27 jan
2012Infarto do capitalismo exige superação da economia de guerra pela economia da paz
Conselho Editorial Sul-Americano em 27/jan/2012

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL. A estrutura produtiva e ocupacional sobre a qual se assenta o capitalismo - a guerra e a especulação financeira - levaram a humanidade a um beco sem saída. Faz-se, necessário, portanto, superar a economia de guerra -a negação - , que deixou de ser útil à própria reprodução do capital, para dar lugar ao seu oposto, ou seja, a economia da paz - a negação da negação - a fim de salvar o ser humano dos perigos fatais produzidos pelo impasse decorrente do desenvolvimento das forças produtivas, de um lado, e o das relações sociais antagônicas, de outro, de modo a abrir possibilidades a expansão do espírito humano a uma nova era, ancorada na vontade solidária de construir nova estrutura produtiva e ocupacional, tirando da frente os empecilhos que colocam em risco a sobrevivência humana no planeta terra.
Implode o estado capitalista
O capitalismo está no banco dos réus em Davos e em Porto Alegre.
Destacam generalizadamente que chegou a hora de melhor distribuição da renda para que ocorra uma reinvenção do sistema capitalista.
O chato, no capitalismo, é que quando tudo vai, relativamente, bem, não tem porquê distribuir; quando tudo vai, relativamente, mal, como agora, não tem o que distribuir. É ou não é?
Fica esse cinismo aí!
Na verdade, o de que se trata é saber se a lei geral do capital permite o que se está pregando, isto é, a igualdade.
No tempo de Delfim Netto, ditadura militar, ele preferiu destacar que, primeiro, era preciso fazer crescer o bolo, para, depois, distribui-lo.
O bolo cresceu, veio o milagre econômico, mas foram poucos os que o abocanharam.
Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, onde avançaram práticas políticas sociais democráticas, ancoradas no Estado do Bem Estar Social, emergem os impasses.
Excessivamente, endividados, os governos, garantidores desse Estado do Bem Estar, sob pressão dos credores, são obrigados a cortar os benefícios sociais, de modo a sobrar mais para os banqueiros, os que compram os títulos do governo com o dinheiro do governo, a moeda papel sem lastro, fictícia.
Tem um problema: para continuarem pagando os seus credores, os governos precisam continuar se endividando. Essa é a função deles: gastar para distribuir.
Agindo assim, produzem consumo, sem aumentar a produção, freiando as forças produtivas e atenuando as relações sociais da produção, evitando, consequentemente, as tensões políticas produzidas pelas próprias contradições detonadas pelo capitalismo.

José Graziano, o brasileiro que chegou à direção da FAO, dá o tom da nova economia da paz para substituir a economia de guerra. Ela se voltaria para garantir aos seres humanos socialmente excluídos o direito de consumo como alternativa econômica fundamental para girar a produção global, impulsionando os mercados internos, assegurando aos governos arrecadações capazes de impulsionarem os investimentos em infraestruturas indispensáveis para resgatar os marginalizados pelo sistema capitalista que deixa de ser socialmente útil.
Se o governo não pode endividar-se, por já ter dívidas demais, não pode, também, distribuir, nem pode, portanto, arrecadar, perde sua função e utilidade, deixa, de acordo com a ideologia utilitarista, que dá vida ao capitalismo, de ser verdade.
Não é à toa, portanto, que o calote na dívida se transforma, nos países ricos, em solução, mediante prática de juro zero ou negativo, para que haja espaço capaz de permitir que o endividamento governamental continue.
O juro perde a função no sistema: se existir, quebra o governo, do qual o sistema, na economia monetária, depende, visceralmente.
Deixa de existir, especialmente, nos países ricos, em crise total, a preocupação com a preferência pela liquidez, bloqueadora dos investimentos, mas estes, igualmente, ficam comprometidos, pois, se o governo não pode gastar, devido aos excessos de dívidas, quem investirá, mesmo se o juro for zero ou negativo?
Ou seja, elimina-se, simultaneamente, tanto a preferência pela liquidez como a opção pelo investimento, ambas anuladas, na medida em que o governo, cheio de papagaios, não pode mais gastar para puxar a demanda global, na escala necessária capaz de sustentar a reprodução ampliada do capital.
