Supremo cinismo

 

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, praticamente, jogou na ilegalidade o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra(MST), na quarta, 25, ao condenar sua ação de agitar politicamente o campo, invadindo, tacando fogo e matando vigias armados dos proprietários expropriados em nome da reforma agrária, que o governo financia, bem como ao movimento social, subvencionando-o com dinheiro do contribuinte. Se está na ilegalidade, o MST se candidata a vestir a roupa das Forças Armadas da Colômbia(FARCs), especialmente, se pressões em favor da supressão do repasse de verbas ao movimento forem vitoriosas, no calor da campanha eleitoral. Na ilegalidade, suas ações guerrilheiras seriam taxadas de terroristas etc. O Estado cairia de pau, matando, como ocorreu na Colômbia, com natural apoio das forças externas , sempre favoráveis à abertura de uma cabeça de ponte na América do Sul, para evitar a integração econômica continental.

 
Gilmar levanta a bandeira do estado de direito e consequentemente o perfil desse estado que é fruto do violento antagonismo entre as classes sociais que se submetem a leis aprovadas para atender interesses historicamente privilegiados da classe dominante, como demonstra a história do capitalismo contemporâneo, especialmente, na periferia capitalista, onde predomina a barbarie social. O titular do Supremo demonstra a sua irritação diferenciada em relação às distintas caracterizações do que seriam rompimento do estado de direito. Comenta o crime que considera adequado denunciar, mas tem se calado relativamente a outros crimes até piores do que os praticados pelos Sem Terra sob o estado de direito.
 
Se , por um lado, está correta sua pregação contra os Sem Terra à luz do estado de direito que tem perfil de classe definido, por outro, deixa a desejar seu distanciamento relativamente calculado à permanente vigência do crime do colarinho branco praticado pelos bancos diariamente contra o contribuinte , mediante juro de 150% ano, verdadeira expropriação, tão mais destrutiva e ilegal que a expropriação dos Sem Terra.
 
Os brasileiros, graças aos juros reais mais altos do mundo praticados no Brasil, pagam R$ 200 bilhões por ano aos bancos, em forma de serviços sobre o endividamento nacional. Essa renda é garantida constitucionalmente. Privilégio total. O artigo 166 , parágrafo terceiro, ítem II, letra b, da Contituição de 1988 – articulado, na constituinte, pelo deputado do PMDB gaucho, Nelson Jobim, hoje minstro das Forças Armadas, segundo os professores da UnB, Adriano Benayon e Pedro Resende – , transforma em cláusula pétrea a proibilição de contingenciamentos orçamentários em cima do pagamento de juros aos bancos credores da dívida pública interna do Estado nacional. Faltar dinheiro para remédios, hospitais, estradas, escolas, etc, pode. Para pagar juros da dívida, nunca. Nenhum barulho do titular do STF sobre esse assunto. Aliás, quando conselheiro jurídico de alto coturno na Era FHC, abençoou a eliminação da proibição do tabelamento do juro anual em 12% na Constituição. Os neoliberais do Conselho de Washington aplaudiram.
 
Já, em relação aos subsídios do governo aos movimentos sociais em geral, que,  nos últimos sete anos alcançaram R$ 50 milhões, a casa cai em cima deles, pelas bombásticas declarações de Mendes que atua extrovertidamente fora dos autos. R$ 200 bilhões de pagamento de juros x R$ 50 milhões de pagamentos de subvenções aos excluídos do campo, transformados em guerrilheiros com dinheiro do contribuinte.  Desproporção brutal na comparação dos crimes. Gilmar ressalta um crime, mas tem se mantido calado quanto ao crime maior e mais prejudicial à saúde do povo brasileiro, escravo da República jurista. Dois pesos, duas medidas. Supremo cinismo.
 
 
Escalada da radicalização
 
As bases do MST já perceberam que a esquerda no governo Lula está no bolso do FAT e outras verbas, contribuindo para posicionamento ultra-conservador dela relativamente à reforma agrária. Os outroras esquerdistas radicais estão muito bem instalados na burocracia estatal e não querem saber de conversas relativas à reforma agrária. Estão na do desenvolvimentismo lulista, que dá sequência ao desenvolvimento militarista da década de 1970, que ampliou, junto com o desenvolvimentismo anterior juscelinista, as fronteiras nacionais mediante ampliação do agronegócio e sua consequênica social drástica em forma de expulsão do homem do campo transformando-o em Sem Terra. Trata-se, como diz o historiador Victor Leonardi, em “Entre Árvores e Esquecimentos”, de estudo profundo sobre a ocupação do Oeste e da Amazônica, de uma dialética de morte e progresso, como a história do Brasil como apagamento de rastros.A genese do radicalismo político dos sem terra tem, em Leonardi, a sua pedagogia antropológica, social, econômica e política, exposta com luminosidade didática de historiador avesso ao academicismo. 
 
A história do MST emerge como resultado do avanço do capital investidor nas ampliações das fronteiras nacionais nos anos de 1970 em diante, patrocinadas pelos governos militares ditatoriais, para dar sequência ao seu diagnóstico e prognóstico desenvolvimentista como melhor arma de combate à inflação. O ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli, do governo Geisel, ganhara , em 1976, a discussão dentro do governo sobre a melhor forma sustentar preços baratos para os alimentos: ampliar as fronteiras agrícolas, abrindo espaço ao agronegócio.As terras das regiões sul e sudeste, esgotadas, não suportariam mais a tarefa de produzir os alimentos para a população crescente nos centros urbanos em processo de industrialização.
 
Os micro e pequenos trabalhadores do campo, no Oeste e Norte, despovoados, seriam desalojados e o espsírito capitalista do avanço criariam no campo as mesmas tensões observadas na cidade, gerando riqueza e exclusão social, com consequente, expulsão da classe mais pobre de suas pequenas propriedades. A inflação foi combatida com a expansão da miséria social dos empreendedores de micro e pequeno porte rurais , jogados nas estradas pelos invasores de forma brutal. A história de massacre estão em várias obras cinematográficas, a mais recente delas, o filme “Juruna, o espírito da floresta”, de Armando Lacerda.
 
Gilmar Mendes levanta assunto explosivo que polariza os poderes republicanos, no momento, que o titular do Planalto considera totalmente incômodo. As tensões entre capital e trabalho no bojo da crise em ascensão dificultaria negociações entre as duas partes, tendo o governo como avalista, para lançar moeda em circulação, como alternativa de dinamizar o consumo, via ampliação do endividamento público. Os antagonismos levantados por Gilmar Mentes embaralha as movimentações políticas conservadoras para sustentar a economia e o Estado em crise de representação que se aprofunda no compasso da bancarrota financeira global.
 
