Quando ler jornal faz mal ao fígado…

                                      

      “Eu não preciso ler jornais,

 

mentir sozinho eu sou capaz”                                                                                                                  Raul Seixas    

Ao declarar à Revista Piauí  de janeiro que não lia jornal porque sofre de azia, Lula talvez tenha deixado muitos jornalistas perplexos e desapontados . E também intelectuais inconformados .   Roberto Damatta,  por exemplo, reagiu num típico “pito acadêmico” proclamando em artigo publicado no Estadão  que  não se pode ter discernimento da realidade sem a leitura , mas parece tomar uma crítica informal de Lula a um certo jornalismo como se fosse uma aversão à leitura em geral. Ao repreender Lula  porque este parece “estar seguro de que é mesmo possível saber das coisas por tabela e em segunda mão, por meio de olhos alheios”,   Damatta  talvez polemize mais com Schopenhauer do que com  o presidente . O célebre filósofo alemão também já havia causado muita celeuma,  há mais de século  ,  quando levantou dúvidas acerca da possibilidade de uma correta compreensão da realidade unicamente a partir da leitura, pondo em dúvida  a qualidade dos textos, inclusive nos jornais.  Questionando aqueles que absolutizam a leitura, Schopenhauer afirma que “assim como a leitura,  a mera  experiência  não pode substituir o pensamento” . E para aqueles, como Damatta, que deploram os que não lêem e porque aprenderiam por tabela, o pensador germânico  sustenta ainda que “um livro nunca pode ser mais do que a impressão dos pensamentos do autor”, alertando que “quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar” e que, “a nossa cabeça é, durante a leitura, uma arena de pensamentos alheios”.  Citá-lo, não significa defender suas posições históricas, mas adicionar elementos na polêmica atual, quando vivemos na “idade mídia”, sob intenso dilúvio informativocom variadas possibilidades de informação.   
Pensamento livre 
A celeuma levanta também reflexões interessantes, não só comentários injustos , já que Lula não fez nenhuma apologia da não-leitura, fez uma crítica ao jornalismo atual. E o fez ao seu modo, com um raciocínio nada convencional, porque é o raciocínio simples e direto sintonizado e compreendido pela grande massa da população que durante toda uma vida também foi praticamente proibida da leitura. Assim, poderíamos partir do princípio afirmando que,  tal como a esmagadora maioria do povo brasileiro, o presidente Lula também não lê jornal.  E confessa. As razões são múltiplas e até diferentes em cada caso.    O argumento de que não pode haver discernimento da realidade sem a leitura também pode conter uma injusta soberba acadêmica para com esta  grande maioria de brasileiros  hoje  ainda  proibida da leitura de jornais  e livros , por razões fundamentalmente sócio-econômicas. É injusta porque ignora ou despreza outras modalidades de discernimento, interpretação e ação transformadora das grandes massas sobre esta mesma realidade. Segundo estatísticas da UNESCO, talvez não sejam as mais atuais, a taxa de leitura de jornais e revistas no Brasil é inferior à da Bolívia, país mais pobre da América do Sul, mas que acaba de  realizar uma façanha que exige reconhecimento de todos nós: a Bolívia foi declarada no dia 20 de dezembro último, pela mesma UNESCO, “Território Livre do Analfabetismo”. Segundo a Agência da ONU, enquanto no Brasil são lidos  apenas  27 exemplares de jornais ou revistas  por  cada grupo de 1 mil leitores ;     na Bolívia, são 29 exemplares. Talvez  o que  devesse merecer mais a preocupação da academia  é o fenômeno da leitura-proibida, um  sistema que torna  difícil   acesso dos brasileiros à leitura, que não educa leitores, que não democratiza livros,  ao invés de uma quase indignada/desconcertada reação diante da evidente crítica feita pelo  presidente Lula à qualidade do jornalismo praticado no Brasil.    Será que a informalidade da crítica de Lula  –    preciosa característica do presidente, sobretudo quando a cultiva no exercício do cargo   –    a um certo  jornalismo que já chegou a entrar de modo desrespeitoso e arrasador  na vida pessoal e familiar do presidente em sua primeira campanha, ao mesmo tempo que preservou obedientemente outros presidentes do mesmo desconforto, não tem razão de ser?  Estaria, afinal, acima de críticas, um jornalismo que tem reiteradamente operado mais como desinformação  da  sociedade do que como a  instrumento de comunicação social tal como estabelecido pela Constituição Federal?
Ouça um bom conselho
                                                                                                                                                            