Se, realmente, o Estado, como disse Lenin, é a expressão acabada da luta de classes, existindo, sob o capitalismo, para satisfazer os interesses dos capitalistas em detrimento dos interesses dos trabalhadores, o baque capitalista global compromete a capacidade da classe capitalista de continuar no comando do processo político, porque, em obediência à própria ideologia utilitarista, suprassumo do capitalismo, deixa de ser útil.
Está em jogo o controle do poder do Estado, visto que o governo capitalista, simplesmente, enfartou na crise de 2008 e não demonstra competência para continuar no comando do processo político, no compasso do aprofundamento do antagonismo de classe em marcha inexorável.
Apodrece estrutura produtiva

FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL. A confusão é geral em Davos. Cada um vai para um lado. A Alemanha, a mais rica, diz que não pode emprestar aos mais pobres. Os mais pobres, como Portugal, dizem que não podem pagar. Os remediados,como os ingleses e os franceses, que estão em queda livre, querem fugir, os primeiros, da Europa, os segundos, de si mesmos. Os Estados Unidos, divididos entre si, estão sem rumo, entre a deflação e a inflação, propensos a dar a calote no mundo. Os europeus debatem se vale ou não a pena continuar com o capitalismo, que deixou de ser útil, para atender as demandas sociais. Estas, ao contrário, têm que ser eliminadas para aqueles que detêm o poder do Estado capitalista, ou seja, os banqueiros, continuem garantindo sua lucratividade. Está em cena, mais do que nunca, o acirramento da luta de classes pelo comando do poder estatal. A direta se esfacela, desunindo-se internamente. Já a esquerda se encontra desorganizada, porque acreditou na eficácia do remédio da direita que se desmancha, ou seja, o estado do bem estar social. Emerge o estado do mal estar social que joga uns contra os outros, gerando incompatibllidades gerais. O clima revolucionário se acirra, mas como os revolucionários, simplesmente, estão desorganizados, abre-se o campo para o fascismo, que se fortalece no ambiente em que o medo social quanto ao futuro domina as mentes fragilizadas pelas incertezas. Mas, a economia capitalista, em sua versão, essencialmente, fascista demonstra ser inviável.
Torna-se indispensável, como diz Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, Campus, 1980, ver o sistema do alto da montanha e não do meio da floresta.
Do alto, se percebe que o que se esgotou é a estrutura produtiva e ocupacional.
Que estrutura é essa?
Aquela que emergiu depois da crise de 1929, muito bem expressa no conselho de Keynes a Roosevelt, em 1944, diante do colapso do padrão ouro, sob economia de mercado:
“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego -, exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer a sua força”.
Ou seja, a estrutura produtiva e ocupacional que se ergue no rastro do crash de 1929 é, nada mais, nada menos, do que a economia de guerra.
Por isso, é preciso voltar a Marx, quem melhor teorizou e dissecou o sistema capitalista.
O autor de O Capital disse que o capitalismo desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver ao máximo as forças destrutivas, na guerra, mediante os gastos do governo, algo que ele não descreveu, largamente, apenas, esboçou, porque morreu antes.
Evidencia-se que agora o que sofreu infarto não é apenas as forças produtivas, mas, também, as destrutivas, de modo que o edifício desabou, como os três prédios na tragédia recente no Rio de Janeiro.
O pensamento de Keynes poderia ser aperfeiçoado à luz da pregação marxista, no momento em que o capitalismo se encontra infartado:
“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego -, exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, acabarão destruindo suas forças”
Ou seja, está em jogo a democracia, diante da crise capitalista.
Trata-se, portanto, de, seguindo as pegadas de Marx, discutir tanto o esgotamento das forças produtivas, impulsionadas pelos departamentos I – de produção de bens de consumo – e II – produção de bens de produção(bens de capital) – e das forças destrutivas, alavancadas pelo departamento III – gastos do governo, alavancador, depois da crise do lassair faire, da economia de guerra.
Em 1929, entraram em colapso, os departamentos I e II, detonados pelo processo deflacionário, como fruto final da economia de livre mercado; em 2008, implode o departamento III, nascido para salvar o lassair faire, por meio do desenvolvimento de nova estrutura produtiva e ocupacional dependente da ampliação dos gastos do governo – produção bélica e espacial, especulação financeira, desregulamentação bancária etc.