Sobretudo, as declarações do titular do STF garantem campanha eleitoral quente em meio a grande crise mundial que abre espaços para temor e esperança ao governo Lula. Temor porque as exportações desabam e o mercado interno não tem renda suficiente para consumir todos os estoques, correndo risco de deflação e desemprego acelerado. Esperança, porque o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deu sinal verde ao agronegócio para produzir etanol no Brasil a ser consumido no mercado americano. Pode vir um boomm de investimentos americanos que não tem onde serem realizados nos países ricos. Faturariam na onda verde. O Centro-Oeste e Norte tenderiam a transformar-se em grande canavial, para abastecer os carros nos Estados Unidos. Haveriam grandes especulações com os preços das terras etc.  Nesse ambiente, a situação dos Sem Terra, completamente, irresolvida, seria agravada pelos interesses emergentes do agronegócio, bombado por Barack Obama. 
 
O posicionamento de Mendes coloca o titular do Planalto e os presidentes da Câmara e do Senado diante de potencial explosivo de discussão político-ideológica. Greves políticas, de agora em diante, com a bancarrota capitalista, podem voltar a ser moda. O debate que levanta Gilmar Mendes de ataque ao roubo e ao  crime praticados pelo MST, ergue, também, a questão do roubo do emprego pela crise, que vai engrossar as fileiras do MST.
 
Evidencia, claramente, o que o presidente do STF tem cuidado de esconder em suas declarações em prol do reformismo das instituições, em meio ao silêncio do Congresso conivente com status quo conservador, isto é, o caráter perverso do modelo de desenvolvimento que cria os antagonismos de classe que passam a não caber no critério de justiça estabelecido por um Estado com perfil de classe. Mendes, com suas declarações, traçou, dialeticamente, seu próprio perfil de classe.
 
 
 
Câncer da concentração da renda
 
O câncer MST coloca em primeiro plano na cena nacional o caráter essencial do modelo de desenvolvimento econômico, comandado pela internacionalmente falida oligarquia financeira especulativa, que cria as bases de ampliação do MST, como fruto da exclusão social.
 
Evidencia-se o óbvio: o modelo sequer integrou economicamente o país porque São Paulo, por exemplo, sempre resistiu à construção da ferrovia Norte-Sul, que permitiria escoamento das exportações das mercadorias produzidas regionalmente por portos do Norte e não mais do Sul, ganhando competitividade por conta de redução de custos. A inflação brasileira poderia estar  muito mais baixa, o custo de vida mais barato.
 
A burguesia industrial e financeira paulista se mostrou incapaz de promover a integração econômica porque as contradições internas do modelo que ela, com a ajuda da subvenção estatal eterna, construiu, não podem mais conviver com o avanço das forças produtivas regionais, desejosas de libertar do molde que favorece apenas São Paulo.
 
Pode ser que seja essa a grande contradição que impulsionaria a candidatura de Aécio Neves, governador de Minas, a sobrepor à de José Serra, de São Paulo, pelo PSDB, se o neto de Tancredo não cair no canto de sereia do senador José Sarney, para sair candidato pelo PMDB, seguno o senador Jarbas Vasconcelos, corrupto.
 
Essa questão não é analisada por Gilmar Mendes para ir na gênese dos verdadeiros crimes nacionais, localizados nas entranhas do modelo econômico concentrador de renda, que, na prática, destruiu o espírito federativo, refém do centralismo decorrente da governabilidade provisória, favorável à bancocracia. O negócio é só passar o chapéu nos ministérios com as benção da coalização governamental.
 
Em tal modelo econômico, o estado de direito, que Gilmar Mendes diz estar sendo rompido pelo MST, comprova ser expressão acabada do antagonismo social, que favorece a acumulação de renda de uma classe sobre outra, no contexto da distribuição espacial da riqueza nacional. 
 
A problemática geral do MST não está excluída, pelo contrário, é parte integrante das contradições antagônicas entre as classes sociais no campo, dominado pelo agronegócio, que dispensa mão de obra em troca da utilização tecnológica em ampla escala. Expulsos, de um lado, invadem, de outro. Qual é o legal? A expulsão ou a invasão?
 
Gilmar Mendes agiu mais como político do que como juíz em defesa do estado de direito, para forçar o MST a se transformar em FARCs. Na prática, colocou o pescoço do Supremo ao alcance de uma corda sobre o cadafalso, se a agitação política, no país, ganhar força, por conta das demissões de trabalhadores em meio à crise mundial, que o presidente Lula, inicialmente, considerou marolinha.
 
Tal marola inundaria a praça dos Três Poderes para questionar o verdadeiro caráter das leis, em sua pretensa neutralidade relativamente a uma classe, a que manda, e em sua incontida arrogância quanto à outra classe, a que é, historicamente, explorada, sob amparo do estado de direito. Dá razão a Marx que considera o Estado produto acabado do antagonismo de classe. Gilmar mostra a classe a que pertence.
 
 

Solidariedade e amor

O Governo Lula doou a Cuba 19 mil toneladas de arroz para enfrentar os graves problemas causados pela passagem de três furacões que devastaram a ilha em outubro passado, o Ike, o Gustav e o Hannah. Uma expressão de solidariedade deste porte não pode passar sem merecer reflexões amplas, especialmente num momento em que o mundo registra principalmente é movimentação de armas. Enquanto Brasil doa arroz, os EUA seguem com o contínuo abastecimento de armas para Israel.

O carregamento de arroz  –  o equivalente a  718 caminhões   – saiu do porto gaúcho de Rio Grande no dia 10 de Fevereiro e está por aportar em Havana por estes dias, levado por 3 navios cedidos pela Espanha, que, com isto, também participa desta operação de solidariedade a Cuba.

Os furacões também arrasaram o Haiti e Honduras, países que também receberão doações brasileiras, logo a seguir. Houve escassa divulgação sobre esta doação do governo brasileiro, apenas discretos registros na imprensa do sul,  mas, no total ela representará 44,4 mil toneladas de arroz. Além disso, serão enviadas aos três países, em um terceiro carregamento ainda sem data prevista, 1.105 toneladas de leite em pó e 4,5 toneladas de sementes de frutas, verduras e legumes, produzidos pela agricultura familiar.

                           

Fidel:  como um ataque nuclear

 

Segundo o Itamaraty , somente no Haiti, as tempestades deixaram pelo menos 800 mortos e 800 mil desabrigados. Em Cuba, foram sete mortes e perdas calculadas em US$ 10 bilhões, com meio milhão de casas danificadas ou destruídas e centenas de milhares de hectares de plantações arrasados. O ex-líder cubano Fidel Castro chegou a comparar as imagens de destruição na ilha às que testemunhou na cidade japonesa de Hiroshima após a detonação da bomba nuclear.

É aqui exatamente onde se faz mais necessária uma reflexão bem atenta sobre o significado desta ajuda, retirada dos estoques públicos geridos pela Companhia Brasileira de Abastecimento e que conta com expressiva produção de responsabilidade da agricultura familiar.

