O lado bárbaro da Copa na África

Por trás da alegria que explode, existe o sentimento da resistência que se afirma na luta da organização social contrra o permanente espírito colonialista que o capitalismo disseminou na periferia , formalizando a divisão de classe que impulsiona a luta pela melhor distribuição da renda sem a qual a justiça social inexiste.

  
Por trás da alegria que explode, existe o sentimento da resistência que se afirma na luta da organização social contrra o permanente espírito colonialista que o capitalismo disseminou na periferia , formalizando a divisão de classe que impulsiona a luta pela melhor distribuição da renda sem a qual a justiça social inexiste.
Por trás da alegria que explode na África do Sul, várias Áfricas se debatem no compasso de uma existência histórica marcada pela exploração colonial. Esta se estende por intermédio da divisão de classes cuja essência é a interminável disputa política pelo poder entre os que governam com a orientação dada de fora para dentro, tendo que abafar, com repressão, os resistentes que internamente não se conformam com a exploração, cuja superação, por sua vez, divide aqueles que imaginam alcançar a união quando suprimem o espírito colonizador. Só que a exploração está entranhada espiritualmente, no processo histórico, que abre novas frentes de lutas, deixando no seu rastro divisões que se multiplicam em desencadeamentos intermináveis dados pela contradição que está na base da exploração econômica colonial.

O recado de  Chico para o seu amigo Caetano, no “exílio” em Londres,  era de que  “Aqui na terra – bem ao sul do continente –  estão jogando futebol”. À noroeste do continente africano, na Somália, a três horas de avião de Johanesburgo,  o futebol, em plena Copa,  foi proibido pela  milícia fundamentalista al Shabab (“A Juventude”, em árabe), ligada a Al Quaeda.

Nesses  dias quem estava, em casa mesmo, assistindo aos jogos da Argentina com a Nigéria ou  da Alemanha com a Austrália foi detido e  espancado pelos milicianos.

             De acordo com a agência de notícias italiana EFE, a milícia islâmica Al Shabab, que faz oposição ao Governo Federal de Transição (FTG) da Somália, proibiu a população de ver, pela televisão, aos jogos de futebol da África .

Os guerrilheiros desafiam as forças do governo,  checando casa por casa nos arredores de Mogadíscio para apanhar  pessoas que estejam assistindo as partidas da Copa do Mundo.

            Nesse fim de semana, a guerrilha fêz uma varredura no distrito de Afgoi, trinta quilômetros a sudoeste da capital somali, e seqüestraram  mais de quarenta  jovens que assistiam ao jogo entre alemães e australianos.

Detidos e espancados, eles tiveram as cabeças raspadas, sendo soltos a seguir  para servir de advertência a quem tentar assistir a Copa.

            A instabilidade política na Somália, país com 10 milhões de habitantes, localizado no extremo oeste da África, na  entrada do mar Vermelho, e  ladeado pela Ethiópia e o Quênia, arrasta-se desde 1991, quando guerrilheiros e militares desertores depuseram o ditador Mohamed Siad Barre, e iniciaram uma disputa entre si, conduzindo o país  ao caos.

Mais de 100 navios que transitam pela região já foram abordados pelos guerrilheiros, e vários foram   apreendidos.

Forças da Organizaçao das Naçoes Unidas, da Uniao Africana e da Alemanha tentam impor a ordem na área, mas nada intimida os guerrilheiros.

Sequestraram barcos, provomeram atentado contra uma fragata norte-americana que circulava por ali, capturaram, inclusive, fora das fronteiras da Somália, no Quênia, freiras e religiosos italianos. Soldados norte-americanos que serviam à ONU, mortos por eles, foram arrastados pelas ruas das vilas ocupadas.

                 Aparentemente isso nada tem a ver com o futebol.  Para os grupos extremistas, contudo, trata-se de um diversão, e nas áreas sob o seu comando –  parte dos somalis são cristãos- a lei é a Sharia  que, ao estabelecer o “caminho” da vida cotidiana,  proíbe o entretenimento, incluindo a música, o cinema e o futebol.

Os guerrilheiros da Shabab tomam , como exemplo, o  antigo governo dos talibãs, no Afeganistão, derrubado em 2001.

              Esse é um dos lados bárbaros da Copa .

Na parte muçulmana do país, os somalis que gostam de futebol têm  de ver os jogos clandestinamente, ou em áreas protegidas por tropas do governo e navios das forças de paz localizados na região.

Para evitar correr risco de violência, os mais precavidos viajam para Hargeysa, na região autônoma da Somalilândia, antigos territórios ingleses e italianos, ou para os vizinhos, Djibouti, no Golfo de Aden, ao norte da Etiópia, e até no Quênia, do outro lado do país, para poder ver as partidas.

          Parece o cenário dos anos de chumbo no Brasil. Chico encerrava o recado, dizendo …estão jogando futebol, mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa aqui está preta!

 

(Projeto pedagógico da Universidade católica de Brasília de cobertura alternativa da Copa da África do Sul)


