Colapso americano é colapso keynesiano

A grande mídia mundial – e a brasileira no rastro – ressuscitam, nesse momento, o grande economista inglês John Maynards Keynes, autor, entre outros brilhantes livros, de “Teoria Geral do Juro e da Moeda”.

Mas, não é a solução keynesiana, que dinamizou o capitalismo americano, na base da economia de guerra, durante todo o século 20, a que está entrando em profunda crise nos Estados Unidos?

Seria Keynes, isto é, a solução guerreira, tocada por gastos públicos, a solução, se, na América, virou problema?

É o neoliberalismo ou o keynesianismo adotado por Tio Sam que entra em crise, se, na verdade, não existe sistema neoliberal americano? Colapso americano não seria o colapso keynesiano, nos termos da aplicação da solução de Keynes, a partir do pós-guerrra sob o dólar forte americano, para fixar nova divisão internacional do trabalho?

O modelo é amplamente conhecido: os Estados Unidos seriam o grande consumidor mundial, emitindo moeda sem lastro – garantida por bombas atômicas – , para realizar as exportações dos aliados no mercado americano, assumindo estes, em compensação, responsabilidade de comprar os títulos do tesouro de Tio Sam, emitidos para bancar a segurança do mundo contra o avanço do comunismo, mediante expansão da dívida pública interna americana. O desenho explodiu na crise do subprime.

Keynes, mesmo, desconfiava da sua própria solução e previu que ela poderia não ser eterna, como imaginam os seus discípulos: “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessaria para fazer valer minha tese – a do pleno emprego -,  exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força” (John Maynards Keynes, no jornal New Republic, 1940, citado por Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, Campus, 1980).

O ensinamento básico do genial economista, matemático e filósofo inglês, representa a sua crença básica: o capitalismo necessita da guerra. Ele, segundo Lauro, havia entendido essa lição fundamental depois da primeira guerra mundial de 1914. Embora a guerra promovesse destruição, como reconheceu, ela, destacou, promove riqueza e prosperidade, que rompem as contradições que o lassair faire detona, estressando a produção e consumo em contradição que explode em deflação, ou seja, em destruição tanto do capital como do trabalho.

Forças produtivas dão lugar às forças destrutivas 

 

A guerra seria a solução. Marx havia dito que o capitalismo expandiria ao máximo as forças produtivas, entraria na senilidade e passaria a desenvolver, dialeticamente, o seu oposto,  as forças destrutivas, na guerra, sob comando do Estado, que ultrapassaria a economia de mercado, algo que esboçou em “O rendimento e suas fontes – A economia vulgar”. Aí divide sua obra maior, O Capital, em seis etapas: I – O Capital, II – A propriedade fundiária, III – O trabalho assalariado(envolvendo capital e trabalho, na produção e consumo), IV – O Estado, V – O comércio exterior e VI – O mercado mundial e crise. O Estado, segundo Marx, entraria em cena para salvar o sistema, tornando parte intrínseca dele.

O pensamento keynesiano se reforça na linha de Marx, no compasso dessa constatação. O governo inglês, na guerra, experimentara, com o aumento dos gastos nas atividades bélicas, recuperação forte da economia, tirando os setores produtivos de bens duráveis da crise de realização no livre mercado. Gastos guerreiros que geram renda para ser gasta no setor de bens e serviços privados, sem necessitar aumentar a oferta, de modo a manter relativa escassez capaz de sustentar preços altos.

Tal fato, temporariamente, favoreceu a libra esterlina, afetada pela expansão do dólar, de um lado, e do marco alemão, de outro, desde a grande crise neoliberal de 1873-1893. Lorde Keynes sabia que os dias da sua querida Inglaterra estavam contados, principalmente, depois que os governos ingleses resistiram à desvalorização monetária, como alternativa para preservação do padrão-ouro, sob o qual o poder inglês se erigiu nos séculos 17 e 18. O cachimbo fez a boca torta.

Não-moeda para comprar não-mercadorias detrutivas 

A guerra, algo totalmente anti-liberal, foi, keynesianamente,  a solução ideal. Na linha preconizada por Marx, a produção das mercadorias destrutivas exigiria, sob comando político do Estado, expresso no governo, uma nova representação monetária, cujo perfil seria, naturalmetne, diferente do dado pelo padrão-ouro, que se transformaria, segundo Keynes, em “relíquia bárbara”.

Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, seguindo os passos de Marx, conceitua as mercadorias destrutivas como “não-mercadorias”, cujo único consumidor, o governo, lançava na circulação, para adquiri-las, uma não-moeda, não-valor, oposto da moeda sob o padrão-ouro, ancorada em metais. Ou seja, ativos ficíticos substuiriam os ativos reais, para garantir, na guerra e na especulação, a adequada reprodução capitalista. A ficção impulsiona a realidade.

Essa moeda sem lastro teria como garantia a capacidade de endividamento dos governos. Por isso, o que está entrando em crise, agora, nos Estados Unidos, é a incapacidade do governo americano, sob desconfiança do mercado, de continuar emitindo moeda sem lastro para enxugar moeda podre, jogada na circulação pelo próprio governo.

O papel dele de ser o entesourador geral de uma moeda que tende permanentemente à inflação está, com o dólar como representação monetária mundial, batendo biela, como demonstra à larga a realidade.

A onda neokeynesiana, que nasce no rastro da primeira grande crise monetária, traz no topo a proposta de solução que se transformou em problema. A mídia, que nunca discutiu o assunto para valer, bate palmas.

Keynes foi o remédio do qual o capitalismo lançou mão durante todo o século 20 para sustentar a demanda global via economia de guerra. A guerra fria, por exemplo, segundo o Instituto Peel, representou a âncora capitalista no pós-guerra, impondo gastos públicos americanos da ordem de 15 trilhões de dólares, algo, relata o instituto, não levado em consta na contabilidade dos neoliberais como fator determinante de sustentação do sistema.

O prêmio Nobel, Josef Stiglitz, destacou que a demanda global , nos últimos cinco anos, somente foi mantida graças aos gastos de mais de 2 trilhões de dólares do governo americano em guerras. Destruição como salvação.

 

Neoliberalismo e keynesianismo baleados  

 

O desenvolvimento das forças capitalistas, que promove, de um lado a acumulação e, de outro, o subconsumismo, condenou o sistema capitalista à crônica insuficiência de demanda global, como destacou Malthus e Marx.

O capitalismo, segundo eles, marcharia, sempre, como aconteceu, durante todo o século 19, para a deflação. Para Malthus, que considerou a economia ciência lúgubre, viu que o excesso de eficiência do sistema, tocado pela ciência e a tecnologia a serviço da produção, necessitaria, dialeticamente,  do seu oposto, ou seja, a ineficiência. Escândalo para os neoliberais.

Quem patrocinaria essa suficiência ineficiente para sustentar a eficiência insuficiente? O governo, elevando seus gastos, disse Robert Malthus, autor de “Princípios de Economia Política”.

Keynes, neomalthusiano, marxista disfarçado, via nos gastos governamentais em guerra a dissipação necessária, para promover renda para o consumo, sem que houvesse necessidade de aumentar a produção, como destaca Lauro Campos, em “Malthus e Keynes, duas almas gêmeas a serviço do capitalismo”(Senado).

Em 1929, o capitalismo, basicamente, bisetorial, baseado nos departamentos I e II, produtor de bens de produção e produtor de bens de consumo, D1e D2, respectivamente, atingiu a contradição insolúvel apontada por Marx. O subconsumismo levara o sistema à deflação. A salvação seria o seu oposto, a inflação, que, de acordo com Keynes, é a “unidade das soluções”.

O Estado, como antevira Marx em “O rendimento e suas fontes – a economia vulgar”,  entra no processo quando as contradições entre D1 e D2 emergem em colapso. Foi o que aconteceu em 1929.

Os neoliberais sempre se incomodariam durante todo o século 20 com D3, gastos do governo, puxando D1 e D2, keynesianamente. Reagiram a ele, por não entenderem, completamente, a gênese da moeda que vai dar sustentação a D3, diferente a moeda do século 19, que bancara a bissetorialidade de D! e D2.

Os gastos do governo, de D3, precisariam, para contragosto dos neoliberais e comentaristas economicos, crescer mais que o próprio PIB. Puxariam, com inflação, o setor privado, tendente, cronicamente, à deflação. Dialética.

 

A grande mídia deu uma de avestrus

 

A nova moeda capitalista, emitida por D3, gastos do governo, do Estado, que se transforma, efetivamente, em capital, na economia monetária keynesiana, é, para os neoliberais mero fator de troca, que não deve ser levada em conta na formulação macroeconômica, dado que seria neutra, pairando acima das classes sociais. Eles vêem a moeda como construção abstrata e não como fruto do trabalho e das relações sociais. Visão esquizofrênica.

Como em novo contexto, no qual os gastos do governo, ineficientes, precisam salvar o setor produtivo privado, eficiente, a moeda sob o padrão-ouro não servia mais, virara “relíquia bárbara”.