Os jornalistas que acompanham há mais tempo as passagens constantes de furacões sobre o Caribe, podem observar uma diferença sobre o comportamento da sociedade cubana, de sua defesa civil, a unitária e disciplinada mobilização de seu povo. Com toda a lamentável destruição que ocorre, sobretudo em habitações, na agricultura e também no setor elétrico, é possível verificar que o caráter socialista da sociedade cubana permite sim minimização das perdas humanas. Pode-se alegar que em se tratando de furacões é difícil comparar as perdas cubanas,  as 7 mortes em Cuba, com os mais de 800 que morreram no Haiti, país que vive um crise humanitária, uma tragédia social densa, além de estar sob a presença de Tropas da ONU, cuja permanência foi solicitada pelo presidente René Preval logo após sua eleição com expressivo apoio popular, superior a 73 por cento dos votos.

O que vale registrar é que em Cuba, diante da ameaça de uma catástrofe natural, todos os instrumentos do estado e da sociedade se mobilizam de modo integrado, sobretudo os meios de comunicação, atuando em sintonia completa com a Defesa Civil, com o intuito de salvar vidas.  Lá não há mídia privada que não pode suspender sua programação para difundir diretrizes de evacuação de regiões que serão mais afetadas pelos furacões. Aqui só mudam a programação para explorar o sensacionalismo mórbido como na tragédia da adolescente Eloá, sempre na linha do vale-tudo pela audiência. Quem manda na programação é o departamento comercial. Em Cuba não há mídia privada, salvar vidas é obrigação, é a pauta fundamental.

Assim, com este esforço unitário que inclui órgãos do Estado, as Forças Armadas Revolucionárias, a Defesa Civil, os sindicatos, os meios de comunicação, os Comitês de Defesa da Revolução, o sistema de saúde,  é possível em poucas horas evacuar contingentes de um milhão e meio de cubanos. Só isto já é uma façanha, pois estamos falando de mais de 10 por cento da população cubana aproximadamente, que hoje alcança pouco mais de 11 milhões de habitantes. Imaginemos o esforço que deveria ser feito, a magnitude da logística requerida se necessário fosse evacuar, em poucas horas, diante de uma ameaça climática, a 10 por cento do povo brasileiro, ou seja, algo como 19 milhões de seres humanos. Sabemos que sequer conseguimos resolver a contento ainda operações muito mais simples como a da documentação dos cidadãos, a do registro das crianças recém-nascidas, estamos sendo obrigados a dispensar boa parte dos recrutas pela impossibilidade de oferecer-lhe a refeição adequada nos quartéis.

 

 Jornalismo de desintegração

Sim, o Brasil ainda não resolveu muitos problemas de séculos atrás, como diz o próprio presidente Lula, mas foi capaz de ter a sensibilidade social de  enviar 19 mil toneladas de solidariedade para a Cuba que tanto merece amor. Seria necessário divulgar muito mais o que está ocorrendo de fato junto com o envio dessas toneladas de arroz-solidário. Era até mesmo necessário que a TV Brasil estivesse nos navios espanhóis que fazem o transporte para contar esta história de integração que caminha, mas que nem é compreendida adequadamente, seja porque a comunicação não opera, seja porque há a atuação do jornalismo da desintegração. Refiro-me aquela certa mídia que afirma que integração é pura retórica itamarateca.

Antes das 19 mil toneladas de arroz solidário, já haviam ido para a Ilha rebelde o braço da Embrapa, da Petrobrás. Multiplicam-se os acordos de cooperação, os volumes de comércio, os laços culturais. Há quem não queira ver.

 

Sangue brasileiro em solo cubano

Mas, entre Cuba e Brasil os laços de solidariedade   –  ternura entre os povos   –  são muito mais antigos, sempre mal divulgados. Lutaram no Exército de Libertação Nacional de José Marti dois brasileiros, dois cariocas. Essas 19 mil toneladas de arroz aportam em solo irrigado pelo sangue de dois brasileiros que atenderam ao chamado revolucionário de Marti para a luta de libertação de Nuestra América. Solo fértil. Lá ficaram, junto com José Marti, também abatido em combate. Já havíamos doado sangue ao povo cubano.

Em outros momentos, brasileiros e cubanos também estiveram de alguma forma juntos, como, por exemplo, na luta de libertação de Angola. Trezentos e cinqüenta mil cidadãos cubanos, homens e mulheres, incluindo a filha do Che, tomaram em armas e foram para Angola lutar contra o exército sul-africano que invadia a terra do poeta Agostinho Neto, que pessoalmente solicitou ajuda a Fidel Castro. A sanguinária democracia dos EUA apoiando o exército do Apartheid de um lado e Cuba lutando ombro a ombro com os angolanos do outro. O Movimento Negro brasileiro não mandou uma aspirina em solidariedade aos angolanos. Na Batalha de Cuito Cuanavale, 1988, os nazis do apartheid da África do Sul foram  finalmente derrotados, levando Mandela a declarar: “ a Batalha de Cuito Cuanavale foi o começo do fim do Apartheid!!!” O Brasil tinha sido o primeiro país a reconhecer a independência da República Popular de Angola, o que levou Henry Kissinger, então secretário de estado dos EUA, a vir ao Brasil para reclamar de Ernesto Geisel , afirmando que o Brasil estava fazendo o jogo dos comunistas, estava junto com Cuba, etc. Geisel respondeu apenas: “a política externa brasileira não está em discussão com o senhor!” Houve um tempo em que chanceleres brasileiros tiravam o sapato diante de ordens desaforadas de qualquer guardinha de alfândega….

                                 

Furando bloqueios

Hoje o Brasil envia 19 mil toneladas de arroz para Cuba e dá uma banana para a tal lei Helms-Burton, fura o bloqueio com solidariedade, para lá envia a Embrapa e a Petrobrás. Com o apoio da Espanha de Zapatero. Antes, a Espanha de Aznar, mandava tropas para o Iraque, operava no Golpe de Abril de 2002 contra Chávez…

 

Por quem merece amor….

Solidariedade não se discute a quem, mas esta é matéria que Cuba pode dar aulas de sobra. Existem hoje profissionais de saúde cubanos em mais de 70 país. Apenas na Venezuela trabalham 23 mil médicos cubanos. No Timor Leste também encontram-se 350  médicos cubanos em missão de solidariedade. O presidente timorense, o jornalista e poeta Ramos-Horta, contou-me que o Embaixador dos EUA tentou pressionar para que Timor rejeitasse a ajuda cubana. Ramos, com a sabedoria humilde dos timorenses, apenas perguntou ao embaixador norte-americano quantos médicos seu país havia enviado para aquela ilha que antes foi um Vietnã Silencioso, dado seu heroísmo e dignidade, escondidos de modo vil pela mídia controlada pela indústria bélica e pela ditadura petroleira internacionais. O gringo vestiu a carapuça. Há mais médicos e professores cubanos em todos os continentes do que profissionais de todos os países ricos de idêntica especialização , somados. Mas, se a continha fosse de soldados……..