O infarto capitalista se dá, agora, no departamento III, configurando uma crise completa do sistema.
Desenvolvimento das contradições

CABEÇA DIALÉTICA REVOLUCIONÁRIA. Marx demonstrou que o desenvolvimento das forças produtivas, impulsionado pela ciencia e tecnologia colocadas a serviço da produção e da produtividade, entraria em choque, sempre, com as relações sociais da produção, organizadas para manter os trabalhadores em posições subalternas no processo político, levando-os a se organizarem, para construir a opção socialista. A deflação, como fruto do processo capitalista competitivo, entraria em colapso, abrindo espaço para o sistema tentar se eternizar por meio da inflação, impulsionadora das forças destrutivas, comandadas pelo o dinheiro emitido pelos governos capitalistas. A estrutura produtiva e ocupacional criada a partir desse projeto, cuja função seria a de tentar frear as forças produtivas explosivamente deflacionárias, entrou em crise de realização em 2008, com a falência da financeirização econômica global. Os antagonismos de classe voltam a se acirrar. Entra em cena, o fundamental: o controle político do Estado, visto que os que o comandam no momento deixaram de ser úteis aos interesses sociais, que despertam do sono profundo da alienação produzida pelo capital que sofreu violento infarto.
A economia capitalista, até final do século 19, como teorizou, largamente, Marx, sustentava-se no bimetalismo(ouro e prata) monetário, dinamizador dos dois departamentos econômicos em desenvolvimento contraditório: o departamento I, bens de consumo; segundo, o departamento II, bens de produção.
A interação entre ambos desenvolveu ao máximo as forças produtivas sob a lei geral do capitalismo, ou seja, a busca do lucro, cujo pecado capital, disse o mestre, é o de produzir crônica insuficiência de demanda global.
Por que?
Marx gozou a cara de Jean Baptiste Say, o pai dos neoliberais, segundo o qual toda oferta gera demanda correspondente, de modo que o sistema capitalista viveria eterno moto continuo, sem crises de realização.
A famosa Lei de Say, disse Marx, seria válida, se toda mercadoria que vai para as prateleiras dos mercados fossem vendidas sem lucro. Gastou 100 para produzir, vende por 100. Oferta e demanda iguais, eternas, ótimo. Aí, tudo bem, não haveria crise.
Porém, o empresário, quando bota seu dinheiro no negócio, quer ter retorno lucrativo – joga 100 para recolher 150, por exemplo – , pois, caso contrário, exerce a preferência pela liquidez, deixando seu dinheiro render no juro composto, é claro.
Como é o lucro que move o capital, o empreendedor, ensina Marx, compra capital fixo(C) – máquinas e equipamentos - e capital variável(V) – trabalho assalariado e matérias primas -, para produzir mercadorias, a fim de vendê-las, lucrativamente.
Ou seja, ele gasta C + V, mas precisa recolher C + V + S, sendo S o lucro. De onde vem S, perguntará, sempre, Marx, para concluir que não vem. Por que?
Simples: o valor que o empresário recolhe da venda das mercadorias que fabrica tem que ser maior do que o valor que o trabalhador recebe em forma de salário para produzi-la.
Desse modo, a totalidade do valor gerado pelo trabalho será sempre inferior à totalidade do valor obtido pelo empresário.
Haverá, portanto, um gap eterno entre esses dois valores, cujo resultado é a insuficiência crônica de demanda global, no sistema.
Na prática, ocorre o óbvio: a diferença entre esses dois valores é apropriada pelo capitalista em forma de salário não pago. Roubo.
Se falta uma parte da renda do trabalhador, que se transforma em lucro do capital, faltará sempre renda disponível para manter em equilíbrio produção e consumo.
O desequilíbrio é a expressão real do capitalismo. O equilíbrio é uma ficção inventada nos laboratórios dos economistas neoliberais.
