Peru de natal na bandeja dos banqueiros

Os grandes bancos já estão jogando contra Lula. É o peru que está sendo preparado para ser destrinchado na ceia do Natal. Não interessa mais a sua estratégia política para a bancocracia.

Primeiro, não atenderam o pedido do governo para salvarem os bancos pequenos, com recursos repassados pelo próprio governo, seja dos compulsórios, seja das reservas bancárias.

Segundo, resistem à utilização dos depósitos compulsórios para irrigar os setores produtivos, que correm perigo de falência, dada a escassez de dinheiro na circulação.

Obrigaram as autoridades a partirem para estatização via Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal dos pequenos bancos. Caso contrário, estouraria crise bancária nacional, contaminando a economia, com corrida aos caixas bancários etc. 

Nasce, nesse contexto, tremenda intriga contra o ministro Guido Mantega, da Fazenda, com discurso desenvolvimentista. O alvo, claro, não é ele, é o presidente. Tenta deslocar Mantega, para impor impor o poder do jurista-mor, ministro Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, fortalecido pela medida provisória 442, que coloca na mão do técnico o comando do político.

O Congresso engolirá a jogada bancocrática que está por trás da MP?  

Do que os bancos não estão gostando? Ora, da orientação cada vez mais intervencionista do Palácio do Planalto em mandar o Banco Central direcionar o crédito dos depósitos compulsórios para os setores produtivos específicos, evitando especulação com o dinheiro do contribuinte. Estão sob fiscalização e cobrança de resultados, sob ameaças. Detestam.

Faltaria,  apenas, o presidente determinar o nível máximo de juros a ser praticado, como existia na Constituição, fixando 12% ao ano, para evitar que o custo do crédito atual, no calor dessa crise, mate as empresas de uma vez.

Por que não seguir o exemplo sensato dos governos europeus e americano diante dos bancos que se mostraram, como os daqui, excessivamente, gananciosos?

Como manter o juro mais baixo nesse ambiente de balburdia em que o custo do dinheiro tende a ficar cada vez mais alto como prêmio pelo risco geral que aumenta em todas as direções?

O juro sempre sobe na crise, nos países ricos. Mas, nessa, não, em termos relativos. Por que? Porque o governo interveio. Se é ele que emite dinheiro, por que não determina a sua distribuição, conforme o interesse público, se o momento de gravidade – e o momento é grave – exige?

Questão de poder político.

O governo tem que usar o recurso do contribuinte, como os depósitos compulsórios, para participar, com ele, do capital dos bancos, sinalizando o custo do dinheiro, compatível com as necessidades competitivas do setor produtivo nacional.

Afinal, a crise abre, também, grandes oportunidades, para quem tem matéria prima e base produtiva forte, como nós, grandes vendedores de máterias primas e grandes importadores para uma forte base industrial.

Os bancos privados, com responsabilidade de realizar  a tarefa de equalizar o crédito, dentro de uma estratégia desenvolvimentista, trariam como resultado juro mais baixo ou, ao contrário, muito mais alto?

A razão fundamental para a necessidade da intervenção direta do governo no processo é porque no ambiente extraordinariamente tenso em curso, onde a confiança foi eliminada, o agente da transformação não pode ser privado, mas público.

Interesse privado restabeleceria confiança pública?

 

 

O agente público, atuando em nome do interesse público, é o único que pode restabelecer a confiança. O governo americano, através do secretário Henry Paulson, tentou privatizar a distribuição do recurso público aprovado pelo Congresso. Não conseguiu. A Europa interveio. A China faz o mesmo. Em condições extraordinárias, somente providências extraordinárias resolvem impasses.

Por que teria de ser diferente no Brasil?

O que está em risco total é a estrutura produtiva e ocupacional brasileira. Custou muito esforço e sacrifício, para construí-la, desde Getúlio Vargas até agora. Tal estrutura está ameaçada pela ganância bancária.

Onde já se viu o governo liberar compulsório a custo zero para os bancos privados emprestarem a 6% ao mês! Na Índia, é 8%… ao ano. Na China, excluída a inflação, zero. Nos Estados Unidos e Europa, idem. Descontada a inflação, o juro está negativo, para combater o perigo recessivo global previsível.

Evidentemente, o governo tem que direcionar e comandar a execução do dinheiro do compulsório, de forma altiva, fundamental, para dar rumo político de salvação da nossa base produtiva.

Caso contrário, vem aí tremenda desnacionalização.

Enfraquecidas, porque foram pegas na especulação com o dólar barato no futuro, para ganharem juros especulativo no presente; estouradas na dívida, porque não conseguem ter rentabilidade suficiente para reproduzir o capital, devido à sangria dos juros e dos impostos, e, ainda por cima, ter que, fragilizadas, enfrentar a concorrência violenta da China, no auge da crise bancária, as empresas, com as pernas bambas, poderão dançar.

O setor produtivo nacional dispõe nesse momento de todas as nossas vantagens comparativas: somos francamente vendedores de matérias primas e fracamente consumidores delas para dar valor agregado ao produto nacional.

Os bancos teriam suficiente discernimento político para ver que o que o país precisa, agora, que é de mais produção, para aproveitar as oportunidades que a crise nos está oferecendo, ou matarão as galinhas dos ovos de ouro? 

 

Discurso de Alencar deve tomar o poder

O presidente dispõe de grande popularidade, mas fez um discurso bancocrático, até agora, penalizando as empresas. Como a crise fez emergir novo cenário, que destruiu possibilidades de ganhos especulativos, para compensar baixa rentabilidade produtiva, faz-se necessário novo discurso. Este já está dado. É o do vice-presidente José Alencar Gomes da Silva.

É com ele que as empresas terão salvação. Elas, sem ele, podem ficar fracas. As empresas são o coração nacional. Se pararem, pára o corpo, morre o paciente.

O exemplo está vindo dos países, que eram desenvolvidos, mas que passaram a sofrer a ameaça do empobrecimento, sob coordenação estatal estratégica e geopolítica, como antídoto à desmoralização das suas moedas na especulação, caso explícito do dólar.

Trata-se de salvação, tanto do setor produtivo, como do governo, pois ambos são unha e carne. O dinheiro tem que ficar mais barato para aumentar a produção e a circulação, que eleva a arrecadação do governo.

A intervenção estatal no comando do dinheiro do compulsório, de forma, determinada, politicamente, tendo em vista preservação da saúde do setor produtivo nacional, representa garantia para o próprio governo de manter a circulação dos negócios. Na circulação, a arrecadação se amplia e garante os recursos públicos para os investimentos.

Como aumentar a circulação dos negócios, se os juros e a carga tributária são proibitivos e a escapatória da especulação, como complementação da taxa de lucro empresarial, não existe mais?

