Latinos ensaiam resistência aos EUA

 

O fato histórico fundamental da reunião da Cúpula da América do Sul e do Caribe foi o consenso de que as duas regiões têm que atuar sem  precisar  pedir licença aos países desenvolvidos, que, na crise global, não podem mais dar as cartas como antigamente. Especialmente, aos Estados Unidos, que, desde o lançamento da Doutrina Monroe, em 1823, interfere, sistematicamente, no destino sul-americano e caribenho. Tal doutrina, inicialmente, orientada para garantia as Américas para os americanos, acabou se transformando nas Américas para, tão somente, os americanos do norte. Passaram a disputar espaço imperial com Europa, para sacar as riquezas continentais que sustentam, historicamente, a taxa de lucro ascendente do capital americano e europeu.

O histórico consenso sul-americano e caribenho, articulado pelo Itamarati, para abrir a Cuba o seio da comunidade latino-americana, superando sua segregação vigente há cinco décadas pelo poder imperial de Tio Sam, cria o ambiente para o pacto social tanto no plano continental, como, igualmente, no interior de cada país integrante da América do Sul e do Caribe, em meio à crise global, como forma de minimizar seus efeitos destrutivos e preparar sua superação via cooperação econômica. Marco histórico da reunião dos líderes na reunião na Costa de Sauípe, na Bahia. Fortalece mecanismo regional de deciões e abre-se portas para o socialismo, no rastro da derrapada capitalista. Saravá.

No plano interno, nacional, se o presidente Lula não promover pacto social já, dificilmente, conseguirá manter governabilidade, daqui prá frente, quando as categorias sociais antagônicas se lançam umas contra as outras em face da emergência do desemprego antevisto pelas previsões altamente pessimistas divulgadas pela Confederação Nacional da Indústria, na quarta, 16.12.

Já, já, os governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, levantarão a bandeira do pacto social, se o titular do Planalto bobear.

A perda do emprego coloca o trabalhador na total radicalidade política. Passam por cima das lideranças político-sindicais conservadoras.

Os empresários não estão vendo outro jeito de sustentar a atividade, em face da escassez do crédito. Ameaçam com demissões. O mesmo ocorre na América do Sul, onde os governos gastam, mas o juro alto permanece engordando os bancos e ameaçando o sistema econômico.

Os trabalhadores , completamente, apavorados, porque as lideranças sindicais atuais desaprenderam de fazer política, ao longo da Nova República neoliberal, fenômeno internacional, inquietam-se, extraordinariamente. Temem ir para o olho da rua.

 

Redução dos salários. E os juros?

Nesse ambiente, cresce não o desejo do aumento de salário, mas do emprego preservado. O Correio Braziliense, por exemplo, como protesta em nota o Sindicato dos Jornalistas do DF, despediu, essa semana, 81 trabalhadores. Os jornalistas estão na corda bamba.

A situação é preta para todos os lados. Na Europa, idem. Desempregos em pencas, povo já indo para as ruas, agitando sociólogos e cientistas políticos, estimulados a verem novos fenômenos políticos radicais em ação prospectiva, para testar a democracia.

Aceita-se a redução temporária dos salários, desde que se contine trabalhando. É o que vira moda. Empobrecimento coletivo. Salve-se quem puder. Na América do Sul e Caribe, idem. Todos no mesmo barco.

A impossibilidade de a produção se realizar no consumo bloqueda pela suspensão do crédito direto ao consumidor desmonta o sistema econômico e os desempregos explodem.

O pânico entre trabalhadores e empresários está formado.

O governo , prisioneiro do seu próprio endividamento, cujo financiamento dispara na crise, com os juros altos, está tomando medidas tópicas, sem um plano geral. Tenta pairar sobre as classes sociais, jogando de um lado a outro.

De um, socorre os ricos: os empresários levam desonerações fiscais, para bancar taxa de lucro cadente afetada pelos juros que bloqueiam investimentos. De outro, lança âncora para a classe média: cala boca mediante redução de alíquota do imposto de renda.

Na outra ponta, os assalariados em geral se apavoram com as notícias terríveis desencadeadas pela recessão. Reanimação geral do sindicalismo. Desperta-se, assustado, para uma nova realidade para a qual não estava preparado.

Só quem ganha nesse jogo são os bancos grandes oligopolizados. Negam-se a cooperar com o governo , salvando-se bancos pequenos encalacrados, e só oferecem crédito caro. Já cobram 18% para rolar a dívida, como a analista contábil, especialista em dívida pública, Maria Lúcia Fattorelli Carneiro, da Secretaria da Receita Federal. Ou seja, 5 pontos percentuais acima da taxa b ásica de juros, selic, considerada a mais alta do mundo. Armadilha para o massacre.

 

Miseráveis entram na dança

Junto com os bancos, é bem verdade, ganham, igualmente, os miseráveis, que dispõem do cartão de crédito do programa bolsa família, no qual o governo coloca poder de compra para sustentar o consumo interno.

São oito milhões de famílias que abrangem um universo de 50 milhões de pessoas. O presidente Lula havia prometido ampliar para 12 milhões. Vale dizer, perto de 70 milhões de esfomeados. Se chegar aos 15 milhões de cartões de crédito, caso a necessidade, imposta pela crise, determine, serão quase 140 milhões de beneficiados.

O terceiro mandato presidencial ficaria irresistível. Estaria garantida barriga cheia que impede proliferação de assaltos e roubos, pavor da classe média. Fidel Castro aprendeu que não se faz revolução de barriga cheia.

Na crise, essas categorias sociais – empresários, trabalhadores, desempregados, miseráveis etc – , tendentes a ficarem amplamente antagonizadas, em seus respectivos interesses, transformam-se em estopins políticos altamente explosivos.

Caso não haja uma articulação organizada desses interesses, todos, indistintamente, envolvidos em um mesmo vendaval, o da terrível deflação, que destroi capital e trabalho, velozmente, tornando-se o verdadeiro pavor do sistema capitalista, o governo pode perder o controle da situação.

