BC empaca PAC, abala Dilma e ajuda Serra

Cesar Fonseca em 29/jun/2009

Meirelles, com os juros altos, joga Dilma no abismo, pois o PAC não anda com eles, enquanto Serra disporá de motivos, para criticas cada vez mais intensas sobre a política monetária do BCDilma e Serra, apenas, aparentemente, estão numa boa, mas Serra já viu o calcanhar de aquiles do PAC  que se chama Meirelles

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 A queda da arrecadação tributária, decorrente da desaceleração econômica, intensificada, adicionalmente, pelos juros altos, que impedem a continuidade satisfatória do Programa de Aceleração do Crescimento(PAC), com o qual o presidente Lula conta para eleger a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, em 2010, vai trabalhando, celeremente, para favorecer o governador tucano oposicionista de São Paulo, José Serra, maior crítico, no momento, da política monetária adotada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, cuja situação, no governo, se os juros não cairem mais aceleradamente, tende a piorar. As notícias de que o titular do BC estaria saindo para assumir candidatura ao governo de Goiás poderiam ser mera cortina de fumaça. Ao bombardear a política de juros praticada por Meirelles, o tucano mina as bases do presidente Lula e, consequentemente, de Dilma. O BC, na prática, empaca o PAC. 

Serra, que resiste a dizer que é candidato, não deu colher de chá a Meirelles, em palestra realizada, em 18.06, em Washington, no Simpósio Foresight USA, reproduzida, no domingo, pelo jornal O Estado de São Paulo, intitulada “Uma visão latinoamericana da crise”. Sem, naturalmente, citar o titular do BC, o titular do Palácio dos Bandeirantes, destacou que enquanto outros países sul-americanos, como o Chile e Peru, por exemplo, reagiram, na primeira hora, à bancarrota financeira internacional, jogando, fortemente, os juros para baixo, no Brasil, as autoridades monetárias, diga-se Meirelles, enrolaram, trocando bola no meio de campo ou jogando para as laterais, sem disposição de ir ao ataque para fazer gol, a fim de sustentar a produção via custo menor do dinheiro.

Guido Mantega resiste à queda da arrecadação via isenção do IPI, porque sabe que será suicidio para a saúde do PACClaro, quem manda no presidente do Banco Central é o presidente da República. Se fosse Serra o titular do Planalto, a situação teria outro fim, dadas suas colocações no Simpósio. No período crítico, a partir de 15 de setembro de 2008, quando o banco Lehman Brother quebrou e acelerou a derrocada, o governo dividiu-se e, por isso, ficou paralisado. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, desenvolvimetista, semelhante à Serra, pregou juros mais baixos, de forma mais vertiginosa. Meirelles, ao contrário, ficou encravado no argumento de que era preciso estar atento à inflação, quando, na verdade, o perigo passou a ser o o oposto, ou seja, a deflação.

A grande mídia, amarrada ao capital externo, que sustenta a pregação favorável aos juros altos mantidos pelo BC, posicionou-se reacionariamente. A falta de ação de Meirelles, por sua vez, estimulou os bancos privados a manterem , igualmente, as taxas de juros no crediário ao consumo nas alturas exorbitantes. Desesperado, o governo solicitou aos banqueiros cooperação. Que usassem os grandes bancos, que atuam na base do oligopólio, há tempos, o dinheiro do depósito compulsório recolhido pelo BC a título de administração da política monetária, para tentar minimizar os estragos da crise.

Os bancãos nem deram pelota ao Planalto, para socorrerem os bancos pequenos, cujas reservas estavam comprometidas com o crediário direcionado às compras de bens duráveis. Os grandes bancos, nos últimos anos, engordando, preferencialmente, nos títulos da dívida pública interna, regados pelos juros mais altos do mundo, estavam fora desse perigo. Ficaram na deles, retrancados. Receosos de alguma reação, os bancãos Itaú e Unibanco se uniram. Formaram mega-oligopólio. Utilizaram o dinheiro do compulsório, em sua maior parte, para reforçar suas reservas, jogando, ainda mais, nos títulos públicos, melhor negócio do mundo.

 

Meirelles na corda bamba 

 

Os juros altos do BC contribuem para reduzir arrecadação e consequentemente paralisou quase o PAC lulistaResultado: o crédito, mediante juros altos, desapareceu, o consumo desabou, as empresas foram ao fundo do poço, a arrecadação tributária, idem, e o PAC empacou, como demonstrou o programa eleitoral do PSDB, ao mostrar as obras paralisadas de norte a sul e de leste a oeste. Pura fantasia midiática, ainda mais, se o consumo, que gera arrecadação, que produz investimento, não reagir.

Os banqueiros ficaram numa boa, enquanto o governo ia caminhando rapidamente para o buraco. Eles se livraram dos derivativos e dos perigos de se sucumbirem sob os subprimes imobiliários, que detonaram a praça financeira americana e européia, com reflexos em toda a Ásia e América do Sul. Afinal, a banca nacional tinha opção muito melhor, isto é, os juros escorchantes brasileiros, sustentados pelo BC. Atraíram os custos elevados do dinheiro a poupança internacional que, por sua vez, sobrevalorizou, ainda mais, a moeda nacional, detonando o comércio exterior.  A China cheia de dólares, candidatos à desvalorização, despregou-se em risadas. A quantidade de trouxas no mundo é inesgotável, como destaca o notável escritor Loyola Brandão.

Sentindo que os grandes bancos não ajudariam os pequenos bancos, muito menos as empresas que venderam através deles suas mercadorias a crédito, indo, consequentemente, à bancarrota, o governo, apavorado com a queda da arrecadação que detonaria o PAC,  partiu para reforçar a oligopolização bancária estatal. Sinalizou que, na grande crise e em seu desdobramento, de agora em diante, confrontar-se-ão,  necessariamente, os oligopólios financeiros privados, de um lado, e o oligopólio estatal, de outro, para o bem e para o mal.

Nesse ambiente, em que o Ministério da Fazenda pregava juro mais baixo a ser praticado pelo Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e BNDES, como fator anticíclico, de modo a evitar bancarrota do setor privado, os bancos grandes jogaram no oposto, ou seja, sustentaram, e continuam sustentando, juros absurdos no crediário, embora a taxa báscia selic esteja em 9,25%, ficando em torno de 5% reais, descontada a inflação.

Isto é, a banca privada insiste em jogar dobradinha com o BC, monetarista de carteirinha, que não entendeu, ainda, que o neoliberalismo, com sua prática desregulamentadora, alavancadora em excesso e livre de fiscalização rígida, foi para o espaço. Sustenta juro alto o BC, quando todas as economias capitalistas desenvolvidas atacam de juro negativo.

Na última semana, por exemplo, o governo americano, em face da desaceleração da economia dos Estados Unidos, sustentou o patamar atual, ou seja, abaixo de zero o juro real, na esperança de promover reação das atividades produtivas, afetadas pelo excesso de endividamento das famílias, responsável por jogá-las na prática poupancista e não gastancista.

O lobista do setor industrial paulista tenta eternizar a isenção do IPI, mas joga contra o presidente, pois tal estratégia detona o PAC, pois implica em redução da arrecadação e revolta de governadores e prefeitos, sangrando o tesouro nacional em nome do discurso da produçãoO presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, em tais circunstâncias dramáticas, ficou cosinhando, com fogo baixo, o frango do juro alto, de modo a mantê-lo duro e intragável para o consumidor endividado, temeroso de gastar, levando, consequentemente, as empresas a correrem para o governo, a fim de pedir socorro em forma de desoneração fiscal, o que poderá rolar, nessa segunda feira, com prorrogação da isenção do IPI sobre compra de automóveis por mais 90 dias. Mas, até quando o presidente Lula vai atender o lobby dos industriais cujo patrono é o ministro Miguel Jorge?

