29 jan
2012O Brasil engarrafado pelos gringos
Adriana Lacerda em 29/jan/2012

- Não falta gente astuta neste mundo. A última de uns espertalhões americanos foi lançar uma “interessante” campanha publicitária para uma marca de pinga chamada Cabana Cachaça ($15). Bom, até aí nada de mais. Um dos problemas, porém, está exatamente em como os caras estão trabalhando essa campanha. Primeiro, o clichê escolhido pela agência novaiorquina Avrett Free Ginsberg é um velho conhecido para divulgar a imagem do Brasil no exterior. Até porque as alternativas são limitadas: futebol, carnaval ou mulher. A opção, desta vez, foi pela “beleza e sensualidade da mulher brasileira”. Aliás, bota sexualidade explícita (vejam o filminho de abertura no website da empresa). Segundo, a farsa publicitária também está em tentar criar uma conexão emocional com os consumidores americanos alicerçado no posicionamento Authentically Brasilian. Ora, o produto, lançado nos EUA, não é bem genuinamente brasileiro. Muito embora a cachaça seja produzida no Brasil, utilizando um processo artesanal e bi-destilada (pelos menos é o que diz a escassa informação disponível sobre esse produto); tanto o jovem empreendedor norte-americano, Matti C. Anttila, ex-analista que trabalhava no Brasil no banco de investimento J.P.Morgan, quanto a agência de publicidade são de Nova Iorque. É o caso clássico de start-up para enrolar gringos. E, ao que tudo indica, a estratégia parece estar funcionando. A cachaça divulgada em baladinhas caiu no gosto de algumas atrizes e socialites. Também, belas garrafas e rótulos, investimento pesado em comunicação apelando para fortes associações à imagem do Brasil no exterior e, por fim, um produto de qualidade duvidosa. Para não dizer que o pessoal não vende a Cabana Cachaça por aqui, segundo informações, ela é encontrada no Fasano e certas lojas em São Paulo e no Rio. Se é uma boa cachaça eu não sei, mas que a propaganda é apelativa isso ela é. ENQUANTO O GOVERNO BRASILEIRO NÃO CUIDA DO QUE É AUTETICAMENTE NACIONAL PROMOVENDO NO MUNDO NOSSAS MARCAS, OS GRINCOS VÃO E TOMAM, FATURANDO EM CIMA DOS TROUXAS, QUE FICAM BEBENDO UISQUE FALSIFICADO NO PARAGUAI.
A cachaça foi fundamental para a economia do Brasil colônia e teve grande influência nos rumos da nossa história. Do canavial ao boteco, essa bebida ajudou a moldar a identidade nacional do brasileiro
Em 13 de setembro de 1649, uma carta assinada pelo então rei de Portugal, dom João 4º, proibia a fabricação da cachaça no Brasil. Motivo: desde aquela época, a aguardente de cana-de-açúcar estava se tornando, em detrimento do vinho português, a bebida predileta da colônia – e da costa oeste da África também. E a Companhia de Comércio de Portugal, descontente, recorreu à Coroa para que providências fossem tomadas. Não queria perder mercado, mesmo que fosse para fregueses pouco abonados, escravos e mestiços que só tinham mesmo condições de consumir a cachaça. O destilado, que já era produzido nestas terras, tinha preço muito mais acessível que o vinho, trazido de navio do outro lado do oceano Atlântico.
Só que ninguém deu bola para essa lei seca no Brasil. Não que o país fosse território de cachaceiros ou alcoólatras incuráveis. Havia outra questão por trás: a economia de Portugal – e era isso que decidia o destino de sua colônia mais lucrativa, o Brasil – dependia consideravelmente da produção e do consumo da aguardente.
A Coroa precisava vender açúcar. A produção de açúcar nos engenhos da colônia, por sua vez, dependia de muito trabalho pesado: aí entravam os escravos, uma vez que “a civilização do açúcar não teria sido feita” sem o negro, como escreveu Gilberto Freyre em seu livro Nordeste. E o valor desses escravos muitas vezes era mensurado em cachaça. Sim, pois a pinga produzida no Brasil passou a servir, junto com o tabaco, de moeda de troca por escravos na costa africana.
