Alienação da grande mídia nacional

César Fonseca

A grande imprensa, como sempre, no seu tradicional farisaísmo ideológico, fica na aparência. Recusa ir à essência. O caso da inflação é típico. Jornalões, tevês e rádios vão na onda da fantasia ideológica.

Por que a inflação sobe?

Marx disse que é preciso acompanhar a trajetória do capital para entender os designos do próprio capitalismo. As crises capitalistas, segundo ele, estouram não na periferia, mas no centro, graças à sobreacumulação do capital. Já, naquela, o capital, acrescenta,  representa instrumento de dominação interrnacional.

Num primeiro momento, dinamiza a produção; num segundo, graças às contradições que desencadeia, gera insuficiência relativa de demanda global, cujo resultado é o juro alto como preço pelo risco crescente.

É como, outro dia, disse a mesma coisa o repórter Cláudio Humberto, num comentário na Rádio Bandeirante: querem saber o caminho da corrupção? Siga, disse, o roteiro do dinheiro. Parece que é preciso fazer a mesma coisa com a inflação, em termos históricos.

Para não ir muito longe, melhor é ver o que ocorreu, recentemente. Há seis meses, mais ou menos, os governos árabes deram um alerta. Não daria, segundo eles, para suportar a alta de preços dos alimentos que estariam importando da Europa. Os produtos alimentícios europeus, cotados em euro, exigiam desembolsos em dólar em escala ascendente.

Sendo o petróleo árabe – e todo o óleo negro produzido no mundo – cotado na moeda americana, claro, os governos dos países produtores de petróleo passaram a desembolsar mais dólares para comprar a mesma quantidade de comida importada expressa na moeda européia.

Que fazer? Produzir mais petróleo, aumentando a quantidade do produto, entregando mais barris, para pagar o mesmo ou menor montante de alimentos valorizados em euro, para suportar a sangria imposta pela moeda desvalorizada, o dólar? Ou, ao contrário, subir o preço do barril de petróleo, para compensar o prejuízo? Até um jegue saberia responder tal jogo de compensação monetária.

O ouro negro, sendo útil, necessário, objeto de desejo fundamental da industrialização mundial, impôs seu preço, porque a demanda sobre ele é maior do que a oferta disponível.

Os árabes, desde 1973, já sabiam disso, depois que criaram a OPEP, o cartel do óleo.

Desde então, passaram a impor seu preço, numa situação mais ou menos semelhante à atual.

Naquela ocasião, os Estados Unidos, apertados com suas despesas, maiores do que as receitas, emitiam moeda sem lastro para sustentar a guerra fria, de um lado, e a guerra do Vietnam, de outro, ambas ligadas pelo sentimento do choque ideológico – comunismo versus capitalismo.

Os preços pularam. A inflação internacional explodiu. A Casa Branca, diante das pressões dos países que tinham suas reservas em dólar amarradas ao ouro, desvinculou um do outro, para não ver o gigante americano ir à garra. Os países pobres dançaram. Beiço geral de tio Sam na praça. Calote americano pode; dos demais desgraçados, não.

A capacidade de suportar déficits elevados, até então, era enorme, por parte da banca de Tio Sam. A moeda americana tinha, ainda, a confiança do mercado. A especulação financeira global não desandou, irremediavelmente.

Agora, são outros quinhentos. As finanças americanas, com um deficit ao redor de 7% do produto interno bruto, da ordem de quase 14 trilhões de dólares, e de um endividamento total três vezes superiores ao PIB, em meio aos escombros da economia de guerra, sustentada pelo endividamento público interno incontrolável, revelou que o buraco é mais embaixo.

Se o mundo não se abalou, para valer, em 1973, quanto à saúde do dólar, quando os árabes pipocaram para cima o preço do petróleo, em 2008, o mesmo não ocorre. Trinta e cinco anos depois de sangrias intensas, o capitalismo de guerra, bancado pela emissão monetária sem lastro, não é mais aquela brastemp.

O mercado não vê com os mesmos olhos o panorama econômico internacional, tendo o dólar como equivalente universal, justamente, porque a continuidade do déficit americano, num ambiente de estresse especulativo mais potencializado, representa risco mil vezes superior. Por isso, colocou as barbas de molho.