Um plano de ação articulado consensualmente pelo pacto político social torna-se, no embalo das expectativas pessimistas, imperativo categórico.

A voz do governo, sobreposta às classes sociais em conflito relativo, representa soberania do Estado, único ente capaz de ajuizar acordos amplos. Caso contrário, a vaca pode ir pru brejo.

 

Buraco profundo

O buraco é mais embaixo. Barack Obama está, simplesmente, apavorado. Reconheceu que os instrumentos disponíveis pela economia capitalista, nessa hora, estão perdendo efeito.

Como exercitar o pacto social, somente com o discurso econômico?

Os juros a zero por cento, ou seja, a completa eutánasia do rentista, caso típico de deflações, transforma-se num elástico que perdeu total elasticidade. Vai, mas não volta. Lassidão,  areia movediça sobre a qual afundam as expec tativas do capital e do trabalho.

Os interesses dos trabalhadores, dos empresários, dos bancos, dos governos estaduais e do governo federal estão, simultaneamente, no mesmo barco com pesos relativos desproporcionalmente divididos, sem abrir espaço a possivel homogeneidade.

O momento requer ampla discussão, característica de pacto político na base do desespero, enquanto ainda tem tempo, para criar, quem sabe, novo paradigma.

Os modelos fracassaram. Como destacou muito bem o economista Carlos Eduardo Carvalho, em “A intervenção estatal na crise e o chamado neoliberalismo”, Valor Econômico, 11.12, as elites intelectuais, políticas e financeiras sabem  que esta produção acadêmica de suas universidades não serve para nada nos momentos em que é necessário tomar decisões com grande grau de incerteza.

A realidade capitalista em crise é um livro aberto que não será escrito por modelos pré-estabelecidos norteadores da cabeça da grande mídia e do pensamento alienado que a crise expõe cruel e sarcasticamente.

O peso da política é que determinará o processo. O resto é conv ersa fiada. Se o governo, os empresários, os trabalhadores e os políticos ficarem fiando nas previsões econômicas, cumprirão um destino pré-estabelecido. Burro.

 

Política, a arma superior

A politica, sendo a arte superior da humandidade, como disse Sócrates, tem que, necessariamente, entrar em campo. Se não, pinta, sem dúvida, novos hitleres, novos mussolinis, novos stalins, novos francos, novos getúlios, com o discurso salvacionista de botar ordem na casa, na base do nacionalismo radical. A massa poderia aplaudir.

A inelasticidade do sistema para sair do buraco, por meio do juro baixo, que tenta, inutilmente, fugir da deflação, por meio da inflação, demonstra, simplesmente, que perdeu utilidade a inflação keynesiana, que o mundo pratica, escondendo ela, dialeticamente, atrás da dívida pública interna, desde os anos de 1930 em diante, para tirá-lo do crash de 1929.

Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”(1980, Campus), com prefácio de Edmar Bacha,  e em “A crise completa – economia política do não”(Boitempo, 2002), explica, didaticamene, o processo, seguindo os passos de Marx.

A deflação é a expressão final da contradição entre o desenvolvimento exponencial das forças produtivas, de um lado, e o das relações sociais da produção, sob capitalismo, de outro, gerando, simultaneamente, sobreacumulação e subconsumismo, especulação e queda geral de preços, jogando a taxa de lucro no chão.

Esse é o momento vivido pela Europa e Estados Unidos, que cumprem, do ponto de vista marxista de desenvolvimento do capitalismo, as condições necessárias para a superação da contradição fundamental do capital, que abre espaço a outras alternativas.

Lenin destaca que nada mais desorganiza a sociedade e a predispõe, consequentemente, à radicalização política do que a deflação que produz intensas desorganizações monetárias.

Nesse contexto, que o líder soviético favorável à emergência irresistível do socialismo, emerge o Estado, para salvar a produção e o consumo em colapso, salpicado por tremendos casos de corrupção do sistema, como evidencia o sensacional golpe financeiro de Bernard Madoff.

A reunião de Salvador, dos líderes sul-americanos, que dispõem da riqueza abundante de matérias primas das quais dependem a manufatura mundial em colapso, demonstrou o caminho a seguir: a integração e a valorização das riquezas sulamericanas, que precisam, mediante segurança sulamericana, lastrear, concretamente, a moeda sulamericana. Urgente.

A busca da união continental é ensinamento político clássico que deve nortear o presidente Lula, internamente, para o consenso via pacto político, no compasso da destruição acelerada dos empregos.

Sapatada no unilateralismo imperial

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A sapatada do jornalista iraquiano Al-Zaidi, da TV Baghdadiya, no presidente dos Estados Unidos, W. Bush, acompanhada de um indignado grito, “Cachorro!”, representou, simbolicamente, pá de cal na política unilateralista dos Estados Unidos nas suas relações globais, a partir da queda do Muro de Berlim, em 1989.

A invasão do Iraque, 20 de março de 2003, expressou o poder máximo multilateral americano. A ONU posicionou contra. Os países europeus em geral bradaram. Somente, a Inglaterra, os eternos primos, o Canadá e Austrália,  entraram na parada, ao lado dos soldados de Tio Sam.

Massacres. Destruição do poder de Saddam e colocação de títeres políticos americanos no lugar. Domínio imperial sobre o petróleo do Iraque, razão maior, latente, oculta, inconsciente freudiano, dos ataques, realizados para combater suposta geoestratégia política saddam-husseiniana, ancorada em falsas acusações de produção nuclear.

 

Símbolo de resistência

Os Estados Unidos davam prosseguimento à escalada contra terroristas, iniciada depois da destruição das torres gemeas, em 11 de setembro, que levaram os americanos a invadirem em 7 de outubro de 2001 o Afeganistão sob argumento de perseguição a Bin Laden, comandante dos ataques terroristas nos Estados Unidos, algo ainda não suficientemente provado.