Evidentemente, a disposição governamental, necessária, em hora grave, incomoda, de forma extraordinária, quem, como os banqueiros brasileiros, escraviza a sociedade brasileira, especialmente, a classe média e os mais pobres. No crédito direto ao consumidor, são sangrados em mais de 200% ao ano. A escravidão do capital é total.

Como eliminá-la, deixando a discussão para o plano técnico? 

Gordon Brown, primeiro ministro inglês, levantou sua popularidade, que estava baixa, suscitando sua queda, na crise, na Inglaterrra, com discurso nacionalista, interventor na atividade bancária, para restabelecer a confiança perdida no endividualismo ganancioso.

 

Saúde das empresas está em risco

 

Cuidar do setor produtivo tem que ser a prioridade total, para que o governo disponha de volume suficiente de arrecadação, capaz de sustentar programas sociais que, por sua vez, garantem expansão do mercado interno.

É bom para as empresas e sobretudo para os bancos. Lamentavelmente, o governo Lula, embora tenha fortalecido os programas sociais, não fez nada para as empresas, porque as prioridades foram para o pagamento dos juros e aumento de impostos.

Como sustentar o PAC nesse contexto de arrecadação que pode ficar cadente, se as empresas cairem mortamente doentes?

O compulsório e as reservas cambiais são as poupanças públicas acumuladas para enfrentar a crise com custo barato do dinheiro, mesmo , porque maior oferta de recursos joga o preço para baixo.

O presidente não deve ficar dando muito ouvido aos conselheiros assustados.

Se tivesse dado atenção a eles quando ficaram criticando o Programa Bolsa Família, onde estaria a inflação, sem consumo, que levaria às desvalorizações monetárias, para aumentar exportação?

O programa Bolsa Família valorizou o real, evitou a hiperinflação e criou a base sobre a qual devemos apoiar e fortalecê-la, pois o capital se faz é em cima do nosso consumo, e não em cima de dinheiro emprestado dos outros. Chega.

A hora é de jogar o compulsório e as reservas  na agricultura, na indústria, no comércio e na infra-estrutura. Portos modernos, para abrigar grande silagem, de modo a que o país disponha de mercadorias nos portos, para vender ao preço do dia para o mundo, e, ao mesmo tempo, dispor de estratégia produtiva que se transformaria em antídoto contra inflação. Como fazer isso, se as estradas estão uma porcaria?

Cuidado, presidente, sua cabeça está a premio. A sua e a da ministra Dilma Roussef.

Democracia participativa avança na Bolívia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O presidente Evo Morales , da Bolívia, está se revelando estadista, na condução da Assembléia Constituinte, que determina nova Constituição com perfil do poder popular indigenista que o elegeu.

Primeiro, defendeu os princípios básicos de um novo paradigma político que promove inclusão equitativa do poder indígena no contexto do poder nacional. Saiu vitorioso com esse discurso histórico.

Segundo, no poder, exercitou a defesa intransigente do interesse nacional, ou seja, não apenas do poder indígena, mas de todos os bolivianos, estilo nacionalista, no ambiente de uma nova relação de troca entre a Bolívia e o mundo. A nacionalização do poder energético boliviano foi jogada getulista, traduzida em nacionalização do petróleo brasileiro e criação da Petrobrás.

Terceiro, diante de emergência de antagonismos internos fortes relativamente ao aprofundamento da democracia direta participativa no contexto constitucional na Bolívia, Morales revela-se magnânimo: fecha acordo com os oposicionistas, no qual ficam mantidas avançadas conquistas democráticas, e aceita limitar o poder do presidente no formato popular de nova democracia boliviana.

Acertaram-se governo e oposição data de 29 de janeiro para o referendo sobre a nova Constituição e eleição presidencial em 6 dezembro de 2009, descartada  reeleição em 2014.

Despreendimento político total.

Evo Morales, sob aplausos da massa com a qual marchou durante oito horas antes do acordo, para mostrar aos constituintes a poderosa força política do MAS – Movimento ao Socialismo – diante dos oposicionistas, agregados em torno do Poder Democrático Social(Podemos), da Unidade Nacional(UN) e do Movimento Nacionalista Revolucionário(MNR), nessa segunda, 20, priorizou a causa, ou seja, as bases de neo-democracia participativa popular, em vez de a consequência, isto é, repeteco dos vícios do poder democrático cupulista, meramente, representativo, golpista, elitista, historicamente, anti-popular.

O poder pessoal, consequência da causa; vale dizer, a vontade presidencial preponderante não se verificou como pretensão inegociável do titular boliviano. Pelo contrário, exercitou a flexibilidade, para conquistar o substantivo e não, apenas, o adjetivo.

Sua postura demonstra não só despreendimento político, mas consciência da necessidade de o poder girar democraticamente em renovadas bases de sustentação, onde preponderaria correlação de forças políticas diferenciadas qualitativamente em relação ao status quo anterior à chegada do poder indigenista no comando da nação boliviana pela força dos movimentos sociais.

 

Movimentos sociais criam nova correlação de forças

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na prática, Morales fortalece corrente política boliviana sul-americana a partir da força orgânica dos movimentos sociais, que guardam raízes históricas no desenvolvimento do pensamento político indigenista boliviano. Sedimenta-se no poder político nova força consciente dos seus direitos via democracia direta participativa.

Morales está provando que o que importa são os termos da nova democracia boliviana, escrita pelos movimentos sociais na Constituição nacional. Ou seja, o permanente: novos direitos para o poder indígena, especialmente, os que poderão ser expressados pela participação e não apenas pela representação. A representação passa a ser essencialmente participativa.

Os oposicionistas estavam jogando com a possibilidade de Evo Morales demonstrar pretensões continuistas no poder, como manifesta, abertamente, o presidente Hugo Chavez, da Venezuela, por julgar sua presença, sob apoio popular, imprescindível por tempo indeterminado como condição para instalar a experiência socialista do século 21.

Tal pressuposto, embora legítimo, desde que assegurado, constitucionalmente, demonstra, no entanto, ser plataforma de lançamento de intensos antagonismos cujo potencial de explosão produz, quase sempre, impasses. O presidente boliviano, pragmaticamene,  fugiu dos impasses.

Evidenciou-se que Morales não pensa pela cabeça de Chavez, como insinuaram os oposicionistas separatistas-terroristas bolivianos e a grande mídia sul-americana. Pensa por si mesmo, em obediência à conjuntura concreta boliviana, traduzida, no momento, em tensões políticas separatistas, terroristas, perigosas.

O jogo de Morales de nem tão ao mar nem tanto à terra, jogando para aprofundar conquistas populares, historicamente, reivindicadas pelo poder indígena, enquanto flexibiliza discussão relativa a tempo de mandato , privilegia o substantivo, o poder popular, em vez de o adjetivo, a aparência da representação política.

Se o poder, o substantivo, é popular, a representação, o adjetivo, faltamente será popular, seja Morales ou outro representante do poder indígena, como ocorre na África do Sul, depois de Mandela. Os brancos, minoria, dificilmente, ou jamais, terão a representação, porque o poder político se transferiu, da minoria, branca, para a maioria, negra.

