Inflação subterrânea impõe controle cambial

 

A inflação está deixando de crescer para cima, para crescer para baixo. Inflação subterrânea. Os preços, apesar da pressão inflacionária advinda da corrida contra o real, que o Banco Central não consegue conter,  permanecem no lugar ou em queda relativa, como demonstraram os números da última semana de novembro e início de dezembro, mas, em compensação, o governo banca a estabilidade dos preços, garantindo desonerações e renuncias fiscais, para compensar desvalorização cambial e queda dos lucros das empresas decorrentes da desaceleração interna e da exportações. Tal jogo de equilíbrio precário representaria a razão pela qual a partir de janeiro o BC poderia, inventando uma teoria de ocasião, iniciar a redução dos juros, porque a inflação aparente estaria sob controle, enquanto a latente e oculta, estaria crescendo. O positivo é mostrado e o negativo escondido. Mas, a negatividade, que é, segundo Hegel, a verdade, emergiria, mais cedo ou mais tarde, dialeticamente. Seria essa nova inflação falsificada suficiente para conter a taxa de juros, ou o governo, sem outra saída, poderia partir para uma heterodoxia na política cambial?
Avança, portanto, outro tipo de inflação, a inflação de subsolo. Latente e ocultamente ela se desesnvolve, pela ação governamental, com as desonerações fiscais e tributárias, para incrementar, principalmente, a indústria automobilísticas, que se encontra com pátios lotados, especialmente, dos carros populares, sinalizando deflação, se nada for feito. Tal jogada implica em subsídio cujo pagador é o tesouro nacional em forma de emissão, substituída pelo eufemismo semântico de “injeção” monetária. Uma armação, como se o Banco Central tivesse um cofre de dinheiro do qual tira os recursos para repassar aos empresários, sufocados, lembra o economista Carlos Eduardo Carvalho, da PUC/SP, em brilhante artigo no Valor Econômico, em 11.12.
Como o presidente Lula, durante reunião com empresários, na semana passada, destacou que vem por aí novas medidas, capazes de incrementar a produção e o consumo, certamente, as emissões prosseguirão, desempenhando o papel de conter os preços, aparentemente, enquanto, na prática, tal contenção se expressa em seu contrário, em obediência à dialética, ou seja, em forma de aumento do endividamento governamental. A dívida cresce no lugar da inflação de subsolo. Evita que haja mudança na aparência dos preços, cuja essência fica escondida em forma de aumento do endividamento público, expresso em desonerações, que deverão se multiplicar, no compasso da crise, como prometeu o presidente aos empresários, exigindo emissões-injeções monetárias na circulação capitalista nacional, intrinsecamente, inflacionária.

O aparente e o latente freudiano

A essência e a aparência, em representação freudiana. O inconsciente inflacionário não aparece, mas a consciência da inflação entra em cena maquiada, dando vida à inflação de subsolo, como a caracterizou Lauro Campos, no livro “Crítica Dívida Externa”, Senado Federal, em que analisa o fenômeno, que se ampliou no país depois da crise monetária dos anos de 1980, produzida pelo aumento do juro nos Estados Unidos como forma de salvar o dólar. Agora, o fenômeno se repete para evitar falência dos setores produtivos, incapazes de sobreviverem no ambiente em que o crédito foi liquidado pela crise que jogou a economia dos Estados Unidos e da Europa na estagnação, gerando incerteza global.
As desonerações e renúncias fiscais, que garantem ganhos diretos às empresas, como compensação pela sustentação dos juros altos, que espantam consumidores, colocam o governo, num primeiro momento, como salvador geral da pátria, mas, num segundo instante, pode trazer problema, especialmente, porque , com o aumento da dívida pública interna, os financiadores do endividamento estatal, puxam para cima as taxas de juros. A exigência dos grandes bancos já escandalizam, impondo, como destacou a analista e especialista em contabilidade nacional, Maria Lúcia Fattorelli Carneiro, da Secretaria da Receita Federal, juros de 18% para comprar títulos governamentais, ou seja, 5 pontos percentuais acima da taxa básica selic, de 13,75%, considera a mais alta do mundo. Uma farra total que se prenuncia ascendente, quanto mais o governo vai sendo obrigado a bancar a inflação subterrânea.
O fenômeno em curso demonstra que a dívida vai crescendo no lugar da inflação, como fenômeno antiinflacionário, deixando no ar a indagação sobre até quando o tesouro terá fôlego para bancar a escalada da dívida pública interna, que se aproxima de R$ 1,5 trilhão, exigindo, de forma assustadora, no compasso da crise, 30% da receita orçamentária, para ser bancada. Além disso, ressalta Fatoorelli, todas as disponibilidades financeiras orçamentárias oriundas de contingenciamentos vão sendo canalizadas para o pagamento dos juros da dívida. São impostos, dessa forma, amplos sacrifícios aos setores que mais precisam de recursos, quanto mais a desaceleração econômica avança, como os de saúde, educação, segurança, infraestrutura etc.
É possível considerar como razoável tal escalada ou em algum momento a auditoria da dívida se imporá como imperativo categórico, como diria Kant? Por que os demais setores, constantes do orçamento não-financeiro, ou seja, que implica na vida das atividades produtivas, tornam-se alvos de cortes e reavaliações, e o orçamento financeiro, pagamento dos juros, ficam de fora do ajuste ao qual toda a sociedade se submete?
Não é a primeira vez que o fenômeno da inflação de subsolo ocorre. Ao longo dos últimos trinta anos, em diversas oportunidades, a inflação subterrânea se apresentou como fenômeno capaz de mostrar a aparência, mas encobrir a essência. Os preços, para os consumidores, ficam no mesmo lugar, estáveis, mas as desonerações, dadas pelo governo, como sustentação da estabilidade aparente deles, atuam como atenuantes, cujos efeitos se manifestam de forma oculta no aumento do endividamento público. 

Inflação oculta reduziria juro?

