A arte está presa nas grades da Globo

josewilker10082006Quais passarinhos prisioneiros em uma gaiola, eis como estão se sentindo, em geral, os artistas que trabalham na TV Globo, se lidas, em profundidade, as motivações latentes expressas em entrevistas por José Wilker,  excepcional ator de teatro, cinema e televisão, também, crítico, diretor, escritor etc. Destacou que falta espaço discutir o Brasil, mais intensamente. Ele não saberia, como declarou, dar uma posição mais clara. “Não sei o que está acontecendo. Está faltando discussão, mobilização para o debate”. Lembrou que as insatisfações profundas da classe artística tem levado-a à formação de grupos de debates, desabafos internos, talvez, em apartamentos, fugidios, algo quase secreto, como nos tempos medievais, para escapar de inquisições, a fim de levantar questões. Os artistas estão enjaulados nas programações pelas quais estão submetidos e escravizados. Viraram vozes contidas por oligopólios midiáticos roedores de consciências. Que questões são essas? Ora, o que é a arte, o que é o artista, o que é a produção artística senão a expressão da inquietação social no seio da qual germina a produção artística, o artista, a arte? A inquietação de José Wilker, que, segundo os amigos, emergia em forma de ironia, sinceridade, humor cáustico, algo que os telespectadores sentiam, tranquilamente, estava ancorada na frustração quanto à impossibilidade de debater pelos canais em que ganhava o seu pão, trabalhando como um mouro, na arte difícil de representar a realidade que o envolvia. A realidade, como destaca Hegel, é dual: positivo-negativo, singular-plural, masculino-feminino, yin-yang, claro-escuro, cara-coroa. Os dois lados da realidade se interagem não por meio de movimento mecânico, repetitivo, mas dialético, promotor da controvérsia, para gerar  luz, consciência crítica etc e tal. Ela evolui em movimento de circularidade. Não é a batida na cabeça de um prego, mas a penetração do parafuso, para frente, para o fundo e para o alto. A ausência do debate do real concreto em movimento dialético, transformador, que requer opções fortes, no combate, permanente, que representa a busca da verdade, virara um fantasma no quotidiano do grande artista, inserido no universo global não comprometido com  o pensamento crítico, incômodo, que produz, necessariamente, o contraditório. Não, Wilker e toda a sua classe estão afogados nas nervuras sem vida, sem viço, do pensamento mecanicista, repetitivo, acrítico, revelador, apenas, de um lado da realidade. Eles se tornaram uma massa amorfa de insatisfeitos por não disporem do necessário canal de escoamento da sua criatividade. Passarinhos presos que choram dia e noite a liberdade perdida. A produção artística, como reconheceu Wilker, hoje, amplamente, dominada pela TV Globo, potencializa o entretenimento. O que é, no fundo, entreter alguém? No sentido em que colocou o problema o artista precocemente morto, num tempo em que as expectativas de vidas estão se alongando, é deixá-lo à mercê da enganação, da alienação, da falta de compromisso com o questionamento sobre o que deve ser motivo para a criação da arte, especialmente, numa sociedade, como a brasileira, marcada pela desigualdade social, decorrente da sobreacumulação da renda nacional, submetido à dominação externa. Entretenimento e miséria. A miséria do entretenimento. É preciso entreter o gigante, mantê-lo deitado eternamente em berço esplêndido. O entretenimento artístico alienante  adentrou não apenas nas  novelas, promovendo a dispersão do indivíduo quanto a sua essência questionadora diante do mundo, mas, igualmente, na arte que Wilker amava, o cinema. Jovem, na casa dos 20 anos, ele chegou ao Rio de Janeiro, fugido de Pernambuco. As ações artístico-políticas que exercitava viraram alvo de perseguição dos golpistas militares em 1964. O Brasil fervilhava, culturalmente. A cultura, germe fundamental da inquietação espiritual, humana, pulsava, fortemente, naquele ser. Os debates sobre a realidade mobilizavam a classe artística, os estudantes, os trabalhadores, os intelectuais. Havia uma inflação de efervescência política, na antiga capital do País, então, mais do que nunca, o tambor nacional. O cinema novo viveria o furacão Glauber Rocha e todo um corolário de grandes diretores, atores, atrizes, produtores, roteiristas, todos com uma ideia na cabeça e uma câmera nas mãos, em busca do contraditório nacional intenso, sob o impacto das pregações políticas janguistas pelas reformas econômicas, sociais, culturais etc. A noite escura da ditadura, a partir de 67/68 cairia sobre todos, cassando, punindo, exilando, matando, destruindo. Os canais políticos foram fechados. Os debates, encerrados. As lideranças, punidas, excomungadas. Nascia a Rede Globo, cujo dono, Roberto Marinho, como se sabe, agora, 50 anos depois, tramava golpes e mais golpes, nos bastidores, para impedir as eleições diretas em 1965, defendendo, em parceria com Lincoln Gordon, o fechamento do regime, por meio da prorrogação de mandato do ditador Castello Branco. RM, braço midiático de Washington. No rastro dessa ação antidemocrática, golpista de RM, ampliar-se-ia um dos maiores poderes midiáticos do mundo, como se pode ver, atualmente, pelo montante da riqueza da família Marinho, pontificando, nas grimpas, entre as mais ricas e poderosas do planeta, pela revista Forbes. Servir ao capital, poder sobre coisas e pessoas, é a forma mais rápida para formação das riquezas desproporcionais. Caminharam, celeremente, as Organizações Globo, para um patamar de poder excepcional, espalhando seus tentáculos por todo o país, articulando-se com as classes políticas conservadoras, cujos líderes tiveram a vantagem gorda da aliança com RM e os militares, unha e carne. A comunicação e a política, juntos, abriram, pelo Brasil afora, sucursais de rádios, jornais e tevês filiados à Globo. O Congresso, literalmente, transformou-se num latifúndio global, nesses últimos 50 anos. A ditadura militar tinha em RM seu homem de confiança, as edições mais fidedignas aos interesses dos ditadores, cuja ideologia se filiava ao pensamento neoliberal de Washington, desde o primeiro momento do golpe militar. O compromisso de RM, nesse contexto, foi o de buscar, de todas as maneiras, enterrar o pensamento nacionalista, que vinha crescendo desde Getúlio Vargas, passando por JK e Jango, podendo se ampliar, novamente, com JK, se a eleição direta, em 1965, fosse realizada, com o discurso desenvolvimentista-nacionalista, que irritava Washington, como irrita o discurso dilmista, agora, em 2014, 50 anos depois do golpe ditatorial. Finda a ditadura, em 1984, com a Nova República, a partir de 1985, a elite política, no comando do poder da comunicação, aliada à Globo, manteria a boca torta contornada pelo cachimbo da ditadura. Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, oriundos da ditadura, se transformariam nos políticos mais poderosos da Nova República, assim batizada por Tancredo Neves, principais aliados de RM. Manipulações e golpes midiáticos ficaram famosos. Marinho tentou destruir Brizola, manipulando as urnas; editou, anti-jornalisticamente, o debate Collor-Lula, para derrotar o candidato operário. Rede Globo, nada a ver com jornalismo. Isso sem falar que, antes, RM desconhecera o movimento social pelas Diretas Já, que derrubou a ditadura. Não se admira, agora, que a cobertura dos assuntos econômicos, desde o estouro da crise global do capitalismo especulativo, nos Estados Unidos e Europa, em  2007-2008, que os governos Lula e Dilma enfrentaram e enfrentam com as armas do pensamento nacionalista, em meio à derrocada neoliberal, esteja eivada de manipulações e preconceitos, que negam, taxativamente, a lei maior do jornalismo, de ouvir os dois lados da notícia. Basta assistir o Globonews Painel, canal pago, para ver e sentir que se assiste e se ouve, tão somente, o samba de uma nota só. O contraditório não entra em cena. Ora, não é de se admirar que, nesse contexto, em que as forças do capital financeiro especulativo, que mandam e desmandam na cobertura jornalística, manipulada e enviesada, esteja a classe artística – e não só ela – totalmente frustrada pela falta de liberdade para debater, profundamente, a realidade nacional, em todas as suas variáveis e nuances, no ambiente da luta de classe, que é a realidade em movimento contraditório.  Certamente, José Wilker, nos seus anseios de liberdade reprimida de um artista consciente do seu papel, furtado pelas circunstâncias de uma nova inquisição, sentia o pulsar do chamamento de Glauber Rocha em torno do conceito do cinema novo, essência da liberdade criativa. Estaria em cena o cinema novo em cada um que sentisse a necessidade de ir buscar, no fundo de si mesmo, os sons inquietantes da realidade nacional, marcada pela miséria social, para mostrá-la viva, sem mácula. Como? Impossível, se toda a classe artística hoje está a serviço da indústria poderosa do entretenimento da Globo, mantendo a sonolência do gigante. Tornando a classe artística acéfala, a Globo matou a arte. A morte liberta Wilker dessa prisão.

