Ataque ao real antecipa sucessão presidencial

Na próxima semana, quando o Congresso, desconsiderado, até agora, no desenroladar da crise financeira global, que afeta o governo Lula, voltar, inteiramente, a esquentar suas turbinas, abaladas pelo nepotismo, estará instalado novo contexto que guiará a sucessão presidencial no compasso do ataque ao real com ajuda dos grandes bancos.

Qual será a reação dos congressistas no ambiente em que o PMDB, no período pós-eleitoral, sai forte das eleições municipais, pronto para ter seu candidato à presidencia da República em 2010?

Ao se recusar a colaborar com o governo para salvar pequenos bancos e irrigar a praça seca de moeda com recursos dos depósitos compulsórios, a custo zero, que preferiram jogar no overnight, a grande banca, que triplicou sua riqueza ao longo das Eras FHC e Lula, enquanto o setor produtivo penou no juro e impostos altos, obrigaram o governo a estatizar, bancos tamboretes e empresas,  levantando dúvidas generalizadas e consequente desvalorização da moeda nacional. Contribuiu, decisivamente, para jogar a economia em completa desorientação geral.

Não há dúvida quanto à motivação sucessória: a violenta crise financeira global, ao fragilizar, com a falta total de colaboração dos poderosos banqueiros relativamente aos esforços governamentais, abalados em seu otimismo exagerado, intensifica explosões contraditórias que se expressarão na disputa eleitoral, já antecipada pela bancarrota neoliberal.

A surpreendente valorização do dólar, mais intensamente, no Brasil, quando as previsões apontavam seu enfraquecimento, coloca a sucessão presidencial lulista na ordem do dia do Congresso. Ao desvalorizar a moeda nacional, põe em risco iminente de bancarrota a estrutura produtiva e ocupacional brasileira.

Pintariam desemprego, escassez de consumo, queda de arrecadação e suspensão dos investimentos, diante de tombos de fortes empresas, cujos efeitos são destronarem outras médias e pequenas empresas que fazem parte da cadeia produtiva delas. Receita certa para derrota eleitoral. A desaceleração econômica, naturalmente, jogaria a favor dos adversários do governo, o governador Aécio Neves, de Minas Gerais, e José Serra, de São Paulo, possíveis vitoriosos nas eleições municipais, nesse domingo.

Com a desvalorização do real, que pegou o setor produtivo comprado na especulação esquizofrência do dólar futuro, o patrimônio nacional, erguido de Getúlio Vargas até agora, pode ir para o espaço, caso as decisões, que estão sendo tomadas, atabalhoadamente, não redundem em condições competitivas para as empresas conseguirem sobreviver, tanto interna como externamente.

Serrra e Aécio estarão diante de excelentes motivações.

Para Serra, a política monetária atual, seguida pelo presidente do Banco Central, é suicida. Destroi o patrimônio, o emprego e a renda nacionais. Politizou, desde já, o assunto economia.

Aécio ficaria para trás, sabendo que os empresários mineiros estão apavorados com possíveis fechamentos de empresas, dado o colapso creditício?

Ambos, Aécio e Serra, assumiram o discurso do vice-presidente José Alencar Gomes da Silva, contra os juros extorsivos brasileiros. A base da coligação governamental tenderia a rachar sob impacto dessa tríade – Alencar/Serra/Aécio – crítica da política monetária favorável à especulação. Lula, com sua candidata preferida, Dilma Roussef, ministra da Casa Civil, gerente-mor do PAC, ficaria para trás?

Todos estão na Arca de Noé, furada pelo maremoto financeiro global, que a jogou no icerberg mil vezes mais potente do que o que detonou o Titanic numa noite gelada.

 

Crise imporia compromisso comum Lula-Serra-Aécio? 

A fragilidade do real frente ao dólar, que se segura no espaço, sem lastro, é o novo fato político com o qual o presidente Lula terá, obrigatoriamente, que se envolver, no Congresso, com cores sucessórias.

Poderia , como já se cogita, a situação levá-lo , de novo, ao FMI ou ao tesouro americano, falido, pedir dinheiro?

Repetiria FHC no final de mandato? Seria uma ironia da história. Correria chapéu em Washington, se, na semana passada, mandava tiros no xerife?

O senador Sérgio Guerra, do PSDB, faturaria em cima, com grande eloquência e regozijo. Que fariam os governadores José Serra e Aécio Neves, previsivelmente fortalecidos depois das eleições?

Vem empréstimo ponte por aí, como prevê o economista Eduardo Starosta, da Estplan,  ou o governo compraria , sem parar, dólares com reais, nas trocas de moedas, para irrigar a praça, como já começou acontecer nessa sexta feira, 24, diante do ataque especulativo sobre a moeda nacional?

Que dirá Serra, que comentará Aécio sobre essa manobra financeira arriscada, adotada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sob crítica de ambos os governadores? Serão chamados a discutirem com o presidente?

Reunião de governadores com o presidente, no calor da crise?

Qual seria mais vantajoso, tirar real dos depósitos compulsórios, poupança popular, para comprar dólar, cuja saúde ninguém sabe se dura ou não, nos próximos dias e semanas,  ou tomar emprestado dólar do FMI, sem precisar mexer, nem nas reservas nem nos depósitos compulsórios?

Ou, ainda,  não tomar nenhum empréstimo e apostar no real, cuja garantia é riqueza real nacional, expressa em matérias primas básicas, base industrial forte e reservas cambiais e depósitos compulsórios gordos?

Questões dessa natureza merecerão, no rastro da decadência neoliberal, solução, eminentemente, política, que passará a agitar os congressistas neste resto de ano legislativo.

O dólar tenderia a acalmar, se empréstimo ponte em dólar, caso tomado, não resolvesse?

No Japão, ao contrário do que ocorre no Brasil, a moeda japonesa, o yen, sobe relativamente ao dólar, porque os japoneses estão percebendo o óbvio: os créditos do governo japonês em dólar estão desacreditados na praça. Igualmente, o fenômeno ocorre na Europa.

Por que no Brasil sobe o dólar, com simultânea derretimento do real, quando o centro da crise não é o real, mas o dólar?

Seria vantagem trocar real por dólares, se os japoneses fogem, espertamente, da moeda americana?

Todos esses problemas se transformarão em assuntos emergentes no Congresso, sinalizando sucessão presidencial apimentada na dança diabólica da crise global. 

Estado vira empresário e banqueiro. Baixará juro?