À revelia de apelos mundiais, resistência da ONU etc, Washington, sob ordens de Bush, determinou a guerra, e milhares de soldados americanos entraram no Iraque com bilhões de dólares, colocando, unilateralmente, em prática as armas bélicas e espaciais, para dinamizar a indústria de guerra, base de sustentação do capitalismo americano desde a segunda guerra mundial.

A pretexto de buscarem no Iraque os amigos de Bin Ladem, caçados, selvagemente, no Afeganistão, com a expulsão dos talibãs do poder, as tropas de Tio Sam , em território iraquiano, criam caldo capaz de colocar instável em doses, ainda mais elevadas, a tensão guerreira no Oriente Médio.

Afastava-se para as calendas o esforço de paz na região, enquanto se multiplicava o seu contrário, isto é, o esforço de guerra e, consequentemente, a felicidade da indústria armamentista, cuja estratégia unilateralista guerreira passou a predominar como produto acabado do fim da história, a partir da queda do Muro de Berlim, que extinguira a União Soviética.

Ou seja, fim da hipótese do socialismo e confirmação da eternização do capitalismo neoliberal, sob o comando de Washington, expressavam o suprassumo da nova realidade global.

 

A economia da catástrofe

 

 

 

 

 

 

 

 

A economia mundial, nesse período, vai, então preparar o terreno para as grandes jogadas especulativas que passariam a sustentar o desenvolvimento da produção e do consumo no compasso da formação de bolhas de crédito, para bancar setores produtivos, inchando suas cotações bursáteis até à implosão, quando, então, buscava-se iniciar novos ciclos em novos setores, e assim por diante.

Era a nova face da financeirização econômica global. A produção, em si, deixara de ser suficiente para dinamizar a reprodução ampliada do capital, que se descola rumo à especulação como alternativa de sobrevivência. A riqueza produzida na moeda especulativa se transforma no reino de midas capitalista nos países desenvolvidos, embalados pela desregulamentação geral do mercado financeiro, impulsionando-o à formação da renda fictícia, para agitar o consumismo global.

A festa bursátil ganhou dimensão em diversas direções, sinalizando economia capitalista da catástrofe. A mais recente e altamente explosiva, como se pode verificar, agora, foi a que incrementou o mercado imobiliário. Os planos de vendas e os seus respectivos produtos financeiros destinados a arregimentar clientes em escala mundial contaram com o laxismo geral dos bancos centrais no sentido de desregulamentar adoidado.

Os derivativos dolarizados que ancoraram os lançamentos imobiliários foram vendidos na Europa e na Ásia, sem contar os Estados Unidos, em escala inimaginável. Repetiu-se a crise de 1903-1911, gerada pelos empréstimos para construção de ferrovias, financiadas por governos mediante empréstimos ingleses. O padrão de financiamento, a partir de determinado ponto, implodiu diante da excessiva oferta de trilhos de ferro que dariam para dar quatro voltas em torno da terra, segundo Tugan Baranowiski. O mesmo que ocorre agora relativamente ao númeo de imóveis financiados pelos derivativos especulativos. Naquela ocasião, fraquejou a libra esterlina , abrindo espaço para o dólar. Agora, fraqueja o dólar, abrindo espaço para novo modelo monetário, como já se começa a discutir.

 

Novo discurso mais humilde

Como inúmeros analistas  previram, o limite da irresponsabilidade seria alcançado no segundo semestre de 2007. A partir daí, acelerou-se a derrocada economico-financeira, apoiada na arrogância unilateralista americana, culminando, em 15 de setembro de 2008, com a implosão bancária, expressa na falência do banco Lehman Brother, espalhando pânico geral.

A prepotência geoestratégica americana, com a sustentação de guerras expressivas, no Iraque e no Afeganistão, em nome do combate ao terrorismo, que introduziu cultura do medo nos Estados Unidos, a justificar suspensão da ordem legal, começou a dar sinais de esgotamento, no rítmo da derrocada neoliberal.

O colapso se aprofundou e o poder americano do dólar, agora, se encontra ameaçado. Os aliados europeus e asiáticos, que estão cheios de títulos da dívida pública americana e de dólares, cuja solidez balança, diante da ampliação, sem limites do déficit americano, para bancar a recessão/depressão econômica,  buscam novas saídas. Estas, pelo que indicam o andar da carruagem, destinam-se à construção de nova estrutura financeira mundial.

 

Tiro certeiro na arrogância 

Os árabes, que perdem nas relações de troca entre o valorizado euro, que paga as importações árabes, e o desvalorizado dólar, que cota os preços do petróleo, desejam construir sua própria moeda. Os asiáticos, da mesma forma, temem bancarrota monumental. Encharcados de dólares e títulos de Tio Sam, reuniram-se, na úlima semana, para buscar nova arquitetua financeira. Buscam fugir de prejuízos.

Nesse cenário, sinaliza fragilidade crescente o unilateralismo americano em um mundo que clama por nova ordem no desfecho da crise financeira dos Esados Unidos.

Barack Obama, que, preocupadíssmo, tenta vender imagem nova de austeridade, solicitando, inclusive, que sua festa da posse seja bastante modesta, para não dar sensação de desperdício de dinheiro, não gostaria, naturalmente, de seguir o destino de W. Bush, ou seja, de continuar levando sapatadas mundo afora. É o que pode acontecer, se seguir pensamento unilateral.

Certamente, essa não é sua jogada, visto que a senadora Hillary Clitton, por ele indicada secretária de Estado, acena com multilateralismo, embora sua presença no cargo possa significar força dos interesses de guerra.

O símbolo da sapatada , que ganha apoio imediato da população iraquiana, está sendo, psicologicamente, aplaudido, no plano global, como começo de um novo tempo. Multilateral, no compasso da bancarrota americana e européia.