.

 

De bandida a heroína no JN

Eis que de repente, não mais que de repente, como diria o poetinha Vinícius, ela de fera vira bela e se transforma no belo artístico superior ao belo natural, fazendo o poder midiático exercitar o mais fantástico puxa-saquismo jamais visto no panorama da comunicação. A essência contida na campanha eleitoral, transbordada em opiniões fortes que injetam o ânimo geral nas mulheres brasileiros, vira expectativa geral. O poder feminino entra em cena com tudo.

Aos pés da Santa Cruz, você se ajoelhou…. Não, não se trata do belo samba de Zé Gonçalves e Marino Pinto, na interpretação magistral de JG. William Bonner, apresentador do JN, nessa segunda, interpretrou Aos pés da Santa  Dilma. Ele e Fátima se ajoelharam e juraram um grande amor, mas cumprirão a jura?

O puxa-saquismo jornalístico global chegou ao auge no JN no dia seguinte ao da vitória da primeira presidente do Brasil. Bonner a recebeu de pé, extremamente cordial, como se buscasse conquistar uma cliente de altas proporcionalidades. Abriu-lhe os braços, estendeu-lhe as mãos e como extremo cortesão puxou-lhe a cadeira para o assento a fim de ser entrevistada diante dos milhões de telespectadores e telespectadoras. Mesuras, mesuras, mesuras.

De um lado, o poder global e sua representação em forma de Bonner. De outro, a nova presidente, a representação da maioria do povo brasileiro. Um poder à altura do outro poder, conversando em casa? “É –  como disse Bonner – um prazer a senhora vir à nossa casa. Consideramos como uma deferência”.

Em uma visita não se trata de jornalismo, mas de cordialidades….

A tentativa de informalidade total foi extremamente forçada como se estivesse o poder global recepcionando em um grande salão de festas e acontecimentos excepcionais um ser extra-terrestre. E mais, que esse ser extra-terrestre fosse apresentado ao público como alguém a quem o gesto de cordialidade global guardasse inteira receptividade do espírito cordial da entrevistada em igual proporção de identificação e deferência por estar ela pisando no palco do poder que tudo pode para formar a cabeça dos brasileiros.

Dilma teve o seu dia de raínha na Globo. Por essa razão, é quase uma questão de praxe que a classe política renda eternas deferências e  graças a esse poder. Tem sido assim. Continuará desse jeito com a primeira mulher presidente do Brasil?

O melhor governo, como diria Stanislaw Ponte Preta, é o próximo….

Como um lobo vestido de cordeiro, Bonner deu um beijinho simbólico nos pés da santa, que sofrera com as perguntas venenosas e ardilosas anteriormente dirigidas a ela por ele durante a campanha eleitoral, enquanto aliviava nos questionamentos o candidato da oposição, José Serra, levantando bolas para ele chutar.

No dia anterior, Dilma era tratada quase como uma bandida. Depois, da vitória virou heroína. Antes, a personagem era  vulgarizada na condição de ex-guerrilheira que combateu a ditadura militar, padrinha política, por sinal, da Rede Globo. Vendeu-se a imagem de um comportamento que não seria adequado como exemplo para a sociedade.

Obrigado pela deferência…

A construção da história real forçada pela necessidade de correção de uma visão distorcida, politicamente, construída, durante a campanha eleitoral, para dar conteúdo ao poder midiático global cuja essência não é investigar o poder, mas de tentar controlá-lo, enquanto se julga essencialmente infenso a qualquer controle para levar os governos aos rumos que mais lhe convier. Hoje, uma posição; amanhã, a negação do ontem. Dilma era o demônio guerrilheiro; hoje a heroína nacional.

