Sapatada no Bradesco e na Febraban

 

 

“Cypriano brigou com o rei”. Caiu. O filósofo Petronius – sob Nero – disse que mais louco do que o rei é quem briga com o rei. Loucura cypriânica.

Nos bastidores empresariais e políticos a informação que rola é a de que a queda do presidente do Bradesco, Marcio Cypriano, substituido, no final de semana, às pressas, por Luiz Carlos Trabuco Cappi, decorreu do atrito havido entre Cypriano e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na quarta-feira da semana passada, durante reunião entre governo, empresários e banqueiros. Em busca de solução para a taxa de juros, o presidente Lula determinou aos seus comandantes da economia alcançarem consenso entre agentes econômicos sobre o assunto, visto que se encontra apavorado com possível escalada do desemprego, cujas consequências são perturbações sociais e políticas insuportáveis.

O presidente do Bradesco e diretor da Febraban considerou, na ocasião, o BC culpado pelos juros altos. Meirelles contratacou destacando que culpados são os bancos, que cobram o spred mais alto do mundo – ou seja, o custo de intermediação bancária, influenciado pelo risco. Evidenciou lavagem de roupa suja, de forma espetacular. Sendo Meirelles a voz do presidente, Cypriano detonou o presidente, o rei. Dançou.

Por que os banqueiros entraram nessa, se são os que mais faturam? Têm lucro médio de 25% a 30%, ao longo dos últimos 20 anos, enquanto as atividades industriais asseguram 8% de rentabilidade e as comerciais, 15%, em média. Os juros engordam os lucros bancários e emagrecem os lucros da produção e do consumo.

A tentativa de culpar Meirelles/Lula demonstrou, no fundo, o insconsciente bancário: os banqueiros estão atacando Lula e sua política econômica. Cypriano vocalizou, inadvertidamente, esse inconsciente, que, na verdade, representa oposição à estratégia macro do presidente, econômica e políica, envolvendo, aí, naturalmente, a candidatura Dilma Rousseff, repaginada esteticamente para enfrentar em 2010 o PSDB, que já apela politicamente para o protecionismo, para garantir empregos, como faz, em desespero, o governador José Serra, de São Paulo, diante do recuo da produção industrial de 0,6% em novembro, relativamente, a outubro, e da greve dos trabalhadores da GM, protestando contra demissões. Clima tenso.

A escorregada feia de Cypriando revelou, ainda, o temor dos bancos diante da situação em que são colocados pela população, de maneira geral, como agiotas, que, agora, na crise, se negam a manter oferta de crédito, embora o governo tenha criado situação para favorecer essa possibilidade, irrigando o mercado de dinheiro público, elevando a dívida pública interna, sobre a qual faturam alto com a taxa selic.

Lançaram os homens do dinheiro culpa na sua própria representação, isto é, o BC, obediente aos interesses da banca, no momento em que o presidente Lula amplia o debate sobre a taxa de juro, envolvendo na discussão não apenas o Banco Central e os banqueiros, restritos no âmbito do Copom, mas, também, os agentes da produção, democratizando o debate.

O cachimbo deixou a boca torta. Os banqueiros revelaram-se incapazes de perceber as nuances políticas que estão levando o governo a ampliar a estatização bancária, gerando o oligopólio financeiro estatal, porque o seu oposto, o oligopólio financeiro privado, na crise, se mostrra incapaz de enfrentar os desafios capitais, no sentido de assegurar a produção e o consumo, razoavelmente, em ação.

As notícias que encheram os jornais, dando conta da saída do ex-presidente e da entrada do novo, Trabuco, ganharam mais força no noticiário do que as informações da crise mundial. Tremenda encenação midiática. Freud disse que as palavras servem para esconder o pensamento.

A autoridade do governo foi colocada em jogo pelos banqueiros. E o troco veio. Cypriano e a Febraban, onde o espírito de animosidade da bancocracia relativamente ao governo extrapolou o inconsciente para ganhar o público, revelaram-se politicamente inexperientes, ao não perceberem que, no contexto da turbulência econômico-financeira, a política econômica está dando lugar à economia política. 

Resultado: Lula mandou uma sapatada no Bradesco e na Febraban.

 

 

Poder bancocrático sob crítica

As tensas relações entre os banqueiros e Meirelles, ou seja, entre os banqueiros e o presidente da República, no compasso das decisões governamentais que vão aumentando o poder financeiro estatal para ir abrindo espaço à ampliação da produção e do consumo obstaculizados pela escassez de crédito, tendem a se ampliar e a abrir discussões sobre a influência excessiva do pensamento bancário na condução da política econômica nacional há mais de 25 anos.

O poder bancocrático é tão poderoso que até a Constituição o trata de forma especial. O artigo 166, parágrafo terceiro, itém II, letra b, estabelece como causa pétrea o direito dos bancos de não terem contingenciados os recursos destinados ao pagamento dos serviços da dívida governamental. Tudo pode ser contingenciado orçamentariamente – educação, saúde, segurança, infra-estrutura, compras governamentais. Somente, os pagamentos de juros ficam a salvo. Contitucionalmente, garantidos. Bancocracia constitucional.

Os professores da Universidade de Brasilia, Adriano Benayon, economista, e Pedro Resende, cientista da computação, realizaram pesquisa sobre esse capítulo constitucional e revelaram a grande influência que o ministro da Defesa, Nelson Jobim, teve, quando deputado constituinte pelo PMDB, para materializar , na Constituição, o interesse dos banqueiros. Contribuiu, decisivamente, segundo os dois professores, para sedimentar o poder bancocrático no contexto dos poderes republicanos.

Durante a Nova República, refém do Consenso de Washington, erguido depois da crise monetária dos anos de 1980 – detonada pelos mesmos motivos que hoje detonam a crise financeira mundial, ou seja, excesso de dólares especulativos no mercado – , os banqueiros asseguraram condição privilegiada no comando da política econômica.

O prioritário, estabelecido pelo Consenso de Washington, era o que ficou estabelecido consitucionalmente. Ou seja, prioridade governamental para o pagamento dos juros, antes de dispor de recursos para os investimentos públicos, destinados a sustentar, equiibradamente, a demanda global da economia. Esta pagou o pato em favor do privilégio da bancocracia, expressão cunhada pelo senador Lauro Campos, na Era FHC.

Se Cypriano, na frente dos empresários e de outras fontes, comportou-se ousadamente na formulação de críticas a Meirelles pelo comportamento dos juros altos administrados pelo BC, imagine o que os banqueiros não falam entre quatro paredes aos diretores da instituição, que, na prática, tem sido indicado por eles, para orientar a política econômica? Já se disse que o BC é o clube dos banqueiros.

As relações entre Meirelles e o Bradesco e entre ele e a Febraban ficaram estremecidas, vale dizer, tudo que não é permitido para os interesses dos bancos, especialmente, em ambiente de instabilidade total.