Tomemos alguns casos recentes de “jornalismo que faz mal ao fígado”, alguns já argumentados pelo próprio presidente ,  para alargarmos este debate. 1) Quando o governo brasileiro propôs à Unasul, em sua primeira reunião, a formação de um Conselho de Defesa Sul-americano, praticamente todos os jornais estamparam,   com fartura,  que a proposta havia sido derrotada, rejeitada, um fiasco afinal. Pouco tempo depois,  a proposta do Conselho, debatida e examinada  com tempo pelos governos, foi oficialmente  aprovada  e é uma hoje uma realidade. Mais do que isso, tem a importância histórica de  ser uma entidade sem a presença dos EUA que sempre tutelaram a região com ferro e fogo das ditaduras, mas também de representar um esforço coordenado de recuperação da indústria bélica regional, com a relevância intrínseca   –  ainda mais destacada por vivermos num mundo de sombras, tensões e violência  –  de promover independência tecnológica setorial.  Afinal, um país sem defesa não tem soberania! Será que os jornais que manchetaram “o fracasso do Conselho”, estariam agora dispostos a confessar seu equívoco e reavaliar a informação defeituosa que difundiram ? E a esclarecer ,  com informações verazes,  o significado de reorientação     estratégica que a nova entidade tem , sobretudo  quando os países emergentes foram praticamente obrigados a aceitar a demolição de suas políticas de defesa e de suas indústrias bélicas? Alguém sabe informar se o Procon também cuida de informação com defeito???                                                                    
A fazenda que não foi vendida…. 
Um segundo caso, diz respeito também à família do presidente, sempre alvo de comentários preconceituosos, como de resto os que se lançam também contra o presidente Evo Morales, por ser indígena, ou ao presidente Hugo Chávez, por suas características  étnicas  e sua origem militar. Refiro-me à  “notícia”  de suposta compra de uma grande fazenda por um dos filhos do presidente Lula.  Até mesmo o portal da Central de Mídia Independente reproduziu a suposta transação, acompanhada  de  inúmeros comentários insultantes e ofensivos ao presidente Lula. E mesmo depois que numa pequeníssima nota da Agência Estado o proprietário da referida fazenda esclarecia que já estava cansado de atender jornalistas ao telefone e desmentir cabalmente que tenha vendido o imóvel para o filho do presidente ou para qualquer outro,  mesmo assim, nem a Central de Mídia Independente dignou-se a corrigir seu erro de difundir versões de um “jornalismo que faz mal para o fígado”, mantendo até bem pouco tempo  no portal ,  a falsa notícia da compra da fazenda e  a mesma  coleção de insultos ao presidente, nem os outros veículos cuidaram de divulgar as declarações do verdadeiro proprietário do imóvel desmentindo a transação. Qual o nome que deve ser dado a este “jornalismo”? Ou melhor, será isto jornalismo? Mas que dá azia… isso dá.                                                             Onde estão os profetas do calote?   Mais recentemente, o Globo estampou em primeira página manchete sobre a preparação de um calote do Equador contra o Brasil, insinuando que até mesmo funcionária da Receita Federal brasileira havia sido cedida para trabalhar nesta operação cujo intuito seria  o de evitar  que os financiamentos feitos pelo BNDES ao país andino fossem saldados. Gravíssima acusação: o governo cederia uma funcionária para preparar calote contra si. Mas,  o jornal não publicou o pedido de direito de resposta da funcionária da Receita informando objetivamente que não tinha prestado qualquer consultoria técnica relativa a financiamentos brasileiros ao Equador, mas sim à Auditoria da Dívida Privada que está curso naquele país,  uma decisão de estado inscrita na Constituição, tal como consta das Disposições Transitórias de nossa Constituição a realização de uma auditoria da dívida. No fundo, este é o temor dos banqueiros refletido por este jornalismo que dá azia, um jornalismo que cuida de preservar os indecentes privilégios que o setor financeiro tem no mundo da economia da especulação que despreza o valor do trabalho, transformando o sistema bancário mundial numa bancocracia ou  verdadeiro cassino, como também lembrou o presidente. Há quanto tempo não temos um presidente que chama as coisas pelo verdadeiro nome!!!! Pois bem,  especulou-se no jornal, depois no rádio, depois na tv, sobre o calote equatoriano ao Brasil, o jornalismo aziago teve todo o espaço do mundo, consultores ligados aos bancos foram hiper-entrevistados, repetiram-se, anunciaram o caos. Mas, quando na semana que passou o Governo Equatoriano pagou a parcela de 243 milhões de dólares da dívida para com o BNDES os profetas do calote se calaram, os consultores desapareceram e o Globo não  informou aos seus leitores,  com a mesma importância que havia dado inicialmente ao tema, que não houve calote.  Eis aqui um exemplo de como a leitura de jornal também pode não conduzir a um correto discernimento da realidade….   
Jornalismo da desintegração
Muitos exemplos justificam  uma maior reflexão e elaboração sobre o que vem a ser um jornalismo de desintegração, aquele que desconsidera ou não informa sobre a implementação de medidas reais, de estado, visando a integração regional latino-americana. A este jornalismo da desintegração, que também pode causar azia, que decreta editorialmente que a integração é apenas retórica diletante do Itamaraty, deve-se contrapor com um jornalismo de integração, ainda por ser elaborado, mas que tem como sustentação teórica, histórica e política nada menos que a Constituição na qual está consolidado que a construção de uma integração latino-americana baseada na solidariedade, na economia, na cultura, na informação é um objetivo da República Federativa do Brasil. Claro, o jornalismo que faz mal ao fígado prefere apenas cultuar e por em prática o artigo 166 da Constituição, aquele que sacraliza a gastança com os serviços da dívida, tornando-os mais importante do que merenda escolar, saúde pública, habitação popular, previdência social etc. Contra esta gastança, esta verdadeira esterilização de recursos públicos nos juros da dívida, o jornalismo aziago nada informa. Quando o Brasil realizou com sucesso o teste do Veículo Lançador de Satélites, em dezembro, a mídia não noticiou, ignorando a dimensão deste fato quando apenas um clube fechado de países tem acesso ao mundo  da estratégica economia satelital. Tal como ignorou quando a Venezuela recentemente lançou o satélite Simon Bolívar, preferindo ironizar que Chávez tenha declarado que é um satélite socialista. Sim, será colocado à disposição de países pobres para a cooperação, onde que cabe a ironia? Ambos os casos são de avanço da independência tecnológica.    
Preconceito acadêmico tupiniquim
Aliás, foi necessário um “presidente que não lê”, conforme define o acadêmico Damatta, para que o idioma espanhol tenha se transformado em matéria obrigatória nas escolas básicas brasileiras, com indiscutível impulso à integração latino-americana, como também para que o Brasil assumisse a construção da Unila (Universidade da Integração Latina-Americana), assim como a Universidade da África, em Redenção, cidade cearense pioneira na abolição da escravatura. Mas, para o jornalismo da desintegração tudo isto é apenas retórica itamarateca terceiro-mundista. Até mesmo a retirada do dólar nas operações comerciais Brasil-Argentina, a cooperação entre os dois vizinhos na construção de um carro de combate, na indústria aeronáutica e na esfera nuclear, ou a participação brasileira na construção de um gasoduto na argentina, ou nas obras de infra-estrutura no Peru e Bolívia, na construção da estrada que ligará finalmente o Atlântico ao Oceano, a presença da Embrapa na Venezuela ou no Timor Leste, da Petrobrás em Cuba tudo isto, apenas retórica,  farta-se de repetir o jornalismo que faz mal ao fígado. Mas,  quando aquele chanceler de sobrenome judeu tirou o sapato ante as ordens de um guardinha da alfândega dos EUA, este mesmo  jornalismo tangenciou a simbologia do gesto. Como qualificar? Vocação para a vassalagem???   Muito ainda precisa ser feito para que o Brasil supere seus níveis indigentes de leitura, sobretudo no campo das políticas públicas. É motivo de preocupação a monopolização do setor editorial, sobretudo a do livro didático, bem como sua desnacionalização e controle por  editoras  estrangeiras muito próximas da Opus Dei. Mas, são salutares e devem ser expandidas fortemente as políticas públicas já implementadas pelo governo Lula e governos como o do Paraná para assegurar o livro didático público e gratuito aos milhões. Estamos na era das mudanças e na mudança de eras também quando o país mais pobre da América do Sul, a Bolívia, consegue extirpar a praga do analfabetismo ou quando a Venezuela, também declarada território livre do analfabetismo pelo Unesco, distribui gratuitamente 1 milhão de exemplares do livro “Dom Quixote”  de Cervantes, de “Os miseráveis” de Vitor Hugo, de “Contos”, de Machado de Assis, este com uma distribuição gratuita de 300 mil exemplares. Basta informar que a tiragem padrão de livros no Brasil é de apenas 3 mil exemplares.  Segundo a Unesco, Cuba chegou a publicar em 1986, 480 milhões de exemplares de livros num ano, quando sua população era de apenas 10 milhões de habitantes. Ainda temos muito que aprender, muito por fazer nesta área.
A dialética do retirante
Mas, esta dívida informativo-cultural despejada pelas elites sobre o povo brasileiro, proibindo-o da leitura, não deve ser mecanicamente dimensionada como um obstáculo intransponível para que os milhões e milhões que não lêem jornal ou qualquer coisa não tenham um discernimento adequado da realidade. Talvez não tenham o  “discernimento”  que segmentos das elites, econômica ou cultural, gostariam que o povo tivesse, sobretudo para uma escolha eleitoral sintonizada  à linha editorial do jornalismo que faz mal ao fígado. Realmente, a maioria do povo, tal como o presidente Lula na sua dialética de retirante, foram obrigados a desenvolver uma interpretação realista do mundo para salvar a própria vida. Lula declarou recentemente que quando um nordestino que nem ele consegue vencer a pena de morte da elevada taxa de mortalidade infantil no nordeste “torna-se um encrenqueiro”. Para os que admiram o fato de que ele tenha levado 13 dias de viagem num pau-de-arara para ir de Garanhuns a São Paulo,  dormindo ao relento  e cozinhando com as águas barrentas do Velho Chico, ele lembrou que seus tios, que também não liam jornal, já tinham feito o mesmo percurso, mas em seis meses, porque o fizeram a pé!!!! São atos heróicos que apontam para uma outra leitura do mundo, a partir da dialética do retirante, tão capaz de permitir um real discernimento da vida como capaz de permitir que salvassem suas próprias vidas e permitindo-lhes  progredir na  mobilidade social, superar os estágios de sobrevivência vegetativa quase animalesca a que estavam condenados no nordeste sem água, sem terra, sem trabalho e sem nada!!!  E sem jornal para ler….             Talvez alguns círculos acadêmicos irritem-se ainda mais com esta abordagem e a condenem como elogio à não-leitura. Mas,  o que se trata de argumentar aqui é que  para aqueles  milhões de brasileiros condenados à não-leitura , por razões do elitismo sócio-econômico   não há outra saída que inventar uma forma nova de  ler  o mundo, de  caminhar  na vida, de discernir sim a realidade e de  uma  forma tão eficiente que  lhes  permitiu, no caso de Lula, sair da indigência do sertão ,  preparar-se si próprio para escapar da pena de morte da fome, preparar coletivamente a classe trabalhadora para fazer política, construir instrumentos como o PT e a CUT para que viabilizar o protagonismo dos próprios trabalhadores na política  e alcançar a Presidência da República. E o fez não exatamente a partir da leitura de jornal, mas informando-se profundamente sobre o funcionamento da sociedade.  Afinal, nem sempre ler jornal é informar-se.  Em muitos casos, como vimos acima, é exatamente o contrário. A provocação de Schopenhauer ainda está bailando por aí. E ele acrescenta: “há eruditos que ficam burros de tanto ler”.           
 O rentista e o faxineiro
 