Nesse sentido, a criação do real, a partir do governo Itamar, ganhando notoriedade no governo FHC, pode, igualmente, ser interpretado como promotor da inflação de subsolo. A sobrevalorização do real, de forma artificial, combateu, aparentemente, a inflação, mas fez explodir a dívida, a essência inflacionária, que se expressou de forma oculta. O resultado todos conhecem: o aumento dos juros, que, em 1997/98, chegaram ao absurdo patamar de 45% ao ano. A dívida virou contrapolo da inflação. 
A conjuntura, por sua vez, demonstra inexistir razões para aumento dos preços. Demanda em queda, por conta da crise, sinaliza não pressão inflacionária, mas deflacionária. Os carros sobram nos pátios e lá ficarão se não fluir o crédito, jogando os preços para baixo e toda a cadeia produtiva associada à indústria automobilística, carro-chefe do capitalismo nacional dependente.
Pelas análises econômicas em geral, em 2009 os preços deverão ficar na casa dos 4,5%, ou seja, dentro da meta fixada pelo Banco Central. O consumo interno em retração seria o responsável. Sobraria, então, pressão inflacionária não advinda da pressão consumista, mas por conta da mera corrida especulativa contra a moeda nacional, desvalorizando o dólar frente ao real. Um fenômeno que vai se destacando e se destoando da lógica econômica, possivelmente, a levar a uma solução salomônica para os juros, tipo controle cambial. Do contrário, as pressões inflacionárias, produzidas em cima da moeda, especulativamente, colocaria toda a economia em risco, porque a desvalorização cambial imporia juros altos para continuar financiando o endividamento, como medida de risco imposta pelos bancos, como já está acontecendo.
Tende a nascer e ampliar nas próximas semanas e meses, no Congresso, pressão política para conter o fluxo de entrada e saída de dólar, para que a sua saída, maior que a entrada,  não eleve o preço do real e consequentemente da taxa de juro, mesmo que haja redução do consumo decorrente do juro especulativamente alto. 

Urgente controle do mercado de moeda

O governo vai ter fôleto para bancar a inflação subterrânea até quanto, se o fluxo de entrada e saída de dinheiro fragiliza, crescentemente, o real, colocando sua saúde como ponto central do desenvolvimento econômico ao longo de 2009. Os candidatos da oposição começam a nadar de braçada, antevendo, prognosticando e antecipando o desastre cambial.  Seria vitória na certa da oposição que curtiria a virada da história, com o feitiço virando feiticeiro.
O governo convive contraditoriamente com uma situação que potencialmente reduz inflação, em decorrência da queda do consumo, que leva a uma concorrência cujos efeitos são deflação, mas, ao mesmo tempo, gera pressão inflacionária por conta do câmbio, na troca do dólar pelo real, fragilizando, fortemente, a moeda nacional. Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.
A política cambial estaria atuando como uma variante independente da lógica econômica. Não sofre os efeitos desinflacionários decorrentes do esfriamento econômico, que joga os preços para baixo, via redução do consumo. A lógica cambial impõe a sua própria inflação. O governo, quando bombeia a inflação oculta, enquanto deixa sob controle a inflação aparente, está diante do seu maior desafio.
Em algum momento, a contradição, como é natural, caminhará para sua superação, a tese gerando a antíte em busca de nova síntese. A governabilidade pode se transformar em ameaça, se a política cambial sair do controle. Como ela não está sendo regida pela lógica do comportamento dos preços, poderá sofrer intervenção estatal, assim como o governo se obrigou a intervir no sistema financeiro, para desbloquear – ainda ainda não concretizado para valer – para evitar o colapso econômico.
O que vai impulsionar o governo nesse sentido serão as estatísticas do desemprego. Se no inicio de 2009 as coisas ficarem pretas, como se anuncia, a intervenção no mercado de moeda entraria na dança da intervenção, porque seu comportamento joga perigo constante para a saúde econômica e política do governo, no momento em que o Planalto se volta tanto para a superação da crise como da promoção da candidata Dilma Roussef, ministra da Casa Civil, para suceder o titular do poder.

Energia vira moeda forte na crise global

A criação em andamento da moeda arábe, anunciada semana passada pelos sheiks do petróleo, ligados à OPEP, representa fato novo no cenário da bancarrota capitalista global.  Energia vira moeda. Boas notícias para a América do Sul e o Brasil, que, com o pré-sal, entra na área da moeda-petróleo.

Ao mesmo tempo, a China manda recado ao governo Lula de que está disposta a embarcar, com suas trilhonárias reservas cambiais, na exploração petrolífera nacional. Ou seja, os chineses abrem os olhos para participarem do cartel da OPEP por intermédio da parceria com o Brasil.

Sinais de mudanças qualitativas no cenário internacional nos próximos tempos em que as economias desenvolvidas, afetadas pela crise de crédito, vão perdendo espaço para os emergentes em ações parceirizadas.

A moeda nacional – ou moeda sul-americana – , da mesma forma que a moeda árabe, ganharia status internacional, se o governo Lula, por conta do pré-sal, se filiasse à OPEP. A valorização dela teria o tamanho do potencial da reserva petrolífera trilhonária.

Os árabes querem com sua própria moeda fugir da volatilidade cambial e monetária que está rolando em profusão nas relações de troca depois que o crédito secou nos países capitalistas mais desenvolvidos.

Antes do vendaval detonado pela implosão do mercado imobiliário americano, eles haviam decidido dar os passos iniciais nesse sentido, por meio da elevação dos preços do barril de petróleo até perto de 150 dólares.

A justificativa para essa pressão altista não foi apenas o então aquecimento do mercado da oferta e da procura do óleo, mas a decisão dos governos árabes de compensarem a perda que estavam tendo nas relações de trocas globais.

Como os países do golfo pérsico têm suas importações européias cotadas em euro e suas exportações de petróleo em dólar, estariam, sempre, perdendo valor dado que o euro é mais valorizado que o dólar.

Jogo de compensações. O aumento do preço do petróleo em doses desproporcionais, como justificativa de compensação para a deterioração nos termos de troca dos árabes com seus parceiros, detonou, por sua vez, a inflação mundial.

Agora, no crash global, a inflação se transforma em deflação nos países ricos e fuga de capitais dos países pobres, desvalorizando a moeda nacional e impondo pressões combinadas de inflação com hiper-deflação.

Nesse novo cenário, os árabes tendem a perder duas vezes. Continuarão  a dançar na troca de dólar por euro e, principalmente, na queda dos preços do barril de petróleo na praça global.

Se não podem ganhar na elevação do preço, como compensação pela perda cambial, nem impedir a baixa do preço do produto na recessão em marcha, os governos do golfo se voltam, então, para a valorização do seu produto. Este adquiriria representação monetária, cujo lastro seria o próprio produto, do qual o mundo depende para sobreviver.

O petróleo, enfim,  viraria moeda árabe, sinalizando novo momento do sistema monetário internacional no mundo capitalista em bancarrota. 

 

O poder real e poder fictício

O cenário, para os árabes, é de prejuízo iminente. Primeiro, porque estão perdendo renda, que toca os projetos internos de desenvolvimento, por conta da deterioração nas relações de troca, e, segundo, porque a queda de preços impõe ainda maior deterioração comercial e cambial.