As justificativas pela saída de Cypriano – teria atingido a idade limite de 65 anos pelo estatuto do banco, depois de permanecer durante dez anos à frente do Bradesco – falariam, exteriormente, aparentemente, ao fato, não interiormente, latentemente. Aparência versus essência.

Os banqueiros romperam com uma regra capital: a discrição. Sabem que a ausência de toda e qualquer contrariedade política explicita entre os bancos e a autoridade monetária, que concede aos banqueiros a concessão para a abertura do seu negócio, é o ideal. Romperam com ela?

 

O perigo de brigar com o rei

A retirada de Cypriano de cena mostra o desgaste que se formou nas relações entre bancos e governo.

O presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, que luta para conquistar novos espaços para o banco no cenário nacional, depois de cair para terceiro lugar no ranking, em 2008, não poderia algurar sucesso, se tiver pela frente controvérsias políticas com o Palácio do Planalto. Essa possibilidade seria fatal, especialmente, ao longo dos próximos dois anos, em que Lula se empenha em manter a economia funcionando, para garantir sua sucessão.

Brigar com o rei? Os bancos atuam mediante concessões do Estado. São inúmeros os exemplos históricos de governantes que tiveram atritos com banqueiros e modificaram suas preferências, erigindo novos eleitos e condenando velhos aliados, na tarefa de manter a relação umbilical entre estado e banca, que o financia, historicamente.

Banqueiros não têm partido político, não apitam, em público, em política, apenas enfiam a mão no bolso para financiar o estado, tendo como garantia as letras do tesouro, além da possibilidade de comercializar dinheiro, de diversas formas, no mercado monetário, à moda oligopolizada, em escala crescente. 

As tensões entre bancos e o governo – como se evidenciou no episódio Cypriano-Meirelles – , em meio a uma conjuntura cujos desdobramentos destrutivos e potencialmente explosivos, politicamente, são coqueteis molotov, representariam um epílogo extraordinário no governo Lula, dando outro colorido político à Nova República.

O pavio acendido por Cypriano teria pecado pela desconhecimento do time certo para agir? Denunciou potencial conspiração que deixou o poder lulista de barbas de molho.

O conservadorismo de Brandão entrou em campo, rapidamente, mas deixou uma ponta do rabo de fora, expondo astúcia e insatisfação bancocrática com o andar da carruagem de um estado financista oligopolizado em ascenção a ser colocado a serviço da candidatura da ministra Dilma Rousseff.

 

 

Remoção imediata do problema

A pronta substituição de  Cypriano por Trabuco conjuga controvertidamente com as previsões feitas pelo próprio presidente Lula de que a crise mundial, detonada pelo empoçamento do crédito ao consumidor, sinaliza explosão social em decorrência da expansão do desemprego.

A briga entre Cypriano e Meirelles representou cortina de fumaça desse pano de fundo, dando claridade à oposição entre as duas partes, visto que o oligopólio financeiro estatal avança porque o oligopólio financeiro privado não atende o interesse público no compasso da crise mundial.

Como possível avanço de demissões de trabalhadores vai deixando o ambiente politicamente delicado, tornou-se inconveniente aos banqueiros cutucar a onça com vara curta. O Copom, por exemplo, onde a influência dos bancos privados era amplamente predominante, pode, de agora em diante, ser politicamente relativizado pelo avanço da economia política frente à política econômica, de forma dialética, no compasso da crise.

A lavagem de roupa suja Cypriano-Meirelles demonstrou claramente a possib ilidade de atritos cujas consequências, para os bancos, represetariam dissabores. O novo presidente do Bradesco, Trabuco, chega para ficar calado.

Fatos políticos novos e inquietantes passam a conduzir as ações governamentais que necessitam de ambiente econômico financeiro concorde com sua estratégia de enfrentamento da crise.

Não haveria tal concordância se continuar tensa relação Planalto-Febraban-Bradesco. Cypriano espirrou como a concha entre a onda e o rochedo, levando tremenda sapatada.

Falcões impõem guerra a Obama

Despertar trágico do ano novo. O seu perfil essencial está sendo dado pela guerra-massacre aprofundando-se entre Israel e Palestina, na Faixa de Gaza, Oriente Médio, sinalizando tensões globais. Não se pode desvinculá-la de um contexto que se forma pelos próprios interesses que o compõem, no sentido de afirmar sua necessidade para o capitalismo em sua fase atual de desenvolvimento histórico em crise total.

Esse contexto tem a guerra como conteúdo essencial indispensável à reprodução do capital, como demonstrou a história ao longo de todo o século 20, relatada no excelente livro “Capitalismo global – História econômica e política do século 20”, de Jeffry  A. Frieden, Zahar, 2008.

Os falcões da guerra estão alvoraçados sem saber direito que perigos a bancarrota capitalista em curso, nos Estados Unidos e Europa, reserva aos interesses que preservam, ou seja, os interesses da economia de guerra. De qualquer forma, mandam seu recado ao presidente eleito Barack Obama de que tendências ao pacifismo internacional por parte dos Estados Unidos, sob governo democrata, poderia custar caro aos seus patrocinadores.

Obama se candidataria a ser novo Kennedy, para desarmar o complexo do estado industrial militar norte-americano, cujos designos tenebrosos foram levantados pelo ex-presidente Eisenhower, em 1960?

O conflito sangrento, que condena a inteligência humana, como destacou o escritor judeu, A.B Yehoshua, em entrevista ao Globo, representa o produto final de uma linha de montagem industrial. Ela envolve investimentos alavancados pelo estado capitalista que passou a depender, como previu Marx, não mais da produção das mercadorias produtivas, mas, fundamentalmente, da produção das mercadorias destrutivas, na guerra.

Tal essência emerge brutalmente no Oriente Médio no raiar de 2009, como alerta aos democratas americanos vitoriosos com Obama, cuja promessa de campanha foi a de acenar para a paz e abrir diálogo com os islâmicos, a começar pelo Irã, aliado do Hamas, pregadores da destruição de Israel, aliado das forças armadas americanas.

O adversário de Obama, John MacCain, diante da promessa obamista, destacou que ele estaria estendendo as mãos aos terroristas que destruiram as torres gêmeas em setembro de 2001.

Antes que o primeiro presidente negro eleito dos Estados Unidos efetive sua promessa eleitoral, os falcões da guerra se anteciparam, agindo por intermédio das forças armadas de Israel, detonando bombas contra os que consideram terroristas,  os integrantes do Hamas, pouco relevando que se trata de movimento político democraticamente escolhido pela população palestina  na Faixa de Gaza, com discurso radical contra os judeus.