Episódio saboroso para refletirmos é o caso Maldof, quando o mega-especulador, ex-presidente da Bolsa Nasdaq, baseada em sua credibilidade neste mundo da economia virtual, arquitetou uma fraude de 50 bilhões de dólares que lesou também rentistas brasileiros. Esta  minoria de brasileiros, experimentados na arte de ganhar dinheiro sem produzir um prego ou sem mesmo trabalhar, escolados na evasão de divisas para paraísos fiscais, provavelmente não imaginassem que um dos seus ícones do mundo financista os lesaria. Pois bem, nem toda a leitura do mundo, ou talvez tenha sido exatamente excesso de certa leitura,  salvou-os do rombo. Talvez não tivessem o correto discernimento de que a economia especulativa era insustentável, que o castelo de cartas ia cair e continua caindo….. Enquanto os poucos rentistas que evadem divisas para o exterior estão sendo lesados por “profissionais” mais experimentados, o faxineiro do Aeroporto de Brasília, que achou um envelope de milhares de dólares no lixo e o devolveu ao dono, nos oferece um fortíssimo exemplo para reflexão. Ele, que também não lê jornais, tem uma leitura do mundo, um discernimento da realidade, que o leva a ser ético, limpo e honesto, com o dinheiro alheio, a despeito da avalanche de exemplos negativos que recebe das elites, sobretudo de financistas.   Montanhas de preconceitos elitistas também foram despejadas contra Evo Morales, o valente presidente  de uma Bolívia que sai das trevas do neoliberalismo. Pois, poucos sabem que Evo viveu quando criança em Tucumã, na Argentina, onde sua família tentou sobreviver trabalhando no corte de cana. E o menino Evo também foi reprovado na escola primária argentina, com um veredicto que deveria ser  amplamente discutido hoje: os pedagogos argentinos chegaram à conclusão que Evo era inapto para o mundo letrado. Um condenação que não levava em consideração sua condição de indígena, sua noção de tempo, sua postura frente a natureza, seu comportamento destoante das relações sociais de uma sociedade consumista e individualista, as dificuldades para pensar e escrever no idioma espanhol que não era o seu idioma originário, a carga do preconceito e humilhações que sofreu por parte de seus colegas não-indígenas…. Hoje, o menino que havia sido condenado como incapaz para o letramento é o presidente da república da Bolívia e foi o mandatário que transformou a economia mais débil da América do Sul em “Território Livre do Analfabetismo”!!! Como então afirmar soberbamente, de modo absoluto e mecânico, sem considerar as dialéticas do retirante Lula e do indígena Evo, que sem leitura é impossível haver o discernimento da realidade??? Aliás, o próprio método de alfabetização cubano, aplicado na Venezuela, na Bolívia, em indígenas da Nova Zelândia ou no Haiti, considera que os educandos já têm acesso a um conjunto de informações que vão decodificando deste mundo complexo da idade-mídia, têm uma capacidade de discernimento sim, razão pela qual é possível reduzir drásticamente o tempo de alfabetização, sendo o tempo, segundo Marx, “matéria prima mais preciosa da humanidade”.
Jornalismo público e cidadão
                                                                                                                                                                   
Foi exatamente o presidente que teve menos acesso à leitura o que teve a grande sensibilidade  de ver que boa parte da programação da televisão brasileira é simplesmente degradante, embrutecedora, animalizante. E criou a TV Brasil, que enfrenta seus desafios para expandir-se, consolidar-se, qualificar-se e caminha positivamente, saldando um pouco daquela imensa dívida informativo-cultural que despejou contra os brasileiros, sobre aqueles proibidos da leitura. Foi ainda o presidente que não lê que trouxe de volta, para o bem estar da civilização, o ensino obrigatório da música e da filosofia nas escolas, abolido antes por presidentes que devoravam livros e… também direitos humanos. Villa-Lobos e Sócrates agradecem.   Enquanto isto, dos rigorosos críticos da academia, jamais se ouviu um queixume sobre, por exemplo, o fato da própria Constituição de 1988, não ser acessível ao povo, não só materialmente, mas também na sua linguagem, bastante incompreensível para a grande maioria proibida da leitura. No entanto, apesar do povo jamais ter tido acesso à Constituição, há uma lei que estabelece que o conhecimento das leis é obrigatório pelo cidadão, que a ninguém é dado o direito de desconhecer a lei. Enquanto o presidente que não crê está criando instrumentos para reduzir o desequilíbrio informativo no país, além de expandir a universidade pública e multiplicar os institutos tecnológicos, ainda não se ouviu da academia uma proposta concreta para reverter este absurdo de termos uma Constituição desconhecida, de conhecimento exigido a todo um povo que não pode lê-la.    Quem sabe não é chegada   a hora, diante de tantas identidades entre Lula e Evo, que a decisão do presidente da Bolívia de criar um jornal público a ser editado aos milhões, com distribuição gratuita ou acessível às grandes massas pobres bolivianas, que agora já sabem ler, fosse também implementada aqui no Brasil? Sempre lembrando que o Brasil tem a maior economia da região, tem uma capacidade ociosa crônica de 50 por cento em sua indústria gráfica, ao mesmo tempo em  que tem um povo tem qualquer acesso a jornal. É bem provável que os círculos acadêmicos que tentaram identificar uma crítica de Lula a um certo tipo de jornalismo como uma elegia à não-leitura não tenham agora razões para não apoiar a estruturação de um jornal popular público, de distribuição gratuita e  massiva, aos milhões e milhões, aproveitando esta indústria gráfica semi-paralisada e os contingentes de  jornalistas e escritores desempregados e sem onde escrever. Ao criar a Voz do Brasil, Vargas permitiu que milhões de brasileiros sem acesso a jornal e não alfabetizados tivessem acesso a informações, sobretudo alguma presença dos poderes públicos nos grotões, numa verdadeira ação radiofônica de integração nacional. Como sabemos, ainda hoje, a Voz do Brasil é a única fonte de acesso de milhões de brasileiros espalhados por todos os grotões sociais, e que não lêem jornais, a informações que a maioria das rádios não difunde, a não ser naquele horário obrigatório. Eis porque a ditadura midiático-financeira trabalha para eliminar a Voz do Brasil.   Não será hora também de se criar um jornal público, popular e gratuito, livre do controle editorial da bancocracia, considerando que o mercado, por si só, dificilmente resolverá o problema de eliminar as várias proibições sócio-econômicas à leitura ainda vigentes? Obstáculos á democratização da leitura de jornal sempre haverá. Monteiro Lobato nos conta um deles. Quando, na década de 40 procurou os poderosos proprietários de um dos maiores jornais paulistas, propondo-lhes que este diário se engajasse numa campanha para erradicar o analfabetismo, obteve uma resposta desconcertante, mas sociologicamente auto-explicativa. “Ô |Monteiro, mas se todos aprenderem a ler, quem é que vai trabalhar na enxada???”  Estamos em plena mudança de eras. Aquele que, para oligarquia midiática , deveria estar na enxada,  está no Palácio do Planalto.  Não lê jornal, mas é dos brasileiros mais bem informado.  
Beto Almeida Presidente da TV Comunitária de Brasília