Tal estratégia desonerativa  joga lenha na fogueira da queda da arrecadação. O presidente Lula percebeu a armadilha, pois, se se mantiver a isenção, recolherá redução dos ingressos tributários. Não terá dinheiro para o PAC e, pior, sofrerá pressões dos governadores e prefeitos, que padecem com a diminuição das transferências do IPI. O resultado, evidentemente, será bancarrota das prefeituras e governos estaduais, que, simplesmente, deixarão de cumprir com a Lei de Responsabilidade Fiscal(LRF). Nesse contexto, quer jogar dinheiro no bolso do consumidor , para ir às compras, e não do empresário, que embolsa, para manter constante sua taxa de lucro.

Serra sentiu todo o drama de Lula e Dilma, diante de um PAC tatibitate, intensificando seu ataque a Meirelles, que, se cair, terá dado sinal de evolução às críticas serristas em favor de um comando mais nacionalista para o BC.

Categoria: (Economia)

“Roubolation” ou autofagia eleitoral

Aylê Salassié em 10/mar/2010

Pode pintar vale tudo na campanha eleitoral que está se iniciando em que a autofagia tende a representar o papel principal em cenário no qual valem não as idéias, capazes de promover os mais preparados para a condução política do povo como seu representante legítimo, mas o baixo nível como expressão geral do perfil político nacional regado a dinheiro e muita corrupção, com a leniência dos juízes que estão deixando correr solto as antecipações de campanha, demonstrando laxismo criminoso. Salve-se quem puder à vista.

Agora foi , de fato, para assustar. Começa o período eleitoral, supostamente mais criativo, de natureza, entretanto, mais virulenta. Com a impunidade que ronda a nossa justiça, pode-se imaginar que a campanha de 2010 corre o risco de desandar  para uma violência jamais pensada ou , quem sabe, praticada até então. “Meu ouvido não é penico” é muito pouco para o que se insinua como passível de acontecer.Acompanhei campanhas em estados, e senti arrepios com o que vi, por exemplo, no Pará , onde amigos de infância, companheiros, confidentes, correligionários, circunstancialmente colocados como candidatos  aos cargos estaduais  em oposição, invadiam a intimidade  do outro, revelando publicamente detalhes grotescos e até moralmente comprometedores.

Vi estampado em páginas inteiras de jornais  o nome e a imagem de muitos candidatos, pessoas respeitadas na comunidade, transformados em “filhos de puta”, “ladrões”, “corruptos”, “mau caráter”, “cornos”, “depositários de dinheiro na cueca, na meia, na mala” e, em alguns casos, chegou-se mesmo a atentados  e assassinatos. Provocaçoes nao faltavam em qualquer comício  público, com o sentido de gerar tumulto e agressões gratuitas, com o uso sistemático da polícia pelo partido de plantão no governo.

Em Brasília mesmo, capital da República, fiquei assustado com os pares elaborando uma cartilha religiosa clandestina ilustrada comparando  o candidato da oposição ao “Diabo”, e identificando-o, por meio da citação de fatos da vida cotidiana e privada do opositor,  pontuando a sua condiçao de mensageiro do caos e até   das “maldiçoes”  e previsões catástróficas do Apocalípse. Nostradamus era pinto .

Estamos no aproximando novamente do que está sendo chamado musicalmente de “Roubolation”, a volta por cima de candidatos com processos na Justiça, corpo a corpo, grandes shows, faixas e cartazes mal produzidos e afixados em postes, muros , paredes,  pontos de ônibus, cobrindo, inclusive, informações de interesse público.

Passamos também pelo rádio, veio a televisão e agora está aì a Internet. Uma solução sofisticada, mas também uma imprevisível ameaça  . Pelos dados disponíveis da Codeplan, mais de 30% da populaçao vai acompanhar a campanha pela internet : não precisará ouvir e nem falar. Ela virá silenciosa, matreira, maldosa e rasteira . Chegará  ao internauta na residência , no escritório, no trabalho , ou mesmo na rua, diretamente e em tempo real por meio do twitter e outros recursos eletrônicos que as novas tecnologias estão disponibilizando, invadindo privacidades, como se estivéssemos todos participando de um grande Big Brother, não o da Globo, mas o do George Orwell. As amostras do que tem circulado sobre os políticos e candidaturas  são de assustar. E, só estou escrevendo este texto porque entrou no meu lap top um spam, envolvendo o Presidente da República, com o  seguinte teor:

“Fiquem atentos nos próximos dias!”
“Não abram nenhuma mensagem e/ou arquivo que fale mal do Presidente com o nome ” BRASILEIRO IDIOTA”, independente de quem a enviou”.· A mensagem é um vírus “que ‘abre’ uma tocha olímpica que ‘queima’ todo o Disco rígido do computador”. Algo muito louco “Este vírus virá de uma pessoa conhecida que tem seu nome em sua Lista de endereços” . É preferível receber 25 vezes esta mensagem, continua o email,  do que receber o vírus e abrí-lo”. É o pior vírus anunciado pela CNN e classificado pela Microsoft como o mais destrutivo que já existiu . Ele foi descoberto ontem à tarde pela McKafee e não existe Anti-vírus para ele.· O vírus destrói o Sector Zero do Disco Rígido, onde as informações Vitais de seu funcionamento são guardadas”

Insinua-se com algo tecnologicamente devastador. Ë o que se poderia chamar de eleitor autofágico, de fazer inveja a criatividade de Mário de Andrade. O cidadão não vai ter a opção de recusar mensagens. Mais grave é o fato de que se um candidato  fizer esse tipo de ameaça , o outro vai tentar agir da mesma forma. Será a  guerra digital no “Roubolation”, agora  assaltando “computadores, corações e mentes”.Salve-se quem puder. O Tribunal Eleitoral tem se mostrado excessivamente  vacilante ao discutir as regras para a campanha política de 2010 via internet. Ora, se ainda não pensou adequadamente sobre isso, é hora de agir, e imediatamente. Não se pode entrar numa campanha e ficar a mercê dos spamers, hackers, trackers , “galáticos” e das novas tribos que podem se multiplicar por aí impunemente  à luz da campanha eleitoral.

*Professor de Jornalismo Político e Econômico da Universidade Católica de Brasília

Categoria: (Cultura, Política)

Sucessão entre inflação e colapso cambial

Cesar Fonseca em 09/mar/2010

A sucessão presidenc ial 2010 pode se dar debaixo do dilema para o qual o ministro Mario Henrique Simonsen sempre alertava quanto ao comportamento das economias na periferia capitalista dependentes de poupança externa cujas consequências sempre são variações bruscas entre a existência de pressões inflacionárias, de um lado, e perigo de bancarrota nos deficits de balanço de pagamento, de outro. Aquelas, dizia, aleijam; este mata. A política cambial em curso no BC sinaliza a morte enquanto combate a inflação.

