Crise favorece retorno de Roriz ao poder no DF

Situação internacional favorece tentativa de Roriz de voltar ao palco político no Distrito Federal no momento em que o desgaste político toma conta do governador Arruda, pego em cheio pela bancarrota internacionalVicentine, como num enredo de novela, volta à cena no Distrito Federal, para, ao lado de Roriz, tentar mandato parlamentar, na oposição ao governador, seu ex-marido

O governador José Roberto Arruda(DEM-DF) está passando pelo inferno astral político. Ele e seus colegas governadores, não se excluindo, principalmente, o presidente Luís Inácio Lula da Silva. Todos tentam embarcar na Arca de Noé, para se salvarem do dilúvio econômico universal. Não está fácil. Nesse contexto, o caminho se abre para a oposição. Se esta, em outras oportunidades, fichinhas perto do tremor de terra que representa a crise econômica global em curso, teve bons resultados ou se seu representante teve condições de exercitar uma relação estreita com a população, as chances de retorno ao poder são grandes. Pode ser o caso do ex-governador Joaquim Roriz, que renunciou para não ser cassado por corrupção com perda de mandato de senador eleito em 2006. Ele se prepara para voltar em grande estilo, tendo como estandarde a ex-mulher do governador Arruda, a talentosa atriz Mariane Vicentine. Separada do marido, logo que este assumiu o poder, casando outra vez, com Flávia, agora, lançada politicamente por ele para tentar ser popular, comandando programa social, numa típica jogada política peronista sulamericana, Mariane Vicentine volta à cena nos braços políticos do PMDB, com Roriz, para disputar mandato parlamentar. O Distrito Federal assistirá espetáculo jamais visto na história política recente do país. O ex-governador busca sensibilizar o senso feminino da capital, jogando em cena a ex-mulher do governador como astro político na campanha eleitoral. Roriz feminista.

O governador José Roberto Arruda e seu vice, empresário Paulo Octávio, foram pegos no contrapé pela crise. Assumiram o governo com a capa de Maquiavel. Fazer o mal de uma só vez e o bem aos poucos. O titular do Buritinga fez a maldade numa pancada. Demitiu mais de 16  mil aliados populares do ex-governador Roriz abancados na máquina administrativa, em fundação social, como cabos eleitorais rorizistas.  Se se multiplica 16 x 5(integrantes de cada família do demitido ou demitida), tem-se 80 mil pessoas que imediatamente passaram a ter ódio do governador. Milhares de votos foram para a fogueira. Logo em seguida, em rumoroso e excitante desdobramento de vida familiar, rolou novo casamento, que incendiou a imaginação da capital totalmente fofoqueira.

Dois episódios, um familiar, que não deixa de virar público, porque público é o governador, a partir do momento em que assume o cargo e se expõe material e espiritualmente ao povo; outro, político, a demissão em massa de rorizistas, ocupantes de cabides de emprego em fundação de serviço social, cuja função era, indiscutivelmente, fazer populismo político – eis os codimentos que temperarão a luta política no DF.

Ao meter o pé na barraca de Roriz, Arruda inviabilizou possibilidade de conquistar o coração dos rorizista ao longo de sua trajetória. E ao deixar a ex-mullher e casar rapidamente com outra, criou indisposição surda com o voto feminino.

O fervor que os partidários de Roriz evocam promete radicalismo. Não menos fervoroso e radical pode vir a ser, também, o voto feminino no DF. Tudo misturado, no compasso geral da crise que inviabiliza economicamente o governo e o coloca sob pressão total do desemprego, tende a favorecer Roriz.

Pegos no contrapé pela crise

Governador e vice estão sob ameaças por ter preferido o econômico ao social, pensando em primeiro enxugar e econmizar, para depois gastar, no momento errado, porque a crise emergiu e levou as economias que poderiam garantir segundo mandatoOs dois episódios, que deixaram a familia brasiliense antenada na situação política e familiar governamental e nos seus desdobramentos ao longo dos últimos dois anos, não contribuiram, por sua vez, para transformar o governador Arruda em político carismático, como é o caso de Joaquim Roriz, amado pela população pobre, porque viveu tempo especial de bonança, por meio da qual construiu capital político popular de grande estoque no tempo.

José Roberto Arruda , ao destruir o paiol populista rorizista não construiu outro no lugar, imediatamente. Conferiu característica mais econômica que social ao seu perfil governista, na medida em que jogou , maquiavelicamente, o neoliberalismo radical. Primeiro a economia, custe o que custar; depois, o social. Ou seja, o inverso das prioridades de Roriz.

Arruda partiu para enxugar o governo no plano fiscal e monetário, na base do arrocho, enquanto, ao mesmo tempo, ergueu o discurso da Brasília legal, na tentativa de desmontar o jogo de interesses armados pelo ex-governador Joaquim Roriz, que favoreceu sua relação não apenas com os mais pobres, por meio de agressivo programa social, tão ou mais eficiente do que o patrocinado pelo governo federal, com o Bolsa Família, mas, também, com os mais abastados. Se, de um lado, ficou com sua imagem ligada à desconfiaça de favorecer empreiteiras, isto é, grandes empresários, enquanto tocava as obras que rendiam votos, ao mesmo tempo, tocava programa social, favorecendo os miseráveis. Uma no cravo outra na ferradura.

Com Arruda, essa possibilidade não foi construída, no plano do imaginário. Sem mediação política , o governador destroçou a base social erguida por Roriz e ao mesmo tempo, também, a base econômica que usufrui os serviços de concessão do governo anteriormente concedidos pelo ex-governador, como no caso de transportes de vans.

Embora possa ter havido, como denunciam os arrudistas, jogo de influência na divisão dos interesses, com as vans, tornou-se possível alcançar, no DF, aquilo que o economista inglês, Adam Smith, caracterizou de livre mercado. Os consumidores estiveram sob intensa disputa pelos donos de vans, de modo que esperavam o transporte na própria porta de casa, a preço competitivo.

Arruda destruiu essa base econômica em nome da organização do trânsito, que, infestado de vans, estavam destruindo a paz dos que enfrentam o dia a dia caótico no DF. O governador e o vice, na prática, detonaram o livre mercado de transporte que, atuando sem regras – tipo o mercado financeiro global que foi para os ares – , aterrorizava quem possui carro, m as, de alguma maneira, facilitava a vida de quem não o possui.

Não teria sido o caso de, em vez de destruir essa base econômica vivendo em competição imperfeita, enquadrá-la dentro de rígidas regras de fiscalização econômica e de comportamento estabelecidas pela legislação do trânsito?

Petistas se aliam ao ex-governador

Magela ou Agnelo-Roriz? O jogo do PT-RORIZ-PMDB já está no ar com potencial de fogo elevado com Roriz na cabeça, se a crise se aprofundar e deixar o governador em situação ainda mais crítica, podendo superar seu momento em forma de vitoria em 2010.O fato é que ao destruir a base econômica do transporte disseminado de vans, que, segundo os aliados do governador, constituiam máfias organizadas com o beneplácito do ex-governador, o titular do GDF acumulou  mais uma carga de ódio, agora, de outra categoria social, cujo poder de espalhar veneno político tornou-se imenso, quanto mais foram destroçados em favor da predominância de grupos oligopolizados, mais poderosos financeiramente.  São milhares de bocas a falar mal do chefe do poder.