O conselho de Keynes para os Estados Unidos, a partir de 1936, para que lancem mão do statemoney sem medo para conhecerem sua verdadeira força é a expressão exata da macroeconomia do capital bombada pela moeda capitalista política impulsionadora da economia de guerra – produção bélica e espacial, expansão da máquina pública , etc.

Sem o governo gastar além das suas receitas, acima do percentual do PIB, com seu capital, sua moeda, não existiria capitalismo no século 20. Lenin sairia amplamente vencedor, depois da revolução soviética.

O governo, nesse contexto, é, como diz Keynes, a única variável econômica verdadeiramente independente, sob o capitalismo, ao elevar a quantidade da oferta de moeda na circulação. Quando faz isso gera o que denominou de “eficiência marginal do capitl”, ou seja, o lucro, que faz nascer o espírito animal empresarial. Tal estratégia estatal 1 – diminui os salários, 2 – eleva os preços, 3 – diminui os juros e 4 – perdoa a dívida dos investidores.

Desperta, dessa forma, o espírito animal investidor, sem que o leve a enfiar a mão no bolso, enquanto precisaria ser exercitada sem receios, pelo governo, sua capacidade de enxugar o meio circulante , via expansão da dívida pública interna, que, dialeticamente, cresce no lugar da inflação.

Como continuar o jogo keynesiano, sem a capacidade infinita de entesourar para enxugar a base monetária, afim de evitar enchente inflacionária?

Seria Keynes a solução, se esta, nos Estados Unidos, ou seja, no país mais rico do mundo, transformou-se em problema, já que  o empoçamento de moeda na economia decorre do excesso de colocação dela em circulação pelo próprio governo, estimulador da sua reprodução ampliada no mercado derivativo? 

A grande mídia, nesse contexto, dá uma de avestruz. Mete a cabeça na areia e se torna prisioneira de um círculo de giz.

 

Neo-Bretton Woods só com G7 ou G20?

 

O poder midiático nesse momento, mais perdido que cego em tiroreio, precisa de uma raíz para se sustentar, porque os seus argumentos neoliberais faliram.

Apega-se, desesperadamente, em Keynes, até a pouco, asperamente, criticado por ela. Teria que inverter então a situação. Não poderia criticar Lula por estar fazendo o jogo keynesiano de estimular gastos sociais e aumentos dos investimentos no PAC, forçando despesas acima das receitas.

Mas, teria fôlego a solução de Keynes, pregada em 1944, em Bretton Woods, a de propor o “Bankor”, moeda mundial, escritural, que controlaria a contabilidade global, administrando os deficits dos balanços de pagamentos por intermédio das grandes potências?

Naquela ocasião, os Estados Unidos, saídos fortes da guerra com o dólar super-poderoso, pronto para exercitar as relações de troca globais em seu nome, em nome do império americano, disse NÃO à proposta do economista inglês.

Keynes enfiou a viola no saco e concordou com o neopoder, ao qual passou a dar conselhos. Sua entrevista ao repórter  e economista Santiago Fernandes, do Jornal do Brasil e do Banco do Brasil, em Bretton Woods, relatada no livro “A Ilegitimidade da Dívida Externa do Brasil e do III Mundo”, demonstra sua visão geral do poder americano.

O dólar, e não o bankor, disse, seria a representação e equivalência monetária global, impondo  deterioração nos termos de trocas cambiais, em favor dos americnaos e em prejuízo dos aliados, especialmente, da periferia capitalista.

A proposta sugeriada por Keynes, repetida, agora, pelos sete grandes, as superpontencias, baleadas pela crise, teria cara de pão velho, amassado.

 

Correlação de forças mudou nas relações de troca.

 

O presidente Fernando Henrique Cardoso, em reunião com os tucanos em Brasilia, acendeu luz. Disse que emerge novo tempo caracterizado por inversção nas relações de troca.

O que vale mais no calor da bancarrota financeira: as moedas dos ricos, sem lastro, ou a riqueza , por exemplo, da América do Sul, cujo lastro são as matérias primas fundamentais para a manufatura global? Aquelas, relativamente, abundantes, cujos preços são, na concorrência, cadentes, ou estas, relativamente, escassas, são as mais valorizadas?

Os sete grandes comem grama e rotam leitão. Sarkozy e W. Bush, desmoralizados, têm moral para reunir os grandes, fixar novas relações de trocas a partir de um “Neo-Bankor” keynesiano, se a solução de Keynes virou problema na mão deles?