A política cambial sobe no palco eleitoral, podendo, em vez de dividir, unir os candidatos em disputa, porque tende a entrar em cena a necessidade de optar entre o pior, a inflação, e o péssimo, o déficit em contas correntes do balanço de pagamentos, agravado pelo ambiente da crise global. O candidato do PSDB, possivelmente, o governador de São Paulo, José Serra, vê necessidade de interferir no câmbio. Dão mostras dessa disposição serrista os economistas ligados aos tucanos, como o ex-ministro Bresser Pereira, em longo artigo, no jornal O Estado de São Paulo, no domingo, e o ex-secretário de Fazenda, Yoshiaki Nakano, no Valor Econômico, nessa terça feira. Ambos antevêem crise de balanço de pagamento que produzirá fuga de capitais, ou seja, depreciação forçada da moeda nacional e conseqüente pressão inflacionária. Da mesma forma, a candidata governista, Dilma Rousseff, de acordo  analistas petistas, que comandam fundos de pensão estatais, destaca a necessidade de maior atenção ao câmbio, que, sob juros altos prenunciados pelo BC, como arma de combate às pressões inflacionárias, detonará maior depreciação do real, pior desempenho das exportações, maior pressão sobre a dívida pública interna e, por isso, maior perigo de corrida cambial em face do aumento do déficit em contas correntes. Candidatos à presidência, oposicionista, de um lado, e governista, de outro, caminham, contraditoriamente, para uma convergência em seus diagnósticos relativamente à política cambial executada pelo presidente do BC, ministro Henrique Meirelles. O câmbio pega fogo. Controla o bicho ou deixa o bicho solto, como está, tensionando o ambiente econômico?

A estratégia do Banco Central pode, portanto, levar o país à inflação incontrolável ao sinalizar aumento das taxas de juros nos próximos meses com argumento de que está, antecipadamente, combatendo pressões inflacionárias. O raciocínio é simples: mais juro alto, mais apreciação cambial, maior pressão salarial, maior redução das exportações, maior pressão sobre o emprego, maior necessidade de poupança externa, para complementar a interna, insuficiente, maior, consequentemente, o déficit com contas correntes, que levam os especuladores a jogarem contra a moeda a partir de determinado instante quando antevêem perigos, cujas conseqüência são fuga de capitais traduzida em desvalorização cambial com resultados conhecidos, ou seja, mais inflação. Jogo manjado. O discurso de que a poupança externa é necessária para complementar a interna produz, ao final, baque cambial, especialmente, na periferia capitalista onde se cumpre a pregação de Marx segundo a qual a dívida externa é instrumento de dominação internacional. Num primeiro momento, diz ele, dinamiza; num segundo, cria insuficiência crônica de demanda efetiva global, que exige novos empréstimos, que implicam em aumentos de juros, juros compostos, sangria financeira etc. História da América Latina em profusão.

Colapso do populismo cambial

Dilma e Serra desconfiam da política monetária do Banco Central, que valoriza o real, bloqueia as exportações, aumenta o desemprego, reduz a arrecadação e eleva a dívida pública interna, forçando deficits em contas correntes, que , no cenário de incerteza e medo global, pode, em algum instante, desatar corrida contra a moeda nacional, levando a economia à combinação mortífera de inflação com deficit em contas correntes, estrangulando as atividades produtivas. Ela como ele vêem criticamente a política cambial meirelliana

O quadro econômico, depois da crise de 2008, agravou-se pela decisão do BC de reduzir, tardiamente, a taxa de juros, a fim de evitar colapso financeiro. Dificultou a ação do governo no sentido de agir anticiclicamente, como forma de manter a economia funcionando. Agora, antecipadamente, o BC sinaliza juros altos em meio ao aumento do endividamento fiscal governamental como fruto da política anticíclica, agravada, por sua vez, pelo fechamento protecionista dos mercados, bem como do aumento da competição comercial em escalada incontrolável. O protecionismo brasileiro, elevando tarifas de bens duráveis sobre importações americanas, para combater protecionismo americano contra exportações brasileiras de algodão é o retrato da guerra comercial global em marcha.

Os juros mais altos anunciados, previamente, pelo BC, rendido às  pesquisas realizadas pelos bancos privados(Focus), criam tensões inflacionarias potenciais, enquanto mistifica que está, com eles, combatendo a inflação. Afinal, juros mais altos atraem, para o Brasil, os especuladores de todo o mundo para jogar no real, a fim de fugirem do juro negativo em vigor nos países capitalistas desenvolvidos, às portas de novas bancarrotas.

O conteúdo real, oculto e latente da política monetária do BC, no ambiente de crise internacional, potencialmente, explosiva, é inflacionário, enquanto, na aparência vende-se o discurso de combate à inflação. Nesse sentido, entra em colapso o populismo cambial que os governos FHC e Lula mantiveram até agora em meio a uma instabilidade global que explodiu em bancarrota global.

O foco da questão passa a ser a política cambial. O excesso de moeda na circulação global transforma-se em fator incontrolável pelos governos, mantido o discurso do câmbio flutuante segundo o qual os mercados se ajustam automaticamente. Papo de Papai Noel. O governo Lula, antes da crise, foi, fartamente, favorecido pelo mercado de capitais global, super-abastecido, até que, em setembro de 2008, a farra acabou.

Escolha de Sofia

Em polêmica aberta com o economista Affonso Celso Pastore, o ex-ministro Bresser Pereira considera a poupança externa, para complementar a interna, fator de sobrevalorização cambial que leva a deficit no balanço de pagamento, no contexto em que vigora câmbio flutuante. Não dá mais, segundo ele, para sustentar a ficção de que os ajustes cambiais são resolvidos pelo livre mercado. Conversa de papai noel.

Brincadeira. Essa é a visão sarcástica de Nakano para classificar a convicção do BC de que o câmbio brasileiro é flutuante e suficiente para conter as tensões do fluxo de capital impulsionado, fundamentalmente, pela especulação, no cenário global de excesso de circulação de moeda especulativa. Faz-se necessário o dirigismo cambial em tal ambiente no qual predomina a desregulamentação da movimentação financeira global.














Os governos capitalistas ricos, ameaçados de empobrecerem, reduziram os juros, fortemente, para evitar bancarrotas das dívidas públicas, que, dialeticamente, crescem no lugar da inflação, de forma keynesiana, desde metade do século passado, no contexto capitalista global. Os bancos abarrotados de derivativos tóxicos somente se salvaram até agora, graças ao socorro dos governos americano, europeus e japonês. O que inicialmente favoreceu o consumo interno, isto é, a oferta substancial de poupança externa, na fase de bonança internacional, que permitiu ao governo financiar seus déficits em contas correntes, ao mesmo tempo em que gerava superávits comerciais expressivos, numa praça global compradora, virou em seu oposto. A praça compradora consumista virou praça poupancista, enquanto os especuladores, diante dos juros negativos, na Europa e nos Estado Unidos, deslocaram-se mais fortemente para a periferia capitalista, a fim de tentarem salvação emergencial.

Com isso, sobrevalorizaram moedas capitalistas periféricas, bloqueando, com tal sobrevalorização, o comercio exterior, ao mesmo tempo em que engordaram as dívidas públicas internas, agravadas pelas políticas fiscais anticíclicas. Nesse ambiente, em que a economia brasileira revela fôlego de gigante, para manter o mercado interno aquecido, mas, também, para suportar – não se sabe até quando – desaquecidas as exportações, em decorrência da apreciação cambial, as contradições se elevam extraordinariamente.

