cansa de pregá-la.

Durante a abertura dos trabalhos, na reunião da ONU, a pouco mais de um mês, falou de união internacional, novas relações globais, multilateralismo como solução etc e tal. Nas reuniões com os líderes sul-americanos, idem. Na Europa, na Ásia e na Áfria, da mesma forma, fala no mesmo tom. Na semana passada, em El Salvador, na cúpula Ibero Americana, e em Cuba, com o presidente Raul Castro, da mesma forma, repisou.

No plano interno, porém, joga com autoritarismo presidencialista e excessivo otimismo, como o Cândido de Voltaire, enquanto empresários se descabelam diante dos grandes bancos, que colocam o titular do Planalto na condição de peru de natal a ser destrinchado.

Sem um entendimento global, não haverá solução satisfatória.

Afinal, o que está em xeque-mate é um arranjo internacional, forjado no pós-guerra, no rastro do poderio econômico, político e militar norte-americano, tendo o dólar como a representação desse real poder, a coordenar o mundo ocidental, políticamente, em nome da democracia, para barrar o avanço do comunismo soviético.

Essa arquitetura geoestratégica, que, ao longo dos últimos quarenta anos, foi se deteriorando, quanto mais os Estados Unidos foram acumulando deficites gêmeos – comercial e fiscal – para gerar exportações dos aliados para o mercado americano, francamente importador, tendo como contrapartida o compromisso dessa aliança de países ser expressa pela compra de títulos públicos americanos, nas carteiras dos governos, esgotou-se.

Traduziu tal estado de coisas, ao final de quase cinco décadas, em expansão extraordinária do capitalismo, que, dialeticamente, acumulou, igualmente, tensões destrutivas, visto que o sistema contraditório, caminha para a expansão e destruição ao mesmo tempo.

A tese gerou antítese, que busca síntese no arranjo político, seja interno, seja internacional. 

Banqueiros agiram no vácuo político lulista

Dançada tal estrutura, tanto os americanos como seus aliados em geral, todos, enfim, se encontram , excessivamente, estressados.

Tal estresse se traduz na consciência de se realizar nova arquitetura mundial, ou seja, nova negociação política, tanto no plano geral, como no particular, no interior dos países, impõe-se como imperativo categórico, como diria Kant.

Afinal, o geral se espalha para o particular e o particular guarda as tensões do geral, que se desorganiza, exigindo novos paradigmas.

Lula, porém, não estendeu a conscientização que demonstra ter no plano externo para o plano interno. Internamente, faz-se necessário e urgente nova concertação política, não apenas dentro da aliança governista, construída na coalização, mas, principalmente, no âmbito de diálogo com a oposição. Todos estão no mesmo barco em posições diferentes, mas integradas, em ritmo dialético, para o bem e para o mal.

Teria o presidente brasileiro que dispor da mesma extroversão politica manifestada por Obama, de chamar para conversar as forças nacionais para um grande encontro: políticos, empresários, trabalhadores, com seus antagonismos característicos, decorrentes da estruturação de uma sociedade baseada no egoísmo, na ambição, no orgulho e no narcisismo vaidoso excessivo, irmanados, conflitante e contratidoriamente na busca do lucro  a partir do espírito empreendedor criativo-destrutivo.

A sobreacumulação excessiva de capital demonstrou seu potencial de alta destruição.

 

Lideranças foram escanteadas

Por enquanto, o presidente perde tempo e acumula prejuízos políticos, em vez de faturar, enquanto a crise vai provocando estragos.

Primeiro, não convocou os banqueiros a Brasília para uma conversa franca e dura, como faziam os governos militares, a fim de que assumissem, com o governo, responsabilidades comuns, pois, afinal, a atividade bancária é uma concessão do Estado para a iniciativa privada, que, em momentos críticos, como o atual, teria que abandonar interesses meramente pessoais, de classe, de modo a assumir compromissos gerais. Dançou ao ficar sabendo da união, não dele com os bancos, mas dos bancos grandes entre si contra ele.