Sua pregação, naturalmente, bateu bem como expressão dos protestos às péssimas condições de vida em que vivem 1,5 milhão de pessoas espremidas, como sardinha na lata, numa extensão territorial de 42 km de comprimento por 12 km de largura – ou seja, um distância do Plano Piloto a Taguatinga, ladeada pelas vias EPTG e Estrutural. Um curral no qual inexiste liberdade de ir e vir, com as atividades essenciais – comércio, desenvolvimento, investimentos, enfim, produção, consumo e empregos, educação, saúde – todas controladas pelos judeus, mediante ditadura militar.

Nesse limitado espaço geográfico, de maior concentração humana do planeta, a indústria armamentista americana, por meio das forças armadas de Israel, exercita seus últimos lançamentos, que constituem a dinâmica em movimento da linha de montagem científica-tecnológica-produtiva que mistura grandes indusriais, grandes banqueiros, poderosos generais, governos obedientes e um pensamento conservador utilitarista ideologicamente construído ao longo do século passado, para justificar sua própria lógica de existência essencial à promoção da reprodução e acumulação capitalista.

 

 

Precisão total no ataque

 

Os moderníssimos foguetes GBU-39, leves, 113 quilos, adequados ao bombardeio subterrâneo, com autonomia de 110 km, disparados a 20 km, monitorados por GPS digital, teleguidos por satélites, garantem , praticamente, 100% de eficácia para atingir o alvo, com precisão quase cirúrgica, como destacou Roberto Godoy, especialista em armamentos, na TV Estadão.

As armas modernas americanas, adquiridas por Israel, competem, desproporcionalmente, com as armas do Hamas, de precisão incerta. Dos 40 foguetes Qassan, mísseis primitivos, disparados na sexta, 26.12, somente um acertou, em terreno judeu, numa casa isolada, matando uma pessoa, sacrificada, talvez, por azar. Ou seja, eficácia quase zero, em comparação à precisão armamentista israelense.

Os palestinos, portanto, trabalham como cobaias para o Pentágono. Por intermédio do poder judaico, sustenta estrutura produtiva guerreira que representa alavanca mundial de vendas das produções armamentistas, a partir de Israel. Geopolítica da guerra.

A Boeing Company, que lançou os foguetes GBU-39, para serem apresentados como atratividade mundial, causando escândalo e revolta social, nas principais capitais do mundo, nos últimos dias, depende,  mais do que nunca, do mercado de guerra, no qual floresce o complexo industrial militar.

A preservação do Oriente Médio como palco da guerra, para atuar como bombeamento de tensões, que se espraiam para outras geografias, representa mecanismo essencial de reprodução do capital, alavancado pelos gastos do governo.

A mobilização guerreira, como arma de combate às agressões ao status quo guerreiro por forças do Hamas – grupo radical de resistência islâmica -cujas energias revolucionárias brotam em terreno fértil em meio a uma população, social e economicamente, segregada, como se estivesse no campo de Auschwitz, obede a uma cientifica formulação política fundamentalmente utilitarista. Diante de um nação sem estado soberano, dominada pelas tendências políticas radicais terroristas – que perdurarão enquanto não se efetivar o Estado da Palestina -, o utilitarismo guerreiro caracteriza a oposição de um não-estado a sua política como manifestação marginal.

Da marginalidade ao terrorismo é questão de semântica construída nos laboratórios da propaganda política guerreira, ao sabor dos interesses da guerra.

 

 

Golias engole Davi

 

O estado de espírito da guerra tornou-se, para o complexo estado industrial militar norte-americano, fundamental, porque representa fonte de renda tributária para o governo continuar sustentado tal complexo como organismo que se alimenta de si mesmo. Um conceito na construção dialética do si por si mesmo.

A produção da indústria armentista – bélica e espacial -, que tem o estado como consumidor de mercadorias produzidas para a guerra, adquiridas por moeda estatal sem lastro, que entra na circulação, dinamizando a produção e o consumo, tornou-se indispensável para o capitalismo como atenuador das contradições do próprio sistema.

A guerra, que aumenta a produção sem aumentar a oferta – quem consome guerra não é o consumidor comum – , atua como fator antíclico para contornar as crises capitalistas, caracterizadas, essencialmente, por acumulação excessiva de capital, cronicamente, tendente à deflação.

Vestindo o perfil anticiclico das crise do capitalismo, as guerras, bancadas pelos gastos do governo, em nome da destruição, repreenta salvação por sua própria negatividade, na medida em que produz ineficiência necessária, para equilibrar-se com o excesso de eficiência acumulada pelo setor privado, como disse Malthus. No ritmo da ciência e da tecnologia, os empresários elevam  exponencialmente a produtividade, jogando os preços para baixo, sinalizando deflação, quanto mais acumula o capital podutivo.

Os Estados Unidos, com a sua sofisticação tecnológica, desenvolvida no departamento bélico e espacial, para produzir ineficiências cientificamente programadas, precisam fortalecer, em Israel o Golias, para enfrentar Davi. Produção que gera renda para consumo compensatório à diminuição do consumo privado, afetado pela crise de crédito. Nesse jogo, não tem dado outra; Golias massacrra Davi. A história bíblica está permanentemente sendo negada na sua representação imaginada pelo incorrigível romantismo humanista.

 

 

O capital vai à guerra

 

O Estado, como consumidor necessário, com sua moeda estatal sem lastro,  para dar suporte à economia de mercado, tendente ao colapso, representa, como disse Keynes, a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, na medida em que tem a autonomia para elevar quantidade da oferta de moeda na circulação capitalista.

Outra coisa não faz o presidente Lula, quando, enfrentando a oposição, engorda o Fundo Soberano Brasileiro com emissão de títulos da dívida pública, que se monetizam no mercado.

O autor de “Teoria Geral do Juro e da Moeda”, não brincou em serviço, ao perceber que a economia de guerra dinamiza o capital: “Duvido que o governo seja capaz de elevar seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer a sua força” , disse o grande economista em artigo no jornal “New Republic”, em 1941, segundo relata Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”. Roosevel captou o recado e mandou ver nos gastos do governo para tirar o capitalismo americano da crise de 1929.

Portanto, 2009, 80 anos depois do crash de 29,  começa com o recado da guerra como fator indispensável à reprodução do capital, principalmente, no momento em que o sistema entra em bancarrota, obedecendo à predição de Marx, de que as possibilidades do socialismo somente aconteceriam onde estivessem plenamente desenvolvidas as forças produtivas.

Tal desenvolvimento, no seu limite, produz, segundo o autor de O Capital, a contradição entre o desenvolvimento das relações sociais da produção , de um lado, e o das forças produtivas, de outro, fazendo emergir destruição tanto do capital como do trabalho via deflação.

Alguma dúvida de que esse mal ataca, no momento, a economia dos países capitalistas desenvolvidos? Onde, senão na Europa, nos Estados Unidos e no Japão, tais condições pre-concebidas por Marx se encontram, plenamente, maduras?

Interessariam aos falcões da guerra o avanço da discussão socialista, no rastro da debacle financeira capitalista, senão como fator de estímulo ao rearmamentismo guerreiro de resistência? 