Que fazer?

Os sheiks, ao que tudo indica, estão se dispondo a uma nova radicalidade para a ação da OPEP como alternativa para valorizar, relativamente, seu produto, do qual depende a manufatura global. 

Repetiriam 1973?

Naquele ano, diante dos preços baixos, munipulados pelas empresas multinacionais, americanas e européias, para garantir consumismo barato de energia e combustíveis nos Estados Unidos e Europa às custas dos árabes, estes decidiram criar a OPEP. Causaram revolução econômica. Os governos do golfo fizeram valer o poder de oligopólio, e o mundo se condicionou à nova realidade, desde então.

Os árabes aprenderam que o poder do petróleo é maior que o peso do papel-moeda. Lá, em 1973, agiram para criar o cartel da OPEP, mas continuaram subordinados à área de influência do dólar. Agora, quando falam em criar sua moeda, a moeda-petróleo, estariam pensando e agindo na reafirmação do poder do petróleo no sentido de acelerar uma nova correlação de forças monetárias globais, quando o dólar balança?

Nasceria novo referencial monetário internacional para balisar as trocas comerciais globais, se for efetivada a moeda árabe. O dólar, como confirma a crise, está perdendo esse referencial, como algo absoluto, de acordo com a divisão internacional do trabalho, estabelecida no pós-guerra pelo acordo de Bretton-Woods, em 1944.

A mercadoria efetiva, riqueza real, lastro palpável, que serviu para a criação do cartel da OPEP, impondo, a partir dos anos de 1970, nova conjuntura energética global, pode estar, em 2008,  no auge das incertezas no cenário capitalista global, agindo para fazer valer, de novo, esse mesmo poder, com avanço qualitativo? A disposição de criar moeda árabe diz que sim.

 

Pobreza relativa do ricos e riqueza relativa dos pobres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A moeda árabe seria, naturalmente, a representação prática do poder do petróleo. O dólar sofrerá natural abalo. Qual o lastro do dólar? Dívidas imobiliárias em profusão que desvalorizam a moeda americana, afetada pela reprodução exponencial dos derivativos dolarizados. Ou seja, não tem lastro real. Perigo total, como prenunciam os próprios árabes, que se lançam à construção de sua própria moeda, para valorizar seu próprio produto. A riqueza fictícia monetária passa a receber outro tratamento no cenário das relações de troca, vindo a emergir a moeda-árabe-petróleo.

Os Estados Unidos e a Europa estão sem sua riqueza visível para dar substância a suas moedas, visto que tanto o euro, como o dólar, estão, na crise, abalados pela bancarrota do mercado imobiliário americano. Os americanos venderam papel podre para os europeus, que distribuiram esses papéis bichados na praça. Tudo falso. Riquezas imensas perdidas, sonhos estourados, fim de ilusões, caída na realidade trágica.

Evidenciou-se o óbvio: os americanos, que haviam perdido para os concorrentes seu mercado de bens e serviço,  perdem, agora, seu mercado de dinheiro. Consequentemente, empobrecem. A prova é a antecipação do discurso da nova Secretária de Estado, do governo Obama, Hillary Clinton, pautado no multilateralismo e não mais no unitarismo bushiano.

O incontrolável aumento do desemprego nos Estados Unidos é o sintoma geral de que a base de sustentação do dólar, o consumo americano, que realiza as importações globais, fragilizou-se.

Obama buscará reafirmar a força do dólar por meio do fortalecimento da capacidade da economia de gerar empregos, ampliando keynesianamente os gastos públicos. Caso contrário, sem a renda proveniente da produção, estimulada pela teta estatal, a moeda americana faliria. Derrocada imperial.

Empobrecimento relativo acelerado, no rítmo de aceleração do desemprego. É disso que Barack Obama quer fugir, preocupadissimo, como demonstra o seu semblante pós-eleitoral.

 

Moeda e agroenergia sul-americanas já

Nesse ambiente de total incerteza, os espertos árabes, donos das principais reservas mundiais de petróleo, perceberam que manter o óleo negro indispensável sob referência do dólar é correr risco ascendente no contexto das relações de trocas globais.

Como o mercado despencou e ficou difícil, senão impossível, continuar praticando preços altos, resta aos governantes árabes apegar-se a sua riqueza real e, ao mesmo tempo, colocar preço nela por meio de representação própria, ou seja, moeda árabe.

O petróleo, sendo poder monetário, pode ser lastro de uma representação monetária regional. Por que não? Esse fato, que a grande mídia pouco explorou durante a semana, tem potencial de fogo para influir na aceleração da criação da moeda sul-americana.

A América do Sul tem a riqueza potencial energética que assegura a estabilidade do mundo, em termos de desenvolvimento sustentavelmente equilibrado. Não teria, igualmente, chegado a hora de os sul-americanos, como os árabes, também, botarem preços nas suas mercadorias essenciais?

O pré-sal, nesse novo contexto, representa, efetivamente, base de sustentação monetária do país. Não seria à toa, portanto, que a China manda o recado ao governo Lula, mostrando-se interessada em ser parceira na exploração do óleo nas profundezas do pré-sal.

O poder energético, como não cansa de pregar o professor Bautista Vidal, agora na defesa da criação da empresa brasileira de agoenergia, emerge como poder monetário, no compassos de derrocada do neoliberalismo, que jogou o capitalismo na anarquia total, produzindo a contradição capital do sistema, expressa pelo choque entre as forças produtivas e as relações sociais da produção.

A hora da moeda sul-americana e da Empresa Brasileira de Agroenergia é agora. Lastreada pela riqueza mineral, energética e industrial da América do Sul, a moeda sul-americana, como a moeda árabe, em nascimento, teria influência decisiva no contexto multilateral pós-explosão neoliberal. Muda o conceito de riqueza monetária: o papel-moeda fictício sem lastro emitido pelos países ricos tenderiam a perder substancia para emissões sustentada em lastros reais, concretos.

Desemprego põe Meirelles na corda bamba

O avanço do desemprego na economia em desaceleração, sinalizando recessão, passou ameaçar o emprego do presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles. O crescente prestígio popular do presidente Lula(78% de aprovação na pesquisa DataFolha) corre perigo. Meirelles terá, na próxima quarta feira, o desafio de comandar mais uma reunião do Conselho de Política Monetária(Copom), sob pressão total dos empresários, trabalhadores, governo e coalizão governamental, no Congresso. Todos levantam uma só bandeira: redução das taxas de juros como antídoto à queda geral do nível de atividade econômica em marcha.