 

As medidas provisórias 442, que dá poderes totais ao Banco Central para comandar os movimentos mais amplos da economia, no ambiente de devastação monetária, e a 443, que autoriza a estatização bancária e empresarial, transformando o governo, simultaneamente, em empresário e banqueiro, colocam em cena, não apenas a discussão da economia, mas da política e da sucessão.

A oposição, que não tem interesse em aprofundar a crise, para não se tornar culpada por ela, vai se render à lógica da estatização posta em marcha, diante da fuga dos bancos privados em ajudar o governo a equalizar o mercado financeiro, ou buscará uma composição política que poderia causar surpresas, já que tudo foi para os ares e novos paradigmas poderão surgir, tanto no plano econômico, como político?

Qual o preço do entendimento? Negociação do custo do dinheiro no país a partir de uma concertação maior da economia, na qual se envolveriam governo e oposição, nessa hora grave, em que empresas e bancos quebram e obrigam o Palácio a estatizar tudo, mesmo que a contragosto, em nome do interesse público?

Conseguirá a estatização bancária em curso diminuir os juros por meio do Banco do Brasil e da Caixa Econômica, em nome da sustentação, a qualquer custo do desenvolvimento?

Os congressistas, sabendo que seus eleitores estão dependurados no crediário ao juro alto e pedindo socorro, porque seus rendimentos ficarão insuficientes para saldar suas dívidas, tornando-se, consequentemente, condenado à escravização jurista, poderão botar boca no trombone?

O desafio dos parlamentares é sobre o que fazer com a taxa de juro. Com ela alta como está, em meio à crise, que paralisa a economia, a tendência seria a revolta popular, como está acontecenda na Europa e nos Estados Unidos, com o povo na porta dos bancos, protestando.

Seria bom ou ruim para Lula, levar a crise para a rua e pedir ao povo o apoio, com o crédito de sua popularidade de quase 95%?

 

Greenspan: confissão do fracasso.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Revelou-se patente que a economia de mercado pregada pelos neoliberais dançou completamente. As desculpas pedidas por Alan Greenspan, ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos, no Congresso, na quinta, 23, foram grandiosas e patéticas, para as pretensões neoliberais, que oposição e governo, na Era FHC e Era Lula abraçaram.

Praticaram o laxismo excessivo em relação ao lucro bancário especulativo, impondo sacrifícios intensos aos setores produtivos.

Greenspan, com sinceridade tocante, destacou que errou ao liberar geral. Se viu, ao final, surpreendido. O sistema financeiro não funcionou conforme o modelo abstrato que estava na cabeça dele e dos neoliberais esquizofrênicos, crentes na equalização do mercado pelas suas próprias forças dinâmicas em permanente contradição. Não deu certo.

O que faz o ministro Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, senão repetir Greenspan, nesse instante, quando troca real por dólar no mercado futuro para irrigar no presente, sob crença na força da moeda americana, desacreditada pelos japoneses?

A monumental crise dos mercados livres, que está abalando as estruturas gerais, torna-se, preferencialmente, o assunto no Congresso, na sucessão lulista. O interesse popular está em jogo.

A entrada do governo na economia de forma mais direta, sobrepondo-se aos concessionários destacados na condução do crédito, isto é, os bancos privados, conforme prevê legislação nacional, demonstra que o Estado brasileiro avança no vácuo da incapacidade de o setor privado fazê-lo.

Se a taxa de juro não cair, pode pintar, no Congresso, movimento nacionalista para derrubá-la. Os congressistas, com a Constituição de 1988. estabeleceram limite de 12% ao ano para as taxas de juros, mas nunca regulamentaram o assunto, até ser removido, pelas forças neoliberais, na Era FHC.

Se tivesse em vigor o artigo 192 da Constituição, tudo ficaria mais fácil, porque seria apenas a batalha da sua regulamentação.

Poderia pintar nova investida dos congressistas, para controlar os juros? Ou  ficariam de fora dessa discussão?

Quando Alan Greenspan decide aliviar sua consciência de culpado, falando a verdade, perante a nação americana e ao mundo, o que dizer mais do modelo neoliberal especulativo, senão que fracassou geral?

O Congresso estará entre este modelo ou o novo que está surgindo, com Lula à frente, como empresário e banqueiro, assumindo posições gerais no processo econômico, para o bem e para o mal, como diria o General Geisel.

Banco do Sul, urgente

Na próxima segunda-feira, como informa o repórter Sérgio Leo, do Valor Econômico, nessa quinta feira, os ministros da Fazenda e presidentes dos bancos centrais sul-americanos estarão em Brasília, para tratar da crise mundial que afeta, fortemente, a América do Sul.

Terá o continente, como nas crises monetárias anteriores, que pagar a conta da sobreacumulação de capital, no império capitalista especulador, que produziu uma montanha monumental de moeda podre, que coloca os países ricos na eminência de se empobrecerem, portanto, interessados em passar esse prejuízos para frente, como sempre aconteceu?

Chegou a hora de priorizar os instrumentos financeiros sul-americanos em favor dos sul-americanos, pois o continente dispõe de matérias primas fundamentais para a manufatura mundial , ao mesmo tempo que possui, também, base industrial avançada. Trata-se, já, de acumular valores agregados, para que a América do Sul possa dar a volta por cima, histórica, econômica, política e socialmente, em termos de correlações políticas globais, no instante em que o capitalismo ultra-especulador bate o pino.

Nada mais necessário do que essa reunião, que, em seguida, deverá ser acompanhada de encontro dos presidentes sul-americanos, para bater, rapidamente, o martelo, pela criação do Banco do Sul, que se transformaria no instrumento capital para coordenar fundos de investimentos capazes de impulsionar, politicamente, obras fundamentais para a infra-estrutura sul-americana.

Também, deve, nesse encontro ser lançada as bases da moeda sul-americana, pois, isoladamente, como se percebe, no auge da crise global, cada país, com sua moeda, não resolverá a parada. Como diz o ditado, uma andorinha só, não faz verão. É hora da America do Sul.

Há um novo mapa político na América Latina. E sobre ele uma crise no coração financeiro do imperialismo já que seus métodos para uma acumulação de capital especulativo sobre capital especulativo começam a desmororar, revelando a fraude na elaboração das políticas econômicas  sempre impostas pelas mesmas instituições hoje desacreditadas  –  o FMI é uma delas, cuja extinção foi reivindicada pelo presidente Hugo Chávez  –  e que fabricaram o desastre social da era neoliberal na América Latina.