A política monetária do BC vai se aproximando do dilema contra o qual o ex-ministro Mario Henrique Simonsen alertava, nos momentos de grandes tensões: de um lado, a inflação aleija; de outro, o balanço de pagamentos mata. Para não morrer, o câmbio terá que ser alvo de novas ações governamentais. Vão deixá-lo solto para matar o paciente ou controlá-lo para , apenas, aleijá-lo? Escolha de Sofia.

Categoria: (Economia, Política)

Metamorfose legislativa evita intervenção

Paulo Timm em 06/mar/2010

O vigoroso parecer do deputado distrital Chico Leite, do PT, em favor da abertura do impeachment do governador José Roberto Arruda mudou o perfil da Câmara Legislativa da água para o vinho, sinalizando novo comportamento dos parlamentares, demonstrando virada de mesa da classe política em favor da moralidade política, de modo a evitar a intervenção, caso a Casa continuasse subordinada aos costumes deletérios da corrupção, compactuando-se com as práticas anti-republicanas adotadas pelo detonado ex-governador pelo Superior Tribunal de Justiça e mantido na cadeia pelo Supremo Tribunal Federal. Momento histórico.

Brasília foi inaugurada, com grande repercussão na mídia da época,  no dia 21 de abril de 1960, como vértice dos Anos Dourados e símbolo das esperanças nacionais na construção de um novo país, moderno e democrático. Terminava o Governo de JK naquele ano. Em ritmo frenético, em três anos e meio, o cerrado se abria para sua maior ferida urbana, pouco sentida num tempo em que o clamor pelo progresso era muito maior do que o lamento ambiental sufocado sob as lagartas dos tratores. A “Meta-Síntese” do Plano de Metas – na feliz expressão cunhada, supostamente, por Santiago Dantas, logo após o comício no interior de Goiás, no início da caminhada histórica de Juscelino rumo à Presidência, quando um popular , o “Toniquinho”, lhe encostou na parede indagando se iria cumprir a Constituição levando à cabo a transferência da Capital – estava consumada.

Quinta feira, dia 4 de março de 2010, faltando poucas semanas para o cinqüentenário da cidade, que já tangencia 2 milhões de habitantes, além de suas projeções metropolitanas,  Brasília volta , com grande intensidade, à mídia nacional, mas não para celebrar o orgulho dos brasileiros com seu feito marcante, transformado, pela UNESCO, em Patrimônio Cultural da Humanidade. Volta para enterrar o delírio cultivado por seu tresloucado Governador, José Roberto Arruda, também durante três anos. O “meio” (ano) , para equiparar-se ao tempo da construção da cidade, lhe será conferido para meditação atrás das grades… O Supremo Tribunal Federal decidiu negar-lhe o “habeas corpus”, enquanto a Câmara Legislativa aprovou por unanimidade dos presentes, por 19 a zero, a abertura de seu processo de “impeachment” Como disse o jovem  Alexandre a seu pai, Felipe da Macedônia, que tropeçara num pequeno banco, caindo ao solo, quando corria em sua direção para aplicar-lhe uma reprimenda por uma  pública malcriação: “ E ele queria conquistar o mundo…” . Curiosamente, estamos também hoje, no auge de um ciclo de euforia, com um Presidente da República em final de mandato, com mais de 70% de aprovação popular, graças, notadamente, à habilidade no manejo da economia, já moderna, numa conjuntura de grave crise internacional. Mas ninguém fala em “Meta-Síntese”, nem ninguém se importa com o feito “Brasília”, como símbolo do engenho e determinação do povo brasileiro. Já marcada como centro da endêmica corrupção dos costumes políticos no país, Brasília está, com e como o seu Governador, no pelourinho da des-graça, submetida ao crivo ácido de críticos mordazes. Um deles, Roberto Pompeu de Toledo,  colunista da Revista Veja, se compraz em crônicas depreciativas sobre a cidade que não conhece.  E no seu séquito multiplicam-se outros detratores. Não há jornal do país que não contemple, vez ou outra, um artigo ou editorial contra Brasília.  Nem mesmo o grande esforço da Beija-Flor na Sapucaí conseguiu recuperar a reputação da cidade, renovando-lhe a destinação como Capital da Esperança. A cidade parece condenada aos olhos da nação.Tanto quanto seu Governador.

Quem sobe aos píncaros das alturas se torna capaz das mais abjetas baixezas - essa pregação do ministro Carlos Ayres Britto expressou luminosamente a arrogância que tomou conta do governador Arruda, com seus sintomas de psicopata, para quem o outro significa apenas escada para ser utilizada em nome de propósitos obscuros. Com as coisas postas à luz da verdade, abre-se espaço para que o simbolismo que Brasilia sempre representou, isto é, a esperança, cumpra o seu mandamento, afastando o perigo do seu oposto, o medo e a vergonha.

Mas se esse é o olhar externo sobre a cidade, internamente, excitam-se e se exacerbam os ânimos como se fossem lanternas desencontradas na escuridão. A população parece estar divida entre os que desejam e os que lutam para impedir a Intervenção Federal, pedida pela Procuradoria Geral de República ao Supremo Tribunal Federal. Os intervencionistas alegam e apontam as metástases da máfia chefiada por Arruda.  A eles se associam os “desencantados” com a conquista da autonomia política da cidade, que levou, via Constituição de 1988, à eleição do Governador e dos representantes locais que compõe a Câmara Legislativa. Os não intervencionistas, mais cautelosos, o próprio PT local entre eles, através da palavra de dois de seus mais visíveis parlamentares , os deputados Cabo Patrício e Chico Leite, preferem a solução doméstica, menos traumática: A própria Câmara Legislativa elegeria, uma vez consumada a renúncia ou impeachment de Arruda – o que fica cada vez mais inevitável -, em pleito indireto, um Governador com mandato tampão até a posse do novo eleito, no dia 1º de janeiro de 2011.

Particularmente, acho o debate e a divisão sobre a Intervenção inoportuno e equivocado. Digo-o sem rodeios, pois fui o primeiro cronista, logo no início da crise, com a Operação Pandora, da Policia Federal, a clamar pela Intervenção e cheguei a escrever dois textos intitulados , justamente, “A Caminho da Intervenção – I e II”. Mas os fatos se sucederam. Veio a prisão de Arruda e seus mais próximos colaboradores, agora na Papuda. Paulo Octavio renunciou. A Câmara Legislativa pronunciou-se com severidade sobre a abertura do processo de cassação de Arruda. O Supremo decidiu pela sua permanência na cadeia. O esquema de sustentação do crime na grande mídia local, além dos 160 folhetins de qualidade discutível que eram mantidos a peso de ouro pelo GDF, desmoronou. Aliás, a Procuradoria já deveria ter entrado com Ação junto à Justiça determinando a suspensão de todo o tipo de publicidade do Governo local. A hora não é de propaganda, mas de reflexão. Ora, pois…

A Intervenção , ou melhor, sua “ameaça”, cumpriu seu papel, ao pairar como espada de Dâmocles sobre a cabeça dos políticos locais. Agora ela se converteu em apelação. Pensa-se que, através da Intervenção, soterrar-se-á a influência desses políticos no próximo pleito, abrindo caminho para a liquidação de  influência deles sobre a cidade.  Ledo engano. Não há razão técnica que se sobreponha à razão política, por pior que ela seja. O Interventor governará, em primeiro lugar, em obediência aos imperativos políticos da Presidência da Repúbica, leia-se PT, num ano de acirrada disputa eleitoral. Em segundo, governará com os aliados possíveis, capazes de engendrar um mínimo de consenso sobre suas ações. E esses aliados são os políticos locais, até bem pouco tempo atrás, aliados do Arruda:  Tadeu Filipelli, do PMDB, tão leal a Arruda que traiu descaradamente seu mentor , Joaquim Roriz, obrigado a se refugiar num pequeno Partido, como fez, aliás, em 1990; Augusto Carvalho, do PPS, a turma do Senador Cristovam Buarque, do PDT, o pessoal do Rollemberg , do PSB, e até da simpática Marina Silva, do PV.