 

Obama impedido de repetir Roosevelt

O sonho da economia global, nesse momento, é que Barack Obama, que promete mudar com o mundo que mudou, se transforme em Frank Delano Roosevelt.
 
O presidente democrata , diante da crise de 1929, puxou a demanda global com gastos em programas sociais, entre 1933 e 1936, e em seguida, a partir de 1938/39, em guerra, para tirar o capitalismo do crash, à moda keynesiana. O déficit americano, em 1946, chegou a 144% do PIB.
 
A opção pela política monetária ativa em substituição ao velho padrão ouro do século 19, que fixava regras rígidas, para ditar o fluxo de moeda, a fim de controlar deficit de balanço de pagamento dos governos, colocou a economia americana na vanguarda do desenvolvimento econômico global, sob comando do dólar. A moeda americana já dava as cartas depois da primeira guerra mundial e tornou-se soberana depois da segunda grande guerra.
 
A esperança de que Obama faça a mesma jogada de Roosevelt, expandindo os gastos públicos – não necessariamente em guerras, mas em outras demandas estatais a serem descobertas, quem sabe jogar dinheiro pela janela ou ampliar os investimentos inflacionários no espaço etc, porque guerra virou opção incompatível com a nova pregação multilateral obamiana – , implicaria conjugá-la em dois momentos históricos distintos.
 
A distinção é matematicamente simples. Nos anos pós-guerra, a saúde da economia americana era uma, mais potente, viril. Não haveria déficit, mas superavit, além de ampla confiança na moeda. Agora, não há superavit, mas déficit, enquanto a confiança na moeda periclita. No início do século 21, depois de tantas guerras e desgastes, geradores de déficits, que levaram o capitalismo para a jogatina financeira suicida como fator de reprodução do capital, o fôlego não é mais o mesmo.
 

Tio Sam precisa de viagra

Se Roosevelt poderia fazer o que fez, sem precisar de viagra, porque eram mais que suficientes, para tanto, a juventude, a energia e a potência americana no pós-guerra, que estabeleceu a divisão internacional do trabalho sob controle do dólar, Obama, ao contrário, não estaria com essa bola toda.
Depois de tantos déficites acumulados ao longo de mais de sessenta anos, Tio Sam precisaria de uma injeção de potência cavalar. Poderia ser fatal , sabendo que estado do carro é precário, com lataria estourada em cima de pneus totalmente carecas. Essa é a diferença substancial entre Obama e Roosevelt.
 
Sob Roosevelt, Tio Sam, no pós-guerra, era a grande potencia mundial. Sob Obama, seis décadas depois, envelhecido, corcunda, adiposo, asmático, sexualmente baleado e enfartado – como se encontra nesse momento, no auge da crise capitalista – , o titio precisa de ajuda do Boston Medical Group.
 
Enfim, Roosevelt ergueu o que viria a ser o unilateralismo econômico americano ao longo do século 20. Obama não aguentaria essa barra. Terá que optar pelo multilateralismo, como anuncia Hillary Clinton, Secretária de Estado do novo governo. Os deficits acumulados criaram os limites expressos pela desconfiança do mercado na capacidade de endividamento do tesouro americano. 
 
 

Bancarrota à vista

Nas próximas semanas, podem quebrar mais bancos nos Estados Unidos. Haveria necessidade urgente de novos socorros estatais, levando a uma completa estatização bancária dos grandes segmentos de crédito. A era da dominação dos bancos privados dando orientação ao FED, banco central americano, como ocorre desde 1913, quando foi criado, pode estar chegando ao fim.
Pode fragilizar a posição dos bancos, no compasso da bancarrota, impulsionada pelos créditos podres, principalmente, se o fôlego do governo para absorvê-los não for suficiente, levando o mercado a uma corrida especulativa.
Os próximos anúncios de contabilidades bancárias atuarão como terremotos, mostrando o tamanho fenomenal dos créditos podres irresgatáveis. O governo estaria diante de dois pólos: de um lado, os bancos pedindo socorro; de outro , a população criticando os privilégios concedidos aos bancos por meio de emissão monetária estatal salvacionista com o suor da comunidade.
Opção radical nesse sentido baixaria imediatamente o capital político inicial de Barack Obama. Correria esse risco perigoso para salvar os especuladores, vistos criticamente pelo povo americano?
Se houver percepção aguda pela sociedade de que o buraco sem fundo exigirá empobrecimento social relativo para salvar os bancos, pode emergir pressão política contrária à continuidade de medidas salvacionistas no Congresso.
 
 

Teste para democracia americana

O debate democrático, no ambiente economicamente caótico, tenderia a chocar com os fatos contingentes que exigem pressa e põem pressão incensante, estressante, politicamente, explosiva.
A complexidade do novo contexto em que vive a economia exige decisões rápidas, mas as respostas, em ambiente democrático, não vêm com a velocidade requerida pela situação contingencialmente explosiva. Vem aos poucos, no compasso dos antagonismos sociais que permeiam o debate nacional a desembocar-se no Congresso.
Contradição em marcha que colocaria em teste a democracia americana. A marcha do processo deflacionário, mais ou menos intensa, seria o termômetro.
A agitação que a própria dinâmica produz implica representação econômica e política americana totalmente oposta àquela representação que vigorou no tempo de Frank Delano Roosevelt.
Sob Roosevelt, o capitalismo americano tinha futuro radioso pela frente; com Obama, a radiosidade futura é opacidade congestionante do presente que não deixa ver o horizonte com nitidez.
Os relatórios dos bancos centrais dando conta de crescimento entre zero e  1% dos EUA e Europa, em 2009, significa bola de neve.
 
Com Roosevelt, o dólar, que derrubava a libra e o capitalismo inglês, todo poderoso no século 19, tinha a confiança do mundo. Com Obama, o dólar torna-se a própria desconfiança do mundo.
Sem poder sacar contra o futuro, Obama, ao contrário de Roosevelt, que tinha o vigor e a juventude da moeda americana no pós guerra, tem que buscar aliados. O poder absoluto de Tio Sam se transformou em absolutamente relativo.
A relatividade cadente do poder americano inicia na Era Obama nova fase histórica mundial.
 