Fundamental que não seja esquecido: a moeda dos ricos está podre, sem nenhum lastro. Já a moeda da América do Sul é riqueza real – petróleo, alimentos, metais, terras, água, base industrial forte, recursos humanos qualificados etc -, capaz de dar lastro seguro à moeda sul-americana, para participar do novo concerto monetário internacional, que nasce da bancarrota financeira americana e européia.

 

Movimentos sociais, nova força sul-americana

A resistência da luta das massas latino-americanas às políticas neoliberais forjaram rebeliões e rebeliões. Foi com muitas vidas que se pagou o criminoso preço social para resistir e fazer recuar estas políticas. Na Guerra do Gás e na Guerra da Água na Bolívia, quantos jovens, estudantes, trabalhadores e campesinos pagaram com a própria vida para derrubar governos neoliberais e construir a caminhada de Evo Morales até o Palácio de Quemados? Quantos governos oligárquicos e imperialistas foram derrubados no Equador até que se abrisse caminho, com o sangue derramado, para que Rafael Correa chegasse à presidência e para que os equatorianos tivessem uma nova constituição, aprovada em Referendo? Quantas vidas foram devoradas pela criminalidade social generalizada da Venezuela sob a era da oligarquia petroleira até que a consciência revolucionária bolivariana germinasse e se organizasse a partir das fileiras militares e convocasse o povo da terra de Miranda para colocar um mestiço negro e índio no poder?
 
Seguiríamos a trilha enumerando o custo social de uma resistência à ditadura de abutres na Argentina e no Chile, ou no Brasil, cuja caminhada de Lula até o Palácio do Planalto cobrou enorme quantidade de sangue jovem, sobretudo de pobres, predominantemente de negros,  e também de camponeses eternamente rebelados enquanto a terra for proibida. Quanto custou em vidas para que o Paraguay acordasse de sua noite mais longa nas décadas de governos assassinos e corruptos até que um bispo de coração popular e coragem de trabalhador servisse de bandeira para reunir o sentimento de mudança e abrir as portas de uma nova etapa na história guarani?
 
Muito se pagou. Não semeamos esta terra com o sangue de muitos lutadores para que agora, diante da crise lá no coração do cassino que chamam de centro financeiro imperial, os que receitaram o desastre de décadas tenham novamente a acintosa pretensão de querer recomendar políticas econômicas que preservem uma vez mais os privilégios da oligarquia financeira, internacional e nacional!
 

Lideranças nacionalistas são o norte sul-americano

O caminho tem que ser outro. Quando o presidente Lula fala em enfrentar a crise financeira com mais produção e mais mercado interno acerta, mas também revela a necessidade de medidas mais concretas. Se alega que temos condições para resistir, vale ressaltar que isto se deve em grande parte porque a era da privataria, a da demolição da Era Vargas , não conseguiu destruir tudo. Ainda temos instrumentos e ferramentas. Ainda temos um banco estatal de fomento como o BNDES, criado por Vargas; ainda temos instituições financeiras estatais. Ainda temos uma Petrobrás  – que deve ser totalmente renacionalizada, como se faz na Bolívia, na Venezuela e no Equador  – muito embora não se deva deixar de responsabilizar os que pretenderam cometer o crime de lesa pátria transformando Petobrás em PetrobraX, desnacionalizando parcelas de suas ações após desvalorizações programadíssimas…. Quanto o país perdeu neste período de privataria? Uma auditoria deve ser feita, esta conta tem que ser cobrada!
 
Uma maior presença estado no controle das ferramentas fundamentais de desenvolvimento deve ser a resposta a ser apresentada pelos movimentos sociais, agora com muito mais força e com a razão demonstrada pela crise das políticas do fundamentalismo mercadológico. Diante da catástrofe que nos ameaça é preciso reivindicar a adoção de medidas mais que conjunturais. A nacionalização do sistema financeiro  –    que não implica expropriar um centavo dos  correntistas  –   traz o controle necessário e indispensável do estado sobre o centro nevrálgico da economia, os bancos, hoje totalmente interligados ao setor produtivo, seja de alimentos, de remédios, da construção civil ou de bens de consumo, e também ligados ao setor de comércio, de serviços da sociedade. A experiência nefasta da desregulamentação e da falta de controle sobre as finanças nos EUA deve ser uma lição a ser aprendida com verdade e coragem. 
 
Também se faz necessária a revisão da lei sancionada em fevereiro deste ano quebrando o monopólio estatal dos seguros e resseguros. Criado por Vargas em 1938, seguindo orientação do nacionalista Barbosa Lima Sobrinho, tratou-se de medida preventiva diante das incertezas de um mundo sob os solavancos de uma guerra, protegia da economia nacional  das ondas de instabilidade na economia internacional. Por que não retomar agora mesmo o monopólio estatal de seguros já que nos meses que se seguiram à sua quebra algumas das poucas empresas transnacionais que penetraram no mercado brasileiro são exatamente aquelas envolvidas da falência de bancos e instituições financeiras norte-americanas? 

 

Estatizar bancos e seguros: estabilidade social na crise

O que justifica desguarnecer a economia brasileira e permitir o controle de um setor tão sensível por empresas que estão sendo responsabilizadas pela crise norte-americana?  Uma delas, a Merry Linch, à qual está ligado o ex-ministro da Fazenda, Marcílio Marques Moreira,  foi nada mais nada menos a que conduziu o processo de privatização, internacionalização  e doação da Vale do Rio Doce, com gigantestos prejuízos para o povo brasileiro, rigorosamente lesado, já que a criação desta estatal, na Era Vargas, em 1938,  se deu através de decisão soberana, com recursos do Tesouro, ou seja, com a  poupança do nosso povo.

Finalmente,  o que justifica manter o depósito das reservas nacionais em bancos que estão marcados pela instabilidade, pela falta de transparência, pela sustentação de políticas que já provocaram enorme rapina na poupança dos contribuintes norte-americano? Por que não dar ouvidos agora exatamente aos que são os mais demonizados pela mídia do capital e suas instituições? Por que não ouvir os reiterados clamores do presidente Hugo Chávez que vem propondo acelerar a instalação do Banco do Sul, finalmente criado, para que as reservas dos países do Sul tenham porto seguro onde aportar e este porto, como demonstram sobejamente os fatos, não encontra-se em Wall Street?  Até mesmo o presidente do Irâ já anunciou disposição para depositar as reservas da nação persa no Banco do Sul, já que ela é vítima de sabotagem e agressões do imperialismo, cujos alcances podem ser sinistros…. 