A indústria da guerra emergiu justamente para evitar o amadurecimento das condições que levam ao socialismo, segundo a tese marxista.

 

 

Limites estreitos para agir

 

Barack Obama pilotará uma conjuntura altamente explosiva, se a desaceleração econômica ganhar força auto-destrutiva, nos próximos meses, temor de muitos especialistas. Poderia, pressionado pelo Pentágono, redobrar sua aposta na pregação de Keynes, cuja essência é aumentar a produção de não-mercadorias, ou seja, a guerra, produtos bélicos e espaciais.

A Secretária de Estado do presidente eleito, senador Hillary Clinton, será a voz da guerra ou da paz?

O grande repórter inglês, Robert Fisk, do Financial Times, disse que escarafunchou todos os discursos de Obama até agora e não viu nenhum indício de plano para a paz no Oriente Médio. Apenas vagas referências à disposição de criar ambiente para aprofundamento do diálogo… Puro éter.

Como Obama priorizaria a paz , se só a agressão imperialista ao Iraque rendeu gastos públicos de cerca de 10 trilhões de dólares para dinamizar o complexo industrial militar norte-americano, segundo o economista Josef  Stiglitz, prêmio nobel de economia?

A guerra fria, que se estendeu dos anos de 1950 até final dos 80, jogou na circulação capitalista 15 trilhões de dólares, segundo o Instituto Pew, admirado por tal fenômeno não ter sido considerado pelos economistas, no período, como fator fundamental da praxis da macroeconomia capitalista.

Não fosse esse dinheirão todo, expresso em emissão monetária, que implodiu o padrão-ouro, nos anos de 1970, os Estados Unidos não teriam cumprido a previsão de Keynes, de que Tio Sam conheceria sua própria força se apostasse todas as suas fichas na economia de guerra. O estado industrial militar é o produto final da pregação keynesiana, como destaca Lauro Campos, em “A crise completa – Economia política do não”(Boitempo, 2002).

 

 

Jogo do engana que gosto

 

O avanço da guerra no Oriente Médio significa a garantia da preservação dos interesses do estado industrial militar americano. O resto é ficar na marolinha de fixar responsabilidades em torno da questão de (falta de)  princípio quanto a quem, nesse momento, começou a jogar pedra um no outro. Jogo do engana que gosto.

Exime-se da questão de fundo, ou seja, da existência de um contexto social, econômico e político, no qual se insere o conflito árabe-judeu, no laboratório explosivo da indignidade humana que se realiza na Faixa de Gaza.

Tal estrutura produtiva guerreira , para os palestinos, representa uma agressão permanente, porque produz, na Palestina, a falta total de perspectiva para a população, engaiolada sob experimentação de cientistas que testam armas de última geração contra armas obsoletas.

Encurralados, sob agressão, os palestinos se exercitam psicologicamente para o revide à castração da sua identidade como povo. Tudo se transborda em doses cada vez mais radicais, como comprova a preponderância do discurso do Hamas como expressão da maioria palestina.

Se eles se sentem agredidos permanentemente, sem liberdade para o comércio, para a cultura, para a política, para se organizar nos moldes da civilização, os foguetes lançados pelo Hamas  representam, evidentemente,  revide à essa permanente agressão, em forma de expansão das colônias judaicas sobre o território alheio e de escaramuças diárias contra a população na sua tentativa de afirmar o que não possui, o direito de ir e vir.

Isola-se a agressão, como fator em análise, não como fruto de uma conjuntura construída, historicamente, mas como se fosse fenômeno exterior à realidade, com vida autônoma, abstrata.

 

 

Senhora da guerra ou da paz?

 

A impossibilidade de os palestinos conquistarem o Estado Palestino, assim como aconteceu com os judeus, até antes de 1948, quando, com apoio dos Estados Unidos e da Inglaterra, principalmente, conquistaram o Estado Judaico, impõe-se como fator positivo para a indústria de armas.

Ela significa fogo de resistência palestina à indignidade humana que mantém o clima de guerra propício à reprodução do complexo industrial militar em escala global.

Sem se constituir em estado, a nação palestina, do ponto de vista da civilização organizada pelo direito positivo ocidental, simplesmente, inexiste.

Na marginalidade do concerto das nações, no mundo atual, a expressão política palestina torna-se essencialmente marginal, portanto, ilegal, enfim, terrorista.

Manter o clima de exclusão da nacionalidade, imposto pela conjuntura de guerra, germina, aos olhos dos falcões da guerra, semente terrorista, oxigênio para sobrevivença da estrutura produtiva e ocupacional guerreira em Israel.

Obama recebe o duro recado: se for falar com o Irá, que arma o Hamas, estará dando um tapa na cara do complexo industrial militar americano. Hillary Clinton, secretária de estado do governo obamista,  iria a Teerã ou ficaria, apenas, no circuito Washington-Telavive?

Crise fragiliza democracia

 

Cria novo ambiente político e econômico no país a decisão do presidente Lula de emitir títulos da dívida pública, via medida provisória, para garantir recursos ao Fundo Soberano Brasileiro(FSB), capaz de alavancar investimentos governamentais, destinados a sustentar o desenvolvimento das forças produtivas, ameaçadas pela paralisação do crédito, barrado pelos juros altos monitorados pelo Banco Central em favor dos interesses da bancocracia nacional.

A providência presidencial dá conta da necessidade de a governabilidade, sob a crise, ganhar celeridade, algo somente possível por meio de MPs, que impõem, no processo democrático em curso, permanente provisoriedade democrática.

Esse caráter institucional deteriorado da democracia brasileira, configurado pelos governos neorepublicanos, produz, como consequência, precarização da própria democracia, na medida em que as decisões, para superar os impasses que emergem, no calor da desaceleração econômica global, exigem efetivações mais rápidas que as prolongadas discussões em torno delas, decorrentes do antagonismo natural do confronto democrático no parlamento. O executivo passa a funcionar como trator sobre o legislativo, alterando suas determinações. Viola atribuições do Congresso, impondo uma ditadura branca.

Os congressistas tentam reagir, mas se encontram prisioneiros da nova conjuntura econômica e política emergencial. Eles haviam aprovado a lei 11.887, que cria o FSB, com recursos previstos de R$ 14,2 bilhões, mas impediram a utilização deles  por meio de aberturas de crédito orçamentários sem deliberação congressual, salvo mediante projeto de lei. Sem poder lançar mão de MP para obter rapidamente o dinheiro que julga necessário para enfrentar a crise, em forma de abertura de crédito orçamentário, proibido por lei, o titular do Planalto decidiu inovar, na base da ditadura executiva. Emitiu nova MP – a de número 452 – , agora, destinada a autorizar emissão de títulos públicos no valor previsto para a formação do próprio FSB. No mesmo dia, 26.12, em que a lei foi publicada no Diário Oficial, nascia, ao seu lado, MP que a alteraria. Show de autoritarismo executivo.

