Sapatada no Bradesco e na Febraban

 

 

“Cypriano brigou com o rei”. Caiu. O filósofo Petronius – sob Nero – disse que mais louco do que o rei é quem briga com o rei. Loucura cypriânica.

Nos bastidores empresariais e políticos a informação que rola é a de que a queda do presidente do Bradesco, Marcio Cypriano, substituido, no final de semana, às pressas, por Luiz Carlos Trabuco Cappi, decorreu do atrito havido entre Cypriano e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na quarta-feira da semana passada, durante reunião entre governo, empresários e banqueiros. Em busca de solução para a taxa de juros, o presidente Lula determinou aos seus comandantes da economia alcançarem consenso entre agentes econômicos sobre o assunto, visto que se encontra apavorado com possível escalada do desemprego, cujas consequências são perturbações sociais e políticas insuportáveis.

O presidente do Bradesco e diretor da Febraban considerou, na ocasião, o BC culpado pelos juros altos. Meirelles contratacou destacando que culpados são os bancos, que cobram o spred mais alto do mundo – ou seja, o custo de intermediação bancária, influenciado pelo risco. Evidenciou lavagem de roupa suja, de forma espetacular. Sendo Meirelles a voz do presidente, Cypriano detonou o presidente, o rei. Dançou.

Por que os banqueiros entraram nessa, se são os que mais faturam? Têm lucro médio de 25% a 30%, ao longo dos últimos 20 anos, enquanto as atividades industriais asseguram 8% de rentabilidade e as comerciais, 15%, em média. Os juros engordam os lucros bancários e emagrecem os lucros da produção e do consumo.

A tentativa de culpar Meirelles/Lula demonstrou, no fundo, o insconsciente bancário: os banqueiros estão atacando Lula e sua política econômica. Cypriano vocalizou, inadvertidamente, esse inconsciente, que, na verdade, representa oposição à estratégia macro do presidente, econômica e políica, envolvendo, aí, naturalmente, a candidatura Dilma Rousseff, repaginada esteticamente para enfrentar em 2010 o PSDB, que já apela politicamente para o protecionismo, para garantir empregos, como faz, em desespero, o governador José Serra, de São Paulo, diante do recuo da produção industrial de 0,6% em novembro, relativamente, a outubro, e da greve dos trabalhadores da GM, protestando contra demissões. Clima tenso.

A escorregada feia de Cypriando revelou, ainda, o temor dos bancos diante da situação em que são colocados pela população, de maneira geral, como agiotas, que, agora, na crise, se negam a manter oferta de crédito, embora o governo tenha criado situação para favorecer essa possibilidade, irrigando o mercado de dinheiro público, elevando a dívida pública interna, sobre a qual faturam alto com a taxa selic.

Lançaram os homens do dinheiro culpa na sua própria representação, isto é, o BC, obediente aos interesses da banca, no momento em que o presidente Lula amplia o debate sobre a taxa de juro, envolvendo na discussão não apenas o Banco Central e os banqueiros, restritos no âmbito do Copom, mas, também, os agentes da produção, democratizando o debate.

O cachimbo deixou a boca torta. Os banqueiros revelaram-se incapazes de perceber as nuances políticas que estão levando o governo a ampliar a estatização bancária, gerando o oligopólio financeiro estatal, porque o seu oposto, o oligopólio financeiro privado, na crise, se mostrra incapaz de enfrentar os desafios capitais, no sentido de assegurar a produção e o consumo, razoavelmente, em ação.

As notícias que encheram os jornais, dando conta da saída do ex-presidente e da entrada do novo, Trabuco, ganharam mais força no noticiário do que as informações da crise mundial. Tremenda encenação midiática. Freud disse que as palavras servem para esconder o pensamento.

A autoridade do governo foi colocada em jogo pelos banqueiros. E o troco veio. Cypriano e a Febraban, onde o espírito de animosidade da bancocracia relativamente ao governo extrapolou o inconsciente para ganhar o público, revelaram-se politicamente inexperientes, ao não perceberem que, no contexto da turbulência econômico-financeira, a política econômica está dando lugar à economia política. 

Resultado: Lula mandou uma sapatada no Bradesco e na Febraban.

 

 

Poder bancocrático sob crítica

As tensas relações entre os banqueiros e Meirelles, ou seja, entre os banqueiros e o presidente da República, no compasso das decisões governamentais que vão aumentando o poder financeiro estatal para ir abrindo espaço à ampliação da produção e do consumo obstaculizados pela escassez de crédito, tendem a se ampliar e a abrir discussões sobre a influência excessiva do pensamento bancário na condução da política econômica nacional há mais de 25 anos.

O poder bancocrático é tão poderoso que até a Constituição o trata de forma especial. O artigo 166, parágrafo terceiro, itém II, letra b, estabelece como causa pétrea o direito dos bancos de não terem contingenciados os recursos destinados ao pagamento dos serviços da dívida governamental. Tudo pode ser contingenciado orçamentariamente – educação, saúde, segurança, infra-estrutura, compras governamentais. Somente, os pagamentos de juros ficam a salvo. Contitucionalmente, garantidos. Bancocracia constitucional.

Os professores da Universidade de Brasilia, Adriano Benayon, economista, e Pedro Resende, cientista da computação, realizaram pesquisa sobre esse capítulo constitucional e revelaram a grande influência que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, teve, quando deputado constituinte pelo PMDB, para materializar , na Constituição, o interesse dos banqueiros. Contribuiu, decisivamente, segundo os dois professores, para sedimentar o poder bancocrático no contexto dos poderes republicanos.

Durante a Nova República, refém do Consenso de Washington, erguido depois da crise monetária dos anos de 1980 – detonada pelos mesmos motivos que hoje detonam a crise financeira mundial, ou seja, excesso de dólares especulativos no mercado – , os banqueiros asseguraram condição privilegiada no comando da política econômica.

O prioritário, estabelecido pelo Consenso de Washington, era o que ficou estabelecido consitucionalmente. Ou seja, prioridade governamental para o pagamento dos juros, antes de dispor de recursos para os investimentos públicos, destinados a sustentar, equiibradamente, a demanda global da economia. Esta pagou o pato em favor do privilégio da bancocracia, expressão cunhada pelo senador Lauro Campos, na Era FHC.

Se Cypriano, na frente dos empresários e de outras fontes, comportou-se ousadamente na formulação de críticas a Meirelles pelo comportamento dos juros altos administrados pelo BC, imagine o que os banqueiros não falam entre quatro paredes aos diretores da instituição, que, na prática, tem sido indicado por eles, para orientar a política econômica? Já se disse que o BC é o clube dos banqueiros.

As relações entre Meirelles e o Bradesco e entre ele e a Febraban ficaram estremecidas, vale dizer, tudo que não é permitido para os interesses dos bancos, especialmente, em ambiente de instabilidade total.