Segundo, menosprezou a classe política. Mandou duas medidas provisórias, ao estilo autoritário presidencialista, ao Congresso, sem antes reunir com os presidentes do Senado, senador Garibaldi Alves(PMDB-RN) e da Câmara, depuado Arlindo Chinaglia(PT-SP). Se tivesse trabalhado, nessa linha, teria adiantado providências, sem maiores tensões no Legislativo.

Terceira mancada: os governadores, aliados e adversários,  protagonistas fundamentais das eleições municipais, não foram contatados, politicamente, em encontro na Capital da República, para uma ação comum.

Esperto, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, no vácuo vacilante lulista – onde está sua assessoria? – , convocou governadores dos estados mais ricos do sul-sudeste, para discutir a crise global. Detonaram os termos básicos da reforma tributária em discussão no Congresso, sob impulso do Planalto.

 

Faltou coordenação política planaltina?

Nessa quinta feira, o titular da República reúne, atrasado, o Conselho Político de Desenvolvimento Nacional, para debater os assuntos candentes, de maneira, lamentavelmente, atrasada. Teria que ter feito isso, emergencialmente, rompendo agendas.

Gastou verbo, adjetivo e substantivo pelo mundo afora, clamando providências, mas, aqui, dentro, somente buscou despistar, tentando criar um ambiente falsamente otimista, deixando agirem, descordenadamente, o ministro da Fazenda, com um discurso desenvolvimentista, de um lado, e o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, de outro, com discurso monetarista, de outro, ancorado em poder excepcional, que o fez fazer o contrário do que as lideranças políticas mundiais, no calor da crise, realiza.

O titular do Planalto deixou os problemas políticas extraordinários para serem resolvidos pelos técnicos. Os banqueiros, politicamente, dando uma de estatistas, no plano dos seus interesses, jogaram para valer impondo derrotas estratégicas às manobras palacianas descordenadas.

A ação política presidencial, depois desse vendaval todo, soa como corrida atrás do prejuízo, em vez de ser a de antecipação de quem dispõe de visão relativa de estadista.

Demorou.

O fato é gritante. Tudo está sendo desmoronado com a violenta crise de crédito que começa a destruir empregos, salários, consumo, produção e, consequentemente, capital político presidencial.

Obama, se eleito, vai ganhar corpo, em termos comparativos, pois, certamente, sua primeira palavra à nação dividida pela eleição e apavorada com a crise, que destroi a reputação americana de potencia global, será justamente clamar por união nacional.

Lula terá que correr atrás de Obama.

Fusão para resistir à estatização lulista

Certamente, a fusão entre os dois mega-bancos, Itaú e Unibanco, está sendo estudada, como informam os noticiários, há 15 meses mais ou menos.

Um vai e vem que se conclui no calor dos acontecimentos dramáticos, determinados pela primeira grande crise monetária do século 21, responsável por colocar o capitalismo financeiro de joelhos no país capitalista mais poderoso da terra, os Estados Unidos, seguidos, de perto, em seus desatinos, pela Europa e, igualmente, pela Ásia e a América do Sul.

Ou seja, todos embarcados na grande Arca de Noé, furada pelas violentas especulações financeiras com papel podre, que impõem perigo de recessão mundial em escala jamais vista, desde a grande depressão de 1929.

Trata-se de negociação altamente profissional, como é da marca registrada das grandes instituições bancárias, que, no contexto da bancarrota financeira, perceberam a importância da união dos grandes com os grandes, ameaçados pelas ações estatizantes governamentais, de jogar, no mercado, moeda estatal sem lastro para resgatar títulos podres, derivativos, impulsionados pela engenharia financeira especulativa global. num contexto de desconfiança generalizada do povo contra os especuladores em todos os quadrantes do mundo.

