Democracia direta detona guerra civil na Bolívia

Não dá para tapar o sol com a peneira. Os adversários radicais do presidente Evo Morales, depois de perderem a parada do referendo nacional sobre se Morales continuaria ou não presidente, adotam o terrorismo político, para tentar melar o jogo democrático.

Fundamentalmente, os opositores bolivianos, nas regiões ricas da Bolívia – Pando, Beni, Santa Cruz, Chuquisaca, Tarija, formando a chamada “Meia lua”, agora, lua vermelha, manchada de sangue, na região leste, de norte a sul, fronteira com Brasil –  estão temerosos de que o referendo constitucional, no próximo dia 7 de dezembro, dê outra vitória acachapante ao representante político do pensamento socialista indigenista sul-americano.

Partiram para a ignorância fascista. Poderá dar, é claro, nova reviravolta na questão política, favorável à nova ideologia política no poder boliviano, extraída da força popular. Acelerará a democracia ou antecipará o golpe?

O referendo e o plebiscito são as novas armas da revolução sul-americana, que, estão, também, na constituição dos Estados Unidos, como suprassumo da representatividade democrática.

A conscientização política, sob governos dispostos a praticar a democracia participativa, assombra os fascitas, que tentam esconder-se por trás do biombo da democracia representativa, como falsos democratas.

Pretendem, resistindo, conservadoramente, ganhar o poder e exercê-lo com os interesses de cúpula política, mediante sistema viciado de distribuição do jogo eleitoral do poder em que os partidos carecem de representatividade popular.

Pode ser que próximas etapas de mudanças serão dadas pelo referendo. Antes, virá o referendo maior, o de 7 de dezembro de 2008, que chancelará ou não a nova Constituição.

Depois, não estaria afastada hipótese de novos avanços da democracia participativa para discutir e votar sobre política energética nacional, como já reivindicam os partidários de Morales.

Historicamente, o poder sempre esteve em mãos da cúpula política e empresarial associada ao capital externo que mandava e desmandava na política energética. O poder indigenista sentou à mesa e quer participar, legitimamente, via democracia direta, do novo poder. Força política consciente irresistível.

Tudo deixa de ser previamente dado para ser tudo plenamente discutido nas ruas. As cúpulas sempre tiveram medo das ruas. Preferem o udenismo golpista. A nova Constituição boliviana está adequada aos interesses das forças políticas que chegaram ao poder e sentiram que, por serem maioria, terão o mando de campo por algum tempo, que pode ser longo, se souberem manter-se unidas. Seu ponto de unidade é o pensamento indigenista, o mais humilhado na história da América do Sul.

Pensamento socialista indigenista

Agora, tal pensamento, que foi teorizado por José Carlos Mariategui, em livro genial, internacionamente, respeitado,  “7 ensaios de interpretação da realidade peruana”(1927), e que vem fazendo a cabeça ideológica da nova esquerda sul-americana, voltada para cultivar as tradições políticas indígenas, destruidas pelos colonizadores, começa a fazer efeito bravo no compasso dos plebiscitos e dos referendos democráticos. Revolução democrática.

Como sempre foram minorias que só conseguiram maiorias por meio da manipulação da democracia representantiva, cujo peso maior é o jogo econômico associado do capital interno e externo, os interesses econômicos privilegiados pelo status quo sob ataque se desesperam. Não dispõem de base popular suficiente para se submeterem,  com sucesso, aos pressupostos básicos da neodemocracia direta. Vêem seu poder esfumarçar-se sob impactos de referendos e plebiscitos democráticos.

Deixa de ser útil, para os interesses conservadores, os pressupostos democráticos em sua radicalidade popular, expressa na democracia direta, que supera, quantitativa e qualitativamente, a democracia representativa, viciada pela corrupção do capital. Um salto ousado e perigoso.

Seria diferente no Brasil? Aqui, por exemplo, a democracia representativa se transformou em farsa, depois que se subordinou, completamente, aos interesses dos credores, que induzem o governo a administrar o país por medidas provisórias. Os interesses que sustentam essa situação não ficariam de pé sob impactos de referendos plebiscitários.

Novos donos do poder

Nova Constituição, via assembléia constituinte, como rola na Bolívia, poderia  eliminar o suprassumo do poder dos banqueiros, expresso na letra b, do inciso II, do parágrafo terceiro do artigo 166, da Constituição brasileira, que transformou em direito e causa pétrea o pagamento dos serviços da dívida, tornando-o livre de contingenciamentos.

Estes somente podem abater-se sobre o lombo da população em forma de contingenciamentos de recursos destinados aos investimentos em educação, saúde, segurança, infra-estrutura. Tudo garantido por medidas provisórias que excluem o debate social entre as forças antagônicas por intermédio dos partidos.

No contexto do referendo e do plebiscito, é outra história. A sociedade é chamada a dar opinião. Por isso, Morales está causando a rebelião fascista contra si. Os fascitas estão temerosos de perderem o poder no plebiscito no próximo dia 7 de setembro. Querem rebentar, antes, um golpe, dividindo, perigosamente, o país. Separismo radical.

Hugo Chavez, presidente da Venezuela, percebeu o jogo dos golpistas, pois sofreu na pele. Reagiu e avisou que mandará bomba. Expulsou o embaixador dos Estados Unidos na Venezuela, sob pretexto que descobrira golpe interno contra si por militares aliados de Washington, repetindo o gesto de Morales, que justificou a expulsão do embaixador americano por estar conspirando contra os interesses da democracia boliviana.

Washington considerou absurdo e expulsou, também, os embaixadores dos dois países nos Estados Unidos.

Morales bobeou por não ter cobrado, na hora, dos Estados Unidos apoio ao governo boliviano contra o golpe fascista e terrorista, antes da radicalização final. Precipitou-se, quando poderia tirar partido da data de 11 de setembro, quando, em 2001, Nova York foi bombardeada pelo terrorismo.

Seria um teste para a política anti-terrorista bushiana.