A moeda cachaça

A desvalorização da criatividade brasileira começou na escravidão. Os trabalhadores escravos nas usinas de açucar se ligaram no fermento da danada e acabaram produzindo o aguardente de qualidade que se aprimoraria pelos tempos afora, transformando-se, hoje, num orgulho nacional, ainda limitado, dados os preconceitos imbecis espalhados pelo espírito de uma elite que sempre banqueteou os restos dos banquetes dos poderosos no exterior, mas que, internemnte, sempre rejeitaram o produto brasileiro. Apesar de tudo isso, a cachaça brasileira se transforma, cada vez mais, em produto de qualidade, que, agora, atrai investidores internacionais, enquanto o governo vai dormindo de toca , em vez de criar um programa nacional de desenvolvimento da produção de cachaça, levando o produto a ganhar o mundo. A presidenta Dilma tinha que entrar nessa, visitando, por exemplo, a Confraria da Cachaça de Brasília, que se reúne, mensalmente, para dar aquela força, a partir de um marketing bem organizado e competente. Ou vamos continuar escondendo aquilo que temos de melhor, a cachaça e, claro, as mulheres maraviilhosas, que já dominam a cena política nacional?
A produção de aguardente de cana-de-açúcar surgiu como uma conseqüência das lavouras açucareiras. A cachaça teria sido resultado da produção do melaço, uma das etapas da fabricação do açúcar. No processo, a borra adocicada que se concentrava sobre a garapa borbulhante era removida com uma espumadeira e jogada numa tábua – daí o termo português “cachaça” que, derivado do espanhol cachaza, era o nome da espuma do caldo. Ali, a borra açucarada fermentava, transformando o que é doce em álcool. Rapidamente, a tecnologia portuguesa de produção de bagaceira adaptou-se aos engenhos, e daí surgiram os alambiques para destilar a bebida. E pronto, eis a cachaça: “A revelação gostosa e catastrófica para negros africanos e amerabas brasileiros. Dissolvente dinástico, dispersador étnico, perturbador cultural”, escreveu o folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu livro O Prelúdio da Cachaça.
Antes dela, tanto os negros como os índios desconheciam bebida tão poderosa. Sabe-se que os índios produziam um tipo de bebida fermentada a partir da mandioca mastigada e cuspida. Chamava-se cauim. Os africanos também bebiam um vinho obtido do caldo de palma. Mas, segundo Câmara Cascudo, nada chegava aos 18 ou 22 graus alcoólicos da cachaça produzida na época (as caninhas modernas chegam a superar os 50% de álcool). Na África, aos poucos, o consumo do vinho de palma foi sendo substituído pela cachaça. Isso não se deu por acaso: os colonizadores deliberadamente trabalharam para criar um mercado consumidor dos destilados produzidos na Europa e na América. “À medida que a substituição se processou, foi criado o mercado onde a aguardente foi utilizada como ‘moe¬¬da’ no tráfico de escravos”, afirma o pesquisador Carlos Magno Guimarães, historiador da UFMG. A cachaça, assim, passou a ser um “cheque descontável do Daomé à Angola, do delta do Níger à foz de Cunene”, escreveu Luís da Câmara Cascudo.
Daí a explicação de por que de nada adiantou a proibição real de 1649. Tampouco uma outra, dessa vez assinada por dom Pedro 2º (o rei português que sucedeu João 4º, não o imperador brasileiro), que também proibia o envio de cachaça para Angola. Proibindo a produção, o consumo e a venda da cachaça, o que se tinha, segundo Câmara Cascudo, era o contrabando “inevitável e prolífero”. E muito lucrativo, pois todos os riscos que a operação envolvia – e mais um pouco – eram embutidos no preço ao comprador. Calcula-se que, em média, 310 mil litros de cachaça foram enviados por ano para Angola, o que correspondia a quase 80% das bebidas alcoólicas que chegaram àquela colônia (as demais eram vinho e bagaceira, de Portugal). Aproximadamente 25% dos escravos trazidos para o Brasil – entre 1710 e 1830, ao menos – foram trocados por cachaça. “Se acrescentarmos também o tabaco da Bahia, chega-se à cifra de quase a metade dos cerca de 2 milhões de escravos trazidos no século 17 tendo sido trocada pela cachaça e pelo tabaco”, diz o historiador Henrique Carneiro, em seu livro Pequena Enciclopédia das Drogas e Bebidas.