Arruda e Octávio, no plano do transporte coletivo,  optaram pela elitização da propriedade em vez da disseminação da propriedade, em nome chamada Brasília Legal, cujos resultados positivos foram ofuscados pela radicalidade das medidas corretivas adotadas. Também em nome da legalidade, foram retirados os feirantes dos locais de movimento, bem como limpeza da paísagem em geral, sob abuso da propaganda indiscriminada. Limpou o terreno, transferindo o pessoal para uma feira construída pelo governo, mas distante do consumidor. Mas, quem vai continuar distante do consumidor, com mercadorias acumuladas em estoque, com o compromisso de se formalizarem? Caixão. Acumularam-se mais ressentimentos etc.

Toda essa onda negativa – somada aos insuficientes serviços de saúde, educação e segurança – o governador pensou ser possível removê-los nos dois anos finais de governo, quando teria em caixa dinheiro acumulado com a política maquiavélica praticada nos dois primeiros anos, à moda neoliberal, de cortar despesas e acumular receitas, em nome da governabilidade. Cumpriria, na segunda etapa governamental,  seu tempo de vacas gordas, programando, abstratamente, arrojado cronograma de obras. Estas, claro, se expressriam em votos em 2010, favorecendo segundo madato. Debalde.

No meio do caminho tinha uma pedra. Explodiram as hipotecas imobiliárias americanas no mercado global, empoçando o crédito mundial, quebrando o sistema financeiro europeu e americano e, consequentemente, rompendo o equilíbrio econômico internacional precário sob o domínio do dólar.

O tsunami econômico desorganizou a economia e as finanças de todos os países, atingindo o DF. Na Europa do Leste , a situação está muito pior. Não têm matérias primas nem base industrial, estão endividados e as exportações secaram. Os governos estão caindo em pencas. No Brasil, embora haja abundancia de matérias primas e base industrial forte, a posição do presidente Lula , ainda assim,  começou a sofrer revezes nas pesquisas em meio a uma economia sangrada pelos juros altos. Os governadores e prefeitos, idem.

Sem poder lançar mão do dinheiro que economizou nos dois primeiros anos do governo, o governador Arruda, em vez disso, está tendo, nos dois anos finais de sua administração, que distribuir o recurso economizado para compensar quedas de arrecadação tributária decorrente da bancarrota financeira que desacelerou geral.

Troca seis por meia duzia, fora o desgaste das greves.

Lua de mel no fim

A lua de mel entre Lula e os governadores, entre eles, o governador Arruda, pode estar chegando ao fim, porque não são mais possíveis a sustentação das regras do consenso de washington, que fragilizaram a federação brasileiraOs prefeitos e os governadores estão na lona, com a queda da arrecadação. As dívidas e os prazos terão que ser renegociados e esticados. Para piorar, recebem, como recursos transferidos, apenas, as receitas dos tributos – imposto de renda e imposto sobre produtos industrializados; não vêem a cor do dinheiro das contribuições sociais, responsáveis por mais da metade da arrecadação tributária nacional, pois são abocanhadas, integralmente, pelo tesouro nacional, graças ao neoliberalismo praticado na Era FHC.

Sob orientação dos banqueiros,  do Consenso de Washington e do FMI, os governos neorepublicanos, depois da crise monetária dos anos de 1980, arrocharam neoliberalmente os governos estaduais para pagarem em escala cada vez mais crescente os serviços da dívida pública interna. Superavits elevados , abertura econômica e privatização – eis o que exigiam os credores.

Os neoliberais , agora, colhem o desastre que plantaram em forma de condução da economia, desregulamentando-a, totalmente, sob discurso ideológico favorável ao estado mínimo. A sociedade, argumentavam, teria maior abundância e progresso. Olha o resultado aí! Miséria, fome, desemprego e, certamente, perda de votos.

O governador Arruda e o vice, propagandistas do neoliberalismo, que entrou em crise e pegou-os, como executivos, no contrapé, terão pela frente a propaganda populista distributivista do ex-governador Joaquim Roriz, aliado do PT.

Ambos, PMDB-PT,  almejam evitar que Arruda e Paulo Octávio – a dobradinha seria repetida, na crise, em 2010? – cheguem ao segundo turno, para poderem disputar entre si – Roriz x Agnelo? Magela x Roriz?  – , realizando, no frigir dos ovos, governo de composição, seja qual for o resultado final.

Se Arruda for para o segundo turno, teria Roriz-PT juntos contra ele. Se, ao contrário,  o PT e Roriz  disputarem a segunda etapa, Arruda apoiaria quem? Roriz? Agnelo ou Magela, prováveis nomes do PT? Roriz, parece, conseguiu entrar na Arca de Noé.

No momento em que as massas têm diante de si o espectro da fome espalhada pela crise global, PT-Roriz ou Roriz-PT, na composição eventual da força oposicionista , disporiam de vantagens comparativas geradas pelo desgaste político mundial circuntancial que abala Arruda-PO.

O desgaste adicional com a greve dos professores seria outro buraco político. A disposição da categoria de radicalizar, no momento em que a maior preocupação é evitar a escalada do desemprego, pode favorecer o governador Arruda, fortalecendo-o. Mas, poderá ser algo momentâneo, caso a crise continue desvastando os lares, expulsando trabalhadores, espalhando o pânico social.

O pedido de trégua de 90 dias solicitado aos professores pelo  governador é sua única saída, que pode esconder grande sagacidade. Nos próximo três meses, a situação estaria tão crítica, pelo andar da carruagem, que as reivindicações dos professores soariam abusivas aos pais dos alunos prejudicados.

Seria a hora de Arruda mobilizar a sociedade contra os professores?

Consenso de Washington já era

Se Gordon Brown reconheceu que o Consenso de Washngton chegou ao fim, porque os governadores continuariam sofrendo os desgastes impostos pela regra do consenso, inviabilizando a economia nacional? Não seria ser mais realista que o rei, que está nu?As opções que vão restando aos governadores , na marcha da redução dos recursos, é gritar contra o governo federal. Arruda não faz para cima, com Lula, o que fez para baixo, com os aliados de Roriz, depois que chegou ao poder. Convive bem com Lula, mas luta nos Ministérios para arrumar dinheiro e evitar que haja maiores restrições aos repasses de recursos por meio dos Fundos de Participação dos Estados e dos Municípios, visto que o DF tem direito, constitucional, aos dois.

Ele, no entanto, entra na fila como os demais colegas governadores, esperando pela oportunidade, enquanto os desgastes provocados pela crise avançam, inexoravelmente. Diante da morte, ninguém deixa de gritar. É o que pode acontecer, se o gargalo apertar. Tudo indica que isso pode rolar, nos próximos meses. Analistas credenciados dão de barato três anos de crise. Ou seja, tempo de vacas magérrimas. Contraste total com os   cinco anos de vacas gordas que passaram como vento das tempestades, sem deixar rastro, assombrando governadores e prefeitos.

Certamente, abre-se campo de luta entre os governadores e o governo federal por maior distribuição de recursos da receita tributária em nome de pacto federativo. O foco da luta pode ser a defesa, pelos governadores, de maior naco de carne das contribuições sociais, cuja arrecadação não é dividida entre governo federal e unidades federativas.

A criação das contribuições representou maquiavelismo do ex-secretário da Receita Federal e da secretaria da Fazenda do Distrito Federal, Everardo Maciel. Monitorado pelo Consenso de Washington e pelo  FMI, o governo FHC determinou à Receita mais arrecadação para cobrir as despesas com juros que bancavam o populismo cambial decorrente da sobrevalorização da moeda nacional em nome do combate à inflação.