A radicalização política favoreceu a Casa Branca, que ficou livre de maiores explicações, por ter o governo boliviano pré-julgado participação do governo americano em conspiração contra Morales, ancorado no novo poder indígena.

O campo ficou aberto para as bombas. O terrorismo político está sendo a resposta dos temerosos de perderem o poder sob plebiscitos e referendos. A luta pelo poder sempre foi sangrenta, na América do Sul, mas os referendos e plebiscitos surgiram como possibilidades de mudanças sem sangue, mas com paz.

A quem interessa, numa economia dominada pelos oligopolios privados, a guerra que põe em campos opostos o governo popular e os interesses contrariados com a mudança brusca via plebiscito democrático?

Atualidade jacklondoniana

Emergiu na Bolívia a previsão de Jack London, em “Tacão de ferro”(1907), prefaciado por Trotski, de que do ventre do oligopolio privado nasceria, em nome do interesse público, o oligopólio estatal.

A estatização total das riquezas energéticas bolivianas é a emergencia do oligopólio estatal que desbanca, via referendos e plebiscitos, o oligopólio privado na exploração das riquezas do gás e do petróleo, razão maior do radicalismo fascista.

As prioridades políticas que levaram Morales ao poder exigem que tire mais dinheiro dos ricos do petróleo e do gás, para fazer o mesmo que o presidente Lula está fazendo no Brasil, bombando com dinheiro público os programas sociais, para sustentar o consumo interno e dar estabilidade econômica à Bolívia.

Diante da exigencia de maior transferência de riqueza, via política fiscal, os interesses contrariados jogam bombas na democracia direta, pois ela se transformou em seu algoz.

O cinismo mostra que não tem limites. Os fascitas se auto-intitulam “grupos cívicos”, neologismo com o qual tentam encobrir o que realmente são, ou seja, grupos terroristas, jogando bombas nas armas da economia, as exportações do gás, e da política, referendos e plebiscitos.

No último referendo, que assegurou sua continuidade no poder, 65% apoiaram Morales.  Se rolar o mesmo percentual no próximo dia 7, estará dada a base legal para aprofundar reformas econômicas, que, necessariamente, implicam maior distribuição da renda nacional, concentrada nas mãos dos falsos democratas que passaram a ter como arma não a palavra mas bombas.

Faltou solidariedade bushiana

A falta de solidariedade de Washington à democracia participativa de Morales, semelhante à democracia participativa direta americana, responsável por levar o governador da California, Arnold Schwarzenegger, ao poder, demonstra caráter anti-democrático. Para ele, as Farcs contra o presidente Álvaro Uribe são terroristas; mas, os bombardeadores da democracia boliviana são “grupos cívicos”.

O jogo, pelo menos nessas horas quentes, é de radicalização, mas pode, também, ter muito fogo de palha, porque os opositores e governistas, na Bolívia, já sabem que, isoladamente, não conseguirão governar. Os antagonismos fizeram explodir as contradições que buscarão sua superação dialética.

A tese – o pensamento econômico colonialista – fez emerger radicalmente a antítese – o pensamento econômico socialista indigenista. Qual a síntese?

A política, segundo ensina Sócrates, na República de Platão.

As partes terão que sentar à mesa. O banquete da renda nacional terá que ser dividido por bem ou por mal, graças ao predomínio do plebiscito.

A burguesia boliviana, porém,  ainda não percebeu que o combate ao subconsumismo nacional, como está sendo feito no Brasil, com maior distribuição da renda, via garantia de consumo dos mais pobres, dinamiza a economia,  alavanca a própria renda nacional, estabiliza relativamente a inflação e fortalece a democracia.

Ninguém faz revolução de barriga cheia. Fidel Castro que o diga. Lula , igualmente, nada nas alturas da popularidade.

O jogo na Bolívia é como se invertesse a história. Os índios chegam ao poder para explorar os brancos e dominar suas riquezas, a fim de exportá-las e obter o fruto para aplicação nos projetos sociais indígenas.

Estes passam a obedecer a uma lógica econômica dada pela política indigenista, inversa ao pensamento predominante historicamente desenvolvido pelos outrora detentores exclusivos do gás, dos minérios, do petróleo e da política.

Entra em cena a força ou a fraqueza do estado nacional para conter os oligopólios econômicos.

O Estado nacional já era

O economista Marcio Porchaman, presidente do IPEA, tem destacado que os estados nacionais, no contexto da globalização, foram ultrapassados pelos oligopólios econômicos. Estes, na Bolívia, eram os donos absolutos do poder.

Agora, são os donos relativos. Vencerá o absolutismo ou a relatividade? Como resgatar o poder do estado nacional em meio à contestação social violenta em reação à melhor distribuição da renda no país?

Para Porchman, o episódio, preocupante para toda a diplomacia sul-americana, destaca a necessidade de sedimentar a união sul-americana, alvo de grandes resistências que cobiçam as riquezas da América do Sul.

Desejam dividir para governar. A Bolívia tem sido alvo dos separatistas, depois que o pensamento socialista indígena josecarlosmariateguiano chegou ao poder.

A decisão de estatizar o petróleo e o gás e as demais riquezas estratégicas levantou a ira dos velhos grupos oligopólicos energéticos, que atuam na Bolívia, como extensão da sua abrangência global, desde a primeira metade do século 20.

Em outras ocasiões, derrubaram governos nacionalistas, para sustentar seus interesses. Contavam sempre com argumentos, repetidos no Brasil pelos tucanos sobre a expropriação ilegal de riquezas dos investidores, referindo-se à Petrobrás, para resistir, se possível com tropas nas fronteiras Brasil-Bolívia.

Os interesses petrolíferos internacionais, acionistas da Petrobrás, depois da abertura do capital da empresa na Era FHC, somente não radicalizaram demais o discurso anti-Morales, porque o presidente Lula não caiu no conto golpista tucano neoliberal-guerreiro.

Evitou neo-Iraque sul-americano, via armadilha contra Saddam Hussein, estimulando-o a invadir o Kuwait, para, em seguida, ser invadido e executado.