Uma guerrilheira da liberdade recebeu, durante a campanha, a conotação de uma transgressora das leis. Fora tratada como que dotada de radicalismo inconstitucional que traria perigo para a Constituição, visto ser seu exemplo de guerrilheira incompatível com as instituições democráticas em vigor no país. Quis em determinado momento o poder global projetar no presente o passado manipulado para se faturar no futuro, que já começou na formação do novo governo.

Jamais havia sido tratada como rebelde por conta da reação patriótica contra a supressão da democracia. Antes, pelo contrário, teria sido uma transgressora marginal . Não seria, portanto, conveniente tê-la no comando político nacional.

Esforçaram-se os poderes midiáticos conservadores, ligados às forças econômicas e financeiras tradicionais, que sempre atuaram com o espírito de cúpula , no sentido de queimar a candidata ex-guerrilheira, apresentando-a como mau exemplo para as futuras gerações. Reconhecer seu papel histórico concreto e real seria plantar sementes de insubordinação social no espírito da juventude.

Conferiram uma imagem negativa para o passado de Dilma, durante a campanha eleitoral, como comprovaram as matérias publicadas pela Folha de São Paulo, que esteve, em 1964, ao lado dos ditadores que tocaram, segundo ela, uma ditabranda e não uma ditadura.

Pintaram-na de bagunceira, que teria assaltado, matado e trucidado. Os métodos guerrilheiros, pautados, na mentira como necessidade de sobrevivência, e na pouca transparência de ações determinadas por circunstâncas excepcionais, generalizaram-se como característica inata da personalidade da candidata que venceria a grande mídia. Não cuidaram das causas, mas da falsificação delas.

Bastou, no entanto, a vitória dilmista se consolidar, para o poder global virar-se pelo avesso e buscar contar a história da nova presidente não mais como uma bandida perigosa para as instituições democráticas, mas, justamente, o oposto, como verdadeira heroína, uma neo-Joana Darc, que entra para o panteão dando exemplo dignificante a ser ressaltado, certamente, nos livros educativos para o despertar da consciência nacional.

Estabelece-se, portanto, no ato da vitória de Dilma, uma reversão das escrituras sagradas da história, para demonstrar que jamais Dilma conspirou contra a democracia, mas, sim, lutou em favor dela para não vê-la morrer sob as botas dos ditadores.

Eu uso o poder

Sim, eu uso o poder. Eis a marca do tubarão da imprensa nacional que ergueu seu poder à sombra do regime militar ditatorial conferindo ao poder global a onipotência que julga dispor não apenas para noticiar mas principalmente controlar, a fim de exercitar o que considera liberdade de imprensa. Ser controlado, jamais. Seria tentativa de cercear sua atividade essencial.

O passado pintado pela grande mídia especulativa – que passa a fazer jornalismo puramente imaginativo, como verdade científica do imaginário jornalístico, a exemplo do comportamento anti-jornalístico da revista Veja, ao traçar perfil de Lula semelhante ao de Fidel Castro pela simples conclusão tirada de gestos aparentemente semelhantes apresentados pelos fotógrafos – bate de frente com um presente que o nega.

Trata-se do confronto entre o real e a distorção. Tentaram escrever a história maldita de Dilma como guerrilheira inconveniente à democrracia. Passam a ser obrigados a retratar a verdade que buscaram esconder como verdade democrática, a de se lutar pela afirmação da democracia.

Ao final , o cordeiro vestido de lobo perguntou à ovelha santa Joana Darc se ela manteria de pé a liberdade de imprensa, ou seja, a liberdade de constuir falsos fatos, como o de menosprezar as ações dos resistentes à ditadura, que a história ressaltaria como edificantes e não desestruturantes para a formação da consciência verdadeiramente democrática.

Para o poder global, faz-se indispensável que prevaleça os pressupostos inscritos no editorial da casa que foi expresso por William Waack, a propósito do que entende ser a liberdade de imprensa integral.

Diz ele ser ortodoxo e dogmaticamente radical contra qualquer tipo de controle do governo sobre a mídia, mas, inteiramente, a favor do controle da mídia sobre o governo. A mídia é uma grande indústria que terá que ser enquadrada num marco regulatório, pois, evidentemente, envolve-se no complexo da tecnologia de comunicação que precisará ser amplamente discutido para evitar a continuidade do oligopólio familiar midiático existente que Waack considera indispensável dispor do poder incontrastável de controlar o governo. Brincadeira de candidato a puxa saco permanente do poder midiático oligopolizado.

Falou em termos de poder. O chamado quarto poder, que vocaliza os interesses absolutamente conhecidos, na construção da história contemporánea capitalista, pode controlar, mas, jamais, ser controlado por outro poder.

Ocorre algo mais além do que essa formulação dogmática williamwaackiana a respeito do papel do jornalismo nas hostes do poder global. Ela guarda sintonia total com a famosa formulação maior proferida por Roberto Marinho, no auge do poder militar, quanto se transformou no porta-voz da didatura: “Sim, eu uso o poder”, como destaca, em seu livro “A história secreta da Rede Globo”, o jornalista Daniel Herz. A nova correlação de forças políticas que sai das urnas permitirá essa promulgação da liberdade total midiática sem respalto popular, mas, apenas, ancorada no capital?

Se o jogo da grande mídia, que se auto-intitula o quarto poder, é o de controlar o governo, tal controle, sabendo que a voz dela é a voz do capital, trata-se, essencialmente, de colocar o capital como o controlador das ações governamentais. Historicamente, a tradução desse controle é a manipulação do exercício do poder, de acordo com as vontades do quarto poder, o poder midiático.

A voz do dono

O apóstolo dogmático favorável ao controle do governo pela mídia é o inconsciente coletivo dos donos dela para manter as rédeas do estado com base na verdade do capital que expressa como empresa de informação, apresentada em seu caráter mecanicista partidário enquanto parte do todo com a visão parcial e não ampla, sem credibilidade, portanto, para ser imparcial, como, aliás, demonstrou na campanha eleitoral.

Waack, inteligente e articulado, durante a campanha eleitoral, em que a grande mídia exerceu a liberdade do capital, para inverter o conceito de patriotismo da guerrilheira Dilma, a fim de apresentá-lo como fator negativo e não positivo, emergiu como verdadeiro ideólogo dos interesses globais, para além do jornalismo investigativo.