Dilmasia 2010 sinaliza Lulécio 2014

JOGO FREUDIANO-TALLEYRIANO DA SUCESSÃO 2014. Parece ficção. E é. Mas, se apoiada em fatos que estão acontecendo e já aconteceram e que se interagem entre si no passado e no presente, por que não poderá ser projetada empiricamente para o futuro, sabendo que a política sempre anda dez passos à frente, por meio dos seus personagens centrais, ambiciosos, gananciosos, inescrupulosos, antiéticos, quase sempre? A lambança política em Minas está cada vez mais configurando, apenas, aparentemente, teatro do absurdo. O que parece ser não é, o que não é, é. Talleyrand, o grande diplomata da burguesia em ascensão sob Napoleão, dá as cartas nas Gerais. Para o grande gênio da diplomacia burguesa, copiado por Freud, as palavras servem para esconder o pensamento. Sua essência, ao contrário da aparência, foi a de ser um grande ladrão, como demonstra, com riqueza de detalhes, E. Tarlé, em "Diplomata da burguesia", editora Civilização Brasileira, 1965. Dá para não entender que o jogo de Lula é a repetição do Lulécio - Lula + Aécio -, armado em 2006, quando Minas cristianizou Geraldo Alckmin, para garantir o segundo mandato lulista? O tucano Aécio percebeu – ou construiu? – a onda anti-tucana contra o derrotado candidato paulista. Claro, embarcou nela, desde que garantida sua eleição para o Palácio da Liberdade. Demonizou a paulicéia desvairada entre as montanhas das Alterosas. Lula já disse que em 2014 estará aí, mesmo, disposto a voltar. Falou isso em entrevista a uma rádio em Fortaleza. O inconsciente dele está inquieto e já saudoso das benesses do poder. Quem aguenta ficar muito longe do vício gostoso de mandar e até de se lixar para as leis eleitorais burguesas sempre a serviço dos mais fortes? Hugo Chavez pretende ficar 30 anos no poder, como já disse. Com a ajuda da oposição burra, que não compareceu às urnas, nas últimas eleições legislativas, em 2005, está, por enquanto, sendo sopa no mel. Se, até as eleições parlamentares de setembro, conseguir driblar a inflação em marcha, sob boicote da burguesia venezuelana, combatida mediante dólar no paralelo, a continuidade do populismo chavista poderia estar garantida. Repetiria maioria no parlamento bolivariano? É esperar prá ver. Lula não conseguiu emplacar o chavismo, em forma de terceiro mandato, porque temeu perder a parada no Senado, onde não dispõe de maioria segura. Poderia ser derrotado, como havia sido batido na votação da CPMF. Ou seja, o Senado impediu o sonho de Lula repetir Hugo. Se tivesse maioria entre senadores, como dispõe na Câmara, alguém duvidaria, especialmente, quanto à possibilidade de pintar repeteco de movimento varguista, tipo “Queremismo”, "Queremos Vargas!", "Queremos Lula!", no compasso da fantástica popularidade lulista?

Neo-getulismso de saia

NACIONALISMO EM MARCHA. Certamente, dessa vez, não vem por aí NOVO Vargas, mas NOVA Getúlio, NOVA Brizola. Dilma Rousseff, caso eleita, já anuncia sua filiação a Vargas-Brizola, nesse início de campanha. Certamente, se vitoriosa, para ter sucesso, teria que fazer maioria nas duas casas do Congresso. Precisaria mais: que sua maioria fosse do PT, pois se o PMDB for majoritário, ganhando o Legislativo, o vice-rei, deputado Michel Temer, poderia, na dobradinha PT-PMDB, mandar mais que ela. Eventual governo dilmista, nessa perspectiva, caminharia de forma errática, em contexto no qual haveria pressões insuportáveis, especialmente, por parte da burguesia financeira. Os banqueiros estão super-inquietos diante de Dilma. Na primeira hora do próximo governo, forçarão, com certeza, a barra em favor de ajustes fiscais e monetários, no ambiente de crise global, durante a qual a economia brasileira revelou-se forte, mas, apenas, relativamente. Afinal, o endividamento governamental guarda armadilhas que os abutres trabalharão a ser favor. Alguém duvida? Não seria, apenas, Dilma, vindo a ser eleita, que teria sérios problemas pela frente. Da mesma forma, o ex-governador de São Paulo, José Serra, candidato do PSDB, se chegar ao Planalto, enfrentaria tais impasses, principalmente, se desatar, para valer, a crise européia, na beira do abismo. O mundo capitalista está de cabeça para baixo. Que pintaria, diante dos ajustes monetários e fiscais, resultantes das pressões favoráveis a que sejam cortadas despesas públicas, como ocorre entre governos europeus, sufocados na grande bancarrota global? Claro, impopularidades crescentes. Estas, certamente, se expressariam em forma de saudades eternas de Lula. Quem estaria disponível para seguir com o futuro ex-presidente que já anuncia desejo de voltar, senão Aécio Neves, provável senador mineiro pelo PSDB, no contexto em que a popularidade do próximo governo, obrigado a tomar medidas antipáticas, estaria cadente, certamente? Emergiria composição Lula-Aécio, ou seja, um nordestino com um mineiro, para colocar em escanteio as forças paulistas, que estão mandando no país desde Getúlio Vargas, em meio aos avanços do processo de industrialização nacional, realizado à custa de brutal concentração de renda? As forças financeiras, mandando a partir de São Paulo, temerosas quanto à anarquia econômica, desatada pela cise, seriam suficientes para dar continuidade ao processo de desenvolvimento em meio ao estresse geral da financeirização econômica globalizada? As forças de centro-esquerda popularizadas pela melhor distribuição da renda na Era Lula teriam que entrar em campo em algum momento como antídoto ao ímpeto revolucionário que as pressões da bancocracia tenderiam a produzir, a fim de eternizar o pensamento de elite. Lula-Aécio, PT-PSDB, finalmente, poderiam se encontrar, depois de negaças históricas? Só não emplacariam, se um neo-getulismo, sob Dilma, se revelasse fantástico movimento de transformação social a exigir sua permanência.