Lula desarmou a bomba que os interesses multinacionais projetavam, vale dizer, criar zona de conflito na América do Sul. Acirraria, ainda mais, a polarização guerreira entre o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, e o dos Estados Unidos, W. Bush. Fogueira.

Beleza pura para os interesses da guerra.

 

Com a América do Sul, rica em petróleo, sob guerras separatistas, o mercado de armas se ampliaria extraordinariamente.

A gravidade política do momento pode exigir dos 12 países sul-americanos maiores esforços para intensificar a UNASUL – União das Nações Sul Americanas, como instância política maior para debater os problemas sul-americanos, buscando soluções próprias, para além do estado nacional, vulnerável, possíveis, já que o continente, graças as suas riquezas reais, aumentou seu cacife político na negociação global.

Por que a quarta frota norte-americana estaria avançando em mares sul-americanos, quando estouram conflitos separatistas e terrorismo político na Bolívia?

O Congresso nacional discute a bisbilhotice da ABIN, na CPI dos Grampos, mas não debate a bisbilhotice da Casa Branca em terras e riquezas  da América do Sul. Depois reclama quando Hugo Chavez o chama de papagaio de Washington.

A América do Sul está diante das possibilidades de integração e de desintegração, simultaneamente.

Brasil e Argentina deram pontapé  no sentindo da integração, dispensando o dólar das relações comerciais brasileiro-portenhas, a partir de outubro, lançando germe da moeda sul-americana. Os radicais terroristas do separatismo boliviano sinalizam o contrário, desinteração.

Quem vencerá? Bomba ou democracia?

Conspiração golpista contra Morales

As reações políticas separatistas na Bolívia, expressas na resistência dos terratenientes de Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija, Chuquisaca entre outras cidades importantes do sul do país rico em se submeterem ao poder central de La Paz estão sendo fomentadas por conspiração internacional semelhante às praticadas pela CIA em diversos continentes. Não se deve esquecer o que aconteceu em 1973, no Chile, de Allende, vitimado pela conspiração anti-democrática, por trás da qual esteve a CIA.

Tenta-se criar crise de abastecimento, interrompendo a oferta de gás boliviano ao Brasil. Colocaria uma região como São Paulo, consumidora do produto, em situação de grande inquietação. Da mesma forma, Buenos Aires, que utiliza parte do gás, ficaria intranquila. Haveria pressões políticas sobre os governos brasileiros e argentino para engrossarem discursos contra tal situação, sinalizando tensões crescentes.

Trata-se de gerar instabilidade capaz de abalar governos que ameacem os capitalistas internos aliados aos capitalistas externos, profundamente, contrariados com o status quo indigenista boliviano sob comando do presidente eleito Evo Morales. Nem a reafirmação do poder dele por meio de plebiscito recente consegue deter a conspiração em marcha.

As forças conspiratórias na Bolívia jogam no separatismo porque em tal situação abre-se espaço para intronização, na América do Sul, de forças de paz internacional capitaneadas pela ONU, a exemplo do que já aconteceu em diversos países, como Kosovo, e como acontece, atualmente, no Iraque.

A América do Sul estaria envolvida, então, em guerra separatista, já que evento-tese política dessa natureza criaria antíteses, igualmente, políticas cujas consequências desestabilizadoras suscitariam intervenções externas convenientes aos interesses que estão sendo contrariados pelo poder boliviano nacionalista.

Os poderosos do sul resistem, basicamente, que seja transferido do sul para o norte, sob comando do poder em La Paz, a arrecadação dos impostos extraídos das riquezas do gás e do petróleo da região sul. Cobram royalties elevados e bloqueiam os canais de escoamento, tanto para o mercado interno como externo, na tentativa de gerar caos econômico financeiro. Morales tenta reformar o poder a partir de nova Constituição popular, mas as resistências às suas tentativas indicam que o seu poder está sob intenso perigo. A corda pode romper, gerando tensões sul-americanas crescentes, que seriam capitalizadas pelos que interessam na divisão política continental.


Ambiente contaminado pela crise mundial

No contexto em que os países ricos estão sendo abalados pela bancarrota financeira, ao mesmo tempo em que buscam influir no destino da riqueza poderosa do petróleo que está se ampliando na América do Sul, uma guerra separatista aumentaria a confusão adequada para suscitar paixões que desatariam em violência, quando mais vão ficando sombrias as perspectivas das forças liberais envoltas no fracasso econômico neoliberal na Europa e nos Estados Unidos.

Estaria criado ambiente que permitiria divisão territoral na Bolívia, bem ao gosto dos interesses  dos defensores de maior intervenção direta sobre as riquezas sulamericanas, como está sendo feito no Iraque.

Destaque-se que o Iraque, sob Saddam Hussein, caiu na armadilha dos interesses poderosos do petróelo que buscaram e conseguiram apossar das reservas iraquianas.

Os Estados Unidos estimularam Saddam a invadir o Kuwait, para em seguida se voltarem contra o mesmo Saddam, invadindo o Iraque. Vale dizer, Saddam caiu na armadilha de Tio Sam.

Algo nesse sentido, foi tentado na Bolívia, depois que Evo Morales se elegeu e passou a agir com base na sua plataforma política nacionalista, a partir da nacionalização das reservas de petróleo e gás boliviano.

As multinacionais do petróleo, cuja história na afirmação do negócio de exploração do ouro negro está manchada de sangue, não aceitaram , inteiramente, a soberania econômica afirmada por Morales.

A Petrobrás, que atua como multinacional na Bolívia, levantou controvérsias no Brasil relativamente à necessidade de resistência á ação nacionalista de Evo Morales, em termos quase belicosos.

Os tucanos, por exemplo, pregaram mobilização de tropas, para defender os interesses da Petrobrás, cujo monopólio foi, na Era tucana-FHC, rompido, para permtir ampliação dos interesses externos, ou seja, das próprias empresas multinacionais do petróleo, dentro da empresa outrora 100% estatal.  Pressões nesse sentido sobre o presidente Lula se avolumaram.