Ao lado do jornalismo imaginativo de Veja, avançou, célere, o jornalismo de controle do poder governamental de Waack. Ou seja, algo que vai além da própria atribuição constitucional do poder legislativo e do poder judiciário relativamente ao poder executivo.

O legislativo legisla e fiscaliza; o judicário julga. Já o midiático, dogmaticamente, controla. E quem controla o controlador?

O dogmatismo, que, essencialmente, é religião, teria suas raízes fincadas, portanto, no abstrato, onde, naturalmente, as formulações religiosas dogmáticas tem o seu acabamento ideológico.

Como esperar da ausência do espírito crítico que confere característica ao poder dogmático abstrato a certeza de ser um honesto controlador que resiste a todo e qualquer controle como pressuposto de usa própria essência?

O poder global se autocandidata à falta de credibilidade quando diz que se serve – “em uso…”, como disse Marinho – do poder para alcançar a prática jornalística. Trata-se de uma formulação de função que essencialmente significa uma não-função.

A presidenta Dilma Rousseff, sem dúvida, deve ter saboreado o gosto de dispor do poder reservado aos vitoriosos da primeira hora. Eis possível armadilha para mostrar as conveniências de o lobo neste instante estar vestido de cordeirinho para clamar a liberdade de atuar sem ser desmascarado na sua construção da nova heroina nacional.

EXCLUSIVO: PMDB do Paraná quer Copom na TV

O governador do Paraná, Roberto Requião, coloca a TV Paraná à disposição para transmitir ao vivo a cobertura da reunião do Copom como fator altamente educativo resultando de uma verdadeira conquista popular

“…a dor da gente não sai no jornal”

Luiz Reis e Haroldo Barbosa

O governador peemedebista do Paraná, Roberto Requião, que, como Aécio Neves em relação ao PSDB, defende, dentro do PMDB, prévias para escolha de candidato do partido, em 2010,  quer ampla democratização das informações  econômicas discutidas dentro do Conselho de Política Monetária do Banco Central(Copom), que nessas terça e quarta feiras fixará a taxa de juro básica na economia, a mais alta em termos reais no mundo. No tempo em que o próprio capitalismo desesperado decreta o fim da escravidão dos juros nos países ricos que passam a viver a eutanásia do rensita, a escravidão em terras tupiniquins persiste bravamente sob a ordem economicamente colonialista.O Consenso de Washington morreu para os ricos, mas permanece como cadaver insepulto no Brasil dirigindo o Banco Central.

Os bancos centrais demonstraram, na visão do governador, necessitar de fiscalização do povo, como demonstra a grande crise internacional. Os governos , diz ele, deixaram-se dominar pelo mecanicismo das decisões de gabinete, subordinando-se aos bancos centrais. O sujeito virou objeto e o objeto, sujeito, inversão de papéis. Evidentemente, deveria ocorrer o contrário, ou seja, a política deve dominar a economia, como volta a acontecer no contexto da bancarrota internacional.

Foi justamente por falta de fiscalização popular em cima das decisões tomadas pelos bancos centrais que possibilitaram, em grande parte, o surgimento da desestruturação geral do capitalismo. A desregulamentação da economia e das finanças no contexto da financeirização geral do sistema capitalista global especulativo se deu ao arrepio do conhecimento popular, nas decisões escondidas dos gabinetes que comandam as perspecitvas dos ganhos especulativos, que requerem segredos.

A crise demonstra , segundo Requião, que chegou ao fim a era dos segregos. Os governos, destaca, somente serão verdadeiramente confiáveis, se forem suficientemente transparentes. É preço cobrado pela ciência e a tecnologia colocadas a serviço da cidadania na velocidade da informação on line. Ou isso ou fica fora da tela.

A caixa preta de decisões do Banco Central, na avaliação de Requião, precisa ser aberta e mostrada ao povo o que se passa lá dentro quando se discute o que é de interesse do povo. A discusão sobre a evolução dos preços à luz da política salarial e de juros, das importações e das exportações, das transferências  de recursos orçamentários  etc, diz o governador, influencia, diretamente, a vida da pessoa, que precisa conhecer o que se passa, para tomar consciencia da sua própria cidadania.

A Constituição, nesse particular, já alcança os poderes legislativo e judiciário, no plano da comunicação. Tanto o Congresso como o Judiciário, por intermédio das teves pública, TV Senado, TV Câmara e TV Justiça, estão cuprindo o papel de abrir à sociedade para a ampla discussão nacional todos os problemas nacionais, principalmente, o que diz respeito aos juros brasileiros, os mais altos do mundo. O bate-boca entre os ministros do Supremo foram ao ar, demonstrando contradições intensas dentro da Casa, o que talvez venha a motivar mentes fascistas em favor da edição da notícia, o que configuraria censura.

Somente, o Executivo, na sua área financeira, não discute abertamente as suas decisões publicamente. Não justifica a argumentação histórica de que certos assuntos não podem vir à baila para não causar especulação. Trata-se de  debater amplamente o assunto em vez de escondê-lo. Foi escondendo que se criou a permissividade abusiva da cobrança dos juros que desbalanceou violentamente o desequilíbrio social, econômico e político, no país, na avaliação de Roberto Requião.

Por isso, ele defende a cobertura das reuniões do Copom, depois que o jornalista Beto Almeida, da TV Senado, TV Comunitária e Telesur, levantou a discussão em brilhante artigo que segue abaixo. O www.independenciasulamericana.com.br joga todas as fichas nessa democratização, porque é, absolutamente, necessária, como conquista, essencialmente, popular, como destaca Beto.

Fico com Delfim Netto para quem técnica e política devem combinar-se para a formação da taxa de juro porque por trás da política e da técnica estão os seres humanos que são volatizaveis, eternamente , mutantes, portanto, políticos.

Se é a política que comanda a reação dos governos à grande crise, não há política com decisões na base da caixa preta. Abre-te Sésamo.(César Fonseca)

Conquista popular fundamental

Abrir as reuniões do copom é fundamental para que o povo saiba como os burocratas estabelecem o patamar dos juros que norteiam as atividades economicas no paísApesar do presidente Lula pregar a redução dos juros praticamente todos os dias, apesar do vice-presidente José Alencar reclamar diuturnamente que “o nosso discurso de campanha de 2002 ainda não chegou ao poder”, forças aparentemente misteriosas e supostamente sobrenaturais fazem com que o Brasil ainda tenha a mais elevada taxa de juros do mundo. O que acontece de fato? Inspirado no título do excelente documentário “A revolução não será televisionada”, reivindicamos aqui que o palco onde estão sendo tomadas todas as decisões para manter os juros nas alturas – a Reunião do Comitê de Política Monetária – precisa ser iluminado, precisa ser escancarado à opinião pública, precisa ser didaticamente televisionado.

