Moratória americana à vista

A situação da economia mundial ficou tão crítica diante da evidência de que o sistema bancário americano está, totalmente, falido, que pode caminhar para um beco sem saída, levando o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama,  a decretar moratória, como última alternativa capaz de remover os títulos podres que bloqueiam o crédito internacional e a sobrevivência do capitalismo, perdido no vendaval da especulação desenfreada, sem regras, estimulada pelo próprio governo. Os tombos seguidos da bolsa, depois da posse de Obama, sinalizaram o contexto explosivo.

 

A moratória, que já aconteceu outras vezes, na história americana, no século 19 – em 1971 a desvinculação do dólar do ouro foi um beiço fenomenal no mercado – , seria a troca de títulos públicos emitidos pelo tesouro por títulos hipotecários-derivativos, gerados pela bancarrota imobiliária, alongando prazos de resgates, quem sabe para além dos trinta anos. O negócio ficou tão feio no mercado financeiro que somente o Estado tem moral e poder capaz de desobstruir as artérias entupidas do crédito, sem o qual o sistema capitalista implodiria geral. Seria fundamental apoio político, o que não aconteceu, por exemplo, no Brasil, em 1986, com o ex-presidente José Sarney, primeiro presidente da Nova República.

Configura-se o que vários economistas, ao longo dos últimos anos, têm alertado: que o deficit americano, chegando perto dos 7% do PIB de 14 trilhões de dólares, alavancou dívidas, por meio do sistema bancário, desregulamentado, mais de 50 vezes superiores ao próprio deficit. Especialistas, como o economista Adriano Benayon, professor da Universidade de Hamburgo, autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, dão conta de que o estoque de títulos de crédito, inclusive derivativos, ultrapassa 500 trilhões de dólares, incluídos os chamados “junk bonds”, títulos podres. 

Os ativos financeiros cresceram de 150% do PIB, em 1980, para 400% em 2005, nos países ricos do chamado G7, segundo David Roche, presidente da Corretora Independent Strategy, de Londres. Os ativos financeiros, no mundo, superavam 118 trilhões de dólares, em 2004, 10 vezes mais que o total registrado em 1980, representando 3 vezes o PIB mundial, segundo relatório do McKinsey Global Institute. 

A proliferação é muito maior, incluindo os derivativos, títulos podres imobiliários, estimados em 278 trilhões, calculados pelo BIS, o banco central dos bancos centrais. Ao lado disso, no mesmo contexto, o endividamento das famílias americanas é superior a 25 vezes a sua base salarial. A podridão creditícia fictícia implodiu geral  no mercado imobiliário.

 

Falência explícita

Os bancos americanos, detentores dos papeis, por eles mesmos emitidos, sem controle do Banco Central americano, repassaram-nos para frente, especialmente, aos banqueiros europeus e japoneses. Estão todos micados. Em tal situação, perderam a capacidade de fazer fluir a circulação capitalista, simplesmente, porque ninguém acredita em ninguém, sabendo que todos estão falidos e mentindo uns para os outros, batendo às portas do governo por socorro.

Somente o governo, como poder institucional que se sobrepõe, subjetivamente, sobre as categorias sociais em conflito pela renda que se perdeu na crise, seria capaz de reiniciar o jogo, distribuindo bolas para os agentes econômicos, enquanto, por pressão social, política e econômica, vai entrando, mediante emissão monetária, no capital dos bancos privados, a fim de reanimá-los.

Emerge situação qualitativamente diferente na gestão do Banco Central dos Estados Unidos, em face do avanço financeiro estatal no campo econômico, para reanimar o crédito. Antes, o tesouro americano emitia os títulos da dívida pública que os bancos privados compravam com o dólar emitido por eles. A emissão de dinheiro não é atributo do tesouro, mas dos banqueiros privados. Kennedy tentou reverter essa situação. Acabou assassinado. Lindon Johnson, ao assumir, reverter a medida Entretanto, com a crise atual, os banqueiros , perdidos na alavancagem exagerada da sua base de crédito, passam a depender do tesouro, que entra na circulação dos bancos privados, cobrando o pedágio expresso em maior participação acionária do Estado no capital privado.

Tal mecanismo, forjado pela crise, torna-se única forma capaz de permitir ao governo americano encaminhar solução para os créditos podres que impedem abertura de novos horizontes para o capitalismo americano e mundial. Como a absorção da montanha de dinheiro especulativo não poderá ser feita de uma vez só, pois implicaria em implosão inflacionária global do tesouro tanto americano como dos demais países capitalistas, a jogada seria flexibilizar no tempo a renegociação do papagaio financeiro. 

Renegociar – moratoriamente – é preciso. Adam Smtih, em “A riqueza das nações”, é claro: dívida pública não se paga, renegocia. A capacidade de o tesouro americano endividar-se, seguindo o remédio keynesiano, expresso no avanço dos gastos governamentasis, dependeria, fundamentalmente, da moratória. O que era problema, alardeado como calote, pelos analistas em geral, pode representar solução.

 

MacCaim emplaca proposta

A moratória tende a avançar, nas próximas semanas, como forma de impedir a expansão do desemprego. São 11 milhões de demitidos, nos Estados Unidos. No Brasil, somente, em dezembro, foram 650 mil para o olho da rua. Na Europa, a Alemanha prevê 2009 como pior do que 1949, no pós-guerra. No Chile, que depende da exportação de cobre, a miséria emergiu violentamente, com quebradeira impressionante no comércio. A China está em rítmo cada vez mais lento, sinalizando explosões sociais que implodiriam o sistema misto de socialismo-capitalismo-ditatorial etc. As negociações entre empresas e sindicatos tendem à explosão política ideológica.

A solução de renegociação geral, que se expressaria em ação governamental via moratória, foi, aliás, proposta, em campanha eleitoral, pelo adversário de Barack Obama, o republicano John MacCain. Ele perdeu a batalha eleitoral, mas pode ganhar a guerra. Disse que não haveria outra saída, senão o perdão da dívida dos mutuários que não poderão pagar. Sem condições para tal, os bancos que os financiaram ficaram na mesma situação, ou seja, com dinheiro no caixa que não tem nenhum valor porque a garantia, as casas, foi perdida com a violenta queda dos preços especulativos.

A tarefa do governo Obama seria, fundamentalmente, restituir a interrompida confiança na relação creditícia entre vendedor e comprador, não porque as duas partes tenham entrado em conflito intransponível. Pelo contrário. A culpa não é deles, mas do sistema financeiro, que extrapolou às regras para fazer negócios fictícios, cuja durabilidade se extinguiu na derrocada do mercado imobiliário.