A oposição, que tentou colocar um freio na governabilidade provisória em que vive o país desde o nascimento da Nova República, em 1985, afetada pela crise monetária dos anos de 1980, que a subordinou aos ditames do Consenso de Washington, partirá para contestatação da decisão presidencial no Supremo Tribunal Federal. Conseguirá, no momento em que o governo age sob impacto da bancarrota financeira internacional, que torna todas as ações governamentais essencialmente emergenciais, conforme espírito das próprias MPs, de modo a criar expectativas positivas nos agentes econômicos apavorados com o fantasma da desaceleração econômica e da emergência do desemprego?

Ou concordarão os juízes com o caráter autoritário que vai tomando conta do poder executivo, rendido pelos acontecimentos, que impõem a precarização crescente do processo democrático, já super-afetado pelo excesso de MPs, bloqueadoras do funcionamento normal do poder legislativo?

 

 

A tentação autoritária

A questão central, como destacou o economista Luís Carlos Mendonça de Barros, na GloboNews, ao repórter Carlos Alberto Sardemberg, é a operacionalidade entre a decisão tomada e a ação efetiva provocada por ela, no ambiente novo da crise global, que atropela o legítimo jogo democrático caracterizado, essencialmente, pelo contraditório.

Nesse sentido, o economista previu que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, poderá enfrentar grandes desafios, cuja superação, rápida, implicaria expedientes semelhantes ao das medidas provisórias brasileiras. Tudo bem rapidinho, para não sofrer atrasos exagerados.

O governo de composição consensual obamista, que prevê participação de republicano e democratas, conferindo perfil novo no cenário americano, como sinal dos novos tempos, a exigir consensos em torno de polêmicas emergentes, requer essa nova lógica. Além disso, há a vantagem de garantia de maioria na Câmara e no Senado americanos, para tornar céleres as decisões executivas, algo ainda considerado incognita no contexto da democracia americana, em que os embates se efetivam com grande dose de confrontos de interesses.

O presidente eleito promete jogar na circulação, também, o seu fundo soberano, na casa dos 800 bilhões de dólares, para começar, a fim de renovar, de cima a baixo, a infra-estrutura dos Estados Unidos. Pretende, dessa forma, gerar, rápido, até onde for possível, 2,5 milhões de novos empregos, pelo menos.

O xis da questão, como destacou Mendonça de Barros, estará na operacionalização. Não se faz imediatamente a ponte entre a decisão e a ação. O processo implica em discussão no Congresso, onde Obama, poderá contar com a maioria democrata disponível.

Mas, ainda assim, não se tem a tradição de rapidez. Basta observar o tempo entre a decisão governamental do desmoralizado presidente W. Bush de destinar recursos para enfrentar a crise e a liberação deles para salvar a indústria automobilística do caos.

O processo, no ambiente de sufoco, parece que não anda, lento, incapaz de evitar o pior, ou seja, o avanço do desemprego, fantasma que apavora a todos.

A morosidade democrática seria empecilho ou a celeridade democrática emergia como resposta às imposições da própria crise?

 

 

Lapso freudiano chinês

A democracia americana estará, sob Obama, enfrentando grande teste. Ao mesmo tempo, como destacou o economista neokeynesiano, Paul Krugman, ao lado dos investimentos públicos, tem que estar uma estrutura poderosa, estatal, de fiscalização, para acompanhar a aplicação dos recursos, algo, também, que não acontece de uma hora para outra. Um mês já é tempo demasiado.

Como compatibilizar essa aparente morosidade intrínseca à instalação de uma nova institucionalidade, dada pela decisão governamental de colocar o Estado, mais decisivamente, à frente do processo econômico, com a pressa exigida pelos estragos produzidos pela crise em forma de demissões em massa nas fábricas, no comércio e nos serviços, produzindo desaceleração, recessão e depressão, com o elemento desconfiança instalado no coração do sistema capitalista?

Luís Carlos Mendonça de Barros, num lapso freudiano, disse a Sardemberg que tudo seria mais fácil se o fato ocorresse não nos Estados Unidos, mas na China, onde não há demcracia. A distância entre a decisão para agir e a ação efetiva propriamente dita, operacionalizando providências, rapidamente, seria minimizada. O parlamento seria ultrapassado. Ditadura seria solução?

Ou seja, o cenário da provisoriedade democrática, que está sendo expressa na ação do presidente Lula, acelerando medidas provisórias, em resposta à emergência recessiva global, estaria sendo instalado como salvaçao do capitalismo em bancarrota.

As consequências que a democratização provisória em marcha, justificada por nova conjuntura, impõe, representam desafios para a própria democracia, cuja capacidade de superação somente o tempo dirá se será efetiva ou não.

Desemprego sinaliza pacto social

 

 

O presidente Lula, em meio às circunstâncias decorrentes da desaceleração econômica, pode ser obrigado a convocar pacto social, para coordenar as demandas do capital e do trabalho que estão explodindo com o aumento do desemprego. Detonado pela deflação, na Europa e nos Estados Unidos, cujos resultados práticos são destruição simultânea dos empresários e dos trabalhadores, com queda dos preços e da taxa de lucro, o desemprego, que chega à periferia capitalista, de forma violenta, altera radicalmente as agendas políticas e econômicas.

 

O presidente Lula, preocupado, na quinta, 18, lançou palavra de ordem de que não há motivo para demissões. Não está sendo atendido pelos desesperados empresários, que vão aos bancos, no sufoco, para tomar emprestado a juros escorchantes, a fim de pagar o décimo terceiro salário, ao mesmo tempo que sinalizam férias coletivas depois do natal e ano novo. 
Na semana passada, o titular do Planalto reuniu com os empresários; na semana que vem, antes das festas natalistas, fará o mesmo com as lideranças sindicais laborais. Não fez isso durante a semana, porque teve que coordenar a reunião dos líderes sul-americanos e caribenhos que adotaram , em Salvador, a decisão histórica de recriar, praticamente, a OEA, excluindo os Estados Unidos e Canadá e incluindo Cuba, enxotada a 46 do convívio latino por Tio Sam.
A tensão desatada pelo desemprego tende a levar empresários e trabalhadores a uma agenda comum: a CNI pede juros mais baixos e desoneração tributária geral. As centrais sindicais, da mesma forma, exigem redução do imposto de renda dos trabalhadores e se dispõem a pregar a demissão do presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, se os juros não começarem a cair na próxima reunião do Conselho de Política Monetária(Copom). O desenvolvimento seria o ponto em comum.

Afif teria o apoio de Serra?