Demonização da paulicéia

SERRA-COSTA DESCE LADEIRA ABAIXO NAS GERAIS, FENÔMENO, APENAS, ENCOBERTO PELO AUTISMO MIDIÁTICO. Estaria, desde já, sendo armada, para a sucessão do vencedor ou vencedora, em 2010, a dobradinha Lula-Aécio? Ou não? Haveria, pela primeira vez, previsível união PT-PSDB, irmãos que brigam, mas não disfarçam suas semelhanças? O espírito de Silvério dos Reis, nesse momento, paira nas Gerais em cima da armação política governista e oposicionista, simultaneamente. O PT , dificilmente, engolirá – não está engolindo – a pressão do presidente Lula para marchar com o PMDB, ajudando eleger Hélio Costa. Prá falar a verdade, o presidente cuida de garantir Dilma. As articulações nos Estados que se danem, desde que beneficiem sua candidata. A preterição do candidato petista, ex-prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, vencedor na disputa das prévias eleitorais com o ex-ministro do Desenvolvimento Social e de Combate à Fome, Patrus Ananias, deixa o PT mineiro na ponta dos cascos, predisposto a materializar o slogan que corre: "De Costa não vou". Hélio Costa já está sendo demonizado. O PT, para Pimentel, é uma escada, na qual sobe ou desce, dependendo das conveniências. A história demonstra essa evidência. Em 2008, durante eleição municipal, em vez de apoiar o PMDB, cujo candidato era Leonardo Quintão, apoiado por Hélio Costa, em dobradinha PMDB-PT, preferiu, para sucedê-lo, na prefeitura da capital, engajar na candidatura de Márcio Lacerda, do PSB, igualmente, apoiado pelo governador Aécio Neves. Configurou, então, parceria PT-PSB-PSDB. Facada silverianadosreis nas costas do PMDB. Repetiria, então, sequência de movimento iniciado em 2006, em que Aécio fizera corpo mole diante do candidato tucano à presidência, Geraldo Alckmin, ao mesmo tempo em que crescia, em Minas, a onda favorável à reeleição de Lula, que acabou acontecendo? Nasceria, naquele instante, o chamado Lulécio = Lula + Aécio, articulação lançada pelo prefeito de Salinas, José Antônio Prates, que se elegeu em 2004 pelo PT, pulando, em seguida, para o PTB. Ex-líder estudantil na UnB, na época da ditadura militar, exilado no Peru, Chile, Argentina, França e Guiné Bissau, retornando ao Brasil com a Anistia em 1986, Prates, político, poeta, escritor e agitador político nato, filho do famoso Zepola, tropeiro no roteiro Salinas-Itabuna, lançou, agora, o seu novo slogan Dilmasia – Dilma + Anastasia – ou melhor, neo-Lulécio. Pegou.

Santa Ceia mineira

FUTURO ENSAIO GERAL PARA ENTERRAR O PRESTÍGIO PAULISTA. O argumento pratista é o de que Minas Gerais foi politicamente desrespeitada por José Serra que impôs sua candidatura à revelia da pregação de Aécio em favor das prévias dentro do PSDB. Para configurar o neo-Lulécio, expresso no Dilmasia, haveria que se repetir, em 2010, todas as articulações que derrotaram o PSDB nacional em Minas, nas eleições presidenciais de 2006. O PMDB, sob candidatura de Hélio Costa, entraria, nessa campanha, em tremenda buraqueira. Repetiria o mesmo destino que teve, sob candidatura de Alexandre Quintão, na eleição municipal de 2008, ou seja, levar facada nas costas. Assim como Fernando Pimentel, durante a campanha eleitoral municipal em 2008, preferiu apoiar, não o candidato do PMDB, Quintão, mas o do PSB, Lacerda, também, chancelado por Aécio, do PSDB, agora, da mesma forma, resiste ao PMDB de Hélio Costa, vítima da campanha “De Costa não vou”. Sintomaticamente, Aécio exultou diante da candidatura de Hélio Costa, para disputar com Antônio Anastasia, candidato tucano-aeciano, sob o argumento de que seria bem mais difícil vencer Pimentel. E o que dizer , igualmente, da resistência do ex-ministro do Desenvolvimento Social e de Combate à Fome, Patrus Ananias, que perdeu as prévias para Pimentel, em ser vice de Hélio, suportando pressão intensa do presidente Lula, favorável, aparentemente, à dupla PMDB-PT? Tal resistência patruciana, se materializada por desistência, superando pressão lulista, traduziria o óbvio, isto é, que o PT não marcharia com o PMDB. Cristianização ou demonização de Hélio Costa à vista, assim como, também, se mostra à vista a demonização-cristianização de Serra mediante o movimento Dilmasia. Qual o preço a pagar por Aécio com tal armação? Sua inconfessável traição – ou desobediência, vá lá – à candidatura Serra. Que outra tradução representa a aliança tácita dele com Pimentel? “Cê me ajuda que eu te ajudo, sô”, eis os acertos que materializaram em 2008, elegendo Lacerda e derrotando Quintão, enquanto tomavam um pretinho passado no saco, no famoso Café Pérola, na Praça Sete. Oh, Minas Gerais, quem te conhece não esquece jamais! A grande mídia não deu o espaço real ao verdadeiro fracasso que representou a visita, semana passada, do ex-governador José Serra a Montes Claros, a maior cidade do Norte de Minas. Foram convidados cerca de 120 prefeitos para recepcionar o candidato do PSDB. Compareceram, apenas, 13. Desastre. Enquanto o conservador poder midiático alardeava sobre o famoso dossiê que supostamente o PT preparava contra Serra, previsivelmente, articulado por Fernando Pimentel, na tentativa de colá-lo como crime eleitoral armado por Dilma Rousseff, o fundamental, o real concreto em movimento , era deixado de lado, vale dizer, a cristianização-demonização de Serra. Por incrível que pareça, o andar da carruagem da traição-desobediência em Minas vai colocando Aécio contra Serra e Hélio Costa a favor de Serra. De camarote, Dilma assiste o espetáculo da Santa Ceia mineira, sonhando com Getúlio e Brizola, enquanto monta no cavalo arriado lulista.

Segurança insegura neoliberal serrista

JOGO DAS APARÊNCIAS TUCANAS ESCONDE A ESSÊNCIA DO ENTREGUISMO NACIONAL. O candidato presidencial pelo PSDB tem insistido na crítica à atual política externa brasileira, à proposta da integração latino-americana. Foca na Bolívia, sobretudo, acusando o presidente Evo Morales de conivência com o narcotráfico. E critica também o governo Lula-Dilma por não adotar medidas de segurança mais eficazes no combate ao tráfico de drogas. Porém, lembramos algumas medidas adotadas no governo da dupla FHC-Serra que diluíram a níveis gravíssimos a capacidade do estado de praticar indispensáveis políticas de soberania. Tomemos a privatização da Embratel. Com ela, todas as comunicações governamentais e de segurança nacional, além da cobertura nacional das TVs, que passam pelos antigos Brasil-SAT da empresa, estão hoje sob controle de consórcio internacional. Basta uma ligeira modificação no posicionamento dos satélites, por sabotagem ou por erro técnico - atenção para a elasticidade do termo - para causar um apagão em todo o território nacional. A informação é importante para compreender que concepção de segurança o ex-ministro de FHC está a alardear hoje.O artigo é de Beto Almeida

Apagão satelital? 

