04 nov
2010De bandida a heroína no JN
Categoria: (Política, TV) por Cesar Fonseca em 04-11-2010

Eis que de repente, não mais que de repente, como diria o poetinha Vinícius, ela de fera vira bela e se transforma no belo artístico superior ao belo natural, fazendo o poder midiático exercitar o mais fantástico puxa-saquismo jamais visto no panorama da comunicação. A essência contida na campanha eleitoral, transbordada em opiniões fortes que injetam o ânimo geral nas mulheres brasileiros, vira expectativa geral. O poder feminino entra em cena com tudo.

Eis que de repente, não mais que de repente, como diria o poetinha Vinícius, ela de fera vira bela e se transforma no belo artístico superior ao belo natural, fazendo o poder midiático exercitar o mais fantástico puxa-saquismo jamais visto no panorama da comunicação. A essência contida na campanha eleitoral, transbordada em opiniões fortes que injetam o ânimo geral nas mulheres brasileiros, vira expectativa geral. O poder feminino entra em cena com tudo.
Aos pés da Santa Cruz, você se ajoelhou…. Não, não se trata do belo samba de Zé Gonçalves e Marino Pinto, na interpretação magistral de JG. William Bonner, apresentador do JN, nessa segunda, interpretrou Aos pés da Santa Dilma. Ele e Fátima se ajoelharam e juraram um grande amor, mas cumprirão a jura?
O puxa-saquismo jornalístico global chegou ao auge no JN no dia seguinte ao da vitória da primeira presidente do Brasil. Bonner a recebeu de pé, extremamente cordial, como se buscasse conquistar uma cliente de altas proporcionalidades. Abriu-lhe os braços, estendeu-lhe as mãos e como extremo cortesão puxou-lhe a cadeira para o assento a fim de ser entrevistada diante dos milhões de telespectadores e telespectadoras. Mesuras, mesuras, mesuras.
De um lado, o poder global e sua representação em forma de Bonner. De outro, a nova presidente, a representação da maioria do povo brasileiro. Um poder à altura do outro poder, conversando em casa? “É - como disse Bonner – um prazer a senhora vir à nossa casa. Consideramos como uma deferência”.
Em uma visita não se trata de jornalismo, mas de cordialidades….
A tentativa de informalidade total foi extremamente forçada como se estivesse o poder global recepcionando em um grande salão de festas e acontecimentos excepcionais um ser extra-terrestre. E mais, que esse ser extra-terrestre fosse apresentado ao público como alguém a quem o gesto de cordialidade global guardasse inteira receptividade do espírito cordial da entrevistada em igual proporção de identificação e deferência por estar ela pisando no palco do poder que tudo pode para formar a cabeça dos brasileiros.
Dilma teve o seu dia de raínha na Globo. Por essa razão, é quase uma questão de praxe que a classe política renda eternas deferências e graças a esse poder. Tem sido assim. Continuará desse jeito com a primeira mulher presidente do Brasil?
O melhor governo, como diria Stanislaw Ponte Preta, é o próximo….
Como um lobo vestido de cordeiro, Bonner deu um beijinho simbólico nos pés da santa, que sofrera com as perguntas venenosas e ardilosas anteriormente dirigidas a ela por ele durante a campanha eleitoral, enquanto aliviava nos questionamentos o candidato da oposição, José Serra, levantando bolas para ele chutar.
No dia anterior, Dilma era tratada quase como uma bandida. Depois, da vitória virou heroína. Antes, a personagem era vulgarizada na condição de ex-guerrilheira que combateu a ditadura militar, padrinha política, por sinal, da Rede Globo. Vendeu-se a imagem de um comportamento que não seria adequado como exemplo para a sociedade.
Obrigado pela deferência…

A construção da história real forçada pela necessidade de correção de uma visão distorcida, politicamente, construída, durante a campanha eleitoral, para dar conteúdo ao poder midiático global cuja essência não é investigar o poder, mas de tentar controlá-lo, enquanto se julga essencialmente infenso a qualquer controle para levar os governos aos rumos que mais lhe convier. Hoje, uma posição; amanhã, a negação do ontem. Dilma era o demônio guerrilheiro; hoje a heroína nacional.