Inflação subterrânea impõe controle cambial

 

A inflação está deixando de crescer para cima, para crescer para baixo. Inflação subterrânea. Os preços, apesar da pressão inflacionária advinda da corrida contra o real, que o Banco Central não consegue conter,  permanecem no lugar ou em queda relativa, como demonstraram os números da última semana de novembro e início de dezembro, mas, em compensação, o governo banca a estabilidade dos preços, garantindo desonerações e renuncias fiscais, para compensar desvalorização cambial e queda dos lucros das empresas decorrentes da desaceleração interna e da exportações. Tal jogo de equilíbrio precário representaria a razão pela qual a partir de janeiro o BC poderia, inventando uma teoria de ocasião, iniciar a redução dos juros, porque a inflação aparente estaria sob controle, enquanto a latente e oculta, estaria crescendo. O positivo é mostrado e o negativo escondido. Mas, a negatividade, que é, segundo Hegel, a verdade, emergiria, mais cedo ou mais tarde, dialeticamente. Seria essa nova inflação falsificada suficiente para conter a taxa de juros, ou o governo, sem outra saída, poderia partir para uma heterodoxia na política cambial?
Avança, portanto, outro tipo de inflação, a inflação de subsolo. Latente e ocultamente ela se desesnvolve, pela ação governamental, com as desonerações fiscais e tributárias, para incrementar, principalmente, a indústria automobilísticas, que se encontra com pátios lotados, especialmente, dos carros populares, sinalizando deflação, se nada for feito. Tal jogada implica em subsídio cujo pagador é o tesouro nacional em forma de emissão, substituída pelo eufemismo semântico de “injeção” monetária. Uma armação, como se o Banco Central tivesse um cofre de dinheiro do qual tira os recursos para repassar aos empresários, sufocados, lembra o economista Carlos Eduardo Carvalho, da PUC/SP, em brilhante artigo no Valor Econômico, em 11.12.
Como o presidente Lula, durante reunião com empresários, na semana passada, destacou que vem por aí novas medidas, capazes de incrementar a produção e o consumo, certamente, as emissões prosseguirão, desempenhando o papel de conter os preços, aparentemente, enquanto, na prática, tal contenção se expressa em seu contrário, em obediência à dialética, ou seja, em forma de aumento do endividamento governamental. A dívida cresce no lugar da inflação de subsolo. Evita que haja mudança na aparência dos preços, cuja essência fica escondida em forma de aumento do endividamento público, expresso em desonerações, que deverão se multiplicar, no compasso da crise, como prometeu o presidente aos empresários, exigindo emissões-injeções monetárias na circulação capitalista nacional, intrinsecamente, inflacionária.

O aparente e o latente freudiano

A essência e a aparência, em representação freudiana. O inconsciente inflacionário não aparece, mas a consciência da inflação entra em cena maquiada, dando vida à inflação de subsolo, como a caracterizou Lauro Campos, no livro “Crítica Dívida Externa”, Senado Federal, em que analisa o fenômeno, que se ampliou no país depois da crise monetária dos anos de 1980, produzida pelo aumento do juro nos Estados Unidos como forma de salvar o dólar. Agora, o fenômeno se repete para evitar falência dos setores produtivos, incapazes de sobreviverem no ambiente em que o crédito foi liquidado pela crise que jogou a economia dos Estados Unidos e da Europa na estagnação, gerando incerteza global.
As desonerações e renúncias fiscais, que garantem ganhos diretos às empresas, como compensação pela sustentação dos juros altos, que espantam consumidores, colocam o governo, num primeiro momento, como salvador geral da pátria, mas, num segundo instante, pode trazer problema, especialmente, porque , com o aumento da dívida pública interna, os financiadores do endividamento estatal, puxam para cima as taxas de juros. A exigência dos grandes bancos já escandalizam, impondo, como destacou a analista e especialista em contabilidade nacional, Maria Lúcia Fattorelli Carneiro, da Secretaria da Receita Federal, juros de 18% para comprar títulos governamentais, ou seja, 5 pontos percentuais acima da taxa básica selic, de 13,75%, considera a mais alta do mundo. Uma farra total que se prenuncia ascendente, quanto mais o governo vai sendo obrigado a bancar a inflação subterrânea.
O fenômeno em curso demonstra que a dívida vai crescendo no lugar da inflação, como fenômeno antiinflacionário, deixando no ar a indagação sobre até quando o tesouro terá fôlego para bancar a escalada da dívida pública interna, que se aproxima de R$ 1,5 trilhão, exigindo, de forma assustadora, no compasso da crise, 30% da receita orçamentária, para ser bancada. Além disso, ressalta Fatoorelli, todas as disponibilidades financeiras orçamentárias oriundas de contingenciamentos vão sendo canalizadas para o pagamento dos juros da dívida. São impostos, dessa forma, amplos sacrifícios aos setores que mais precisam de recursos, quanto mais a desaceleração econômica avança, como os de saúde, educação, segurança, infraestrutura etc.
É possível considerar como razoável tal escalada ou em algum momento a auditoria da dívida se imporá como imperativo categórico, como diria Kant? Por que os demais setores, constantes do orçamento não-financeiro, ou seja, que implica na vida das atividades produtivas, tornam-se alvos de cortes e reavaliações, e o orçamento financeiro, pagamento dos juros, ficam de fora do ajuste ao qual toda a sociedade se submete?
Não é a primeira vez que o fenômeno da inflação de subsolo ocorre. Ao longo dos últimos trinta anos, em diversas oportunidades, a inflação subterrânea se apresentou como fenômeno capaz de mostrar a aparência, mas encobrir a essência. Os preços, para os consumidores, ficam no mesmo lugar, estáveis, mas as desonerações, dadas pelo governo, como sustentação da estabilidade aparente deles, atuam como atenuantes, cujos efeitos se manifestam de forma oculta no aumento do endividamento público. 

Inflação oculta reduziria juro?