O presidente americano ficou numa sinuca de bico. Ou programa rapidamente a moratória, com a autoridade do Estado, tornando-se oligopólio financeiro, para tirar do atoleiro o oligopólio financeiro privado, limpando seus passivos entupidos pelos “junks bonds”, títulos podres, ou poderá enfrentar corrida bancária. A necessidade urgente de socorrer, há uma semana, o maior banco americano, o Citibank, de falência irremediável teria que ser repetida, sucessivamente, pois a banca privada, como destaca o economista americano Nouriel Roubini, está, literalmente, falida. Sobrevive como mera representação aparente sob amparo indispensável do governo.

Como o governo precisará, não apenas de desbloquear o crédito interrompido, mas, também, de elevar os gastos governamentais para puxar a demanda global, visto que o setor privado perdeu força para executar tal tarefa, se não remover os títulos podres, jogando seu resgate para as calendas, não teria a menor condições de cumprir o papel que a sociedade dele espera no momento de estresse total da crise mundial. 

A necessidade de continuar se endividando, como prega o economista Paul Krugman, prêmio nobel de economia 2008, significa , igualmente, a necessidade de ir esticando, não apenas o novo endividamento, mas, também, o antigo, expresso nos créditos podres, algo somente possível mediante moratória, expressa no avanço do poder financeiro estatal no capital dos bancos privados falidos.

A estatização bancária em marcha – o estado como sócio da banca privada, como emergência de uma grande parceria público privada financeira(PPP) – vai se transformando no maior acontecimento econômico do século 21.

 

Lula-Sarney, dobradinha na crise

O presidente Lula, que já percebeu que não haverá outra saída, senão essa, pois os grandes bancos privados, que ele convocou para ajudá-lo, na salvação dos bancos privados pequenos, fugiram da raia, agiu, durante a semana, ainda mais agressivamente. Injetou, ou seja, emitiu dinheiro, R$ 100 bilhões para engordar o caixa do BNDES, a alavanca da industrialização nacional. 

Ao mesmo tempo, passou a pressionar os bancos públicos a baixarem os juros, a fim de forçar os bancos privados a fazerem o mesmo,depois que levou o Banco Central a reduzir a selic de 13,75% para 12,75%. Oligopolização financeira estatal, igualmente, forçando a ação da oligopolização financeira privada no mesmo sentido.

Nesse rítmo, estariam em cogitações outras estatizações, como produto natural de um novo processo em marcha, no campo dos seguros, podendo, inclusive, reverter privatizações, casos as empresas privatizadas vêem bater à porta do governo para pedir socorro, como chegam as do setor privado. 

É o caso, ocorrido durante a semana, da fusão entre a Votorantim e a Aracruz Celulose, com dinheiro do BNDES, o hospital estatal-empresarial. 

O titular do Planalto não vive mais a bonança internacional que permitiu à economia brasileira, incrementada no mercado interno, graças aos investimentos sociais lulistas, registrar taxa de desemprego recorde de 6,8%, segundo o IBGE. Sem o Estado botando para quebrar nos gastos, o desemprego poderia subir para 20%, rapidamente. 

Ficaria impossível manter o PAC e a candidatura da ministra Dilma Rousseff. 

Lula poderia ficar, isso sim, prisioneiro do novo jogo político que vai se formando, com a emergência do PMDB, dominando totalmente, o Congresso, colocando, possivelmente, o ex-presidente José Sarney, na prática, como primeiro ministro, para compartilhar o poder com Lula, caso vença eleições no Senado. 

 

Ressurreição de Adam Smith

Vai ficando evidente que o jogo econômico global dependerá das soluções dadas por dois grandes economistas ingleses dos séculos 19 e 20. 

No século 19, Adam Smith, autor de “A riqueza das nações”, profetizou que dívida pública não se paga, renegocia. No século 20, John Maynards Keynes destacou que o livre mercado sendo incapaz de puxar a demanda global capitalista, necessitaria do endividamento público, como fator propulsionador do consumo, incapaz de ser mantido, apenas, pela ganância privada. 

A solução keynesiana foi adotada no século passado à larga, em maior escala pela maior economia – de guerra – do mundo, os Estados Unidos. O limite foi alcançado pelos déficits acumulados que geraram excessiva alavancagem financeira privada de forma totalmente desregulamentada. 

A contiuidade do remédio keynesiano, que virou veneno, somente seria possível com a ressurreição de Adam Smith. Sua recomendação seria a renegociação da dívida, para reiniciar o jogo capitalista, visto que a dívida pública, keynesiana, acumulada e transformada, atualmente, em créditos podres, em várias escalas, obstaculiza a continuidade da reprodução capitalista. 

Afinal, segundo ele, não se paga, renegocia, sempre, o débito público, esticando os prazos e flexibilizando as proporções entre dívida e PIB, para manter a moeda relativamente estável. 

Sem a solução smithiana, não poderia ocorrer a recomendação keynesiana de Paul Krugman. Sem o remédio de Adam Smith, a capacidade de sobrevivência dos governos capitalistas ocidentais ficaria seriamente comprometida. Obama perderia, rapidamente, seu capital político, se fosse atacado por uma corrida bancária, em meio à explosão do desemprego e da falta de expectativa dos agentes econômicos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obama impedido de repetir Roosevelt

O sonho da economia global, nesse momento, é que Barack Obama, que promete mudar com o mundo que mudou, se transforme em Frank Delano Roosevelt.
 
O presidente democrata , diante da crise de 1929, puxou a demanda global com gastos em programas sociais, entre 1933 e 1936, e em seguida, a partir de 1938/39, em guerra, para tirar o capitalismo do crash, à moda keynesiana. O déficit americano, em 1946, chegou a 144% do PIB.
 
A opção pela política monetária ativa em substituição ao velho padrão ouro do século 19, que fixava regras rígidas, para ditar o fluxo de moeda, a fim de controlar deficit de balanço de pagamento dos governos, colocou a economia americana na vanguarda do desenvolvimento econômico global, sob comando do dólar. A moeda americana já dava as cartas depois da primeira guerra mundial e tornou-se soberana depois da segunda grande guerra.
 
A esperança de que Obama faça a mesma jogada de Roosevelt, expandindo os gastos públicos – não necessariamente em guerras, mas em outras demandas estatais a serem descobertas, quem sabe jogar dinheiro pela janela ou ampliar os investimentos inflacionários no espaço etc, porque guerra virou opção incompatível com a nova pregação multilateral obamiana – , implicaria conjugá-la em dois momentos históricos distintos.
 