SEGURANÇA NACIONAL EM MÃOS DE CONSÓRCIO INTERNACIONAL E INSEGURANÇA ESTRUTURAL. É diante deste quadro de complexidades crescentes - num mundo que cada vez mais comprova não ser o terreno para meigos - que por proposta do Brasil foi criado o Conselho de Defesa Sul-Americana. Detalhe fundamental: sem a presença dos EUA. Ato contínuo, os EUA revitalizaram a sua Quarta Frota. Como avaliar então a extensão e a profundidade da preocupação do ex-ministro José Serra para com a segurança nacional se, quando ministro de FHC, participou desta espantosa política de desarmamento unilateral que é como pode ser chamada a desnacionalização da Embratel e a entrega de informações militares e governamentais brasileiras para o controle de um consórcio internacional muito vinculado à indústria bélica? Quem criou o apagão satelital agora clama para segurança?

Esvaziar ou inchar? 

ESVAZIAMENTO DO ESTADO PARA DAR SEGURANÇA AO INVASOR. Por falar em segurança também é importante lembrar por quanto tempo a Polícia Federal ficou sem realizar concursos públicos quando Serra era ministro, período em que o FBI passou a ter um módulo seu, dentro das instalações da DPF em Brasília, um edifício cujo acesso é vedado a policial brasileiro, conforme denunciou reiteradas vezes a revista Carta Capital em 2000 e 2001.

Parceria incômoda 

SANÇÕES AO IRÁ ESCONDEM SANÇÕES AO COMERCIO DOS PARCEIROS DO IRÃ. Mas, como a crítica do candidato tucano alcançou o Irã, uma pequena nota divulgada hoje ajuda a jogar luzes seu posicionamento. Trata-se de uma advertência dos EUA ao Brasil, lembrando que as sanções impostas ao Irã incluem a proibição da venda de etanol à nação persa. Fica claro então que as sanções visam não apenas manter o monopólio da tecnologia nuclear em mãos das potências nucleares, como também prejudicar o relacionamento econômico do Irã com diversos países, incluindo o Brasil.

Revisão necessária 

REESTATIZAÇÃO DA EMBRATEL É SEGURANÇA NACIONAL. Só muito recentemente aquela política de desarmamento unilateral vem sendo revista com robustez. A Estratégia Nacional de Defesa, o reforço orçamentário ao Programa Nuclear Brasileiro, o apoio consistente ao Programa Espacial Brasileiro, a retomada dos concursos públicos para equipamento da Polícia Federal, a criação do Sistema de Rastreabilidade dos Medicamentos combatendo com tecnologia avançada o contrabando e a falsificação, a retomada da Telebrás Estatal, são algumas das medidas que apontam para esta revisão. Vale citar a regulamentação da lei do tiro de interceptação de naves que penetram ilegalmente as fronteiras brasileiras, nunca regulamentada no governo anterior, estimulando sua prática, já que os militares brasileiros nada podiam fazer além de constatar a ilegalidade.

 
Beto Almeida
jornalista

Congresso jorra petróleo na sucessão com avanço de idéias nacionalistas-socialistas

SIMON COLOCA PMDB NA VANGUARDA DA DISTRIBUIÇÃO DA RENDA NACIONAL. O PMDB gaúcho, representado pelo deputado Ibsen Pinheiro e senador Pedro Simon, e o PPS mineiro, expresso no deputado Humberto Souto, ou seja, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, mediante posicionamento político nacionalista-socialista, no debate sobre a distribuição da riqueza do petróleo brasileiro, no Congresso, viraram, durante a semana, sensação na sucessão presidencial. Sacudiram, politicamente, o país. O que dirão aos governadores e prefeitos dos 27 estados da federação as candidatas Dilma Rousseff, PT, e Marina Silva, PV, e o candidato José Serra, PSDB, à presidência da República, no momento em que começar, para valer, a campanha eleitoral e o conseqüente debate sobre a distribuição das receitas das reservas petrolíferas da camada do pré-sal, responsáveis por transformarem o Brasil, desde já, no maior atrativo internacional para investidores globais no cenário econômico mundial em crise, configurando verdadeiro aval ao desenvolvimento econômico nacional durante a primeira metade do século 21? Concordarão ou não em romper com as regras atuais, englobando, no que couber à União, tanto as receitas da comercialização do óleo, os bônus especiais de assinaturas, os royalties, beneficiando a todos os estados e municípios, eliminando o privilégio, hoje, concebido aos estados produtores que têm primazia sobre o dinheiro dos royalties? Assinarão embaixo pelo rompimento dos privilégios, atualmente, assegurados, em contratos juridicamente perfeitos, no regime de concessão, que está sendo ultrapassado pelo de partilha? Pela proposta dos deputados Ibsen-Souto-Simon, acabam os privilégios. Os estados produtores deixam de receber, prioritariamente, as receitas de royalties. Estas vão todas, junto com as demais , para o caixa do tesouro nacional. Cria-se o fundo social, de natureza contábil, vinculado à presidência da República, para o desenvolvimento social e regional. Formado por parcela do valor dos bônus de assinatura, de parcela dos royalties da União, da comercialização do óleo, dos royalties e da participação especial dos blocos do pré-sal já licitados destinados à União, bem como resutlados de aplicações financeiras sobre as disponibilidades gerais do montante de dinheiro acumulado com o negócio petróleo, o fundo social representaria força econômico-financeira-política extraordinária. A emenda do senador Simon entra nesse contexto. Tirando o que é da União(royalties, participações especiais sobre explorações geral dos poços de óleo do pré-sal, inclusive, dos poços já licitados e, naturalmente, tudo por licitar), 50% iriam para os estados e 50% para os municipios, de acordo com as regras dos fundos de participação dos municipios(FPM) e de participação dos estados(FPE). Os deputados, a cerca de dois meses, votaram em massa favoravelmente ao novo critério. Nessa semana, no Senado, o rolo compressor de apoio a tal proposta se repetiu, graças às pressões realizadas pela Confederação Nacional dos Municípios(CNM). Em ano eleitoral, já viu! Os senadores não apenas apoiaram, na íntegra, a proposta Souto-Ibsen, como, igualmente, chancelaram, por ampla maioria, 41 votos a 28, com 14 ausências, a emenda do senador peemedebista Pedro Simon, que transfere ao tesouro nacional a responsabilidade de compensar aos estados produtores as receitas dos royalties que deixarão de arrecadar para si, exclusivamente. De onde viria o dinheiro para tal despesa? Poderá vir do fundo social, formado com a receita da riqueza petrolífera, ou de tributos, certamente, a serem cobrados sobre a extração do petróleo. A massa de dinheiro previsível para cobertura dessa despesa é fantástica, levando em conta as estimativas de produção de petróleo na camada do pré-sal.