A Venezuela já foi declarada pela Unesco “Território Livre de Analfabetismo”, e lá estavam os professores e pedagogos cubanos para assegurar esta conquista. Ser livre é ser culto, diz Marti. Da mesma maneira, quando em dezembro último a mesma Unesco  –  mais acostumada nos últimos tempos a contabilizar a devastação da educação pública no mundo   –   declarou oficialmente a Bolívia como “Território Livre do Analfabetismo”, lá estavam os professores cubanos, com o seu método de alfabetização “Yo si puedo”,  prestando sua solidariedade para tirar o povo boliviano das trevas da ignorância neoliberal.

 

Doando médicos, professores, pedagodia

Aliás, este método de alfabetização também foi adaptado por pedagogos cubanos para aplicação via rádio no Haiti, em dialeto creole. A observação é simples: um país que já extirpou a praga do analfabetismo há mais de 48 anos coloca agora seus profissionais a serviço de outros povos buscando soluções para problemas sociais que já não existem mais ali entre cubanos. De certo modo, lá no Haiti brasileiros e cubanos também encontram-se novamente juntos. Seus esforços de algum modo coordenam-se favoravelmente. A integração se dá.  Os 500 médicos cubanos que estão no Haiti são, na prática, a espinha dorsal do que resta do serviço de saúde pública daquele país em colapso e o Batalhão de Engenharia do Exército Brasileiro lá está a construir fossas, pavimentar ruas e estradas, obras de saneamento. O tema é provoca polêmicas, inclusive por vários movimentos sociais, mesmo assim é central considerar declaração do Comandante Fidel Castro em 2006: “eu prefiro tropas brasileiras do que mariners dos EUA no Haiti. Revelando a com quê concepção geopolítica, portanto com quê visão estratégica ampla  avalia a questão.

 Do mesmo modo, cabe registrar que este mesmo método de alfabetização cubano  está sendo adaptado e aplicado entre indígenas na nova Zelândia e em inúmeros  Assentamentos da Reforma Agrária do MST aqui no Brasil sempre combinando o uso do livro e da televisão, incluindo a participação, no caso brasileiro, de alguns artistas de telenovela, igualmente solidários com os mais necessitados.

                  

Cuba, Katrina  e Tusinami

O desastre do furacão Katrina nos Eua foi duplo: a catástrofe natural ceifou muitas vidas, mas foi agravada pela catástrofe da criminosa negligência dos administradores públicos que deixaram a população de Nova Orleans no deus-dará e dizendo-lhes apenas, “virem-se”. Quê diferença da mobilização disciplinada para evacuação de milhões de cidadãos em Cuba em poucas horas!!! Citemos os números: em Cuba, mais de 500 mil residências destruídas, porém, apenas 7 mortes. Uma vida perdida é sempre uma vida perdia, mas o aqui o valor da consciência, da solidariedade, do sentimento coletivo é o eixo central pois nestas evacuações, os médicos de família acompanham seus pacientes, cuidando inclusive que os animais domésticos também sejam evacuados coordenadamente, especialmente pelo efeito emocional positivo que têm sobre as crianças. É o modo como uma sociedade socialista trata seus animais. A solidariedade , por meio de políticas públicas, chega até estes.

Cuba imediatamente ofereceu aos EUA um total de 1200 médicos para cuidar da população flagelada pelo Katrina, ajuda prontamente rejeitada pelo então presidente Bush, mais preocupado em enviar soldados para o Iraque que em receber médicos cubanos. Como é possível que a poucas horas da passagem devastadora do furacão em Nova Orleans haja a oferta de 1200 médicos prontos para embarcar para os EUA? Já estão sempre preparados para ajudar outros povos! E como é possível que o país mais rico do mundo não tenha tido a capacidade, até hoje, de reconstruir o que foi destruído pelo furacão, deixando patente, sobretudo, o desprezo pelas populações negras que perderam suas casas, seus móveis etc.?

Eis aí um aspecto que diferencia fundamentalmente as sociedades: algumas são capazes de cuidar dos seus, mas também  cuidar dos mais necessitados,  mesmo que estejam em outro país, a civilizada capacidade de oferecer solidariedade. Por isso, é também importante registrar que a Venezuela continua doando para as populações pobres dos EUA óleo combustível a ser usado para a calefação neste período de frio. Sim, é comum a morte por frio entre os pobres nos EUA. E  lembrando que em Cuba encontram-se hoje 500 jovens dos EUA,  pobres e  negros  moradores do Harlen, a estudar gratuitamente na Escola Latino-Americana de Medicina.

 

Até os elefantes se salvaram…

Da mesma forma que no Katrina, também no Tsunami também ficou demonstrado o desprezo pelo salvamento de vidas. Quando os aparelhos eletrônicos dos EUA detectaram os tremores no fundo do mar, imediatamente foi possível calcular seus possíveis efeitos, o maremoto arrasador. Tanto é assim que rapidamente as embaixadas dos EUA na região foram orientadas sobre o que poderia vir. As aeronaves da base naval norte-americana da Ilha de Diego Garcia foram colocadas em área protegida. Sabia-se o que estava por vir em algumas horas. Horas suficientes para serem utilizadas na informação preventiva, mobilizadora, para organizar um operação de evacuação gigantesca. Tanto é que elefantes que percebem os tremores subterrâneos captaram a mensagem da natureza e fugiram para lugar seguro. Os elefantes escaparam!

 Mas, a magnífica parafernália de comunicação hoje em mãos da humanidade para integrar bancos, bolsas de valores, esquadras navais, satélites, internet, para operações com capitais especulativos, não foi usada para salvar vidas! Se fosse um colapso bancário, em segundos todos os países do mundo estariam informados. Mas, era um maremoto que estava se formando a partir das súbitas mudanças das placas tectônicas no fundo do mar, não era mudança de capital. Havia o espaço de tempo necessário para salvar vidas se todos os meios de comunicação, os satélites, as rádios e televisões, trabalhassem com o sentido humanitário, com o espírito de missão pública, com a consciência de que se pode sim salvar vidas, como se faz em Cuba quando vêm chegando os furacões. A tecnologia, sem consciência solidária, de nada vale quando se trata de salvar vidas, apenas isto.

Assim, aprendamos todos com esta página de solidariedade que está sendo escrita agora pelo Brasil, coerente com uma política de integração, que precisa ainda desenhar-se, expandir-se, superar os que do lado de lá patrocinam não apenas o jornalismo de desintegração, mas a própria desintegração latino-americana. Com a crise do capitalismo mundial, temos uma avenida. Militares brasileiros da Aeronautica participaram de operações de salvamento de flagelados quando das devastadoras inundações na Bolívia há alguns meses. Participaram também, recentemente, indicados pelas Farc, mas com a concordância do governo da Colômbia, da operação de resgate humanitário dos reféns coordenada pela Cruz Vermelha nas selvas do país vizinho. São algumas ações apenas, mas apontam um caminho com a criação da Universidade da Integração Latino-Americana, em Foz do Iguaçu aponta. Mas, esta página tem muitos antecedentes, sobretudo inúmeras páginas nobres que Cuba já escreveu na história da solidariedade internacional dividindo generosamente seus escassos meios com outros povos mais necessitados.