É passada a hora de revelar com clareza e sem subterfúgios de um economês propositalmente indecifrável quais são estas forças que estão sabotando o presidente e o vice-presidente. É preciso um novo jornalismo capaz de revelar que forças são estas que estão sabotando os que trabalham, sabotando o pequeno empresário, sabotando o agricultor familiar, sabotando a aplicação criativa e produtiva de recursos empoçados, estagnados e esterilizados em títulos da dívida pública. É preciso que a televisão cumpra o seu papel social de esclarecer o papel anti-social e anti-nacional dos que sabotam e impedem a aplicação deste crédito empoçado na geração de empregos, seja construindo casas, estradas, hospitais, ferrovias, ou fabricando roupas sapatos, móveis e utensílios domésticos que as enxurradas levam a cada nova chuvarada. Enfim, quando será que esta maravilhosa tecnologia que é a televisão terá o uso didático e educativo para – televisionando a Reunião do Copom – revelar quais são os que defendem os juros altos, com o seu linguajar enrolado, sua insenbilidade de grande organizador das derrotas do mundo do trabalho, levando a pequena produção à falência, as cooperativas à paralisia, os assentamentos da reforma agrária ao desesperante beco sem saída e toda uma geração sem rumo para o crime? Quem é o maior criminoso? Uma juventude proibida de trabalhar e tangida para a prisão ou os que produzem as políticas que levam toda uma geração para o crime e a prisão?

Que estupendo efeito político teria sobre a sociedade brasileira a simples colocação na tela, e com explicações didáticas e compreensíveis sobre economia, de todos os que impedem que este país saia da crise pela via da produção de bens do consumo necessário, ao invés de criminosamente fazer rodar apenas a especulação estéril que tão somente cria uma república dos rentistas – a dos que enriquecem sem trabalhar – e a outra, a dos que trabalham e produzem escravizados pelos rentistas, ou gostariam de trabalhar e de produzir, se esta oportunidade não estivesse sendo criminosamente sabotada na cara de todos nós! Afinal, para que serve tanta televisão??? Afinal, para que serve uma tv pública?

Técnico e político

Delfim Netto que se pontificou como crítico do Banco Central prega que haja dose equilibrada de técnica e política na formação do juro porque está por trás da técnica e da política os seres humanos que são essencialmente políticosObserva-se toda uma tentativa dos meios de comunicação capturados pela tirania vídeo-financeira privada de desmoralizar algumas das tímidas mas acertadas medidas de Lula para facilitar o acesso ao crédito, para baixar os juros, para estimular a produção. Durante seis anos de governo, apesar da chiadeira diuturna e militante do vice-presidente José Alencar denunciando os juros altos como sabotagem à produção e à geração de emprego, apenas muito suavemente se observa uma redução parcial nos juros. Mas, as resistências são gigantescas. Os comentaristas da tirania vídeo-financeira – os mesmos que recomendaram as políticas neoliberais de estado mínimo e desregulamentação que levaram à crise do capitalismo atual – agora tentam esconder sua responsabilidade incontornável pela crise fugindo para a frente. Um verdadeiro tom de campanha é que o que vemos no tratamento nada jornalístico sobre a recente demissão do presidente do Banco do Brasil, apresentada como se fosse uma temerária intervenção política de Lula numa instituição financeira que “está dando certo”. Ora, dando certo para quem se o banco público, desafiando Lula e José Alencar, chegou a praticar os mais elevados juros do mercado? Dando certo para quem, cara pálida? Tenta-se passar a idéia de que baixar juros é voluntarismo político, ao mesmo tempo indicam que juros altos é responsabilidade técnica. Seria esta a única alternativa que não merece qualquer crítica. Ora, por que elevar os juros às alturas não é também uma clara opção política pela especulação, pelo rentismo que enriquece ricos, uma clara escolha contra os que querem créditos para a produção??? Isto é opção política sim, e opção preferencial pelos ricos!!!

O economês indecifrável

Meirelles precisa sair do escuro das frases econométricas retorcidas para falar claro ao povo uma linguagem inteligível, pois para o povo juro alto aumenta os preços e não o contrário como pregam os sabichões da grande casaSe a televisão simplesmente colocasse este tema em debate – hoje há nas telas apenas a defesa da tese subliminar de que juros altos é prova de responsabilidade técnica e que juros baixos é populismo e intervencionismo político – já seria uma enorme contribuição para elevar a compreensão na sociedade brasileira sobre quem são os que querem produzir e quais os que querem manter o dinheiro empoçado, esterilizado e rodando apenas a especulação financeira para enriquecer os já ricos. Por exemplo, se a tv cumprisse sua função pública definida na Constituição e veiculasse todas as opiniões em torno da decisão governamental de reduzir o superávit primário, sobretudo aquelas que estão vedadas atualmente nas telinhas, como o argumento de que com uma maior aplicação de recursos na produção, em obras públicas, deverá trazer efeitos concretos e benéficos seja lá nos grotões mais isolados da sociedade brasileira e até ao mais simples pipoqueiro ou vendedor de bandeirolas nos estádios de futebol, já seria uma relevante contribuição prática para a democracia da informação. Superemos as discussões conceituais intermináveis, pratiquemos democracia informativa. Este argumento hoje não é veiculado, não circula, é sonegado pela tv privada.

Também é preciso divulgar que a redução do superávit primário permitirá, por exemplo, aumentar em 15 bilhões o volume de investimentos da Petrobrás no Pré-Sal, na construção de novas refinarias. Debatamos: que efeitos isto trará na indústria naval, no fortalecimento do poder aquisitivo dos trabalhadores, nos índices de emprego formal, na arrecadação da previdência, no comércio de bens da indústria leve? Esta é a missão pública da televisão. Antes desta decisão – sim, de verdade uma decisão política de Lula – estes recursos ficavam esterilizados no superávit primário. Entrevistado pela TV Globo sobre o tema, um “especialista”, destes sempre convidados para defender redundantemente a mesma tese, definiu candidamente porque a redução do superávit primário não era medida recomendável: “isso pode gerar intranqüilidade nos credores externos”. Quais credores externos ficariam intranquilos? Os que estão indo á bancarrota nos EUA? Os que estão pregando novo calote no sistema financeiro internacional através da impressão (não emissão) de mais dólar furado, moeda sem lastro, papel pintado, mas com capacidade de comprar uma riqueza real, não fictícia, como a Vale do Rio Doce ou ações da Petrobrás????