Assim, os brancos somente chegarão ao comando tendo como representação um negro. Pode pintar isso na Bolívia, visto que a maioria esmagadora do país é indígena, consciente, agora, do poder que alcançou pela organização dos movimentos sociais, dos quais foi protagonista política primordial. A elite branca teria que exercitar nova flexibilidade política.

 

Depois de Bachelet, Morales 

Evo Morales mostrou visão larga. Percebeu o lance histórico expresso pela ação da União das Nações Sul Americanas – Unasul – de iniciar construção de um pensamento sul-americano próprio, desbancando a OEA, ao sair em defesa da democracia boliviana ameaçada pelos golpistas separatistas-fascistas. Condenou a divisão nacional, forma de manutenção do poder pelas minorias de sempre, abrindo, consequentemente, legitimidade para o poder da maioria eleita democraticamente.

Depois de Bachelet, na presidência pro-tempore da União das Nações Sul Americanas, o melhor candidato é Morales, depois da sua tacada políica genial no processo constituinte boliviano em meio ao conflito separatista, desarmando-o, democraticamente.

Lance de estadista que cria espaço de convivência entre governo e oposição, até a algumas semanas, super-tensa, por conta das pregações e terrorismos separatistas, incentivados pela embaixada americana na Bolívia, na tentativa de isolar La Paz e o oeste do lado leste rico em petróleo e energia.

Esse poder econômico histórico boliviano, o do lado leste, a chamada Meia Lua, rica em petróleo e gás, em mãos dos detentores eternos do poder boliviano, ancorado em interesses externos, anti-populares, vem desde a chegada dos espanhois.

A democracia direta, participativa,  prevista na nova Constituição, extraída de Assembléia Nacional Constituinte politicamente revolucionária, criou resistências dentro desse histórico poder conservador, essencialmente, golpista, que pareciam impossíveis de ser removidas.

A democracia direta aprofundaria, aos olhos dos conservadores, conquistas populares, sociais, econômicas e políticas que, automaticamente, deslocariam  poderes de uma classe social, tradicionalmente, dominante, para outras classes sociais emergentes. Sendo estas maioria, a democracia direta implicaria aceleração de transferência de poderes de uma classe para outra, democraticamente.

A disposição dos estados mais ricos de irem à guerra interna parecia irremovível. Os conservadores, além da resistência de entregar a rapadura, tinha como certo possível intransigência de o presidente se dispor a continuar por tempo indeterminado.

Morales pode até ter tido tentação nesse sentido. Mas, a correlação de forças, dada pela explosão política interna, sinalizou que se ele insistisse nessa linha, criaria antagonismos insolúveis.

Racionalizou politicamente e fortaleceu a democracia direta sem precisar de guerra, apenas se dispondo a fixar tempo para sua permanência no poder, que se limita, então, até a 2014.

Preservou o essencial e dispensou o assessório. Histórico. Exemplo para grandes debates no parlamento sul-americano, exercido, antecipadamente, pelo plenário da Unasul.

Brasília fatura festival de Trieste

 

É muito difícil entender as razões dos outros, se permanecemos no ponto de vista individual. O individualismo, não raro, coloca o indíviduo, com seu narcisismo, no exterior da realidade. Os outros são o inferno dele, como disse Sartre. O ser humano detesta o sucesso do outro. Não se perdoa um grande favor etc e tal. No individualismo, no egoísmo, próprio do sistema capitalista, egocentrista, o outro é um estorvo. Faz sombra. Dessa visão unilateral, culturalmente desenvolvida, para dispersar o homem de seu próprio ambiente, seu próprio eu, constroi-se consciência derrotada pela impossibilidade de ver o todo, pois o que lhe interessa não é o todo, mas o seu. Assim, querer entender a vida do outro, somente se for possível penetrar na consciência do outro.

Esse é um dos méritos mais importantes do filme do jornalista, fotógrafo e documentarista, Armando Lacerda, autor de “Jururã, o espírito da floresta”, com competente montagem de Liloye Boubli, que faturou nesse final de semana o Festival Latino Americano de Trieste, Itália, organizado pela União Latina, com sede em Paris, depois de ter sido elogiado no festival de Veneza e no do Rio de Janeiro, enquanto foi olimpicamente desdenhado pelo Festival de Brasília, mesmo sendo um filme financiado pelo Pólo de Cinema do Distrito Federal. Incrível a incompetência da Secretaria de Cultura e da organização do festival. Agora, certamente, terão que correr atrás do prejuízo.

O olhar do índio é o comandante do ponto de vista indígena sobre sua própria experiência diante do massacre sofrido pela civilização em busca da expansão dos seus negócios em escala crescente no contexto da globalização dos mercados. Essa é síntese fílmica de um trabalho cultural que insere Brasília no cenário da cultura internacional.

É um jogo que massacra o índio desde os descobrimentos. Uma alma massacrada, atemorizada, aterrorizada, sob constante perigo de morte a cada passo. A voz deles é a voz dos outros sobre eles. Os índios vivem tão atormentados, ou mais, que os judeus, assassinados por Hitler.

O ódio hitlerista à competência judaica de acumular riqueza e dominar políticamente o meio ambiente social-democrata ganhou ares de rascismo. Como os judeus, os índios são vítimas do mais cruel racismo, pois sua proposta de vida, a solidariedade, choca, frontalmente, com o seu oposto, a ganância. Pior do que os judeus: são tutelados. Não possuem sequer identidade como categoria social, para se disporem do direito positivo nascido dos romanos e aperfeiçoado pelo código napoleônico, erigindo o poder burguês, no século 18.

Os personagens do documentário de Armando Lacerda são heróis permanentes, que lutam, bravamente, contra o perigo, constanre, de extinção da raça, patrocinada pela civilização que alcançou os mais altos graus de aperfeiçoamento civilizatório dado pela superestrutura jurídica do estado capitalista. Diante dos índios, tal superestrutura simplesmente é colocada a serviço do lucro como deus da salvação.

O resultado, para o lado oposto dessa extroversão do poder legal, é uma tragédia exposta aos interesses que manipulam a legalidade constituída. Os alimentos faltam, a água está sendo contaminada, as reservas invadidas, saqueadas, as mandiocas comidas pelo gado dos invasores, a fome ronda… O suícido indígena aumenta diante da sua própria impotência. O Estado nacional, a propósito de tutelar o índio, confere autotutela aos que invadem as terras indígenas, destruindo-as, brutalmente.

O Estado nacional visto pelo olhar do índio é o Estado anti-nacional que não garante a sobrevivência indígena de maneira dígna. É como o jurista especulador que esfola o lombo do povo com os juros compostos. Uma farsa de civilização escravocrata como proposta de modelo de vida, totalmente, inviável, para a saúde da natureza.