Assim, o arroz solidário brasileiro vai para quem merece amor, como na canção de Silvio Rodriguez.

Colapso do Estado burguês

                                                                           
O avanço da estatização financeira nos Estados Unidos, na Europa, no Brasil e por toda a parte , para evitar a bancarrota total da burguesia financeira, exprime a falência do Estado burguês, tal como construído pela história moderna, ou seja, como instrumento de dominação de classe, a mais rica explorando a mais pobre mediante fraseologia político-ideológica parlamentarista, presidencialista, monárquico representativa etc, conforme teorizaram Marx e Engels no Manifesto Comunista, em 1847.
A superestrutura jurídico-econômico-ideológica que compõe o perfil do Estado burguês, como aparato para servir de instrumento do poder da burguesia, no comando estatal, entrou em ebulição porque os parâmetros burgueses que a norteavam entraram em choque com a falência financeira burguesa.
Se a financeirização econômica global era a expressão total e absoluta do poder econômico e politico da burguesia financeira, com a implosão da financeirização comandada pelo Estado burguês, implode, igualmente, o Estado burguês.
Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, ao partir para a estatização disfarçada, detona a burguesia financeira americana. O Banco Central dos Estados Unidos, criado em 1913, ganha nova conceituação. Antes, os bancos privados cuidavam do Banco Central como emissor de moeda, ficando o tesouro responsável pela emissão de títulos do governo. Com a falência da burguesia financeira americana, inverte-se os papéis e concentra-se a atividade estatal.
O governo não apenas emite papéis a serem comprados pelos bancos privados, que comandam o BC, emissor monetário; passa, também, a emitir moeda sob controle do tesouro e não da banca privada que comanda historicamente o BC .  O conceito de Banco Central independente vai ficando para trás porque o BC deixa de ser expressão da banca privada, para ser do tesouro, que, essencialmente, espelho de interesse público. Sob domínio da banca privada, o BC independente era a melhor coisa do mundo, ao desregulamentar geral. Foi tão bom que explodiu tudo.

A previsão do artista

Configura-se a previsão de Jack London em “Tacão de ferro”, de que o capitalismo caminharia para o oligopolio privado total, ameaçador dos destinos da comunicadade, produzindo, no entanto, o seu contrário, o oligopólio financeiro estatal que engoliria aquele em nome do interesse público.
O presidente Lula, no Brasil, está nessa, jogando com as finanças públicas, tendo como lastro a riqueza nacional, que já atrai montadoras japonesas, para transformar o Brasil em plataforma de exportação. Se aqui está a matéria prima, se aqui tem o petróleo, verde e negro, se tem indústria de base, mercado consumidor, terra abundante que dá três safras anuais, biodiversidade infinita, por que não instalar aqui, em vez de importar para fabricar no Japão? Ganharia o frete e o custo geral de produzir mais competitivamente.
Se os japoneses estão vendo a vantagem comparativa dada pelas riquezas nacionais que são lastros reais, por que não emitir títulos para vender na praça global como base para financiar o desenvolvimento nacional,  tendo como lastro as riquezas que atraem os japoneses e continuarão atraindo outros capitalistas, visto que na Europa e nos Estados Unidos as expectativas para a produção competitiva, em meio à falência bancária deflacionária, são sombrias?
Nesse novo contexto, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, já se adianta na pregação de uma refundação do capitalismo. Refundar significa reconstruir. Reconstruir o que foi destruído. Os líderes internacionais já falam abertamente que o capitalismo faliu na Europa e nos Estados Unidos, sob o império da burguesia. O Estado burguês, com sua solução neoliberal, some do mapa. O que sobra é o Estado em si, construído pela burguesia, mas tomando providências para desencarnar-se dela. Por que continuaria com propósitos burgueses, se faliu a burguesia financeira que se sustentava dele, Estado burguês? O serviçal da burguesia pode se transformar em carrasco da burguesia.

Funeral de Bretton Woods

A próxima reunião do Grupo dos 20, em abril, em Londres, deverá ser o funeral do Acordo de Bretton Woods. Assinado em 1944, para vigorar no pós-guerra, sob dominio do dólar, no comando de nova divisão internacional do trabalho, Bretton Woods deixa de vigorar porque o capitalismo sob o dólar reclama urgente refundação dada falência explícita. Não interessaria mais aos Estados Unidos continuar bancando via dívida uma superestrutra econômica que faliu. O dólar desapareceria. Impõe-se o multilateralismo econômico global cujo desfecho poderá ser novas moedas expressando nova correlação de forças econômicas e políticas globais.
O Estado, nesse novo ambiente, não seria tradução de luta de classe em que a burguesia oprime a classe assalariada alienada mediante parlamentarismo. Se a burguesia deixa de ser expressão financeira, porque financeiramente faliu, falida tenderia a ser também sua representação política em rítmo de bancarrota financeira.
O sistema financeiro, que dava as cartas ao Estado burguês, comprando os partidos no parlamento via caixa dois, ao entrar em bancarrota, subordinando-se, com alívio, à estatização financeira inevitável, perde poder relativo, na medida em que o oposto contraditório da situação de prvilégio aos bancos emerge dialeticamente em forma de força política social.
Sarkozy expressa a velha sabedoria dos socialistas franceses aderentes à burguesia e à classe trabalhadora ao mesmo tempo, em tentativa permanente de equilíbrio. Como tal equilibrio se rompeu, negativamente, para o capital financeiro, que se esvai em sangue, insolvente, clamando socorro estatal, o Estado burguês, em processo de total desequilíbrio, deixa, contraditoriamente, de ser serviçal exclusivo da burguesia.
A representação parlamentar do Estado burguês, com a base de sua sustentação financeira falida, ou seja, os grandes bancos insolventes que compravam os títulos públicos do governo, passa a ser impelida a uma nova postura, que poderia ser movimento favorável ao avanço da democracia participativa, dentro do espírito da Comuna de Paris, em que nas assembleias, os eleitos pelo voto popular legislam e executam, ao mesmo tempo.