É de se lamentar que não tenhamos uma televisão com a decisão suficiente para fazer cumprir o direito dos brasileiros à informação plural, diversificada, com caráter educativo como estabelece a Constituição. Ontem mesmo, reconstruída a bancada das Meninas do Jô, uma delas chegou a sentenciar “Este país acabou!!!”. Não se ouviu uma crítica sequer ao epicentro da crise que está no coração do capitalismo, os EUA, país que estes “comentaristas” têm como modelo. Aliás, ouvimos ontem na CBN uma pérola analítica sobre a redução do superávit primário no Brasil: aqui esta medida é temerária, dizem eles, porque aqui se dá calote (mas o Brasil não pagou a dívida com o FMI?) , mas nos EUA é diferente porque, segundo os dois comentaristas, “lá trata-se de um endividamento sério e responsável”. Será que não viram o presidente chinês advertindo os EUA para que honrem sua monumental dívida financeira com a China? Endividamento sério e responsável com a impressão de papel moeda sem lastro que a economia mundial tem que aceitar? Por que o Brasil não poderia emitir moeda a partir de riqueza real, o petróleo pré-sal, o urânio, a maior jazida conhecida de nióbio do mundo????Aí seria populismo, inteervencionismo político na economia?!!! Nunca estes outros ângulos ganham espaço para a discussão democrática na televisão capturada pela ditadura do mercado, que impõe o seu “dirigismo editorial de pensamento único”.

Enquanto na Globo se recompõe a bancada das Meninas do Jô, permitindo prever o que vem por aí – uma espécie de reedição da campanha do mensalão que tentou em vão impedir a reeleição de Lula – a TV Brasil, no mesmo horário, parecia estar em outro país, estava exibindo o Sem Censura reprisado, com uma dupla caipira e um apresentador do Fantástico falando de suas viagens pelo mundo. Convenhamos, é um desperdício de oportunidades. Por que não realizar com a freqüência gritantemente necessária mesas de debate ao vivo, com a participação do público, convidando todas as vozes normalmente proscritas nas emissoras da tirania vídeo-financeira??? Quem proíbe? Quem não se anima? Os mesmo que sabotam o discurso de Lula e de José Alencar a pregar no deserto, por mais de 6 anos, a queda dos juros???

A função da tv e dos bancos públicos

A dona de casa, certamente, se interessaria em participar de debates públicos sobre a taxa de juro e os argumentos sobre a sua razão dados pelas autoridades, como exercício de cidadania. Olhaí, sem essa amplo painel, necas de democraciaÉ hora de audácia. A mesma audácia presente na determinação do presidente Lula em retirar o Banco do Brasil do esquema de sabotagem aos que querem produzir e trabalhar, mudando seu presidente e sua orientação, deveria estar presente também na TV Brasil, que pode muito bem inaugurar um novo jornalismo. Um jornalismo que faça o contraponto democrático a este que predomina nas emissoras prisioneiras da tirania vídeo-financeira, repetindo no plano comunicacional a mesma concepção que rege a fraude monetária especulativa que levou o mundo à crise econômica atual. Moeda sem lastro, moeda falsa, moeda fictícia, acompanhada de informação que não revela o potencial do mundo do trabalho, do mundo da produção e constrói uma realidade falsa, nornalizando a especulação, na qual qualquer outra visão que proponha uma revolução produtiva é liminarmente excluída de divulgação, é sonegada, e, sem direito de defesa, taxada de intervencionismo político no mundo financeiro, de populismo. A partir daí, resta apenas a sacrossanta opção, igualmente política, de que responsabilidade fiscal e financeira só e somente só é possível com os juros altos. Paralela à fraude monetária, ocorre uma fraude midiática. Elas se realimentam.

Que tal colocarmos tudo isto em debate, afinal já estamos há 45 anos do golpe militar de 1964? Que tal revelarmos as forças nada sobrenaturais ou misteriosas que na Reunião do Copom, protegidas pelo linguajar economês impenetrável, continuam a defender, apesar do colapso do capitalismo, os indecentes privilégios dos banqueiros que recusam a aplicação dos recursos na produção e geração de emprego e renda? Que tal inaugurarmos o debate sobre a função dos bancos públicos que poderiam seguir de fato a orientação do presidente da república e do seu incansável vice-presidente e terem, finalmente, audácia de colocar em prática o discurso da campanha de 2002? Que tal ampliarmos mais ainda o debate sobre o papel da televisão, sobretudo sobre a obrigação das emissoras de cumprirem a função pública inscrita na Constituição? Por que a reunião do Copom não pode ser televisionada se ali são tomadas decisões que levam milhões e milhões de pequenos empresários, pequenos agricultores à falência e à ruína e se ali são inviabilizados , com uma simples canetada baseada em pesquisas encomendadas pelos próprios bancos( Pesquisa Focus) inúmeros projetos de emancipação nacional? Não será um direito constitucional do povo brasileiro saber de cor e salteado quem são os que sabotam a desesperante e inadiável necessidade de reduzir os juros? Não será uma obrigação da tv pública mostrar, revelar, explicar o que acontece nestas reuniões onde se decide ou a tragédia dos que são impedidos de produzir ou a cadeia da indecente felicidade dos que enriquecem sem trabalhar e produzir?

Se televisionam um sujeito animalizado surrando um outro até sangrar, se há canais televisionando leilões de gado, tapetes ou jóias, ou oferecendo o sexo-mercadoria, se são televisionados os mais indigentes diálogos de grupos de descerebrados a debater a edificante questão do sexo anal por satélite nos Big-Brother, se somos obrigados a ver mais de mil horas de tv a estimulando o consumo de cerveja quando se deveria educar no amor aos livros, no amor às bibliotecas, ou educar para a solidariedade por meio da difusão de informações sobre nossa trágica liderança mundial em hanseníase, a pergunta é clara e direta: por que a reunião do Copom não pode ser televisionada?