Armadilha da guerra

Era, exatamente, isso que os Estados Unidos e Europa desejariam, ou seja, a criação de uma tensão guerreira na América do Sul. Dividir para governar. Haveria um racha entre os sul-americanos.

Hugo Chavez, presidente da Bolívia, diante dessa possibilidade, acusou, na ocasião, disposição de ajudar Morales, caso mobilizações de tropas brasileiras fossem posicionadas na fronteira Brasil-Bolívia.

Haveria reação de Chavez , mobilizando tropas para fortalecer Morales, mediante discurso politicamente radical, de acusação, principalmente, ao presidente dos Estados Unidos, W. Bush.

Estaria formado o campo ideal para o separatismo e a guerra. Lula, naquele momento, poticamente, cautelo, contornou o perigo e não caiu na armadilha.

Agora, novamente, as forças derrotadas nas eleições resistem em aceitar que o poder nacional sob comando de Morales dê destino aos recursos arrecadados com o gás e o petróleo extraído em regiões dominadas pelas forças internas aliadas às forças econômicas externas, tanto americanas quanto européias.

As armadilhas estão sendo montadas e sua predisposição é para produzir radicalismos. Os interesses poderosos de Santa Cruz, que sempre colocaram a mão no dinheiro da arrecadação, resistem, bravamente, à utilização do dinheiro pelo governo para dar destino ao mesmo objetivando prioridades polítcas alternativas, como a de apostar em políticas sociais.

Resistência à distribuição da renda nacional

Crescem, extraordinariamente, as resistências à  opção política preferencial para incrementar programas sociais na Bolívia, como ocorre no Brasil sob orientação semelhante, produzindo maior volume de consumo interno, incrementando a economia boliviana com melhor perfil de distribuição da renda nacional, algo adequado à reprodução do próprio capital que se rebela contra Morales.

O fato concreto é que o separatismo visa bloquear a melhor distribuição da renda nacional. A fim de conseguir isso, a conspiração precisa ganhar força, para, se preciso for, ameaçar a democracia e derrubar o governo democraticamente eleito. Essa é uma tradição boliviana, onde o poder ligado à extração das riquezas minerais marca a histórica do país com sangue, suor e lágrimas.

As forças democráticas sul-americanas poderão ser obrigadas a agir, urgentemente, em torno da Organização dos Estados Americanas(OEA) e da União das Nações Sul Americanas(UNASUL), no momento em que bafejam ventos positivos de união continental, depois que Brasil e Argentina deram pontapé inicial à criação da moeda sul-americana, por meio da dispensa do dólar na relação comercial entre os dois países, abrindo espaço à valorização de suas respectivas moedas.

Logo, logo o peso e o real, unidos, tenderão à valorização, pois o lastro deles é a riqueza real sul-americana disponível, alvo de cobiça internacional, em processo de sobrevalorização em meio à bancarrota financeira que sobredesvaloriza o dólar em termos globais, sinalizando fugas espetaculares de investidores da moeda americana, ameçada de sofrer uma corrida especulativa, dada a desconfiança do mercado em sua saúde.

Nasce moeda sul-americana

O germe da moeda sul-americana nasceu nessa segunda feira histórica em que os presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, e do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, decidiram que o comércio entre os dois países, a partir de outubro, dispense o dólar.

Será realizado mediante troca de moedas dos dois países. O método, disseram, se entenderá, num segundo momento, para os demais integrantes do Mercosul, Uruguai e Paraguai. Influenciaria decisões nesse sentido aos demais países que, também, estão se filiando ao bloco comercial, Chile, Bolívia e Venezuela. Estará, na prática, intensificando-se, dialeticamente, integrando tanto o Mercosul como a Comunidade Andina. Estaria, portanto, cimentada a base da União Sul-Americana – Unasul – , para lançamento da moeda comum sul-americana. Depois, parlamento sul-americano, banco central sul-americano, forças armadas sul-americana, tribunal sulmericano. segurança sul-americana….

Os bancos centrais do Brasil e da Argentina providenciarão medidas de ajustamento nas relações das duas instituições, para coordenar as relações monetárias brasileiro-argentinas. Logo, naturalmente, as economias de ambos os países estarão se transformando numa só economia, trabalhando em conjunto no plano fiscal e monetário, para promover o sistema econômico bi-nacional. Uma potencia sul-americana global.

Trata-se de prática que disseminará comportamentos fiscais, monetários e creditícios no âmbito das duas economias integradas, sinalizando o futuro da integração efetiva da economia continental.  Caminha-se, portanto, para intensa relação direta que se traduzirá em remoção de velhos conceitos econômicos protecionistas.

O jogo da globalização, como destaca o economista Márcio Porchman, estabelece grandes grupos econômicos superiores aos estados nacionais, que se transformarem em reféns deles. A organização sobre-estatal, no plano dos blocos econômicos, coordenados por estados nacionais, torna-se necessidade como preservação do próprio Estado nacional que, sob o keynesianimso, vai se apodrecendo, de tantas de dívidas. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. A união sul-americana, cercada de riquezas por todos os lados, sob cobiça universal, vai se impondo como imperativo categório. Como comprova o plano de defesa continental que já está sendo discutido mediante visão geoestratégica da América do Sul, no cenário global, como condição de nova rica do mundo. Possui a riqueza real e não a riqueza fictícia, que está sumindo na bancarrota financeira neoliberal.

América do Sul no pré-sal

Ao mesmo tempo, o presidente Lula, no auge da euforia com a descoberta trilhonária das reservas de petróleo do pré-sal, destacou a necessidade de a Argentina participar, diretamente, do esforço brasileiro de explorar as jazidas de petróleo na costa que estão a seis mil metros de profundidade. Jogo binacional.

O propósito é o de criar infra-estrutura produtiva em torno da exploração petrolífera cujo resultado será agregação de valor industrial, traduzido em refinarias, petroquímicas e derivados industriais desse processo de industrialização ligado ao petróleo.