A distinção é matematicamente simples. Nos anos pós-guerra, a saúde da economia americana era uma, mais potente, viril. Não haveria déficit, mas superavit, além de ampla confiança na moeda. Agora, não há superavit, mas déficit, enquanto a confiança na moeda periclita. No início do século 21, depois de tantas guerras e desgastes, geradores de déficits, que levaram o capitalismo para a jogatina financeira suicida como fator de reprodução do capital, o fôlego não é mais o mesmo.
 

Tio Sam precisa de viagra

Se Roosevelt poderia fazer o que fez, sem precisar de viagra, porque eram mais que suficientes, para tanto, a juventude, a energia e a potência americana no pós-guerra, que estabeleceu a divisão internacional do trabalho sob controle do dólar, Obama, ao contrário, não estaria com essa bola toda.
Depois de tantos déficites acumulados ao longo de mais de sessenta anos, Tio Sam precisaria de uma injeção de potência cavalar. Poderia ser fatal , sabendo que estado do carro é precário, com lataria estourada em cima de pneus totalmente carecas. Essa é a diferença substancial entre Obama e Roosevelt.
 
Sob Roosevelt, Tio Sam, no pós-guerra, era a grande potencia mundial. Sob Obama, seis décadas depois, envelhecido, corcunda, adiposo, asmático, sexualmente baleado e enfartado – como se encontra nesse momento, no auge da crise capitalista – , o titio precisa de ajuda do Boston Medical Group.
 
Enfim, Roosevelt ergueu o que viria a ser o unilateralismo econômico americano ao longo do século 20. Obama não aguentaria essa barra. Terá que optar pelo multilateralismo, como anuncia Hillary Clinton, Secretária de Estado do novo governo. Os deficits acumulados criaram os limites expressos pela desconfiança do mercado na capacidade de endividamento do tesouro americano. 
 
 

Bancarrota à vista

Nas próximas semanas, podem quebrar mais bancos nos Estados Unidos. Haveria necessidade urgente de novos socorros estatais, levando a uma completa estatização bancária dos grandes segmentos de crédito. A era da dominação dos bancos privados dando orientação ao FED, banco central americano, como ocorre desde 1913, quando foi criado, pode estar chegando ao fim.
Pode fragilizar a posição dos bancos, no compasso da bancarrota, impulsionada pelos créditos podres, principalmente, se o fôlego do governo para absorvê-los não for suficiente, levando o mercado a uma corrida especulativa.
Os próximos anúncios de contabilidades bancárias atuarão como terremotos, mostrando o tamanho fenomenal dos créditos podres irresgatáveis. O governo estaria diante de dois pólos: de um lado, os bancos pedindo socorro; de outro , a população criticando os privilégios concedidos aos bancos por meio de emissão monetária estatal salvacionista com o suor da comunidade.
Opção radical nesse sentido baixaria imediatamente o capital político inicial de Barack Obama. Correria esse risco perigoso para salvar os especuladores, vistos criticamente pelo povo americano?
Se houver percepção aguda pela sociedade de que o buraco sem fundo exigirá empobrecimento social relativo para salvar os bancos, pode emergir pressão política contrária à continuidade de medidas salvacionistas no Congresso.
 
 

Teste para democracia americana

O debate democrático, no ambiente economicamente caótico, tenderia a chocar com os fatos contingentes que exigem pressa e põem pressão incensante, estressante, politicamente, explosiva.
A complexidade do novo contexto em que vive a economia exige decisões rápidas, mas as respostas, em ambiente democrático, não vêm com a velocidade requerida pela situação contingencialmente explosiva. Vem aos poucos, no compasso dos antagonismos sociais que permeiam o debate nacional a desembocar-se no Congresso.
Contradição em marcha que colocaria em teste a democracia americana. A marcha do processo deflacionário, mais ou menos intensa, seria o termômetro.
A agitação que a própria dinâmica produz implica representação econômica e política americana totalmente oposta àquela representação que vigorou no tempo de Frank Delano Roosevelt.
Sob Roosevelt, o capitalismo americano tinha futuro radioso pela frente; com Obama, a radiosidade futura é opacidade congestionante do presente que não deixa ver o horizonte com nitidez.
Os relatórios dos bancos centrais dando conta de crescimento entre zero e  1% dos EUA e Europa, em 2009, significa bola de neve.
 
Com Roosevelt, o dólar, que derrubava a libra e o capitalismo inglês, todo poderoso no século 19, tinha a confiança do mundo. Com Obama, o dólar torna-se a própria desconfiança do mundo.
Sem poder sacar contra o futuro, Obama, ao contrário de Roosevelt, que tinha o vigor e a juventude da moeda americana no pós guerra, tem que buscar aliados. O poder absoluto de Tio Sam se transformou em absolutamente relativo.
A relatividade cadente do poder americano inicia na Era Obama nova fase histórica mundial.
 

Tensões protecionistas balizarão dólar

As controvérsias levantadas pelo Congresso sobre a real capacidade financeira do tesouro para sustentar a demanda americana, que puxaria, por sua vez , a demanda global, evidenciam os limites da própria capacidade americana de exercer o velho papel de locomotiva econômica do mundo.
Um deficit gêmeo – fiscal e monetário  – da ordem de 6% do PIB, em meio à recessão global, representa barreira à ousadia monetária de Tio Sam. As palavras de Lawrence Summers, principal assessor econômico da Casa Branca, com Obama, são de alerta sobre a fragilidade e os limites das finanças americanas nesse momento. Tio Sam está baleado.
 
Por isso, as esperanças em Obama podem ser dissipadas, se predominar o comportamento protecionista da elite econômica americana que vigorou depois da primeira guerra mundial e da crise de 1929.
 
A novidade tende a ser a de que o livre comércio pode não ser mais totalmente interessante para a economia americana, se as grandes indústrias tentam recuperar mercado diante da avalanche de importações baratas, fortemente competitivas com a produção interna nos Estados Unidos.
O livre comércio era bancado pela capacidade infinita de endividamento do tesouro americano, para sustentar saldos comerciais positivos para os aliados e negativos para os EUA, sob o dólar-ouro.
A continuidade desse jogo, iniciado no pós guerra, está em questão. Para complicar, a emergência do desemprego eleva a taxa de nacionalismo econômico.
 
A rejeição relativa ao livre mercado, que deixaria de ser interessante para os Estados Unidos, financeiramente, falidos, sinalizaria, por sua vez, tensões cambiais a serem produzidas pelo acirramento da concorrência internacional, cuja expressão maior poderia ser desvalorizações aceleradas de moedas nas trocas comerciais globais, como fatores compensatórias.
Todos buscariam se salvar.

Construção abstrata, midiática

Todo o complexo econômico americano, sob o governo Obama, no ambiente da crise mundial em curso, desenha conjuntura qualitativamente oposta à que vigorou no tempo de Roosevelt, acrescentando dificuldades e não facilidades.
 