 
Que esperam os mandatários da Unasul para uma reunião de emergência, antes que a crise nos atropele a todos, destinada a discutir com soberania e altivez a preservação dos interesses destes países ?  A começar por não deixar que volumosas reservas, hoje depositadas em bancos abalados por uma crise que chega até mesmo à própria confiabilidade da moeda   –  o dólar emitido sem lastro  – corram o risco de serem derretidas na irresponsabilidade e na prática contumaz de rapina da oligarquia imperial.
 
Sim, há um novo mapa político na América Latina, mas a crise que nos ameaça deve conduzir à abertura de novos caminhos. É hora de coragem e determinação para que a crise seja aproveitada como oportunidade histórica que nos fortaleça, como na crise de 29, e não como armadilha que nos devore.

Peru de natal na bandeja dos banqueiros

Os grandes bancos já estão jogando contra Lula. É o peru que está sendo preparado para ser destrinchado na ceia do Natal. Não interessa mais a sua estratégia política para a bancocracia.

Primeiro, não atenderam o pedido do governo para salvarem os bancos pequenos, com recursos repassados pelo próprio governo, seja dos compulsórios, seja das reservas bancárias.

Segundo, resistem à utilização dos depósitos compulsórios para irrigar os setores produtivos, que correm perigo de falência, dada a escassez de dinheiro na circulação.

Obrigaram as autoridades a partirem para estatização via Banco do Brasil ou Caixa Econômica Federal dos pequenos bancos. Caso contrário, estouraria crise bancária nacional, contaminando a economia, com corrida aos caixas bancários etc. 

Nasce, nesse contexto, tremenda intriga contra o ministro Guido Mantega, da Fazenda, com discurso desenvolvimentista. O alvo, claro, não é ele, é o presidente. Tenta deslocar Mantega, para impor impor o poder do jurista-mor, ministro Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, fortalecido pela medida provisória 442, que coloca na mão do técnico o comando do político.

O Congresso engolirá a jogada bancocrática que está por trás da MP?  

Do que os bancos não estão gostando? Ora, da orientação cada vez mais intervencionista do Palácio do Planalto em mandar o Banco Central direcionar o crédito dos depósitos compulsórios para os setores produtivos específicos, evitando especulação com o dinheiro do contribuinte. Estão sob fiscalização e cobrança de resultados, sob ameaças. Detestam.

Faltaria,  apenas, o presidente determinar o nível máximo de juros a ser praticado, como existia na Constituição, fixando 12% ao ano, para evitar que o custo do crédito atual, no calor dessa crise, mate as empresas de uma vez.

Por que não seguir o exemplo sensato dos governos europeus e americano diante dos bancos que se mostraram, como os daqui, excessivamente, gananciosos?

Como manter o juro mais baixo nesse ambiente de balburdia em que o custo do dinheiro tende a ficar cada vez mais alto como prêmio pelo risco geral que aumenta em todas as direções?

O juro sempre sobe na crise, nos países ricos. Mas, nessa, não, em termos relativos. Por que? Porque o governo interveio. Se é ele que emite dinheiro, por que não determina a sua distribuição, conforme o interesse público, se o momento de gravidade – e o momento é grave – exige?

Questão de poder político.

O governo tem que usar o recurso do contribuinte, como os depósitos compulsórios, para participar, com ele, do capital dos bancos, sinalizando o custo do dinheiro, compatível com as necessidades competitivas do setor produtivo nacional.

Afinal, a crise abre, também, grandes oportunidades, para quem tem matéria prima e base produtiva forte, como nós, grandes vendedores de máterias primas e grandes importadores para uma forte base industrial.

Os bancos privados, com responsabilidade de realizar  a tarefa de equalizar o crédito, dentro de uma estratégia desenvolvimentista, trariam como resultado juro mais baixo ou, ao contrário, muito mais alto?

A razão fundamental para a necessidade da intervenção direta do governo no processo é porque no ambiente extraordinariamente tenso em curso, onde a confiança foi eliminada, o agente da transformação não pode ser privado, mas público.

Interesse privado restabeleceria confiança pública?

 

 

O agente público, atuando em nome do interesse público, é o único que pode restabelecer a confiança. O governo americano, através do secretário Henry Paulson, tentou privatizar a distribuição do recurso público aprovado pelo Congresso. Não conseguiu. A Europa interveio. A China faz o mesmo. Em condições extraordinárias, somente providências extraordinárias resolvem impasses.

Por que teria de ser diferente no Brasil?

O que está em risco total é a estrutura produtiva e ocupacional brasileira. Custou muito esforço e sacrifício, para construí-la, desde Getúlio Vargas até agora. Tal estrutura está ameaçada pela ganância bancária.

Onde já se viu o governo liberar compulsório a custo zero para os bancos privados emprestarem a 6% ao mês! Na Índia, é 8%… ao ano. Na China, excluída a inflação, zero. Nos Estados Unidos e Europa, idem. Descontada a inflação, o juro está negativo, para combater o perigo recessivo global previsível.

Evidentemente, o governo tem que direcionar e comandar a execução do dinheiro do compulsório, de forma altiva, fundamental, para dar rumo político de salvação da nossa base produtiva.

Caso contrário, vem aí tremenda desnacionalização.

Enfraquecidas, porque foram pegas na especulação com o dólar barato no futuro, para ganharem juros especulativo no presente; estouradas na dívida, porque não conseguem ter rentabilidade suficiente para reproduzir o capital, devido à sangria dos juros e dos impostos, e, ainda por cima, ter que, fragilizadas, enfrentar a concorrência violenta da China, no auge da crise bancária, as empresas, com as pernas bambas, poderão dançar.

O setor produtivo nacional dispõe nesse momento de todas as nossas vantagens comparativas: somos francamente vendedores de matérias primas e fracamente consumidores delas para dar valor agregado ao produto nacional.

Os bancos teriam suficiente discernimento político para ver que o que o país precisa, agora, que é de mais produção, para aproveitar as oportunidades que a crise nos está oferecendo, ou matarão as galinhas dos ovos de ouro? 

 

Discurso de Alencar deve tomar o poder

O presidente dispõe de grande popularidade, mas fez um discurso bancocrático, até agora, penalizando as empresas. Como a crise fez emergir novo cenário, que destruiu possibilidades de ganhos especulativos, para compensar baixa rentabilidade produtiva, faz-se necessário novo discurso. Este já está dado. É o do vice-presidente José Alencar Gomes da Silva.