 

Uma história de destruição e morte

 

O panorama é tétrico, para as comunidades indígenas, principalmente, depois dos anos de 1940, quando o Estado nacional getulista amplia as fronteiras nacionais, para interiorizar o capitalismo nacionalista , que alcançaria sua gloria com JK, em Brasília. O espirito nacionalista fascista-getulista, diante da guerra, ganha dimensão política extraordinária no sentido de fortalecer o estado, para preservar o território nacional de interesses externos que se digladiavam no conflito bélico e ideológico.

Com JK, a expansão continuou eufórica, à custa de endividamento externo, que traria desenvolvimentismo, mas, também, colonialismo financeiro via juros altos. O país foi cortado de norte a sul e de leste a oeste pelas rodovias , a fim de criar o mercado consumidor para os automóveis de luxo fabricados pelas indústrias importadas que haviam entrado em decadência na crise de 1929.

Enquanto nos Estados Unidos, os gastos do governo em guerra, produtos bélicos e espaciais, puxavam o capitalismo, com a moeda estatal inconversível, na periferia capitalista era imposta a proposta industrial baseada na indústria de bens duráveis, que já haviam entrado em crise desde início dos anos de 1930.

Essa indústria impunha uma exigência: precisa de estradas em todo o território nacional. O modelo de desenvolvimento, baseado na fabricação de produtos de luxo, que requeria concentração de renda numa classe média capaz de consumi-los, seria, historicamente, o inferno astral para a vida das comunidades indígenas brasileiras.

Aonde chegou o consumismo dos bens duráveis, dinamizadores do capitalismo concentrador de renda, chegou a destruição dos índios. Sucumbiram-se à violência civilizatória, pois a civilização não tinha a proposta de negociação política com os índios, que já estavam há séculos em suas propriedades. A propriedade é dada pelo trabalho, suor do rosto, de acordo com a visão indígena. Confronto total, pois a visão do branco é oposto, ou seja, a propriedade é um roubo.

O discurso do branco foi a bala dos armados com armas de fogo contra os armados com armas da floresta, arco e flexa. Massacre.

A febre juscelinista de interiorização do país ampliou as fronteiras e mexeu com o estômago nacional. Os militares, como destaca Alisson Paulinelli, ministro da Agricultura do presidente Geisel, perceberam que era preciso aumentar a oferta de alimentos para garantir a base alimentar nacional ampliada pelo espírito investidor de JK que se espalhou pelo Brasil afora.

Tal expansão bateria de frente com os índios. Ela se daria com a ampliação das fronteiras nacionais do Centro-Oeste, utilização dos cerrados para plantar soja, desenvolvida pela tecnologia revolucionária da Embrapa etc. Os índios, que estavam na frente dessa armação política militar de ocupação das terras produtivas pelo setor privado, dançaram no jogo da civilização ocupacionista. 

Consciência internacional se rende ao líder xavante

A temática do filme de Armando Lacerda situa esse momento histórico no qual nascerá o cacique Mario Juruna, que terá vida de resistência à invasão do branco sobre as terras do índio, até se transformar em celebridade política nacional e internacional, depois que é descoberto pela grande mídia, em reportagens de Memélia Moreira, Eliane Lucena, Chico Dias e Marcio Braga, repórteres, respectivamente, da Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Jornal do Brasil.

 A história do branco é a epopéia da conquista do território dos índios, cuja alma se expõe no filme com uma dor amarga, mas, igualmente, expressando uma tenacidade incrível de uma civilização que se mostra não apenas disposta a resistir, bravamente, mas, também, negociar, porque sua índole não é a guerra, mas a paz.

Mas será possível a paz com as palavras do branco? Como diz o sábio Aniceto Suzavera, “o branco conta histórias, usa as palavras, que não têm ‘práticas’ nenhuma”. Por trás da representação, do aparente, está o latente, isto é, a destruição, a voz da destruição.

E a voz dos destruídos, quem contará? Qual a sua versão?

“Jururã, o espírito da floresta” abre espaço para o universo mental dos índios, a sua cabeça, a sua inteligência – sua bordina – , a sua racionalidade, sua paciência e sua explosão calculada enquanto busca socorro no próprio humanismo desenvolvido pela civilização que causa a destruição.

Teria sido inevitável a destruição dos indíos , como se dá na história brasileira, ainda, agora, quando as tensões guerreiras se apresentam no contexto das demarcações das terras indígenas?

O raciocínio do branco é unilateral. Jamais cogitou de negociar com o índio, de forma diplomática, respeitando o outro, sua civilização, seus costumes, sua lógica, sua visão prática. Primeiro, as balas, depois da escravidão.

O governo brasileiro, dos anos de 1950 em diante, incentivou a ampliação das fronteiras nacionais, no rastro das rodovias que rasgaram as terras indígenas, mas não cuidou de apreciar, valorizar e intercambiar com o pensamento político indígena, que obedece, racionalmente, a leis naturais. Precisaria ter ocorrido a destruição violenta de seres humanos indefesos?

Disse: “Por que brigar. Tem terra para todos. Tem terra para índio, para posseiro, para fazendeiro, para agricultor, até para multinacional. Falta organizar e planejar, para que todos possam trabalhar”.

Lamentou não participar da Assembléia Nacional Constituinte. Não fora reeleito para novo mandato depois do período que frequentou a tribuna como o primeiro índio brasieleiro a chegar pelo voto ao parlamento, entre 1983 e 1987. Sua missão disse, seria levar adiante os trabalhos da comissão do índio. Seria a base da conscientização política sobre a nessidade de consolidar partidariamente o pensamento indígena nacional.

 

O pensamento político indígena é riqueza sul-americana

 

A voz política indígena é ancestral e nos Andes é forte, tanto que está no poder, na Bolívia, chegou, agora, ao poder no Paraguai e tem participação forte, igualmente, no Peru, na Colômbia e na Venezuela. Juruna via longe, pois sua meta era a supressão da tutela constitucional sobre o índio. Sua cabeça não cabia nesse molde escravocrata,nem a dos seus parentes, pois têm consciencia de que constituem uma nacionalidade.

Os depoimentos de  cacique Salvador, de Vitória Pedzerone, Aniceto Suzavera, Diogo Amho, José Maria Paratsé, cacique Damião , Juliano Xavante entre outros são o olhar e o ponto de vista político do índio, em um documentário que expõe plasticamente com vigor a beleza da vida natural e singeleza de um pensamento simples, sábio e consciente.

A passagem de Juruna pelo Congresso é a passagem de um grande estadista, que impressiona pela sua exuberante racionalidade dada pela vivência prática de um povo sofrido pela desvastação capitalista especulativa que domina a história nacional.

Darci Ribeiro sacou a genialidade de Juruna e abriu espaço para ele na política, idéia acatada por Brizola, que, merecidamente, representou primeira consciência político partidária nacional a reconhecer direitos políticos dos índios.