Nesse sentido, a criação do real, a partir do governo Itamar, ganhando notoriedade no governo FHC, pode, igualmente, ser interpretado como promotor da inflação de subsolo. A sobrevalorização do real, de forma artificial, combateu, aparentemente, a inflação, mas fez explodir a dívida, a essência inflacionária, que se expressou de forma oculta. O resultado todos conhecem: o aumento dos juros, que, em 1997/98, chegaram ao absurdo patamar de 45% ao ano. A dívida virou contrapolo da inflação. 
A conjuntura, por sua vez, demonstra inexistir razões para aumento dos preços. Demanda em queda, por conta da crise, sinaliza não pressão inflacionária, mas deflacionária. Os carros sobram nos pátios e lá ficarão se não fluir o crédito, jogando os preços para baixo e toda a cadeia produtiva associada à indústria automobilística, carro-chefe do capitalismo nacional dependente.
Pelas análises econômicas em geral, em 2009 os preços deverão ficar na casa dos 4,5%, ou seja, dentro da meta fixada pelo Banco Central. O consumo interno em retração seria o responsável. Sobraria, então, pressão inflacionária não advinda da pressão consumista, mas por conta da mera corrida especulativa contra a moeda nacional, desvalorizando o dólar frente ao real. Um fenômeno que vai se destacando e se destoando da lógica econômica, possivelmente, a levar a uma solução salomônica para os juros, tipo controle cambial. Do contrário, as pressões inflacionárias, produzidas em cima da moeda, especulativamente, colocaria toda a economia em risco, porque a desvalorização cambial imporia juros altos para continuar financiando o endividamento, como medida de risco imposta pelos bancos, como já está acontecendo.
Tende a nascer e ampliar nas próximas semanas e meses, no Congresso, pressão política para conter o fluxo de entrada e saída de dólar, para que a sua saída, maior que a entrada,  não eleve o preço do real e consequentemente da taxa de juro, mesmo que haja redução do consumo decorrente do juro especulativamente alto. 

Urgente controle do mercado de moeda

O governo vai ter fôleto para bancar a inflação subterrânea até quanto, se o fluxo de entrada e saída de dinheiro fragiliza, crescentemente, o real, colocando sua saúde como ponto central do desenvolvimento econômico ao longo de 2009. Os candidatos da oposição começam a nadar de braçada, antevendo, prognosticando e antecipando o desastre cambial.  Seria vitória na certa da oposição que curtiria a virada da história, com o feitiço virando feiticeiro.
O governo convive contraditoriamente com uma situação que potencialmente reduz inflação, em decorrência da queda do consumo, que leva a uma concorrência cujos efeitos são deflação, mas, ao mesmo tempo, gera pressão inflacionária por conta do câmbio, na troca do dólar pelo real, fragilizando, fortemente, a moeda nacional. Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.
A política cambial estaria atuando como uma variante independente da lógica econômica. Não sofre os efeitos desinflacionários decorrentes do esfriamento econômico, que joga os preços para baixo, via redução do consumo. A lógica cambial impõe a sua própria inflação. O governo, quando bombeia a inflação oculta, enquanto deixa sob controle a inflação aparente, está diante do seu maior desafio.
Em algum momento, a contradição, como é natural, caminhará para sua superação, a tese gerando a antíte em busca de nova síntese. A governabilidade pode se transformar em ameaça, se a política cambial sair do controle. Como ela não está sendo regida pela lógica do comportamento dos preços, poderá sofrer intervenção estatal, assim como o governo se obrigou a intervir no sistema financeiro, para desbloquear – ainda ainda não concretizado para valer – para evitar o colapso econômico.
O que vai impulsionar o governo nesse sentido serão as estatísticas do desemprego. Se no inicio de 2009 as coisas ficarem pretas, como se anuncia, a intervenção no mercado de moeda entraria na dança da intervenção, porque seu comportamento joga perigo constante para a saúde econômica e política do governo, no momento em que o Planalto se volta tanto para a superação da crise como da promoção da candidata Dilma Roussef, ministra da Casa Civil, para suceder o titular do poder.

Energia vira moeda forte na crise global

A criação em andamento da moeda arábe, anunciada semana passada pelos sheiks do petróleo, ligados à OPEP, representa fato novo no cenário da bancarrota capitalista global.  Energia vira moeda. Boas notícias para a América do Sul e o Brasil, que, com o pré-sal, entra na área da moeda-petróleo.

Ao mesmo tempo, a China manda recado ao governo Lula de que está disposta a embarcar, com suas trilhonárias reservas cambiais, na exploração petrolífera nacional. Ou seja, os chineses abrem os olhos para participarem do cartel da OPEP por intermédio da parceria com o Brasil.

Sinais de mudanças qualitativas no cenário internacional nos próximos tempos em que as economias desenvolvidas, afetadas pela crise de crédito, vão perdendo espaço para os emergentes em ações parceirizadas.

A moeda nacional – ou moeda sul-americana – , da mesma forma que a moeda árabe, ganharia status internacional, se o governo Lula, por conta do pré-sal, se filiasse à OPEP. A valorização dela teria o tamanho do potencial da reserva petrolífera trilhonária.

Os árabes querem com sua própria moeda fugir da volatilidade cambial e monetária que está rolando em profusão nas relações de troca depois que o crédito secou nos países capitalistas mais desenvolvidos.

Antes do vendaval detonado pela implosão do mercado imobiliário americano, eles haviam decidido dar os passos iniciais nesse sentido, por meio da elevação dos preços do barril de petróleo até perto de 150 dólares.

A justificativa para essa pressão altista não foi apenas o então aquecimento do mercado da oferta e da procura do óleo, mas a decisão dos governos árabes de compensarem a perda que estavam tendo nas relações de trocas globais.

Como os países do golfo pérsico têm suas importações européias cotadas em euro e suas exportações de petróleo em dólar, estariam, sempre, perdendo valor dado que o euro é mais valorizado que o dólar.