Sob intensa pressão, o titular do BC acena queda da taxa a partir de janeiro, enquanto o governo vai renunciando parte da arrecadação, para sustentar mínimo de atividade econômica, logo no incio de 2009, que se prenuncia terrível. Tudo ainda fica pior com corte de quase R$ 20 bilhões no orçamento não-financeiro da União cujas consequências para os investimentos públicos serão fatais. Somente o orçamento financeiro, os pagamentos dos juros, não são mexidos, mas mantidos em alta.
A inquietação toma conta dos trabalhadores, porque os empresários, não satisfeitos, apenas, com as desonerações tributárias e pregações em favor da redução dos juros, insistem em diminuição dos custos de contratação do trabalho como pré-condição para não demitir. Ainda assim não garantem nada.  
Emergem Inquietação e tensão extraordinárias nas cúpulas sindicais conservadoras, temerosas de serem ultrapassadas por bases radicalizadas, se o desemprego ampliar-se, incontrolavelmente. Adestrados pela política de acomodação governamental com ONGs e sindicatos, favorecendo-lhes, na base de todos os tipos de benesses, os sindicalistas se transformaram em acomodados, no rítmo do aquecimento global, ao longo dos últimos cinco anos. A farra acabou e não têm o que oferecer aos liderados em forma de autêntica defesa sindical, salvo politicagens.
O secretário de Trabalho do Estado de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, do Democratas, em meio às polarizações entre capital e trabalho, que se formam no compasso do avanço das demissões, avalizou proposta altamente polêmica da FIPE – Fundação Instituto de Pesquisa Econômica – ,  que propõe suspensão por dez meses dos trabalhadores para evitar demissão. Mexida na legislação trabalhista. O governo toparia? O Congresso aceita discussão? As centrais sindicais dirão o quê?
Nesse período , o trabalhador afastado teria garantido seguro-desemprego, sem desligar-se da empresa. Esta, no entanto, não teria nenhum custo trabalhista, algo ainda não devidamente configurado como proposta objetiva. Os empresários não recolheriam obrigações com Previdência Social e outros compromissos trabalhistas. 

Monteiro põe água no chope de Lula

Desemprego sem salário ou desemprego com seguro-desemprego por dez meses, provavelmente, bancado pelos cofres públicos, em nome da sustentação do consumo interno, que garantiria arrecadação tributária, para o governo, com recursos, sustentar investimentos do PAC? Bolsa Desemprego à vista. 
A proposta promete grande agitação política no Congresso Nacional nos primeiros meses de 2009. Nesse período, como prevêem os analistas, a situação estará negra, com aprofundamento da recessão mundial, distribuindo incertezas generalizadas. 
As relações entre capital e salário, nesse novo cenário, sinalizam tensões crescentes. Caso predomine a previsão da Confederação Nacional da Indústria(CNI), de crescimento de 2,5% a 2,9% do PIB, contra a previsão oficial de avanço do PIB em 4%, 4,5%, como destacou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na TV Brasil, na quarta, 17, serão perdidos cerca de 2 milhões de empregos no setor industrial, segundo o economista e sociólogo, José Pastore, da USP/CNI.  A taxa de desemprego, que está inferior a 7%, historicamente, baixa, cadente, aponta para 9%, 10% e 11%, ascendente.  
Catástrofe política para o presidente Lula, que, como representante do Estado, em forma de governo, teria que equilibrar-se entre as classes sociais antagônicas, apelando para um pacto, no qual buscaria arbitrar as perdas. 
O produto final de eventual pacto social é uma incognita, mas, caso dê certo, pode criar motivação para transformar o presidente em verdadeiro ídolo popular cujas consequências irresistíveis seriam fortalecimento da defesa de terceiro mandato, embalada, na última semana, pelos integrantes da coalizão governamental na Câmara dos Deputados. Teria a hora de Lula vestir o macacão de metalúrgico, sentado na presidência da República?

Assistencialismo e terceiro mandato

Não seria possível, com base nos dados da CNI, cumprir compromisso com não demissão de trabalhadores, conforme deseja o titular do Planalto. A alternativa para ele, como se comenta no Congresso, seria ampliar, compensatoriamente, o assistencialismo econômico-político, isto é, criar dois milhões de novos cartões do bolsa família, para socorrer os dois milhões de novos desempregados diretos e 6 milhões de novos desempregados indiretos. Vale diz, ampliação dos gastos públicos para sustentar o consumo interno.  
O ministro Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que comanda o Bolsa Família, já admite tal hipótese. O presidente, até agora, teria ampliado para 8 milhões a oferta de cartões, com promessa de chegar aos 12 milhões no final de mandato. Na crise do desemprego, essa quantia poderia subir para 15 milhões de famílias. Seriam mais de 100 milhões de beneficiados direta e indiretamente. Combustível irresistível para o terceiro mandato na base do assistencialismo crescente, determinado pela nova conjuntura, sob argumento lógico de que se estaria incrementando a demanda interna para agitar produção e consumo ameaçados.
Os partidos políticos entrarão em 2009 sob pressão total da crise, sinalizando ampliação do assistencialismo econômico e político, enquanto se busca compatibilizar interesses dos empresários e dos trabalhadores , ameaçados pela deflação, que produz, com o desemprego, radicalizações políticas ampliadas.
A esquerda, nesse contexto, vai aprofundar a discussão que se espraia na América do Sul, ou seja, o questionamento da dívida pública governamental, como bandeira política. Renegociação da dívida, redução do superavit primário, diminuição acentuada da taxa de juros, enfim, pressão sobre o sistema financeiro, eis a agenda esquerdista, na tentativa de radicalizar posições dos trabalhadores, rompendo conservadorismo das lideranças sindicais.

Calote? Renegociação? Auditoria?

Está em marcha agitação nesse sentido, no rítmo de aceleração do desemprego. Tal possibilidade foi dada, com aprovação, pelo presidente da Câmara, deputado Arlindo Chinaglia(PT-SP), de CPI destinada a investigar e auditar a dívida nacional, externa e interna, visto que a interna é, historicamente, a externa internalizada.
Como Chinaglia já está de olho em 2010, para disputar, como candidato petista, o governo de São Paulo, sua ação à moda chavista-correista-evomoraleista, para promover renegociação da dívida, antecipa lutas ideológicas que estariam queimando na próxima eleição.
O presidente Lula, portanto, terá pela frente diversos desafios políticos que  exigirão habilidade para coordenar diferentes interesses politicamente antagônicos em meio a uma conjuntura econômica , caracterizada por novo fenômeno dado pela fixação do juro zero nos Estados Unidos e na Europa, que pode ser motor para justificar renegociações de dívidas, pois afinal está em curso, efetivamente, a eutanásia do rentista. 
Sob esse novo padrão de financiamento expresso no juro zero, como alternativa para dinamizar o consumo e a produção,  pode entrar em colapso a divisão internacional do trabalho, fixada no pós guerra, na qual os Estados Unidos se estabeleceram como pólo consumidor mundial para dinamizar as economias aliadas. Balança perigosamente o instrumento criado para animar essa estratégia, ou seja, o dólar. 
Emitido sem lastro,  para garantir os títulos da dívida pública americana atrativa aos investidores, o dólar, sob juro zero, deixa de ser atrativo aos aplicadores. Se os títulos ficam desinteressantes ao investidor, por que continuar comprando-os, referenciados no dólar? 
Sobrariam títulos e dólares que se desvalorizariam, necessariamente, criando tensões monetárias e financeiras inusitadas, no cenário do desemprego.