As justificativas pela saída de Cypriano – teria atingido a idade limite de 65 anos pelo estatuto do banco, depois de permanecer durante dez anos à frente do Bradesco – falariam, exteriormente, aparentemente, ao fato, não interiormente, latentemente. Aparência versus essência.

Os banqueiros romperam com uma regra capital: a discrição. Sabem que a ausência de toda e qualquer contrariedade política explicita entre os bancos e a autoridade monetária, que concede aos banqueiros a concessão para a abertura do seu negócio, é o ideal. Romperam com ela?

 

O perigo de brigar com o rei

A retirada de Cypriano de cena mostra o desgaste que se formou nas relações entre bancos e governo.

O presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, que luta para conquistar novos espaços para o banco no cenário nacional, depois de cair para terceiro lugar no ranking, em 2008, não poderia algurar sucesso, se tiver pela frente controvérsias políticas com o Palácio do Planalto. Essa possibilidade seria fatal, especialmente, ao longo dos próximos dois anos, em que Lula se empenha em manter a economia funcionando, para garantir sua sucessão.

Brigar com o rei? Os bancos atuam mediante concessões do Estado. São inúmeros os exemplos históricos de governantes que tiveram atritos com banqueiros e modificaram suas preferências, erigindo novos eleitos e condenando velhos aliados, na tarefa de manter a relação umbilical entre estado e banca, que o financia, historicamente.

Banqueiros não têm partido político, não apitam, em público, em política, apenas enfiam a mão no bolso para financiar o estado, tendo como garantia as letras do tesouro, além da possibilidade de comercializar dinheiro, de diversas formas, no mercado monetário, à moda oligopolizada, em escala crescente. 

As tensões entre bancos e o governo – como se evidenciou no episódio Cypriano-Meirelles – , em meio a uma conjuntura cujos desdobramentos destrutivos e potencialmente explosivos, politicamente, são coqueteis molotov, representariam um epílogo extraordinário no governo Lula, dando outro colorido político à Nova República.

O pavio acendido por Cypriano teria pecado pela desconhecimento do time certo para agir? Denunciou potencial conspiração que deixou o poder lulista de barbas de molho.

O conservadorismo de Brandão entrou em campo, rapidamente, mas deixou uma ponta do rabo de fora, expondo astúcia e insatisfação bancocrática com o andar da carruagem de um estado financista oligopolizado em ascenção a ser colocado a serviço da candidatura da ministra Dilma Rousseff.

 

 

Remoção imediata do problema

A pronta substituição de  Cypriano por Trabuco conjuga controvertidamente com as previsões feitas pelo próprio presidente Lula de que a crise mundial, detonada pelo empoçamento do crédito ao consumidor, sinaliza explosão social em decorrência da expansão do desemprego.

A briga entre Cypriano e Meirelles representou cortina de fumaça desse pano de fundo, dando claridade à oposição entre as duas partes, visto que o oligopólio financeiro estatal avança porque o oligopólio financeiro privado não atende o interesse público no compasso da crise mundial.

Como possível avanço de demissões de trabalhadores vai deixando o ambiente politicamente delicado, tornou-se inconveniente aos banqueiros cutucar a onça com vara curta. O Copom, por exemplo, onde a influência dos bancos privados era amplamente predominante, pode, de agora em diante, ser politicamente relativizado pelo avanço da economia política frente à política econômica, de forma dialética, no compasso da crise.

A lavagem de roupa suja Cypriano-Meirelles demonstrou claramente a possib ilidade de atritos cujas consequências, para os bancos, represetariam dissabores. O novo presidente do Bradesco, Trabuco, chega para ficar calado.

Fatos políticos novos e inquietantes passam a conduzir as ações governamentais que necessitam de ambiente econômico financeiro concorde com sua estratégia de enfrentamento da crise.

Não haveria tal concordância se continuar tensa relação Planalto-Febraban-Bradesco. Cypriano espirrou como a concha entre a onda e o rochedo, levando tremenda sapatada.

Unasul silencia sobre massacre de Gaza

Uma das características positivas das grandes potências, no plano diplomático, é que elas agem proativa e prontamente com suas cabeças soberanas  diante dos acontecimentos capitais. Expressão do poder do dinheiro.

Os líderes europeus se mobilizaram rapidamente para manifestar-se sobre o massacre judeu em cima dos palestinos – a mais desproporcional de todas as lutas da história humana. Reconhecem o direito de Israel, condenam o que consideram terrorismo do Hamas, mas querem diálogo em vez de guerra.

A América do Sul, cuja pretensão é ser politicamente unida, por meio da Unasul – União das Nações Sul-Americanas – , que não pensa com sua própria cabeça, ficou sem falar nada, até agora. 

Revelou fraqueza política estratégica, por pensar ideologicamente com a cabeça feita pelos interesses do capitalismo cêntrico, essencialmente, divergentes dos interesses do capitalismo periférico. Elo mais fraco da cadeia capitalista, os interesses periféricos, manipulados por elites conservadoras, mantidas por sistemas políticos reacionários, ajustam-se, incondicionamente, aos interesses externos dominantes. Esperam pelo que vai fazer o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama. São reativos, não proativos. Pior, confusos, com disputas de espaços de poder no cenário latino-americano à moda populista, quase sempre, em meio a uma democracia ajustada aos limites de uma superestrutura jurídica a serviço da reprodução do capital.

 

Democracia de massa contra guerra 

Já a mobilização dos líderes europeus mobiliza, por sua vez, a população, e vice-versa, no contexto da democracia de massa, que se ergue como resposta ao poder das armas exposto por Israel como instrumento ditatorial, supressor da política. O apoio popular a tal mobilização, certamente, será o termômentro de Obama. Os judeus correm perigo sob o movimento democrátrico massivo mundial ao perderem apoio por excessiva exibição de força.

Condicionados por evoluções políticas históricas do povo europeu, expiado por duas guerras mundiais, os líderes se obrigam a agir pelo consenso democrático de massa, o neo-poder global em jogo contra a guerra.

Por isso, ao mesmo tempo em que se condicionam a movimentação da massa, os líderes a agitam, para melhor se posicionarem no plano politico social, dominado pelo repúdio mundial ao massacre.

O pacifismo ativista entrou em campo. No domingo, as manifestações estiveram nas grandes capitais do mundo. Em São Paulo, 5 mil manifestantes. Mais um pouco, um milhão estarão nas ruas, competindo para ver quem bota mais gente para gritar contra o massacre. Israel ganha a disputa desproporcional contra o Hamas, mas perde de goleada a disputa no poder midiático.

As ruas, cheias de manifestantes, anti- massacre impõe a democracia de massa contra a guerra?