O Congresso devia alto tributo ao cacique Mário Juruna – Jururã entre seus pares – , porque traiu a causa indígena. Não respeitou a vontade nacional que levou o índio ao parlamento cuja missão, a de criar espaço político para os índios, nos partidos, como representatividade efetiva, merece o desprezo das cúpulas partidárias nacionais, adversárias arrogantes do pensamento indígena que reivindica maioridade política.

Juruna mostrou inteligência poderosa que incomodou os poderosos. Falou como representante de uma nacionalidade para outra nacionalidade. Comportamento altivo, dado pela consciência dessa nacionalidade e da necessidade de preservá-la.

Naturalmente, em defesa da sua nacionalidade, incomodou. Peitou de frente os militares, abrindo discussão internacional da causa maior indigena, isto é, a defesa da demarcação das terras.

 

O Congresso traiu a causa indígena até agora

 

No Tribunal Bertran Russel, na Holanda, em 1983, chegou como ídolo de povo resistente à ditadura militar. O governo não conseguiu evitar sua viagem, dadas as pressões de organismos políticos europeus e americanos, dispostos e ouvir do líder discurso autêntico, socialista, humanista, espiritualista.

O filme de Armando Lacerda mostra, sobretudo, o humanismo indígena e a contribuição política que ele pode dar ao progresso do pensamento político humanista nacional. Da extrema exploração, da extrema pobreza, nascem os pensamentos mais nobres e gerais que abrem luz à humanidade.

A voz experiente e lúcida de Aniceto Suzavera, que veio, com Juruna, à pé da sua aldeia, São Marcos, até Goiânia, para chegar a Brasília, a fim de iniciar, nos anos de 1970,  a epopéia de Juruna, no cenário político nacional, a partir das denúncias dos massacres contra os índios,  é um caminho seguro para construção de diálogo político capaz de construir sociedade mais solidária.

O filme impõe uma necessidade, a de que haja reativação e fortalecimento do pensamento indígena no cenário político nacional, especialmente, no momento em que a humanidade vive os estertores de um modelo de vida ocidental que está falindo, por destruir a natureza, graças ao predomínio do egoísmo e do individualismo exacerbado.

A vida de luta, nobre e dura, dos índios, que os leva, no cotidiano, a um comportamento social solidário, oposto ao individualismo incontrolávelmente egoista, coloca em cena uma proposta racional que deve ser mesclada à irracionalidade civilizatória, para dar uma demão na razão e no bom senso.

A visão indígena, pelos personagens do filme, apresentando em cores vivas por uma comidade confiante na conquista da sua felicidade, é contribuição cultural indispensável à construção da própria nacionalidade.

Como disse, orgulhosamente, Juruna em discurso antológico: “Se o Brasil tivesse mais de 50 Juruna, já teria mudado há muito tempo”. O documentário é o resgate para a história de um líder político nacional de primeira linha a ser cultuado como herói.

Colapso americano é colapso keynesiano

A grande mídia mundial – e a brasileira no rastro – ressuscitam, nesse momento, o grande economista inglês John Maynards Keynes, autor, entre outros brilhantes livros, de “Teoria Geral do Juro e da Moeda”.

Mas, não é a solução keynesiana, que dinamizou o capitalismo americano, na base da economia de guerra, durante todo o século 20, a que está entrando em profunda crise nos Estados Unidos?

Seria Keynes, isto é, a solução guerreira, tocada por gastos públicos, a solução, se, na América, virou problema?

É o neoliberalismo ou o keynesianismo adotado por Tio Sam que entra em crise, se, na verdade, não existe sistema neoliberal americano? Colapso americano não seria o colapso keynesiano, nos termos da aplicação da solução de Keynes, a partir do pós-guerrra sob o dólar forte americano, para fixar nova divisão internacional do trabalho?

O modelo é amplamente conhecido: os Estados Unidos seriam o grande consumidor mundial, emitindo moeda sem lastro – garantida por bombas atômicas – , para realizar as exportações dos aliados no mercado americano, assumindo estes, em compensação, responsabilidade de comprar os títulos do tesouro de Tio Sam, emitidos para bancar a segurança do mundo contra o avanço do comunismo, mediante expansão da dívida pública interna americana. O desenho explodiu na crise do subprime.

Keynes, mesmo, desconfiava da sua própria solução e previu que ela poderia não ser eterna, como imaginam os seus discípulos: “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessaria para fazer valer minha tese – a do pleno emprego -,  exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força” (John Maynards Keynes, no jornal New Republic, 1940, citado por Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, Campus, 1980).

O ensinamento básico do genial economista, matemático e filósofo inglês, representa a sua crença básica: o capitalismo necessita da guerra. Ele, segundo Lauro, havia entendido essa lição fundamental depois da primeira guerra mundial de 1914. Embora a guerra promovesse destruição, como reconheceu, ela, destacou, promove riqueza e prosperidade, que rompem as contradições que o lassair faire detona, estressando a produção e consumo em contradição que explode em deflação, ou seja, em destruição tanto do capital como do trabalho.

Forças produtivas dão lugar às forças destrutivas 

 

A guerra seria a solução. Marx havia dito que o capitalismo expandiria ao máximo as forças produtivas, entraria na senilidade e passaria a desenvolver, dialeticamente, o seu oposto,  as forças destrutivas, na guerra, sob comando do Estado, que ultrapassaria a economia de mercado, algo que esboçou em “O rendimento e suas fontes – A economia vulgar”. Aí divide sua obra maior, O Capital, em seis etapas: I – O Capital, II – A propriedade fundiária, III – O trabalho assalariado(envolvendo capital e trabalho, na produção e consumo), IV – O Estado, V – O comércio exterior e VI – O mercado mundial e crise. O Estado, segundo Marx, entraria em cena para salvar o sistema, tornando parte intrínseca dele.

O pensamento keynesiano se reforça na linha de Marx, no compasso dessa constatação. O governo inglês, na guerra, experimentara, com o aumento dos gastos nas atividades bélicas, recuperação forte da economia, tirando os setores produtivos de bens duráveis da crise de realização no livre mercado. Gastos guerreiros que geram renda para ser gasta no setor de bens e serviços privados, sem necessitar aumentar a oferta, de modo a manter relativa escassez capaz de sustentar preços altos.

Tal fato, temporariamente, favoreceu a libra esterlina, afetada pela expansão do dólar, de um lado, e do marco alemão, de outro, desde a grande crise neoliberal de 1873-1893. Lorde Keynes sabia que os dias da sua querida Inglaterra estavam contados, principalmente, depois que os governos ingleses resistiram à desvalorização monetária, como alternativa para preservação do padrão-ouro, sob o qual o poder inglês se erigiu nos séculos 17 e 18. O cachimbo fez a boca torta.