Marcha para a deflação

PACIÊNCIA SOCIAL ESGOTADA COM CAPITALISMO. As massas, ameaçadas pela debache capitalista, que destroi o estado do bem estar social, que a social democracia capitalista ergueu, precariamente, para conviver com a sobreacumulação de capital, na base da especulação, vão às ruas para contestar a continuidade do sistema, que deixou de ser funcional. De agora em diante, está em jogo o controle político do Estado. Este, como produto do antagonismo de classe, que estava a serviço do capital, reproduzido na base da especulação, entrou em colapso, não podendo mais ser referência para a sustentabilidade social. Uma nova etapa de desenvolvimento da humanidade se abre com a crise do departamento III da economia capitalista voltada para sustentação da economia de guerra. O interesse social aponta que a alternativa adequada a ela é o seu oposto, a economia da paz, incompatível com o individualismo, o egoismo e ambição sem limites, a conduzirem a humanidade ao impasse total.
Evidentemente, o sistema, em permanente desequilíbrio, como expressão da sua verdade essencial, caminha, inexoravelmente, para a deflação, pois haverá sempre sobra de mercadoria para a falta de salário capaz de consumi-la.
A menos que haja distribuição da renda. Mas, essa não é a função do capitalismo.
A produção dos dois departamentos – o de bens de consumo e de bens de produção – caminharia, evidentemente, em termos cabais, para uma eterna sobreacumulação de capital geradora de pressões deflacionárias, visto que o ideal, para o sistema, como disse Marx, é a vigência do salário zero ou negativo, na sua expressão matemática do termo.
O desequilíbrio estrutural do capitalismo, apoiado nos departamentos I e II, motivou grandes polêmicas entre os economistas clássicos, com destaque para Malthus, na primeira metade do século 19, quando reconheceu que a economia é uma ciência essencialmente triste, porque produz não a felicidade, mas a desgraça do ser humano.
O desenvolvimento das forças produtivas, no compasso do avanço científico e tecnológico, potencializador da produtividade, entrará, sempre, em choque com o desenvolvimento das relações sociais da produção, que precisam ser contidas, via arrocho salarial, para sustentar a lucratividade do capital, embora esta seja alcançada sob pena de levar o sistema à deflação, isto é, a sua própria destruição.
Por isso, Malthus, gênio, revelou que o sistema capitalista é incompativel com a eficiência que ele próprio gera, pois quanto mais eficiente, mais produtivo, mais potencial, mais deflacionário ele se torna. Qual seria a alternativa?
O inverso da deflação, ou seja, a inflação.
Se os departamentos I, produtor de bens de consumo, e o II, de bens de produção, levam o capitalismo, graças ao excesso de eficiência e produtividade, à tensão deflacionária, que destroi tanto o capital como o trabalho, teria que haver uma força compensatória em forma de ineficiência e dissipação, indispensável a uma busca de relativo equilíbrio precário, claro, visto que o desequilíbrio, levado às ultimas consequências, implodiria o sistema.
Começa, portanto, com Malthus, a nascer aquele que, no século 20, seria o departamento III, o governo, consumidor não de mercadorias, geradas pelas forças produtivas, mas de não-mercadorias, impulsionadas pelas forças destrutivas, na guerra.
Os departamentos I e II, organizados sob o padrão ouro, viviam em busca do equilibrismo orçamentário esquizofrênico, de modo a evitar as deflações, jamais freadas, no compasso do desenvolvimento das forças produtivas em choque com o desenvolvimento das relações sociais da produção, desembocando em sobreacumulação de capital, sinalizadora de radicalizações políticas.
A contradição do processo de desenvolvimento dos dois departamentos levaria ao impasse, ao acirramento do antagonismo de classe, enfim, à emergência do socialismo.
Tal fato conduziria à necessidade de superação do padrão ouro, para que fosse materializada a opção salvacionista expressa na construção do departamento III, cujo perfil desembocaria na estrutura produtiva e ocupacional que dependeria da expansão dos gastos do governo, como aconteceu ao longo do século 20 até agora.
Brecar a deflação, produzida pelo padrão ouro, eis a função do novo padrão monetário que surgiria, depois da crise de 1929.