Imagine se entre os altos propósitos muldimensionais da criação humana presentes nos espírios de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa aproximassem as desventuras dos pensamentos baixos de José Roberto Arruda, para conceber uma moralidade condenável como fator de administração de obras de artes voltadas ao encantamento humanista, sinalizando nova sociedade, novo tempo, nova dimensão humana! Impossível, não haveria espaço para o horrível diante da beleza!

Notícia do Correio Braziliense dá conta, a propósito, que todos eles já estão cinicamente reunidos e falando em “renovação”, com uma chapa própria encabeçada por um deles. Em muitos casos, também, acha-se que a Intervenção vai reinaugurar Brasília como cidade meramente adminsitrativa. Trata-se aqui da pior inspiração possível, pois não se reinaugura o que já está inaugurado há 50 anos e não se administram, sem critérios políticos, conflitos acumulados durante todo este tempo. Quem pensa assim não conheceu a Brasília dos Governadores nomeados, uma cidade sufocada em sua escala política sob os argumentos da tecnocracia ou dos mitos da grande  “arte” de Lucio Costa e Niemeyer. Embora transformado em chavão, nunca é demais lembrar que a democracia é o pior dos regimes, embora não se conheça outro melhor.

E, se estamos com problemas com a atual representação política da cidade, não será voltando atrás no seu passado autoritário que iremos melhorar a situação. Mas aprofundando cada vez mais a presença dos bons na vida pública, nos Partidos Políticos, nos amplos e variados movimentos e redes  que hoje caracterizam o advento de novos agentes sociais no cenário político. A renovação consiste em varrer da cidade a representação que aí está falando em renovação mas que nada fez para impedir a escalada da metástase arrudista no governo local. Alguém , por exemplo, já se perguntou de onde vieram os 14 votos que aprovaram o Plano Diretor, pouco tempo atrás, na Câmara  Legislativa e que teriam proporcionado, segundo denúncia, a cada deputado distrital R$ 400.000,00? Consiste, também, a renovação, na capacidade dos novos atores políticos para transformarem o acontecimento da prisão do Arruda , que consistiu na abertura de uma brecha no sistema político contaminado, para uma abertura do próprio pensamento sobre a cidade, sobre sua natureza específica, suas contradições, suas alternativas. Como diria Foucault : Estamos diante de novos “acontecimentos (…)que se constituem na “irrupção de uma singularidade única e aguda no lugar e no momento de sua produção” . Esta atualidade problematizada é uma “borda do tempo” que envolve nosso presente, que o domina, e que o indica como alteridade, isto é, como um entre diversos  caminhos.  Tal “problematização”, enfim, não é senão um modo de apropriação (deste) acontecimento através do questionamento de sua atualidade (e que) se constitui numa abertura do pensamento diante da abertura do acontecimento.

O pioneiro Ernesto Silva foi embora antes de ver o espetáculo da prisão do governador, mas teve tempo para perceber as manobras da bandidagem oficial a fim de levar a informação quente para JK, certamente, escandalizado com os acontecimentos e receoso de que seu nome familiar seja abastardado pelos interesses que se mesclam entre o governo e a classe empresarial na farra da corrupção brasiliense

Isso posto, proponho que se discutam três questões básicas que hoje envolvem a crise política da cidade e que estão a exigir urgente resposta:

1. Brasília: a cidade e a região – A experiência de Brasília consistiu na idéia de construir “uma cidade para uma região”. Isso acarretou a primazia do físico sobre o sócio-econômico. A tal ponto que se fala em “cidade planejada(!)” embora  não exista nenhum órgão na administração do GDF voltado à práxis do planejamento, em seu sentido amplo, tal como existe o IPARDES, no Paraná, a Fundação João Pinheiro , em Minas Gerais, a Fundação de Economia e Estatística, no Rio Grande do Sul, ou o IPEA, em escala nacional. A CODEPLAN, que operou precariamente com tal função, não só foi o epicentro da roubalheira do Arruda, através do seu Presidente Ex-Delegado Durval B ( A que ponto chegamos…! E ninguém reclamou…) está virtualmente desativada. O acervo de mapas e informações estatísticas, bem como Planos e Estudos sobre a cidade, perdidos em algum desvão da administração. Mas planejar o quê? O Plano Piloto, o DF, a Região Metropolitana? E como compatibilizar isto com os aspectos institucionais? Devemos incorporar o Entorno Metropolitano ao Distrito Federal, criar o Estado do Planalto Central? Retomar, com o apoio do Governo Federal e a malfadada invenção combinada de Arruda-Augusto Carvalho , a Região Integrada de Desenvolvimento do Entorno – RIDE ( Sim, Ride Palhaços…!, como na famosa peça do mesmo nome), a questão da consolidação da escala regional da cidade?

2. Brasilia : Civis x Urbs – Brasília , desde o plano que deu origem, tem uma função simbólica como capital da República, através do exercício de sua função como capital da República, e outra estritamente comunitária, que lhe deveria dar apenas sustentação funcional, mas que se agigantou, tanto pelo crescimento da população , como, também, pela conquista da autonomia política. Como restabelecer esse equilíbrio com um mínimo de prejuízos. Por muito tempo pensava-se que bastava estancar a oferta de terras públicas , enquanto programas bizarros como o “Retorno com Cidadania”, que consistia em  dar um banho nos pobres chegantes do Nordeste, ainda na Rodoviária , oferecendo-lhe um troco para voltar para os confins do sertão, onde se encheria de filhos, doenças e ignorância, afim de evitar o “inchaço” da cidade. Isso em plena Nova República, sob o reinado de Zé Aparecido no Buriti (Depois não sabem porque ele , de tão odiado, foi substituído por Roriz em 1988…) . Mas que fazer, agora? Só nos resta administrar politicamente o que aí está, com um mínimo de bom senso, o que não significa a mudança filosófica para um mundo novo de que nos falava Gramsci…

3. Distrito Federal x Estado : A permanência do invólucro institucional Distrito Federal combinada com a realidade proposta pela Constituição de 88, de plena autonomia política, sem qualquer condicionante que salvaguardasse o caráter simbólico da cidade com capital federal e Patrimônio Cultural da Humanidade, está a exigir uma profunda reflexão. Distrito Federal é uma herança doutrinária da experiência americana que consistiu em vazar uma parte do território nacional de qualquer substância federativa com o objetivo de assegurar ali, a primazia dos interesses nacionais envolvidos na condição  capital. Rigorosamente, o Distrito Federal, a conservar tal institucionalidade, deveria abrir mão de sua representação política no Senado, que é o lugar de afirmação dos Estados Federados. Então, se não é Estado Federado, lá não deveria ter voto. Quando muito, voz, como no caso americano. Seria o caso, então, de transformar definitivamente o  DF em Estado? Exigir que o Plano Diretor, como peça de salvaguarda da condição-capital-Patrimônio da Humanidade fosse aprovador por uma das casas do Congresso Nacional? E quais as implicações dessa mudança? As cidades administrativas se transformariam em Municípios, o Orçamento do Governo do DF ficaria restrito, apenas, às transferências vinculadas e arrecadação de impostos de competência exclusivamente estaduais, o Fundo Constitucional que mantém Saúde, Segurança e Educação poderia cair. Tudo isto, enfim, deve ser sopesado. E não será um Interventor a fazê-lo. Mas nós, brasilienses, em pleno gôzo de nossa capacidade como sujeitos éticamente construídos e esteticamente sensibilizados para fazê-lo.