Não foi , portanto, algo intempestivo, atabalhoado. Não há, porém, como desconsiderar que o desfecho do grande negócio do século, pelo menos até agora, no plano bancário nacional, se dá no auge das pressões que o governo do presidente Lula faz em cima dos poderosos grandes bancos nacionais, entre eles o Itaú e o Unibancos, resistentes, no âmbito da Federação Brasileira dos Bancos – Febraban – , a colaborarem no sentido de dar liquidez, com dinheiro dos compulsórios, ao mercado, atolado em crise de confiança.

Fundidos, criam fato novo, surpreendente, pois se fortalecem contra o propósito do titular do Planalto, colocando lenha na fogueira da relação entre ambos. Esta, naturalmente, tende a azedar, no contexto da sucessão presidencial de 2010.

Afinal, sob ameaça lulista, os grandes bancos apoiariam a candidatura da ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, coordenadora do PAC, ameaçado pela resistência bancária, de irrigar o mercado de dinheiro, tornando as atividades econômicas reféns do perigo recessionista, capaz de bloquear os investimentos públicos, que padecerão se a arrecadação cair por conta da escassêz de crédito?

Existirá PAC se a arrecadação, decorrente da escassez de crédito, cair, perigosamente, como fruto da resistência dos grandes bancos em trabalharem no compasso da pregação governamental? 

Estratégia acelerada para fugir dos boatos

Os banqueiros estão ressabiados com Lula. O Palácio do Planalto, sob grandes pressões dos setores produtivos, secos em matéria de crédito, editou duas medidas provisórias, as de números 442, que centraliza o poder de decisão sobre a crise no Banco Central, e a 443, que abre possibilidade de estatização bancária.

Ao mesmo tempo, o presidente passou a fazer fortes pressões sobre os grandes bancos, para que emprestassem a juros mais baratos os depósitos compulsórios a eles liberados a juros zero, de modo a irrigar a praça, e, também, comprassem carteiras dos bancos pequenos, a beira da falência, carregados de pepinos irresgatáveis no crédito direto ao consumidor, especialmente, para compras de bens duráveis, automóveis, eletroeletrônicos, eletrodomésticos, DVDs, celulares etc.

Qual a reação dos grandes bancos diante do sufoco dos pequenos concorrentes?

Ganância, ambição, interesse próprio e fuga ao risco. Tudo compreensível, num ambiente de completa desorganização das finanças globais, expressa no sumiço do dinheiro na circulação capitalista, que joga o sistema em sua maior contradição.

Sem dinheiro circulando, a produção jamais se realiza no consumo, sinalizando emergência, não da inflação, mas da deflação. A inflação aleija os salários e acumula o capital, mas a deflação mata tanto o capital como o salário. Escolha de Sofia.

Nesse contexto, os grandes bancos embolsaram o compulsório e jogaram o dinheiro disponível, não no crédito, nem na salvação dos pequenos, mas na compra de títulos do governo. Demonstraram disposição de não correr risco algum, enquanto as empresas estão frente ao risco total de inadimplência.

Comprariam com os depósitos compulsórios carteiras de concorrentes quebrados?

O governo, apavorado com a situação de deterioração completa do crédito  na praça, reagiu, deixando de remunerar, pela taxa básica de juros, selic, de 13,75% ao ano, 70% do total do dinheiro recolhido compulsioriamente.

Ameaça concreta à banca cujos efeitos políticos poderiam ser surgimento de ressentimentos populares contra a ganância bancária. Contra isso, emergiu o remédio bancário: a fusão irreversível.

 

União fortalece Brasil no mercado mundial

A ação governamental se mostrou clara: endurecimento contra a banca teimosa em colaborar no sentido de irrigar o mercado de crédito. O presidente da Febraban, Fábio Barbosa, titular do Banco Santander, fez corpo mole. Destacou que não poderia haver reação rápida. Ficou, com os companheiros, trocando bola no meio de campo, empoçando o dinheiro.