A construção da história real forçada pela necessidade de correção de uma visão distorcida, politicamente, construída, durante a campanha eleitoral, para dar conteúdo ao poder midiático global cuja essência não é investigar o poder, mas de tentar controlá-lo, enquanto se julga essencialmente infenso a qualquer controle para levar os governos aos rumos que mais lhe convier. Hoje, uma posição; amanhã, a negação do ontem. Dilma era o demônio guerrilheiro; hoje a heroína nacional.
Uma guerrilheira da liberdade recebeu, durante a campanha, a conotação de uma transgressora das leis. Fora tratada como que dotada de radicalismo inconstitucional que traria perigo para a Constituição, visto ser seu exemplo de guerrilheira incompatível com as instituições democráticas em vigor no país. Quis em determinado momento o poder global projetar no presente o passado manipulado para se faturar no futuro, que já começou na formação do novo governo.
Jamais havia sido tratada como rebelde por conta da reação patriótica contra a supressão da democracia. Antes, pelo contrário, teria sido uma transgressora marginal . Não seria, portanto, conveniente tê-la no comando político nacional.
Esforçaram-se os poderes midiáticos conservadores, ligados às forças econômicas e financeiras tradicionais, que sempre atuaram com o espírito de cúpula , no sentido de queimar a candidata ex-guerrilheira, apresentando-a como mau exemplo para as futuras gerações. Reconhecer seu papel histórico concreto e real seria plantar sementes de insubordinação social no espírito da juventude.
Conferiram uma imagem negativa para o passado de Dilma, durante a campanha eleitoral, como comprovaram as matérias publicadas pela Folha de São Paulo, que esteve, em 1964, ao lado dos ditadores que tocaram, segundo ela, uma ditabranda e não uma ditadura.
Pintaram-na de bagunceira, que teria assaltado, matado e trucidado. Os métodos guerrilheiros, pautados, na mentira como necessidade de sobrevivência, e na pouca transparência de ações determinadas por circunstâncas excepcionais, generalizaram-se como característica inata da personalidade da candidata que venceria a grande mídia. Não cuidaram das causas, mas da falsificação delas.
Bastou, no entanto, a vitória dilmista se consolidar, para o poder global virar-se pelo avesso e buscar contar a história da nova presidente não mais como uma bandida perigosa para as instituições democráticas, mas, justamente, o oposto, como verdadeira heroína, uma neo-Joana Darc, que entra para o panteão dando exemplo dignificante a ser ressaltado, certamente, nos livros educativos para o despertar da consciência nacional.
Estabelece-se, portanto, no ato da vitória de Dilma, uma reversão das escrituras sagradas da história, para demonstrar que jamais Dilma conspirou contra a democracia, mas, sim, lutou em favor dela para não vê-la morrer sob as botas dos ditadores.
Eu uso o poder

Sim, eu uso o poder. Eis a marca do tubarão da imprensa nacional que ergueu seu poder à sombra do regime militar ditatorial conferindo ao poder global a onipotência que julga dispor não apenas para noticiar mas principalmente controlar, a fim de exercitar o que considera liberdade de imprensa. Ser controlado, jamais. Seria tentativa de cercear sua atividade essencial.