Neo escravidão jurista

A reforma político eleitoral que o presidente Lula mandou ao Congresso para tentar remover os velhos hábitos dos crimes políticos eleitorais, abrindo-se a uma nova moralidade, pode ser bastante insuficiente para o caldo grosso das reivindicações políticas que a crise financeira global desata em forma de transformações políticas globais.
O acanhamento político lulista é a demonstração de que o presidente encontra-se ainda prisioneiro das determinações do Estado burguês dominando pela financeirização econômica ainda vigente no Brasil por meio da maior taxa de juro real do mundo.
O presidente Lula ainda não aprendeu a conhecer a sua própria força, como fez valer, na terça-feira, 24, o presidente Barack Obama, ao falar ao povo americano que chegou ao fim uma era em que o Estado(burguês) era colocado a serviços de grupos de privilegiados de especuladores e falsificadores das verbas públicas em compras sem licitações no fomento das guerras.
No Brasil, o poder burguês, expresso no juro alto, de um lado, e no salário mínimo miserável de R$ 450 rreais, de outro, continua em meio a um Congresso tagarela que não resolve nada, porque sem nada resolver preserva o Estado burguês da periferia, enquanto o poder burguês, nos países capitalistas centricos, estão indo para o espaço.
Será repetida mais uma vez a história da escravidão, em que o Brasil foi o último a decretar a libertação dos escravos. O novo Estado, que sai da crise, joga os trastes burgueses no mar, porque os burgueses , com sua ideologia utilitarista, faliram. Neo-escravidão jurista.
 
Reforma ou revolução?
 
Entra em cena a velha discussão ideológica. Por um lado, os marxistas consideram o Estado resultado da luta de classes, em que a mais rica cria o aparato estatal, com exército, burocracia e parlamento burguês como expressão do poder da burguesia, seja sob parlamentarismo, presidencialismo ou monarquia parlamentar. Por outro, para os revisionistas, o Estado(burguês) seria expressão do equilíbrio entre as classes, distribuindo ônus e bônus conforme determina a lei votada nos parlamentos organizados pela ideologia burguesa, no berço da revolução francesa.  Quem tem razão à luz da história?
Os antagonismo de classes não são negados nem por marxistas nem por social-democratas , mas sua superação  mereceria tratamentos distintos por uma parte e outra. Se a classe burguesa financeira tivesse se saído bem da grande crise atual, continuarria dando as cartas ao Estado. Como não se deu, por que seriam mantidas as soluções financeiras burguesas, se elas levaram o capitalismo financeiro ao colapso?
Obediente ao princípio da utilidade, segundo o qual “tudo que é útil é verdadeiro, se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”(Keynes), a burguesia financeira, no novo contexto do seu próprio desastre, deixa de ser útil, tornando-se descartável, inútil. Cairia de um só golpe, pela violência, ou seria sua queda amortecida pelo sistema parlamentarista, no qual as classes trabalhadoras ganhariam mais participação no poder nacional?
Marx e Engels teorizaram o Estado Operário em cima dos ensinamentos da Comuna de Paris, em 1871. Como cientistas sociais, separaram os elementos e analisaram-nos a partir das decisões dos comunardos, vitoriosos, pela violência, ante o estado burguês napoleônico. Instalaram uma assembléia “não parlamentar, mas trabalhadora”, ao mesmo tempo legislativa e executiva. Quebram a estrutura do estado montado para explorar os trabalhadores, simplesmente, porque os trabalhadores, via Comuna, não precisam de um aparato para explorarem a si próprios. O Estado ficou barato.

Lenisnismo ou kautskismo?

A pedagogia dos comunardos foi classificada por Marx e Engels que concluiram o óbvio: se o Estado é a expressão da exploração de uma classe rica sobre a classe explorada e se a classe explorada chega ao poder, o Estado torna-se desnecessário, porque desnecessária se torna a exploração do povo pelo Estado burguês que se transforma em Estado operário. A ditadura do proletariado nasce dessa pesquisa empírica executada por Marx e Engels, no compasso das resoluções políticas dos comunardos.
O Estado operário derruba o Estado burguês, via assembléia parlamentar e executiva, e, imediatamente, começa a definhar-se, porque se não há necessidade de aparato estatal para explorar os operários, tal aparato perde, com o tempo, utilidade, em meio ao nascimento da nova sociedade, saída dos flancos da velha sociedade. Os revisionistas, segundo Lenin, em O Estado e a Revolução,  jamais toparam ir fundo na análise marxista da relação Revolução-Estado. Jogaram sempre o assunto para frente, empurrando-o com a barriga.
Qual parlamento do mundo será contra o avanço estatal em nome do interesse público como forma de proteção das riquezas sociais ameçadas pela falência da burguesia financeira que até agora controlou o poder estatal sintonizado com os interesses burgueses?
A burguesia, nesse contexto, vai ser derrubada pelo proletariado, violentamente, como prognosticou Lênin, seguindo os passos de Marx, que vivera e teorizara o Estado proletário sob a Comuna de Paris,  em 1871, quando cunhou o termo ditadura do proletariado , apropriado pelos bolcheviques em 1917, sob os sovietes, como repetição dos comunards? 
Ou os parlamentos burgueses, diante da falência da burguesia, acelerariam reformas que superariam o caráter meramente representativo do poder parlamentar burguês, para ganhar perfil mais popular, como preconizou K. Kaustski, confrontando Lênin?
Sarkozy, pregando refundação do capitalismo, seria um neo-kaustyskista, para evitar emergência neo-leninista? Ou em meio à crise capitalista faltam os líderes necessários para pregar a palavra de ordem revolucionária?

Nacionalização da Embraer e criação da Aerobrás

Não faz muito tempo, em uma de suas viagens pela América do Sul, o presidente Lula mencionou a possibilidade de que o Estado brasileiro viesse a criar uma empresa  aérea regional, caso os empresários não se dispusessem a tal empreitada. Segundo explicou, esta empresa aérea regional seria necessária para dar acompanhamento, suporte, servir de continuidade lógica do processo de integração econômica  em curso na América Latina, aliás, conforme inscrito no preâmbulo da Constituição Cidadã, como ocorre também nas demais cartas constitucionais dos países da Unasul.

 Pois agora o colapso financeiro do capitalismo central reclama  gestos ainda mais arrojados: a demissão de 20 por cento dos trabalhadores da Embraer vem mostrar a quem ainda não havia percebido o lado mais trágico da privatização. Pode-se imaginar quanta dor há em tantos lares de bairros operários hoje? Quantas crises familiares terão sido esgarçadas? Quantos trabalhadores não estarão agora com problemas de saúde agravados? Quantos não se desesperarão para o álcool ou a depressão?   Quanto isto agrava as tensões sociais, a violência juvenil, as estatísticas de homicídio e  a selvageria na sociedade em geral?

 A privatização da Embraer, feita com recursos do BNDES, recursos dos próprios trabalhadores, entregou uma empresa criada com recursos nacionais, com poupança nacional, para um projeto sem sentido, vulnerável à oscilação das tão elogiadas economias do Primeiro Mundo, agora se revelando com o Pior dos Mundos. O mercado externo se retrai e a Embraer lança mão da guilhotina, como se pudesse não dar satisfações, como se não tivesse compromissos a cumprir com os interesses nacionais e , dentre estes, o mais precioso é o povo trabalhador, que não pode ser sacrificado em razão de uma privatização que se revela criminosa do ponto de vista sócio-econômico.