Primeiro, devagar, disse, seria preciso analisar cada caso de pequeno banco encalacrado, verificando, minuciosamente, suas carteiras bichadas etc e tal. Empurrou com a barriga. Sem saída, as autoridades econômicas, sob bombardeio do Congresso, na semana passada, prometeu novas ações.

Quais?

Certamente, avanço da estatização bancária, dando mais poderes ao Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, para atuarem diretamente no mercado. Os congressistas do Norte, assim como os do sudeste, se uniriam. A Zona Franca de Manaus, sem crédito, vira fumaça. Idem, o ABC paulista, regado ao crédito direto ao consumidor, sumido pela resistência à concessão de novos empréstimos pelos desconfiados banqueiros.

Intensamente, preocupados, os empresários correram para a Confederação Nacional da Indústria(CNI). Sob presidência do deputado federal Armando Monteiro Neto(PTB-PE), pregam moratória dos impostos como forma de disporem de capital de giro. Mas, o governo, que precisa de arrecadação, aceitará?

O que fizeram os grandes bancos sob pressão intensa, tanto econômica como política, que tende a aumentar, extraordinariamente, nos próximos dias? Fugiram e fundiram-se

 

Pressão total dos empresários 

Na retranca, dispuseram-se a recolher suas reservas – estimadas em mais de R$ 250 bilhões –  diretamente ao Banco Central, em vez de realizarem o jogo dos empréstimos de alto risco para os pequenos quebrados, bem como ampliar oferta de crédito aos clientes, que, por sua vez, diante dos juros altos oferecidos, preferem ficar de butuca.

O presidente do Bradesco, Marcio Cipriano, desassombradamente, alertou que a situação, longe de levar os bancos, sob pressão, a diminuirem os juros, provocaria o contrário, isto é, aumento do custo do dinheiro. Uma lógica irreversível, já que em todas as crise capitalisas, o juro sobe em vez de cair. Caso contrário, se enforcariam.

Alguém já viu banqueiro rasgar dinheiro?

Ficou claro o jogo: o Banco Central, com o dinheiro repassado pelos grandes bancos, resistentes aos empréstimos arriscados, teria(tem) que correr o risco total.

Tal disposição da banca, evidentemente, levantaria, ainda mais, a ira do Planalto, que, para se fortalecer, buscaria a articulação política com a coalizão governamental, no Congresso, como alternativa capaz de fazer a bancocracia atender as determinações governamentais.

Conseguiria?

Antes que isso acontecesse, rolou a fusão Itaú-Unibanco. Outras, de tal jaez, com certeza, estão a caminho, porque nessa hora, ovelha separada do rebanho vira comida de onça. Os bancos pequenos se unirão entre si, Banco do Brasil com Nossa Caixa, negócio antigo em pauta alavancaria, o Bradesco buscaria o mesmo rumo etc. Lógica capitalista da crise: fusões e mais fusões, tanto de bancos como de empresas à vista, sinalizando a oligopolização geral do sistema.

Os pequenos, sejam bancos, sejam empresas, têm destino negro pela frente. Quem vai vencer o oligopólio privado em ascensão, senão o oligopólio estatal, conforme previu Jack London, em “Tacão de Ferro”, com prefácio de Trotski?

 

Estatização da AIG fragilizou Unibanco

Particularmente, o Unibanco teve interesse em apressar o negócio. Depois que o governo americano entrou em campo para salvar a maior corretora do mundo, a AIG, que possui, conforme informação do mercado, 40% das ações do Unibanco, este ficou, visivelmente, vulnerável.

Qualquer boato mais ou menos grosso, na praça, colocaria sob suspeita sua situação, apesar desta ser tida, pelo mercado, como confortável.

Verdade ou mentira, o fato é que a negociação entre os dois bancos, que vinha rolando a quase dois anos, de repente ganhou velocidade.

O Itaú, mais forte – lucro líquido de R$ 4, 084 bilhões, no terceiro trimestre de 2008 – , viu chegar a sua hora de tornar-se ainda mais poderoso na praça nacional e, consequentemente, global, num contexto em que os bancos europeus e americanos estão baleados, sendo salvos pelo socorro estatal, na Europa e nos Estados Unidos.