Nova distribuição da riqueza

NACIONALISMO MINEIRO COM DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA DO PETRÓLEO, O JOGO DE SOUTO. De acordo com as últimas informações técnicas divulgadas pela Petrobrás, as reservas, na camada pré-salina, alcançariam 50 bilhões de barris de petróleo. Calculadas ao preço do barril, cotado essa semana, na casa de 74,2 dólares, seria possível alcançar receita bruta, incluindo custos de extração, de 37,2 trilhões de dólares. Sendo os royalties correspondentes, aproximadamente, a 15% do valor do barril, a receita poderia chegar à casa dos 11 trilhões, ao longo do tempo de exploração da reserva estimada. Ou seja, luta-se pelo que se arrecadará no futuro, quando as reservas estiverem sendo extraídas e vendidas ao mercado. Se prevalecesse a regra atual, essa grana fantástica iria para os estados produtores, atualmente, Rio de Janeiro e Espírito Santos, os principais beneficiados, como compensação pela perda da cobrança do ICMS sobre o produto, tributado não na origem, mas no destino da mercadoria. Com a aprovação da proposta aprovada tanto na Câmara como no Senado, por maioria ampla nas duas casas, a pulverização da riqueza representaria a maior distribuição de renda na história brasileira. Dos recursos do fundo social, destinado a realizar obras sociais e desenvolvimento regional, 50% seriam dstinados à educação, sendo 80% canalizados para educação básica. A luta intestina, no Senado, para abocanhar esse dinheiro, é imensa. Os governadores do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, respectivamente, Sérgio Cabral e Paulo Hartung, ambos do PMDB, chiaram, barbaramente. Cabral disse que o Rio perderá R$ 7,5 bilhões, anualmente. Não teria como pagar aposentadorias garantidas pelo dinheiro do royalties. Consideraram covardia praticada pelos senadores contra o povo carioca e espiritosantense. Prometem não comparecer à convenção do partido que sancionará a candidatura do deputado Michel Temer, de São Paulo, à vice-presidência, ao lado de Dilma Rousseff, do PT, a ser escolhida nesse domingo. Que posição Temer tomará? Apoiará os dois governadores ou os restantes comandantes estaduais da agremiação? A decisão do Senado, corroborando o que se decidiu na Câmara, cria nova correlação de forças políticas no Congresso, no momento em que se inicia a campanha presidencial. O líder do governo, na Câmara, deputado Cândito Vaccarezza(PT-SP), assim como o senador Francisco Dornelles(PP-RJ), destacam ser inconstitucionais as mudanças. O parlamentar paulista argumentou que não está previamente fixada em regra orçamentária a liberação de recursos da União para ressarcir os governos prejudicados, como sugere a emenda do senador Simon. Mas, se não está fixada, agora, não poderia ser fixada no futuro?

Sinuca de bico

EMENDA IBSEN REVOLUCIONA CRITÉRIO DA DISTRIBUIÇÃO DA RIQUEZA E COLOCA PMDB EM OUTRO PATAMAR POLÍTICO NO CENÁRIO NACIONAL. O que fará o presidente Lula? O titular do Planalto ficou em sinuca de bico, da mesma forma em que está, em escanteio, relativamente, ao projeto de lei que beneficia os aposentados, elevando o reajuste salarial deles acima do que concede a proposta governamental, bem como suprime, também, o chamado fator previdenciário, aprovado na Era FHC, cujo pensamento liberal preferiu capar as aposentadorias precoces do que elevar a idade mínima para se aposentar, criando problema político , por enquanto, insolúvel, para o futuro da Previdência Social. Mas, se o governo concede juros mais altos para os banqueiros em nome do combate à inflação, por que, dizem os oposicionistas, não arrumará dinheiro para pagar os aposentados? O titular do Planalto, em nome da jurisprudência, garantirá direitos adquiridos por dois estados, ou optará, em nome do poder político, por favorecer 25 estados que reclamam as riquezas, a serem divididas igualitariamente em nome de uma nova federação, abastecida pelo poder do ouro negro? Cogita-se que o presidente vetaria a proposta de Ibsen-Couto-Simon, da mesma forma que poderá fazer o mesmo em relação à emenda, amplamente, aprovada, de autoria do senador gaúcho-petista, Paulo Paim, benéfica ao reajuste de 7,7% aos aposentados, enquanto os ministros das áreas econômicas defendem abonos de 6,4% para aposentadorias superiores a um salário mínimo. A demora presidencial em tomar decisão nesse sentido indica, com clareza, que o Planalto calcula os prós e contras quanto a tal decisão, tendo em vista a sucessão presidencial. O mesmo ocorrerá em relação à democratização da distribuição das receitas dos royalties do petróleo para governadores e prefeitos, que beneficiaria todos os brasileiros e não apenas os que vivem nos estados produtores.