Sim, eu uso o poder. Eis a marca do tubarão da imprensa nacional que ergueu seu poder à sombra do regime militar ditatorial conferindo ao poder global a onipotência que julga dispor não apenas para noticiar mas principalmente controlar, a fim de exercitar o que considera liberdade de imprensa. Ser controlado, jamais. Seria tentativa de cercear sua atividade essencial.
O passado pintado pela grande mídia especulativa – que passa a fazer jornalismo puramente imaginativo, como verdade científica do imaginário jornalístico, a exemplo do comportamento anti-jornalístico da revista Veja, ao traçar perfil de Lula semelhante ao de Fidel Castro pela simples conclusão tirada de gestos aparentemente semelhantes apresentados pelos fotógrafos – bate de frente com um presente que o nega.
Trata-se do confronto entre o real e a distorção. Tentaram escrever a história maldita de Dilma como guerrilheira inconveniente à democrracia. Passam a ser obrigados a retratar a verdade que buscaram esconder como verdade democrática, a de se lutar pela afirmação da democracia.
Ao final , o cordeiro vestido de lobo perguntou à ovelha santa Joana Darc se ela manteria de pé a liberdade de imprensa, ou seja, a liberdade de constuir falsos fatos, como o de menosprezar as ações dos resistentes à ditadura, que a história ressaltaria como edificantes e não desestruturantes para a formação da consciência verdadeiramente democrática.
Para o poder global, faz-se indispensável que prevaleça os pressupostos inscritos no editorial da casa que foi expresso por William Waack, a propósito do que entende ser a liberdade de imprensa integral.
Diz ele ser ortodoxo e dogmaticamente radical contra qualquer tipo de controle do governo sobre a mídia, mas, inteiramente, a favor do controle da mídia sobre o governo. A mídia é uma grande indústria que terá que ser enquadrada num marco regulatório, pois, evidentemente, envolve-se no complexo da tecnologia de comunicação que precisará ser amplamente discutido para evitar a continuidade do oligopólio familiar midiático existente que Waack considera indispensável dispor do poder incontrastável de controlar o governo. Brincadeira de candidato a puxa saco permanente do poder midiático oligopolizado.
Falou em termos de poder. O chamado quarto poder, que vocaliza os interesses absolutamente conhecidos, na construção da história contemporánea capitalista, pode controlar, mas, jamais, ser controlado por outro poder.
Ocorre algo mais além do que essa formulação dogmática williamwaackiana a respeito do papel do jornalismo nas hostes do poder global. Ela guarda sintonia total com a famosa formulação maior proferida por Roberto Marinho, no auge do poder militar, quanto se transformou no porta-voz da didatura: “Sim, eu uso o poder”, como destaca, em seu livro “A história secreta da Rede Globo”, o jornalista Daniel Herz. A nova correlação de forças políticas que sai das urnas permitirá essa promulgação da liberdade total midiática sem respalto popular, mas, apenas, ancorada no capital?
Se o jogo da grande mídia, que se auto-intitula o quarto poder, é o de controlar o governo, tal controle, sabendo que a voz dela é a voz do capital, trata-se, essencialmente, de colocar o capital como o controlador das ações governamentais. Historicamente, a tradução desse controle é a manipulação do exercício do poder, de acordo com as vontades do quarto poder, o poder midiático.
A voz do dono

O apóstolo dogmático favorável ao controle do governo pela mídia é o inconsciente coletivo dos donos dela para manter as rédeas do estado com base na verdade do capital que expressa como empresa de informação, apresentada em seu caráter mecanicista partidário enquanto parte do todo com a visão parcial e não ampla, sem credibilidade, portanto, para ser imparcial, como, aliás, demonstrou na campanha eleitoral.

O apóstolo dogmático favorável ao controle do governo pela mídia é o inconsciente coletivo dos donos dela para manter as rédeas do estado com base na verdade do capital que expressa como empresa de informação, apresentada em seu caráter mecanicista partidário enquanto parte do todo com a visão parcial e não ampla, sem credibilidade, portanto, para ser imparcial, como, aliás, demonstrou na campanha eleitoral.
Waack, inteligente e articulado, durante a campanha eleitoral, em que a grande mídia exerceu a liberdade do capital, para inverter o conceito de patriotismo da guerrilheira Dilma, a fim de apresentá-lo como fator negativo e não positivo, emergiu como verdadeiro ideólogo dos interesses globais, para além do jornalismo investigativo.