Não-moeda para comprar não-mercadorias detrutivas 

A guerra, algo totalmente anti-liberal, foi, keynesianamente,  a solução ideal. Na linha preconizada por Marx, a produção das mercadorias destrutivas exigiria, sob comando político do Estado, expresso no governo, uma nova representação monetária, cujo perfil seria, naturalmetne, diferente do dado pelo padrão-ouro, que se transformaria, segundo Keynes, em “relíquia bárbara”.

Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, seguindo os passos de Marx, conceitua as mercadorias destrutivas como “não-mercadorias”, cujo único consumidor, o governo, lançava na circulação, para adquiri-las, uma não-moeda, não-valor, oposto da moeda sob o padrão-ouro, ancorada em metais. Ou seja, ativos ficíticos substuiriam os ativos reais, para garantir, na guerra e na especulação, a adequada reprodução capitalista. A ficção impulsiona a realidade.

Essa moeda sem lastro teria como garantia a capacidade de endividamento dos governos. Por isso, o que está entrando em crise, agora, nos Estados Unidos, é a incapacidade do governo americano, sob desconfiança do mercado, de continuar emitindo moeda sem lastro para enxugar moeda podre, jogada na circulação pelo próprio governo.

O papel dele de ser o entesourador geral de uma moeda que tende permanentemente à inflação está, com o dólar como representação monetária mundial, batendo biela, como demonstra à larga a realidade.

A onda neokeynesiana, que nasce no rastro da primeira grande crise monetária, traz no topo a proposta de solução que se transformou em problema. A mídia, que nunca discutiu o assunto para valer, bate palmas.

Keynes foi o remédio do qual o capitalismo lançou mão durante todo o século 20 para sustentar a demanda global via economia de guerra. A guerra fria, por exemplo, segundo o Instituto Peel, representou a âncora capitalista no pós-guerra, impondo gastos públicos americanos da ordem de 15 trilhões de dólares, algo, relata o instituto, não levado em consta na contabilidade dos neoliberais como fator determinante de sustentação do sistema.

O prêmio Nobel, Josef Stiglitz, destacou que a demanda global , nos últimos cinco anos, somente foi mantida graças aos gastos de mais de 2 trilhões de dólares do governo americano em guerras. Destruição como salvação.

 

Neoliberalismo e keynesianismo baleados  

 

O desenvolvimento das forças capitalistas, que promove, de um lado a acumulação e, de outro, o subconsumismo, condenou o sistema capitalista à crônica insuficiência de demanda global, como destacou Malthus e Marx.

O capitalismo, segundo eles, marcharia, sempre, como aconteceu, durante todo o século 19, para a deflação. Para Malthus, que considerou a economia ciência lúgubre, viu que o excesso de eficiência do sistema, tocado pela ciência e a tecnologia a serviço da produção, necessitaria, dialeticamente,  do seu oposto, ou seja, a ineficiência. Escândalo para os neoliberais.

Quem patrocinaria essa suficiência ineficiente para sustentar a eficiência insuficiente? O governo, elevando seus gastos, disse Robert Malthus, autor de “Princípios de Economia Política”.

Keynes, neomalthusiano, marxista disfarçado, via nos gastos governamentais em guerra a dissipação necessária, para promover renda para o consumo, sem que houvesse necessidade de aumentar a produção, como destaca Lauro Campos, em “Malthus e Keynes, duas almas gêmeas a serviço do capitalismo”(Senado).

Em 1929, o capitalismo, basicamente, bisetorial, baseado nos departamentos I e II, produtor de bens de produção e produtor de bens de consumo, D1e D2, respectivamente, atingiu a contradição insolúvel apontada por Marx. O subconsumismo levara o sistema à deflação. A salvação seria o seu oposto, a inflação, que, de acordo com Keynes, é a “unidade das soluções”.

O Estado, como antevira Marx em “O rendimento e suas fontes – a economia vulgar”,  entra no processo quando as contradições entre D1 e D2 emergem em colapso. Foi o que aconteceu em 1929.

Os neoliberais sempre se incomodariam durante todo o século 20 com D3, gastos do governo, puxando D1 e D2, keynesianamente. Reagiram a ele, por não entenderem, completamente, a gênese da moeda que vai dar sustentação a D3, diferente a moeda do século 19, que bancara a bissetorialidade de D! e D2.

Os gastos do governo, de D3, precisariam, para contragosto dos neoliberais e comentaristas economicos, crescer mais que o próprio PIB. Puxariam, com inflação, o setor privado, tendente, cronicamente, à deflação. Dialética.

 

A grande mídia deu uma de avestrus

 

A nova moeda capitalista, emitida por D3, gastos do governo, do Estado, que se transforma, efetivamente, em capital, na economia monetária keynesiana, é, para os neoliberais mero fator de troca, que não deve ser levada em conta na formulação macroeconômica, dado que seria neutra, pairando acima das classes sociais. Eles vêem a moeda como construção abstrata e não como fruto do trabalho e das relações sociais. Visão esquizofrênica.

Como em novo contexto, no qual os gastos do governo, ineficientes, precisam salvar o setor produtivo privado, eficiente, a moeda sob o padrão-ouro não servia mais, virara “relíquia bárbara”.

O conselho de Keynes para os Estados Unidos, a partir de 1936, para que lancem mão do statemoney sem medo para conhecerem sua verdadeira força é a expressão exata da macroeconomia do capital bombada pela moeda capitalista política impulsionadora da economia de guerra – produção bélica e espacial, expansão da máquina pública , etc.

Sem o governo gastar além das suas receitas, acima do percentual do PIB, com seu capital, sua moeda, não existiria capitalismo no século 20. Lenin sairia amplamente vencedor, depois da revolução soviética.

O governo, nesse contexto, é, como diz Keynes, a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, ao elevar a quantidade da oferta de moeda na circulação. Quando faz isso gera o que denominou de “eficiência marginal do capitl”, ou seja, o lucro, que faz nascer o espírito animal empresarial. Tal estratégia estatal 1 – diminui os salários, 2 – eleva os preços, 3 – diminui os juros e 4 – perdoa a dívida dos investidores.

Desperta, dessa forma, o espírito animal investidor, sem que o leve a enfiar a mão no bolso, enquanto precisaria ser exercitada sem receios, pelo governo, sua capacidade de enxugar o meio circulante , via expansão da dívida pública interna, que, dialeticamente, cresce no lugar da inflação.

Como continuar o jogo keynesiano, sem a capacidade infinita de entesourar para enxugar a base monetária, afim de evitar enchente inflacionária?

Seria Keynes a solução, se esta, nos Estados Unidos, ou seja, no país mais rico do mundo, transformou-se em problema, já que  o empoçamento de moeda na economia decorre do excesso de colocação dela em circulação pelo próprio governo, estimulador da sua reprodução ampliada no mercado derivativo? 