Sem distribuir os bônus das contribuições sociais, que ajudam a formar os superavits elevados, para pagar juros da dívida pública interna, o governo federal segregou economicamente estados e municípios. Estes tiveram que se contentar com repasses organizados em fundos de participação, sujeitos a rígidas condições orçamentárias impostas pelo FMI e Consenso de Washington.

Ou seja, Arruda  e governadores em geral teriam que peitar Lula e engrossar movimento nacional pela reversão ou eliminação das regras do Consenso de Washington, que caducaram.

Por que seriam mantidas no Brasil, se, na reunião do G-20, realizada há duas semanas, em Londres, o primeiro ministro da Inglaterra, Gordon Brown, destacou que o Consenso de Washington acabou? Se quem criou o instrumento que ancora pensamento neoliberal anglo-saxão o condenou, por ter se tornado ineficaz, por que ele continuaria sendo aceito em forma de exploração pelos explorados?

O Distrito Federal, sob as regras do Consenso de Washington, só tem a perder, porque, sendo município e estado, de acordo com a Constituição, poderia ter o dobro da arrecadação, se o resultado das contribuições sociais entrasse no bolo geral para dividir com estados e municipios. Disporia de recursos para  cumprir cronograma de obras. Poderia se safar da pressão social que favorece ascensão irresistível de Roriz. Arruda teria que levantar uma bandeira externa, para obter ressonância interna, a fim de tentar dar a volta por cima.

Mudança no BB é recado para Meirelles do BC

A situação de Meirelles ficou crítica com a queda do presidente do Banco do Brasil, por não cumprir determinações, para diminuir os juros, tarefa cuja responsabilidade maior é do titular do Banco Central, que, se não cumprir essa tarefa coloca em risco a candidatura de Dilma RousseffNão teria sido recado para o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a queda do presidente do Banco do Brasil, Lima Neto, resistente à recomendação presidencial para baixar juros e intermediação financeira(spreds), nos empréstimos no contexto da crise em marcha, que destroi empresas, empregos, consumo e arrecadação tributária, jogando no chão o Programa de Aceleração do Crescimento(PAC) e , consequentemente, a candidatura da ministra Dilma Rousseff, ao Planalto, em 2010, abrindo espaço, para a oposição?

Faltaria apenas uma carta para ser jogada pelo governo como tentativa capaz de reduzir, mais rapidamente, as taxas de juros, como arma capaz de dinamizar a produção, o consumo e a arrecadação , ameaçados pela crise de crédito cujo custo no Brasil tornou-se excessivamente exorbitante. Trata-se, agora, de aumentar a oferta de dinheiro em circulação diminuindo os depósitos compulsórios recolhidos pelo Banco Central, para administrar a liquidez monetária. O presidente do BC, até o momento, não encarou para valer o assunto, deixando correr solto o juro alto. Está correndo perigo. Lula, ao dizer que sua obsessão é diminuir o custo do dinheiro, baixando os spreds, que, no Brasil, são escandalosos, coloca a corda no pescoço do titular do BC. Poderá apertá-la, se as próximas pesquisas de opinião pública apontarem queda na popularidade presidencial.

A impaciência lulista chegou ao limite depois de jogar três cartas na mesa para tentar, infrutiferamente, diminuir o custo do dinheiro no país. A primeira representou tentativa de arregimentar os grandes bancos para ajudarem a salvar os bancos pequenos, utilizando os depósitos compulsórios a custo zero. Debalde. Em vez de jogar o compulsório na circulação creditícia, os banqueiros, que atuam oligopolisticamente, começaram a joga-lo nos títulos do governo, faturando selic de 11,25%, que dá ganho real de 6,5%, descontada a inflação. Algo extraordinário na crise em que a taxa de juro nos paises ricos, para derrubar a crise, está negativa. Por que suar a camisa se tem a mamata pela frente?

A segunda carta foi a de induzir , rapidamente, os bancos públicos a agir opostamente aos bancos privados, ou seja, diminuindo, mais fortemente, os juros, para servir de exemplo à banca privada oligopolizada, resistente à colaboração para elevar a oferta de crédito, evitando formação de expectativas pessimistas. O discurso foi forte , mas não se traduziu em prática. O Banco do Brasil, que atua, hoje, como banco comercial, de olho na rentabilidade, para dar respostas aos acionistas privados, que abocanharam quase um terço do seu capital, fez corpo mole diante da pressão governamental. As agências continuaram atuando da mesma forma, lerdamente, no atendimento da demanda, exigindo garantias absurdas, para emprestar, longe, portanto, da filosofia de banco público, perfil defendido para a instituição, nesse momento, dentro do Planalto.

Desovar compulsório nos bancos públicos

aldemir terá quta de credito para dinamizar a economia paralisada pelo juro alto decorrente da escassez de oferta de dinheiro, enquanto sobram compulsorios que poderiam cumprir com essa tarefaO corpo mole do BB obrigou o governo a jogar a terceira carta no tabuleiro, a da intervenção, na quarta, 08.04. O novo presidente Aldemir Bendine, até então vice-presidente de Novos Negócios do BB, funcionário de carreira, que seria ligado ao PT, começa, sob ordens do ministro da Fazenda, Guido Mantega, a trabalhar com cronograma de ação e prática de gestão por resultados. Não cumpriu, dançou, essa seria a nova ordem. Se vai dar certo, não se sabe.

A canalização dos depósitos compulsórios, estimados em R$ 280 bilhões, poderá ser a nova arma lulista, para diminuir os juros. A acumulação deles sempre favoreceu o mercado financeiro. A administração da oferta de dinheiro, pelo BC, nos últimos anos, sempre cuidou de acumular reservas altas de compulsórios, para bancar certa escassez de dinheiro na praça, a fim de que seu preço suba, elevando os lucros bancários. Quanto mais alto o deposito compulsório, menor a oferta de crédito, mas caro o seu custo, maiores os lucros bancários, maiores os prejuízos do povo.

No momento do sufoco, o governo se dispôs a colocar essa dinheirama nas mãos dos grandes bancos, na tentativa de transforma-los em parceiros, na batalha de sustentação de satisfatória oferta monetária na circulação capitalista nacional. Não deu certo. O compulsório ficou onde está, ou seja, empoçado, para gerar, calculadamente, crédito escasso, a fim de manter juro alto. Essa é a causa central dos juros altos no país em torno da qual os analistas discutem abobrinhas, tentando construir teoria estapafurdias, tipo a de que o juro é alto no Brasil porque o risco é alto etc. Papo furado.

O Palácio do Planalto, ao que tudo indica, está tomando a frente nas questões financeiras, ultrapassando as coordenadas do Banco Central, que, nos últimos vinte anos de governos neorepublicanos, subordinados aos ditames do Consenso de Washington, tornou-se independente do governo, de forma paulatina, embora, em compensação, tornou-se, também, paulatinamente, dependente dos interesses do mercado financeiro. Seguiu, fielmente, as tendências estabelecidas por metas e pesquisas realizadas pela própria banca. Raposa fiscalizando o galinheiro.

O Planalto estaria, portanto, dando independência para as autoridades monetárias se livrarem da dependencia da banca, a fim de passarem a depender das determinações governamentais, cujas responsabilidades, na crise, aumentam, com a tarefa de gerenciar o mercado que entrou em parafuso.