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Paulo Timm , 65 – Economista, Pós Graduado pela ESCOLATINA, Universidade do Chile, Ex Presidente do Conselho de Economia DF, Ex Diretor Técnico da CODEPLAN – 1991-92, Secretário do Meio Ambiente 1993

Categoria: (Cultura, Política)

Espetáculo ditatorial pré-eleitoral

Cesar Fonseca em 05/mar/2010

As cúpulas partidárias manobristas bloqueiam a oxigenação político partidária no Brasil ao se posicionarem contra as prévias eleitorais que eliminariam os vícios de origem do processo eleitoral tunipiquim, alçando-o ao patamar das nações desenvolvidas, para deixarem como herança evolucionismo dialético. Evoluiram muito pouco em relação ao tempo da eleição a bico de pena.

No momento em que começa a esquentar a campanha presidencial, todos os partidos fogem da democracia político-partidária pré-eleitoral por intermédio das escolhas prévias dos candidatos pela comunidade políticamente organizada. A última determinação dentro do PT, por exemplo, é essa. Não há inocentes. O cultivo do vício é geral entre os partidos. Não estão acostumados com a democracia pré-eleitoral. As escolhas prévias não se dão democraticamente, mas pela ação ditatorial de coronéis  da política que mandam nos partidos, fazendo escolhas de cima para baixo e não o contrário, de baixo para cima. Contamina-se, dessa forma, todo o processo político eleitoral, lançando as bases da corrupção político partidária.  As ordens partem das cúpulas. Já pode ser considerado famoso o divórcio em 2010, por falta de prévias eleitorais, dos governadores de Minas, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra, porque não se entenderam sobre o modo democrático de escolha dos tucanos para disputar a presidência da República. O racha se acentuou e o famoso café-com-leite do PSDB não pode ser construído, pelo menos até agora, como evidenciou a resistência do titular do Palácio da Liberdade, essa semana em que Tancredo Neves, seu avô, completaria centenário de nascimento.

Como se verifica entre os tucanos, configurando lei geral, os rachas acontecem quando o império se desentende por dentro, desmoronando-se. A candidatura Serra é um ensaio de desmoronamento por dentro por ausência de democracia partidária. A democracia está cobrando seu preço por não estar sendo exercitada no interior dos partidos onde fluem os antagonismos sociais.  Os resistentes aos processos democráticos internos para se escolher melhor nome, para além das manipulações das cúpulas, estão por todos os lados. Dentro da aliança governista é fato corrente. A ordem dentro do PT, agora sob nova direção, do ex-senador e ex-presidente da Petrobrás, Eduardo Dutra, é evitar a disputa democrática por intermédio de prévias e buscar o consenso. A educação democrática é descartada, como processo de evolução política nacional. A palavra de ordem é buscar a qualquer custo acertos consensuais à revelia dos interesses comunitários aos quais as falsas lideranças dizem representar. O modo de agir das cúpulas petistas visa engordar, a partir de ordens de cima para baixo, a candidatura Dilma Rousseff.


Cúpulas invertem prioridades


As cúpulas fogem da oxigenação partidária porque se alimentassem ela poderiam desaparecer do mapa, já que suas existências estão ligadas não à democratização dos partidos, mas a transformação deles em armazéns de negócios por meio dos quais são negociadas a anti-democracia partidária, que mantém o país no eterno atraso político da governabilidade provisória.

As bases regionais, nesse sentido, não podem exercer o contraditório, lei natural da política, como fator de evolução democrática dos povos. Assim, em vários estados, como Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo etc, o impulso democrático da disputa é negado como evolução, para dar lugar à involução, que considera aquela um insulto. As prévias, que se constituem na arma da comunidade, para, através das agremiações partidárias, escolher os melhores representantes comunitários, de acordo com o princípio maior de que o poder popular está nos municípios, nas bases primárias da organização política, transformam-se em fantasma dos quais as cúpulas partidárias anti-democráticas fogem , desesperadamente. O vício antidemocrático, representado pelo repúdio às prévias, em favor da busca de consenso que representa, quase sempre, interesses contrários aos da comunidade, que repudia os costumes dos coronéis eletrônicos da política, ditadores das máquinas partidárias, constitui a mãe de todas as corrupções. O consenso, manipulado por pesquisas de credibilidade duvidosa, acaba se transformando em bloqueio às pressões, que são substituídas pelos interesses de grupos aliados, invariavelmente, pelo poder do dinheiro e das articulações, planejadas para perpetrar interesses, se mantidos no poder.

O maior partido do país, o PMDB, da mesma forma que o PSDB e o PT, dá mostra explícita de negação dos interesses das bases partidárias. Os defensores da disputa interna dentro do partido falaram alto na última reunião nacional dos peemedebistas. A pregação das prévias ecoou forte, mas a cúpula manobrou e evitou que o histórico PMDB, mais uma vez, compareça à eleição presidencial com candidato próprio a presidente. Vai, assim, ser formada possível chapa governista não escolhida em prévias eleitorais democráticas. De um lado, no dedaço, ao largo da discussão dentro do PT, o presidente Lula escolheu sua candidata, a ministra Dilma Rousseff; de outro, seu maior aliado, o PMDB, do mesmo modo, caminha para indicar um vice, possivelmente, o  deputado Michel Temer, presidente da Câmara, sem escolha prévia partidária. Ao mesmo tempo em que o repúdio às prévias partidárias se intensifica a partir dos comandos partidários coronelistas, no Congresso, todos os partidos se articulam para que não seja votado projeto de lei de origem popular, com quase dois milhões de assinaturas, colhidas em todo Pais, que proíbe participação, nas eleições, de candidatos fichas sujas, cujas origens se assentam no modo invertido, viciado, antidemocrático, de se fazer política no Brasil, isto é, sem a participação popular no âmbito partidário.

A inversão, por sua vez, constitui a raiz da corrupção e da conivência com legislação eleitoral laxista que desregulamenta objetivamente o poder do dinheiro para as campanhas eleitorais. As máquinas partidárias, construídas por pensamentos de cúpula, arredios à oxigenação partidária por meio de prévias eleitorais, que dão voz à comunidade, transformam-se, nesse contexto de inversão de prioridades, em balcões de negócio. Quem der mais leva o direito de ser candidato. Em vez de oxigenação, tal processo promove a intoxicação político-eleitoral.


Novo horizonte argentino


A realização das prévias eleitorais no dia 4 de agosto de todo o ano eleitoral de forma obrigatoria entre os partidos para escolha dos seus candidatos às eleições presidenciais e proporcionais por meio de filiados e não filiados das agremiações representa garantia de oxigenação democrática e fim do domínio das cúpulas antidemocráticas que freiam a evolução dos costumes políticos na periferia capitalista.

Os partidos deixam de constituir-se em sua essência, ou seja, condutos pelos quais circulam os antagonismos sociais, para se transformarem em moeda de troca que abomina o contraditório democrático. Como predomina, no Congresso, o poder do mercado financeiro, que impôs à Nova República a governabilidade por meio de MPs – medidas provisórias – , a escolha democrático partidária se transforma em incômodo, em problema em vez de solução.