A força da economia americana em 2008, em termos de potencial de endividamento, mediante crença regeneradora do mercado financeiro, não é mais aquela do pós-segunda guerra mundial.
Não existe mais a ilimitada força propulsora de plena confiança dos aliados, que depositaram todas suas esperanças na economia americana para liderar o mundo.  
Um novo Bretton Woods, hoje, teria desfecho diametralmente oposto.
Em 1944, sob o dólar forte, inaugurava-se uma nova divisão internacional do trabalho, ditada pela força econômica dada pelos gastos governamentais em programas sociais e guerra. Em 2009, sob dólar fraco, ocorre o funeral daquela divisão, que abre discussão para novo modelo monetário global, enquanto Obama sinaliza diálogo pacífico.
O complexo industrial militar americano que Roosevelt ergueu depois do New Deal, para dinamizar a economia de guerra, como principal política anti-desemprego, vai berrar.
Ou seja, a aproximação tentada entre Obama e Roosevelt representa construção abstrata, midiática, salvacionista, que tem grandes chances de dar errado.
Tornaram-se estreitos os limites da capacidade de endividamento de Tio Sam e a confiança que ele desperta no mercado, estando abarrotado de dívidas, que levam o ativo americano – cercado de monumental quantia de créditos podres – a apresentar risco que assombra geral a economia mundial. 

Sapatada no Bradesco e na Febraban

 

 

“Cypriano brigou com o rei”. Caiu. O filósofo Petronius – sob Nero – disse que mais louco do que o rei é quem briga com o rei. Loucura cypriânica.

Nos bastidores empresariais e políticos a informação que rola é a de que a queda do presidente do Bradesco, Marcio Cypriano, substituido, no final de semana, às pressas, por Luiz Carlos Trabuco Cappi, decorreu do atrito havido entre Cypriano e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na quarta-feira da semana passada, durante reunião entre governo, empresários e banqueiros. Em busca de solução para a taxa de juros, o presidente Lula determinou aos seus comandantes da economia alcançarem consenso entre agentes econômicos sobre o assunto, visto que se encontra apavorado com possível escalada do desemprego, cujas consequências são perturbações sociais e políticas insuportáveis.

O presidente do Bradesco e diretor da Febraban considerou, na ocasião, o BC culpado pelos juros altos. Meirelles contratacou destacando que culpados são os bancos, que cobram o spred mais alto do mundo – ou seja, o custo de intermediação bancária, influenciado pelo risco. Evidenciou lavagem de roupa suja, de forma espetacular. Sendo Meirelles a voz do presidente, Cypriano detonou o presidente, o rei. Dançou.

Por que os banqueiros entraram nessa, se são os que mais faturam? Têm lucro médio de 25% a 30%, ao longo dos últimos 20 anos, enquanto as atividades industriais asseguram 8% de rentabilidade e as comerciais, 15%, em média. Os juros engordam os lucros bancários e emagrecem os lucros da produção e do consumo.

A tentativa de culpar Meirelles/Lula demonstrou, no fundo, o insconsciente bancário: os banqueiros estão atacando Lula e sua política econômica. Cypriano vocalizou, inadvertidamente, esse inconsciente, que, na verdade, representa oposição à estratégia macro do presidente, econômica e políica, envolvendo, aí, naturalmente, a candidatura Dilma Rousseff, repaginada esteticamente para enfrentar em 2010 o PSDB, que já apela politicamente para o protecionismo, para garantir empregos, como faz, em desespero, o governador José Serra, de São Paulo, diante do recuo da produção industrial de 0,6% em novembro, relativamente, a outubro, e da greve dos trabalhadores da GM, protestando contra demissões. Clima tenso.

A escorregada feia de Cypriando revelou, ainda, o temor dos bancos diante da situação em que são colocados pela população, de maneira geral, como agiotas, que, agora, na crise, se negam a manter oferta de crédito, embora o governo tenha criado situação para favorecer essa possibilidade, irrigando o mercado de dinheiro público, elevando a dívida pública interna, sobre a qual faturam alto com a taxa selic.

Lançaram os homens do dinheiro culpa na sua própria representação, isto é, o BC, obediente aos interesses da banca, no momento em que o presidente Lula amplia o debate sobre a taxa de juro, envolvendo na discussão não apenas o Banco Central e os banqueiros, restritos no âmbito do Copom, mas, também, os agentes da produção, democratizando o debate.

O cachimbo deixou a boca torta. Os banqueiros revelaram-se incapazes de perceber as nuances políticas que estão levando o governo a ampliar a estatização bancária, gerando o oligopólio financeiro estatal, porque o seu oposto, o oligopólio financeiro privado, na crise, se mostrra incapaz de enfrentar os desafios capitais, no sentido de assegurar a produção e o consumo, razoavelmente, em ação.

As notícias que encheram os jornais, dando conta da saída do ex-presidente e da entrada do novo, Trabuco, ganharam mais força no noticiário do que as informações da crise mundial. Tremenda encenação midiática. Freud disse que as palavras servem para esconder o pensamento.

A autoridade do governo foi colocada em jogo pelos banqueiros. E o troco veio. Cypriano e a Febraban, onde o espírito de animosidade da bancocracia relativamente ao governo extrapolou o inconsciente para ganhar o público, revelaram-se politicamente inexperientes, ao não perceberem que, no contexto da turbulência econômico-financeira, a política econômica está dando lugar à economia política. 

Resultado: Lula mandou uma sapatada no Bradesco e na Febraban.

 

 

Poder bancocrático sob crítica

As tensas relações entre os banqueiros e Meirelles, ou seja, entre os banqueiros e o presidente da República, no compasso das decisões governamentais que vão aumentando o poder financeiro estatal para ir abrindo espaço à ampliação da produção e do consumo obstaculizados pela escassez de crédito, tendem a se ampliar e a abrir discussões sobre a influência excessiva do pensamento bancário na condução da política econômica nacional há mais de 25 anos.

O poder bancocrático é tão poderoso que até a Constituição o trata de forma especial. O artigo 166, parágrafo terceiro, itém II, letra b, estabelece como causa pétrea o direito dos bancos de não terem contingenciados os recursos destinados ao pagamento dos serviços da dívida governamental. Tudo pode ser contingenciado orçamentariamente – educação, saúde, segurança, infra-estrutura, compras governamentais. Somente, os pagamentos de juros ficam a salvo. Contitucionalmente, garantidos. Bancocracia constitucional.

Os professores da Universidade de Brasilia, Adriano Benayon, economista, e Pedro Resende, cientista da computação, realizaram pesquisa sobre esse capítulo constitucional e revelaram a grande influência que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, teve, quando deputado constituinte pelo PMDB, para materializar , na Constituição, o interesse dos banqueiros. Contribuiu, decisivamente, segundo os dois professores, para sedimentar o poder bancocrático no contexto dos poderes republicanos.