Tal gesto, depois da criação da União Europeía e da emergência do euro, a partir dos anos de 1980, intensificou, no sentido, de aumentar as desconfianças relativamente à saúde da moeda americana, abalada, após a “exuberância econômica irracional”(Alan Greesnspan) dos EUA, nos anos de 1990.

Por que? Simples. A sobreacumulação de capital sinalizou impossibilidade de reprodução dele na produção, sendo possível, tão somente, na pura especulação, nos anos de 2000 em diante.

A crise imobiliária presente, que abalou a estrutura do sistema bancário mundial, é o climax de uma série de crises especulativas que se superpuseram umas às outras, inaugurando o que os economistas canadenses chamam de emergência do capitalismo de desastre.

Sua tônica é o desgaste consequente da confiança mundial no dólar e, igualmente, na capacidade de os Estados Unidos, mediante endividamento público keynesiano,
continuarem a suportar o jogo da divisão internacional do trabalho, inaugurado em 1944, em Bretton Woods, no pós-guerra.

Os déficits americanos bancariam a dinâmica capitalista global, graças emissão monetária deslastreada, enquanto a produção bélica espacial, suportada por tal emissão, daria segurança à democracia representativa contra o avanço do comunismo.

Essa armação geopolítica-estratégica-global, depois de vigorar por 64 anos, na base da ampliação da dívida pública interna – instrumento, segundo Keynes, de combate à inflação, na medida em que cresce no lugar dela, inflação – estressou-se diante dos olhos ávidos e desconfiados do mercado.

Incapazes de continuarem acreditando eternamente nas possibilidades financeiras da nova Roma de bancar o mundo, dependurando a conta no permanente cabide do fiado, os especuladores arrepiaram.

A moeda americana, nesse contexto de elevação irresistível da dívida pública interna, perdeu o fôlego e, diante da desconfiaça do mercado, deixou de ser – primeiro, aos poucos, depois, mais rapidamente – referência internacional única para fixar os termos de trocas cambiais nas relações comerciais globais.

A perda nos termos de troca vigentes entre o dólar, que cota o preço do petróleo, e o euro, que cota as mercadorias importadas pelos árabes, é a prova evidente. Se antes, dada sua força e credibilidade, impunha deterioração nos termos de troca, para garantir lucratividade na senhoriagem monetária, na relação com as demais moedas, diante do desgaste financeiro e da desconfiança generalizada, a moeda americana passou a não mais impor perdas, mas a sofrer perdas.

O preço do óleo negro sobe, portanto, como forma de compensação, exercitando, no caso, sua condição intrinsecamente monetária, em resposta à desvalorização acentuada do dólar, em decorrência dos deficits americanos.

Vale então a pergunta: o que ocorre no momento é um choque inflacionário global produzido pelo preço do petróleo ou pela decadência financeira do capitalismo americano, com o dólar tatibitate?

Como a agricultura americana teve seus custos elevados, por consumir muito derivado de petróleo, assim como explodiram os preços dos fretes, puxados pelo diesel, cuja cotação extrapolou, o governo buscou, no sufoco, substituir petróleo por etanol produziido do milho. Vale dizer, sobrou menos milho para a alimentação, cujo preço, também, explodiu.

Parece, então, que foi o preço do petróleo que gerou a desgraça toda, mas não é. Ele é o efeito, não a causa.

E a grande mídia, em meio ao fenômeno aparente, que diz? Nada. Melhor, enche páginas e páginas, para dedicar-se à aparência, sem mergulhar na essência.

Ela não suporta mergulho muito fundo. Ficaria sem ar para voltar à tona. Prefere acompanhar, mecanicamente, as formulações neoliberais, moralistas. Mantem-se na superfície, porque sua existencia requer a própria superficialidade.

O suicídio do Congresso

César Fonseca


O enterro da CPI dos cartões corporativos representou o funeral do próprio Congresso, que se suicidou, ao renunciar, olimpicamente, as suas próprias prerrogativas. Os congressistas não jogaram com a dialética, porque estão dominados pelo pensamento mecanicista, bancário, jurista, que, como dizem os mineiros, cultiva os juros.