Política como solução

Como será possível amarrar as pontas dos interesses em confronto, sob mesmo impacto destrutivo, senão pela política, já que estão fracassando espetacularmente todos os remédios econômicos disponíveis, como destaca o economista Carlos Eduardo Carvalho, da PUC/SP. 

“As elites intelectuais, políticas e financeiras” –  diz ele – “sabem que esta produção econômica acadêmica de suas universidades não serve para nada nos momentos em que é necessário tomar decisões com grande grau de incerteza”. 
O desemprego, se continuar expandindo, apesar das medidas salvacionistas aplicadas pelo presidente, como a emissão/injeção de quase R$ 100 bilhões na circulação, na quinta, 17, para irrigar o crédito, acabará impondo sua própria lógica, ou seja, corrida pela busca de ações políticas articuladas, na tentativa de alcançar consenso, para acomodar situação desesperadora. 
O que vai pintando como salvação, até o momento, é a intervenção estatal financeira direta por meio dos bancos oficiais, de forma mais agressiva, para tentar normalizar a oferta de crédito, bloqueada pelo jogo duro imposto pelos bancos privados, temerosos quanto ao aumento do risco trazido pelas incertezas. 

Rabo governa cachorro

Amplia-se, em nome do interesse público, da salvação do capital e do trabalho em crise,  o oligopólio financeiro estatal, de um lado, como fator compensatório em relação ao avanço do seu contrário, ou seja, o oligopólio financeiro privado. 
O oligopólio financeiro estatal em confronto com o oligopólio financeiro privado vai se constituindo em lastro para as ações salvacionistas. Caso contrário, o desbalanço em favor da expansão do desemprego jogaria, politicamente, por terra o governo Lula, nos dois anos finais de poder petista. 
Para evitar tal vaticínio, o governo terá que gastar, pressionando a dívida e a inflação, a fim de acomodar interesses em conflito dos empresários e dos trabalhadores e, igualmente, do governo, pois estaria em jogo queda da arrecadação e falência consequente do PAC.
Ganhariam(não se sabe até quando), apenas, nesse ambiente, os bancos, pois, afinal, em tal conjuntura, na qual os riscos se elevam, estariam exigindo juros mais altos do governo, para rolar a dívida interna que sobe com as desonerações para manter sob controle os preços, evitando pressão altista do juro. Não haveria inflação aparente, expressa nos preços das mercadorias, mas , latente, traduzida em aumento da dívida. A dívida passa a crescer, dialeticamente, no lugar da inflação. Pinta a inflação subterrânea.
O perigo seria os juros não baixarem, pois o aumento da dívida sinalizaria maiores riscos cuja resposta pelos bancos se expressa em juro alto. Enfim, cachorro correndo atrás do próprio rabo, sendo o rabo o gerente do cachorro.

Latinos ensaiam resistência aos EUA

 

O fato histórico fundamental da reunião da Cúpula da América do Sul e do Caribe foi o consenso de que as duas regiões têm que atuar sem  precisar  pedir licença aos países desenvolvidos, que, na crise global, não podem mais dar as cartas como antigamente. Especialmente, aos Estados Unidos, que, desde o lançamento da Doutrina Monroe, em 1823, interfere, sistematicamente, no destino sul-americano e caribenho. Tal doutrina, inicialmente, orientada para garantia as Américas para os americanos, acabou se transformando nas Américas para, tão somente, os americanos do norte. Passaram a disputar espaço imperial com Europa, para sacar as riquezas continentais que sustentam, historicamente, a taxa de lucro ascendente do capital americano e europeu.

O histórico consenso sul-americano e caribenho, articulado pelo Itamarati, para abrir a Cuba o seio da comunidade latino-americana, superando sua segregação vigente há cinco décadas pelo poder imperial de Tio Sam, cria o ambiente para o pacto social tanto no plano continental, como, igualmente, no interior de cada país integrante da América do Sul e do Caribe, em meio à crise global, como forma de minimizar seus efeitos destrutivos e preparar sua superação via cooperação econômica. Marco histórico da reunião dos líderes na reunião na Costa de Sauípe, na Bahia. Fortalece mecanismo regional de deciões e abre-se portas para o socialismo, no rastro da derrapada capitalista. Saravá.

No plano interno, nacional, se o presidente Lula não promover pacto social já, dificilmente, conseguirá manter governabilidade, daqui prá frente, quando as categorias sociais antagônicas se lançam umas contra as outras em face da emergência do desemprego antevisto pelas previsões altamente pessimistas divulgadas pela Confederação Nacional da Indústria, na quarta, 16.12.

Já, já, os governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, levantarão a bandeira do pacto social, se o titular do Planalto bobear.

A perda do emprego coloca o trabalhador na total radicalidade política. Passam por cima das lideranças político-sindicais conservadoras.

Os empresários não estão vendo outro jeito de sustentar a atividade, em face da escassez do crédito. Ameaçam com demissões. O mesmo ocorre na América do Sul, onde os governos gastam, mas o juro alto permanece engordando os bancos e ameaçando o sistema econômico.

Os trabalhadores , completamente, apavorados, porque as lideranças sindicais atuais desaprenderam de fazer política, ao longo da Nova República neoliberal, fenômeno internacional, inquietam-se, extraordinariamente. Temem ir para o olho da rua.

 

Redução dos salários. E os juros?

Nesse ambiente, cresce não o desejo do aumento de salário, mas do emprego preservado. O Correio Braziliense, por exemplo, como protesta em nota o Sindicato dos Jornalistas do DF, despediu, essa semana, 81 trabalhadores. Os jornalistas estão na corda bamba.

A situação é preta para todos os lados. Na Europa, idem. Desempregos em pencas, povo já indo para as ruas, agitando sociólogos e cientistas políticos, estimulados a verem novos fenômenos políticos radicais em ação prospectiva, para testar a democracia.

Aceita-se a redução temporária dos salários, desde que se contine trabalhando. É o que vira moda. Empobrecimento coletivo. Salve-se quem puder. Na América do Sul e Caribe, idem. Todos no mesmo barco.

A impossibilidade de a produção se realizar no consumo bloqueda pela suspensão do crédito direto ao consumidor desmonta o sistema econômico e os desempregos explodem.

O pânico entre trabalhadores e empresários está formado.