O grande escândalo político que se desenrola no Distrito Federal, com a prisão do governador e a renúncia do vice, estando a sociedade sob perigo de intervenção pelo Supremo Tribunal Federal, é a expressão acabada da deterioração geral dos partidos políticos no ambiente em que inexiste a renovação partidária por intermédio das prévias eleitorais, que mobilizam a comunidade políticamente organizada. Nesse sentido, a grande evolução, na América do Sul, nos últimos tempos, expressa-se na reforma política e eleitoral ocorrida na Argentina, no final do ano passado. O Congresso aprovou lei eleitoral em que a base da renovação política se dá por intermédio da comunidade que comparece em todo o dia 4 do mês de agosto de ano eleitoral para escolher, simultaneamente, os candidatos dos partidos em prévias eleitorais obrigatórias. As escolhas são realizadas tanto pelos filiados como pelos não filiados dos partidos, de modo que se pode votar em prévias dos diversos partidos, como direito comunitário na escolha dos candidatos que irão às disputas majoritárias e proporcionais. Por esse processo, os e as candidatas escolhidas já saem com as fichas limpas, porque, evidentemente, os fichas sujas não passarão pelo crivo das prévias.

Os presidentes do Senado e da Câmara, senador José Sarney e deputado Michel Temer, respectivamente, fugiram como o diabo da cruz desses assuntos nos últimos tempos, como dirigentes do PMDB. Do mesmo modo, a presidência da República fez corpo mole nas discussões parciais sobre reforma política. Não evoluíram, simplesmente, porque seria necessário encarar o câncer político que impede as reformas políticas, ou seja, o financiamento de campanha bancado pelos caixas dois eleitorais. Enquanto na reforma político eleitoral argentina torna-se obrigatória  verba pública orçamentária para financiar as campanhas, eliminando, com as prévias, os caixas dois, no Brasil vigora o laxismo criminoso em face da predominância dos interesses de cúpula que resistem à oxigenação político eleitoral que as prévias necessariamente representariam como evolução dos costumes políticos nacionais.

Categoria: (Cultura, Política)

Serra ressuscita Lulécio para bombar Dilmécio

Cesar Fonseca em 04/mar/2010

Lulécio - Lula + Aécio - pode estar por trás da jogada político eleitoral do governador mineiro em resistir à parceira com o governador José Serra, que rechaçou as prévias eleitorais dentro do PSDB, afastando Minas de São Paulo. Poderia pintar o mesmo jogo de Aécio no segundo turno da eleição de 2006 em que apoiou Lula e rifou Alckmim? Quem sabe não está em curso um jogo Lula-Aécio para 2014? Tancredo seria o espírito que está soprando algo nesses dias em que se completa centenário dele?

A impossibilidade da formação de uma chapa puro-sangue Serra-Aécio ou Aécio-Serra, para viabilizar o tucanato,  decorre da ausência total de democracia no processo eleitoral brasileiro na escolha dos candidatos partidários para as disputas presidenciais. O Brasil, nesse ponto, teria que aprender com a Argentina, onde essa questão foi, brilhantemente, superada pela presidente Cristina Kirchner ao final do ano passado, mediante reforma avançada. Se os tucanos tivessem realizado prévias eleitorais para escolha do seu candidato, base da reforma portenha, toda a angústia que se verifica, no momento, não existiria.

O governador de São Paulo, José Serra, resistiu, tenazmente, à proposta do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, nesse sentido. Ambos teriam percorrido o país de ponta a ponta na preparação da escolha, movimentariam as bases tucanas em todo o território nacional, teriam oportunidade de apresentar suas idéias, elaborariam, nesse processo, as linhas básicas de programa governamental, discutiriam a questão com a sociedade, a mídia , certamente, daria grande cobertura ao assunto etc e, consequentemente, emergiria aquela força energética decorrente da paixão político eleitoral vibrante na escolha político-partidária. Se desse Aécio, a chapa seria Aécio-Serra; se desse Serra, Serra-Aécio, conforme o desejo dos eleitores. Mas, não. Serra, demonstrando autoritarismo, não topou a parada. O ex-presidente FHC anteviu o impasse, pregou as prévias, mas não conseguiu emplacar proposta renovadora democrática dentro do tucanato.

Serra estaria com muito mais confiança, agora, para enfrentar Dilma Rousseff, se tivesse saído escolhido de prévias eleitorais, que atrairiam o apoio de Aécio a sua candidatura. Como quis impor seu nome, está deixando de somar, para dividir. Divididos São Paulo e Minas, o tucanato dança, porque não tem nome no Nordeste para rivalizar com Lula. Serra paga o preço de querer o todo para si e não perceber o outro em si mesmo.

O governador mineiro sentiu o poder paulista querendo se afirmar a ferro e fogo a partir do Palácio dos Bandeirantes e o assunto criou animosidade entre os dois líderes tucanos. Os mineiros, que se sentiram desrespeitados, prepararam o discurso de Minas, ou seja, silêncio e resistência. Os paulistas excitaram-se extraordinariamente.

Os mineiros, por sua vez, sentiram seus brios afetados. Dispuseram-se à ruptura, como aconteceu em 1930, diante da insistência paulista em continuar ocupando a presidência da República, rompendo com pacto histório. O café-com-leite não se configurou. Virou água com azeite. Por que teria que configurar-se diante de posições rígidas a união Minas-São Paulo, no momento em que os paulistas, sob Serra, tentam impor seu jogo no peito e na raça? Deu no que deu.

O problema é que se o café não misturar com o leite, dificilmente, os tucanos paulistas chegam ao Palácio do Planalto. O que farão os tucanos mineiros aborrecidos com o autoritarismo bandeirante?  O viés anti-democrático não se verifica, apenas, entre os tucanos.

Pode pintar defecções, como aconteceu na eleição passada, quando os tucanos mineiros abandonaram os tucanos paulistas e apoiaram Lula. Aécio pode fazer isso? Por que não, se aprendeu a desconfiar da arrogância serrista, que negou a Minas o direito das prévias eleitorais? Serra dançou ali, e pode pagar o alto preço. Aécio cuidaria da candidatura de Anastasia, igualmente, escolhido no dedaço, sem prévias, confirmando o anti-democratismo geral, ao Palácio da Liberdade. Deixaria o terreno aberto para Dilma, de leve. Ou seja, a ausência de prévias eleitorais em vez de unir rachou os tucanos. É a expressão anti-democrática explícita do processo eleitoral brasileiro.


Vicio anti-democrático


O Senador Eduardo Suplicy paga alto preço por ter insistido em disputar prévias eleitorais dentro do PT, desafiando o candidato Lula que viria a ser presidente. Violou o espírito coronelista que toma conta das cúpulas partidárias no Brasil, ainda não evoluídas para um processo político que respeita a escolha popular no interior dos partidos, como passa a acontecer na Argentina, depois da reforma eleitoral aprovada pelo Congresso no Governo Cristina Kirchner. Sem prévias, não há candidatos com suficiente credibilidade. Por meio delas, obtém-se os verdadeiros candidatos fichas limpas obtidas no processo de escolha comunitária. Serra está dançando por isso. É o preço cobrado pela democracia.