Emergência do departamento III

Malthus teorizou que a economia é uma ciência triste, porque leva a humanidade a um beco sem saída. O excesso de eficiência, propulsora da produtividade, no ambiente de acumulação excessiva de capital, joga o sistema capitalista na deflação. Seria necessária, segundo ele, a compensação dada pela inflação, ou seja, a expansão da ineficiência, como contrapolo dialético, capaz de dissipar capital como forma de garantir a sobrevivência do próprio capital, por intermédio dos gastos do governo. Tentar ver o governo, na economia, como agente eficiente, a exemplo do que pregam os católicos liberais e neoliberais equilibristas, que pululam na grande mídia capitalista, é não entender, de acordo com o pensamento malthusiano, o próprio capitalismo. A proposta de Malthus, porém, entrou em crise, porque o excesso de endividamento do governo impede a continuidade da solução que virou problema.

Keynes confrontou os neoliberais de Cambridge para defender Malthus, a quem considerou o maior economista do mundo, por entender ter ele percebido, claramente, que a necessidade de dissipação de capital representava salvação do capitalismo, via inflação, disfarçada de dívida pública, financiada pela moeda estatal inconversível, rompendo o padrão ouro, que considerou relíquia bárbara. A solução malthusina-keynesiana, porém, não seria eterna. Duraria, apenas, enquanto a incapacidade de o governo se endividar eternamente se manifestasse por intermédio do estouro das bolhas financeiras, como aconteceu, para valer, na crise de 2008, pondo fim à solução que virou problema.
O desenvolvimento do departamento III, essencialmente, inflacionário, promotor das forças destrutivas, tornara-se fundamental para exercer o papel de freio ao processo deflacionário desencadeado pelo desenvolvimento dos departamentos I e II, promotor das forças produtivas, cujas consequências são, no capitalismo, a deflação estrutural.
Como emissor de moeda, o governo capitalista joga dinheiro na circulação, com uma mão, e lança, com a outra, títulos da dívida pública, para enxugar parte da base monetária alagada, a fim de evitar enchente inflacionária.
Ou seja, o modelo malthusiano, imaginado para conferir ao governo – o departamento III - ineficiência como antídoto à eficiência expressa nos departamentos I e II – bens de produção e bens de consumo – tem como sustentáculo a inflação que se expressa dialeticamente no crescimento da dívida pública.
A dívida – o governo, o departamento III – cresce no lugar da inflação, para atuar como mecanismo de reprodução ampliada do capital que fora bloqueado pela deflação como produto do desenvolvimento contraditório dos departamentos I e II.
Assim, para garantir a reprodução do capital, torna-se necessária a promoção das forças destrutivas – gastos inflacionários do governo em produção bélica e espacial –, de modo a garantir, precariamente, a sobrevivência das forças produtivas, impedindo estas de se desenvolverem exponencialmente.
O governo gasta inflacionáriamente, destrutivamente, para conter a expansão das forças produtivas, aumentando o consumo, sem aumentar a oferta.
Como? É isso aí.
Passa a vigorar, com o fim do padrão ouro e início do novo padrão, ancorado nas emissões monetárias governamentais, o inusitado: o desenvolvimento do departamento III, que depende da capacidade de endividamento dos governos, freia o desenvolvimento das forças produtivas, evitando que elas caminhem para a deflação, gerando, consequentemente, crises políticas que levariam à superação do capitalismo pelo socialismo.
A inflação, desse modo, transforma-se, como teoriza Lauro Campos, em uma técnica, um instrumento de controle social, ao evitar a emergência socialista.
Teórico das não-mercadorias

DESCONHECIDO PELA GRANDE MÍDIA ALIENADA. Em "A crise da ideologia keynesiana", Campus, 1980, e em "A economia política do não - crise completa do capitalismo", Boitempo, 2002, Lauro Campos, bem antes do estouro global em 2008, teoriza o desenvolvimento das forças destrutivas produtoras das não-mercadorias, que passam a dinamizar o capitalismo, depois da crise de 1929, seguindo os passos de Marx, atento, sobretudo, às contradições em marcha do sistema, sempre caminhando para o impasse decorrente do avanço das forças produtivas em choque com as relações sociais da produção, desembocando em processos deflacionários, sob o reinado dos departamento I e II, complementados pelo processo inflacionário, gerado no departamento III, que, de solução, se transforma em problema, quando o modelo malthusiano-keynesiano deixa de promover a reprodução ampliada do capital sobreacumulado, produzindo, consequentemente, o infarto fulminante do sistema.





