Abocanhou o Unibanco – R$ 2,2 bilhões de lucro no terceiro trimestre de 2008 , 16,8% a mais que igual período do ano passado – e vai presidir o banco resultante final da fusão, cujo nome, por enquanto, antes de nascer nome-fantasia, passa a chamar-se Itaú Unibanco Holding S/A, com ativos totais de quase R$ 600 bilhões,  patrimônio líquido de R$ 51,7 bilhões, em 20.09.2008, e lucro líquido de R$ 8,1 bilhões. compreendendo total de 99.304 funcionários, sendo 65.089, do Itaú, e 34.215, do Unibanco(números de 2007).

Viram, juntos, o vigésimo maior banco do mundo, plenamente, potente para se transformar num grande concorrente internacional, superando o Banco do Brasil e o Bradesco.

Mais fortes, os dois se tornam mais resistentes às ações estatizantes colocadas em marcha pelo governo federal, com apoio explícito dos governos estaduais, em especial, o governo de São Paulo, preocupado com a escassez de crédito na praça paulista, que ameaça de bancarrota a maior cidade da América do Sul e a produção automobilísitica, que puxa a demanda global da economia nacional, ameaçada de se transformar numa sucateada Detroit brasileira.

Falta de crédito leva SP e montadoras ao crash

 

O governo quer jogar o pepino da quebradeira à vista dos pequenos bancos para os grandes bancos, mas estes, espertos demais, resistem em cair na armadilha, utilizando depósitos compulsórios, poupança pública, para executar a tarefa.

Se continuarem nessa posição, condenarão as montadoras e São Paulo, berço da indústria automobilística brasileira, carrro-chefe da demanda nacional, a tremenda bancarrota, ao crash.

Está na cara que os devedores de prestações , a perder de vista, acertadas, principalmente, na compra dos automóveis, na fase áurea do crediário, a juro extorsivo, com prazos dilatados, não poderão liquidar seus papagaios. Estão na mesma situação dos devedores das prestações das casas próprias, nos Estados Unidos, condenados à forca. Compraram ativos que tendem a se desvalorizar, rapidamente.

Os pátios das montadoras estão lotados. Os caminhões cegonheiros deslocam-se pelas estradas Brasil afora rumo às concessionárias, mas estas reclamam que os clientes desapareceram.

Quem vai consumir com os juros meirellianos e prazos comprimidos, depois que o crédito desapareceu? O que farão com os estoques?  Em Anápolis, porto seco, inundam veículos sem condições de serem desovados.

Serão devolvidos às fábricas? Centenas de desempregados, lojas fechando, famílias amargando desespero etc estão à vista.

 

Bancos tamboretes detêm bomba atômica creditícia

Os pequenos bancos, criados pelas montadoras, como o Banco Fiat, ou os que se especializaram no financiamento das vendas no varejo, como o Banco Votorantim, entre dezenas de outros, que destinam seus negócios ao financiamento tanto de carros como dos demais bens duráveis em geral, eletroeletrônicos, DVD, celulares etc, nesse momento, pendurados na brocha, são candidatos à bancarrota.

Pode pintar estouro monumental. O Palácio do Planalto está agitadíssimo. Bolha tupiniquim em fermentação explosiva. São R$ 133 bilhões dependurados no crediário em julho, 43,8% maior do que o mesmo valor em julho de 2007, correspondente a 4,5% do PIB, bancados em prestações que variam de 42 a 72 meses, de acordo com a Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras(Anef). Crescimento vertiginoso do crédito na casa dos 39% do PIB na Era Lula.

Apavorado com a possibilidade de descarrilhamento geral dos negócios, dado que o crédito desapareceu, o governo tenta agir rápido, para evitar o previsível: quebradeira do mercado automobilístico nacional – de resto, possibilidade que ameaça montadoras em diversos países, todos afetados pela suspensão dos financiamentos, nas águas da primeira grande crise monetária do século 21, detonando o capitalismo financeiro altamente especulativo, desregulamentado, completamente, doido varrido.