Jogo de compensações. O aumento do preço do petróleo em doses desproporcionais, como justificativa de compensação para a deterioração nos termos de troca dos árabes com seus parceiros, detonou, por sua vez, a inflação mundial.

Agora, no crash global, a inflação se transforma em deflação nos países ricos e fuga de capitais dos países pobres, desvalorizando a moeda nacional e impondo pressões combinadas de inflação com hiper-deflação.

Nesse novo cenário, os árabes tendem a perder duas vezes. Continuarão  a dançar na troca de dólar por euro e, principalmente, na queda dos preços do barril de petróleo na praça global.

Se não podem ganhar na elevação do preço, como compensação pela perda cambial, nem impedir a baixa do preço do produto na recessão em marcha, os governos do golfo se voltam, então, para a valorização do seu produto. Este adquiriria representação monetária, cujo lastro seria o próprio produto, do qual o mundo depende para sobreviver.

O petróleo, enfim,  viraria moeda árabe, sinalizando novo momento do sistema monetário internacional no mundo capitalista em bancarrota. 

 

O poder real e poder fictício

O cenário, para os árabes, é de prejuízo iminente. Primeiro, porque estão perdendo renda, que toca os projetos internos de desenvolvimento, por conta da deterioração nas relações de troca, e, segundo, porque a queda de preços impõe ainda maior deterioração comercial e cambial.

Que fazer?

Os sheiks, ao que tudo indica, estão se dispondo a uma nova radicalidade para a ação da OPEP como alternativa para valorizar, relativamente, seu produto, do qual depende a manufatura global. 

Repetiriam 1973?

Naquele ano, diante dos preços baixos, munipulados pelas empresas multinacionais, americanas e européias, para garantir consumismo barato de energia e combustíveis nos Estados Unidos e Europa às custas dos árabes, estes decidiram criar a OPEP. Causaram revolução econômica. Os governos do golfo fizeram valer o poder de oligopólio, e o mundo se condicionou à nova realidade, desde então.

Os árabes aprenderam que o poder do petróleo é maior que o peso do papel-moeda. Lá, em 1973, agiram para criar o cartel da OPEP, mas continuaram subordinados à área de influência do dólar. Agora, quando falam em criar sua moeda, a moeda-petróleo, estariam pensando e agindo na reafirmação do poder do petróleo no sentido de acelerar uma nova correlação de forças monetárias globais, quando o dólar balança?

Nasceria novo referencial monetário internacional para balisar as trocas comerciais globais, se for efetivada a moeda árabe. O dólar, como confirma a crise, está perdendo esse referencial, como algo absoluto, de acordo com a divisão internacional do trabalho, estabelecida no pós-guerra pelo acordo de Bretton-Woods, em 1944.

A mercadoria efetiva, riqueza real, lastro palpável, que serviu para a criação do cartel da OPEP, impondo, a partir dos anos de 1970, nova conjuntura energética global, pode estar, em 2008,  no auge das incertezas no cenário capitalista global, agindo para fazer valer, de novo, esse mesmo poder, com avanço qualitativo? A disposição de criar moeda árabe diz que sim.

 

Pobreza relativa do ricos e riqueza relativa dos pobres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A moeda árabe seria, naturalmente, a representação prática do poder do petróleo. O dólar sofrerá natural abalo. Qual o lastro do dólar? Dívidas imobiliárias em profusão que desvalorizam a moeda americana, afetada pela reprodução exponencial dos derivativos dolarizados. Ou seja, não tem lastro real. Perigo total, como prenunciam os próprios árabes, que se lançam à construção de sua própria moeda, para valorizar seu próprio produto. A riqueza fictícia monetária passa a receber outro tratamento no cenário das relações de troca, vindo a emergir a moeda-árabe-petróleo.

Os Estados Unidos e a Europa estão sem sua riqueza visível para dar substância a suas moedas, visto que tanto o euro, como o dólar, estão, na crise, abalados pela bancarrota do mercado imobiliário americano. Os americanos venderam papel podre para os europeus, que distribuiram esses papéis bichados na praça. Tudo falso. Riquezas imensas perdidas, sonhos estourados, fim de ilusões, caída na realidade trágica.

Evidenciou-se o óbvio: os americanos, que haviam perdido para os concorrentes seu mercado de bens e serviço,  perdem, agora, seu mercado de dinheiro. Consequentemente, empobrecem. A prova é a antecipação do discurso da nova Secretária de Estado, do governo Obama, Hillary Clinton, pautado no multilateralismo e não mais no unitarismo bushiano.

O incontrolável aumento do desemprego nos Estados Unidos é o sintoma geral de que a base de sustentação do dólar, o consumo americano, que realiza as importações globais, fragilizou-se.

Obama buscará reafirmar a força do dólar por meio do fortalecimento da capacidade da economia de gerar empregos, ampliando keynesianamente os gastos públicos. Caso contrário, sem a renda proveniente da produção, estimulada pela teta estatal, a moeda americana faliria. Derrocada imperial.

Empobrecimento relativo acelerado, no rítmo de aceleração do desemprego. É disso que Barack Obama quer fugir, preocupadissimo, como demonstra o seu semblante pós-eleitoral.

 

Moeda e agroenergia sul-americanas já

Nesse ambiente de total incerteza, os espertos árabes, donos das principais reservas mundiais de petróleo, perceberam que manter o óleo negro indispensável sob referência do dólar é correr risco ascendente no contexto das relações de trocas globais.

Como o mercado despencou e ficou difícil, senão impossível, continuar praticando preços altos, resta aos governantes árabes apegar-se a sua riqueza real e, ao mesmo tempo, colocar preço nela por meio de representação própria, ou seja, moeda árabe.

O petróleo, sendo poder monetário, pode ser lastro de uma representação monetária regional. Por que não? Esse fato, que a grande mídia pouco explorou durante a semana, tem potencial de fogo para influir na aceleração da criação da moeda sul-americana.