 Qual a saída?  Os acionistas originários    o povo brasileiro   – merecem respeito. Todo o esforço de décadas para a construção de uma indústria aeronáutica no país de Santos Dumont não pode simplesmente resultar numa verdadeira delinqüência social, em razão do colapso financeiro nos EUA que está longe de ter solução. Afinal, a delinqüência financeira permitida, tolerada, este cassino monetário, ainda tem 600 trilhões de capitais especulativos circulando artificialmente pelo mundo. O pacote do Obama é de apenas 1 trilhão.  Ou seja, a quebradeira está longe de acabar.

 

 A história ensina

 

Entretanto, se  abrirmos os olhos para as lições que História oferece é possível sim perceber que há saídas, desde que haja arrojo para rupturas com estes laços de subordinação e esmagamento às economias em degringolada geral. Márcio Pochmann, em artigo no Valor Econômico, argumenta sobre a necessidade de um novo estado. Sim, foi assim que lá atrás, na década de 30, aquela crise serviu de alavanca para uma nova formatação de estado. Nacionalização do sub-solo, criação do Instituto do Açúcar e do Álcool para abrir a etapa da energia da biomassa que avança pelo mundo, mais tarde a Vale do Rio Doce, também construída com os recursos dos acionistas originários (Povo Brasileiro), depois a Siderúrgica Nacional, a Petrobrás,  a necessária criação de direitos trabalhistas tirando o povo pobre da senzala do emprego-zero,  o ensino público e gratuito e obrigatório. Era toda uma nova plataforma de país. O país arrancou. Sua arrancada foi interrompida em 1945 pela enganosa idéia da alternância do poder, na qual Dutra, eleito por Vargas com uma frase pronunciada entre um chimarrão e uma charutada, traiu clamorosamente tudo o que vinha sendo construído, entregando o país novamente à vassalagem colonial. Vargas volta pelo voto em 1950, voto que pedia a continuidade da plataforma nacionalista iniciada pela Revolução de 1930, quando o povo se levantou de armas nas mãos. Não dos porões escuros da repressão do Estado Novo, mas daquela etapa que dentro do processo contraditório vivido pelo país, via nascer também  a Rádio Nacional e a Rádio Mauá, a Emissora do Trabalhador, o Instituto Nacional do Cinema, o do Livro, o do Teatro. Aquele programa econômico permitiu ao Brasil organizar uma das economias que mais cresceu em décadas sucessivas, ciclo interrompido em 1980. Segundo cálculos do professor Márcio Pochmann, se o programa econômico da Era Vargas tivesse se mantido……… hoje o Brasil seria a terceira maior economia do mundo. As ordens coloniais para destruir a Era Vargas foram muito claras.

 Agora, os 4 mil trabalhadores demitidos da Embraer são um vigoroso chamado à consciência nacional, ao governo Lula, aos sindicatos, aos pensadores, aos militares nacionalistas que se empenharam na levantar aquela indústria aeronáutica, não para vê-la retroceder em favor das concorrentes internacionais de países que lançam mão de modo descarado da impressão      já não é emissão    impressão de papel pintado, moeda falsa, sem lastro, que os países que têm lastro em riqueza física são obrigados a engolir. Este desemprego em massa é um basta!

 A re-nacionalização da Embraer, com a  apuração de responsabilidades sobre o porquê, como e quem fez este crime de lesa-pátria da privataria é medida que torna-se obrigatória e só um presidente como Lula, com 84 por cento de apoio popular , como antes teve Vargas, possui a possibilidade histórica e política de adotar, convocando os brasileiros para sustentar perante o mundo tal gesto de soberania. Os bolivianos não apoiaram a Evo Morales na recuperação da soberania nacional sobre as riquezas minerais? Hoje a Bolívia sai das trevas neoliberais, começa a comer e já foi declarada pela Unesco “Território Livre do Analfabetismo”.

 

 Integração

 

Junto com esta medida é indispensável que o presidente concretize a idéia que anunciou em encontro com presidentes da Unasul: uma empresa nacional de aviação, aliás, revendo a injustificável e insustentável falência da Varig. Como se pode entender que na era das comunicações, da globalização econômica, um país do porte do Brasil não tenha sua própria empresa aérea??? A Argentina acaba de recuperar a Aerolíneas Argentinas, esquartejada no entreguismo carnal de Menen. E a Venezuela também recém  recriou a Empresa Aérea Nacional, a antiga Viasa, falida na tragédia neoliberal agora é a Aeroven.

                                        

Se não há mercado externo      e pelo tamanho e profundidade da crise nos países centrais do capitalismo, tão cedo haverá      é preciso criar mercado interno e mercado regional.  O Brasil precisa ter sua própria empresa aérea nacional para vôos internos e internacionais. Quanto mais avancemos de fato na integração econômica, quanto mais progrida a Unasul, mais possibilidades e demandas haverá para o escoamento da produção de uma nova Embraer nacionalizada e redimensionada para as peculiaridades de um mercado de cidades de grande e médio porte, para vôos regionais, e também para as conexões sul-americanas, latino-americanas e com a África, sem a obrigação de pagar pedágio em aeroportos dos EUA e por uma empresa norte-americana, aliás, sustentada por moeda sem lastro.

 

   Aerobrás

 

Se o BNDES, alavanca fundamental criada na Era Vargas,  tem feito aporte de capitais para uma Embraer que destina sua produção ao exterior, também pode fazê-lo mas para recuperar o controle acionário para o Estado, consolidando a presença da Aeronáutica  neste mecanismo de protagonismo,  de um novo estado que precisa ser desenhado. E pode também financiar encomendas de aviões da Embraer para a Venezuela, a Bolívia, a Argentina, para o Irã, para Angola,  além de criar através da empresa nacional de aviação uma possibilidade de acesso das camadas populares ao transporte aéreo, sobretudo na Amazônia, onde a cada ano centenas e centenas de brasileiros pobres são tragados pelas águas traiçoeiras de uma navegação insegura, precária, muitas vezes delinqüente.

 Aprofundando a linha já adotada pelo governo Lula de fortalecimento do sistema financeiro público, dos mecanismos de financiamento da produção, da construção de obras públicas em grande escala, de elevação dos salários e dos valores de todos os programas sociais e benefícios, haverá  um mercado interno mais robusto, portanto a criação de escala necessária, socialmente justificada, para uma empresa aérea nacional capaz de absorver a produção de uma Embraer novamente controlada pelos acionistas originários, o povo brasileiro. Para isto é indispensável  que sejam criados mecanismos de participação dos trabalhadores na gestão desta nova Embraer, dotando-a de transparência, evitando esta guinada trágica para milhares de famílias de seus operários demitidos. De um dia para o outro a empresa cantada em loas como produtiva, rentável, exemplar, moderna, primeiro mundista mostra toda sua cruel fragilidade, sua selvageria laboral, numa guinada que seguramente poderia ter sido percebida com antecipação, evitada com medidas preventivas, o seria no mínimo obrigatório para empresa com forte sustentação de recursos do BNDES, recursos dos próprios trabalhadores, do FAT,  agora usados para o seu sacrifício.