Possibilidade de ampliar estatização

lima-neto deu maiores atenções aos acionistas privados do bb que não queriam assumir os riscos de aumentar emprestimos a juros mais baixos pois recolheriam lucratividade menor e rendimento mais curto da ações, enquanto o presidente ficou a ver naviosO juro elevado no Brasil transformou-se em problema político número um, no compasso da crise global, que afeta o país, colocando em xeque a produção e o consumo. O avanço do desemprego, enquanto os bancos insistem, em meio a essa catastrofe, sustentar credito escasso, exigências maiores de garantias e spreds absurdos, coloca em risco a popularidade presidencial e o futuro de Dilma Rousseff, engordando, em contrapartida, os adversários.

A tarefa do novo presidente Aldemir Bendine de irrigar a praça de dinheiro mais barato assustará os acionistas privados do banco. Com as ações rendendo menos do que antes, na euforia financeira, durante a qual o banco se caracterizava como banco privado, sem freios do Planalto, os acionistas tenderiam a vendê-las. O preço delas, no dia da queda de Lima Neto, caiu fortemente.  O governo, maior acionista, poderia ser o novo comprador. Reestatizaria geral o BB.

Essa poderia ser uma tendência relativamente ao trato do governo com suas empresas públicas, de agora em diante, em que o poder estatal se revela o único capaz de dinamizar o sistema em ritmo deflacionário?

O discurso político favorável ao fortalecimento do Estado, se houver , realmente, queda dos juros, puxados pelo BB, influenciando os demais bancos a irem pelo mesmo caminho, crescerá e estimulará pressões reestatizantes. Assim como o BB e a Petrobrás, durante os anos neorepublicanos neoliberais, abriram-se aos acionistas privados, conferindo prioridade ao valor de mercado dos seus produtos, da mesma forma, numa situação contrária, pode ocorrer, igualmente, o oposto.

O valor de mercado, vindo a recuar, imporia a estatização pela queda das ações. Mas, pode , também, ocorrer especulação pela baixa, para que os especuladores faturem essas ações, que subiriam, num segundo momento, gerando lucros especulativos. O mercado é esperto demais. A aparência não é a essência.

Obama está entre o G-20 e a guerra

O presidente Obama não pode optar pela guerra, mas a paz ameaça a economia america estrutura para sustenar a guerra, em um mundo onde os estados perderam a capacidade de dinamizar a economia, chamando o FMI para tal tarefa sem saber direito se terá condições de exerce-la, apostando em moedas podresO genial keynes queria uma moeda mundial, em 1944, e não o dólar, como pregam, agora, os chineses, diante da bancarrota financeira da moeda americana e seus derivativos que bloqueiam o comercio internacional, dando fim às estratégias keynesianas de estimular a economia com moeda estatal sem lastro , tornando a economia mundial uma grande bolha, agora, transferia tal tarefa para o FMI, como enxugar e dinamizar geral, com moeda podre sem garantiasRoosevelt colocou os Estados Unidos para gastarem até fazer valer a pregação de Keynes traduzida em transformação da nação americana na mais rica da terra por ter apostado todas as suas fichas na guerra movida por emissões de papel moeda sem lastro, enquanto o mundo pagava senhoriagem ao dolar

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas aprenderão a conhecer sua força”.

Esse foi o grande recado dado por John Maynards Keynes, maior economista inglês do século 20, ao presidente Roosevelt, dos Estados Unidos, em 1936, quando a nação americana penava sob os estragos da crise de 1929 e não enxergava horizonte à vista sob discurso neoliberal.  Roosevelt, de 1936 a 1943, elevou o deficit público a 144% do PIB. Somente dessa forma, apostando em nova estrutura produtiva e ocupacional, baseada não mais na dinâmica dos bens duráveis, mas na dinâmica estatal, os Estados  Unidos voltariam a produzir 27 milhões de automáveis por ano, mesmo número de 1929, sendo que não seria mais os bens duráveis , mas os gastos governamentais o carro-chefe da demanda global. Não foram apenas três anos de crise, desatada pelo crash de 29, mas sim quatroze anos. Quanto tempo irá a atual que é muito mais abrangente?

Significa o recado de Keynes, citado por Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”(1980, Campus), a crença fundamental dele no fato de que no âmago da macroeconomia capitalista está a guerra. O autor de “Teoria Geral do Juro e da Moeda” já se referira às boas novas trazidas pela primeira guerra de 1914-1918, ao destacar que, embora o conflito bélico destruisse mais de 15 milhões de vidas, na Europa, ainda assim, gerara riqueza, tirando o sistema capitalista da crise que o antecedera , a de 1873-1893, cujas consequências foram levar o capitalismo à violenta deflação, sinalizando quedas da taxa de lucro e expansão do desemprego, abrindo caminho, consequentemente, à guerra, ao fascismo, ao nazismo, para barrar o socialismo.

Por isso, o fato mais intenso e emocionante que se desenrola nos meandros do poder mundial , ainda não focalizado , com força, pela grande mídia, que , até agora, está no passado, é a divisão interna do poder americano. De um lado, uma corrente que busca maior integração no cenário internacional depois da bancarrota financeira, tendo como líder um negro – acompanhado de uma negra linda – , apostando no multilateralismo. De outro, os falcões do Pentágono, que, desde a segunda guerra mundial, têm sido a expressão do poder americano montado na garupa do dólar, que está, agora, tatibitate. Quem vencerá?

Tarefa para G-20

O jogo da guerra para acumular capital e puxar o sistema por meio da destruição encontrou seus limites nos imensos deficits que jogam o valor da moeda na lata de lixoO grande papel que os líderes do G-20 devem exercitar, nesse instante, é fortalecer Obama, para barrar o ímpeto de guerra dos generais do Pentágono, acostumados a conviver com crescentes déficits públicos, para sustentar a expansão imperial americana no mundo. Se deixarem Obama sozinho, tchau. Poderá ser destruido, tranquilamente. Assim como a questão central dos Estados Unidos se transforma não mais na política externa, mas interna, na medida em que começa a estourar, dentro do país, a luta de classes, a questão central do G-20 é fortalecer externamente Obama para que ele ganhe musculatura interna suficiente capaz de permitir-lhe enfrentar com sucesso os gorilas da guerra.

Não há meio termo, ou Hugo Chavez, presidente da Venezuela, muda o discurso, qualificando a luta dentro dos Estados Unidos, entre o poder militar, unilateral, e o poder da política de Obama, multilareal, ou fortalece a retórica de guerra. Não dá para fazer generalizações. A União das Nações Sul-Americanas(Unasul) teria que entrar nessa discussão e fortalecer o pensamento que ultrapassaria a economia de guerra como dinâmica do progresso social. Cada presidente sul-americano, como os demais presidentes integrantes do G-20, teriam que colocar o foco no assunto. Ficar discutindo, apenas, a colocação de dinheiro sem garantia nos cofres do FMI, como se essa fosse a questão central, seria dividir,  fortalecer a posição dos falcões, porque se estaria jogando todas as fichas na mesma estrutura produtiva e ocupacional global que entrou em crise de realização da produção no consumo e de relação conflituosa dela com a própria natureza, incapaz de suportar os ataques da destruição ambiental em nome da acumulação irracional para garantir reprodução ampliada do capital.