Se o capital argentino entra no negócio do pré-sal, por que os capitais do Uruguai, do Paraguai, da Bolívia, do Chile, da Venezuela, da Colômbia, enfim, dos 13 países sul-americanos não farão também? É o jogo da integração em marcha. A riqueza sul-americana dá a base material da integração, que já se realiza por intermédio de diversas obras de infra-estrutura em curso. O jogo se inverteu. A América do Sul está de bola cheia.

A visita de Cristina Kirchner ao país na semana da pátria entra para a história da relação Brasil-Argentina por ter dado pontapé inicial na unificação das moedas dos dois países para efeitos comerciais, abrindo espaço para uma nova realidade monetária sul-americana, no momento em que a economia mundial vive os estertores de grave crise monetária decorrente da bancarrota financeira produzida pela implosão do setor imobiliário dos Estados Unidos, espraindo destruição de riquezas na Europa e no Sudesde Asiático.

A estatização bancária nos Estados Unidos, tomada, inicialmente, em relação aos dois maiores bancos imobiliários, demonstra novo curso aos acontecimentos capitalistas, dado que a orientação do mercado está fracassando, colocando em risco a economia mais poderosa do mundo.

Novo contexto internacional

Tal situação dramática, potencializando a crise global, acelerada pelo empoçamento do crédito, devido às desconfianças dos bancos em emprestar em ambiente de falências dos mutuários, em face da queda dos preços dos ativos imobiliários, abre espaço para desorganizações monetárias nas relações de troca internacionais. Os efeitos de tais solavancos, como demonstra a história, balançam instituições, pois afetam o humor da população que é dominada pelo sentimento de perda do seu poder de compra, induzindo-o à ira política. O neoliberalismo jamais voltará a ganhar eleições, depois da crise bancária.

Nesse ambiente, as matérias primas essenciais, escassas, tendem a aumentar de preços, no contexto em que a moeda de troca referencial, o dólar, enfraquece-se, sofrendo deterioração cambial crescente. Ao mesmo tempo, os países industrializados têm seus produtos desvalorizados, no cenário global, graças à concorrência, impulsionada pelo desenvolvimento científico e tecnológico.

Tendem a inverter-se as deteriorações nas relações de trocas. O câmbio deixa de ser arma poderosa contra as mercadorias, que se transformam em poderosas armas contra o câmbio, fragilizado pelo excesso de moeda americana na praça, desvalorizando seu poder de compra e impondo, consequentemente, inflação mundial, que induz os governos ricos a baixarem os juros, promovendo a eutania do rentista.

Não estaria afastada possibilidade de emergência internacional capaz de levar os bancos centrais à discussão sobre necessidade de novo modelo monetário global, caso a crise se aprofunde e coloque em xeque a capacidade do tesouro americano continuar emitindo moeda para salvar o sistema financeiro da bancarrota neoliberal em curso. O neoliberalismo, como proposta econômica, perde utilidde. Nega a regra número um de Keynes: “Tudo que é útil, é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”.

O lançamento de nova modalidade nas relações de troca entre Brasil e Argentina que escanteia o dólar demonstra que se caminha para a moeda sul-americana? O lastro para garantir ela, pelo menos, já está dado nas riquezas potenciais continentais, bombando no cenário internacional, dando maior visibilidade ao continente sul-americano no plano global.

A bancarrota financeira global que reduz o poder relativo dos ricos em relação aos pobres que podem vir a ser mais ricos do que os que agora temem o fantasma da pobreza somente ajudará a dar novo colorido político ao nacionalismo sul-americano, anunciado por Cristina Kirchner e Lula da Silva. Pode representar plataforma política contra os efeitos destrutivos que poderão advir da crise bancária cuja duração ninguém prever, pois estão todos assombrados.

O combustível do narcotráfico

Os lamentáveis episódios da última semana de rebeliões de menores no Caje, devido às super-lotações dos presídios, e a do assassinato de soldado e ferimentos em outras três pessoas por menor armado, em Planaltina, assombrando a população, tornando-a prisioneira do medo, demonstram, junto com episódios semelhantes que se repetem Brasil afora,  que o abandono total do Estado em relação aos menores de 14 a 18 anos produz o combustível da marginalidade, em especial do narcotráfico.

São os soldados juvenis do crime organizado, comandado, muitas vezes, por ex-policiais, expulsos da corporação por péssimos comportamentos, além dos bandidos que se sedimentam no contexto da falta de trabalho no país. Que faz um ex-policial, senão retornar à base do crime com o qual compactuava, para dizer que está no jogo, como alternativa que lhe sobrou depois da expulsão?

Como superar essa tragédia urbana, que forma um exército da marginalidade de forma contínua, em série, traduzindo em lotações sistemáticas das cadeias e deterioração geral das relações humanas, emergindo a bestialidade?

Resposta viva

A resposta está à vista. Basta olhar quem comanda o poder do Estado brasileiro atual para concluir quem são os personagens e como começaram na vida.

O presidente Lula e o vice-presidente José Alencar vêem do mesmo ramo das famílias pobres que começam a trabalhar cedo, a buscar profissão e encaminhar filhos na  rota do trabalho e dos bons constumes, na fase da industrialização nacional, que começa nos anos de 1940.

Dos 14 aos 18 anos, os jovens, instintivamente,  buscam sua família vocacional, no contato com a experiência do trabalho e do estudo. Nesse período, em que a tentação das boas coisas e perigosas ainda não está suficientemente desenvolvida na cabeça, o jovem tem que se preparar para os desafios da existência.

É a lei natural que não está escrita nos bancos escolares, mas, fundamentalmente, nas empresas, onde as atividades produtivas são exercidas com disciplina, sabedoria, ousadia e ponderação impostas pelo cotidiano na transformação da natureza em mercadoria, que será vendida no mercado pelo preço competitivo. Tremenda escola.

Lições básicas

Foi nessa labuta que Lula e José Alencar aprenderam as lições básicas, a prática que abastece a teoria, que, por si só, não se realiza sem o trabalho.

O presidente aprendeu uma profissão de torneiro no Senai antes de ser líder político sindical, sua vocação divina; Alencar, igualmente, saiu pelo mundo como comerciante e se enriqueceu com o suor do próprio rosto. Se fizeram por si mesmos.