Nesse momento, as indagações generalizadas se voltam para a intensificação das especulações financeiras em cima da moeda nacional. O real já se desvalorizou quase 50% ao longo de outubro e novembro, mas a inflação, ao contrário de explodir diante do aumento da sua fragilidade, diminui, de acordo com os números anunciados ao longo da semana, embora as pesquisas dos banqueiros, seguidas pelo BC, sinalizassem o contrário.

Por isso, a surpresa geral está perpassando o mercado, sentindo cheiro de pólvora no ar. Por que o dólar, na quinta feira, 04, pulou para mais de R$ 2,50? Por que o Banco Central somente atuou no final do pregão, para evitar a especulação, quando, nas semanas anteriores, estava jogando no ataque? Hoje, novamente, R$ 2,50, R$ 2,60. Especulação pura. Estaria interessado em manter pressão sobre a moeda nacional, para evitar redução das taxas de juros, já que dólar alto significaria, teoricamente, mais inflação à vista? Jogada especulativa para evitar a redução das taxas de juros na próxima semana, a fim de continuar mantendo os altos lucros dos bancos, enquanto o setor produtivo vê o barco da economia afundar?

Essas perguntas estão na cabeça dos políticos da aliança governista, no Congresso, que começam a ficar desesperados diante do aumento do desemprego, que, no início de 2009, pode ampliar consideravelmente.Seria desgaste total para o presidente e sua candidata à sucessão nas eleições 2010, ministra Dilma Roussef, ao mesmo tempo em que estaria ampliando as chances dos adversários, José Sera, governador de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, que disputam, dentro do PSDB, a vaga para candidatura tucana.

 

Desemprego em marcha, prestígio em alta

Durante a semana, as notícias pioraram , consideravelmente, pintanto anúncio tétrico: a Companhia Vale do Rio Doce(Vale), uma das maiores mineradoras do mundo, demitiu 1.300 trabahadores e colocou em férias coletivas outros 5.000. Os preços dos minérios, com recessão mundial, cairam e a produção siderúrgica, consequentemente, encolheu. Resultado: a empresa, outrora estatal, privatizada na Era FHC, rendeu-se à lógica das demissões trabalhistas quando a procura cai diante de uma oferta abundante. Entre a deflação visível e a demissão de trabalhadores, não titubeou.

O governo Lula tentou minimizar o assunto, jogando com o otimismo, enquanto a realidade desmentiu-o. No Congresso, onde depunha, na terça feira, 02,sobre a situação atual, a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, não conseguiu vender o produto que o seu chefe tem ofertado em abundância no mercado em desaceleração: esperança em doses exageradas. Sua contenção, relativamente, ao avanço das demissões, ficou transparente, evidenciando que o governo busca correr contra o prejuízo, preparando série de medidas fiscais, como diminuição de impostos e adiamento de pagamento de tributos, enquanto a queda dos juros não vem.

O incômodo governamental aumentou, substancialmente, com a conjugação dos discursos dos empresários e dos trabalhadores, no mesmo diapasão. Embora os representantes de seis entidades sindicais tenham se reunido na Esplanada dos Ministérios, na quarta, 03, para fazer pressão sobre os parlamentares, a fim de livrarem da cassação o deputado Paulinho da Força(PDT-SP), envolvido no escândalo de jogo de influência para liberar empréstimos do BNDES, os sindicalistas corporativistas aproveitaram, também, a oportunidade para defender a redução urgente das taxas de juros e a diminuição do superavit primário. Somente com dinheiro mais barato na praça e menos recursos destinados ao pagamento dos juros da dívida, para que sobre mais aos investimentos, destacaram os líderes sindicais, será possível evitar a recessão e depressão econômica em rítmo crescente.

Na mesma linha, os líderes empresariais, sob coordenação da Confederação Nacional da Indústria(CNI), defenderam, igualmente, diminuição das taxas de juros, mas sem falar em ação semelhante sobre o superavit primário(receita menos despesas, excluindo os juros), como antídoto ao desemprego. Se este não for contido por medidas preventivas, urgentes, poderá disparar, nas próximas semanas, entrando 2009 adentro com previsões catastrofistas.

 

Banqueiros abandonam Planalto

Sob pressão total dos trabalhadores e dos empresários, do capital e do trabalho, bem como dos integrantes da coalizão governamental, no Congresso, o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, começou a ratear em seus argumentos. Sua sustentação favorável ao juro real mais alto do mundo como fator de contenção inflacionária ficou prejudicado. Os números da inflação de novembro, comparados ao de outubro, mostram recuo, mesmo em face do avanço do dólar.

Não bateram as pesquisas realizadas pelos bancos, por intermédio da Focus, que serve de balisamento para ação do BC. Em novembro, o IPC ficou abaixo de 0,3%, quando os bancos sinalizaram perto de 1%. Sem a pressão altista prevista pela pesquisa Focus, alvo de críticas de diversos setores da economia, os argumentos de Meirelles, enquanto avança o desemprego, perderam força.

Tal contradição ouriçou o Planalto, que está, especialmente, irritado com a banca privada, depois que ela se negou, no auge da crise, a colaborar com o esforço governamental, para, utilizando depósitos compulsórios a juro zero, irrigar o mercado com custo estável do dinheiro, bem como socorrer bancos pequenos em bancarrota.

Ao contrário, os grandes bancos, como Itaú e Unibanco, correram para a oligopolização bancária, enquanto elevavam os juros, mesmo com o governo aumentando a oferta de dinheiro na praça, por meio do BNDES. Não teve outra alternativa o governo senão partir, também, para a oligopolização financeira estatal.

Está no ar, no auge das tensões, o confronto entre o oligopólio financeiro privado, de um lado, e o oligopólio financeiro estatal de outro, cujos contornos somente o compasso da crise poderá dizer nas próximas semanas e meses. Na prática, o jogo da banca privada alimenta, entre os governisas, a convicção de que o jogo duro do BC na manutenção do juro alto beneficia os banqueiros e prejudica a estratégia política e econômica do presidente Lula, para enfrentar a crise e bancar a candidatura Dilma.

O titular do Planalto está numa sinuca de bico. Ao intensificar a pregação favorável ao consumo, estimulando os trabalhadores, temerosos do desemprego, a aumentar as compras no crediário, ele poderá ficar, completamente, desmoralizado, caso os juros continuem em alta, como evidenciam os números. As pequenas empresas, sufocadas para pagar o décimo terceiro salário, correm aos bancos para pegar dinheiro a 45%, 50%, 60% ao ano, enquanto o cartão de crédito avança para a casa dos 12%, 15% ao mês. Enforcamento total.