Não condenaram as práticas altamente condenáveis, nem tampouco tiveram a coragem suficiente para destacar que os cartões corporativos, filhos da tecnologia da informação, são, evidentemente, um avanço ético na convivência republicana.

No mundo da moeda de plástico, em que o poder monetário é fictício, construído sobre a moeda sem lastro – desde a grande crise de 1929 – os cartões de crédito significam avanço no plano da transparência e, igualmente, dos abusos, por parte dos que metem a mão no bolso para gastar dinheiro dos outros, dos contribuintes.

Ocorreram os abusos? Sim, demais. Publicamente, reconhecido e comprovado, o poder, em Brasília, é excessivamente gastador e agride a consciência moral da cidadania, quanto mais avançam as informação que formam opinião. Mas, os poderosos, como as práticas abomináveis têm demonstrado, não estão nem aí. Se safam, agora, nas CPIs.

Os abusos nos gastos não foram punidos, os acusados se salvaram e os atos de espionagem e sabotagem política ficaram por isso mesmo. Carnaval e Quarta Feira de Cinzas, tudo junto.

O governo se ancorou na sua prerrogativa de não informar sobre os gastos secretos da administração lulista com os cartões corporativos. Teriam bancados excessiva mordomia de filha do presidente, que estuda na capital catarinense? Não foi, por isso, possível comparar com as informações vazadas pelos gastos desnecessários do governo FHC.

O vazamento foi provocado pelo fogo amigo – que tenta detonar a ministra Dilma Roussef, agora, novamente, alvo de escândalos na venda super-faturada da Varig para a Gol – ou por forças oposicionistas incrustradas dentro do governo, na base da vida no mundo de 007?

O fato é que o essencial foi ao ar, ou seja, os números dos abusos de gastos com cartões corporativos. Imagine antes quando a moeda utilizada não era a de plástico, mas notas fiscais sub ou super faturadas, para conveniência do infrator?

As evidências dos abusos comprovaram a imoralidade republicana nos gastos do poder neorepublicano. O que disse o relatório do deputado Luiz Sérgio(PT-RJ), para dar conta dos trabalhos da CPI à sociedade? Não disse, escondeu o fato.

A oposição, igualmente, não saiu bem na fita, sem força moral. Não se revelou com suficiente fôlego para a bataqlha, criando fatos para discussão do assunto diretamente com a sociedade. Deixou no ar que tinha alguma cumplicidade com o vazamento do dossiê – que a ministra da Casa Civil, acusada de construí-lo, para chantegear FHC, disse ser banco de dados. Ficou parecendo que o episódio do vazamento se deveu às artes das cortes sheakespeariana, onde todos são coniventes.

A oposição se negou a questionar, para valer, um dos seus membros, o senador Álvaro Dias(PSDB-PR), cujo assessor parlamentar recebeu de um funcionário da Casa Civil, o famoso dossiê.

Os governistas e oposicionistas renunciaram às suas prerrogativas constitucionais. Os governistas se recusaram a condenar práticas abusivas, enquanto os oposicionistas jogaram panos quentes sobre a espionagem. Repetiram comportamento adotado na era FHC, quando evitaram investigar compras de votos para aprovar emenda da reeleição. Governo e oposição, tudo a ver.

Falência das CPIs

O instrumento político constitucional – Comissão Parlamentar de Inquérito(CPI) -fortalecido pelo Constituição de 1988, recebeu extrema unção sob a governabilidade provisória neorepublicana.

Ficou demonstrada  sua inutilidade. Negou a lei maior do capitalismo, ancorado na ideologia utilitarista. “Tudo que é útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”(Keynes). O Congresso declarou não ser verdadeiro por ter deixado de ser útil, algo reconhecido pelo seu presidente senador Garibaldi Alves(PMDB-RN).

Os congressistas brasileiros, reféns das MPs, renderam-se, completamente, ao pensamento mecanicista, anti-político. Perderam, na análise dos cartões corporativos, conforma demonstra relatório do deputado Luiz Sérgio(PT-RJ), a capacidade essencialmente político-congressual de trabalhar os contrários, tratando a realidade do ponto de vista dual, interativo, reagente, transformador, dialético.