Dentro do PT rola a mesma coisa. A tentativa do senador Eduardo Suplicy encontra o mesmo autoritarismo petista pela frente na sua tentativa de introduzir práticas democráticas nas escolhas prévias. O senador paulista, um dos mais importantes políticos do país, conseguiu levantar a ira de toda a petelhada, quando, em 2002, decidiu disputar as prévias para a escolha da presidência da República com o presidente Lula. O líder metalúrgico se sentiu agredido e desde então Suplicy é tido como ovelha negra na família petista. Ousou enfrentar Deus, o onipotente Lula. As cabeças coronelistas das cúpulas partidárias estão assentadas em todos os partidos. Agora, o senador paulista tenta, novamente, lançar seu nome nas prévias, para disputar a sucessão de José Serra. De novo, a mesma resistência se levanta. É como se representasse um gesto autoritário e não democrático tal tentativa.

Os líderes do PT em São Paulo se movem de todas as formas para impedir o propósito suplicista. A democracia brasileira é pura fachada. A Constituição é amplamente divulgada e respeitada, em sua aparência, mas em sua essência é jogo de palavras. Os candidatos não seguem as regras do compromisso democrático. A começar pelo presidente da República. Escolheu sua candidata à revelia do partido e os petistas tiveram que engolir. O presidente Lula demonstra formalmente sua filiação aos preceitos democráticos, mas não segue a prática, quando diz respeito à candidata que tentará emplacar. Os modos de escolha são na base do dedaço. E quem ousou contrariar é jogado às feras, como ocorre com Suplicy.

Lula o isola, completamente, mesmo sabendo que o grande triunfo político do governo tem suas raízes, também, na luta de Suplicy para garantir renda mínima aos miseráveis, o que não deixa de representar uma variação do Programa Bolsa Família. Nunca, dentro do Palácio, o presidente Lula jogou para cima o feito político estratégico de Suplicy como contribuição do partido às políticas sociais no país. O titular do Planalto não gosta de dividir com o outro o prestígio dele. A frieza petista à nova investida supliciana é manifestação de espírito anti-democrático partidário, concernente ao comportamento dos demais partidos em matéria de democracia eleitoral.

O PMDB é outro poço eterno de anti-democracia, embora o espírito democrático peemedebista furado seja cantado em prosa e verso. Não se dignaram os comandantes do PMDB a batalhar a democratização partidária pela promoção das prévias. Escolhe-se de cima para baixo os caciques e o resto tem que engolir. O governador nacionalista do Paraná, Roberto Requião, defende as prévias. Mas, por ser, justamente, pregador da democracia partidária, recebe o esfriamento político peemedebistas necessário.


Coronelismo eletrônico ditatorial


A pregação das prévias eleitorais ecoou no último congresso nacional do PMDB, mas as lideranças taparam os ouvidos olimpicamente, para alinhar ao partido à vice-presidencia da República, enquanto capava a formação de lideranças peemedebistas nacionais, que ambicionam disputar democraticamente a presidência da República, como o governador Roberto Requião

A proposta requiana, a exemplo da de Suplicy,  é vista como um insulto.

Os democratas, idem. É tudo acerto de cúpula, jogada de coronéis eletrônicos. Tudo se subordina a uma armação anti-democrática. O presidente Lula escolhe ditatorialmente sua candidata e acerta com os líderes dos partidos da coalizão governamental o palanque no cenário político eleitoral nos 27 estados da federação.

Não se tem nenhum estímulo à democratização político partidária. Em Minas Gerais, por exemplo, o ministro Patrus Ananias, do PT, propõe prévias eleitorais dentro do partido, porque deseja ser candidato, mas a cúpula é contra, para que haja acerto prévio, a fim de armar a coligação entre PT-PMDB, dispondo os peemedebistas da cabeça de chapa com o ministro Hélio Costa, tendo como vice o petista Virgilio Guimarães.

E os eleitores , na comunidade, que, na democracia verdadeira, escolheriam os candidatos para a disputa, como é que ficam?

Na Argentina, Cristina Kirchner conseguiu aprovar no Congresso a reforma que daria exemplo ao Brasil. A cada agosto de ano eleitoral, os partidos vão aos urnas, simultaneamente, para escolha dos seus representantes, com o detalhe de que eleitores e eleitoras com ou sem filiação partidária possam comparecer às prévias de um ou vários partidos, para influir, democraticamente.


Divórcio São Paulo-Minas


Os petistas dão as costas a um a liderança autência do PT que deseja disputar as prévias, porque precisam atender os acertos de cúpula entre o presidente Lula e a coalizão partidária, para favorecer o PMDB nas Gerais em nome do interesse maior que é eleger Dilma. Mas, e os eleitores que desejam as prévias, não são consultados?

Ou seja, o candidato sai das prévias para a disputa nacional devidamente avalizado, com ficha limpa.

Essa prática, no Brasil, no contexto em que as cúpulas coronelísticas eletrônicas determinam os resultados a partir das cartas puxadas do bolso dos coletes, significa sonho de noite de verão.

Em vez de a oxigenação democrática vir de baixo para cima, influenciando as decisões em escala crescente, como é o caso do processo eleitoral, nos Estados Unidos, em que o espetáculo das prévias eleitorais conduzem o sentimento popular ao qual as cúpulas se rendem, nas terras tupiniquins ocorre o oposto, as ordem vêm de cima para baixo, em escala decrescente. Não há democracia efetiva, apenas, formal, sem carimbo popular vibrante.

O governador José Serra é um exemplo acabado de resistência à democracia partidária. Como não emergiu como fruto da vibração político partidária tucana , obtida em prévias que promovem a emulação eleitoral irresistível, cuida de atrasar o anúncio da própria candidatura, pois encontra ela parcialmente queimada em Minas Gerais.

Cuidou, o tempo todo, de não abrir mão da cabeça de chapa, recusando a escolha pré-eleitoral. Compreensivelmente, está inseguro, sem vibração, vendendo , em vez de vitalidade, medo. Medo da democracia pré-eleitoral.

Por ter fugido dela, dividiu o partido , impedindo a união dos dois colégios eleitorais mais potentes do país, Minas e São Paulo. Como Minas não viu seu direito respeitado, não aceita, consequentemente, ser empurrada para uma situação esdrúxula por São Paulo.

Pode pintar o mesmo que aconteceu no segundo turno da eleição de 2006. O governador Aécio Neves jogou discretamente a favor de Lula e vendeu ao diabo a alma de Geraldo Alckmim.Não estaria já sendo costurada entre Lula e Aécio alguma jogada para 2014?

Vai pintando repeteco não muito afinado com o que aconteceu em 1930, cujo desfecho foi revolução, enquanto que , agora, em 2010, está sendo evolução. Minas e São Paulo se encontram no centro dos acontecimentos.

A separação entre ambos provoca atritos. Em 1930, Minas se uniu a um candidato do Rio Grande do Sul, depois de separar-se de São Paulo. Deu Minas e Rio Grande do Sul, com um gaúcho chegando ao poder, rompendo-se o histórico café-com-leite.

Em 2010, Minas se aparta de novo de São Paulo, para se unir a quem? A uma candidata que fez carreira no Rio Grande do Sul, sendo mineira de nascimento, herdeira do poder popular lulista? Ou emergiria a candidatura Aécio, percebendo Serra que será uma fria sair sem o titular do Palácio da Liberdade como companhia segura? O titular dos Bandeirantes preferiria disputar segundo mandato?

Que traumatismo ou que evolucionismo político decorreria de eventual nova separação São Paulo-Minas?

Categoria: (Cultura, Política)