Durante a Nova República, refém do Consenso de Washington, erguido depois da crise monetária dos anos de 1980 – detonada pelos mesmos motivos que hoje detonam a crise financeira mundial, ou seja, excesso de dólares especulativos no mercado – , os banqueiros asseguraram condição privilegiada no comando da política econômica.

O prioritário, estabelecido pelo Consenso de Washington, era o que ficou estabelecido consitucionalmente. Ou seja, prioridade governamental para o pagamento dos juros, antes de dispor de recursos para os investimentos públicos, destinados a sustentar, equiibradamente, a demanda global da economia. Esta pagou o pato em favor do privilégio da bancocracia, expressão cunhada pelo senador Lauro Campos, na Era FHC.

Se Cypriano, na frente dos empresários e de outras fontes, comportou-se ousadamente na formulação de críticas a Meirelles pelo comportamento dos juros altos administrados pelo BC, imagine o que os banqueiros não falam entre quatro paredes aos diretores da instituição, que, na prática, tem sido indicado por eles, para orientar a política econômica? Já se disse que o BC é o clube dos banqueiros.

As relações entre Meirelles e o Bradesco e entre ele e a Febraban ficaram estremecidas, vale dizer, tudo que não é permitido para os interesses dos bancos, especialmente, em ambiente de instabilidade total.

As justificativas pela saída de Cypriano – teria atingido a idade limite de 65 anos pelo estatuto do banco, depois de permanecer durante dez anos à frente do Bradesco – falariam, exteriormente, aparentemente, ao fato, não interiormente, latentemente. Aparência versus essência.

Os banqueiros romperam com uma regra capital: a discrição. Sabem que a ausência de toda e qualquer contrariedade política explicita entre os bancos e a autoridade monetária, que concede aos banqueiros a concessão para a abertura do seu negócio, é o ideal. Romperam com ela?

 

O perigo de brigar com o rei

A retirada de Cypriano de cena mostra o desgaste que se formou nas relações entre bancos e governo.

O presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, que luta para conquistar novos espaços para o banco no cenário nacional, depois de cair para terceiro lugar no ranking, em 2008, não poderia algurar sucesso, se tiver pela frente controvérsias políticas com o Palácio do Planalto. Essa possibilidade seria fatal, especialmente, ao longo dos próximos dois anos, em que Lula se empenha em manter a economia funcionando, para garantir sua sucessão.

Brigar com o rei? Os bancos atuam mediante concessões do Estado. São inúmeros os exemplos históricos de governantes que tiveram atritos com banqueiros e modificaram suas preferências, erigindo novos eleitos e condenando velhos aliados, na tarefa de manter a relação umbilical entre estado e banca, que o financia, historicamente.

Banqueiros não têm partido político, não apitam, em público, em política, apenas enfiam a mão no bolso para financiar o estado, tendo como garantia as letras do tesouro, além da possibilidade de comercializar dinheiro, de diversas formas, no mercado monetário, à moda oligopolizada, em escala crescente. 

As tensões entre bancos e o governo – como se evidenciou no episódio Cypriano-Meirelles – , em meio a uma conjuntura cujos desdobramentos destrutivos e potencialmente explosivos, politicamente, são coqueteis molotov, representariam um epílogo extraordinário no governo Lula, dando outro colorido político à Nova República.

O pavio acendido por Cypriano teria pecado pela desconhecimento do time certo para agir? Denunciou potencial conspiração que deixou o poder lulista de barbas de molho.

O conservadorismo de Brandão entrou em campo, rapidamente, mas deixou uma ponta do rabo de fora, expondo astúcia e insatisfação bancocrática com o andar da carruagem de um estado financista oligopolizado em ascenção a ser colocado a serviço da candidatura da ministra Dilma Rousseff.

 

 

Remoção imediata do problema

A pronta substituição de  Cypriano por Trabuco conjuga controvertidamente com as previsões feitas pelo próprio presidente Lula de que a crise mundial, detonada pelo empoçamento do crédito ao consumidor, sinaliza explosão social em decorrência da expansão do desemprego.

A briga entre Cypriano e Meirelles representou cortina de fumaça desse pano de fundo, dando claridade à oposição entre as duas partes, visto que o oligopólio financeiro estatal avança porque o oligopólio financeiro privado não atende o interesse público no compasso da crise mundial.

Como possível avanço de demissões de trabalhadores vai deixando o ambiente politicamente delicado, tornou-se inconveniente aos banqueiros cutucar a onça com vara curta. O Copom, por exemplo, onde a influência dos bancos privados era amplamente predominante, pode, de agora em diante, ser politicamente relativizado pelo avanço da economia política frente à política econômica, de forma dialética, no compasso da crise.

A lavagem de roupa suja Cypriano-Meirelles demonstrou claramente a possib ilidade de atritos cujas consequências, para os bancos, represetariam dissabores. O novo presidente do Bradesco, Trabuco, chega para ficar calado.

Fatos políticos novos e inquietantes passam a conduzir as ações governamentais que necessitam de ambiente econômico financeiro concorde com sua estratégia de enfrentamento da crise.

Não haveria tal concordância se continuar tensa relação Planalto-Febraban-Bradesco. Cypriano espirrou como a concha entre a onda e o rochedo, levando tremenda sapatada.

Falcões impõem guerra a Obama

Despertar trágico do ano novo. O seu perfil essencial está sendo dado pela guerra-massacre aprofundando-se entre Israel e Palestina, na Faixa de Gaza, Oriente Médio, sinalizando tensões globais. Não se pode desvinculá-la de um contexto que se forma pelos próprios interesses que o compõem, no sentido de afirmar sua necessidade para o capitalismo em sua fase atual de desenvolvimento histórico em crise total.

Esse contexto tem a guerra como conteúdo essencial indispensável à reprodução do capital, como demonstrou a história ao longo de todo o século 20, relatada no excelente livro “Capitalismo global – História econômica e política do século 20”, de Jeffry  A. Frieden, Zahar, 2008.

Os falcões da guerra estão alvoraçados sem saber direito que perigos a bancarrota capitalista em curso, nos Estados Unidos e Europa, reserva aos interesses que preservam, ou seja, os interesses da economia de guerra. De qualquer forma, mandam seu recado ao presidente eleito Barack Obama de que tendências ao pacifismo internacional por parte dos Estados Unidos, sob governo democrata, poderia custar caro aos seus patrocinadores.

Obama se candidataria a ser novo Kennedy, para desarmar o complexo do estado industrial militar norte-americano, cujos designos tenebrosos foram levantados pelo ex-presidente Eisenhower, em 1960?