 

Mantega fatura desprestígio de Meirelles

O desespero das empresas diante do dinheiro caro ficou comprovado com o avanço das empresas de Factoring, cuja demanda, nos últimos 30 dias, subiu mais de 30% em dois meses. Além disso, os empresários ressaltam a necessidade de terem de retirar suas aplicações pessoais de fundos de investimentos de modo a fazer frente ao recuo dos empréstimos caros oferecidos pelos bancos.

Entre o desejo do presidente e a realidade configura-se a força desta diante daquele, expressa na onda de desemprego que se amplia. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, em sua tentativa de desmentir os fatos, deixou de ver recessão, inclusive, nos Estados Unidos, onde a situação está preta, para anunciar crescimento interno de 4% do PIB em 2009, está tendo que voltar atrás. O contraste emergiu forte entre seu otimismo sem freio e as previsões da ONU e do Banco Mundial que prevêm avanço de somente 1,5% a 2% do PIB brasileiro no próximo ano.

As reações governamentais, na verdade, se baseiam em argumentos prospectivos, porque, na prática, em outubro e novembro, mesmo diante da catástrofe capitalista nos países ricos, a oferta e a demanda, no Brasil, continuaram fortes, sinalizando a possibilidade de crescimento do PIB de quase 5% este ano.

 

Cabeça a prêmio 

 

A comprovação desse clima satisfatório se expressou na pesquisa DataFolha, na sexta, 05, dando conta do enorme prestígio do presidente Lula: 70% dos entrevistados concordam que seu governo está na faixa de bom e ótimo. Avançou 6 pontos percentuais em relação à última pesquisa. O entusiasmo com o presidente se revelou espetacular no Nordeste, onde o percentual de ótimo e bom pula para 81%.

Não foi à toa que o chefe do governo decidiu acelerar a discussão da reforma tributária, em tramitação no Congresso, cujo teor favorece os estados nordestinos relativamente aos do sul e do sudeste, tema que, no entanto, foi para o próximo ano, dada a emergencial situação econômica deteriorada, colocando em cena, de forma intempestiva, a conjugação dos discursos críticos dos empresários e dos trabalhadores, em desespero.

Debaixo desse clima, a situação do presidente do Banco Central ficou complicada.

O titular do BC, ao que tudo indica, sentiu a barra. Durante a semana, circulando no Congresso e nas entidades empresariais, para sentir o clima geral de deterioração e de críticas fortes quanto à condução da política monetária, reconheceu o perigo que ronda a sua porta e se dispôs, para tanto, a encontrar-se, de agora em diante, com os congressistas, para avaliações periódicas do quadro nacional.

Sua posição caminha para a insustentabilidade lógica. Ao longo da semana, não apenas vieram ao ar notícias sobre a inflação em queda, que contrastram com os juros altos, mas, também, as que dão conta de ações de governos pelo mundo afora jogando o custo do dinheiro para baixo, a fim de salvar as economias de bancarrotas iminentes, em escala inusitada.

Se, na próxima quarta feita, na reunião do Copom, a direção do BC não se mexer para diminuir os juros, mantendo posição conservadora, Henrique Meirelles poderá balançar fortemente, com empresários, trabalhadores e congressistas pedindo sua cabeça.

Globo investe contra soberania sul-americana

 

O jornal O Globo em sua edição de domingo, 30, vai em cima do assunto calote sul-americano nacionalista venezuelano, boliviano, equatoriano e paraguaio que diz estar em marcha contra o Brasil.  Ao todo, são R$ 5 bilhões. É um negócio, a priori, dado. Em cima da pressuposição, projetam-se conclusões abstratas baseadas em fatos pretensamente concretos que ainda não aconteceram, mas tidos como se já acontecidos. Dissemina-se a versão, antes do fato emergir e gerar consequências normais que estariam abertas às ações políticas.

O fato não acontecido, mas tratado como se fosse algo palpável, gerando produtos políticos e econômicos aprioristicamente especulados com  gosto de guerra – eis a tática. Vem aí um calote de R$ 5 bilhões. Cria-se animus nacional contra o ataque emergente e na bica para acontecer. Uma beligerância calculada. 

O alvo não está aparente, mas latente. 

Os governos vizinhos do Brasil, sob ondas políticas nacionalistas, que crescem no rastro do estrondo neoliberal global, estão tendo um encontro com sua própria história, buscando, na investigação democrática, colocar os fatos na mesa, a fim de serem apreciados social, política e economicamente. 

Exercitam o que representa horror ao status quo, ou seja, a soberania nacional plena. Buscar tal alternativa é puro populismo. Os governos querem exercitar a soberania, investigando seu próprio calcanhar de Aquiles, suas dívidas e os interesses existentes, historicamente, em torno de sua formação, multiplicação e escravização econômica. Não pode de jeito nenhum.

Caminham, nessa direção, não porque queiram, mas porque estão sendo impulsionados por ondas de movimentos sociais, politicamente, organizados, em grau crescente em toda a América Latina, e não só.

Foram tais movimentos, por exemplo, que levaram à Casa Branca, pela primeira vez na história, um negro. Obama é fruto de politicas nascidas em núcleos sociais comunitários, que ganharam impulsão política extraordinária no contexto da tecnologia da informação na era do conhecimento. Milhares de núcleos comunitários espalhados por todos os Estados Unidos em favor dele fizeram a diferença. Emergiu, forte, o poder político comunitário digital. 

 

Novo poder sul-americano apavora poder midiático

A onda obamiana gerou sistema de financiamento de campanha à margem dos esquemas políticos institucionalizados, na base da corrupção etc. Criou-se nova ética. Movimento irresistível determinado pela ciência e tecnologia a serviço da comunidade que tende às investigações populistas, perigosas, assustadoras, para os credores, cujos abusos são patentes. 

A surpreendente entrevista de Roberto Troster, no Estadão, segunda, 01, demonstra essa evidência. Ex-economista chefe da Federação Brasileira de Bancos, Febraban, ele relata práticas de abusos dos credores no momento em que o país passa dificuldades, considerando absurdas as atuais taxas de juros vigentes no país. 

Anti-populismo, pensamento bancocrático, atacando o populismo, pensamento nacionalista, favorável às investigações necessárias para comprovar as acusações de quem conhece por dentro a prática dos abusos. Para tal anti-populismo a onda dos movimentos sociais anunciam tempestades em forma de auditagem de dívidas.