Tensões protecionistas balizarão dólar

As controvérsias levantadas pelo Congresso sobre a real capacidade financeira do tesouro para sustentar a demanda americana, que puxaria, por sua vez , a demanda global, evidenciam os limites da própria capacidade americana de exercer o velho papel de locomotiva econômica do mundo.
Um deficit gêmeo – fiscal e monetário  – da ordem de 6% do PIB, em meio à recessão global, representa barreira à ousadia monetária de Tio Sam. As palavras de Lawrence Summers, principal assessor econômico da Casa Branca, com Obama, são de alerta sobre a fragilidade e os limites das finanças americanas nesse momento. Tio Sam está baleado.
 
Por isso, as esperanças em Obama podem ser dissipadas, se predominar o comportamento protecionista da elite econômica americana que vigorou depois da primeira guerra mundial e da crise de 1929.
 
A novidade tende a ser a de que o livre comércio pode não ser mais totalmente interessante para a economia americana, se as grandes indústrias tentam recuperar mercado diante da avalanche de importações baratas, fortemente competitivas com a produção interna nos Estados Unidos.
O livre comércio era bancado pela capacidade infinita de endividamento do tesouro americano, para sustentar saldos comerciais positivos para os aliados e negativos para os EUA, sob o dólar-ouro.
A continuidade desse jogo, iniciado no pós guerra, está em questão. Para complicar, a emergência do desemprego eleva a taxa de nacionalismo econômico.
 
A rejeição relativa ao livre mercado, que deixaria de ser interessante para os Estados Unidos, financeiramente, falidos, sinalizaria, por sua vez, tensões cambiais a serem produzidas pelo acirramento da concorrência internacional, cuja expressão maior poderia ser desvalorizações aceleradas de moedas nas trocas comerciais globais, como fatores compensatórias.
Todos buscariam se salvar.

Construção abstrata, midiática

Todo o complexo econômico americano, sob o governo Obama, no ambiente da crise mundial em curso, desenha conjuntura qualitativamente oposta à que vigorou no tempo de Roosevelt, acrescentando dificuldades e não facilidades.
 
A força da economia americana em 2008, em termos de potencial de endividamento, mediante crença regeneradora do mercado financeiro, não é mais aquela do pós-segunda guerra mundial.
Não existe mais a ilimitada força propulsora de plena confiança dos aliados, que depositaram todas suas esperanças na economia americana para liderar o mundo.  
Um novo Bretton Woods, hoje, teria desfecho diametralmente oposto.
Em 1944, sob o dólar forte, inaugurava-se uma nova divisão internacional do trabalho, ditada pela força econômica dada pelos gastos governamentais em programas sociais e guerra. Em 2009, sob dólar fraco, ocorre o funeral daquela divisão, que abre discussão para novo modelo monetário global, enquanto Obama sinaliza diálogo pacífico.
O complexo industrial militar americano que Roosevelt ergueu depois do New Deal, para dinamizar a economia de guerra, como principal política anti-desemprego, vai berrar.
Ou seja, a aproximação tentada entre Obama e Roosevelt representa construção abstrata, midiática, salvacionista, que tem grandes chances de dar errado.
Tornaram-se estreitos os limites da capacidade de endividamento de Tio Sam e a confiança que ele desperta no mercado, estando abarrotado de dívidas, que levam o ativo americano – cercado de monumental quantia de créditos podres – a apresentar risco que assombra geral a economia mundial. 

Capacetes azuis em Gaza, urgente!

A partir da posição emitida pelo presidente Lula em ato público no dia 30 de dezembro, em Recife, declarando que “a ONU não tem coragem de intervir no conflito de Gaza porque não quer enfrentar os EUA”, tornou-se mais evidente a percepção de que  há conflitos de várias dimensões ou de várias categorias ceifando ´vidas pelo mundo afora. Em inúmeros outros conflitos registrou-se a intervenção de tropas de paz da ONU, os famosos capacetes azuis, mesmo que nem sempre estas intervenções tenham alcançado imediatamente o seu objetivo, mas, em muitos casos, permitiram condições que facilitassem a solução negociada e pacífica destes conflitos.
 
Para o senador Critovam Buarque (PDT-DF), que já presidiu a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado, o governo brasileiro deveria tentar convencer as partes envolvidas da necessidade do envio de tropas de paz para o Oriente Médio. “Por que não não colocar soldados da ONU para preservar as fronteiras reconhecidas pelas Resoluções da entidade, ainda que sejam as fronteiras provisórias?”, indaga, lembrando que ali mesmo, na região do Sinai já houve a presença dos capacetes azuis, incluindo tropas brasileiras, que hoje encontram-se no Haiti, mas já estiveram em Angola, na Yugoslávia, detendo as ações armadas até que sejam encontradas soluções definitivas no campo diplomático.
 
O senador trabalhista tem avaliação positiva sobre as ações adotadas pela política externa brasileira sobre o conflito, mas lembra que há outras iniciativas a serem adotadas. Cita, por exemplo, o acordo firmado entre o Mercosul e Israel  que, segundo disse, é bem mais favorável a Israel do que acordo firmado entre este país  a União Européia , que não inclui nas relações comerciais os produtos fabricados nas regiões ocupadas por Israel mas que são direito palestino conforme as  Resoluções da ONU que preconizam o estabelecimento de dois estados naquela área.  Cristovam entende que este acordo firmado pelo Mercosul com Israel  constitui um erro que contradiz as próprias resoluções da ONU e que, segundo disse, pode perfeitamente ser corrigido tomando em consideração os critérios usados pela UE, que respeitam as resoluções da ONU.
 
 
O Embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim El Zebem, em entrevista concedida à TV Comunitária de Brasília, enfatizou que não existe guerra em Gaza e sim um genocídio. “Guerra é quando existe enfrentamento de dois estados, dois exércitos. Ali só há um estado e um exército, enquanto o povo palestino não dispõe nem de seu estado, nem de exército”. Zebem avaliou como muito acertadas as iniciativas do governo brasileiro que em nota oficial condenou o uso desproporcional da força e deplorou a incursão terrestre quando todo os países do mundo estavam apelando para o cessar-fogo. Para ele, o presidente Lula acertou quando afirmou que “de um lado estão os palestinos com um palito de fósforo e do outro os israelenses com um arsenal dos mais poderosos do mundo, inclusive atômico”.
 
 O Embaixador entende que hoje a causa palestina é cada vez mais conhecida do mundo todo, especialmente na América Latina, sobretudo, conforme frisou, pela nova realidade política de governos progressistas e populares na região. De fato, confirmando a análise do representante palestino, há poucos dias o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, expulsou o embaixador sionista em Caracas e denunciou que no golpe de estado de abril de 2002 a embaixada israelense conclamava o povo venezuelano a derrubar o governo constitucionalmente eleito. Mesmo assim, Zebem denunciou que alguns países sul americanos estão comprando armamentos israelenses, incluindo aviões sem pilotos, reservando ao direito de não informar que países seriam estes. ” Israel está fazendo um demonstração macabra de sua indústria bélica”, declarou, acrescentando que é exatamente em função do complexo militar industrial, sobretudo o norte-americano que se torna praticamente impossível alterar a posição dos EUa de vetar toda e qualquer resolução da ONU que tente parar os crimes cometidos pelo estado israelense. Zebem também destacou existir uma fortíssima vinculação entre a indústria bélica e os conglomerados de comunicação privados internacionais, que sempre atuam em favor das posições israelenses.
 