O conflito sangrento, que condena a inteligência humana, como destacou o escritor judeu, A.B Yehoshua, em entrevista ao Globo, representa o produto final de uma linha de montagem industrial. Ela envolve investimentos alavancados pelo estado capitalista que passou a depender, como previu Marx, não mais da produção das mercadorias produtivas, mas, fundamentalmente, da produção das mercadorias destrutivas, na guerra.

Tal essência emerge brutalmente no Oriente Médio no raiar de 2009, como alerta aos democratas americanos vitoriosos com Obama, cuja promessa de campanha foi a de acenar para a paz e abrir diálogo com os islâmicos, a começar pelo Irã, aliado do Hamas, pregadores da destruição de Israel, aliado das forças armadas americanas.

O adversário de Obama, John MacCain, diante da promessa obamista, destacou que ele estaria estendendo as mãos aos terroristas que destruiram as torres gêmeas em setembro de 2001.

Antes que o primeiro presidente negro eleito dos Estados Unidos efetive sua promessa eleitoral, os falcões da guerra se anteciparam, agindo por intermédio das forças armadas de Israel, detonando bombas contra os que consideram terroristas,  os integrantes do Hamas, pouco relevando que se trata de movimento político democraticamente escolhido pela população palestina  na Faixa de Gaza, com discurso radical contra os judeus.

Sua pregação, naturalmente, bateu bem como expressão dos protestos às péssimas condições de vida em que vivem 1,5 milhão de pessoas espremidas, como sardinha na lata, numa extensão territorial de 42 km de comprimento por 12 km de largura – ou seja, um distância do Plano Piloto a Taguatinga, ladeada pelas vias EPTG e Estrutural. Um curral no qual inexiste liberdade de ir e vir, com as atividades essenciais – comércio, desenvolvimento, investimentos, enfim, produção, consumo e empregos, educação, saúde – todas controladas pelos judeus, mediante ditadura militar.

Nesse limitado espaço geográfico, de maior concentração humana do planeta, a indústria armamentista americana, por meio das forças armadas de Israel, exercita seus últimos lançamentos, que constituem a dinâmica em movimento da linha de montagem científica-tecnológica-produtiva que mistura grandes indusriais, grandes banqueiros, poderosos generais, governos obedientes e um pensamento conservador utilitarista ideologicamente construído ao longo do século passado, para justificar sua própria lógica de existência essencial à promoção da reprodução e acumulação capitalista.

 

 

Precisão total no ataque

 

Os moderníssimos foguetes GBU-39, leves, 113 quilos, adequados ao bombardeio subterrâneo, com autonomia de 110 km, disparados a 20 km, monitorados por GPS digital, teleguidos por satélites, garantem , praticamente, 100% de eficácia para atingir o alvo, com precisão quase cirúrgica, como destacou Roberto Godoy, especialista em armamentos, na TV Estadão.

As armas modernas americanas, adquiridas por Israel, competem, desproporcionalmente, com as armas do Hamas, de precisão incerta. Dos 40 foguetes Qassan, mísseis primitivos, disparados na sexta, 26.12, somente um acertou, em terreno judeu, numa casa isolada, matando uma pessoa, sacrificada, talvez, por azar. Ou seja, eficácia quase zero, em comparação à precisão armamentista israelense.

Os palestinos, portanto, trabalham como cobaias para o Pentágono. Por intermédio do poder judaico, sustenta estrutura produtiva guerreira que representa alavanca mundial de vendas das produções armamentistas, a partir de Israel. Geopolítica da guerra.

A Boeing Company, que lançou os foguetes GBU-39, para serem apresentados como atratividade mundial, causando escândalo e revolta social, nas principais capitais do mundo, nos últimos dias, depende,  mais do que nunca, do mercado de guerra, no qual floresce o complexo industrial militar.

A preservação do Oriente Médio como palco da guerra, para atuar como bombeamento de tensões, que se espraiam para outras geografias, representa mecanismo essencial de reprodução do capital, alavancado pelos gastos do governo.

A mobilização guerreira, como arma de combate às agressões ao status quo guerreiro por forças do Hamas – grupo radical de resistência islâmica -cujas energias revolucionárias brotam em terreno fértil em meio a uma população, social e economicamente, segregada, como se estivesse no campo de Auschwitz, obede a uma cientifica formulação política fundamentalmente utilitarista. Diante de um nação sem estado soberano, dominada pelas tendências políticas radicais terroristas – que perdurarão enquanto não se efetivar o Estado da Palestina -, o utilitarismo guerreiro caracteriza a oposição de um não-estado a sua política como manifestação marginal.

Da marginalidade ao terrorismo é questão de semântica construída nos laboratórios da propaganda política guerreira, ao sabor dos interesses da guerra.

 

 

Golias engole Davi

 

O estado de espírito da guerra tornou-se, para o complexo estado industrial militar norte-americano, fundamental, porque representa fonte de renda tributária para o governo continuar sustentado tal complexo como organismo que se alimenta de si mesmo. Um conceito na construção dialética do si por si mesmo.

A produção da indústria armentista – bélica e espacial -, que tem o estado como consumidor de mercadorias produzidas para a guerra, adquiridas por moeda estatal sem lastro, que entra na circulação, dinamizando a produção e o consumo, tornou-se indispensável para o capitalismo como atenuador das contradições do próprio sistema.

A guerra, que aumenta a produção sem aumentar a oferta – quem consome guerra não é o consumidor comum – , atua como fator antíclico para contornar as crises capitalistas, caracterizadas, essencialmente, por acumulação excessiva de capital, cronicamente, tendente à deflação.

Vestindo o perfil anticiclico das crise do capitalismo, as guerras, bancadas pelos gastos do governo, em nome da destruição, repreenta salvação por sua própria negatividade, na medida em que produz ineficiência necessária, para equilibrar-se com o excesso de eficiência acumulada pelo setor privado, como disse Malthus. No ritmo da ciência e da tecnologia, os empresários elevam  exponencialmente a produtividade, jogando os preços para baixo, sinalizando deflação, quanto mais acumula o capital podutivo.

Os Estados Unidos, com a sua sofisticação tecnológica, desenvolvida no departamento bélico e espacial, para produzir ineficiências cientificamente programadas, precisam fortalecer, em Israel o Golias, para enfrentar Davi. Produção que gera renda para consumo compensatório à diminuição do consumo privado, afetado pela crise de crédito. Nesse jogo, não tem dado outra; Golias massacrra Davi. A história bíblica está permanentemente sendo negada na sua representação imaginada pelo incorrigível romantismo humanista.