A grande mídia, nesse contexto, dá uma de avestruz. Mete a cabeça na areia e se torna prisioneira de um círculo de giz.

 

Neo-Bretton Woods só com G7 ou G20?

 

O poder midiático nesse momento, mais perdido que cego em tiroreio, precisa de uma raíz para se sustentar, porque os seus argumentos neoliberais faliram.

Apega-se, desesperadamente, em Keynes, até a pouco, asperamente, criticado por ela. Teria que inverter então a situação. Não poderia criticar Lula por estar fazendo o jogo keynesiano de estimular gastos sociais e aumentos dos investimentos no PAC, forçando despesas acima das receitas.

Mas, teria fôlego a solução de Keynes, pregada em 1944, em Bretton Woods, a de propor o “Bankor”, moeda mundial, escritural, que controlaria a contabilidade global, administrando os deficits dos balanços de pagamentos por intermédio das grandes potências?

Naquela ocasião, os Estados Unidos, saídos fortes da guerra com o dólar super-poderoso, pronto para exercitar as relações de troca globais em seu nome, em nome do império americano, disse NÃO à proposta do economista inglês.

Keynes enfiou a viola no saco e concordou com o neopoder, ao qual passou a dar conselhos. Sua entrevista ao repórter  e economista Santiago Fernandes, do Jornal do Brasil e do Banco do Brasil, em Bretton Woods, relatada no livro “A Ilegitimidade da Dívida Externa do Brasil e do III Mundo”, demonstra sua visão geral do poder americano.

O dólar, e não o bankor, disse, seria a representação e equivalência monetária global, impondo  deterioração nos termos de trocas cambiais, em favor dos americnaos e em prejuízo dos aliados, especialmente, da periferia capitalista.

A proposta sugeriada por Keynes, repetida, agora, pelos sete grandes, as superpontencias, baleadas pela crise, teria cara de pão velho, amassado.

 

Correlação de forças mudou nas relações de troca.

 

O presidente Fernando Henrique Cardoso, em reunião com os tucanos em Brasilia, acendeu luz. Disse que emerge novo tempo caracterizado por inversção nas relações de troca.

O que vale mais no calor da bancarrota financeira: as moedas dos ricos, sem lastro, ou a riqueza , por exemplo, da América do Sul, cujo lastro são as matérias primas fundamentais para a manufatura global? Aquelas, relativamente, abundantes, cujos preços são, na concorrência, cadentes, ou estas, relativamente, escassas, são as mais valorizadas?

Os sete grandes comem grama e rotam leitão. Sarkozy e W. Bush, desmoralizados, têm moral para reunir os grandes, fixar novas relações de trocas a partir de um “Neo-Bankor” keynesiano, se a solução de Keynes virou problema na mão deles?

O novo Keynes não poderia abarcar apenas os 7 Grandes, se eles não têm mais poder de impor deterioração na relação de troca global com suas moedas deslastreadas de qualquer valor real.  

Um Keynes mundial?

Pode ser, mas não seria para promover mais guerras. Nem elas serão mais bem vindas para os governos americanos, que terão que gastar tanto, internamente, para salvar os consumidores da explosão monetária, que sobrarão menos recursos para mandar para o Iraque, de modo a continuar puxando a demanda global capitalista, via economia guerreira.

A paz e não a guerra é o novo desejo de consumo de Tio Sam. Pelas mãos de Keynes? Pode, também, ser, mas não apenas administrados pelos sete grandes, que perderam a força.

A solução keynesiana surgiu no século 20 para salvar o capitalismo da crise de 1929, mas entrou, quase 70 anos depois, na crise do Estado devedor, que entrou na economia, com moeda própria, para salvar o setor privado. Todos os três, agora, estão atolados, keynesianamente.

Se pintar neokeynesianismo, teria que ser global, valendo para todos e,  portanto, não terá, apenas, a cara capitalista de Keynes, expressa no modelo de guerra. O colapso americano-keynesiano estressou a humanidade e a própria terra, destruída pela sede do lucro.

Bancarrota empresarial na sucessão presidencial

Bancarrota empresarial – ao lado da bancarrota dos pequenos bancos, que se tenta salvar, privatizando-os com dinheiro do contribuinte, dos depósitos compulsórios, por meio dos bancos grandes privados, mediante vantagens fiscais e altamente liberais, ou seja, prática de juros altos – pode ser o principal desafio a ser enfrentado pelo presidente Lula nos dois últimos anos de sua gestão em plena sucessão presidencial. Turbina-se um horizonte de grandes tempestades entre empresas, alcançadas pelo terremoto financeiro especulativo.

As duzentas maiores empresas brasileiras que , junto com poucas estrangeiras, movimentam a Bolsa de Valores de São Paulo, semi-faliram ou faliram na especulação com o subprime nacional, desenvolvido especulativamente no mercado de dólares na Bolsa de Mercadoria de Futuros, o maior cassino da história nacional.

São cerca de R$ 3 bilhões de prejuízos, segundo se comenta nos meios empresariais. 

Os empresários apostaram no dólar barato no futuro  e compraram títulos a juros caros no presente, para ganhar na especulação. Jogada histórica fixada como forma de compensação pelos ganhos insatisfatórios na atividade produtiva, atacada de morte pelos juros altos de carga tributária excessiva, que jogam a lucratividade para baixo. Dançaram. Em uma semana, emergiu uma desvalorização da moeda nacional de quase 40%, na onda dos desastres. Facada.

Intranquilidade econômica e financeira que afeta a tranquilidade política governamental mantida até agora relativamente ao futuro. Votorantim, Sadia, Aracruz Celulose, Vale, Petrobrás, Perdigão e o rol de pequenas e médias no elo da cadeia mais fraca do capitalismo nacional entraram em grandes prejuízos, que obrigarão o governo a intensas negociais econômicas e financeiras, sob intensas pressões, tanto por parte do capital como do trabalho, no contexto sucessório.

Algumas empresas, nesse ambiente de alta volatilidade, poderão morrer; outras, somente se salvarão se forem socorridas pelo BNDES, o hospital das empresas brasileiras, desde quando criado em 16 de junho de 1952, pelo presidente Getúlio Vargas.

 

Greves podem ser fato político novo

As negociações nesse sentido, mobilizarão, sem dúvidas, no Congresso, empresários e trabalhadores, todos ameaçados, jogando lenha na fogueira da sucessão do presidente Lula, desatada pela primeira grande crise monetária global do século 21, cujos primeiros lances já ocorrem durante as eleições municipais, quando o governador de São Paulo, José Serra, do PSDB, pede juros baixos já, para evitar a catástrofe empresarial. Falar em aumentar juros, pelo BC, nesse ambiente, para adequar-se às metas inflacionárias fixadas pelo próprio mercado financeiro, via pesquisa Focus, bíblia do BC, seria arriscado, politicamente.