É com ele que as empresas terão salvação. Elas, sem ele, podem ficar fracas. As empresas são o coração nacional. Se pararem, pára o corpo, morre o paciente.

O exemplo está vindo dos países, que eram desenvolvidos, mas que passaram a sofrer a ameaça do empobrecimento, sob coordenação estatal estratégica e geopolítica, como antídoto à desmoralização das suas moedas na especulação, caso explícito do dólar.

Trata-se de salvação, tanto do setor produtivo, como do governo, pois ambos são unha e carne. O dinheiro tem que ficar mais barato para aumentar a produção e a circulação, que eleva a arrecadação do governo.

A intervenção estatal no comando do dinheiro do compulsório, de forma, determinada, politicamente, tendo em vista preservação da saúde do setor produtivo nacional, representa garantia para o próprio governo de manter a circulação dos negócios. Na circulação, a arrecadação se amplia e garante os recursos públicos para os investimentos.

Como aumentar a circulação dos negócios, se os juros e a carga tributária são proibitivos e a escapatória da especulação, como complementação da taxa de lucro empresarial, não existe mais?

Evidentemente, a disposição governamental, necessária, em hora grave, incomoda, de forma extraordinária, quem, como os banqueiros brasileiros, escraviza a sociedade brasileira, especialmente, a classe média e os mais pobres. No crédito direto ao consumidor, são sangrados em mais de 200% ao ano. A escravidão do capital é total.

Como eliminá-la, deixando a discussão para o plano técnico? 

Gordon Brown, primeiro ministro inglês, levantou sua popularidade, que estava baixa, suscitando sua queda, na crise, na Inglaterrra, com discurso nacionalista, interventor na atividade bancária, para restabelecer a confiança perdida no endividualismo ganancioso.

 

Saúde das empresas está em risco

 

Cuidar do setor produtivo tem que ser a prioridade total, para que o governo disponha de volume suficiente de arrecadação, capaz de sustentar programas sociais que, por sua vez, garantem expansão do mercado interno.

É bom para as empresas e sobretudo para os bancos. Lamentavelmente, o governo Lula, embora tenha fortalecido os programas sociais, não fez nada para as empresas, porque as prioridades foram para o pagamento dos juros e aumento de impostos.

Como sustentar o PAC nesse contexto de arrecadação que pode ficar cadente, se as empresas cairem mortamente doentes?

O compulsório e as reservas cambiais são as poupanças públicas acumuladas para enfrentar a crise com custo barato do dinheiro, mesmo , porque maior oferta de recursos joga o preço para baixo.

O presidente não deve ficar dando muito ouvido aos conselheiros assustados.

Se tivesse dado atenção a eles quando ficaram criticando o Programa Bolsa Família, onde estaria a inflação, sem consumo, que levaria às desvalorizações monetárias, para aumentar exportação?

O programa Bolsa Família valorizou o real, evitou a hiperinflação e criou a base sobre a qual devemos apoiar e fortalecê-la, pois o capital se faz é em cima do nosso consumo, e não em cima de dinheiro emprestado dos outros. Chega.

A hora é de jogar o compulsório e as reservas  na agricultura, na indústria, no comércio e na infra-estrutura. Portos modernos, para abrigar grande silagem, de modo a que o país disponha de mercadorias nos portos, para vender ao preço do dia para o mundo, e, ao mesmo tempo, dispor de estratégia produtiva que se transformaria em antídoto contra inflação. Como fazer isso, se as estradas estão uma porcaria?

Cuidado, presidente, sua cabeça está a premio. A sua e a da ministra Dilma Roussef.

Democracia participativa avança na Bolívia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O presidente Evo Morales , da Bolívia, está se revelando estadista, na condução da Assembléia Constituinte, que determina nova Constituição com perfil do poder popular indigenista que o elegeu.

Primeiro, defendeu os princípios básicos de um novo paradigma político que promove inclusão equitativa do poder indígena no contexto do poder nacional. Saiu vitorioso com esse discurso histórico.

Segundo, no poder, exercitou a defesa intransigente do interesse nacional, ou seja, não apenas do poder indígena, mas de todos os bolivianos, estilo nacionalista, no ambiente de uma nova relação de troca entre a Bolívia e o mundo. A nacionalização do poder energético boliviano foi jogada getulista, traduzida em nacionalização do petróleo brasileiro e criação da Petrobrás.

Terceiro, diante de emergência de antagonismos internos fortes relativamente ao aprofundamento da democracia direta participativa no contexto constitucional na Bolívia, Morales revela-se magnânimo: fecha acordo com os oposicionistas, no qual ficam mantidas avançadas conquistas democráticas, e aceita limitar o poder do presidente no formato popular de nova democracia boliviana.

Acertaram-se governo e oposição data de 29 de janeiro para o referendo sobre a nova Constituição e eleição presidencial em 6 dezembro de 2009, descartada  reeleição em 2014.

Despreendimento político total.

Evo Morales, sob aplausos da massa com a qual marchou durante oito horas antes do acordo, para mostrar aos constituintes a poderosa força política do MAS – Movimento ao Socialismo – diante dos oposicionistas, agregados em torno do Poder Democrático Social(Podemos), da Unidade Nacional(UN) e do Movimento Nacionalista Revolucionário(MNR), nessa segunda, 20, priorizou a causa, ou seja, as bases de neo-democracia participativa popular, em vez de a consequência, isto é, repeteco dos vícios do poder democrático cupulista, meramente, representativo, golpista, elitista, historicamente, anti-popular.

O poder pessoal, consequência da causa; vale dizer, a vontade presidencial preponderante não se verificou como pretensão inegociável do titular boliviano. Pelo contrário, exercitou a flexibilidade, para conquistar o substantivo e não, apenas, o adjetivo.

Sua postura demonstra não só despreendimento político, mas consciência da necessidade de o poder girar democraticamente em renovadas bases de sustentação, onde preponderaria correlação de forças políticas diferenciadas qualitativamente em relação ao status quo anterior à chegada do poder indigenista no comando da nação boliviana pela força dos movimentos sociais.

 

Movimentos sociais criam nova correlação de forças

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na prática, Morales fortalece corrente política boliviana sul-americana a partir da força orgânica dos movimentos sociais, que guardam raízes históricas no desenvolvimento do pensamento político indigenista boliviano. Sedimenta-se no poder político nova força consciente dos seus direitos via democracia direta participativa.