Os líderes sul-americanos, que, com a Unasul, pretenderiam ganhar status semelhante à União Européia, demonstram descordenação total nessa hora. Predomina o individualismo do presidente Hugo Chavez, da Venezuela, em expulsar o embaixador de Israel, e o do presidente Lula, que envia o chanceler Celso Amorim para fazer um desabafo isolado. Parecem os foguetes Qaasan detonados pelo Hamas contra Israel, que contra-ataca com a mais espetacular tecnologia da guerra, destruindo alvos e gente às pencas, como num jogo dirigido de video-game brutal.

Não buscam os líderes da América do Sul a construção do pensamento sul-americano dado pelas condições objetivas, em meio ao caos capitalista, cujas consequências viram o mundo de cabeça para baixo, alterando as correlações de forças políticas. Não estão, ainda, sob pressão da democracia de massa nas ruas.

Já os líderes europeus… O presidente da França, que depende do equilíbrio social entre árabes e judeus, dentro do território francês, se mandou, rapidamente, para o Oriente Médio. Mobilizou forças européias para construir com o Egito a proposta do cessar-fogo como primeiro passo para concialiação.

 

Europa teme expansão islamita

Na verdade, a Europa e os Estados Unidos temem a expansão islamita no Oriente Médio. O combustível para sua expansão é a continuidade dos massacres. O sentimento islamita, que o ocidente diz carregar, intrinsecamente, potencial terrorista, emerge como o único capaz de fortalecer a idéia para lutar contra as armas.

O islã – política e religião interligados –  tende a se tornar o liame capaz de ligar emoções em todo o Oriente Médio contra o imperialismo neo-sionismo israelita exterminador, cujas raízes são européias. A Europa se mobiliza para por freio às determinações do seu próprio filho ideológico transformado em estado de Israel.

O sionismo, como movimento nacionalista histórico dos judeus, é velho conhecido da Europa, porque se trata de movimento, tipicamente, europeu, apoiado pelas potências européias, que dividiram a Palestina, a partir de 1948.

O contrapolo do sionismo é o islamismo. Os resquícios do pensamento ocidental no Oriente Médio tenderiam a ser suprimidos, radicalizando a luta política, caso não seja criado o estado palestino, com fronteiras estabelecidas pela ONU.

Ou seja, os europeus sabem qual o potencial de fogo do conflito no Oriente Médio, onde o Islamismo pode espalhar-se e tornar-se ideologia fundamental dos estados árabes, fugindo, portanto, do controle ideológico utilitarista capitalista ocidental.

A indústria de guerra bate palma. Mercado garantido para as novas tecnologias da morte.

A diplomacia européia, em razão dessa circunstancia história indisfarsável, é ágil, proativa, sobretudo, agressiva, jogando sempre no ataque, estando em jogo interesses da Europa.

Sabem os líderes europeus que  a causa palestina pode radicalizar o jogo político na Europa nas próximas eleições. Somando-se os massacres de Gaza com os efeitos destrutivos da crise deflacionária global, que põe o capitalismo de joelhos, haveria grandes chances de pintar contexto totalmente surpreendente, de agora em diante.

Os europeus, curtidos na pele pelo mandamento de que é do sofrimento que nascem ideologias radicais, se cuidam. A Europa , nesse ambiente, pensa e age formulando ações e agitando o ambiente internacional em favor de acordo, porque o desacordo incendiaria politicamente a própria Europa.

 

Colonização mental

Na América do Sul, ocorre, justamente, o contrário. As lideranças sul-americanas, reativas, aguardam Barack Obama. Mente colonizada.

A Unasul mostra que não pensa com a cabeça sul-americana. Se pensasse, a presidente do Chile e pro-tempore da Unasul, Michelle Bachelet, teria, em nome dos 12 presidentes sul-americanos, ido a Israel e à Palestina, como fez Sarkozy. Imporia o jogo sul-americano, do qual dependerá, em grande parte, Obama. A próxima política energética obamista – 200 bilhões de dólares em investimentos – terá o Brasil como ponto estratégico.

A diplomacia sul-americana, historicamente, é um caos político, porque age mais no abstrato que no concreto, dada a baixa conscientização política social sul-americana, se comparada com a européia, por exemplo. Os fatos são eloquentes. O povo está na rua na Europa e nos Estados Unidos. No América do Sul, dispersão total, compatível com os interesses da elite, que não deseja agitação política, por hora, no compasso do calvário capitalista ocidental especulativo.

Temem, certamente, a liberação da força popular política sul-americana, impulsionada por posicionamentos mais fortes das lideranças, criando correlações de forças políticas sobre as quais perderiam controle.

O populismo sul-americano ainda reserva para si a predominância do mandonismo, mesmo sob a representação democrática. Basta olhar o Congresso brasileiro, regado pelo assistencialismo político escandaloso.

Estatização bancária detona Copom

Simbolicamente, a crise econômica em curso que desacelera a economia, de forma perigosa, impulsionando o desemprego e a radicalização política consequente, detonou o Conselho de Política Monetária(Copom), que, na próxima reunião, em 21.01, terá que reduzir os juros, como última alternativa para reanimar, mais fortemente, a produção e o consumo, semi-paralisados pela falta de crédito. Ao mesmo tempo, o governo, via Banco do Brasil,  ampliou a estatização bancária, comprando metade do Banco Votorantim, por R$ 4,2 bilhões, a fim de sustentar o mercado de automóveis, bloqueado por falta de financiamentos. Juros mais baixos e estatização financeira comungam para determinar nova correlação de forças na economia. Talvez ocorra até antecipação da reunião do Copom para a próxima semana, como resposta rápida para tentar minimizar as demissões, que já jogam trabalhadores nas ruas, junto com suas famílias, para protestarem contra a situação, como aconteceu em Itabira, Minas Gerasis, onde a Vale do Rio Doce demite em massa.

O abalo no Copom ocorreu na prática com a decisão do presidente Lula de convocar, emergencialmente,  os ministros Guido Mantega, da Fazenda, e Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, para, na quarta, 08, conversarem com os empresários e banqueiros sobre como ajustar a oferta e o custo do dinheiro, para a economia não parar. Seria desastre político para o presidente e adeus à candidatura da ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, à presidência em 2010.

Sob pressão da queda da indústria de 5,2% em novembro em relação a outubro, sinalizando encolhimento do PIB em 1% no quarto trimestre de 2008,  projetando desastres e consequente crescimento da oposição para disputar sua sucessão em 2010, o titular do Planalto, empenhado em sustentar a economia, para viabilizar a candidatura Dilma Roussef,  politizou o comando da economia. Equalizou opiniões de empresários e banqueiros, junto com o governo, para dar novo ritmo ao processo produtivo. Economia política preponderando sobre a política econômica.