O contrabando de drogas, aliás, já naquela época, não era apenas coisa nossa, não. O tráfico de álcool já era comum no mundo quando o Brasil aderiu à moda. “Há milênios existe o tráfico de álcool, especialmente do vinho, no mundo mediterrâneo. A partir do século 16, ele se expandiu e se ampliou enormemente com a emergência dos destilados”, diz Carneiro. Segundo ele, outros ciclos comerciais também se fincaram na história em torno das drogas, além do comércio de aguardente que marcou a economia colonial americana no século 17. As bebidas quentes e estimulantes, desde aquela época, aprofundaram o desequilíbrio da balança comercial inglesa com a Ásia, por causa da crescente compra de chá. Isso foi o estopim de duas guerras da Inglaterra contra a China, no século 19, as chamadas Guerras do Ópio. Os britânicos queriam forçar os chineses a aceitar ópio, e não prata, como pagamento pela quantidade monstruosa de chá que compravam.
Preconceito anti-popular

O preconceito contra os trabalhadores, no Brasil, por parte de uma elite vendida ao capital internacional, dominando uma grande mídia, completamente, alienada, sintonizada com as modas externas, enquanto combatem as modas internas, caiu de pau em cima do ex-presidente Lula, simplesmente, porque ele, como todo o povo brasileiro, aprecia uma cachacinha. Foi ele tomar umazinha em público e logo começaram a espalhar que ele era um tremendo cachaceiro. Estimularam os tupiniquins de baixo escalão, especialmente, nas altas esferas elitizadas, que tomam uisque, muitas vezes falsificado, a maldizerem o presidente. Claro, o povo não caiu nessa, porque, afinal, um representante legítimo dele, chegara ao poder, para iniciar um processo de distribuição da renda, de modo a tirar o país da crise em que sempre esteve mergulhado por conta da excessiva concentração da renda nacional. Mas, os idiotas da objetividade, como diria Nelson Rodrigues, tanto fizeram que conseguiram que o New York Times publicasse reportagem de correspondente do jornal no Brasil, detratando o ex-titular do poder nacional, taxando-o de cachaceiro e outros bichos. Claro, as elites gostaram. Lula, no entanto, falhou por não ter reafirmado, publicamente, que ama a cachaça, promovendo-a nos mercados internacionais. Agora, os gringos estão faturarando em cima do produto. Não seria a hora de a presidenta Dilma copiar Lula e tomar um traguinho, em público, para abrir o apetite, em encontro nas confrarias das cachaças, que se espalham por todo o país?
Além de ser moeda de troca para a compra de escravos, havia ainda outro motivo que tornava a cachaça imprescindível para o Brasil colonial: para os negros africanos, ela funcionava como amortecedor tanto da fome quanto da tristeza que embalavam a longa viagem de travessia do Atlântico. Na dieta diária dos escravos, vinha ainda da cana o consolo e a anestesia para suportar as agruras do regime escravocrata. “Confirmando desde então a tese sempre atual de que a humanidade, em todas as épocas históricas, sempre teve um pendor por buscar substâncias químicas que aliviem suas dores”, diz Henrique Carneiro.
E o Brasil Colônia dispunha de matéria-prima suficiente para produzir alívio para uma multidão de sofredores cativos. A pinga era o combustível do trabalho forçado. A tal ponto que a viajante inglesa Maria Graham, visitando o Recife em 1821, chegou a anotar sobre os escravos que a cachaça era o “incentivo pelo qual fazem qualquer coisa”. Com o eixo da economia se deslocando para Minas Gerais e seu ouro, os negros transferiram do Nordeste para lá o hábito e a tecnologia da produção de aguardente (e deram início ao que hoje é uma das marcas mais sagradas de Minas, a cachaça artesanal).
Por essas e outras é que, insustentável, a proibição real à aguardente caiu em 1661.
Governos da capitania de Minas Gerais ainda tentaram, pontualmente, inibir a proliferação dos alambiques porque – claro, é de sua natureza – a danada também fazia lá seus estragos. Em terras mineiras, não combinava com os poços profundos, nos quais, não raro, os escravos tinham que adentrar para buscar ouro. Além disso, também se temia que a cachaça estimulasse a rebeldia dos negros. Mas essas proibições dos governos das capitanias também caíam rapidinho. De modo que nenhuma outra restrição apareceu, segundo Câmara Cascudo, após 1759 (salvo hoje, em dia de eleição) ao direito de embriagar-se de cachaça até entortar a língua e cair duro com a cara no chão.