A questão maior não é saber quanto vai para o FMI, para salvar a economia mundial. O foco é evitar que a guerra continue sendo solução para a reprodução do capital na escala em que se deu até agora, unilateralmente, com o poder de Wall Street, de um lado, e do Pentágono de outro. Os militares querem continuar gastando porque a estrutura produtiva e ocupacional do Estado Industrial Militar Norte-Americano, assim denominado por Eisenhower, em 1960, emprega milhões de pessoas, sendo uma cadeia produtiva que , historicamente, no século 2, representou, sobretudo, vanguarda do desenvolvimento tecnológico, no rastro dos conflitos bélicos. Obama não seria louco de descartar esse aspecto fundamental da guerra para manter o predomínio americano no mundo. Se transformaria em novo Kennedy.

As massas dão novo tom

Mobilização popular contra o desemprego e a destruição pode ser a grande novidade política e econômica a marcar uma nova etapa da vida humana no planeta esgotada pela irracionalidade da reprodução do capital sem regras sob estimulos de governos burgueses cujas lideranças estão indo para o espaçoPor outro lado, o titular da Casa Branca está entre jogar mais dinheiro na guerra ou jogar mais dinheiro na salvação dos desempregados – por enquanto, 5 milhões, podendo triplicar – ,  salvando os trabalhadores implodidos com a crise. As massas começam a ferver nas ruas com cartazes radicais. Na Inglaterra, o pau começou em cima dos banqueiros com quebradeiras de instalações bancárias e morte de protestante. Quem disse que os policiais ingleses não usam arma de fogo? Na crise, a situação exige mais força. O que fazer com as massas nas ruas que determinam prioridade governamental ao enfrentamento dos problemas internos, desatando antagonismo social, econômico e político radical?

As forças armadas americanas teriam que ser chamadas para o grande embate interno, já que o externo deixou de ser a prioridade? Obama , nesse novo amb iente, não conseguiria adesão para entrar mais firmemente no Afeganistão. Receberá, no máximo, incentivo para sair do Iraque, urgente.

Uma virada de mesa popular nos Estados Unidos contra a guerra para que sobre mais recursos para os desempregados vitimas da crise  seria o fim do Estado eisenhouweriano, cultivado por todos os presidentes depois dele, até que Barack Obama herdasse o funeral  e tivesse a responsabilidade de enterrá-lo.

Uma radicalização interna levaria ao que Keynes descreveu, ou seja, à supressão da democracia. Repetindo o grande economista em frase recolhida por Lauro:

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer minha tese – a do pleno emprego – , exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer asua força”.

Obama teria que gastar não mais com guerra , mas com os 5 milhões de desempregados, que poderão passar fome e se disporem a uma radicalidade política sem fim, explodindo a luta de classes no seio da nação mais desenvolvida da terra, cumprindo a previsão de Marx: o confronto entre as estreitas  relações sociais da produção e o desenvolvimento largo,  sem limites, das forças produtivas, incompatíveis entre si, sob o sistema capitalista, que adota a teoria da escassez para sustentar preços altos e maiores lucors, oligopolisticamente.

Capital sem guerra morre

O papel dos Estados Unidos de puxar a demanda mundial via guerras acabouNão haveria, em situação de desemprego, outra alternativa senão colocar renda estatal no bolso da comunidade sem rendimento. Assim como o Estado colocou dinheiro na guerra e na circulação para gerar os dólares derivativos bancários que implodiram a praça financeira global, da mesma forma terá que colocar dinheiro no bolso dos trabalhadores desempregados, em escala ascensional, como forma de sustentar o consumo interno e ó consequente nível de arrecadação tributária. Do contrário, o Estado americano não teria renda interna suficiente para manter investimentos públicos capazes de satisfazer as necessidades básicas da sociedade americana. Ou isso se desenha aos olhos do povo, para tornar-se compreensível aos esforços obamistas, para melhor distribuir a renda nacional, ou enxergarão em Obama mais um servidor do status quo, como seus antecessores.

O desafio de Obama é evitar a guerra interna, que divide o país entre os falcões da guerra e os apóstolos da paz. Não poderá alcançar resultados sozinho. A América do Sul deve fortalecer os propósitos multilateralistas de  Obama como passo central para a construção da nova divisão internacional do trabalho. Do contrário, emergiráa guerra, que poderá ser expressa na pregação profética de J. Pousadas, de que, no nível do desenvolvimento da ciência e da tecnologia, a guerra viria como um apagão, matando gente instantaneamente, como afirmação de que a lógica do capitalismo sustentado na guerra é a própria falta de lógica. Tais limites seriam alcançados? Pelamor de Deus!

G-20 cria fundo sem fundo para lavar dinheiro podre no FMI e salvar capitalismo

FMI tem cara de lobo, mas está parecendo boi de piranha lançado pelo G-20 para lavar o dinheiro dos dólares derivativos que infestam a praça global como forma de limpar os ativos e permitir que o comércio internacional seja retomada, salvando o capitalismoO grande mistério que a reunião dos países integrantes do Grupo dos 20, em Londres, na quinta, 02, deixou no ar é saber qual o lastro, a garantia real, do fundo financeiro dos 1,15 trilhão de dólares – falou-se em até 5 trilhões até 2010 –  que eles injetarão no FMI, para dinamizar o comércio internacional,  em troca do ouro da instituição distribuido proporcionalmente às cotas de cada sócio, entre os quais os Estados Unidos possuem o maior número. Por isso, continuariam, claro, dando as cartas, embora estejam baleados pela bancarrota financeira que destruiu os grandes bancos dos Estados Unidos. O multilateralismo, por enquanto, seria um sonho de noite de verão. A necessidade do presidente Barack Obama de emitir dólares sem garantia  para enxugar os dólares derivativos podres e tóxicos em forma de hipotecas, fed funds etc, que encharcam a circulação global, sem regulamentação governamental dos países ricos, inviabilizando a produção e o consumo, no crediário, lança  desconfiança sobre a saúde do fundo financeiro internacional que engordará o FMI e o Banco Mundial. Os países que estão preocupados, como os europeus, China, Japão entre outros, inclusive, o Brasil, por disporem de excesso de títulos e moeda americanos em caixa, ameaçados pela grande oferta de derivativos dolarizados, teriam onde desovar seus borós. Ou seja, no FMI. Não teria sido à toa que o presidente Lula, logo depois da reunião, abriu espaço para trocas comerciais, na América do Sul, com moedas locais.O titular do Planalto, orgulhoso, seria o primeiro líder dos emergentes a colocar dinheiro – 10 bilhões de dólares- no renovado Fundo Monetário Internacional, que pode virar fundo sem fundo como resultado principal da reunião do G-20. Tremenda  encenação, da qual o FMI poderá ser primeira grande vítima.

O FMI estaria, na prática,  assumindo o lugar dos governos para salvar o capitalismo da destruição financeira. Os países individualmente não poderiam ser capitalizados por emissões monetárias sem fim, rodando máquina de fazer dinheiro, para puxar a demanda econômica. Acabariam, com o tempo, perdendo a confiança do mercado, por conta de déficits excessivos. Suas moedas despencariam. O papel do FMI, nesse caso, como destaca o empresário Valter Rucker, da Goiás Óleos Vegerais, seria o de lavar dinheiro, transformando-se na grande lavandeira mundial, para livrar os países que estão abarrotados de grana do caixa dois. Qual seria a razão, senão essa, de eliminar os paraísos fiscais? Os Estados Unidos enfrentam esse risco, visto que seu deficit caminha para 4 trilhões de dólares, enquanto, para enxugar os créditos podres empoçados nos grandes bancos americanos e europeus, seriam necessários mais de 10 trilhões de dólares, segundo os especialistas. A situação fiscal dos demais países , especialmente, os europeus, cuja burocracia mantenedora da social-democracia exige deficit crescente, na crise, correria risco semelhante. Superariam o tratado de Maastrich, pelo qual são fixados limites orçamentários rígidos. Como superariam essa limitação, se o desemprego em alta impõe gastos públicos crescentes, para puxar a demanda? O FMI resolveria o problema, gastando no lugar dos governos, fragilizados fiscalmente.