A saída buscada pelo presidente Lula e toda a equipe econômica, nesse instante de correria atabalhoada, é a de envolver os grandes bancos no negócio. Eles entrarão nessa fria? Caso fujam, poderão ser estatizados. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Teriam que comprar as carteiras dos pequenos bancos, atolados nas prestações que não serão, provavelmente, pagas, como não estão sendo quitadas as prestações dos devedores dos imóveis na terra de Tio Sam. O fenômeno é semelhante.

O descasamento entre o valor dos veículos, que tende a despencar, e o preço, em alta, das prestações contratadas a juros flutuantes, anuncia o colapso, pois, se seus proprietários forem vender, não encontrarão cotações adequadas, senão desvalorizações inevitáveis. Mico brabo.

Assim como nos Estados Unidos estão sendo vendidas, nesse momento, casas por até 1 dólar, igualmente, no Brasil, automóveis poderão ser liquidados na bacia das almas, se estourar a bolha tupiniquim.

Mercado despencou; prejuízo é certo

Com os grandes bancos tendo em sua contabilidade o risco dos pequenos bancos adquiridos com poupança pública, isto é, depósitos compulsórios repassados pelo governo a juro zero, a situação voltará ao normal, se o crédito for retomado ao juro alto de 8% ao mês?

Ganhariam dinheiro ou estariam comprando inadimplências?

O presidente da Federação Brasileira dos Bancos – Febraban – , Fábio Barbosa, do Santander,  em entrevista ao repórter Vicente Nunes, do Correio Braziliense , demonstrou todo o seu temor nesse sentido.

Destacou que não pode ser tomada decisão apressada. Trata-se, disse, de estudar, minuciosamente, os passivos que serão adquiridos dos pequenos bancos pelos grandes conglomerados financeiros. Busca empurrar a situação com a barriga, claramente.

Distribuirão os bancos o prejuízo entre si com dinheiro do contribuinte, oferecido pelo Presidente Lula, em nome da salvação das montadoras, prestes a estourarem, não apenas no plano nacional, mas internacional? Difícil acreditar.

O panorama para as montadoras é tétrico. A capacidade instalada da indústria automobilística mundial, atualmente, é de produção de 70 milhões de veículos/ano, mas o consumo global não alcança, no despencar consumista, sequer, 30 milhões.

Especialistas do setor sinalizam que, no compasso da bancarrota financeira mundial, esse montante pode cair, ainda mais, para 20 milhões.  O que seria feito com 50 milhões de unidades disponíveis, sem consumo?

Tal previsão se ancora na incapacidade de emergir consumidores suficientes, especialmente, na praça consumidora mais poderosa, Estados Unidos, capazes de alavancar, se não houver oferta de financiamentos baratos. A desconfiança generalizada dos agentes financeiros entre si, para azeitar a máquina consumista americana, tornou-se obstáculo número um. No Brasil, idem.

 

Fim do crédito e do consumo: inadimplência à vista

Na Europa, a situação ainda é pior. Os europeus, atolados nos papéis que lhes foram repassados pelos americanos, correspondentes aos títulos do mercado imobiliário, sem lastro, porque o setor de imóveis americano está quebrado, dificilmente, comprarão carros novos em 2009, na escala necessária para dinamizar as indústrias montadoras. Estas, por isso, já estão, no plano geral, paralisando suas atividades e dando férias coletivas. O minério de ferro da Vale do Rio Doce para fazer chapas de aço ficará debaixo da terra, sem gerar demanda, enquanto a situação crítica perdurar.

Ao mesmo tempo, os grupos empresariais do setor buscam realizar grandes fusões, para fugirem, o mais rapidamente possível, do inevitável, isto é, iminentes prejuízos, cujos efeitos serão destruição de riqueza fantástica e desemprego em massa.