Beto Almeida

Presidente da TV Comunitária de Brasília

Desnacionalização geral da tevê paga

Alessandro Rodrigues

Em nota tornada pública na quinta-feira, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal (SJPDF) rejeitou o “substitutivo proposto pelo deputado Jorge Bittar (PT-RJ), que escancara as portas [da TV por assinatura] para o oligopólio estrangeiro das telecomunicações, desnacionalizando ainda mais o setor”.

Originado por proposta do deputado Paulo Bornhausen (Dem/SC) e dado forma final no relatório de Jorge Bittar (PT/RJ), o principal objetivo do PL-29 é permitir que as empresas de telefonia – na maioria estrangeiras – passem a oferecer os serviços de TV a cabo, o que é proibido atualmente pela lei. Em seu relatório, Bittar cria uma única legislação para regular a TV a cabo, via satélite (DHT) e por microondas (MMDS). Divide o setor em produtoras de audiovisual, programadoras de canais, empacotadoras de canais e distribuidoras, sem qualquer restrição de propriedade para grupos externos.

Somando-se a um movimento ascendente que propõe a realização de uma Conferência Nacional de Comunicação, encabeçado pela CUT e FNDC (Fórum que congrega várias entidades), o Sindicato dos Jornalistas defende que “o assunto seja objeto de uma profunda reflexão sobre os seus efeitos na comunicação social brasileira, mediante democratização do debate envolvendo maior número de setores da sociedade”. “Por isso, estamos solidários com os movimentos sociais que apontam para a necessidade urgente da convocação de uma Conferência” a fim de “garantir o mais amplo debate e respaldar as ações de governo, especialmente quando tiver que enfrentar a antidemocrática e predatória expansão dos oligopólios privados”, destaca a nota.

A manifestação dos jornalistas do DF – sindicato filiado à CUT e à Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) – reforça um novo rumo para as discussões em torno do PL-29, que até pouco tempo estavam nubladas sob a “polêmica” de quem era a favor de cotas para a produção nacional na TV por assinatura ou quem era contra.

Isso ocorreu porque os debates sobre o tema foram atropelados pela ansiedade dos partidários da desnacionalização, que pretendiam resolver a fatura na Comissão de Ciência e Tecnologia da Câmara, sem submeter o projeto à apreciação do plenário. Após protestos de parlamentares, a votação foi protelada diversas vezes e as discussões geraram uma reflexão maior sobre as conseqüências da medida, possibilitando, inclusive, que o conjunto dos deputados e organizações da sociedade civil decifrassem o projeto, que é constituído por um aglomerado de termos inventados e complexos, percentuais cruzados de composição societárias, que acabam dissimulando o seu verdadeiro significado.

No frigir dos ovos e com uma pequena ampliação dos questionamentos começou a ficar claro que as cotas propostas pelo deputado Jorge Bittar não mudariam para melhor a situação do setor de audiovisual brasileiro, pelo contrário. Para tanto, duas questões foram decisivas. A primeira, e mais importante, é a de que quem irá definir, em última instância, o conteúdo que chegará à casa dos brasileiros é o dono do meio de distribuição. E o PL 29 advoga a ampliação da desnacionalização do setor, delegando às empresas estrangeiras a responsabilidade de levar ou não a produção audiovisual brasileira para a casa dos brasileiros. O caso da Sky versus Telefônica/Abril é um exemplo característico disso (leia matéria abaixo).

O segundo ponto estava diretamente ligado às cotas. Enquanto em alguns países a obrigação de transmitir conteúdo nacional ultrapassava os 50%, o primeiro relatório do deputado Jorge Bittar propunha uma cota transversal de 10% para a produção nacional independente. Após pressões de grupos transnacionais, o relator reduziu esta cota – a principal que incidia sobre todos os canais – para 3:30h por semana à produção nacional, dos quais 1:15h dedicados à produção nacional independente, o que representa 0,68% do total que é transmitido. Segundo estudos divulgados por entidades ligadas ao setor, incluindo as cotas para os chamados “Canais BR”, o conjunto da proposta contida no PL-29 consegue ser menor do que já é ofertado atualmente por algumas operadoras.

Para o vice-presidente da Fenaj, Celso Schröder, “é ingenuidade imaginar que o capital internacional (das teles) vai investir no país para construir, por exemplo, um Projac”. Segundo ele, “os projetos das teles vão chegar prontos ou vai haver um rebaixamento de qualidade. É preciso cuidar para que o capital que chegar não seja predador”.

Em meio à crescente oposição, o PL 29 será submetido esta semana a mais uma tentativa de votação. Vários destaques já foram apresentados na última sessão. Um deles, de autoria de Bornhausen, propõe que até as mínimas cotas sejam tiradas do projeto. Isso gerou a promessa do deputado Jorge Bittar de se somar ao grupo de parlamentares que trabalham para protelar as votações. Promessa é dívida…

Alienação da grande mídia nacional

César Fonseca

A grande imprensa, como sempre, no seu tradicional farisaísmo ideológico, fica na aparência. Recusa ir à essência. O caso da inflação é típico. Jornalões, tevês e rádios vão na onda da fantasia ideológica.

Por que a inflação sobe?

Marx disse que é preciso acompanhar a trajetória do capital para entender os designos do próprio capitalismo. As crises capitalistas, segundo ele, estouram não na periferia, mas no centro, graças à sobreacumulação do capital. Já, naquela, o capital, acrescenta,  representa instrumento de dominação interrnacional.

Num primeiro momento, dinamiza a produção; num segundo, graças às contradições que desencadeia, gera insuficiência relativa de demanda global, cujo resultado é o juro alto como preço pelo risco crescente.

É como, outro dia, disse a mesma coisa o repórter Cláudio Humberto, num comentário na Rádio Bandeirante: querem saber o caminho da corrupção? Siga, disse, o roteiro do dinheiro. Parece que é preciso fazer a mesma coisa com a inflação, em termos históricos.

Para não ir muito longe, melhor é ver o que ocorreu, recentemente. Há seis meses, mais ou menos, os governos árabes deram um alerta. Não daria, segundo eles, para suportar a alta de preços dos alimentos que estariam importando da Europa. Os produtos alimentícios europeus, cotados em euro, exigiam desembolsos em dólar em escala ascendente.

Sendo o petróleo árabe – e todo o óleo negro produzido no mundo – cotado na moeda americana, claro, os governos dos países produtores de petróleo passaram a desembolsar mais dólares para comprar a mesma quantidade de comida importada expressa na moeda européia.