A taxa de juro, portanto, de acordo com a estratégia de economia política, posta em prática pelo presidente, deixaria de ser formada, apenas, pela voz do BC , influenciada, diretamente, pelos banqueiros. Os empresários do comércio, da indústria e dos serviços foram chamados pelo presidente para sentarem à mesa, a fim de darem as cartas, também, em forma de opiniões e propostas decisivas.

Democratização em marcha da discussão sobre a formação dos custos de produção no país, para determinar o custo médio do dinheiro, a partir de janeiro, na tentativa, em meio à desestabilização global, de compatibilizar produção e consumo, de modo a estabilizar a taxa de emprego.

A pá de cal em cima do Copom, conforme se encontra, atualmente, estruturado, com viés  bancocrático privado, ficou explicita, quando, ao final da reunião histórica, o presidente do BC destacou, visivelmente, encismesmado diante das pressões, que reuniões como a exigida pelo presidente da República deverão se repetir todos os meses, por unir pontos de vistas comuns em busca de objetivo consensual. Politização da economia em marcha.


Banqueiros abalam Meirelles


O titular do BC, encurralado pelos bancos, abriu guerra contra os banqueiros. O presidente do Bradesco e diretor da Febraban, Marcio Cypriano, culpou o BC pelos juros altos. O presidente do BC devolveu o ataque na mesma proporção, ao destacar que os custos de intermediação bancária(spreds) no país são os reponsáveis pelo custo elevado do dinheiro. Ganha espaço a proposta do presidente da CNI, deputado Armando Monteiro Netto(PTB-PE), que , na Câmara, defende e presidente subcomissão de finanças dedicada à discussão dos spreds exorbitantemente altos.
Rachou-se o próprio poder bancocrático. Os donos do dinheiro acusaram a sua própria representação, ou seja, o BC, de culpada. Lavação de roupa suja. Acusações mútuas de responsabilidades ultrajadas. Meirelles se enfraqueceu, sensivalmente, porque o poder do BC foi colocado em dúvida.
Bancarrota da política economia, emergência da economia política.

Ficou evidente a impossibilidade de ser mantida a estrutura formal do Conselho de Política Monetária(Copom), constituído, apenas, de governo e banqueiros privados, para discutir a mercadoria mais importante da economia, a moeda.

Administrada, sem a participação dos agentes produtivos, comércio, indústria e trabalhadores, orientada tão somente do ponto de vista bancário, a moeda, da qual depende a produção e o consumo, de modo a produzir estabilidade econômica e política, submete-se a nova correlação de forças políticas dentro do governo de coalizão, em meio ao aprofundamento da crise mundial.

As decisões do Copom, de agora em diante, subordinam-se a uma discussão prévia, como a de quarta feira, em comitê mais amplo, englobando BC, banqueiros e agentes da produção. 

Faltou o representante  dos trabalhadores, que, certamente, reivindicarão presença nesse novo contexto da discussão econômica nacional, cuja expressão seria pacto social.

A autonomia do Banco Central, conforme a estratégia presidencial, deixa, pragmaticamente, de existir como algo absoluto, tornando, absolutamente, relativo.


Lula resgata Delfim e militares

Restabelece-se, pragmaticamente, com a decisão lulista, de clara interferência indireta, na autonomia do Banco Central, o antigo perfil do Conselho Monetário Nacional – CNM – , criado pelos governos militares, do qual participavam não apenas banqueiros, como hoje, mas, também, os representantes do comércio e da indústria. Com peso significativo da Federação das Indústrias de São Paulo – FIESP – , adquirido no tempo do milagre econômico delfiniano, quando a economia, puxada pela indústria, crescia 10% ao ano, nos anos de 1970, o CNM era o real poder econômico-financeiro da ditadura.

Os números da economia eram discutidos pelas partes – excluídos os representantes dos trabalhadores , na ocasião ditatorial- , quando então o BC segurava a taxa de juros ou a soltava, balançando os fatores em discussão pelos agentes econômicos, sintonizadamente.

Na prática, embora houvesse tremenda centralização de poder no comando da economia, sob os governos militares – Delfim Netto era considera czar da economia – , o resultado, visto pelo ângulo do funcionamento da economia em seu conjunto de fatores fiscais e monetários, agregados, soava mais democrático, inverso ao que passou a vigorar nos governos da Nova República.

Sob impacto da crise monetária dos anos de 1980, desencadeada pelo aumento de 5% para 17% da taxa de juro americana, em nome do combate à inflação, que desvalorizava o dólar, os governos neorepublicanos, bem como os governos da periferia capitalista, implodiram economicamente. A fuga de capitais impôs desvalorização braba das moedas capitalistas periféricas, cujo resultado foi inflação galopante, imposta de fora para dentro. 

As cartas da economia passaram a ser dadas não mais pelo Conselho Monetário Nacional, dos governos militares, mas pelo Consenso de Washington, informalmente um comitê de bancos privados internacionais, para enquadrar os países devedores, sob rígida ortodoxia monetária. 

Homeopatia econômica

O novo contexto ajustou-se aos interesses externos: abertura forçada da economia,  privatização de empresas estatais e bancos estaduais, restrição monetária via depósitos compulsórios elevados, política fiscal arrochada e juros altos para combater a inflação. Tudo em nome da formação de elevados superavit primários – receitas menos despesas, excluindo os juros – para garantir em dia o pagamento dos serviços da dívida interna e externa.

Internamente, os banqueiros se transformaram em gerentes da economia, garantidos seus resultados financeiros na Constituição. O artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, estabeleceu como causa pétrea a garantia do pagamento dos juros ao proibir que haja contingenciamento de recursos públicos destinados ao serviço da dívida. Neo-república bancocrática plena. Constituição bancocrática.

A crise mundial, que bloqueou o crédito internacional e secou as fontes de financiamento do desenvolvimento nacional, dependente, historicamente, da poupança externa, desde os anos desenvolvimentistas das décadas de 1940 em diante, obrigou o presidente Lula a uma reação anti-bancocrática, como necessidade de sobrevivência econômica e política.

Na semana passada, ele mandou para os ares os controles orçamentários, para fixar a capitalização do Fundo Soberano Brasileiro, aprovado pelo Congresso, que fixou limites para sua atuação. Diante dos empecilhos congressuais, decidiu capitalizar o fundo lançando títulos da dívida pública interna, a fim de fazer dinheiro  imediato. Ditadura estatal financeira oligopolizada contra a ditadura privada financeira igualmente oligopolizada.

Uma semana depois, ao mandar juntar todos os agentes econômicos para discutir os juros, o presidente faz nova intervenção na economia, à moda militar. 