Ambos começaram a partir dos 14 anos. São frangos caipiras e não frangos de granja. Os primeiros, por terem oportunidade, desenvolvem sua família vocacional, no trabalho, vão à luta, ciscam para catar minhoca. Os segundos, precisam que alguém busque a minhoca para eles, ficando de bico aberto, esperando alimento.

O país precisa de frango caipira, não de granja.


Empresas, oficinas-escolas, urgente

No Brasil, onde se busca inventar moda, trabalho juvenil virou sinônimo de escravidão. Grave equívoco. Não se tem mais aprendizes das diversas profissões dentro das empresas, o santuário da aprendizagem, como exercício prático, associado às tarefas educacionais, porque, na cabeça dos diplomados, trabalho e estudo são incompatíveis e inconvenientes.

Lula e José Alencar, se predominasse essa lei abstrata, não estariam onde estão, vindo das camadas mais pobres.

Urge encaminhamento ao trabalho dos jovens de 14 aos 18 anos nas empresas, para recebê-los em forma de oficinas-escolas.

Nelas, os jovens, nessa faixa etária, teriam sua carteira de trabalho assinada. No entanto, pagariam, apenas, seguro de acidente de trabalho.

Certamente, não poderiam pagar previdência social. Aposentariam cedo demais, impondo graves ônus financeiros ao país, via déficit previdenciário.

Aos 18 anos, quando estiver escolhido seu rumo, profissionalmente, aí, sim, poderá o jovem ou a jovem correr atrás dos sonhos normais que a idade proporciona, como o de viajar, ter seu carro, para ir namorar no restaurante e depois no motel, preparatório do casamento futuro, com responsabilidade etc.

Praticará suas loucuras com responsabilidade dada pela formação intermediária dos 14 aos 18 anos.


Distorção completa

Mas, o que acontece? O jovem de 14 anos, não podendo trabalhar, graças a uma legislação equivocada, chega aos 18 anos sem alcançar os sonhos que essa idade sugere.

Despreparado, será requisitado para a marginalidade, pois seu desejo de ter o tênis do filho da classe média só será atendido pelo roubo ou pelo tráfico, no dinheiro fácil.

Essa trágica realidade acontece no Brasil, graças à visão distorcida, que predomina na legislação que norteia a ação do Ministério do Trabalho, ancorada na abstração da lei do menor.

Adequada para os países ricos, que já estão com sua infra-estrutura pronta, tal lei, no Brasil, país ainda pobre, é, completamente, inadequada. Aqui, tudo está por fazer, sob o impacto de uma má distribuição da renda nacional, que cria distorções estruturais absurdas.

A inflexibilidade legal criou um MInistério do Trabalho que exige o impossível, de modo a levar as empresas a não pensarem em tarefa social para resgate do menor brasileiro.

No entanto, quando as mães vão para as portas do Caje e das Febens, desesperadas diante do perigo de mortes de filhos absorvidos pelo tráfico, o Ministério não vai lá socorrê-las.

Socorro imediato e eficaz

As oficinas-escolas nas empresas representariam tal socorro imediato. A exclusão do menor de 14 a 18 anos, que representa cerca de 30% da população brasileira, seria estancada e superada a contradição que domina o panorama nacional no plano social e econômico, com graves deteriorações políticas.

De um lado, o jovem que não pode seguir a sua vocação nem se preparar para o futuro. De outro, o jovem que sai da universidade, mas não tem futuro, porque não construiu, na prática, as possibilidades de conquistar os sonhos.

Não atendem, por isso, as necessidades das empresas, pois os que não sabem sonhar não sabem, também, pensar e criar, no contexto global dominado pela economica do conhecimento, dominada pela ciência e tecnologia.

O espírito colonial que dominou o desenvolvimento histórico brasileiro impediu a produção da educação técnica, como ocorreu, durante a revolução industrial,  na Europa e nos Estados Unidos. Neles, 70% da população detêm cursos técnicos-profissionais de alta qualidade.

Essa defasagem somente poderá ser superada pelo apoio às empresas.

O papel delas em se transformarem nas próprías escolas e universidades brasileiras mais destadacadas, para acelerar o resgate da marginalidade, por meio das oficinas-escolas, significa que continuarão a produzir líderes para o país, como são os casos concretos de Lula e José Alencar.


Comunismo verde-amarelo

Não podemos mais suportar um Ministério do Trabalho que age como se o pais vivesse sob o comunismo, sequestrando os filhos das famílias mais pobres, impedindo que os pais coloquem seus filhos para trabalhar desde cedo ao mesmo tempo em que estudam.

Pela lei brasileira atual, aplicada pelo Ministério do Trabalho, os pais perderam o direito sobre os filhos. Estes, porém, quando se rebelam, o Ministério não comparece para assumir suas responsabilidades.

O presidente e o vice-presidente são exemplos vivos da nação a indicarem os caminhos a tomar em matéria de formação de profissionais e de espíritos empreendedores para o Brasil, sintonizados com visão nacionalista, justa, progressista, sem xenofobismo.

Sem resolver esse impasse, o país caminha para um destino trágico, da guerra, em que os soldados serão aqueles que deixaram de ser treinados dentro das oficinas-empresas, para se transformarem em seres sem causas, nas oficinas da marginalidade, abraçados a causas desesperadas e perdidas.

Seremos burros o suficiente para concordar com tal vaticínio destruidor da principal energia da pátria?

Afronta à América do Sul

A decisão do governo dos EUA de reativar a Quarta Frota Naval destinada a vigiar os mares da América Latina provoca ondas desafiadoras para as autoridades encarregadas da elaboração das políticas de defesa em cada um dos países da região. E também marolas no debate em círculos de intelectuais de esquerda ou não, nos meios de comunicação e na academia, com doses de subjetivismo e abstracionismo variadas e surpreendentes, quando a decisão estadunidense é repleta de ameaças sombrias, mas concretas, obrigando mesmo a uma atualização política cuidadosa.Surpreendente e patético, por exemplo, é o artigo do sociólogo estadunidense James Petras criticando Fidel Castro por ter desenvolvido em suas reflexões mais recentes  uma análise que aponta para a necessidade de uma solução política para a grave questão colombiana, realçando as dificuldades para uma vitória militar das Farc nestas novas condições da história. O professor universitário nos EUA, do alto de sua enorme experiência exclusivamente acadêmica, chega mesmo a tentar dar aulas a Fidel Castro sobre luta armada, ética revolucionária, terminando seu artigo com uma assustadora repreensão moral ao líder cubano. O artigo fala por si.