 

 

O capital vai à guerra

 

O Estado, como consumidor necessário, com sua moeda estatal sem lastro,  para dar suporte à economia de mercado, tendente ao colapso, representa, como disse Keynes, a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, na medida em que tem a autonomia para elevar quantidade da oferta de moeda na circulação capitalista.

Outra coisa não faz o presidente Lula, quando, enfrentando a oposição, engorda o Fundo Soberano Brasileiro com emissão de títulos da dívida pública, que se monetizam no mercado.

O autor de “Teoria Geral do Juro e da Moeda”, não brincou em serviço, ao perceber que a economia de guerra dinamiza o capital: “Duvido que o governo seja capaz de elevar seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer a sua força” , disse o grande economista em artigo no jornal “New Republic”, em 1941, segundo relata Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”. Roosevel captou o recado e mandou ver nos gastos do governo para tirar o capitalismo americano da crise de 1929.

Portanto, 2009, 80 anos depois do crash de 29,  começa com o recado da guerra como fator indispensável à reprodução do capital, principalmente, no momento em que o sistema entra em bancarrota, obedecendo à predição de Marx, de que as possibilidades do socialismo somente aconteceriam onde estivessem plenamente desenvolvidas as forças produtivas.

Tal desenvolvimento, no seu limite, produz, segundo o autor de O Capital, a contradição entre o desenvolvimento das relações sociais da produção , de um lado, e o das forças produtivas, de outro, fazendo emergir destruição tanto do capital como do trabalho via deflação.

Alguma dúvida de que esse mal ataca, no momento, a economia dos países capitalistas desenvolvidos? Onde, senão na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, tais condições pre-concebidas por Marx se encontram, plenamente, maduras?

Interessariam aos falcões da guerra o avanço da discussão socialista, no rastro da debacle financeira capitalista, senão como fator de estímulo ao rearmamentismo guerreiro de resistência? 

A indústria da guerra emergiu justamente para evitar o amadurecimento das condições que levam ao socialismo, segundo a tese marxista.

 

 

Limites estreitos para agir

 

Barack Obama pilotará uma conjuntura altamente explosiva, se a desaceleração econômica ganhar força auto-destrutiva, nos próximos meses, temor de muitos especialistas. Poderia, pressionado pelo Pentágono, redobrar sua aposta na pregação de Keynes, cuja essência é aumentar a produção de não-mercadorias, ou seja, a guerra, produtos bélicos e espaciais.

A Secretária de Estado do presidente eleito, senador Hillary Clinton, será a voz da guerra ou da paz?

O grande repórter inglês, Robert Fisk, do Financial Times, disse que escarafunchou todos os discursos de Obama até agora e não viu nenhum indício de plano para a paz no Oriente Médio. Apenas vagas referências à disposição de criar ambiente para aprofundamento do diálogo… Puro éter.

Como Obama priorizaria a paz , se só a agressão imperialista ao Iraque rendeu gastos públicos de cerca de 10 trilhões de dólares para dinamizar o complexo industrial militar norte-americano, segundo o economista Josef  Stiglitz, prêmio nobel de economia?

A guerra fria, que se estendeu dos anos de 1950 até final dos 80, jogou na circulação capitalista 15 trilhões de dólares, segundo o Instituto Pew, admirado por tal fenômeno não ter sido considerado pelos economistas, no período, como fator fundamental da praxis da macroeconomia capitalista.

Não fosse esse dinheirão todo, expresso em emissão monetária, que implodiu o padrão-ouro, nos anos de 1970, os Estados Unidos não teriam cumprido a previsão de Keynes, de que Tio Sam conheceria sua própria força se apostasse todas as suas fichas na economia de guerra. O estado industrial militar é o produto final da pregação keynesiana, como destaca Lauro Campos, em “A crise completa – Economia política do não”(Boitempo, 2002).

 

 

Jogo do engana que gosto

 

O avanço da guerra no Oriente Médio significa a garantia da preservação dos interesses do estado industrial militar americano. O resto é ficar na marolinha de fixar responsabilidades em torno da questão de (falta de)  princípio quanto a quem, nesse momento, começou a jogar pedra um no outro. Jogo do engana que gosto.

Exime-se da questão de fundo, ou seja, da existência de um contexto social, econômico e político, no qual se insere o conflito árabe-judeu, no laboratório explosivo da indignidade humana que se realiza na Faixa de Gaza.

Tal estrutura produtiva guerreira , para os palestinos, representa uma agressão permanente, porque produz, na Palestina, a falta total de perspectiva para a população, engaiolada sob experimentação de cientistas que testam armas de última geração contra armas obsoletas.

Encurralados, sob agressão, os palestinos se exercitam psicologicamente para o revide à castração da sua identidade como povo. Tudo se transborda em doses cada vez mais radicais, como comprova a preponderância do discurso do Hamas como expressão da maioria palestina.

Se eles se sentem agredidos permanentemente, sem liberdade para o comércio, para a cultura, para a política, para se organizar nos moldes da civilização, os foguetes lançados pelo Hamas  representam, evidentemente,  revide à essa permanente agressão, em forma de expansão das colônias judaicas sobre o território alheio e de escaramuças diárias contra a população na sua tentativa de afirmar o que não possui, o direito de ir e vir.

Isola-se a agressão, como fator em análise, não como fruto de uma conjuntura construída, historicamente, mas como se fosse fenômeno exterior à realidade, com vida autônoma, abstrata.

 

 

Senhora da guerra ou da paz?

 

A impossibilidade de os palestinos conquistarem o Estado Palestino, assim como aconteceu com os judeus, até antes de 1948, quando, com apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, principalmente, conquistaram o Estado Judaico, impõe-se como fator positivo para a indústria de armas.

Ela significa fogo de resistência palestina à indignidade humana que mantém o clima de guerra propício à reprodução do complexo industrial militar em escala global.

Sem se constituir em estado, a nação palestina, do ponto de vista da civilização organizada pelo direito positivo ocidental, simplesmente, inexiste.

Na marginalidade do concerto das nações, no mundo atual, a expressão política palestina torna-se essencialmente marginal, portanto, ilegal, enfim, terrorista.

Manter o clima de exclusão da nacionalidade, imposto pela conjuntura de guerra, germina, aos olhos dos falcões da guerra, semente terrorista, oxigênio para sobrevivença da estrutura produtiva e ocupacional guerreira em Israel.

Obama recebe o duro recado: se for falar com o Irá, que arma o Hamas, estará dando um tapa na cara do complexo industrial militar americano. Hillary Clinton, secretária de estado do governo obamista,  iria a Teerã ou ficaria, apenas, no circuito Washington-Telavive?