Controvertidamente, tal intervenção pode se mostrar mais democrática do que a prática seguida até agora pelo BC, sob a cultura ortodoxa monetarista neorepublicana, fechada, anti-democrática. 

Paradoxo total: intervenção autoritária para abrir o debate fechado e autoritário conduzido apenas pelo  BC e banqueiros. Veneno de cobra contra veneno de cobra. Homeopatia econômica. 

O colapso financeiro global

 

Os concentradores financeiros “privados”, reais governantes das “democracias” e de suas dependências imperiais, usam o dinheiro como arma absoluta do poder. Maquiavel, o grande mestre da política, já verificara no Século XVI que o ouro e as armas são os meios de conquistar e exercer a autoridade política. Eles interagem: armas podem ser adquiridas com o ouro, que pode ser obtido através das armas. 
A moeda só tem valor como dinheiro se a autoridade o determinar. Na época do sábio florentino, os príncipes dotados de poder, asseguravam-no mediante a cunhagem de peças de ouro e de outros metais, as quais constituíam a moeda de curso legal.
Mas havia também, nas grandes praças financeiras da Europa, e entre si, intensa circulação de letras de câmbio. As bolsas negociavam ações de companhias, e alguns bancos emitiam notas. A família comerciante dos Medici, de Florença, após virar banqueira, em pouco tempo tornou-se dinastia real, mostrando como a finança conduz ao poder supremo.
Financistas prudentes advertiam que os títulos não deveriam corresponder a mais que 3 ou 4 vezes a quantidade da moeda, mas a relação chegou a passar de 15 vezes, em algumas épocas, na Holanda e na Inglaterra. 
A especulação é tão velha como o Mundo, mas não se deve pensar na finança apenas sob esse prisma: esta é necessária para complementar a moeda circulante, cuja escassez e pouca mobilidade emperram o comércio e os investimentos produtivos. Há que prover moeda e finança para o desenvolvimento da economia real. 
Questão fundamental é esta: quem controla a emissão de numerário (meios de pagamento à vista) e a dos títulos de crédito. Os detentores desse poder têm nele a fonte de seu poder sobre a sociedade. 
A eles se subordinam os presidentes e os primeiros-ministros das potências hegemônicas e os de seus associados menores e satélites. Assim, os Estados não estão sendo governados para o bem da sociedade. Ainda mais submissos são os pseudogovernantes dos países periferizados e explorados por meio do livre comércio, dos investimentos diretos estrangeiros e das demais instituições da globalização imperialista.

Oligarquia financeira domina governos

Os bancos centrais têm sido regidos pela oligarquia financeira, a raposa que controla galinheiros como o Banco da Inglaterra, há séculos, e o Federal Reserve (FED), nos EUA, desde sua criação em 1913. 
Como disse, após a criação do FED, Louis McFadden, membro do Congresso dos EUA, depois assassinado: “Um sistema bancário mundial vem sendo preparado. Um super-Estado controlado pelos grandes banqueiros internacionais, agindo em conjunto para escravizar o mundo para o seu prazer. O banco central usurpou o governo.”
Nos EUA quem emite e controla a moeda é o FED, feudo de um cartel de bancos privados. Não é o Tesouro. Kennedy autorizou-o a emitir papel-moeda, mas o decreto foi revogado por Lyndon Johnson, poucos dias após assumir a presidência em seguida ao assassinato de Kennedy. O Tesouro só emite títulos pagando juros.
Está, pois, claro quem emite e controla a moeda e o crédito e para favorecimento de quem. Os bancos, ademais das receitas com títulos públicos, auferem juros por meio de empréstimos a empresas e a pessoas físicas. O lançamento no mercado de títulos de empresas é outra fonte de ganhos. Esses títulos são objeto de vários tipos transações, como opções e swaps, e servem para criar derivativos e títulos colateralizados . Até índices de preços de ações e taxas de câmbio são securitizados. 
Além de receber taxas e comissões, os bancos buscam mais lucro investindo. Primeiro, com recursos do banco central a custo inferior aos juros auferidos pelos bancos. Segundo, emprestando múltiplos dos depósitos à vista livres do depósito compulsório no banco central. Terceiro, com as aplicações das empresas e de outros investidores.
Com tanto dinheiro, inclusive da coletividade, à sua disposição, os bancos, junto com os fundos, querem fazer render essa pecúnia. Ávidos de lucros e poder, criam montanhas de ativos financeiros maiores que o Everest.
Para esse fim e usando sua ascendência sobre os políticos, desmontaram os controles instituídos nos anos 30 em face dos terríveis problemas gerados pela especulação culminada em 1929. Foram formando outra bolha a partir dos anos 80. Grana é o combustível da ideologia (neo)liberal e da globalização comandada pela oligarquia. Não há ninguém limitando suas decisões: essa é a origem do colapso financeiro mundial. 

Titulos podres abalam capitalismo especulativo

Nos últimos vinte anos e, com mais velocidade, nos últimos dez, os ativos financeiros cresceram exponencialmente, em gritante desproporção com a inflação moderada dos ativos monetários. O estoque de títulos de crédito, inclusive derivativos, ultrapassa 500 trilhões de dólares, com grande parte de junk bonds (títulos podres). 
Essa quantidade é tão fantástica, que sua existência material seria impossível mesmo no plano simbólico, como a do papel-moeda, a dos certificados de títulos e a dos lançamentos em livros. Portanto, o atual dinheiro é virtual.
A enxurrada de transações financeiras e cambiais diárias envolvendo centenas de trilhões de dólares só se realiza através de supercomputadores. Grande parte para lavar dinheiro dos tráficos ilícitos: quanto mais movimentações, mais difícil retraçar a origem dos fundos.
David Roche, presidente da corretora Independent Strategy, de Londres, calculou que os ativos financeiros cresceram de 150% do PIB, em 1980, para 400%, em 2005, nos sete países do G-7. Mas não considerou os ativos desses países nos refúgios fiscais (offshore).
Segundo relatório do McKinsey Global Institute, os ativos financeiros no Mundo ultrapassavam 118 trilhões de dólares, no final de 2004. Mais que o dobro de 1993, e 10 vezes o total de 1980. Conforme a fonte, esses ativos correspondiam a três vezes o PIB mundial (em 1980 apenas o igualavam). A proliferação é, na realidade, muito maior, pois esses dados não incluem os derivativos, então estimados pelo BIS, em 278 trilhões de dólares. No 1º semestre de 2007, os ativos financeiros mundiais atingiram US$ 167 trilhões, aumentando 42% em relação a 2004, sem contar os derivativos.
A mega-inflação dos títulos financeiros foi acompanhada de estagnação na economia real, causada pelo baixo investimento na infra-estrutura e nas estruturas produtivas. Daí terem declinado os rendimentos e o emprego da classe média, desencadeando dificuldades para o pagamento de créditos em cima dos quais se criou a montanha dos derivados. A economia norte-americana foi estimulada por consumo a crédito, apesar de a maioria ter perdido renda real com a transferência em favor do segmento de 1% que, sozinho, detém 40% dela. 