Que fazer? Produzir mais petróleo, aumentando a quantidade do produto, entregando mais barris, para pagar o mesmo ou menor montante de alimentos valorizados em euro, para suportar a sangria imposta pela moeda desvalorizada, o dólar? Ou, ao contrário, subir o preço do barril de petróleo, para compensar o prejuízo? Até um jegue saberia responder tal jogo de compensação monetária.

O ouro negro, sendo útil, necessário, objeto de desejo fundamental da industrialização mundial, impôs seu preço, porque a demanda sobre ele é maior do que a oferta disponível.

Os árabes, desde 1973, já sabiam disso, depois que criaram a OPEP, o cartel do óleo.

Desde então, passaram a impor seu preço, numa situação mais ou menos semelhante à atual.

Naquela ocasião, os Estados Unidos, apertados com suas despesas, maiores do que as receitas, emitiam moeda sem lastro para sustentar a guerra fria, de um lado, e a guerra do Vietnam, de outro, ambas ligadas pelo sentimento do choque ideológico – comunismo versus capitalismo.

Os preços pularam. A inflação internacional explodiu. A Casa Branca, diante das pressões dos países que tinham suas reservas em dólar amarradas ao ouro, desvinculou um do outro, para não ver o gigante americano ir à garra. Os países pobres dançaram. Beiço geral de tio Sam na praça. Calote americano pode; dos demais desgraçados, não.

A capacidade de suportar déficits elevados, até então, era enorme, por parte da banca de Tio Sam. A moeda americana tinha, ainda, a confiança do mercado. A especulação financeira global não desandou, irremediavelmente.

Agora, são outros quinhentos. As finanças americanas, com um deficit ao redor de 7% do produto interno bruto, da ordem de quase 14 trilhões de dólares, e de um endividamento total três vezes superiores ao PIB, em meio aos escombros da economia de guerra, sustentada pelo endividamento público interno incontrolável, revelou que o buraco é mais embaixo.

Se o mundo não se abalou, para valer, em 1973, quanto à saúde do dólar, quando os árabes pipocaram para cima o preço do petróleo, em 2008, o mesmo não ocorre. Trinta e cinco anos depois de sangrias intensas, o capitalismo de guerra, bancado pela emissão monetária sem lastro, não é mais aquela brastemp.

O mercado não vê com os mesmos olhos o panorama econômico internacional, tendo o dólar como equivalente universal, justamente, porque a continuidade do déficit americano, num ambiente de estresse especulativo mais potencializado, representa risco mil vezes superior. Por isso, colocou as barbas de molho.

Tal gesto, depois da criação da União Europeía e da emergência do euro, a partir dos anos de 1980, intensificou, no sentido, de aumentar as desconfianças relativamente à saúde da moeda americana, abalada, após a “exuberância econômica irracional”(Alan Greesnspan) dos EUA, nos anos de 1990.

Por que? Simples. A sobreacumulação de capital sinalizou impossibilidade de reprodução dele na produção, sendo possível, tão somente, na pura especulação, nos anos de 2000 em diante.

A crise imobiliária presente, que abalou a estrutura do sistema bancário mundial, é o climax de uma série de crises especulativas que se superpuseram umas às outras, inaugurando o que os economistas canadenses chamam de emergência do capitalismo de desastre.

Sua tônica é o desgaste consequente da confiança mundial no dólar e, igualmente, na capacidade de os Estados Unidos, mediante endividamento público keynesiano,
continuarem a suportar o jogo da divisão internacional do trabalho, inaugurado em 1944, em Bretton Woods, no pós-guerra.

Os déficits americanos bancariam a dinâmica capitalista global, graças emissão monetária deslastreada, enquanto a produção bélica espacial, suportada por tal emissão, daria segurança à democracia representativa contra o avanço do comunismo.

Essa armação geopolítica-estratégica-global, depois de vigorar por 64 anos, na base da ampliação da dívida pública interna – instrumento, segundo Keynes, de combate à inflação, na medida em que cresce no lugar dela, inflação – estressou-se diante dos olhos ávidos e desconfiados do mercado.

Incapazes de continuarem acreditando eternamente nas possibilidades financeiras da nova Roma de bancar o mundo, dependurando a conta no permanente cabide do fiado, os especuladores arrepiaram.

A moeda americana, nesse contexto de elevação irresistível da dívida pública interna, perdeu o fôlego e, diante da desconfiaça do mercado, deixou de ser – primeiro, aos poucos, depois, mais rapidamente – referência internacional única para fixar os termos de trocas cambiais nas relações comerciais globais.

A perda nos termos de troca vigentes entre o dólar, que cota o preço do petróleo, e o euro, que cota as mercadorias importadas pelos árabes, é a prova evidente. Se antes, dada sua força e credibilidade, impunha deterioração nos termos de troca, para garantir lucratividade na senhoriagem monetária, na relação com as demais moedas, diante do desgaste financeiro e da desconfiança generalizada, a moeda americana passou a não mais impor perdas, mas a sofrer perdas.

O preço do óleo negro sobe, portanto, como forma de compensação, exercitando, no caso, sua condição intrinsecamente monetária, em resposta à desvalorização acentuada do dólar, em decorrência dos deficits americanos.

Vale então a pergunta: o que ocorre no momento é um choque inflacionário global produzido pelo preço do petróleo ou pela decadência financeira do capitalismo americano, com o dólar tatibitate?

Como a agricultura americana teve seus custos elevados, por consumir muito derivado de petróleo, assim como explodiram os preços dos fretes, puxados pelo diesel, cuja cotação extrapolou, o governo buscou, no sufoco, substituir petróleo por etanol produziido do milho. Vale dizer, sobrou menos milho para a alimentação, cujo preço, também, explodiu.

Parece, então, que foi o preço do petróleo que gerou a desgraça toda, mas não é. Ele é o efeito, não a causa.

E a grande mídia, em meio ao fenômeno aparente, que diz? Nada. Melhor, enche páginas e páginas, para dedicar-se à aparência, sem mergulhar na essência.

Ela não suporta mergulho muito fundo. Ficaria sem ar para voltar à tona. Prefere acompanhar, mecanicamente, as formulações neoliberais, moralistas. Mantem-se na superfície, porque sua existencia requer a própria superficialidade.