Comprovaram que os próprios partidos estão em xeque. Canais por onde os antagonismos e contradições se realizam dialeticamente, sob ambiente democrático, as agremiações partidárias foram enterradas pelo pragmatismo das MPs, expressão da negação político-parlamentar, que inviabiliza o contraditório, ou seja, a democracia. A essência neorepublicana se mostra essencialmente anti-democrática.

Nesse ambiente, os congressistas, no comando das CPIs, viciaram-se na corrupção produzida pela intermediação de recursos parlamentares por meio de emendas ao orçamento da União, cujas aprovações dependem dos favores do Executivo ao Legislativo.

Suas posições, nas CPIs, subordinam-se não à moralidade pública, mas ao atendimento dos interesses que estão por trás de suas emendas legislativas nem sempre morais.

O Legislativo demonstrou ser subordinado ao Executivo na produção de relatórios que analisam o comportamento do Executivo. O gesto dos congressistas comprova que, no Brasil, mediante as medidas provisórias, o Executivo legisla e o Legislativo executa. Inversão geral de papéis. O conteúdo do relatório nega a essência da atividade parlamentar.

Os governos neorepublicanos, imobilizados pelo excessivo endividamento, exercitaram, com as medidas provisórias, a fantasia terceirumundista da democracia parlamentar – erguida historicamente como representação política do capital – sem dispor da democracia econômica.

O carater imediatista da governabilidade provisória criou, ao longo da Nova República, o desvio do caráter constitucional do Legislativo frente ao Executivo, sob o domiínio de uma política econômica ditada pelos credores, maiores beneficiados por mais um aumento de 0,5 pontos percentuais na taxa de juro, na última semana, em nome do combate à inflação.

O imediatismo provisório é o pai do relatório final da CPI dos cartões corporativos e o mentor do pensamento mecanista neorepublicano no balanço do juro real mais alto do mundo, bancado pela provisoriedade neorepublicana.

A sala, a cozinha e a dependência de empregados

Laurez Cerqueira

A violência no Brasil permanece latente nas relações sociais, no “nós e eles” do centro e periferia, entre morro e asfalto, no trabalho, com a exploração patronal, na arquitetura das residências, onde os brancos se acomodam nas salas, e a cozinha e a dependência de empregados continua senzala.

Maio passou como uma lâmina no tempo. Foi-se, e com ele o esquecimento de que em 2006 o ódio rompeu as entranhas da cidade de São Paulo, se espalhou por ruas e cidades do interior pedalando as estatísticas da violência, como uma centelha que escapou do ranger de dentes de detrás das grades dos presídios. O sangue escorreu pelas calçadas de ruas e praças paulistanas. Delegacias, edifícios públicos e bancos alvejados por integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ônibus arderam em chamas. Ao todo foram contabilizadas 293 ocorrências em todo o estado. Morreram 152 pessoas, das quais: 107 criminosos, 41 policiais ou agentes de segurança e 4 civis.

Os paulistanos que movem a poderosa máquina da produção e consumo viram que São Paulo pode parar. Aquele rapaz ou aquela moça na esquina, ou qualquer um que cruzava a multidão anônima da cidade, poderia ser da organização criminosa. Esse terror acossou corações e mentes. Assim viveu São Paulo, a meca do capitalismo selvagem brasileiro, o drama de estar refém do crime organizado. Os nova-iorquinos sentiram algo parecido quando foram acordados do “sonho americano” pelos estrondos do choque dos aviões com as torres gêmeas, no 11 de Setembro.

Há muito tempo, nos piques e repiques da crise econômica e social, as ruas de São Paulo carregam tensões altamente explosivas. Uma pedrada num vidro de uma loja num momento de ira popular poderia desencadear um distúrbio de proporções inimagináveis. Assim vive a metrópole que pulsa no ritmo frenético do trabalho e da busca de poder e dinheiro como fetiches, contradições próprias da sociedade da desigualdade e da opressão. Os ataques aos edifícios públicos e aos bancos foram sintomáticos. O Estado, representado pela organização jurídico-policial opressora e protetora de privilégios de classe, e os bancos frutos maiores da acumulação capitalista.