Balanço do desastre financeiro

A inadimplência de devedores hipotecários detonou o colapso financeiro, mas a abrangência deste é muito maior, alcançando inclusive cartões de crédito e empréstimos de empresas. O sistema financeiro abusou da conversão de dívidas em títulos (securitização), classificando débitos sub-prime como AAA. Para 1 dólar em hipotecas, havia 3 em títulos. 
A implosão tornou-se evidente quando Merrill Lynch e Lehman Brothers suspenderam a venda de colaterais que arrestaram dos falidos fundos hedge do Bear Stearns, por só conseguirem ofertas de 20 centavos por dólar de valor nominal.
Em julho de 2007, alastrou-se a quebra das hipotecas sub-prime. O IKB, da Alemanha foi salvo da falência por um consórcio de bancos desse país, com empréstimo de emergência de US$ 11 bilhões. Houve também a corrida bancária ao britânico Northern Rock.
O colapso já acarreta modificação estrutural no fluxo internacional de capitais. Até agosto de 2007, investidores fora dos EUA compravam mais do que vendiam títulos do governo e de corporações privadas dos EUA. Naquele mês o fluxo tornou-se negativo. Apesar de ter havido recuperação, especialmente em outubro, a média de agosto a novembro (US$ 52,1 bilhões) foi menos que metade da média de janeiro a julho (US$ 113,1).
Nos títulos de longo prazo, as vendas líquidas por estrangeiros foram US$ 86,6 bilhões, em agosto; de janeiro a julho ainda houve compras líquidas de US$ 461,5 bilhões. Só se manteve a procura por notas do Tesouro de curto prazo (até 180 dias). 
Importante: a partir de outubro, parte substancial dos ingressos de divisas nos EUA provém do socorro por fundos soberanos da Ásia e do Oriente Médio, que adquirem títulos conversíveis em ações de bancos dos EUA. Em novembro, ações ordinárias do Citigroup foram compradas pelo fundo soberano de Abu Dhabi, no valor de US$ 7,5 bilhões.
O Citigroup, maior banco dos EUA, registrou, em 15.01.2008, o maior prejuízo de sua história e vendeu ações preferenciais por US$ 14,5 bilhões ao Temasek, fundo nacional de Cingapura. Captou também da Autoridade de Investimentos do Kuwait. Ao todo, US$ 26 bilhões desde o início do colapso. A Merrill Lynch recebeu, em janeiro de 2008, U$ 6,6 bilhões da Companhia de Investimentos da Coréia, da Autoridade de Investimentos do Kuwait e de outros, além de US$ 6,2 bilhões obtidos em dezembro. 

Governos suportarão inflação de papel podre?

O gigante suíço UBS teve prejuízo no 3º trimestre de 2007, decorrente da baixa (write-down) de 3,4 bilhões de dólares em títulos ligados aos mercados sub-prime dos EUA. No 4º trimestre, baixa de mais $10 bilhões. Então levantou US$ 17,6 bilhões: participação de 9% do governo de Cingapura no capital do banco e recursos de investidor não divulgado do Oriente Médio.Estimam-se em US$ 100 bilhões de dólares as recentes injeções de dinheiro em bancos estadunidenses e europeus, por fundos nacionais e investidores de Abu-Dabi, Kuwait, Dubai, Arábia Saudita, China, Cingapura e Coréia do Sul. Também ganham vulto cada vez maior as operações de resgate por parte dos bancos centrais para que os bancos não ponham à venda os ativos podres, o que faria despencar seu valor de mercado. O FED despejou, várias vezes, dezenas de bilhões de dólares em bancos dos EUA nos últimos meses de 2007. No dia 18.12.2007 o Banco Central Europeu, o FED e o Banco da Inglaterra socorreram bancos do continente europeu e ingleses com US$ 548 bilhões. Estão atiçando a inflação, sem lograr sanear os bancos.

Observadores calculam que mais de US$ 1 trilhão de ativos já ficaram sem valor nos últimos meses. A bolha pode atingir US$ 20 trilhões, segundo o Serviço de Notícias da Executive Intelligence Review. 
Tudo isso é escondido dos olhos do grande público. A oligarquia responsável pelo colapso pretende fazê-lo pagar por este. Ilustração tragicômica é esta nota, em destaque no portal do Tesouro dos EUA: “Os EUA têm o mercado de capitais mais forte do Mundo, e essa posição é conseguida através de trabalho duro e estratégias inteligentes.”
O economista-chefe do banco de investimentos Goldman & Sachs teve de admitir: “Muita coisa mudou desde meados de julho, quando dissemos que a economia global continua a desfrutar de uma das mais fortemente sustentadas expansões na história moderna”. Daniel Mudd, executivo-chefe da Fannie Mae, importante instituição hipotecária dos EUA, declarou:“o pior da crise ainda está por vir, pois o mercado não chegará ao fundo antes do final de 2008.”

 

Conclusão
Os efeitos irão além da recessão em curso nos EUA. Virá a depressão, e já está difícil ocultar a natureza fraudulenta do sistema mundial de poder. Por ficar atrelada a este, a sociedade brasileira foi sacrificada demais e tolhida em seu desenvolvimento. O Brasil progrediu nos anos 30 e 40, ao cair o comércio internacional por causa da depressão nos países hegemônicos. Está na hora de o País organizar-se, controlar os capitais e desconcentrar a estrutura econômica.

* – Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. benayon@terra.com.br

Falcões impõem guerra a Obama

Despertar trágico do ano novo. O seu perfil essencial está sendo dado pela guerra-massacre aprofundando-se entre Israel e Palestina, na Faixa de Gaza, Oriente Médio, sinalizando tensões globais. Não se pode desvinculá-la de um contexto que se forma pelos próprios interesses que o compõem, no sentido de afirmar sua necessidade para o capitalismo em sua fase atual de desenvolvimento histórico em crise total.

Esse contexto tem a guerra como conteúdo essencial indispensável à reprodução do capital, como demonstrou a história ao longo de todo o século 20, relatada no excelente livro “Capitalismo global – História econômica e política do século 20”, de Jeffry  A. Frieden, Zahar, 2008.

Os falcões da guerra estão alvoraçados sem saber direito que perigos a bancarrota capitalista em curso, nos Estados Unidos e Europa, reserva aos interesses que preservam, ou seja, os interesses da economia de guerra. De qualquer forma, mandam seu recado ao presidente eleito Barack Obama de que tendências ao pacifismo internacional por parte dos Estados Unidos, sob governo democrata, poderia custar caro aos seus patrocinadores.