 

Emergência guevariana

Novo poder emergente, cuja base são movimentos sociais em expansão, como previu Guevara, está levando os governos sul-americanos nacionalista do Equador, da Venezuela, da Bolívia e do Paraguai para o mesmo caminho da mobilização populista-barackobamiana que apavora a grande mídia.

 Seria o mesmo populismo de outrora, com caciques políticos controlando de cima para baixo, ou outro populismo, já que a história não é estática, mas dinâmica e dialética?

O Eldorado glauberiano , com São Jorge do céu esporando o dragão da maldade contra o santo guerreiro em transe, está aí, nessa busca dos governos neonacionalista lançando-se à investigação sobre a relação Estado-banqueiros na era da oligopolização geral do capital.

Os governos vizinhos que já estão dando calote no Brasil, segundo o Globo, estão fazendo aquilo que Getúlio Vargas fez em 1931. Logo depois de assumir em cima do cavalo dos tenentistas golpistas para destronar governos velhorepublicanos, igualmente, golpistas, Getúlio apertou o pescoço das empresas multinacionais americanas distribuidoras de gasolina. O Departamento de Estado, segundo o historiador Moniz Bandeira, em “Presença dos Estados Unidos no Brasil”(2005, Civilização Brasileira, pag. 328), ouriçou e mobilizou o poder interno, isto é, a mídia, para preservar os interesses que vinham desde o Império, passando pela República Velha. 

Populismo puro tentar desalojar tais interesses.

 

Mina da corrupção exposta

Na investigação sobre os endividamentos públicos interno e externo dos governos está a mina da corrupção. Mexer nisso é populismo puro. Temem os investigados que sejam encontrados e expostos os mecanismos financeiros, traçados pelos interesses externos e internos, no contexto do poder nacional. Devidamente, acautelado por uma superestrutura jurídica que atua sob a influência do capital em sua dimensão máxima, especialmente, nos países de economia dependente, como são, historicamente, os da América do Sul. 

Ora, O Globo, assim como fez no tempo de Getúlio, quando  a nação iniciava busca de sua soberania, faz, nesse momento, com os governos sul-americanos de linha getulista, em suas tentativas de alcançarem a independência econômica nacional e sul-americana, pressuposto, fundamental, para a integração continental.

Mexer com a dívida, investigá-la? Satanás populista.

Marx destacou que a dívida externa é instrumento de dominação internacional. Incialmente, dinamiza; em seguida, com os juros, escraviza. Keynes, idem, ao ressaltar, na mesma linha, que a deterioração dos termos de troca, na relação entre países ricos e pobres, é dada pelo endividamento do país pobre na moeda do país rico, que cobra senhoriagem em forma de dividendos juramentados. 

Investigar essa forma de exploração é tentativa revanchista, populista. 

Os governos nacionalistas sul-americanos, nesse momento, se dispõem a pagar o preço para investigar esse assunto cabeludo, tendo em sua retaguarda o apoio e a cobrança simultânea da sociedade.

O Globo antecipa o calote e parte para o ataque, criando ambiente de controvérsias cujos resultados são os que desejam os eternos dominadores do continente, ou seja, manter os dominados divididos. A grande mídia, assim, está partindo para o mesmo procedimento adotado quando a  Igreja Católica e os partidos de esquerda, na Era FHC, se armaram para concretizar o plebiscito sobre a dívida nacional. Populismo inaceitável.

O tema foi totalmente implodido pelo poder midiático que atua como oligopolio sob impulsão das forças econômico-financeiras que bancam o próprio poder midiático. 

Escândalo: CPIs para investigar dívidas públicas, empreiteiras, bancos, os agentes que se misturam, para produzir as grandes obras, agrupados em interesses que se lançam ao governo tendo por caução os congressistas e suas emendas parlamentares que carreiam dinheiro público para os empreendimentos contratados? Nem pensar. Populismo, manifestação política de atraso.

 

Informação ou ficção?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A reportagem de O Globo que antecipa o calote de R$ 5 bilhões é menos informação e mais ficção. O calote, diz o lead da matéria, é o objetivo principal. Tal afirmação não é ancorada em nenhuma declaração de entrevistado de peso, amparada em fatos reais, expostos por evidências concretas, para gerar reportagens instigantes. O próprio embaixador brasileiro no Equador, semana passada, no Senado, descartou as categóricas informações midiáticas de efetivação de calote. Viu exagero no contexto.

Mas, indiscutivelmente, os calotes vão em frente, estão sendo preparados pelos governos paraguaio, boliviano, venezuelano, simplesmente, porque resolveram auditar dívidas nacionais. Populismo escandaloso.

Exercer a soberania nacional, do ponto de vista da grande mídia, seria declarar guerra. 

Representa para a grande mídia insuportável acinte o desejo de saber tudo sobre a dívida nacional. Certamente, viria ao ar tudo, numa grande investigação, inclusive, os intestinos do poder midiático, que, nessa crise de crédito, pode estar se deteriorando. 

Calote ou renegociação de compromissos?

Os governos sul-americanos, se depender da grande mídia,  estariam proibidos de ter encontro decisivo com seus credores. Isso é bom ou é ruim para a democracia? Implica calote, inevitável ou possíveis e prováveis negociações?

O mesmo ocorre relativamente aos super-endividados consumidores americanos frente aos bancos que esfolaram suas rendas na especulação que transformou seus ativos em pó e detonou a base da riqueza nacional, a capacidade do consumo interno via crédito direto ao consumidor. 

Se o dólar tinha por lastro, essa garantia e ela se perdeu, a sua ressurreição somente se daria pela negociação ou pelo perdão, pois, do contrário, o império cairia.

John MacCain perdeu a guerra, mas seu discurso está ganhando a paz. 

Durante a campanha , ele pregou perdão de dívida, o que os jornais sul-americanos, na linha do Globo, chamam de calote. Não mencionaram numa linha sequer o populismo maccainiano americano. 

 

John MacCain ganhou a paz

Adam Smith, o pai da economia clássica, o pregador das leis do mercado,  por saber que as contradiçõese do sistema levariam aos gargalos financeiros e às brutais concentrações autodestrutivas de renda, destacou que dívida pública, necessária para equilibrar oferta e demanda, a partir de gastos governamentais que complementam a insuficiência consumista privada,  não se paga, renegocia-se. 

MacCain, representante da velha e sábia direita financeira, sabia o que falava. Tocava direto na história americana. Em diversas ocasiões, no século 19, o governo americano deu o calote no mundo. 