 A alternativa está na nossa própria história. Um novo tipo de estado, a recuperação das empresas estratégicas, a consolidação de uma nova plataforma que permita ao Brasil distanciar-se cada vez mais da instabilidade monetária delinqüente do chamado primeiro mundo aloprado, das vacas-loucas e dos papéis pintados. Cada vez mais distante da cartilha neoliberal, com protagonismo de estado, com a formatação de um estado de novo tipo é que encontraremos o caminho soberano e autônomo para sair da crise, crescendo quanto mais crescerem os países da América do Sul. O chamado primeiro mundo é exatamente o pior exemplo. A alternativa está no sul, o nosso norte é o sul.

 

Lula acelera peronismo protecionista

Os inteligentes argentinos perceberam antes da oposição brasileira que a decisão de Lula de enfrentar a crise elevando agressivamente os gastos públicos como sustentação da demanda global coloca o Brasil, rico em matérias primas e base industrial sólida, como potencia econômica incontestável na América do Sul. Daí se disporem ao protecionismo peronista nacionalista como defesa frente a um país em que o governo joga a força estatal para bancar a produção e o consumo, subsidiando todo mundo.

A indústria argentina, naturalmente, não aguenta. Nem as estruturas industriais sul americanas , incapazes de suportar a concorrência com o Brasil, cuja capacidade de investimento, nos últimos cinco anos de bonança capitalista global, fortaleceu modernização industrial. Os investimentos em bens de capital estavam, até o estouro da crise, em outubro de 2008, crescendo 17% ao ano. Nessa batida modernizadora, a indústria nacional ganharia fácil o mercado sul-americana, em processo de integração em marcha, ao longo dos próximos dez anos.

A praça argentina hoje é dominada pelos produtos industriais brasileiros. A indústria do país vizinho maior importador da manufatura verde-amarela simplesmente não existe. Houve uma inversão relativa entre Brasil e Argentina no processo de industrialização sob as ditaduras militares, nos anos de 1970-80. No Brasil, os ditadores jogaram no nacionalismo econômico. Os Planos Nacionais de Desenvolvimento(PNDs) dos militares são os mesmos que ancoram o PAC lulista. Na Argentina, os militares se vestiram de Chicago boys, seguindo Pinochet, no Chile. Adotaram a prática econômica ultra-neoliberal. Destruiram a indústria portenha, como se fosse produto do comunismo soviético.

 

Destruição militarista

 Os militares argentinos foram realmente muito burros. O nacionalismo de Geisel versus o entreguismo neoliberal de Videla compuseram, na relação Brasil-Argentina um compartativo favorável aos brasileiros. A indústria de base argentina foi destruída pela ditadura militar quando a indústria de base brasileira era sustentada pelos militares, alavancando grandes obras para construção representação política militar expressa no Brasil Potência.

O ministro Mário Henrique Simonsen, em 1972, previu que no ano 2.000 o Brasil estaria cheio de problemas macroeconômicos, mas estaria montado numa infra-estrutura industrial que teria valor político estratégico na ampliação do mercado sul americano para os empresários brasileiros. Lula, na crise, bomba a indústria de estímulos que estão sendo enxergados pelos argentinos como fator descompensatório para os interesses da Argentina.

Na medida em que o Brasil, mediante política macroeconômica keynesiana anticíclica, bombeia de crédito subsidiado a produção nacional como arma de proteção contra os abalos produzidos pela crise americana, os argentinos vêem esse bombeamento como arma mortífera para a economia portenha. A Argentina é um elo mais fraco da cadeia capitalista periférica sul-americana do que o Brasil, porque o seu parque industrial foi destruido pelo militarismo argentino neoliberal, oposto ao militarismo brasileiro nacionalista.

Os militares brasileiros ergueram uma infra-estrutura industrial nos anos de 1970-80, cujo percurso, nos últimos 24 anos de Nova República, foi submetido ao neoliberalismo do Consenso de Washington, para tirar dinheiro da periferia,capaz de salvar o dólar dos excessos de deficits. Eterno sanguessuguismo do capalismo cêntrico sobre o capitalismo periférico. O neo-nacionalismo lulista, agora, impulsionado pela própria crise que coloca novas responsabilidades sobre o Estado nacional, torna-se, dessa forma, um peso insuportável para os argentinos, candidatos à desindustrialização acelerada.

 A longa reunião realizada entre as autoridades econômicas e diplomáticas brasileiras e argentinas, em Brasília, na terça, 17, representou um momento de estresse na relação entre os dois países dada pela crise mundial. Os interesses da infra-estrutura produtiva e ocupacional brasileira, caracterizada por base industrial competitiva, cujos interesses se encontram estreitamente relacionados com o capital externo, entraram em duro choque com os interesses da infra-estrutura produtiva e ocupacional argentina, estruturalmente, fragilizada. Os sócios externos dos capitais comerciais fortes argentinos passaram a ser os próprios brasileiros ou argentinos investidores no Brasil.

 

Moeda sul-americana, urgente

A interatividade econômica Brasil-Argentina colocou o comércio exterior brasileiro dependente dessa relação, quanto mais estiverem obstaculizados os canais americanos e europeus, paralisados pela recessão na Europa e nos Estados Unidos. Não interessa para nenhumdos lados, mas as contradições dos interesses no interior do modelo econômico colocam indústria e comércio argentinos em choque entre si relativamente ao Brasil. O comércio argentino prega a integração. A indústria, a separação. Dificilmente será possível a vitória de um lado sobre o outro , sem que ambos se desabem. Daí dispor de chances de crescer a proposta de nova moeda sul-americana para mediar as relações comercinais na América do Sul. Haveria compensações recíprocas na intermediação monetária integracionista capaz de remover os desbalanços provocados pelas oscilações cambiais sob domínio do dólar cuja sáude tende a ser contestada quando mais a recessão mundial se aprofunda. Argentinos e brasileiros estão condenados a marcharem juntos.

Possível conflito comercial mais agressivo entre Brasil e Argentina, no contexto da crise global, é caixão. Trata-se do mais perigoso obstáculo levantado pela nova conjuntura à integração sul-americana. Haveria tendência de agressividade comercial. O peronismo protecionista nacionalista tenta resgatar o militarismo entreguista que desbalanceou estruturalmente a relação Brasil-Argentina.

Para os argentinos, o inferno é Lula, nesse momento, jogando, agressivamente, para inveja da oposição, nas providências para a enfrentar a crise, sobretudo, pressionando os bancos estatais a sairem em bloco oligopolizado para bombear o crédito à produção e ao consumo obstaculizado pelo juro praticado pelo oligopólio financeiro privado. O titular do Planalto tenta erguer o oligopólio financeiro estatal para ombrear com o oligopólio financeiro privado, enquanto os argentinos traduzem essa luta interna brasileira como ameaça total à estabilidade econômica portenha. Perigo político de morte para Cristina Kirchnet.