Crise fragiliza democracia

 

Cria novo ambiente político e econômico no país a decisão do presidente Lula de emitir títulos da dívida pública, via medida provisória, para garantir recursos ao Fundo Soberano Brasileiro(FSB), capaz de alavancar investimentos governamentais, destinados a sustentar o desenvolvimento das forças produtivas, ameaçadas pela paralisação do crédito, barrado pelos juros altos monitorados pelo Banco Central em favor dos interesses da bancocracia nacional.

A providência presidencial dá conta da necessidade de a governabilidade, sob a crise, ganhar celeridade, algo somente possível por meio de MPs, que impõem, no processo democrático em curso, permanente provisoriedade democrática.

Esse caráter institucional deteriorado da democracia brasileira, configurado pelos governos neorepublicanos, produz, como consequência, precarização da própria democracia, na medida em que as decisões, para superar os impasses que emergem, no calor da desaceleração econômica global, exigem efetivações mais rápidas que as prolongadas discussões em torno delas, decorrentes do antagonismo natural do confronto democrático no parlamento. O executivo passa a funcionar como trator sobre o legislativo, alterando suas determinações. Viola atribuições do Congresso, impondo uma ditadura branca.

Os congressistas tentam reagir, mas se encontram prisioneiros da nova conjuntura econômica e política emergencial. Eles haviam aprovado a lei 11.887, que cria o FSB, com recursos previstos de R$ 14,2 bilhões, mas impediram a utilização deles  por meio de aberturas de crédito orçamentários sem deliberação congressual, salvo mediante projeto de lei. Sem poder lançar mão de MP para obter rapidamente o dinheiro que julga necessário para enfrentar a crise, em forma de abertura de crédito orçamentário, proibido por lei, o titular do Planalto decidiu inovar, na base da ditadura executiva. Emitiu nova MP – a de número 452 – , agora, destinada a autorizar emissão de títulos públicos no valor previsto para a formação do próprio FSB. No mesmo dia, 26.12, em que a lei foi publicada no Diário Oficial, nascia, ao seu lado, MP que a alteraria. Show de autoritarismo executivo.

A oposição, que tentou colocar um freio na governabilidade provisória em que vive o país desde o nascimento da Nova República, em 1985, afetada pela crise monetária dos anos de 1980, que a subordinou aos ditames do Consenso de Washington, partirá para contestatação da decisão presidencial no Supremo Tribunal Federal. Conseguirá, no momento em que o governo age sob impacto da bancarrota financeira internacional, que torna todas as ações governamentais essencialmente emergenciais, conforme espírito das próprias MPs, de modo a criar expectativas positivas nos agentes econômicos apavorados com o fantasma da desaceleração econômica e da emergência do desemprego?

Ou concordarão os juízes com o caráter autoritário que vai tomando conta do poder executivo, rendido pelos acontecimentos, que impõem a precarização crescente do processo democrático, já super-afetado pelo excesso de MPs, bloqueadoras do funcionamento normal do poder legislativo?

 

 

A tentação autoritária

A questão central, como destacou o economista Luís Carlos Mendonça de Barros, na GloboNews, ao repórter Carlos Alberto Sardemberg, é a operacionalidade entre a decisão tomada e a ação efetiva provocada por ela, no ambiente novo da crise global, que atropela o legítimo jogo democrático caracterizado, essencialmente, pelo contraditório.

Nesse sentido, o economista previu que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, poderá enfrentar grandes desafios, cuja superação, rápida, implicaria expedientes semelhantes ao das medidas provisórias brasileiras. Tudo bem rapidinho, para não sofrer atrasos exagerados.

O governo de composição consensual obamista, que prevê participação de republicano e democratas, conferindo perfil novo no cenário americano, como sinal dos novos tempos, a exigir consensos em torno de polêmicas emergentes, requer essa nova lógica. Além disso, há a vantagem de garantia de maioria na Câmara e no Senado americanos, para tornar céleres as decisões executivas, algo ainda considerado incognita no contexto da democracia americana, em que os embates se efetivam com grande dose de confrontos de interesses.

O presidente eleito promete jogar na circulação, também, o seu fundo soberano, na casa dos 800 bilhões de dólares, para começar, a fim de renovar, de cima a baixo, a infra-estrutura dos Estados Unidos. Pretende, dessa forma, gerar, rápido, até onde for possível, 2,5 milhões de novos empregos, pelo menos.

O xis da questão, como destacou Mendonça de Barros, estará na operacionalização. Não se faz imediatamente a ponte entre a decisão e a ação. O processo implica em discussão no Congresso, onde Obama, poderá contar com a maioria democrata disponível.

Mas, ainda assim, não se tem a tradição de rapidez. Basta observar o tempo entre a decisão governamental do desmoralizado presidente W. Bush de destinar recursos para enfrentar a crise e a liberação deles para salvar a indústria automobilística do caos.

O processo, no ambiente de sufoco, parece que não anda, lento, incapaz de evitar o pior, ou seja, o avanço do desemprego, fantasma que apavora a todos.

A morosidade democrática seria empecilho ou a celeridade democrática emergia como resposta às imposições da própria crise?

 

 

Lapso freudiano chinês

A democracia americana estará, sob Obama, enfrentando grande teste. Ao mesmo tempo, como destacou o economista neokeynesiano, Paul Krugman, ao lado dos investimentos públicos, tem que estar uma estrutura poderosa, estatal, de fiscalização, para acompanhar a aplicação dos recursos, algo, também, que não acontece de uma hora para outra. Um mês já é tempo demasiado.

Como compatibilizar essa aparente morosidade intrínseca à instalação de uma nova institucionalidade, dada pela decisão governamental de colocar o Estado, mais decisivamente, à frente do processo econômico, com a pressa exigida pelos estragos produzidos pela crise em forma de demissões em massa nas fábricas, no comércio e nos serviços, produzindo desaceleração, recessão e depressão, com o elemento desconfiança instalado no coração do sistema capitalista?

Luís Carlos Mendonça de Barros, num lapso freudiano, disse a Sardemberg que tudo seria mais fácil se o fato ocorresse não nos Estados Unidos, mas na China, onde não há demcracia. A distância entre a decisão para agir e a ação efetiva propriamente dita, operacionalizando providências, rapidamente, seria minimizada. O parlamento seria ultrapassado. Ditadura seria solução?

Ou seja, o cenário da provisoriedade democrática, que está sendo expressa na ação do presidente Lula, acelerando medidas provisórias, em resposta à emergência recessiva global, estaria sendo instalado como salvaçao do capitalismo em bancarrota.

As consequências que a democratização provisória em marcha, justificada por nova conjuntura, impõe, representam desafios para a própria democracia, cuja capacidade de superação somente o tempo dirá se será efetiva ou não.