Outra tática, outros métodos

A ciência da tática revolucionária para cada situação histórica exige mesmo desprendimento de conceitos estáticos e dos moralismos abstratos, como se a opção por uma luta armada em determinado momento não pudesse ser transformada em opção por outra forma de ação política igualmente revolucionária, em outro momento, com métodos que incluem até mesmo a clássica participação eleitoral, ainda que os objetivos de transformação social adotados lá atrás, quando da opção pela luta armada, sejam rigorosamente mantidos.

É claro que houve muita capitulação, sobretudo nas fileiras dos partidos comunistas numa determina época e isso pode confundir. Mas isto não invalida esta possibilidade histórica. Não é o moralismo religioso em torno da luta armada que poderá resolver os problemas e os desafios colocados pela alteração desfavorável das relações de força internacionais. Tal como ocorreu com a desorganização da União Soviética.

A luta revolucionária não se paralisou, seja na sua opção armada ou na via política de massas, ainda que a desorganização da URSS tenha produzido um desconcerto generalizado no campo progressista internacional. Novos conceitos, novas táticas, novos métodos de luta tiveram que ser encontrados diante da ofensiva militar (Iugoslávia, Panamá, Iraque) e ideológica do capitalismo apregoando o fracasso histórico do socialismo e até mesmo o fim da própria história.

Mas esta alteração negativa nas relações de forças internacionais produziu condições para a derrota temporária ou transitória de muitos processos revolucionários. A derrota do Governo Sandinista, em 1990, por exemplo, embora não se devam esquecer as limitações internas que ajudaram naquele retrocesso.  Pois mudada a situação histórica, o guerrilheiro Daniel Ortega hoje volta ao poder pela via eleitoral. Para novos tempos, nova tática, outros métodos.

Chávez: da insurreição ao voto; do voto à revolução

Chávez também tentou a insurreição armada em 1992, que, apesar de fracassada em seu intento inicial, transformou-o no líder revolucionário que anos mais tarde, pela via eleitoral, assume o comando da Venezuela Bolivariana e vai produzindo transformações de natureza socialista e levando a Venezuela a ser um centro de animação revolucionária para toda América Latina.

Em uma entrevista televisiva no Brasil, concedida à Telesur, à TV Paraná Educativa e à TV Comunitária de Brasília, Chávez lembrou que quando jovem oficial foi incumbido de controlar guerrilheiros em seu país e que “por pouco não se passou para o lado da guerrilha”. Por sorte, não se passou e tem agora, a oportunidade de cumprir o papel histórico que está a cumprir, preconizando a integração latino-americana sobre bases soberanas e transformadoras, e relançando mundialmente o debate sobre “a volta do socialismo” que pretende, como disse nessa entrevista, levar ao Fórum Social Mundial de Belém do Pará. Cada método de luta revolucionária, para cada momento e condição da história.

O relançamento da Quarta Frota é uma resposta dos EUA à constituição de vários governos progressistas e de esquerda na América Latina. E também à idéia da integração latino-americana, com a formação de um Conselho de Defesa da América do Sul, sem participação dos Eua, pretendida por eles, e também após a derrota da proposta estadunidense da Alca para a qual, segundo disse Chávez, foi decisiva a posição firme do governo Lula.

Provavelmente o professor Petras, em sua larga experiência ……..acadêmica, tenha dificuldade de observar que na luta de classes surgem situações completamente imprevistas para os leitores ortodoxos de textos revolucionários, obrigando a adoção de métodos e táticas que muitas vezes podem ser considerados como heresia para os que fazem da defesa religiosa e moralista da luta armada .

A Unasul e as condições para novas iniciativas progressistas

As análises de Fidel mostram exatamente uma visão geoestratégica e tática apoiada na nova condição da América Latina, com seus governos progressistas, com a perda de influência dos EUA e que por isso mesmo, podem agarrar-se à conturbada situação colombiana para justificar mais presença militar, tensões exclusivamente militares, já que suas teses têm sido derrotadas nas urnas de cada país, nas reuniões da OEA, na constituição da Unasul, a formação do Conselho de Defesa Sul-Americano etc.

Os EUA precisam provocar uma tensão que lhe permita justificar ações no campo militar. Por isso, a Quarta Frota ou o ataque ao acampamento das Farc em território equatoriano, com mísseis dos EUA e total planejamento e inteligência típica dos israelitas. Mesmo assim, jornalistas progressistas, um pouco na linha isolacionista de Petras, chegaram a ver naquele ataque às Farc a participação de tecnologia e inteligência brasileiras. Ou seja, ótimo para provocar desconfianças mútuas no campo progressista e dificultar a tese subjacente à constituição do Conselho de Defesa da Unasul: a integração das políticas de defesa e da indústria militar dos países-membros.

A provocação da revista Cambio, que levantou a fantasmagórica tese de vinculação de membros do Governo Lula com as Farc, nada mais é que a nova escalada de provocações que está em curso, como parte das ondas e marolas causadas pela reativação da Quarta Frota. Por isso, é sumamente importante que o presidente Lula tenha pedido oficialmente ao governo dos EUA explicações para a presença da Quarta Frota. E apesar disso, é surpreendente a extrema capacidade de não enxergar o óbvio em certas ramas da comunicação, como a do editor de internacional da TV Brasil, Nelson Franco Jobim, que afirmou no programa “Diálogo Nacional” que pura paranóia esta tese da crescente presença militar dos EUA sobre a América Latina.