Nixon, em 1971, ao desvindicular o dólar do seu lastro, o ouro, deixando o papel flutuar, deu tremendo beiço na praça. É uma prática histórica dos Estados Unidos. Característica que se acentuou diante da conquista do poder monetário global, que impõe senhoriagem geral a seu favor.

 No entanto, se os governos da América do Sul, que os comentaristas da grande imprensa chamam de subcontinente, entram pelo mesmo caminho, ou seja, se questionam diante dos seus credores, as suas práticas, os comportamentos dos antecessores que adotaram posições excessivamente laxistas diante da banca e dos procedimentos públicos no relacionamento com ela etc, a grande mídia entra em campo, feroz, esbravejando, antecipando, manchetando  desastres iminentes, a fim de criar um clima de confronto. 

Vem por aí pregações caloteiras ou negociações, acertos de contas, diplomaticamente, negociados? 

Barack Obama já está na de MacCain. Vamos continuar aceitando o juro alto depois que ex-diretor da Febraban reconhece que os banqueiros comentem abusos excessivos com a taxa de juro?

 

Obama convoca Adam Smith

Adam Smith já está em ação nos Estados Unidos. O excesso de dívidas das famílias americanas alavancadas pelo crediário em relação a sua renda real demonstra, como inúmeros comentaristas ressaltam, a implosão geral dos mecanismos de criação e transmissão da riqueza pela moeda e seu poder de gerar juros pela via do crediário. O desindividamento familiar tornou-se uma urgente necessidade econômica para o capitalismo americano. MacCain na cabeça.

Se essa estrutura entrou em crise total nos países capitalistas cêntricos, colocando em pé de guerra consumidores e credores, por que não ocorreria o mesmo fenômeno na relação de depedência financeira dos governos sul-americanos, no momento em que governos nacionalistas populares sobem ao poder, em nome da defesa da soberania nacional?

Não, não pode, é populismo.

O poder midiático não quer saber dessa discussão em profundidade. Não é do interesse de tal poder discutir por que uma obra, como a de San Francisco, no Equador, tocada pela Norberto Odebrecht, com recursos do BNDES, ou o túnel que virou cratera em São Paulo, também, tocado pela Odebrecht, acabaram custando o triplo do preço inicialmente contratado.

Por que?

Para dar essa resposta é preciso expor os interesses em jogo, na auditagem do processo de endividamento. Populismo inaceitável.

Conclusão: apelar para acusações populistas é a forma de aceitar, intrinseca e inconscientemente, a corrupção. Busca afastá-la com a acusação de um neologismo político histórico pretensamente decadente.

Querem dizer, então, que a corrupção é a modernidade?

Lula e mídia massacram Santa Catarina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Todos os méritos para os comentários sarcásticos e irônicos de Joelmir Beting, no Jornal da Band, na sexta, 28, ao levantar o absurdo e o massacre que o governo Lula, através da Caixa Econômica Federal(CEF), patrocina em Santa Catarina em plena catástrofe maior da história, penalizando , brutalmente, os catarinenses por intermédio de empréstimo-socorro(cruz credo) com juros de quase 2% ao mês.

Tremendo agiota sanguessugando as energias exauridas da população, que perde casas, filhos, comércio, indústrias, lavouras, estradas, pontes etc. Diante dessa barbaridade, Joelmir disse que não é hora para levar em consideração a contabilidade, mas a humanidade. Genial.

Os juros da Caixa escravizarão ainda mais o povo de Santa Catarina, que enfrenta momentos dramáticos, sob ajuda de todo o país, em campanha de doações, de norte a sul e de leste a oeste. Nesse ambiente de devastação, emerge o agiota governamental para impor ainda maiores sacrifícios.

O comentário de Joelmir mexe com os nervos, esquenta o sangue, agita a mente. Jornalismo de conteúdo. Trata-se de crime contra o interesse público, que merece profunda discussão popular. Transforma o telespector em agente e não em mero paciente da notícia.

O episódio dos juros da caixa para acabar de matar os flagelados das enchentes – juros-enchente – demonstra, pela sagacidade do repórter, a distância entre a burocracia e o povo. Aquela não está nem aí.

Os políticos de Santa Catarina até agora não pediram a cabeça da presidente da Caixa, que compromete a cabeça do presidente Lula em todo o país, em face de uma postura absurda com o dinheiro bancário estatal para sufocar quem já está sufocado.


Causas soterradas na falta de investigação jornalística

Os políticos catarinenses, provavelmente, não teriam fôlego para levantar grandes discussões sobre as razões reais do desastre e nem a imprensa está levantando essa discussão a fundo. Os jornais e revistas de final de semana demonstram a falta de apetite para as reportagens investigativas.

Talvez, porque mexeriam nos interesses que manipulam as obras públicas que tocaram a infra-estrutura urbana nas grandes cidades brasileiras e continuam ainda tocando em grande rítmo, agora, sob impulso do PAC.

As relações das classes políticas com os empreiteiros, por meio dos recursos que aquelas levantam no Congresso, para irrigar os empreendimentos urbanos desordenados do ponto de vista do interesse público e ordenados tão somente pelo interesse privado em busca dos lucros com investimentos da arrecadação tributária, jamais mereceram CPI, para valer, no Congresso.

Se tivesse que ir às raízes do porque da imprudência governamental em permitir planejamentos anti-urbanos morro acima, fragilizando a estrutura do solo da região de Itajai, cuja camada superficial, como informam os especialistas, é argilosa, a grande mídia tacaria fogo em paiol dos interesses das grandes imobiliárias e empreiteiras, estimuladoras dos políticos para levantarem as tão mal afamadas emendas parlamentares. Tudo em troca de dinheiro gordo para campanhas eleitorais. Caixa de marimbondo.

O solo afetado pela irracionalidade ocupacional,  cuidadosa com os interesses lucrativos e descuidadosa com os interesses sociais, permitiu infiltrações que, com o tempo, fragilizaram as bases das construções, para levá-las aos escombros diante de chuvas fortes e continuadas.

São tais obras, realizadas de forma desordenada, quanto ao planejamento, como tem denunciado o repórter Washinton Novaes, há anos, as que propiciam os desastres no médio e longo prazo e lucros altíssimos no curtíssimo prazo. Como este é o que interessa, fica valendo a observação cínica de Keynes, em obediência ao mero utilitarismo: “no médio e longo prazo, todos estarremos mortos”.