Morales está provando que o que importa são os termos da nova democracia boliviana, escrita pelos movimentos sociais na Constituição nacional. Ou seja, o permanente: novos direitos para o poder indígena, especialmente, os que poderão ser expressados pela participação e não apenas pela representação. A representação passa a ser essencialmente participativa.

Os oposicionistas estavam jogando com a possibilidade de Evo Morales demonstrar pretensões continuistas no poder, como manifesta, abertamente, o presidente Hugo Chavez, da Venezuela, por julgar sua presença, sob apoio popular, imprescindível por tempo indeterminado como condição para instalar a experiência socialista do século 21.

Tal pressuposto, embora legítimo, desde que assegurado, constitucionalmente, demonstra, no entanto, ser plataforma de lançamento de intensos antagonismos cujo potencial de explosão produz, quase sempre, impasses. O presidente boliviano, pragmaticamene,  fugiu dos impasses.

Evidenciou-se que Morales não pensa pela cabeça de Chavez, como insinuaram os oposicionistas separatistas-terroristas bolivianos e a grande mídia sul-americana. Pensa por si mesmo, em obediência à conjuntura concreta boliviana, traduzida, no momento, em tensões políticas separatistas, terroristas, perigosas.

O jogo de Morales de nem tão ao mar nem tanto à terra, jogando para aprofundar conquistas populares, historicamente, reivindicadas pelo poder indígena, enquanto flexibiliza discussão relativa a tempo de mandato , privilegia o substantivo, o poder popular, em vez de o adjetivo, a aparência da representação política.

Se o poder, o substantivo, é popular, a representação, o adjetivo, faltamente será popular, seja Morales ou outro representante do poder indígena, como ocorre na África do Sul, depois de Mandela. Os brancos, minoria, dificilmente, ou jamais, terão a representação, porque o poder político se transferiu, da minoria, branca, para a maioria, negra.

Assim, os brancos somente chegarão ao comando tendo como representação um negro. Pode pintar isso na Bolívia, visto que a maioria esmagadora do país é indígena, consciente, agora, do poder que alcançou pela organização dos movimentos sociais, dos quais foi protagonista política primordial. A elite branca teria que exercitar nova flexibilidade política.

 

Depois de Bachelet, Morales 

Evo Morales mostrou visão larga. Percebeu o lance histórico expresso pela ação da União das Nações Sul Americanas – Unasul – de iniciar construção de um pensamento sul-americano próprio, desbancando a OEA, ao sair em defesa da democracia boliviana ameaçada pelos golpistas separatistas-fascistas. Condenou a divisão nacional, forma de manutenção do poder pelas minorias de sempre, abrindo, consequentemente, legitimidade para o poder da maioria eleita democraticamente.

Depois de Bachelet, na presidência pro-tempore da União das Nações Sul Americanas, o melhor candidato é Morales, depois da sua tacada políica genial no processo constituinte boliviano em meio ao conflito separatista, desarmando-o, democraticamente.

Lance de estadista que cria espaço de convivência entre governo e oposição, até a algumas semanas, super-tensa, por conta das pregações e terrorismos separatistas, incentivados pela embaixada americana na Bolívia, na tentativa de isolar La Paz e o oeste do lado leste rico em petróleo e energia.

Esse poder econômico histórico boliviano, o do lado leste, a chamada Meia Lua, rica em petróleo e gás, em mãos dos detentores eternos do poder boliviano, ancorado em interesses externos, anti-populares, vem desde a chegada dos espanhois.

A democracia direta, participativa,  prevista na nova Constituição, extraída de Assembléia Nacional Constituinte politicamente revolucionária, criou resistências dentro desse histórico poder conservador, essencialmente, golpista, que pareciam impossíveis de ser removidas.

A democracia direta aprofundaria, aos olhos dos conservadores, conquistas populares, sociais, econômicas e políticas que, automaticamente, deslocariam  poderes de uma classe social, tradicionalmente, dominante, para outras classes sociais emergentes. Sendo estas maioria, a democracia direta implicaria aceleração de transferência de poderes de uma classe para outra, democraticamente.

A disposição dos estados mais ricos de irem à guerra interna parecia irremovível. Os conservadores, além da resistência de entregar a rapadura, tinha como certo possível intransigência de o presidente se dispor a continuar por tempo indeterminado.

Morales pode até ter tido tentação nesse sentido. Mas, a correlação de forças, dada pela explosão política interna, sinalizou que se ele insistisse nessa linha, criaria antagonismos insolúveis.

Racionalizou politicamente e fortaleceu a democracia direta sem precisar de guerra, apenas se dispondo a fixar tempo para sua permanência no poder, que se limita, então, até a 2014.

Preservou o essencial e dispensou o assessório. Histórico. Exemplo para grandes debates no parlamento sul-americano, exercido, antecipadamente, pelo plenário da Unasul.

Colapso americano é colapso keynesiano

A grande mídia mundial – e a brasileira no rastro – ressuscitam, nesse momento, o grande economista inglês John Maynards Keynes, autor, entre outros brilhantes livros, de “Teoria Geral do Juro e da Moeda”.

Mas, não é a solução keynesiana, que dinamizou o capitalismo americano, na base da economia de guerra, durante todo o século 20, a que está entrando em profunda crise nos Estados Unidos?

Seria Keynes, isto é, a solução guerreira, tocada por gastos públicos, a solução, se, na América, virou problema?

É o neoliberalismo ou o keynesianismo adotado por Tio Sam que entra em crise, se, na verdade, não existe sistema neoliberal americano? Colapso americano não seria o colapso keynesiano, nos termos da aplicação da solução de Keynes, a partir do pós-guerrra sob o dólar forte americano, para fixar nova divisão internacional do trabalho?

O modelo é amplamente conhecido: os Estados Unidos seriam o grande consumidor mundial, emitindo moeda sem lastro – garantida por bombas atômicas – , para realizar as exportações dos aliados no mercado americano, assumindo estes, em compensação, responsabilidade de comprar os títulos do tesouro de Tio Sam, emitidos para bancar a segurança do mundo contra o avanço do comunismo, mediante expansão da dívida pública interna americana. O desenho explodiu na crise do subprime.

Keynes, mesmo, desconfiava da sua própria solução e previu que ela poderia não ser eterna, como imaginam os seus discípulos: “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessaria para fazer valer minha tese – a do pleno emprego -,  exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força” (John Maynards Keynes, no jornal New Republic, 1940, citado por Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, Campus, 1980).