Enquanto praticamente todos os países do mundo apelam para um imediato cessar-fogo, para o levantamento do bloqueio israelense à Faixa de Gaza e pelo cumprimento das Resoluções da ONU, especialmente pela reconhecimento do direito ao Estado Palestino independente e autônomo, o encarregado de negócios  da Embaixada de Israel no Brasil afirmava que o Hamas é um grupo que não pode ser reconhecido, dando a entender que a ação militar destina-se a depor o governo do Hamas que foi eleito pelo voto direto dos palestinos. De fato, em nenhum documento oficial do governo israelense aparece o reconhecimento territorial histórico dos palestinos tal como deliberado pela ONU quando da criação do Estado de Israel. Encurralados em uma exígua faixa territorial do tamanho similar ao município de Guarulhos ou 16 vezes menor que o Distrito Federal mas com uma população de i milhão e meio de habitantes, os palestinos governados pelo Hamas se vêem numa situação de um gueto, tal como a vivida pelos judeus encurralados pelos nazistas no Gueto de Varsóvia, na Segunda Guerra, com uma enorme e trágica diferença:  enquanto o Gueto de Varsóvia não foi bombardeado, a Faixa de Gaza vem sendo submetida a bombardeios indiscriminados, o que, numa densidade populacional tão alta, significa bombardeio generalizado de população civil, com grande matança de crianças, inclusive a partir de armas condenadas pelas Convenções de Genebra, com as bombas de fósforo.
 
Assim, podem ser notadas enormes discordâncias entre as posições assumidas pelo Brasil e aquelas emitidas por Israel  para justificar está bárbara ação que não pode ser tipificada como uma guerra. Especialmente a partir da posição brasileira apresentada pelo chanceler Amorim em viagem a diversos países do Oriente Médio, inclusive ao governo israelense, reivindicando a inclusão do Hamas nas negociações oficiais. Os documentos oficiais israelenses afirmam ainda que suas ações militares não visam apenas a questão palestina mas também atingir o Irã. De fato, transpirou em setores da imprensa endinheirada norte-americana, em boa medida sob controle estrito do setor financeiro, que tem forte presença sionista, que Israel teria solicitado ao governo Bush autorização para atacar também as instalações nucleares iranianas, tendo recebido um desencorajamento por parte do governo que termina seu mandato como dos mais impopulares da história política dos EUA. Além disso, mais do que por prudência ou por sensatez –  aliás, o governo Bush demonstrou não ter nenhuma coisa nem outra  –   vale destacar o posicionamento político e militar da Rússia, cada vez mais presente em temas estratégicos internacionais. Medvedev além de enviar substantiva ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, gesto que foi acompanhado pelo Brasil e pela Venezuela, determinou a instalação de mísseis e anti-mísseis de última geração no Irã, atitude que foi avaliada pelos especialistas militares de várias posições ideológicas como de grande alcance, lembrando que se a Yugoslávia tivesse estas armas na década de noventa não teria sido submetida ao descomunal bombardeio da Otan, que destruiu boa parte de sua capacidade militar e sua infra-estrutura. Estes movimentos significativos no tabuleiro de xadrez mundial estariam a indicar que, se por um lado Israel, embora cada vez mais isolado, só se movimenta com esta ferocidade em razão da criminosa sustentação dos EUA, por outro, a aproximação de países como Rússia, China e Brasil do Irã, e, também a decisão do Irã de ingressar como membro associado da Alba, com expressivos investimentos para a industrialização da Venezuela, da Bolívia e da Nicarágua,  indicariam a conformação de um grupo de países que têm atuado com razoável sintonia e identidade, ainda que preservem suas diferenças políticas. Esta polarização de ser valorizada e apoiada pelas forças progressistas dos diversos países, pois representam uma política de isolamento dos EUA e de Israel, e uma  maior cooperação entre países e povos que estão preconizando um novo equilíbrio e novo desenho no mapa político internacional.
 
Beto Almeida
jornalista

Sapatada no Bradesco e na Febraban

 

 

“Cypriano brigou com o rei”. Caiu. O filósofo Petronius – sob Nero – disse que mais louco do que o rei é quem briga com o rei. Loucura cypriânica.

Nos bastidores empresariais e políticos a informação que rola é a de que a queda do presidente do Bradesco, Marcio Cypriano, substituido, no final de semana, às pressas, por Luiz Carlos Trabuco Cappi, decorreu do atrito havido entre Cypriano e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na quarta-feira da semana passada, durante reunião entre governo, empresários e banqueiros. Em busca de solução para a taxa de juros, o presidente Lula determinou aos seus comandantes da economia alcançarem consenso entre agentes econômicos sobre o assunto, visto que se encontra apavorado com possível escalada do desemprego, cujas consequências são perturbações sociais e políticas insuportáveis.

O presidente do Bradesco e diretor da Febraban considerou, na ocasião, o BC culpado pelos juros altos. Meirelles contratacou destacando que culpados são os bancos, que cobram o spred mais alto do mundo – ou seja, o custo de intermediação bancária, influenciado pelo risco. Evidenciou lavagem de roupa suja, de forma espetacular. Sendo Meirelles a voz do presidente, Cypriano detonou o presidente, o rei. Dançou.

Por que os banqueiros entraram nessa, se são os que mais faturam? Têm lucro médio de 25% a 30%, ao longo dos últimos 20 anos, enquanto as atividades industriais asseguram 8% de rentabilidade e as comerciais, 15%, em média. Os juros engordam os lucros bancários e emagrecem os lucros da produção e do consumo.

A tentativa de culpar Meirelles/Lula demonstrou, no fundo, o insconsciente bancário: os banqueiros estão atacando Lula e sua política econômica. Cypriano vocalizou, inadvertidamente, esse inconsciente, que, na verdade, representa oposição à estratégia macro do presidente, econômica e políica, envolvendo, aí, naturalmente, a candidatura Dilma Rousseff, repaginada esteticamente para enfrentar em 2010 o PSDB, que já apela politicamente para o protecionismo, para garantir empregos, como faz, em desespero, o governador José Serra, de São Paulo, diante do recuo da produção industrial de 0,6% em novembro, relativamente, a outubro, e da greve dos trabalhadores da GM, protestando contra demissões. Clima tenso.

A escorregada feia de Cypriando revelou, ainda, o temor dos bancos diante da situação em que são colocados pela população, de maneira geral, como agiotas, que, agora, na crise, se negam a manter oferta de crédito, embora o governo tenha criado situação para favorecer essa possibilidade, irrigando o mercado de dinheiro público, elevando a dívida pública interna, sobre a qual faturam alto com a taxa selic.

Lançaram os homens do dinheiro culpa na sua própria representação, isto é, o BC, obediente aos interesses da banca, no momento em que o presidente Lula amplia o debate sobre a taxa de juro, envolvendo na discussão não apenas o Banco Central e os banqueiros, restritos no âmbito do Copom, mas, também, os agentes da produção, democratizando o debate.

O cachimbo deixou a boca torta. Os banqueiros revelaram-se incapazes de perceber as nuances políticas que estão levando o governo a ampliar a estatização bancária, gerando o oligopólio financeiro estatal, porque o seu oposto, o oligopólio financeiro privado, na crise, se mostrra incapaz de enfrentar os desafios capitais, no sentido de assegurar a produção e o consumo, razoavelmente, em ação.