Espírito nacionalista-socialista

PASQUALINI É O IDEOLÓGO QUE ESTÁ POR TRÁS DA EMENDA REVOLUCIONÁRIA DO PMDB, REPETINDO SEU RELATÓRIO EM 1951. O espírito nacionalista-socialista falou mais alto no Congresso, até agora, acompanhando as estratégias montadas por Ibsen-Souto-Simon, com amplo respaldo parlamentar, simplesmente, porque elas atingiram consenso histórico espetacular. Emergiram idéias que guardam tradições históricas do espírito trabalhista-nacionalista-socialista, no desenvolvimento histórico de Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com destaque para o famoso político gaúcho, Alberto Pasqualini. Relator, como senador pelo RS, do projeto de lei encaminhado por Getúlio Vargas, que criou a Petrobrás, Pasqualini, defensor de idéias socialistas e nacionalistas, foi decisivo para aprovação do projeto, em 1951, transformado em lei em 1953. Em seu relatório, Pasqualini propôs, com apoio amplo do Senado, tributação tríplice sobre riqueza petrolífera, que democratizaria a distribuição das receitas, no plano federativo, ao mesmo tempo em que determinou nacionalização geral da exploração sob grande irritação dos Estados Unidos, resistente ao nacionalismo varguista. As propostas Couto-Ibsen-Simon avançam no plano social, além das estratégias de Pasquilini e Vargas. Estes centralizaram o controle da riqueza no plano federal, no poder executivo, a cargo da exploração da empresa estatal, Petrobrás, sem maiores concessões aos estados e municípios. Agora, ocorre avanço politicamente qualitativo. Simon-Ibsen-Souto adotam pensamento socialmente elástico, configurando ideologia política que amplia, especialmente, o poder do PMDB no plano federativo. Guarda tal comportamento compatibilidade com a estrutura política historicamente formada nos estados da região Sul, responsável por impulsionar, no processo de colonização por imigrantes europeus, social e politicamente avançados, o desenvolvimento da pequena e média propriedade. Conquistada, na Europa, no século 19, ancorada em espírito cooperativo, a reforma agrária, expressa na propriedade de pequeno porte, avançou no sul, moldando consciênca política diferenciada, no ambiente capitalista, segundo o historiador Paulo Mercadante, em “A consciência conservadora no Brasil”, Rio , Saga, 1965. Trata-se de algo oposto ao desenvolvido nas regiões Nordeste e Norte, onde, dificilmente, seriam gestadas propostas dos integrantes do PMDB regional, dominado pelo pensamento altamente reacionário das oligarquias políticas. Apoiados nas grandes propriedades latifundiárias, no espírito do coronelismo colonial bárbaro, os oligarcas têm expressão em políticos conservadores como os senadores Renan Calheiros(PMDB-AL), José Sarney(PMDB-AP), Roseane Sarney(PMDB-MA), Edson Lobão etc. Os peemedebistas ligados às fontes conservadoras-reacionárias do poder nacional, resistentes ao pensamento nacionalista-socialista-peemedebista, como o do governador Roberto Requião(PMDB-PR), cuja disposição para sair candidato do partido à sucessão de Lula não prospera, estão sendo, na questão do petróleo, ultrapassados. Por sua vez, embora não tenham vez dentro do PMDB para abrir espaço à candidatura peemedebista que confronta com o conservadorismo cupulista do PMDB conservador, expresso no Norte e Nordeste, os representantes do Sul e Sudeste do partido, no entanto, demonstram, na prática, com a medida proposta para melhorar a distribuição da renda nacional, que poderão dar novo c onteúdo político, no plano federativo, à agremiação peemedebista. Vale dizer, o pensamento nacionalista-socialista-trabalhista do PMDB, puxado pelos políticos do Rio Grande do Sul, agita a sucessão presidencial e obriga os candidatos a se posicionarem de forma avançada.

Dilma e as armas da crítica

DE ARMAS EM PUNHO COMO OS HEROIS. Muito antes que Lula anunciasse Dilma como sua possível candidata a sucessora, no ano passado, a mídia brasileira em seu conjunto já nutria e estampava uma notável antipatia pela figura da ex-ministra. Com o anúncio, a antipatia subiu de tom e tornou-se pauta obrigatória. Muitos adjetivos negativos já foram atirados sobre ela. Provavelmente, a tentativa mais grave de demolição da imagem da candidata foi aquela em que era acusada de terrorismo por ter pertencido a um dos movimentos que se levantou em armas contra a ditadura militar. A Folha de São Paulo chegou mesmo a publicar ficha falsificada da ex-presa política. Seus autores deverão responder perante a lei pela grosseira e criminosa adulteração. Pelas pesquisas disponíveis, a desqualificação editorializada de pouco adiantou já que Dilma é o nome que mais cresceu entre os presidenciáveis. É quando cabe sugerir longa e profunda reflexão sobre a força da razão e das idéias necessárias historicamente. É quando cabe comprovar se estamos diante de um momento da história de nosso país em que as armas da crítica encontram condições concretas para aprofundar um processo de transformação social que está em curso.

Folhetim reacionário

LUIS FRIAS, A VOZ DA REAÇÃO. Quando a Folha de São Paulo tentou escandalizar a sociedade “denunciando” que Dilma Roussef havia pegado em armas contra a ditadura, o que, na sua visão, a inabilitaria para concorrer ao cargo de presidente da república, talvez não imaginasse que a resposta viria com a forma simples e objetiva do raciocínio de Lula sobre a história. O presidente comparou Dilma a Nelson Mandela, libertador da África do Sul do regime cruel e desumano do apartheid. Ambos pertenceram a movimentos que, nas condições históricas adversas e sem quaisquer possibilidades para atuar politicamente, lançaram mão de ações armadas para derrubar regimes despóticos, ditatoriais, tirânicos, violadores dos direitos humanos, praticantes de execuções e torturas físicas contra os adversários políticos. Acuados, perseguidos, verificando o assassinato de companheiros patriotas que aspiravam à libertação de seus países, muitos então jovens como Mandela e Dilma, lançaram-se à luta política mais radical. Proibidos de exercerem as armas da crítica, lançaram-se à critica das armas, para tomar a frase inapagável de Karl Marx. E pagaram caro por isso, sendo ambos presos e torturados. Não se sabe quantas milhares ou milhões de vezes a tal acusação - lastreada numa montagem desinformativa publicada pelo jornal paulista - circulou e ainda circula pela internet. Sabe-se apenas que a ausência de critérios éticos que levaram os seus autores a tal ponto não os impedirá de novas e talvez mais absurdas iniciativas para demolir a candidatura que tanto prejudica poderosos interesses.