A América do Sul tem a riqueza potencial energética que assegura a estabilidade do mundo, em termos de desenvolvimento sustentavelmente equilibrado. Não teria, igualmente, chegado a hora de os sul-americanos, como os árabes, também, botarem preços nas suas mercadorias essenciais?

O pré-sal, nesse novo contexto, representa, efetivamente, base de sustentação monetária do país. Não seria à toa, portanto, que a China manda o recado ao governo Lula, mostrando-se interessada em ser parceira na exploração do óleo nas profundezas do pré-sal.

O poder energético, como não cansa de pregar o professor Bautista Vidal, agora na defesa da criação da empresa brasileira de agoenergia, emerge como poder monetário, no compassos de derrocada do neoliberalismo, que jogou o capitalismo na anarquia total, produzindo a contradição capital do sistema, expressa pelo choque entre as forças produtivas e as relações sociais da produção.

A hora da moeda sul-americana e da Empresa Brasileira de Agroenergia é agora. Lastreada pela riqueza mineral, energética e industrial da América do Sul, a moeda sul-americana, como a moeda árabe, em nascimento, teria influência decisiva no contexto multilateral pós-explosão neoliberal. Muda o conceito de riqueza monetária: o papel-moeda fictício sem lastro emitido pelos países ricos tenderiam a perder substancia para emissões sustentada em lastros reais, concretos.

Desemprego põe Meirelles na corda bamba

O avanço do desemprego na economia em desaceleração, sinalizando recessão, passou ameaçar o emprego do presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles. O crescente prestígio popular do presidente Lula(78% de aprovação na pesquisa DataFolha) corre perigo. Meirelles terá, na próxima quarta feira, o desafio de comandar mais uma reunião do Conselho de Política Monetária(Copom), sob pressão total dos empresários, trabalhadores, governo e coalizão governamental, no Congresso. Todos levantam uma só bandeira: redução das taxas de juros como antídoto à queda geral do nível de atividade econômica em marcha.

Nesse momento, as indagações generalizadas se voltam para a intensificação das especulações financeiras em cima da moeda nacional. O real já se desvalorizou quase 50% ao longo de outubro e novembro, mas a inflação, ao contrário de explodir diante do aumento da sua fragilidade, diminui, de acordo com os números anunciados ao longo da semana, embora as pesquisas dos banqueiros, seguidas pelo BC, sinalizassem o contrário.

Por isso, a surpresa geral está perpassando o mercado, sentindo cheiro de pólvora no ar. Por que o dólar, na quinta feira, 04, pulou para mais de R$ 2,50? Por que o Banco Central somente atuou no final do pregão, para evitar a especulação, quando, nas semanas anteriores, estava jogando no ataque? Hoje, novamente, R$ 2,50, R$ 2,60. Especulação pura. Estaria interessado em manter pressão sobre a moeda nacional, para evitar redução das taxas de juros, já que dólar alto significaria, teoricamente, mais inflação à vista? Jogada especulativa para evitar a redução das taxas de juros na próxima semana, a fim de continuar mantendo os altos lucros dos bancos, enquanto o setor produtivo vê o barco da economia afundar?

Essas perguntas estão na cabeça dos políticos da aliança governista, no Congresso, que começam a ficar desesperados diante do aumento do desemprego, que, no início de 2009, pode ampliar consideravelmente.Seria desgaste total para o presidente e sua candidata à sucessão nas eleições 2010, ministra Dilma Roussef, ao mesmo tempo em que estaria ampliando as chances dos adversários, José Sera, governador de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, que disputam, dentro do PSDB, a vaga para candidatura tucana.

 

Desemprego em marcha, prestígio em alta

Durante a semana, as notícias pioraram , consideravelmente, pintanto anúncio tétrico: a Companhia Vale do Rio Doce(Vale), uma das maiores mineradoras do mundo, demitiu 1.300 trabahadores e colocou em férias coletivas outros 5.000. Os preços dos minérios, com recessão mundial, cairam e a produção siderúrgica, consequentemente, encolheu. Resultado: a empresa, outrora estatal, privatizada na Era FHC, rendeu-se à lógica das demissões trabalhistas quando a procura cai diante de uma oferta abundante. Entre a deflação visível e a demissão de trabalhadores, não titubeou.

O governo Lula tentou minimizar o assunto, jogando com o otimismo, enquanto a realidade desmentiu-o. No Congresso, onde depunha, na terça feira, 02,sobre a situação atual, a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, não conseguiu vender o produto que o seu chefe tem ofertado em abundância no mercado em desaceleração: esperança em doses exageradas. Sua contenção, relativamente, ao avanço das demissões, ficou transparente, evidenciando que o governo busca correr contra o prejuízo, preparando série de medidas fiscais, como diminuição de impostos e adiamento de pagamento de tributos, enquanto a queda dos juros não vem.

O incômodo governamental aumentou, substancialmente, com a conjugação dos discursos dos empresários e dos trabalhadores, no mesmo diapasão. Embora os representantes de seis entidades sindicais tenham se reunido na Esplanada dos Ministérios, na quarta, 03, para fazer pressão sobre os parlamentares, a fim de livrarem da cassação o deputado Paulinho da Força(PDT-SP), envolvido no escândalo de jogo de influência para liberar empréstimos do BNDES, os sindicalistas corporativistas aproveitaram, também, a oportunidade para defender a redução urgente das taxas de juros e a diminuição do superavit primário. Somente com dinheiro mais barato na praça e menos recursos destinados ao pagamento dos juros da dívida, para que sobre mais aos investimentos, destacaram os líderes sindicais, será possível evitar a recessão e depressão econômica em rítmo crescente.

Na mesma linha, os líderes empresariais, sob coordenação da Confederação Nacional da Indústria(CNI), defenderam, igualmente, diminuição das taxas de juros, mas sem falar em ação semelhante sobre o superavit primário(receita menos despesas, excluindo os juros), como antídoto ao desemprego. Se este não for contido por medidas preventivas, urgentes, poderá disparar, nas próximas semanas, entrando 2009 adentro com previsões catastrofistas.