As notícias que encheram os jornais, dando conta da saída do ex-presidente e da entrada do novo, Trabuco, ganharam mais força no noticiário do que as informações da crise mundial. Tremenda encenação midiática. Freud disse que as palavras servem para esconder o pensamento.

A autoridade do governo foi colocada em jogo pelos banqueiros. E o troco veio. Cypriano e a Febraban, onde o espírito de animosidade da bancocracia relativamente ao governo extrapolou o inconsciente para ganhar o público, revelaram-se politicamente inexperientes, ao não perceberem que, no contexto da turbulência econômico-financeira, a política econômica está dando lugar à economia política. 

Resultado: Lula mandou uma sapatada no Bradesco e na Febraban.

 

 

Poder bancocrático sob crítica

As tensas relações entre os banqueiros e Meirelles, ou seja, entre os banqueiros e o presidente da República, no compasso das decisões governamentais que vão aumentando o poder financeiro estatal para ir abrindo espaço à ampliação da produção e do consumo obstaculizados pela escassez de crédito, tendem a se ampliar e a abrir discussões sobre a influência excessiva do pensamento bancário na condução da política econômica nacional há mais de 25 anos.

O poder bancocrático é tão poderoso que até a Constituição o trata de forma especial. O artigo 166, parágrafo terceiro, itém II, letra b, estabelece como causa pétrea o direito dos bancos de não terem contingenciados os recursos destinados ao pagamento dos serviços da dívida governamental. Tudo pode ser contingenciado orçamentariamente – educação, saúde, segurança, infra-estrutura, compras governamentais. Somente, os pagamentos de juros ficam a salvo. Contitucionalmente, garantidos. Bancocracia constitucional.

Os professores da Universidade de Brasilia, Adriano Benayon, economista, e Pedro Resende, cientista da computação, realizaram pesquisa sobre esse capítulo constitucional e revelaram a grande influência que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, teve, quando deputado constituinte pelo PMDB, para materializar , na Constituição, o interesse dos banqueiros. Contribuiu, decisivamente, segundo os dois professores, para sedimentar o poder bancocrático no contexto dos poderes republicanos.

Durante a Nova República, refém do Consenso de Washington, erguido depois da crise monetária dos anos de 1980 – detonada pelos mesmos motivos que hoje detonam a crise financeira mundial, ou seja, excesso de dólares especulativos no mercado – , os banqueiros asseguraram condição privilegiada no comando da política econômica.

O prioritário, estabelecido pelo Consenso de Washington, era o que ficou estabelecido consitucionalmente. Ou seja, prioridade governamental para o pagamento dos juros, antes de dispor de recursos para os investimentos públicos, destinados a sustentar, equiibradamente, a demanda global da economia. Esta pagou o pato em favor do privilégio da bancocracia, expressão cunhada pelo senador Lauro Campos, na Era FHC.

Se Cypriano, na frente dos empresários e de outras fontes, comportou-se ousadamente na formulação de críticas a Meirelles pelo comportamento dos juros altos administrados pelo BC, imagine o que os banqueiros não falam entre quatro paredes aos diretores da instituição, que, na prática, tem sido indicado por eles, para orientar a política econômica? Já se disse que o BC é o clube dos banqueiros.

As relações entre Meirelles e o Bradesco e entre ele e a Febraban ficaram estremecidas, vale dizer, tudo que não é permitido para os interesses dos bancos, especialmente, em ambiente de instabilidade total.

As justificativas pela saída de Cypriano – teria atingido a idade limite de 65 anos pelo estatuto do banco, depois de permanecer durante dez anos à frente do Bradesco – falariam, exteriormente, aparentemente, ao fato, não interiormente, latentemente. Aparência versus essência.

Os banqueiros romperam com uma regra capital: a discrição. Sabem que a ausência de toda e qualquer contrariedade política explicita entre os bancos e a autoridade monetária, que concede aos banqueiros a concessão para a abertura do seu negócio, é o ideal. Romperam com ela?

 

O perigo de brigar com o rei

A retirada de Cypriano de cena mostra o desgaste que se formou nas relações entre bancos e governo.

O presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, que luta para conquistar novos espaços para o banco no cenário nacional, depois de cair para terceiro lugar no ranking, em 2008, não poderia algurar sucesso, se tiver pela frente controvérsias políticas com o Palácio do Planalto. Essa possibilidade seria fatal, especialmente, ao longo dos próximos dois anos, em que Lula se empenha em manter a economia funcionando, para garantir sua sucessão.

Brigar com o rei? Os bancos atuam mediante concessões do Estado. São inúmeros os exemplos históricos de governantes que tiveram atritos com banqueiros e modificaram suas preferências, erigindo novos eleitos e condenando velhos aliados, na tarefa de manter a relação umbilical entre estado e banca, que o financia, historicamente.

Banqueiros não têm partido político, não apitam, em público, em política, apenas enfiam a mão no bolso para financiar o estado, tendo como garantia as letras do tesouro, além da possibilidade de comercializar dinheiro, de diversas formas, no mercado monetário, à moda oligopolizada, em escala crescente. 

As tensões entre bancos e o governo – como se evidenciou no episódio Cypriano-Meirelles – , em meio a uma conjuntura cujos desdobramentos destrutivos e potencialmente explosivos, politicamente, são coqueteis molotov, representariam um epílogo extraordinário no governo Lula, dando outro colorido político à Nova República.

O pavio acendido por Cypriano teria pecado pela desconhecimento do time certo para agir? Denunciou potencial conspiração que deixou o poder lulista de barbas de molho.

O conservadorismo de Brandão entrou em campo, rapidamente, mas deixou uma ponta do rabo de fora, expondo astúcia e insatisfação bancocrática com o andar da carruagem de um estado financista oligopolizado em ascenção a ser colocado a serviço da candidatura da ministra Dilma Rousseff.

 

 

Remoção imediata do problema

A pronta substituição de  Cypriano por Trabuco conjuga controvertidamente com as previsões feitas pelo próprio presidente Lula de que a crise mundial, detonada pelo empoçamento do crédito ao consumidor, sinaliza explosão social em decorrência da expansão do desemprego.

A briga entre Cypriano e Meirelles representou cortina de fumaça desse pano de fundo, dando claridade à oposição entre as duas partes, visto que o oligopólio financeiro estatal avança porque o oligopólio financeiro privado não atende o interesse público no compasso da crise mundial.

Como possível avanço de demissões de trabalhadores vai deixando o ambiente politicamente delicado, tornou-se inconveniente aos banqueiros cutucar a onça com vara curta. O Copom, por exemplo, onde a influência dos bancos privados era amplamente predominante, pode, de agora em diante, ser politicamente relativizado pelo avanço da economia política frente à política econômica, de forma dialética, no compasso da crise.

A lavagem de roupa suja Cypriano-Meirelles demonstrou claramente a possib ilidade de atritos cujas consequências, para os bancos, represetariam dissabores. O novo presidente do Bradesco, Trabuco, chega para ficar calado.

Fatos políticos novos e inquietantes passam a conduzir as ações governamentais que necessitam de ambiente econômico financeiro concorde com sua estratégia de enfrentamento da crise.

Não haveria tal concordância se continuar tensa relação Planalto-Febraban-Bradesco. Cypriano espirrou como a concha entre a onda e o rochedo, levando tremenda sapatada.