Os empresários e os trabalhadores estão em polvorosa. Se as grandes empresas nacionais que dinamizam a bolsa foram dinamitadas pela crise, significa que a Bolsa, igualmente, expressão real dessas empresas,  está sob perigo de explosão, se é que não foi implodida com as ações em queda. A emergência da falência empresarial joga desconfiança generalizada na bolsa onde as ações dessas empresas estavam pontificando espetacularmente.

A BVSP chegou a superar a casa dos 70 mil pontos, quando, como reconheceu o presidente do Itaú, Roberto Setúbal, tem caixa para apenas 45 mil, no máximo, onde passou a ficar, com tendência para cair. Ilusão de riqueza e poder. Crash.

Tal situação cria ambiente político de alta tensão na economia ameaçada por perspectivas futuras sombrias que desarmam o espirito animal investidor dos empresários. 

O PAC, combustível eleitoral do presidente, para tentar fazer sua sucessora, a ministra Dilma Roussef, conforme admitiu o ministro da Justiça, Tarso Genro, pode ficar estressado, como destacam os próprios empresários, embora o governo sustente, compreensivelmente, posições altamente otimistas. 

A euforia recente, que levou o setor produtivo a acreditar demasiadamente no futuro, levando o presidente Lula a um surto otimista excessivo, vê-se diante do seu reverso. O clima anterior, de promoções altamente marquetizadas de lançamentos de ações na bolsa, obedecendo a regulamentação moderna, pautada pela transparência, levou à suposição de paraísos e prosperidades sem fins, capazes de garantir auto-sustentabilidade. 

Alta especulação, transparência total. Sucessos atrás de sucessos. E , agora, a transparência vai ficar diante de todos, quando os balanços contábeis registram fracassos atrás de fracassos?

Nus em cima do palco. 

 

O dragão chinês é ameaça geral

Nesse ambiente, em que as quedas violentas das ações das empresas sinalizam fragilidade financeira dos empresários, as ações delas continuarão despencando junto com a oferta de emprego e renda que estavam bombando o consumo interno. Para piorar essa situação, as empresas brasileiras, de pernas bambas, terão cima, de enfrentar, além dos juros e da carga tributária elevados, a concorrência chinesa, que passou a assustar geral.

Montada numa reserva cambial de quase 2 trilhões de dólares, a China chega super-avalizada, para impor seu preço super-baixo aos mercados concorrentes. Solidariedade socialista-capitalista chinesa?

Calçados chineses estão sendo adquiridos por preços com descontos de até 70%! Quem vai comprar sapato nacional, cujo custo de fabricação é elevado, graças aos juros altos e a excessiva carga tributária?

Antes as empresas buscavam compensação, pelo estrago dos juros e dos impostos na produção, jogando na bolsa. Com a explosão do mercado bursátil, essa possibilidade esgotou. As empresas financeiramente sucateadas, compradas no dólar barato no futuro que explodiu de preço no presente, tendo, além disso, a China fungando no cangote, estão se rebentando, no ambiente de altíssima concorrência global.

Se o BNDES não socorrê-las, os trabalhadores das empresas irão para a rua demonizar Lula e sua candidata à sucessão Dilma Roussef. O desemprego estará batendo às portas no novo tempo de vacas magras.

O que preocupa sobremaneira o Palácio do Planalto nesse momento é a saúde da indústria automobilística. Se ela fraquejar, a vaca pode entrar no brejo. O berço político do presidente Lula está na corda bamba.

 

O carro-chefe da indústria nacional balança as pernas. 

 As 24 diferentes montadoras instaladas no país movimentam 1,3 milhão de empregos, englobando 500 autopeças, para manter uma capacidade instalada de 3,5 milhões de véiculos, vendidos em 3,6 mil concessionárias espalhadas Brasil afora. São 45 plantas industriais estabelecidas em 7 estados brasileiros e em 26 municipios, para vender automóveis, comercial leves, caminhões, ônibus, tratores e colhetadeiras. Trata-se de um parque industrial que recolhe uma receita total de R$ 21 bilhões em IPI, ICMS, PIS e Cofins, cuja saúde pode ficar abalada.

O empoçamento do crédito balança essa estrutura produtiva e ocupacional da qual depende todos os demais segmentos da economia, numa cadeia produtiva que caracteriza o capitalismo nacional dependente de poupança externa, historicamente. Afinal, não houve, no Brasil, a aposta da formação do capital o país, como fizeram os asiáticos, dependentes, no entanto, do mercado externo americano e europeu. 

Sem a renda extra oriunda da especulação, que estava bombando o consumo das classes altas e das médias, favorecidas pelo jogo especulativo, as empresas serão obrigadas a suportarem taxa de lucro cadente na produção interna sob intensa concorrência entre 24 competidores. Luta de gigantes. 

Nesse contexto, a classe empresarial se inquieta extraordinariamente, destaca o primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do DF, Ricardo Caldas, porque a desconfiança evita que os bancos negociem com as empresas, retendo os recursos, dado o alto risco que imaginam correrão diante de clientes de cuja saúde financeira desconfiam.

Estatização já

Para Ricardo Caldas, a saída inglesa é ideal, no ambiente de tumulto geral, em que ninguém acredita em ninguém. O governo participa com os recursos públicos no capital dos bancos – no caso brasileiro, lançando mão dos depósitos compulsórios – , para recapitaliza-los e dessa forma adquire força para conduzir, de maneira mais organizada, o próprio custo do dinheiro, a fim de bancar novas relações de trocas entre setor privado e setor financeiro. Fora disso, acredita, os juros não cairão. Ao contrário, subirão. 

O governo, apavorado, está, por enquanto, cuidando de salvar os bancos pequenos, colocando dinheiro da poupança nacional, ou seja, os recursos recolhidos, compulsoriamente, sobre depósitos à vista e a prazo nos bancos grandes privados, na tentativa de fazer com eles cumpram a tarefa. Henry Paulson, secretário de Estado dos Estados Unidos, tentou essa saída. Não deu certo. Dará aqui?

Pode dar certo para os grandes bancos, que caminharão para a oligopolização bancária privada nacional, mas daria, do ponto de vista empresarial, em forma de redução do custo do dinheiro, para ativar a produção?

Os juros estão subindo com a insolvência do mercado empoçado por falta de confiança do setor privado nos bancos e dos bancos no setor privado. A confiança seria adquirida por intermédio da gestão, puramente, privada?

A estatização, à moda inglesa,  seria a solução, para criar ambiente mais adequado para organizar o sistema bancário e restabelecer a confiança nas relações comerciais em geral?

Ricardo Caldas acredita que esse deve ser o caminho do governo, se quiser manter aquecidas as obras do PAC, depois da bancarrota bursátil.

No novo ambiente, disse, não dá para conviver com o juro alto e com carga tributária extorsiva, combinando-se, para manter baixa a rentabilidade, que inviabiliza investimentos. O gargalo é esse.