O ensinamento básico do genial economista, matemático e filósofo inglês, representa a sua crença básica: o capitalismo necessita da guerra. Ele, segundo Lauro, havia entendido essa lição fundamental depois da primeira guerra mundial de 1914. Embora a guerra promovesse destruição, como reconheceu, ela, destacou, promove riqueza e prosperidade, que rompem as contradições que o lassair faire detona, estressando a produção e consumo em contradição que explode em deflação, ou seja, em destruição tanto do capital como do trabalho.

Forças produtivas dão lugar às forças destrutivas 

 

A guerra seria a solução. Marx havia dito que o capitalismo expandiria ao máximo as forças produtivas, entraria na senilidade e passaria a desenvolver, dialeticamente, o seu oposto,  as forças destrutivas, na guerra, sob comando do Estado, que ultrapassaria a economia de mercado, algo que esboçou em “O rendimento e suas fontes – A economia vulgar”. Aí divide sua obra maior, O Capital, em seis etapas: I – O Capital, II – A propriedade fundiária, III – O trabalho assalariado(envolvendo capital e trabalho, na produção e consumo), IV – O Estado, V – O comércio exterior e VI – O mercado mundial e crise. O Estado, segundo Marx, entraria em cena para salvar o sistema, tornando parte intrínseca dele.

O pensamento keynesiano se reforça na linha de Marx, no compasso dessa constatação. O governo inglês, na guerra, experimentara, com o aumento dos gastos nas atividades bélicas, recuperação forte da economia, tirando os setores produtivos de bens duráveis da crise de realização no livre mercado. Gastos guerreiros que geram renda para ser gasta no setor de bens e serviços privados, sem necessitar aumentar a oferta, de modo a manter relativa escassez capaz de sustentar preços altos.

Tal fato, temporariamente, favoreceu a libra esterlina, afetada pela expansão do dólar, de um lado, e do marco alemão, de outro, desde a grande crise neoliberal de 1873-1893. Lorde Keynes sabia que os dias da sua querida Inglaterra estavam contados, principalmente, depois que os governos ingleses resistiram à desvalorização monetária, como alternativa para preservação do padrão-ouro, sob o qual o poder inglês se erigiu nos séculos 17 e 18. O cachimbo fez a boca torta.

Não-moeda para comprar não-mercadorias detrutivas 

A guerra, algo totalmente anti-liberal, foi, keynesianamente,  a solução ideal. Na linha preconizada por Marx, a produção das mercadorias destrutivas exigiria, sob comando político do Estado, expresso no governo, uma nova representação monetária, cujo perfil seria, naturalmetne, diferente do dado pelo padrão-ouro, que se transformaria, segundo Keynes, em “relíquia bárbara”.

Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, seguindo os passos de Marx, conceitua as mercadorias destrutivas como “não-mercadorias”, cujo único consumidor, o governo, lançava na circulação, para adquiri-las, uma não-moeda, não-valor, oposto da moeda sob o padrão-ouro, ancorada em metais. Ou seja, ativos ficíticos substuiriam os ativos reais, para garantir, na guerra e na especulação, a adequada reprodução capitalista. A ficção impulsiona a realidade.

Essa moeda sem lastro teria como garantia a capacidade de endividamento dos governos. Por isso, o que está entrando em crise, agora, nos Estados Unidos, é a incapacidade do governo americano, sob desconfiança do mercado, de continuar emitindo moeda sem lastro para enxugar moeda podre, jogada na circulação pelo próprio governo.

O papel dele de ser o entesourador geral de uma moeda que tende permanentemente à inflação está, com o dólar como representação monetária mundial, batendo biela, como demonstra à larga a realidade.

A onda neokeynesiana, que nasce no rastro da primeira grande crise monetária, traz no topo a proposta de solução que se transformou em problema. A mídia, que nunca discutiu o assunto para valer, bate palmas.

Keynes foi o remédio do qual o capitalismo lançou mão durante todo o século 20 para sustentar a demanda global via economia de guerra. A guerra fria, por exemplo, segundo o Instituto Peel, representou a âncora capitalista no pós-guerra, impondo gastos públicos americanos da ordem de 15 trilhões de dólares, algo, relata o instituto, não levado em consta na contabilidade dos neoliberais como fator determinante de sustentação do sistema.

O prêmio Nobel, Josef Stiglitz, destacou que a demanda global , nos últimos cinco anos, somente foi mantida graças aos gastos de mais de 2 trilhões de dólares do governo americano em guerras. Destruição como salvação.

 

Neoliberalismo e keynesianismo baleados  

 

O desenvolvimento das forças capitalistas, que promove, de um lado a acumulação e, de outro, o subconsumismo, condenou o sistema capitalista à crônica insuficiência de demanda global, como destacou Malthus e Marx.

O capitalismo, segundo eles, marcharia, sempre, como aconteceu, durante todo o século 19, para a deflação. Para Malthus, que considerou a economia ciência lúgubre, viu que o excesso de eficiência do sistema, tocado pela ciência e a tecnologia a serviço da produção, necessitaria, dialeticamente,  do seu oposto, ou seja, a ineficiência. Escândalo para os neoliberais.

Quem patrocinaria essa suficiência ineficiente para sustentar a eficiência insuficiente? O governo, elevando seus gastos, disse Robert Malthus, autor de “Princípios de Economia Política”.

Keynes, neomalthusiano, marxista disfarçado, via nos gastos governamentais em guerra a dissipação necessária, para promover renda para o consumo, sem que houvesse necessidade de aumentar a produção, como destaca Lauro Campos, em “Malthus e Keynes, duas almas gêmeas a serviço do capitalismo”(Senado).

Em 1929, o capitalismo, basicamente, bisetorial, baseado nos departamentos I e II, produtor de bens de produção e produtor de bens de consumo, D1e D2, respectivamente, atingiu a contradição insolúvel apontada por Marx. O subconsumismo levara o sistema à deflação. A salvação seria o seu oposto, a inflação, que, de acordo com Keynes, é a “unidade das soluções”.

O Estado, como antevira Marx em “O rendimento e suas fontes – a economia vulgar”,  entra no processo quando as contradições entre D1 e D2 emergem em colapso. Foi o que aconteceu em 1929.

Os neoliberais sempre se incomodariam durante todo o século 20 com D3, gastos do governo, puxando D1 e D2, keynesianamente. Reagiram a ele, por não entenderem, completamente, a gênese da moeda que vai dar sustentação a D3, diferente a moeda do século 19, que bancara a bissetorialidade de D! e D2.