No Brasil, com toda a bravata lulista, o governo , igualmente, corre perigo porque, embora o juro esteja caindo devagar, a taxa real mais alta do mundo aqui está em vigor, traduzindo-se em déficit em contas correntes, sinalizando tempestades, que se traduzem em redução da popularidade do presidente e em limitações crescentes à capacidade de endividamento estatal. Igualmente, seria interessante, para o Brasil, transferir para o FMI os riscos do próprio Brasil, como tentam fazer os governos americano, chinês, japonês e europeus, dando novo papel à instituição, de gestora do caixa global, assumindo novas responsabilidades, para irrigar de dinheiro a praça global.

Governo mundial em cena

Lula vira atração internacional não por conta de suas extroversões políticas provincianas, mas porque tem por trás de si a potencialidade brasileira sobre a qual o mundo põe os olhos, para ajudar o capitalismo a superar a crise O FMI renovado é essa nova aparência que está sendo chamada a assumir a cara dos déficts no lugar dos governos, comprando dólares, apresentando em troca o ouro que acumula como propriedade dos sócios cotistas. Estes jogam suas vergonhas em forma de deficits crônicos para cima do FMI que teria cara de governo mundial, com os dólares sem garantias, depositados pelos novos e poderosos  sócios do G-20, no próprio FMI, em forma de direitos especiais de saques.

Qual seria o fôlego do FMI para endividar-se no lugar dos governos, produzindo inflação? A desconfiança sobre os governos, transferida para o FMI, cujas reservas em ouro poderão ser trocados por dólares sem garantia e lastros reais, poderia surgir ou não com o tempo? Todos lavariam as mãos como Pilatos, na hora H, mais à frente. Como no médio e longo prazo, como disse Keyn es, todos estaremos mortos, deixa o assunto de lado, por enquanto.

As provas dessa desconfiança crescentes são as reações do governo chinês, encharcado de dólares e títulos da dívida pública americana, propondo uma moeda mundial, para substituir a americana como mediadora das trocas internacionais. Elas produziram imediatas tensões internacionais.O Pentágono reagiu energicamente dizendo que os chineses poderiam desestabilizar a cena global. Evidenciaram os falcões do Pentágono que a garantia que está por trás do dólar é o poder bélico e espacial americano. E a moeda local que Lula está propondo não poderia gerar o mesmo efeito, gerando tensões em cadeias?

Mas, se a resistência dos militares americanos à proposta chinesa consagraria a continuidade da influência do dólar, o seu poder relativo, no entanto, poderá estar bem menor, depois da reunião do grupo dos 20. O presidente Barack Obama destacou que as decisões precisarão ser de cúpula de caráter permanente. Jogou a pá de cal no caixão do unilateralismo americano. Fez emergir o multilateralismo. Dessa forma, o governo americano foge do perigo de ele mesmo virar nova bolha especulativa. Transfere esse pepino para o FMI. A nova bolha está nascendo com o FMI renovado.

Nova divisão internacional do trabalho

Os países ricos deram a prova de sua falência, pois foram ultrapassados pela anarquia financeira que patrocinaram no sentido de desregulamentar a banca internacional, sendo obrigado agora a pedir socorro aos mais pobres, criando, assim, nova divisão internacional do trabalho, sinalizando novo capitalismo ou início de sua superação, apoiada na financ eirização econômicaNo cenário novo e desastroso de devastação financeira, o poder relativo do Brasil e da America do Sul tende a ser maior do que o dos Estados Unidos e da Europa, cuja fonte de renda para sustentar o consumo da classe média – os rendimentos especulativos no mercado financeiro – virou fumaça.

Os europeus e os americanos estão sendo vítimas da eutanásia dos rentistas. As relações de trocas , historicamente, têm sido dadas pela taxa de juro da moeda mais forte sobre a moeda mais fraca, descartando as garantias reais dos países no comércio internacional. No entanto, diante do juro negativo, como arma para reanimar a economia mundial e do excesso de dólares que estimulam disposição dos governos de trabalhar com moedas locais, a força da moeda americana começa a sobre baques porque não estaria mais, como antes, gerando senhoriagem, transferência de riqueza por intermédio do cambio.

Além disso, com a eutanásia dos rentistas, emagrece a renda obtida na especulação financeira que estava dinamizando o modus vivendi europeu e americano, marcados pelos excessos e desperdícios, sem regras, para promover a reprodução do capital. O valor trabalho deu lugar ao valor financeiro, na financeirização econômica neoliberal global. A crise jogou tudo pelos ares.

A alternativa dos europeus e dos americanos seriam, se estivesse o mundo nos anos de 1930, depois do crash de 1929, realizar investimentos públicos pesados para promover a construção da infra-estrutura europeia e americana, como, efetivamente, aconteceu nos anos de guerra. Agora, em 2009, os países capitalistas desenvolvidos estão com suas infra-estruturas econômicas, sociais, urbanas e espaciais prontas. O investimento já foi feito. Só dá para reformar. A não ser que rebente tudo e comece do zero, com a turma da frente furando buraco e a turma de trás tapando buraco, para encher linguiça keynesianamente.

Onde está quase tudo por fazer é, simplesmente, nos países emergentes, China, Índia, Brasil, America do Sul, América Central, África, Oceânia etc. Talvez, por isso, Barack Obama tenha dito que “Lula é o cara”. Para ele, o importante são as oportunidades de negócios. A Europa e os Estados Unidos não atraem mais os empreiteiros depois do estouro imobiliário. Não há espaço para investimento suficientemente rentável, salvo se por meio de bolhas. Mas, as bolhas, com a grande crise, se desmoralizaram.

Nos países emergentes, ao contrário, como é o caso brasileiro e sulamericano, quase tudo ainda está por fazer , com a vantagem de possuir as matérias primas necessárias ao manufatura global. Trata-se, como disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de uma revirada histórica nas relações de troca, comparativamente aos anos do desenvolvimentismo latino-americano, quando a deterioração dos termos de troca era dada pelos produtos manufaturados. Estes, na atual crise, tem seu preços deprimidos por conta da deflação, enquanto os preços das matérias primas mantem poder de troca resistente  à queda dos preços.

Nesse novo cenário, a pressão popular ganha dimensão que ameaça os líderes dos países que compactuaram com a anarquia financeira internacional detonada pela ausência de regulamentação, enquanto aumenta o espaço político dos emergentes que atacam os líderes de olhos azuis, culpados pelos abusos, como destacou o presidente Lula.