Cultura do golpismo

A VIBRANDE VOZ LACERDISTAS DE WASHINGTON. Essa desconstrução da imagem da ex-ministra conduz a uma analogia com a senha golpista que Lacerda lançou contra Vargas. Desconcertado e desesperado diante da popularidade do gaúcho de São Borja, Lacerda sentenciou o que ouvia nos porões mais fétidos da conspiração oligárquica: ”Vargas não pode ser candidato. Se o for, não pode vencer as eleições. Se as vencer, não pode tomar posse no cargo. Se tomar, não pode governar!”. A senha golpista foi levada ao pé da letra pouco tempo após Vargas ter sancionado a criação da Petrobrás e a lei para criar a Eletrobrás. Se Vargas saiu da vida para entrar na história, é nela que devemos buscar aprender de suas preciosas lições. Para ter elementos que fortaleçam a argumentação dos que querem fazer andar adiante a roda da História. Para nos dar mais condições de usar as poderosas armas da crítica, de modo a assegurar que este país siga seu curso de transformação social progressista e democrática.

Sonho libertário

RESISTIR É PRECISO. Mas, que poderá haver de comum entre Vargas, Mandela e Dilma? Lula já indicou as similaridades entre os dois últimos, que não havia ocorrido aos mais diplomados sociólogos. Vargas entra na equação porque também pegou em armas, levantou o povo brasileiro contra a oligarquia e a dependência ao capital estrangeiro. Historiadores contam que em apenas um dia mais de 30 mil brasileiros apresentaram-se como voluntários, em Porto Alegre, para receber armas e marchar sob a liderança de Vargas rumo ao Rio de Janeiro! Vargas pegou em armas, mais do que isto, armou o povo brasileiro! E como resultado da Revolução de 30 surgem os direitos sociais, as leis trabalhistas, o direito de voto feminino, a licença maternidade, a reforma educacional, a universidade brasileira, além das medidas estratégicas como a nacionalização do sub-solo, preparando o terreno para a nacionalização do petróleo, a criação da Rádio Nacional, a nacionalização dos seguros, a previdência social etc. Estes são alguns dos resultados históricos concretos do gesto de Vargas de pegar em armas e de armar o povo brasileiro. Por isso ele ainda é, e para todo o sempre, tão odiado pelas oligarquias. Vargas havia passado das armas da crítica para a crítica das armas. Havia até mesmo convidado Luis Carlos Prestes que já havia liderado uma épica rebelião também configurada como crítica das armas, a inapagável Coluna Prestes. O stalinismo frustrou a aliança de Vargas e Prestes. Talvez os prazos históricos tivessem sido outros no Brasil. Talvez...

Mineiro radical

ARME O POVO PRESIDENTE! Assim como talvez, se os clamorosos apelos de Tancredo Neves naquela dramática madrugada de 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, para que Vargas lhe desse poderes para organizar a resistência armada contra o golpismo, inclusive organizando a resistência popular armada, o que já era uma experiência concreta na relação de Vargas com as forças populares, talvez, voltamos a dizer, o tiro que explodiu o coração do presidente da República tivesse encontrado pontaria histórica mais precisa e mais necessária. Tancredo também apelara para que o presidente alvo de conspiração golpista armada pelo capital estrangeiro passasse das armas da crítica - a legítima defesa democrática - para a crítica das armas, com o pleno respaldo popular e da história. Aquele agosto de 54 apenas adiou a tragédia de 64, quando as oligarquias, como sempre ocorre na história, passam das armas da crítica anti-democrática - inclusive a manipulação mais grosseira da imprensa que implorava o golpe militar, e muitos editorialistas do golpismo ainda estão em atividade hoje - para a crítica das armas. Instala-se a ditadura armada contra um povo desarmado. Quantas vezes na história povos pacíficos, esmagados, oprimidos, não tiveram outra alternativa a não ser, pela coragem de seus filhos mais prenhes de liderança, a de organizar a rebelião em nome das causas mais sagradas de uma Nação??? Ignoram os que querem colar o rótulo de terrorismo sobre os lutadores do povo brasileiro, que a nossa história é rica em preciosas páginas de insubordinação contra situações tirânicas? Não, eles não ignoram, o que querem é que nós não nos lembremos da nossa própria história, de nossos heróis, de nossos mártires! Impossível.

Herói ensandecido

LIBERTAS QUE SERA TAMEM. Comecemos por recordar o alferes Tiradentes que lá nas Minas alterosas de dignidade e de amor à liberdade organizou a rebelião republicana contra a decrépita Coroa Portuguesa. “Por aqui passava um homem e como o povo se ria, liberdade e igualdade, a todos dizia”. Talvez naquela madrugada de 24 de agosto de 1954 o mineiro Tancredo Neves também se encorajasse da lembrança de Tiradentes, o herói ensandecido de amor pela liberdade, que já havia organizado uma das mais marcantes tentativas de passagem das armas críticas às critica das armas. Zumbi havia tentado antes. Em Guararapes também “aprendeu-se a liberdade, entre flechas e tacapes, facas, fuzis e canhões, brasileiros irmanados”, relembra o monumental samba de Martinho da Vila. Versão poética da crítica das armas.....

Fuzilamento paterno

LATINO-AMERICA UNIDA CONTRA EXPLORADORES. O Padre Roma organizou a crítica das armas configurada na Revolução Pernambucana de 1817. Pagou com a vida. Seu filho, o General Abreu e Lima, foi obrigado à tortura mais cruel: assistir o fuzilamento de seu próprio pai, ordenado pelo bárbaro Conde D’Arcos. Imbuiu-se de uma indignação tão infinita e inesgotável que se tornou herói da Gran-Colômbia, lutando ao lado de Simom Bolíviar, derrotando o colonialismo espanhol. Quando volta ao Brasil, incorpora-se novamente na tarefa de exercer as armas da crítica e sua passagem à crítica das armas, quando novamente é punido pela participação na Revolução Praieira. Na sua ausência, o Frei Caneca já tinha também pago com a própria vida pela legítima rebeldia republicana contra o colonialismo português. Brizola, também, na célebre Campanha da Legalidade, foi obrigado a passar das armas da crítica à crítica das armas, para impedir a volta do voto de bico de pena ou de ponta de baioneta. Ou seja, temos tanta história! Pobre do país ou de povo que não produza rebeldes dispostos a entregar sua própria vida pelas causas mais nobres de uma nação. Acerta Lula quando afirma que Dilma é criticada pelas suas qualidades....