Ora, os bancos grandes, poderosos, cheios de dinheiro no caixa, adquiridos, graças à especulação com a dívida pública interna, onde, no Brasil, principalmente, ganham sem fazer força, no juro real mais alto do mundo, estarão dispostos a irem ao sacrifício, mesmo que com o pescoço do contribuinte, expresso dos depósitos compulsórios? Partirão para o haraquiri? É acreditar em papai noel.

O tempo pedido para analisar a situação de cada banco pequeno atolado em dívidas, conforme destaca Fábio Barbosa, presidente da Febraban, é sintomático. Nesse contexto, o governo Lula tem que ser duríssimo com os bancos.

Ou eles atuam para atender o clamor, desesperado, do Planalto, ou o Planalto, sem alternativa, terá que colocar o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, para executar a tarefa, que o secretário da Fazenda de São Paulo, Mauro Ricardo, vocalizando sugestão do governador José Serra, proclama e exige.

A oposição, portanto, pede socorro por meio da estatização bancária, para fazer fluir o crédito, a fim de que a economia não caia no abismo, puxada pelo colosso industrial paulista, dependente, fundamental, das montadoras, para ter crescente a arrecadação de ICMS, da qual o governo estadual necessita, para realizar investimentos públicos.

A queda de braço entre governo federal, certamente, apoiado pelo governo de São Paulo, de um lado, e os grandes bancos, ressabiadíssimos, de outro, diante da ameaça paralisante da indústria automobilística, está sendo e promete ser, ainda mais, tremenda. Grandes lances e tensões se desenham à vista para os próximos dias, semanas e meses. O Congresso se transformará numa fogueira política especulativa.

 

História de sucesso ameaçada

O que está em jogo é um parque produtivo poderoso. O presidente da Anfavea, Jackson Schneider, destacou, durante a abertura do 25.0 Salão do Automóvel em São Paulo, no Pavilhão de Exposições do Anhembi, na quarta, 29, na presença do presidente Lula e do governador José Serra, acompanhados de uma penca de autoridades, que se faz necessário urgentemente salvar o setor que emprega 1,5 milhão de pessoas.

São 24 fabricantes instalados no país, a partir de 16 de junho de 1956, quando o presidente Juscelino Kubistchek inaugurou o Grupo Executivo da Indústria Automobilística(GEIA), com instalação da primeira fábrica, em São Paulo, da Mercebes Benz do Brasil. De lá para cá foram fabricados 46 milhões de veículos(automóveis, bondes, caminhões, tratores, caminhonetes, ciclomotores, microônibus, motocicletas, ônibus, tratores, utilitários variados etc).

Tal estrutura produtiva e ocupacional representa 12% do PIB, responsável por exportações de 13 bilhões de dólares/ano e 106 mil empregos diretos, dinamizando 500 revendedores em 27 estados da federação.

Tanto o presidente Lula como o governador Serra e o ministro da Indústria e do Comércio Exterior, Miguel Jorge, fizeram promessas. O titular dos Bandeirantes destacou que o banco paulista, Nossa Caixa, vai trabalhar em parceria com o Banco do Brasil, para não deixar a peteca do crédito cair. Conseguirá?

Já o presidente Lula ressaltou que não apenas a indústria automobilística, mas, também, a construção civil, que emprega muita mão de obra, serão socorridas pelos cofres públicos, por intermédio dos depósitos compulsórios repassados aos bancos privados e aos públicos, para executar a tarefa de resgate do consumidor enforcado no juro alto. Por enquanto, apesar de toda a retórica e pressões para não remunerar os compulsórios, obrigando a banca a agir, não está dando resultado satisfatório.

Os grandes bancos, nesse contexto, sob intensas pressões, para que adquiram os bancos pequenos, falidos, porque não conseguem livrar-se das tremendas dificuldades emergentes, jogam na retranca, sentem-se frente aos leões – Lula e Serra – esfomeados.