Tango argentino agita Distrito Federal

Arruda e Flávia

Rose Marie Muraro, marxista cristã, estudiosa dos fenômenos monetários que produzem as crises capitalistas, editora, ensaísta, socióloga e antropóloga, apóstola do feminismo anti-xenófobo brasileiro, autora de vários livros, dentre eles, um clássico, sua autobiografia, “Memórias de uma Mulher Impossível”(Ed. Rosa dos Tempos, 404 pgs), cabeça a mil, tem colocado, insistentemente, que a renovação moral da humanidade vai se dar pela mulher graças ao seu sentido de organização que visa proteção da espécie. O homem, essa anta de chuteira – personagem de Jaguar – levou a terra ao desequilíbrio ambiental, econômico e social.

O meio ambiente pede socorro. Os desequilíbrios ambientais violentos sacodem multidões, dando alertas sobre a irracionalidade do modelo econômico anti-social de reprodução acelerada do capital financeiro especulativo sem regulamentação, cuja essência é a super-exploração da natureza para atender as demandas consumistas dominadas pela ganância do lucro em escala global e pela inescrupulosidade dos políticos, alimentados pelos caixas dois eleitorais, garantidos por legislação permissiva. Seguir esse caminho, como disse o presidente General Figueiredo, é dar um tiro no côco.

A força de Peron

A dupla evita-peron fez história a partir dos incrementos dos programas sociais tocadas pela garra feminina que virou mito e história universal

O desequilíbrio econômico supurou espetacular e terrivelmente na especulação sem regras que estimulou ganâncias cujo resultado é a moeda podre sem lastro empoçada na sala dos poderosos, fedorenta, em decomposição. Obama joga na circulação o dólar sem lastro para tentar salvar a moeda podre, os derivativos, que estavam realizando a reprodução acelerada do capital, sem o concurso do trabalho. Para tal engenhosidade, o trabalho em vez de gerador de valor, transformou-se em estorvo maior do desequilibrio econômico.

O desequilíbrio social, como fruto do exercício do poder capitalista machista no comando da moeda deslastreada, abatida pela fermentação apodrecida pelo excesso de acumulação, começa  ganhar conteúdo político explosivo, no compasso do desemprego, que derruba brutalmente a renda do trabalhador, jogando-o na miséria e na agitação ideológica. Como a população dos grandes centros urbanos sob capitalismo auto-destrutivo passou a depender da renda gerada na moeda especulativa, derivativa, desregulamentada, se há o crash , o fluxo dessa renda cessa e os setores produtivos que eram movimentados por ela, igualmente, são destruidos pela onda deflacionária. Bingo.

Ou seja, o sistema , sob os designos da sua autoregulação machista suicida, depende, agora, de organização, para ajustar a total anarquia e desorganização. A figura da mulher, nesse ambiente, surge no imaginário, como um atributo da natureza ao genero feminino como guardião da salvação, principalmente, porque o foco das políticas salvacionistas do sistema estão nos programas sociais, cujo fomento gera consumo, que produz arrecadação, que garante investimentos públicos, como demonstra o Bolsa Família, em seu caráter de estratégia de desenvolvimento da periferia capitalista descapitalizada pela histórica exploração externa.

Contra a anarquia, a mulher

O movimento social desorganizado pelas contadições do capitalismo que levou a sociedade à anarquia, segundo Muraro, exigiria a participação mais ativa da mulher, na política, para consertar o que o poder machista capitalista produziu. Ela viria preservar a especie que se expressa aqui na filha Maria LuizaA anarquia capitalista machista requereria o seu contrário, a organização feminina, o senso de responsabilidade instintiva de preservação da espécie, destruído pelo macho todo poderoso, que perdeu sua instintividade natural, como destaca o professor Tomio Kikuchi, em “Estratégia”(Ed. Musso). Nesse ambiente, Rose Muraro, com seu excelente pensamento dialético em ação, diz que a hora da mulher, em termos históricos, chegou. Demorou.

Justamente, nesse momento de grandes indefinições, o governador José Roberto Arruda(DEM-DF), lança Flávia Arruda, sua mulher, na cena pública como agente, consequentemente, político para gerir programas sociais. Nasce, sob os auspícios do titular do Buritinga,  o Instituto Fraterna, comandado por Flávia,  destinado a promover programas sociais, servindo-se de holding de coordenação geral dos demais programas do gênero existentes no Distrito Federal. Um lance político a la  Peron, que eternizou sua mulher, Evita, na cena política argentina, por meio dos programas sociais.

Os concorrentes do govenador que se cuidem. Se, em 2010, ele não sair candidato à reeleição, ou se esta for trocada por prorrogação de mandatos por um ou dois anos, como se cogita nos bastidores, como antídoto dos políticos à crise mundial, para se manterem no poder, poderia estar sendo preparada sua sucessora, assim como o presidente Lula prepara para sucede-lo uma mulher, a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil. Para tanto, coloca sob responsabilidades de uma mulher os grandes investimentos públicos socias, habitação, e econômico, PAC,  que geram emprego e renda como fatores anticíclicos no contexto da grande bancarrota global que devasta a economia capitalista, sinalizando novos ventos e tempestades políticas pela frente, no rastro do desemprego e da agitação ideológica que a falta de trabalho e renda provoca.

Poder feminino chegou para valer

Rose Marie joga suas fichas na capacidade organizacional do feminino para dar curso à desorganização patrocinada pelo machismo capitalista irracional que levou a humanidade ao perigo de precipitar se no abismoNo meio dos machoes da agricultura a senador afirma o poder feminino para coordenar interesses de classe que demonstram sua competentecia para alcançar o poderDepois que Lula deu apoio a Dilma a força da sua articulação para aproveitar a oportunidade de se tornar a primeira presidente brasileira da historia do Brasil ganha dimensão épica em meio a grande crise global

Embora duas presidentes da República sulamericanas, Cristina Kirchner, da Argentina, e Michele Bachellet, do Chile, estejam balançando em seus cargos, podendo ser derrotadas nas próximas eleições, em virtude de as economias portenha e chilenas, dependentes das exportações, oscilarem , brutalmente, favorecendo os adversários, a presença feminina é crescente no cenário do poder na América do Sul e não vai arrefecer-se. Na média, no continente sulamericano, as mulheres representam 50% dos votos válidos. No Brasil, 51%.

Não se trata, evidentemente, de um problema de gênero, como pressuposto para o comando do poder político, mas de correlação de forças que se transformam no embate violento das contradições do sistema, jogando as relações de produção e o desenvolvimento das forças produtivas em terríveis contradições, no fogo da crise, cujos desdobramentos podem chegar à guerra. O Pentágono já acusa a China, que quer se livrar dos dólares e dos títulos americanos candidatos à desvalorização, por considera-la em preparação bélica e espacial. O pau está quebrando.

Nesse ambiente, o essencial não é o fato de que tenha chegado ou não a hora da mulher de alcançar o poder, nem que o poder sob os machos tenha sido enterrado para sempre. O óbvio já disse presente há tempos, que a mulher chegou para valer na política e entrará na dança da renovação dos poderes e dos mandatos sob democracia em escala acelerada. Poderá ganhar ou perder, o importante é ser atriz. O mais provável é que essa hora chegada se materialize em maior equilíbrio entre os pontos de vista da mulher e do homem na condução do poder nacional. Haveria mudança qualitativa e não meramente quantitativa.

No Brasil, que nunca foi governado por mulheres, pode estar chegando essa experiência histórica, para materializar a pregação de Rose Marie Muraro de que o capitalismo brasileiro necessita, sob os juros altos mais altos do mundo, comandados por oligarquia financeira que escraviza o povo, de uma mulher para organizar melhor a casa, que virou uma zona.

Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, profissional enérgica e disciplinada, para cumprir a determinação de ser a mãeo do PAC, está no páreo. Podem aparecer outras.  A senadora Kátia Abreu(DEM-TO), por exemplo, pode ser considerada fenômeno político por ter alcançado o poder na Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária(CNA), ambiente historicamente dominado pelos machões. Sua palavra de ordem política, como líder, expressa o poder que se espalha em 27 federações , 2.142 sindicatos, 1 milhão de produtores sindicalizados, 24% do PIB, 37% da força de trabalho, 36% das exportações. No meio do poder mais machista, no dos homens ligados às raízes profundas da terra, dos que mais têm medo do chifre da mulher moderna liberada e exuberante, emerge o poder da liderança feminina para coordenar o pensamento de uma classe politicamente poderosa.

Evitas sulamericanas, presentes

Os programas sociais tocados por Evita fizeram a cabeça das massas e a transformaram em mito quando o pais se encontrava na crise economica detonada pelo grande crash de 1929Nos diversos partidos, a voz feminina se amplia. No Congresso, as novas Evitas sulamericanas se espalham. Em meio à emergência feminina na política, os líderes políticos, no comando dos executivos, vão, igualmente, modulando as tensões e as variações dos movimentos políticos, nacionais, internacionais e locais, para sentir a nova onda, e, se preciso, para continuarem no poder, manobram por intermédio da mulher.

Na Argentina, Nestor Kirchner, machista peronista, faz isso. Dá as cartas nos bastidores de Cristina. A mais recente foi antecipar as eleições de outubro para junho a fim de não ter o pleito sob tensões mais fortes detonadas pela crise. Tudo armação de Nestor, porque o pavio de Cristina é curto.  No fundo, naturalmente, o quadro de Peron e Evita está na parede do quarto do casal Kirchner.

Perón percebeu, em 1940-45, o poder e o potencial político de Evita e jogou suas fichas nela para organizar os trabalhadores e ao mesmo tempo controlá-los. O desenvolvimento urbano, de forma caótica, nos anos de 1930, na Argentina e no Brasil, abalados pelo avanço do pensamento nazista, fascista e comunista, colocara Peron em dificuldades para acalmar as classes mais pobres, que sofriam as dores da crise de 1929. Evita entra na jogada e se transforma em sucesso.

Nas crises, nascem as Evitas. Não estaria descartada a possibilidade de exemplos semelhantes se repetirem nas ondas de novas crises agudas. O mundo, na bancarrota financeira, detonada em 2008/2009, balançando geral as estruturas, entra em nova cena, depois  de 80 anos do crash de 1929. Os horizontes estão escuros. Os partidos políticos, simplesmente, não existem e as lideranças atuais, igualmente, inexistem. São figurações em meio à derrocada do estado burguês sob capitalismo financeiro globalizado, ocupado pelo dinheiro do caixa 2.

O controle do poder sob a organização social que se desorganizou pode abrir espaço para as mulheres de forma muito acentuada, dadas as características femininas salientadas por Rose  Muraro, no plano da articulação das políticas públicas, como grande mãe para dar de comer aos filhos aflitos. A diferença, agora, é que os tempos mudaram. Poderiam manipular os homens e não mais serem manipuladas por eles, os grandes culpados pelos desastres ambientais, econômicos, políticos e sociais.

Os programas sociais são as portas abertas à atuação política das mulheres na nova fase da política mundial. Por isso, não deve causar surpresas extravagantes o fato de que Flávia Arruda esteja, com toda corneta, possível adentrando-se na imaginação dos políticos do Distrito Federal como mulher de futuro político, ao colocar-se à frente, claro, sob supervisão do governador José Roberto Arruda(DEM-DF), do Instituto Fraterna, instituição sem fins lucrativos,com proposta de ação estratégica que viabilize a implantação de políticas públicas para o Distrito Federal. Contribuiria, de forma efetiva, para dar organicidade a toda a rede de instituições sociais. Poder político inquestionável.

O governador até agora tinha utilizado para conduzir a política social a secretária de Assuntos Sociais, deputada Eliana Pedrosa(DEM-DF), mas seu envolvimento em suspeitas de corrupção em licitações manipuladas para favorecer empresa familiar a fim de administrar o ceminário Campo da Esperança, onde se enterra a classe média, caveirou geral. A deterioração do quadro econômico leva o governador a fortalecer programas socias para sustentar o consumo, a arrecadação e, consequentemente, os investimentos públicos, como movimento anticíclico da crise, ao mesmo tempo que , nesse contexto, busca faturar politicamente , jogandoe na cena política Flávia Arruda. Pinta na cena brasiliense um tango argentino.

Jogo do amor e da política

Cristina e Nestor são herdeiros do peronismo que ganhou projeção não apenas pelo lado masculino, mas, também, feminino, pois não haveria Peron em Evita nem Evita sem PeronO avanço do desemprego, que reduz o consumo, arrecadação  e investimentos públicos se soma, na crise,  à redução dos repasses federais por intemédio dos fundos de participação municipal e estadual. Ou seja, governadores e prefeitos, sem recursos e endividados, por dívidas sobre as quais incidem juros compostos, estão diante de futuro sombrio, com a queda da economia.  Sobram-lhes o investimento social para se equilibrarem em meio à derrocada do econômico. O econômico, para se salvar, passa a depender do social, em jogo dialético. As receitas neoliberais dos governadores, como foi, até agora, a do governador José Roberto Arruda, de apostar no enxugamento da máquina, para depois utilizar o dinheiro economizado em investimentos públicos, estão indo por água abaixo, diante da emergência destrutiva do processo deflacionário. Os planos do titular do Buritinga correm perigos. Ele se vangloriou, justamente, do esforço fiscal e programou retomada dos investimentos com as economias acumuladas que se transformam em fumaça, exigindo austeridade, cortes e, consequentemente, tumultos políticos. Como diz Marx, quando tudo vai bem, não há porque distribuir; quando tudo vai mal, não há o que distribuir. Restam arrochos fiscais, supressão de despesas, congelamento de reajustes salariais etc e tal. Só pepino brabo que destroi reputações e votos.

Serão, no caso do DF,  cortados 800 milhões de reais de despesas. As reações sociais, que fazem desaparecer capital político acumulado pelos líderes, já começaram. Como os salários não serão reajustados nem serão contratados novos servidores, mesmos os já concursados, o desgaste se amplia, em meio às pressões políticas. Chiadeira por todos os lados. A crise  comeu a reserva acumulada que iria incrementar obras públicas e, consequentemente, votos.

O governador José Roberto Arruda, nesse novo cenário, veste novo paletó: abre o espaço político para Flávia Arruda. A capacidade de crescimento dela dependerá da sua garra feminina e do peso político do marido. Pode ou não se transformar em uma Evita brasiliense, pois o foco de sua ação será os mais pobres e necessitados.

Os efeitos políticos poderiam ser sua ascensão como ídolo popular , se for um sucesso sua empreitada. Evita Perón, na Argentina, assumiu a sua condição de mãe adorada dos mais pobres e conquistou o coração deles, por um lado, e o ódio dos adversários, de outro. Virou mito. Cristina Kirchner, supervionada por Nestor, nos bastidores, tenta o evitismo peronista. A crise, no entanto, impõe-se como obstáculo. No DF, o campo, no ambiente da depressão econômica em marcha, está  aberto para Flávia Arruda se transformar ou não em nova Evita sulamericana.