Obama se candidataria a ser novo Kennedy, para desarmar o complexo do estado industrial militar norte-americano, cujos designos tenebrosos foram levantados pelo ex-presidente Eisenhower, em 1960?

O conflito sangrento, que condena a inteligência humana, como destacou o escritor judeu, A.B Yehoshua, em entrevista ao Globo, representa o produto final de uma linha de montagem industrial. Ela envolve investimentos alavancados pelo estado capitalista que passou a depender, como previu Marx, não mais da produção das mercadorias produtivas, mas, fundamentalmente, da produção das mercadorias destrutivas, na guerra.

Tal essência emerge brutalmente no Oriente Médio no raiar de 2009, como alerta aos democratas americanos vitoriosos com Obama, cuja promessa de campanha foi a de acenar para a paz e abrir diálogo com os islâmicos, a começar pelo Irã, aliado do Hamas, pregadores da destruição de Israel, aliado das forças armadas americanas.

O adversário de Obama, John MacCain, diante da promessa obamista, destacou que ele estaria estendendo as mãos aos terroristas que destruiram as torres gêmeas em setembro de 2001.

Antes que o primeiro presidente negro eleito dos Estados Unidos efetive sua promessa eleitoral, os falcões da guerra se anteciparam, agindo por intermédio das forças armadas de Israel, detonando bombas contra os que consideram terroristas,  os integrantes do Hamas, pouco relevando que se trata de movimento político democraticamente escolhido pela população palestina  na Faixa de Gaza, com discurso radical contra os judeus.

Sua pregação, naturalmente, bateu bem como expressão dos protestos às péssimas condições de vida em que vivem 1,5 milhão de pessoas espremidas, como sardinha na lata, numa extensão territorial de 42 km de comprimento por 12 km de largura – ou seja, um distância do Plano Piloto a Taguatinga, ladeada pelas vias EPTG e Estrutural. Um curral no qual inexiste liberdade de ir e vir, com as atividades essenciais – comércio, desenvolvimento, investimentos, enfim, produção, consumo e empregos, educação, saúde – todas controladas pelos judeus, mediante ditadura militar.

Nesse limitado espaço geográfico, de maior concentração humana do planeta, a indústria armamentista americana, por meio das forças armadas de Israel, exercita seus últimos lançamentos, que constituem a dinâmica em movimento da linha de montagem científica-tecnológica-produtiva que mistura grandes indusriais, grandes banqueiros, poderosos generais, governos obedientes e um pensamento conservador utilitarista ideologicamente construído ao longo do século passado, para justificar sua própria lógica de existência essencial à promoção da reprodução e acumulação capitalista.

 

 

Precisão total no ataque

 

Os moderníssimos foguetes GBU-39, leves, 113 quilos, adequados ao bombardeio subterrâneo, com autonomia de 110 km, disparados a 20 km, monitorados por GPS digital, teleguidos por satélites, garantem , praticamente, 100% de eficácia para atingir o alvo, com precisão quase cirúrgica, como destacou Roberto Godoy, especialista em armamentos, na TV Estadão.

As armas modernas americanas, adquiridas por Israel, competem, desproporcionalmente, com as armas do Hamas, de precisão incerta. Dos 40 foguetes Qassan, mísseis primitivos, disparados na sexta, 26.12, somente um acertou, em terreno judeu, numa casa isolada, matando uma pessoa, sacrificada, talvez, por azar. Ou seja, eficácia quase zero, em comparação à precisão armamentista israelense.

Os palestinos, portanto, trabalham como cobaias para o Pentágono. Por intermédio do poder judaico, sustenta estrutura produtiva guerreira que representa alavanca mundial de vendas das produções armamentistas, a partir de Israel. Geopolítica da guerra.

A Boeing Company, que lançou os foguetes GBU-39, para serem apresentados como atratividade mundial, causando escândalo e revolta social, nas principais capitais do mundo, nos últimos dias, depende,  mais do que nunca, do mercado de guerra, no qual floresce o complexo industrial militar.

A preservação do Oriente Médio como palco da guerra, para atuar como bombeamento de tensões, que se espraiam para outras geografias, representa mecanismo essencial de reprodução do capital, alavancado pelos gastos do governo.

A mobilização guerreira, como arma de combate às agressões ao status quo guerreiro por forças do Hamas – grupo radical de resistência islâmica -cujas energias revolucionárias brotam em terreno fértil em meio a uma população, social e economicamente, segregada, como se estivesse no campo de Auschwitz, obede a uma cientifica formulação política fundamentalmente utilitarista. Diante de um nação sem estado soberano, dominada pelas tendências políticas radicais terroristas – que perdurarão enquanto não se efetivar o Estado da Palestina -, o utilitarismo guerreiro caracteriza a oposição de um não-estado a sua política como manifestação marginal.

Da marginalidade ao terrorismo é questão de semântica construída nos laboratórios da propaganda política guerreira, ao sabor dos interesses da guerra.

 

 

Golias engole Davi

 

O estado de espírito da guerra tornou-se, para o complexo estado industrial militar norte-americano, fundamental, porque representa fonte de renda tributária para o governo continuar sustentado tal complexo como organismo que se alimenta de si mesmo. Um conceito na construção dialética do si por si mesmo.

A produção da indústria armentista – bélica e espacial -, que tem o estado como consumidor de mercadorias produzidas para a guerra, adquiridas por moeda estatal sem lastro, que entra na circulação, dinamizando a produção e o consumo, tornou-se indispensável para o capitalismo como atenuador das contradições do próprio sistema.

A guerra, que aumenta a produção sem aumentar a oferta – quem consome guerra não é o consumidor comum – , atua como fator antíclico para contornar as crises capitalistas, caracterizadas, essencialmente, por acumulação excessiva de capital, cronicamente, tendente à deflação.

Vestindo o perfil anticiclico das crise do capitalismo, as guerras, bancadas pelos gastos do governo, em nome da destruição, repreenta salvação por sua própria negatividade, na medida em que produz ineficiência necessária, para equilibrar-se com o excesso de eficiência acumulada pelo setor privado, como disse Malthus. No ritmo da ciência e da tecnologia, os empresários elevam  exponencialmente a produtividade, jogando os preços para baixo, sinalizando deflação, quanto mais acumula o capital podutivo.

Os Estados Unidos, com a sua sofisticação tecnológica, desenvolvida no departamento bélico e espacial, para produzir ineficiências cientificamente programadas, precisam fortalecer, em Israel o Golias, para enfrentar Davi. Produção que gera renda para consumo compensatório à diminuição do consumo privado, afetado pela crise de crédito. Nesse jogo, não tem dado outra; Golias massacrra Davi. A história bíblica está permanentemente sendo negada na sua representação imaginada pelo incorrigível romantismo humanista.