África libre

FORA OS VENDILHOS DO TEMPLO AFRICANO. Na nossa irmã Angola, o poeta e médico Agostinho Neto mesmo preservando a delicadeza de seus versos, pegou em armas e liderou a luta de seu povo armado contra o cruel colonialismo português. Tão cruel que ensina nos livros de história que os angolanos tinham rabos... Em Moçambique, outro poeta, o enfermeiro Samora Machel, também incorporou armas à sua dignidade e poesia, e organizou a luta armada de seu povo, por meio da Frelimo, para conquistar a independência do país. Outras célebres personalidades do mundo, igualmente, foram conduzidas , por implacáveis condições da história, a realizar esta dialética passagem das armas da crítica à crítica das armas. Miterrand , presidente da França, e sua Danielle, também pegaram em armas contra a ocupação nazista. Sandro Pertini também lutou com armas nas mãos contra os nazistas que ocuparam e esmagaram a Itália. Depois, lastreado por sua dignidade, tornou-se presidente da república. Nem é preciso lembrar do poeta vietnamita Ho Chi Min, do professor Mao Tsé Tung, do auto-didata León Trotsky, este organizador do Exército Vermelho, capaz de resistir ao cerco de onze exércitos estrangeiros simultaneamente.

Valentia serrista

VOZ SOBERNANA INDÍGENA ENLOUQUECE TUCANOS. Quando Serra agride o presidente boliviano Evo Morales, que já tem na sua biografia o reconhecimento da Unesco por ter erradicado o analfabetismo na pobre Bolívia, soma-se ao coro dos desesperados barões da mídia naquele país que chamam o mandatário de “narco-presidente”. O curioso é que o governo da dupla FHC-Serra promoveu o mais perigoso processo de desarmamento da capacidade de defesa do Brasil de que se tem notícia. Mais que isso, a lei que instituía, após advertência, o tiro de interceptação, a chamada lei do abate, para ser usada contra aeronaves que adentravam ilegalmente o território brasileiro, não foi sancionada. A argumentação do governo de então era de que se poderia atentar contra a vida de inocentes. Assim, aviões do tráfico de armas e de drogas podiam entrar com facilidade pelas nossas fronteiras sem que os militares brasileiros tivessem autorização legal para atuar. Sabendo disso, o tráfico atuava com ampla liberdade... Duvidava-se, nos círculos governamentais tucanos, que os aviões trouxessem drogas ou armas. Será que traziam jujubas? O sucateamento da capacidade de defesa organizado pela devastação neoliberal era pura e simplesmente desarmamento unilateral em favor de países que seguem ocupando posições estratégicas no planeta, com base em prioridades orçamentárias inequívocas às suas respectivas indústrias bélicas. Fica claro aqui o lamentável sentido histórico dos que querem criticar a rebeldia que a ex-ministra teve na juventude diante de uma tirania implacável. Onde estavam estes “patriotas” que se calaram diante do desmonte da indústria bélica nacional? Quem cala consente. Onde esconderam sua vergonhosa omissão quando um país com esta enormidade de costa e este potencial hidroviário teve sua indústria naval demolida? E a omissão conivente destes patrioteiros ante a demolição do sistema ferroviário? E o que dizer da magnitude do crime histórico de lesa pátria que significou a privatização da Embraer, sem contar o que a medida representou em redução unilateral e subordinada da capacidade nacional de defesa? Desarme que tem alcance de crime de lesa-pátria e que corresponde oferecer vantagens excepcionais ao poder externo imperial, que , a cada dia, demonstra pretender novas e mais expansivas intervenções militares.....

Vive Le France!

RESISTÊNCIA AO NAZISMO. É certo que as políticas do governo da dupla FHC-Serra que ampliaram perigosamente as vulnerabilidades externas do Brasil, começaram a ser revertidas firmemente no governo da dupla Lula-Dilma, a começar pela instituição de uma Estratégia Nacional de Defesa, que vai mais além do que algumas medidas militares. Avança na articulação entre uma concepção de desenvolvimento coordenada com defesa, industrialização e soberania, sem descuidar do reposicionamento das forças militares, seja fisicamente, no território brasileiro, seja no conteúdo doutrinário pelo o que passa ser estudado nas academias militares, onde também são estudados textos dos vietnamitas Ho Chi Min e Giap, entre outros. Além disso, vale citar a reconstrução da indústria naval brasileira e novo impulso para o programa nuclear iniciado na Era Vargas, destacando sua respectiva importância para a soberania nacional. E, também, o apoio determinante do Brasil para a criação do Conselho Sul-Americano de Defesa, em sintonia lógica e coerente com o processo de integração da região, hoje em curso. Em contrapartida, o governo da dupla FHC-Serra apoiou a anexação das economias latino-americanas aos EUA que se tentava implantar pela ALCA, devidamente enterrado pelo governo da dupla Lula-Dilma. Para os que insistem em buscar meios de afirmar que não há grandes diferenças entre os dois principais candidatos, creio que aqui temos algumas diferenças abissais.

Resistência asiática

ESTRATÉGIA POPULAR CONTRA COLONIALISMO. Certamente, tempos eleitorais são períodos em que as oligarquias mais revelam sua inépcia para o convívio com as práticas democráticas. Elas preferem a imposição e o esmagamento das forças populares. Normalmente, em termos históricos, isto ocorre recorrendo à crítica das armas, por meios reiteradamente ilegais. Ditaduras e mais ditaduras andaram pelas páginas da história. Hoje, temos uma quadra do tempo em que, apesar da brutal desigualdade no acesso aos meios de comunicação, as forças populares encontram certas condições para exercer as armas da crítica. Seja pela voz de um presidente que usa legitimamente de sua popularidade para demolir mitos e falsificações midiáticas, seja pelo acúmulo da luta que as forças progressistas alcançaram, dando início a um processo de transformação que deve e pode ser aprofundado em favor dos mais empobrecidos.

Beto Almeida

Jornalista

Presidente da TV Cidade Livre