 

Banqueiros abandonam Planalto

Sob pressão total dos trabalhadores e dos empresários, do capital e do trabalho, bem como dos integrantes da coalizão governamental, no Congresso, o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, começou a ratear em seus argumentos. Sua sustentação favorável ao juro real mais alto do mundo como fator de contenção inflacionária ficou prejudicado. Os números da inflação de novembro, comparados ao de outubro, mostram recuo, mesmo em face do avanço do dólar.

Não bateram as pesquisas realizadas pelos bancos, por intermédio da Focus, que serve de balisamento para ação do BC. Em novembro, o IPC ficou abaixo de 0,3%, quando os bancos sinalizaram perto de 1%. Sem a pressão altista prevista pela pesquisa Focus, alvo de críticas de diversos setores da economia, os argumentos de Meirelles, enquanto avança o desemprego, perderam força.

Tal contradição ouriçou o Planalto, que está, especialmente, irritado com a banca privada, depois que ela se negou, no auge da crise, a colaborar com o esforço governamental, para, utilizando depósitos compulsórios a juro zero, irrigar o mercado com custo estável do dinheiro, bem como socorrer bancos pequenos em bancarrota.

Ao contrário, os grandes bancos, como Itaú e Unibanco, correram para a oligopolização bancária, enquanto elevavam os juros, mesmo com o governo aumentando a oferta de dinheiro na praça, por meio do BNDES. Não teve outra alternativa o governo senão partir, também, para a oligopolização financeira estatal.

Está no ar, no auge das tensões, o confronto entre o oligopólio financeiro privado, de um lado, e o oligopólio financeiro estatal de outro, cujos contornos somente o compasso da crise poderá dizer nas próximas semanas e meses. Na prática, o jogo da banca privada alimenta, entre os governisas, a convicção de que o jogo duro do BC na manutenção do juro alto beneficia os banqueiros e prejudica a estratégia política e econômica do presidente Lula, para enfrentar a crise e bancar a candidatura Dilma.

O titular do Planalto está numa sinuca de bico. Ao intensificar a pregação favorável ao consumo, estimulando os trabalhadores, temerosos do desemprego, a aumentar as compras no crediário, ele poderá ficar, completamente, desmoralizado, caso os juros continuem em alta, como evidenciam os números. As pequenas empresas, sufocadas para pagar o décimo terceiro salário, correm aos bancos para pegar dinheiro a 45%, 50%, 60% ao ano, enquanto o cartão de crédito avança para a casa dos 12%, 15% ao mês. Enforcamento total.

 

Mantega fatura desprestígio de Meirelles

O desespero das empresas diante do dinheiro caro ficou comprovado com o avanço das empresas de Factoring, cuja demanda, nos últimos 30 dias, subiu mais de 30% em dois meses. Além disso, os empresários ressaltam a necessidade de terem de retirar suas aplicações pessoais de fundos de investimentos de modo a fazer frente ao recuo dos empréstimos caros oferecidos pelos bancos.

Entre o desejo do presidente e a realidade configura-se a força desta diante daquele, expressa na onda de desemprego que se amplia. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, em sua tentativa de desmentir os fatos, deixou de ver recessão, inclusive, nos Estados Unidos, onde a situação está preta, para anunciar crescimento interno de 4% do PIB em 2009, está tendo que voltar atrás. O contraste emergiu forte entre seu otimismo sem freio e as previsões da ONU e do Banco Mundial que prevêm avanço de somente 1,5% a 2% do PIB brasileiro no próximo ano.

As reações governamentais, na verdade, se baseiam em argumentos prospectivos, porque, na prática, em outubro e novembro, mesmo diante da catástrofe capitalista nos países ricos, a oferta e a demanda, no Brasil, continuaram fortes, sinalizando a possibilidade de crescimento do PIB de quase 5% este ano.

 

Cabeça a prêmio 

 

A comprovação desse clima satisfatório se expressou na pesquisa DataFolha, na sexta, 05, dando conta do enorme prestígio do presidente Lula: 70% dos entrevistados concordam que seu governo está na faixa de bom e ótimo. Avançou 6 pontos percentuais em relação à última pesquisa. O entusiasmo com o presidente se revelou espetacular no Nordeste, onde o percentual de ótimo e bom pula para 81%.

Não foi à toa que o chefe do governo decidiu acelerar a discussão da reforma tributária, em tramitação no Congresso, cujo teor favorece os estados nordestinos relativamente aos do sul e do sudeste, tema que, no entanto, foi para o próximo ano, dada a emergencial situação econômica deteriorada, colocando em cena, de forma intempestiva, a conjugação dos discursos críticos dos empresários e dos trabalhadores, em desespero.

Debaixo desse clima, a situação do presidente do Banco Central ficou complicada.

O titular do BC, ao que tudo indica, sentiu a barra. Durante a semana, circulando no Congresso e nas entidades empresariais, para sentir o clima geral de deterioração e de críticas fortes quanto à condução da política monetária, reconheceu o perigo que ronda a sua porta e se dispôs, para tanto, a encontrar-se, de agora em diante, com os congressistas, para avaliações periódicas do quadro nacional.

Sua posição caminha para a insustentabilidade lógica. Ao longo da semana, não apenas vieram ao ar notícias sobre a inflação em queda, que contrastram com os juros altos, mas, também, as que dão conta de ações de governos pelo mundo afora jogando o custo do dinheiro para baixo, a fim de salvar as economias de bancarrotas iminentes, em escala inusitada.

Se, na próxima quarta feita, na reunião do Copom, a direção do BC não se mexer para diminuir os juros, mantendo posição conservadora, Henrique Meirelles poderá balançar fortemente, com empresários, trabalhadores e congressistas pedindo sua cabeça.