 

 

O capital vai à guerra

 

O Estado, como consumidor necessário, com sua moeda estatal sem lastro,  para dar suporte à economia de mercado, tendente ao colapso, representa, como disse Keynes, a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, na medida em que tem a autonomia para elevar quantidade da oferta de moeda na circulação capitalista.

Outra coisa não faz o presidente Lula, quando, enfrentando a oposição, engorda o Fundo Soberano Brasileiro com emissão de títulos da dívida pública, que se monetizam no mercado.

O autor de “Teoria Geral do Juro e da Moeda”, não brincou em serviço, ao perceber que a economia de guerra dinamiza o capital: “Duvido que o governo seja capaz de elevar seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer a sua força” , disse o grande economista em artigo no jornal “New Republic”, em 1941, segundo relata Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”. Roosevel captou o recado e mandou ver nos gastos do governo para tirar o capitalismo americano da crise de 1929.

Portanto, 2009, 80 anos depois do crash de 29,  começa com o recado da guerra como fator indispensável à reprodução do capital, principalmente, no momento em que o sistema entra em bancarrota, obedecendo à predição de Marx, de que as possibilidades do socialismo somente aconteceriam onde estivessem plenamente desenvolvidas as forças produtivas.

Tal desenvolvimento, no seu limite, produz, segundo o autor de O Capital, a contradição entre o desenvolvimento das relações sociais da produção , de um lado, e o das forças produtivas, de outro, fazendo emergir destruição tanto do capital como do trabalho via deflação.

Alguma dúvida de que esse mal ataca, no momento, a economia dos países capitalistas desenvolvidos? Onde, senão na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, tais condições pre-concebidas por Marx se encontram, plenamente, maduras?

Interessariam aos falcões da guerra o avanço da discussão socialista, no rastro da debacle financeira capitalista, senão como fator de estímulo ao rearmamentismo guerreiro de resistência? 

A indústria da guerra emergiu justamente para evitar o amadurecimento das condições que levam ao socialismo, segundo a tese marxista.

 

 

Limites estreitos para agir

 

Barack Obama pilotará uma conjuntura altamente explosiva, se a desaceleração econômica ganhar força auto-destrutiva, nos próximos meses, temor de muitos especialistas. Poderia, pressionado pelo Pentágono, redobrar sua aposta na pregação de Keynes, cuja essência é aumentar a produção de não-mercadorias, ou seja, a guerra, produtos bélicos e espaciais.

A Secretária de Estado do presidente eleito, senador Hillary Clinton, será a voz da guerra ou da paz?

O grande repórter inglês, Robert Fisk, do Financial Times, disse que escarafunchou todos os discursos de Obama até agora e não viu nenhum indício de plano para a paz no Oriente Médio. Apenas vagas referências à disposição de criar ambiente para aprofundamento do diálogo… Puro éter.

Como Obama priorizaria a paz , se só a agressão imperialista ao Iraque rendeu gastos públicos de cerca de 10 trilhões de dólares para dinamizar o complexo industrial militar norte-americano, segundo o economista Josef  Stiglitz, prêmio nobel de economia?

A guerra fria, que se estendeu dos anos de 1950 até final dos 80, jogou na circulação capitalista 15 trilhões de dólares, segundo o Instituto Pew, admirado por tal fenômeno não ter sido considerado pelos economistas, no período, como fator fundamental da praxis da macroeconomia capitalista.

Não fosse esse dinheirão todo, expresso em emissão monetária, que implodiu o padrão-ouro, nos anos de 1970, os Estados Unidos não teriam cumprido a previsão de Keynes, de que Tio Sam conheceria sua própria força se apostasse todas as suas fichas na economia de guerra. O estado industrial militar é o produto final da pregação keynesiana, como destaca Lauro Campos, em “A crise completa – Economia política do não”(Boitempo, 2002).

 

 

Jogo do engana que gosto

 

O avanço da guerra no Oriente Médio significa a garantia da preservação dos interesses do estado industrial militar americano. O resto é ficar na marolinha de fixar responsabilidades em torno da questão de (falta de)  princípio quanto a quem, nesse momento, começou a jogar pedra um no outro. Jogo do engana que gosto.

Exime-se da questão de fundo, ou seja, da existência de um contexto social, econômico e político, no qual se insere o conflito árabe-judeu, no laboratório explosivo da indignidade humana que se realiza na Faixa de Gaza.

Tal estrutura produtiva guerreira , para os palestinos, representa uma agressão permanente, porque produz, na Palestina, a falta total de perspectiva para a população, engaiolada sob experimentação de cientistas que testam armas de última geração contra armas obsoletas.

Encurralados, sob agressão, os palestinos se exercitam psicologicamente para o revide à castração da sua identidade como povo. Tudo se transborda em doses cada vez mais radicais, como comprova a preponderância do discurso do Hamas como expressão da maioria palestina.

Se eles se sentem agredidos permanentemente, sem liberdade para o comércio, para a cultura, para a política, para se organizar nos moldes da civilização, os foguetes lançados pelo Hamas  representam, evidentemente,  revide à essa permanente agressão, em forma de expansão das colônias judaicas sobre o território alheio e de escaramuças diárias contra a população na sua tentativa de afirmar o que não possui, o direito de ir e vir.

Isola-se a agressão, como fator em análise, não como fruto de uma conjuntura construída, historicamente, mas como se fosse fenômeno exterior à realidade, com vida autônoma, abstrata.

 

 

Senhora da guerra ou da paz?

 

A impossibilidade de os palestinos conquistarem o Estado Palestino, assim como aconteceu com os judeus, até antes de 1948, quando, com apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, principalmente, conquistaram o Estado Judaico, impõe-se como fator positivo para a indústria de armas.

Ela significa fogo de resistência palestina à indignidade humana que mantém o clima de guerra propício à reprodução do complexo industrial militar em escala global.

Sem se constituir em estado, a nação palestina, do ponto de vista da civilização organizada pelo direito positivo ocidental, simplesmente, inexiste.

Na marginalidade do concerto das nações, no mundo atual, a expressão política palestina torna-se essencialmente marginal, portanto, ilegal, enfim, terrorista.

Manter o clima de exclusão da nacionalidade, imposto pela conjuntura de guerra, germina, aos olhos dos falcões da guerra, semente terrorista, oxigênio para sobrevivença da estrutura produtiva e ocupacional guerreira em Israel.

Obama recebe o duro recado: se for falar com o Irá, que arma o Hamas, estará dando um tapa na cara do complexo industrial militar americano. Hillary Clinton, secretária de estado do governo obamista,  iria a Teerã ou ficaria, apenas, no circuito Washington-Telavive?