Esse conflito latente sempre existiu, mas costuma ser tratado com indiferença, em geral pelos governantes e pela sociedade. No mais recente ciclo de industrialização do Brasil, São Paulo concentrou o maior número de poderosas empresas industriais e atraiu o maior contingente de pessoas no fluxo migratório campo-cidade, nas últimas décadas, onde vive uma multidão em condições sub-humanas a disputar as migalhas da mais poderosa elite do país. Em entrevista à imprensa, naqueles dias de pânico, o ex-governador Cláudio Lambo deu uma declaração surpreendente, como que acordado de um pesadelo. Disse: “nós temos uma minoria branca muito perversa”. “A bolsa da burguesia vai ter que ser aberta para sustentar a miséria social brasileira, no sentido de haver mais emprego, mais educação, mais solidariedade, mais diálogo e reciprocidade de situações”.

Claudio Lembo é um homem de formação intelectual sólida, conhece bem os problemas brasileiros, apesar de aliado a forças políticas que dão sustentação ao status quo. Essa mesma elite branca, escravocrata, referida, se juntou para proclamar a República, em 1889 e camuflou o seu desenraizamento. Manteve ao longo dos séculos os olhos voltados para além das águas do Atlântico ou para o hemisfério norte. Tornou-se indiferente aos problemas vividos pelos de baixo, não demonstraram compromisso com a gente que tece com suas mãos o futuro e a identidade do País. Manteve o sentimento patrimonialista pela “res publica”, loteou os orçamentos públicos e os cargos da burocracia do Estado como quem reparte um bolo de festa. Aos mais próximos as maiores fatias. Para os de baixo, as migalhas e os presídios destinados aos acometidos pelas patologias sociais decorrentes do peso das contradições da pirâmide social.

Vale lembrar que a violência social vem de raízes profundas, varando séculos. No processo de colonização, onde os brancos europeus até agora foram vencedores, as cicatrizes estão abertas. O sangue das nações indígenas dizimadas escorreu pelo campo. Os negros ainda carregam na pele e na alma as marcas da humilhação. “O homem cordial” escamoteia sua violência com a índole religiosa. Busca a paz em igrejas e em templos de consumo. Surdos, não percebem o crepitar do discurso na batida do Hip Hop, que embala a multidão de excluídos da nova geração, na teia da mídia eletrônica expandida pelas novas tecnologias, dissolvendo os muros que impedem a comunicação entre comunidades pobres de todo o País.

Num país como o Brasil, as estatísticas da criminalidade confirmam a perversidade da herança colonial. Essa violência permanece latente nas relações sociais, no “nós e eles” do centro e periferia, entre morro e asfalto, no trabalho, com a exploração patronal, na arquitetura das residências, onde os brancos se acomodam nas salas, e a cozinha e a dependência de empregados continua senzala, enfim, a desigualdade permanece e o cinismo cresce forjando a “felicidade” do “País Tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. A droga chegou como uma moeda forte para parte das comunidades pobres das periferias das metrópoles. Movimenta as economias locais, gera renda para quem não teve oportunidade de emprego ou desistiu dos miseráveis salários e do tratamento degradante dos patrões.

O Brasil tem cerca de 9 milhões de jovens zoando sem trabalho e fora da escola, espalhados pelas principais capitais do país. Esse número tem sido reduzido pelos programas sociais do governo, mas ainda é pouco. O tráfico cresceu, se estruturou, se armou, criou um Estado dentro do Estado, com regras e comando. Agora desafia o Estado republicano, para desespero do establisment. Enganam-se aqueles que acham que a violência vai ser estancada apenas com leis mais duras, com policiais mais bem armados, com mais presídios. Dizem os especialistas que o crime se organiza no vácuo de valores humanistas, da necessidade de pertencimento a grupos sociais ou da extrema carência material e familiar. A democracia política chega tarde para os de baixo e mais tarde a democracia plena.

Evidentemente, isso não quer dizer que a criminalidade é um fenômeno apenas das classes desfavorecidas, mas as condições sociais propiciam os desequilíbrios. A criminalidade no ambiente dos ricos é conhecida. Também conhecido o tratamento dispensado pelo Judiciário a aos ricos e aos pobres. O fato é que os valores humanistas não têm a força necessária para gerar instituições suficientes e disponíveis para toda a população. O sistema educacional e as instituições políticas não conseguem atrair todos os que têm a necessidade de pertencimento, para que a civilização possa superar a barbárie.