Rebeldia

Cachaça boa com gelo é melhor do que uisque. Quem atesta é o empresário Sebastião Gomes, fabricante da Cachaça do Piloto, frequentador assíduo da Confraria da Cachaça de Brasília. Por que o Ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, de Mina Gerais, onde se fabricam as melhores cachaças do Brasil, como as de Salinas, por exemplo, não organiza encontro nacional dos fabricantes de cachaça para discutir uma política capaz de promover o produto, tanto no mercado interno, como internacional.? No momento em que o país avança com o seu mercado interno vigoroso, depois que se descobriu que distribuir a renda é a melhor solução, para o desenvolvimento e para o combate à inflação, simultaneamente, fugindo da deflação que afoga os ricos, teria chegada da classe média emergente, beber, moderamente, claro, a cachaça, em vez de cair na tentação das vodkas com estimulantes que estouram a cabeça da juventude, comprometendo sua saúde. Educação, evidentemente, é tudo. Mobilizar a sociedade para se orgulhar da cachaça nacional seria uma boa, Fernando. Toma uma, vai.
E, se a cachaça foi importante para a manutenção da economia açucareira e, depois, para o ciclo do ouro, ela também teve seu papel na resistência e na luta contra a escravidão. “Na realidade colonial, a aguardente evidenciava o seu caráter contraditório”, escreveu o historiador mineiro Carlos Magno Guimarães, em artigo na coletânea Álcool e Drogas na História do Brasil. “Ao mesmo tempo em que contribuía para a manutenção da ordem escravista, era combatida como ameaça a essa mesma ordem.” Que a aguardente esteve associada a eventos de rebeldia, isso é inegável. “Mas que ela tenha sido a causa da revolta é, no mínimo, questionável”, diz Carlos Magno. Obviamente, pois a verdadeira causa de rebeliões de escravos era a própria situação lastimável da escravidão.
Os negros dominaram rapidamente as técnicas de destilação da pinga, e a aguardente de cana passou a ser produzida e consumida nos quilombos – inclusive no quilombo dos Palmares, entre Pernambuco e Alagoas, que era o maior de todos e acabou destruído em 1710. Tanto nas senzalas quanto nos quilombos, a marvada já era elemento de rituais e danças negras. E, como afirma Carlos Magno, que pesquisou o papel da cachaça nos quilombos de Minas Gerais (segundo ele, de 1733 a 1748, pelo menos 49 núcleos de negros fugidos foram descobertos e destruídos pelas autoridades da capitania), ela cumpriu um papel importante para a manutenção dessas comunidades.
Isso porque, para os quilombolas, a cachaça também era, sim, dinheiro. Até eles, que eram fugitivos do governo, conseguiam trocar a bebida por alimentos, no comércio ilegal feito nas vendas, que eram o equivalente ao que hoje conhecemos como botecos, mercearias – diferença é que, naqueles tempos, eram clandestinas e, como tal, faziam um comércio ilícito. Como o de trocar alimentos pela cachaça dos negros fugidos – e, assim, ajudá-los a viabilizar os quilombos.
Cachaça é coisa nossa

Alguém aí sabe que a cachaça Maria da Cruz, deliciosa, é fabricada no alambique criado pelo ex-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva, um dos maiores empresários brasileiros? É isso aí. Está passando da hora de o governo perder a vergonha de promover o produto nacional que os escravos criaram e que levaram os portugueses a proibi-lo em território nacional, para não fazer concorrência com o vinho português, no tempo da colonização. Tudo que é nacional e bom tende a ser bloqueado ao confrontar interesses poderosos. A Copa do Mundo está chegando. Não seria uma oportunidade mais do que indispensável capaz de mobilizar a classe produtiva, apoiada por uma política governamental, a fim de promover a cachaça, para conquistar o coração do torcedor, em vez de deixá-lo submeter à propaganda bilionária das coca-colas da vida, narcóticos açucarados que, como comprova a medicina, compremetem, aceleradamente, a saúde da juventudade, dominada pela propaganda mentirosa? Tomar uma Maria da Cruz, geladinha, ou a Cachça do Ministro, fabricada por Carlos Átila, diplomata aposentado, ex-ministro do governo Figueiredo, é a grande pedida.






