Se houvesse maiores investigações jornalísticas, o que não aconteceu, evidenciaria o óbio: o cruzamento dos interesses entraria em campo e o assunto poderia ser engavetado, como foi muitas vezes, não , apenas, a discussão sobre as relações entre empreiteiros , políticos e poder, mas, igualmente, políicos, poder e banqueiros, cujas ações conjugadas impediram, até hoje, ampla investigação do endividamento nacional durante a Nova República, dominada, depois da crise dos anos de 1980, pelo Consenso de Washington.


Essência escondida pela aparência terrificante

Os jornais e as revistas foram pródigos em mostrar as imagens e depoimentos dos flagelados, os pânicos populares, o desamparo em geral. Excelente cobertura visual.

Mas, por trás dos escombros, dos fatos que levaram ao horror, essencialmente, os fatos econômicos, que não são expressões neutras no processo, ficou faltando o esclarecimento da conjuntura que propiciou a emergência de tudo.

Nela, chafurdam os interesses escusos das relações setor produtivo-setor estatal na discussão e autorização de realização de obras públicas cujo conteúdo não visam o interesse público, como o desastre catarinense comprova à larga.

Os desastres urbanos atuais foram todos causados por negociatas em torno do dinheiro público para expandir exponencialmente os espaços urbanos tocados por grandes obras de engenharia que pouco se lixaram para os aspectos ambientais que, desdenhados, provocariam tragédias catarinenses de maior ou menor grau Brasil afora ao longo dos últimos anos.

Os exemplos são diários. Chega o tempo da chuva, repeteto de absurdos. As galerias pluviais nunca estão prontas para minimizar as enchentes, que, a cada ano, são mais destrutivas, por conta da insuficiência de competência capaz de gerar empreendimentos públicos eficientes e duradouros, adequados ao equilíbrio populacional, nunca levado em conta etc.

Os demandos dos poderosos que agem de forma umbilical com os governos na implementação das obras públicas para servir de instrumento de viabilidade para as demais atividades produtivas da sociedade não merecem a observação crítica nem da imprensa, em forma de jornalismo investigativo, nem dos políticos, principalmente, estes, que paparicam as grandes empresas para obterem financiamentos nas campanhas eleitorais.

A reação corporativa dos políticos avançam extra-fronteiras. Veja o caso da Norberto Odebrecht no Equador. A empresa brasileira está naquele país há 25 anos, realizando obras públicas e se inter-relacionando estreitamente com os governos neoliberais anteriores ao atual, algo semelhante ao que acontece no Brasil desde sempre.

O que fez a grande mídia diante da acusação de que a empresa patrocinava corrupção no país feita pelo presidente do Equador, Rafael Correa, que destronou a classe política com a qual a empresa brasileira negociava, umbilicalmente?

Ainda não saiu aquela grande reportagem investigativa, buscando as razões da acusação presidencial, nem um perfil geral da empresa e suas relações em cerca de 20 países, gerando orgulho nacional, pelo potencial empreendedor brasileiro no mundo, mas, também, produzindo controvérsias relacionadas às denúncias de corrupção levantadas. Os dois lados da questão têm que se evidenciar, caramba.

Não é preciso ir longe. Estão rolando investigações criminais contra a mesma empresa que está, igualmente, por trás do desastre ambiental causado, em São Paulo, por obra governamental que desabou, assim, como aconteceu no Equador, mas a opinião pública carece da investigação jornalística sobre o assunto.

Assim como o governador José Serra, de São Paulo, indignou-se e mandou a justiça investigar as causas do desastre que provocou prejuízos e mortes, da mesma forma, Rafael Correa, diante de desabamento de obra construída pela Norberto Odebrecht, com dinheiro do BNDES, mandou investigar.

Até o momento, passados mais de um ano, não se leu, ainda, aquela bela reportagem sobre o estouro do túnel em São Paulo, assim como o estouro da hidrelétrica de San Francisco, no Equador. Dinheiro público enterrado com os corpos de flagelados que não receberão indenizações.

Os políticos catarinenses apoiariam , no Congresso, CPI, para ir fundo no mais destruidor desastre ambiental da história brasileira?


Investigação ou descrédito

O que a imprensa, depois do brilhante comentário de Joelmir Beting, deve fazer é o jornalismo da verdade. Do contrário, ficará na manipulação de sempre, sem penetrar nas verdadeiras causas da devastação. Ou ocorre a competente investigação jornalística ou emerge o descrédito jornalístico.

As políticas públicas urbanísticas nas capitais brasileiras precisam ser profundamente investigadas. Não, apenas, a aparência, mas a essência. Isso, por exemplo, a Veja não fez na última edição.

Colocou na capa uma foto punjente da bela menina Luana Eger, de 3 anos, primeira ser levada pelas águas; descreveu competentemente o estrondo do encontro entre o anticiclone, em sentido anti-horário,  com o vórtice ciclônico, no sentido oposto, para dar o verniz técnico-científico do problema fatal; enumerou prejuízos, mais de R$ 1 bilhão; mencionou, de passagem ligeira, superficialmente, desorganização urbano-ambiental, mas não investigou as razões de tal desorganização, que induziu desordenadamente ocupação e destruição ambiental cujo resultado representa, agora, implosão de tudo.

Veja e Época ficaram na superficie das águas. Os atos políticos que levaram os governos a contratarem empresas para dinamizar espaços urbanos obedientes a uma orientação econômica anti-sustentável ambientalmente não foram devidamente investigados.

Os parlamentares catarinenses que formaram comissão especial para lutar por Santa Catarina caminhariam nesse sentido, como clamam os internautas, que interferem nas reportagens pouco investigativas, pedindo, clamando, mais fatos, mais evidências para permitir formação de opinião mais ampla?

Certamente, ficarão, como a grande imprensa, na superfície, para salvarem a pele: enumerarão, criteriosamente, os prejuízos, levantados pelas estatísticas do governo e das federações empresariais, do comércio, da agricultura e dos serviços, para pedir reparações oficiais.

Debaterão com a comunidade os desvios e desacertos das políticas públicas e dos investimentos governamentais em infra-estrutura, apoiados por eles,  por empresas e empreiteiras que levaram a situação conjuntural e estrutural urbana do vale do Itajaí ao desastre?

A mídia precisaria botar o assunto no cenário, para estimular opiniões. Fará isso?

Nos jornalões de domingo, nada. Nas revistas, noticiário fraco, perdendo de goleada para aquilo que a televisão deu à larga, mostrando ao vivo, tudo. A aparência emergiu, a essência, submergiu.

Eis a grande tragédia nacional de sempre, como diria Beting, sem humanidade, mas com muita contabilidade.