O governo , prisioneiro do seu próprio endividamento, cujo financiamento dispara na crise, com os juros altos, está tomando medidas tópicas, sem um plano geral. Tenta pairar sobre as classes sociais, jogando de um lado a outro.

De um, socorre os ricos: os empresários levam desonerações fiscais, para bancar taxa de lucro cadente afetada pelos juros que bloqueiam investimentos. De outro, lança âncora para a classe média: cala boca mediante redução de alíquota do imposto de renda.

Na outra ponta, os assalariados em geral se apavoram com as notícias terríveis desencadeadas pela recessão. Reanimação geral do sindicalismo. Desperta-se, assustado, para uma nova realidade para a qual não estava preparado.

Só quem ganha nesse jogo são os bancos grandes oligopolizados. Negam-se a cooperar com o governo , salvando-se bancos pequenos encalacrados, e só oferecem crédito caro. Já cobram 18% para rolar a dívida, como a analista contábil, especialista em dívida pública, Maria Lúcia Fattorelli Carneiro, da Secretaria da Receita Federal. Ou seja, 5 pontos percentuais acima da taxa b ásica de juros, selic, considerada a mais alta do mundo. Armadilha para o massacre.

 

Miseráveis entram na dança

Junto com os bancos, é bem verdade, ganham, igualmente, os miseráveis, que dispõem do cartão de crédito do programa bolsa família, no qual o governo coloca poder de compra para sustentar o consumo interno.

São oito milhões de famílias que abrangem um universo de 50 milhões de pessoas. O presidente Lula havia prometido ampliar para 12 milhões. Vale dizer, perto de 70 milhões de esfomeados. Se chegar aos 15 milhões de cartões de crédito, caso a necessidade, imposta pela crise, determine, serão quase 140 milhões de beneficiados.

O terceiro mandato presidencial ficaria irresistível. Estaria garantida barriga cheia que impede proliferação de assaltos e roubos, pavor da classe média. Fidel Castro aprendeu que não se faz revolução de barriga cheia.

Na crise, essas categorias sociais – empresários, trabalhadores, desempregados, miseráveis etc – , tendentes a ficarem amplamente antagonizadas, em seus respectivos interesses, transformam-se em estopins políticos altamente explosivos.

Caso não haja uma articulação organizada desses interesses, todos, indistintamente, envolvidos em um mesmo vendaval, o da terrível deflação, que destroi capital e trabalho, velozmente, tornando-se o verdadeiro pavor do sistema capitalista, o governo pode perder o controle da situação.

Um plano de ação articulado consensualmente pelo pacto político social torna-se, no embalo das expectativas pessimistas, imperativo categórico.

A voz do governo, sobreposta às classes sociais em conflito relativo, representa soberania do Estado, único ente capaz de ajuizar acordos amplos. Caso contrário, a vaca pode ir pru brejo.

 

Buraco profundo

O buraco é mais embaixo. Barack Obama está, simplesmente, apavorado. Reconheceu que os instrumentos disponíveis pela economia capitalista, nessa hora, estão perdendo efeito.

Como exercitar o pacto social, somente com o discurso econômico?

Os juros a zero por cento, ou seja, a completa eutánasia do rentista, caso típico de deflações, transforma-se num elástico que perdeu total elasticidade. Vai, mas não volta. Lassidão,  areia movediça sobre a qual afundam as expec tativas do capital e do trabalho.

Os interesses dos trabalhadores, dos empresários, dos bancos, dos governos estaduais e do governo federal estão, simultaneamente, no mesmo barco com pesos relativos desproporcionalmente divididos, sem abrir espaço a possivel homogeneidade.

O momento requer ampla discussão, característica de pacto político na base do desespero, enquanto ainda tem tempo, para criar, quem sabe, novo paradigma.

Os modelos fracassaram. Como destacou muito bem o economista Carlos Eduardo Carvalho, em “A intervenção estatal na crise e o chamado neoliberalismo”, Valor Econômico, 11.12, as elites intelectuais, políticas e financeiras sabem  que esta produção acadêmica de suas universidades não serve para nada nos momentos em que é necessário tomar decisões com grande grau de incerteza.

A realidade capitalista em crise é um livro aberto que não será escrito por modelos pré-estabelecidos norteadores da cabeça da grande mídia e do pensamento alienado que a crise expõe cruel e sarcasticamente.

O peso da política é que determinará o processo. O resto é conv ersa fiada. Se o governo, os empresários, os trabalhadores e os políticos ficarem fiando nas previsões econômicas, cumprirão um destino pré-estabelecido. Burro.

 

Política, a arma superior

A politica, sendo a arte superior da humandidade, como disse Sócrates, tem que, necessariamente, entrar em campo. Se não, pinta, sem dúvida, novos hitleres, novos mussolinis, novos stalins, novos francos, novos getúlios, com o discurso salvacionista de botar ordem na casa, na base do nacionalismo radical. A massa poderia aplaudir.

A inelasticidade do sistema para sair do buraco, por meio do juro baixo, que tenta, inutilmente, fugir da deflação, por meio da inflação, demonstra, simplesmente, que perdeu utilidade a inflação keynesiana, que o mundo pratica, escondendo ela, dialeticamente, atrás da dívida pública interna, desde os anos de 1930 em diante, para tirá-lo do crash de 1929.

Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”(1980, Campus), com prefácio de Edmar Bacha,  e em “A crise completa – economia política do não”(Boitempo, 2002), explica, didaticamene, o processo, seguindo os passos de Marx.

A deflação é a expressão final da contradição entre o desenvolvimento exponencial das forças produtivas, de um lado, e o das relações sociais da produção, sob capitalismo, de outro, gerando, simultaneamente, sobreacumulação e subconsumismo, especulação e queda geral de preços, jogando a taxa de lucro no chão.

Esse é o momento vivido pela Europa e Estados Unidos, que cumprem, do ponto de vista marxista de desenvolvimento do capitalismo, as condições necessárias para a superação da contradição fundamental do capital, que abre espaço a outras alternativas.

Lenin destaca que nada mais desorganiza a sociedade e a predispõe, consequentemente, à radicalização política do que a deflação que produz intensas desorganizações monetárias.

Nesse contexto, que o líder soviético favorável à emergência irresistível do socialismo, emerge o Estado, para salvar a produção e o consumo em colapso, salpicado por tremendos casos de corrupção do sistema, como evidencia o sensacional golpe financeiro de Bernard Madoff.

A reunião de Salvador, dos líderes sul-americanos, que dispõem da riqueza abundante de matérias primas das quais dependem a manufatura mundial em colapso, demonstrou o caminho a seguir: a integração e a valorização das riquezas sulamericanas, que precisam, mediante segurança sulamericana, lastrear, concretamente, a moeda sulamericana. Urgente.

A busca da união continental é ensinamento político clássico que deve nortear o presidente Lula, internamente, para o consenso via pacto político, no compasso da destruição acelerada dos empregos.