Apesar do presidente Lula pregar a redução dos juros praticamente todos os dias, apesar do vice-presidente José Alencar reclamar diuturnamente que “o nosso discurso de campanha de 2002 ainda não chegou ao poder”, forças aparentemente misteriosas e supostamente sobrenaturais fazem com que o Brasil ainda tenha a mais elevada taxa de juros do mundo. O que acontece de fato? Inspirado no título do excelente documentário “A revolução não será televisionada”, reivindicamos aqui que o palco onde estão sendo tomadas todas as decisões para manter os juros nas alturas – a Reunião do Comitê de Política Monetária – precisa ser iluminado, precisa ser escancarado à opinião pública, precisa ser didaticamente televisionado.
Observa-se toda uma tentativa dos meios de comunicação capturados pela tirania vídeo-financeira privada de desmoralizar algumas das tímidas mas acertadas medidas de Lula para facilitar o acesso ao crédito, para baixar os juros, para estimular a produção. Durante seis anos de governo, apesar da chiadeira diuturna e militante do vice-presidente José Alencar denunciando os juros altos como sabotagem à produção e à geração de emprego, apenas muito suavemente se observa uma redução parcial nos juros. Mas, as resistências são gigantescas. Os comentaristas da tirania vídeo-financeira – os mesmos que recomendaram as políticas neoliberais de estado mínimo e desregulamentação que levaram à crise do capitalismo atual – agora tentam esconder sua responsabilidade incontornável pela crise fugindo para a frente. Um verdadeiro tom de campanha é que o que vemos no tratamento nada jornalístico sobre a recente demissão do presidente do Banco do Brasil, apresentada como se fosse uma temerária intervenção política de Lula numa instituição financeira que “está dando certo”. Ora, dando certo para quem se o banco público, desafiando Lula e José Alencar, chegou a praticar os mais elevados juros do mercado? Dando certo para quem, cara pálida? Tenta-se passar a idéia de que baixar juros é voluntarismo político, ao mesmo tempo indicam que juros altos é responsabilidade técnica. Seria esta a única alternativa que não merece qualquer crítica. Ora, por que elevar os juros às alturas não é também uma clara opção política pela especulação, pelo rentismo que enriquece ricos, uma clara escolha contra os que querem créditos para a produção??? Isto é opção política sim, e opção preferencial pelos ricos!!!
Se a televisão simplesmente colocasse este tema em debate – hoje há nas telas apenas a defesa da tese subliminar de que juros altos é prova de responsabilidade técnica e que juros baixos é populismo e intervencionismo político – já seria uma enorme contribuição para elevar a compreensão na sociedade brasileira sobre quem são os que querem produzir e quais os que querem manter o dinheiro empoçado, esterilizado e rodando apenas a especulação financeira para enriquecer os já ricos. Por exemplo, se a tv cumprisse sua função pública definida na Constituição e veiculasse todas as opiniões em torno da decisão governamental de reduzir o superávit primário, sobretudo aquelas que estão vedadas atualmente nas telinhas, como o argumento de que com uma maior aplicação de recursos na produção, em obras públicas, deverá trazer efeitos concretos e benéficos seja lá nos grotões mais isolados da sociedade brasileira e até ao mais simples pipoqueiro ou vendedor de bandeirolas nos estádios de futebol, já seria uma relevante contribuição prática para a democracia da informação. Superemos as discussões conceituais intermináveis, pratiquemos democracia informativa. Este argumento hoje não é veiculado, não circula, é sonegado pela tv privada.
É hora de audácia. A mesma audácia presente na determinação do presidente Lula em retirar o Banco do Brasil do esquema de sabotagem aos que querem produzir e trabalhar, mudando seu presidente e sua orientação, deveria estar presente também na TV Brasil, que pode muito bem inaugurar um novo jornalismo. Um jornalismo que faça o contraponto democrático a este que predomina nas emissoras prisioneiras da tirania vídeo-financeira, repetindo no plano comunicacional a mesma concepção que rege a fraude monetária especulativa que levou o mundo à crise econômica atual. Moeda sem lastro, moeda falsa, moeda fictícia, acompanhada de informação que não revela o potencial do mundo do trabalho, do mundo da produção e constrói uma realidade falsa, nornalizando a especulação, na qual qualquer outra visão que proponha uma revolução produtiva é liminarmente excluída de divulgação, é sonegada, e, sem direito de defesa, taxada de intervencionismo político no mundo financeiro, de populismo. A partir daí, resta apenas a sacrossanta opção, igualmente política, de que responsabilidade fiscal e financeira só e somente só é possível com os juros altos. Paralela à fraude monetária, ocorre uma fraude midiática. Elas se realimentam.