Brasil diante de sua crise de 1929

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não se deve esquecer que a grande crise de 1929 teve como epicentro a indústria automobilística americana.

Naquele ano fatídico, a indústria de veículos, nos Estados Unidos, produzia 5 milhões de automóveis/ano, para uma frota nacional de 27 milhões de unidades. Com o crash, a produção caiu para 700 mil!(Lauro Campos, “Crise da ideologia keynesiana”, 1980, Campus).

Somente em 1943, 14 anos depois, as empresas voltaram ao nível de produção anterior à bancarrota, mas, aí, já não era mais a indústria de bens duráveis que puxava a demanda global, sob padrão ouro, até 29, mas a indústria bélica e espacial, voltada para a guerra, dinamizada, keynesianamente, pelos gastos do governo, forma encontra pelo capitalismo, via moeda estatal inconversível, para continuar mantendo ampliada a reprodução do capital.

De lá para cá, acrescentou-se ao aumento dos gastos públicos, como locomotiva da economia mundial, a utilização, pelo mercado financeiro, da arquitetura inteligente  para produzir riqueza a partir do próprio dinheiro especulativo, cujo limite foi alcançado, agora, na grande crise monetária nos Estados Unidos, colocando ponto final numa etapa histórica do sistema capitalista, em 2008, depois de vais e vens especulativos ao longo do pós-guerra, quando os Estados Unidos, com o dólar forte, promoveu divisão internacional do trabalho, fixando os termos de trocas internacionais favoráveis aos seus interesses de vencedor da guerra.

No Brasil, a indústria automobílística alvancou porque os Estados Unidos fizeram o transplante da sucata industrial que havia entrado em colapso no final dos anos de 1920. Foram tantos os incentivos oferecidos por JK que o economista conservador Eugênio Gudin destacou ser total desperdício, visto que ela viria sem nenhuma concessão, já que se transformara em estorvo, depois do crash de 1929.

São Paulo pode virar uma Detroit sucateada

Agora, o Brasil pode padecer do mesmo impasse, tendo que enfrentar, 52 anos depois, a sua grande crise automobilística, desguarnecida do suporte que os Estados Unidos levantaram, com a dinâmica keynesiana, para tirar o país do crash. O grande estado de São Paulo, que se ergueu graças a uma infra-estrutura econômica, montada a partir da transferência de riqueza dos estados mais pobres, via extração tributária, capaz de formar um mercado consumidor poderoso no centro sul, corre real perido.

Nas próximas semanas e meses, a indústria automobilística, que, nos Estados Unidos, passou a depender, fundamentalmente, da renda gerada na escala de gastos governamentais em diversas direções – sendo a principal delas a guerra – , sofrerá intensos solavancos, no mundo e no Brasil.

Aqui, onde o crediário implodiu e as prestações se acumulam nas carteiras dos pequenos e médios bancos, o sinal das tensões se intensifica, principalmente, na poderosa praça paulista. Os milhões de nordestinos que, como as empresas americanas, que sairam dos Estados Unidos e agora podem retornar ao país, teriam, também, que retornar à velha terra, para enfrentar, novamente, as agruras da catinga?

Assim como ocorreu a explosão capitalista no país mais rico do mundo, os Estados Unidos, no Brasil, a possibilidade de colapso, igualmente, tende a ser produzida no centro do capitalismo nacional, São Paulo.

O desespero, contido, apenas, aparentemente, pelo governador José Serra, temeroso da queda de arrecadação, por conta da interrupção do crediário, que inviabiliza a continuidade da produção em alta escala de automóveis, demonstra o tamanho do problema que o presidente Lula terá que enfrentar.

Seria tal crise o remédio amargo capaz de esvaziar o grande centro urbano invadido pelo mar de gente deslocada de todos os quadrantes nacionais em busca do eldorado nacional, ameaçado, agora, de virar sucata? Ironia da história: sob presidente metalurgico, o colosso industrial se verga, candidatando-se a se transformar numa Detroit sucateada.