Os gastos do governo, de D3, precisariam, para contragosto dos neoliberais e comentaristas economicos, crescer mais que o próprio PIB. Puxariam, com inflação, o setor privado, tendente, cronicamente, à deflação. Dialética.

 

A grande mídia deu uma de avestrus

 

A nova moeda capitalista, emitida por D3, gastos do governo, do Estado, que se transforma, efetivamente, em capital, na economia monetária keynesiana, é, para os neoliberais mero fator de troca, que não deve ser levada em conta na formulação macroeconômica, dado que seria neutra, pairando acima das classes sociais. Eles vêem a moeda como construção abstrata e não como fruto do trabalho e das relações sociais. Visão esquizofrênica.

Como em novo contexto, no qual os gastos do governo, ineficientes, precisam salvar o setor produtivo privado, eficiente, a moeda sob o padrão-ouro não servia mais, virara “relíquia bárbara”.

O conselho de Keynes para os Estados Unidos, a partir de 1936, para que lancem mão do statemoney sem medo para conhecerem sua verdadeira força é a expressão exata da macroeconomia do capital bombada pela moeda capitalista política impulsionadora da economia de guerra – produção bélica e espacial, expansão da máquina pública , etc.

Sem o governo gastar além das suas receitas, acima do percentual do PIB, com seu capital, sua moeda, não existiria capitalismo no século 20. Lenin sairia amplamente vencedor, depois da revolução soviética.

O governo, nesse contexto, é, como diz Keynes, a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, ao elevar a quantidade da oferta de moeda na circulação. Quando faz isso gera o que denominou de “eficiência marginal do capitl”, ou seja, o lucro, que faz nascer o espírito animal empresarial. Tal estratégia estatal 1 – diminui os salários, 2 – eleva os preços, 3 – diminui os juros e 4 – perdoa a dívida dos investidores.

Desperta, dessa forma, o espírito animal investidor, sem que o leve a enfiar a mão no bolso, enquanto precisaria ser exercitada sem receios, pelo governo, sua capacidade de enxugar o meio circulante , via expansão da dívida pública interna, que, dialeticamente, cresce no lugar da inflação.

Como continuar o jogo keynesiano, sem a capacidade infinita de entesourar para enxugar a base monetária, afim de evitar enchente inflacionária?

Seria Keynes a solução, se esta, nos Estados Unidos, ou seja, no país mais rico do mundo, transformou-se em problema, já que  o empoçamento de moeda na economia decorre do excesso de colocação dela em circulação pelo próprio governo, estimulador da sua reprodução ampliada no mercado derivativo? 

A grande mídia, nesse contexto, dá uma de avestruz. Mete a cabeça na areia e se torna prisioneira de um círculo de giz.

 

Neo-Bretton Woods só com G7 ou G20?

 

O poder midiático nesse momento, mais perdido que cego em tiroreio, precisa de uma raíz para se sustentar, porque os seus argumentos neoliberais faliram.

Apega-se, desesperadamente, em Keynes, até a pouco, asperamente, criticado por ela. Teria que inverter então a situação. Não poderia criticar Lula por estar fazendo o jogo keynesiano de estimular gastos sociais e aumentos dos investimentos no PAC, forçando despesas acima das receitas.

Mas, teria fôlego a solução de Keynes, pregada em 1944, em Bretton Woods, a de propor o “Bankor”, moeda mundial, escritural, que controlaria a contabilidade global, administrando os deficits dos balanços de pagamentos por intermédio das grandes potências?

Naquela ocasião, os Estados Unidos, saídos fortes da guerra com o dólar super-poderoso, pronto para exercitar as relações de troca globais em seu nome, em nome do império americano, disse NÃO à proposta do economista inglês.

Keynes enfiou a viola no saco e concordou com o neopoder, ao qual passou a dar conselhos. Sua entrevista ao repórter  e economista Santiago Fernandes, do Jornal do Brasil e do Banco do Brasil, em Bretton Woods, relatada no livro “A Ilegitimidade da Dívida Externa do Brasil e do III Mundo”, demonstra sua visão geral do poder americano.

O dólar, e não o bankor, disse, seria a representação e equivalência monetária global, impondo  deterioração nos termos de trocas cambiais, em favor dos americnaos e em prejuízo dos aliados, especialmente, da periferia capitalista.

A proposta sugeriada por Keynes, repetida, agora, pelos sete grandes, as superpontencias, baleadas pela crise, teria cara de pão velho, amassado.

 

Correlação de forças mudou nas relações de troca.

 

O presidente Fernando Henrique Cardoso, em reunião com os tucanos em Brasilia, acendeu luz. Disse que emerge novo tempo caracterizado por inversção nas relações de troca.

O que vale mais no calor da bancarrota financeira: as moedas dos ricos, sem lastro, ou a riqueza , por exemplo, da América do Sul, cujo lastro são as matérias primas fundamentais para a manufatura global? Aquelas, relativamente, abundantes, cujos preços são, na concorrência, cadentes, ou estas, relativamente, escassas, são as mais valorizadas?

Os sete grandes comem grama e rotam leitão. Sarkozy e W. Bush, desmoralizados, têm moral para reunir os grandes, fixar novas relações de trocas a partir de um “Neo-Bankor” keynesiano, se a solução de Keynes virou problema na mão deles?

O novo Keynes não poderia abarcar apenas os 7 Grandes, se eles não têm mais poder de impor deterioração na relação de troca global com suas moedas deslastreadas de qualquer valor real.  

Um Keynes mundial?

Pode ser, mas não seria para promover mais guerras. Nem elas serão mais bem vindas para os governos americanos, que terão que gastar tanto, internamente, para salvar os consumidores da explosão monetária, que sobrarão menos recursos para mandar para o Iraque, de modo a continuar puxando a demanda global capitalista, via economia guerreira.

A paz e não a guerra é o novo desejo de consumo de Tio Sam. Pelas mãos de Keynes? Pode, também, ser, mas não apenas administrados pelos sete grandes, que perderam a força.

A solução keynesiana surgiu no século 20 para salvar o capitalismo da crise de 1929, mas entrou, quase 70 anos depois, na crise do Estado devedor, que entrou na economia, com moeda própria, para salvar o setor privado. Todos os três, agora, estão atolados, keynesianamente.

Se pintar neokeynesianismo, teria que ser global, valendo para todos e,  portanto, não terá, apenas, a cara capitalista de Keynes, expressa no modelo de guerra. O colapso americano-keynesiano estressou a humanidade e a própria terra, destruída pela sede do lucro.