A melhor resposta ao jornalista é o próprio pedido oficial de explicação do presidente Lula ao governo dos EUA pela Quarta Frota, que também foi rejeitada pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. O experiente senador Pedro Simon criticou a resposta dos EUA em que se afirma que a Quarta Frota tem missão humanitária: “Missão humanitária com arsenal nuclear???”, contestou Simon.

A função revolucionária de Cuba na África

A Quarta Frota é uma ameaça concreta aos governos progressistas latino-americanos. Seja por promoverem políticas que permitem a Cuba furar o bloqueio norte-americano, como é o caso da Alba e também da decisão brasileira de tornar-se “o parceiro número 1 de Cuba”. Para o professor Petras, nada disso tem relevância, afinal, o Governo Lula é apenas “mais um governo neoliberal”.

Na sua patética tentativa de dar lições a Fidel Castro, Petras esquece de muita coisa já cravada, com sangue e heroísmo, definitivamente nas mais nobres páginas da história. Entre elas, a heróica solidariedade de Cuba a Angola, sob a liderança de Fidel Castro e Agostinho Neto, que levou às terras angolanas 350 mil homens e mulheres combatentes cubanos numa das mais fascinantes operações de internacionalismo proletário dos últimos tempos.

Essa gigantesca operação militar-revolucionária teve o seu desfecho na Batalha de Cuito Cuanavale, em 1988, quando tropas angolanas, cubanas e da organização revolucionária da Namíbia, a Swapo, derrotaram o exército racista-imperialista da África do Sul. Segundo Mandela, “Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid!”. E permitiu ao próprio Mandela, e ao movimento revolucionário armado da África do Sul, adotar a nova tática, passando das armas à ação política, com a inteligência das massas sul-africanas, dando continuidade ao heroísmo armado de Cuito-Cuanavale e derrotando o apartheid, levando Mandela ao poder, pelo voto. E Petras pensa em repreender Fidel…..

Fidel, Malvinas e Haiti

O mesmo Fidel Castro, demonstrando que em cada momento histórico são requeridas táticas diferenciadas e audazes, ofereceu ao governo argentino, durante a Guerra das Malvinas, em 1982, a solidariedade das tropas cubanas para lutar contra a Inglaterra. A recusa foi do governo de Galtieri, talvez percebendo, por instinto de classe, o grande efeito revolucionário que a presença de tropas cubanas a lutar na América Latina contra o imperialismo inglês teria sobre a consciência das massas latino-americanas.

É curioso lembrar que, na década de 30, quando havia a ameaça de uma guerra entre Inglaterra e Brasil, Trotsky, recém-chegado ao México, também recomendava que num conflito entre os dois países os revolucionários deveriam estar ao lado de Vargas contra o “democrático” império inglês. Coincidências da história. O mesmo general Cárdenas que havia dado asilo a Trotsky no México, liberou Fidel e Che, que haviam sido presos na capital mexicana, na década de 50, antes do embarque revolucionário no iate Granma, para libertar Cuba do imperialismo e das trevas do subdesenvolvimento colonial.

Os tempos são outros, a nova situação política latino-americana exige outra tática dos movimentos revolucionários mesmo, sem abdicar de seus objetivos, de suas metas. O Fidel que Petras tenta criticar revela também sua visão estratégica ao afirmar, diante de críticas de militantes brasileiros num Fórum em Havana, em 2005, contra a presença militar do Brasil no Haiti: “prefiro militares brasileiros que marines norte-americanos no Haiti”.

Por trás desta ação, ainda que com todas as suas limitações e complexidades – vale destacar que sem a presença dos EUA – está o embrião do Conselho de Defesa Sul-Americano, a proposta de integração da tecnologia e da indústria militares do sul, a proposta de cooperação técnica para construção de um submarino nuclear, pois, como alerta o vice-presidente José Alencar, o “Brasil deve ter seu submarino nuclear para defender sua imensa riqueza petroleira e dissuadir aventureiros”.

Os estadunidenses estão registrando com preocupação a instalação de fábricas de fuzis Kalashinikov na Venezuela, a compra de aviões Sukoy, a construção cooperada por Brasil e Argentina do carro de combate Gaúcho, os planos para a integração industrial aeronáutica brasileira-argentina, a integração energética em curso entre Brasil-Venezuela-Argentina-Bolívia, a integração educacional-social entre Cuba, Venezuela, Argentina, Bolívia, com médicos e professores cubanos semeando humanismo, saúde e cultura por aí.

A resposta a tudo isto é a Quarta Frota, o bombardeiro dos EUA ao território do Equador, as provocações desestabilizadoras contra o Governo Evo Morales na Bolívia, a sabotagem produtiva da oligarquia contra Cristina Kirchner. E, agora, a revista Cambio indicando a insatisfação dos EUA com a política externa brasileira e também de segmentos mais à direita no espectro colombiano, contra os acordos da Colômbia com o Brasil, ou contra a Venezuela, Afinal, para quem a burguesia industrial da Colômbia vai vender, se os EUA não lhes oferecem mercado, mas apenas que comprem armas…..

Mas, há os que querem ver na proposta de que as Farc tomem iniciativas no campo político, com todo o risco, dificuldade e complexidade que isso signifique, apenas uma capitulação dos que apregoam tal posição. É como se numa guerra fosse indigno recuar num momento, preservar posições, desistir transitoriamente de um objetivo, trocá-lo por outro, como se não fosse inevitável recarregar, reagrupar, redimensionar, sintonizar com as mudanças políticas internacionais, as novas relações de força que surgem. Ou seja, ou se mantém inabalavelmente o mesmo método de luta ou será indigno de chamar-se revolucionário. É como se houvesse apenas duas cores na natureza, o branco e o preto…

A esquerda está desafiada a desenvolver política e táticas que reforcem essa frente antiimperialista em estruturação e expansão a partir dos novos governos progressistas eleitos, produzindo iniciativas que possam reforçar seus fatores mais avançados e outras que permitam encorajá-los na superação de suas limitações mais complexas. Mas, esse debate pouco resultado terá a partir de condenações moralistas, repreensões professorais e pitos da mesma ordem.

*Jornalista