Unasul silencia sobre massacre de Gaza

Uma das características positivas das grandes potências, no plano diplomático, é que elas agem proativa e prontamente com suas cabeças soberanas  diante dos acontecimentos capitais. Expressão do poder do dinheiro.

Os líderes europeus se mobilizaram rapidamente para manifestar-se sobre o massacre judeu em cima dos palestinos – a mais desproporcional de todas as lutas da história humana. Reconhecem o direito de Israel, condenam o que consideram terrorismo do Hamas, mas querem diálogo em vez de guerra.

A América do Sul, cuja pretensão é ser politicamente unida, por meio da Unasul – União das Nações Sul-Americanas – , que não pensa com sua própria cabeça, ficou sem falar nada, até agora. 

Revelou fraqueza política estratégica, por pensar ideologicamente com a cabeça feita pelos interesses do capitalismo cêntrico, essencialmente, divergentes dos interesses do capitalismo periférico. Elo mais fraco da cadeia capitalista, os interesses periféricos, manipulados por elites conservadoras, mantidas por sistemas políticos reacionários, ajustam-se, incondicionamente, aos interesses externos dominantes. Esperam pelo que vai fazer o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. São reativos, não proativos. Pior, confusos, com disputas de espaços de poder no cenário latino-americano à moda populista, quase sempre, em meio a uma democracia ajustada aos limites de uma superestrutura jurídica a serviço da reprodução do capital.

 

Democracia de massa contra guerra 

Já a mobilização dos líderes europeus mobiliza, por sua vez, a população, e vice-versa, no contexto da democracia de massa, que se ergue como resposta ao poder das armas exposto por Israel como instrumento ditatorial, supressor da política. O apoio popular a tal mobilização, certamente, será o termômentro de Obama. Os judeus correm perigo sob o movimento democrátrico massivo mundial ao perderem apoio por excessiva exibição de força.

Condicionados por evoluções políticas históricas do povo europeu, expiado por duas guerras mundiais, os líderes se obrigam a agir pelo consenso democrático de massa, o neo-poder global em jogo contra a guerra.

Por isso, ao mesmo tempo em que se condicionam a movimentação da massa, os líderes a agitam, para melhor se posicionarem no plano politico social, dominado pelo repúdio mundial ao massacre.

O pacifismo ativista entrou em campo. No domingo, as manifestações estiveram nas grandes capitais do mundo. Em São Paulo, 5 mil manifestantes. Mais um pouco, um milhão estarão nas ruas, competindo para ver quem bota mais gente para gritar contra o massacre. Israel ganha a disputa desproporcional contra o Hamas, mas perde de goleada a disputa no poder midiático.

As ruas, cheias de manifestantes, anti- massacre impõe a democracia de massa contra a guerra?

Os líderes sul-americanos, que, com a Unasul, pretenderiam ganhar status semelhante à União Européia, demonstram descordenação total nessa hora. Predomina o individualismo do presidente Hugo Chavez, da Venezuela, em expulsar o embaixador de Israel, e o do presidente Lula, que envia o chanceler Celso Amorim para fazer um desabafo isolado. Parecem os foguetes Qaasan detonados pelo Hamas contra Israel, que contra-ataca com a mais espetacular tecnologia da guerra, destruindo alvos e gente às pencas, como num jogo dirigido de video-game brutal.

Não buscam os líderes da América do Sul a construção do pensamento sul-americano dado pelas condições objetivas, em meio ao caos capitalista, cujas consequências viram o mundo de cabeça para baixo, alterando as correlações de forças políticas. Não estão, ainda, sob pressão da democracia de massa nas ruas.

Já os líderes europeus… O presidente da França, que depende do equilíbrio social entre árabes e judeus, dentro do território francês, se mandou, rapidamente, para o Oriente Médio. Mobilizou forças européias para construir com o Egito a proposta do cessar-fogo como primeiro passo para concialiação.

 

Europa teme expansão islamita

Na verdade, a Europa e os Estados Unidos temem a expansão islamita no Oriente Médio. O combustível para sua expansão é a continuidade dos massacres. O sentimento islamita, que o ocidente diz carregar, intrinsecamente, potencial terrorista, emerge como o único capaz de fortalecer a idéia para lutar contra as armas.

O islã – política e religião interligados –  tende a se tornar o liame capaz de ligar emoções em todo o Oriente Médio contra o imperialismo neo-sionismo israelita exterminador, cujas raízes são européias. A Europa se mobiliza para por freio às determinações do seu próprio filho ideológico transformado em estado de Israel.

O sionismo, como movimento nacionalista histórico dos judeus, é velho conhecido da Europa, porque se trata de movimento, tipicamente, europeu, apoiado pelas potências européias, que dividiram a Palestina, a partir de 1948.

O contrapolo do sionismo é o islamismo. Os resquícios do pensamento ocidental no Oriente Médio tenderiam a ser suprimidos, radicalizando a luta política, caso não seja criado o estado palestino, com fronteiras estabelecidas pela ONU.

Ou seja, os europeus sabem qual o potencial de fogo do conflito no Oriente Médio, onde o Islamismo pode espalhar-se e tornar-se ideologia fundamental dos estados árabes, fugindo, portanto, do controle ideológico utilitarista capitalista ocidental.

A indústria de guerra bate palma. Mercado garantido para as novas tecnologias da morte.

A diplomacia européia, em razão dessa circunstancia história indisfarsável, é ágil, proativa, sobretudo, agressiva, jogando sempre no ataque, estando em jogo interesses da Europa.

Sabem os líderes europeus que  a causa palestina pode radicalizar o jogo político na Europa nas próximas eleições. Somando-se os massacres de Gaza com os efeitos destrutivos da crise deflacionária global, que põe o capitalismo de joelhos, haveria grandes chances de pintar contexto totalmente surpreendente, de agora em diante.

Os europeus, curtidos na pele pelo mandamento de que é do sofrimento que nascem ideologias radicais, se cuidam. A Europa , nesse ambiente, pensa e age formulando ações e agitando o ambiente internacional em favor de acordo, porque o desacordo incendiaria politicamente a própria Europa.

 

Colonização mental

Na América do Sul, ocorre, justamente, o contrário. As lideranças sul-americanas, reativas, aguardam Barack Obama. Mente colonizada.

A Unasul mostra que não pensa com a cabeça sul-americana. Se pensasse, a presidente do Chile e pro-tempore da Unasul, Michelle Bachelet, teria, em nome dos 12 presidentes sul-americanos, ido a Israel e à Palestina, como fez Sarkozy. Imporia o jogo sul-americano, do qual dependerá, em grande parte, Obama. A próxima política energética obamista – 200 bilhões de dólares em investimentos – terá o Brasil como ponto estratégico.

A diplomacia sul-americana, historicamente, é um caos político, porque age mais no abstrato que no concreto, dada a baixa conscientização política social sul-americana, se comparada com a européia, por exemplo. Os fatos são eloquentes. O povo está na rua na Europa e nos Estados Unidos. No América do Sul, dispersão total, compatível com os interesses da elite, que não deseja agitação política, por hora, no compasso do calvário capitalista ocidental especulativo.

Temem, certamente, a liberação da força popular política sul-americana, impulsionada por posicionamentos mais fortes das lideranças, criando correlações de forças políticas sobre as quais perderiam controle.

O populismo sul-americano ainda reserva para si a predominância do mandonismo, mesmo sob a representação democrática. Basta olhar o Congresso brasileiro, regado pelo assistencialismo político escandaloso.