O novo Keynes não poderia abarcar apenas os 7 Grandes, se eles não têm mais poder de impor deterioração na relação de troca global com suas moedas deslastreadas de qualquer valor real.  

Um Keynes mundial?

Pode ser, mas não seria para promover mais guerras. Nem elas serão mais bem vindas para os governos americanos, que terão que gastar tanto, internamente, para salvar os consumidores da explosão monetária, que sobrarão menos recursos para mandar para o Iraque, de modo a continuar puxando a demanda global capitalista, via economia guerreira.

A paz e não a guerra é o novo desejo de consumo de Tio Sam. Pelas mãos de Keynes? Pode, também, ser, mas não apenas administrados pelos sete grandes, que perderam a força.

A solução keynesiana surgiu no século 20 para salvar o capitalismo da crise de 1929, mas entrou, quase 70 anos depois, na crise do Estado devedor, que entrou na economia, com moeda própria, para salvar o setor privado. Todos os três, agora, estão atolados, keynesianamente.

Se pintar neokeynesianismo, teria que ser global, valendo para todos e,  portanto, não terá, apenas, a cara capitalista de Keynes, expressa no modelo de guerra. O colapso americano-keynesiano estressou a humanidade e a própria terra, destruída pela sede do lucro.

Bancarrota empresarial na sucessão presidencial

Bancarrota empresarial – ao lado da bancarrota dos pequenos bancos, que se tenta salvar, privatizando-os com dinheiro do contribuinte, dos depósitos compulsórios, por meio dos bancos grandes privados, mediante vantagens fiscais e altamente liberais, ou seja, prática de juros altos – pode ser o principal desafio a ser enfrentado pelo presidente Lula nos dois últimos anos de sua gestão em plena sucessão presidencial. Turbina-se um horizonte de grandes tempestades entre empresas, alcançadas pelo terremoto financeiro especulativo.

As duzentas maiores empresas brasileiras que , junto com poucas estrangeiras, movimentam a Bolsa de Valores de São Paulo, semi-faliram ou faliram na especulação com o subprime nacional, desenvolvido especulativamente no mercado de dólares na Bolsa de Mercadoria de Futuros, o maior cassino da história nacional.

São cerca de R$ 3 bilhões de prejuízos, segundo se comenta nos meios empresariais. 

Os empresários apostaram no dólar barato no futuro  e compraram títulos a juros caros no presente, para ganhar na especulação. Jogada histórica fixada como forma de compensação pelos ganhos insatisfatórios na atividade produtiva, atacada de morte pelos juros altos de carga tributária excessiva, que jogam a lucratividade para baixo. Dançaram. Em uma semana, emergiu uma desvalorização da moeda nacional de quase 40%, na onda dos desastres. Facada.

Intranquilidade econômica e financeira que afeta a tranquilidade política governamental mantida até agora relativamente ao futuro. Votorantim, Sadia, Aracruz Celulose, Vale, Petrobrás, Perdigão e o rol de pequenas e médias no elo da cadeia mais fraca do capitalismo nacional entraram em grandes prejuízos, que obrigarão o governo a intensas negociais econômicas e financeiras, sob intensas pressões, tanto por parte do capital como do trabalho, no contexto sucessório.

Algumas empresas, nesse ambiente de alta volatilidade, poderão morrer; outras, somente se salvarão se forem socorridas pelo BNDES, o hospital das empresas brasileiras, desde quando criado em 16 de junho de 1952, pelo presidente Getúlio Vargas.

 

Greves podem ser fato político novo

As negociações nesse sentido, mobilizarão, sem dúvidas, no Congresso, empresários e trabalhadores, todos ameaçados, jogando lenha na fogueira da sucessão do presidente Lula, desatada pela primeira grande crise monetária global do século 21, cujos primeiros lances já ocorrem durante as eleições municipais, quando o governador de São Paulo, José Serra, do PSDB, pede juros baixos já, para evitar a catástrofe empresarial. Falar em aumentar juros, pelo BC, nesse ambiente, para adequar-se às metas inflacionárias fixadas pelo próprio mercado financeiro, via pesquisa Focus, bíblia do BC, seria arriscado, politicamente.

Os empresários e os trabalhadores estão em polvorosa. Se as grandes empresas nacionais que dinamizam a bolsa foram dinamitadas pela crise, significa que a Bolsa, igualmente, expressão real dessas empresas,  está sob perigo de explosão, se é que não foi implodida com as ações em queda. A emergência da falência empresarial joga desconfiança generalizada na bolsa onde as ações dessas empresas estavam pontificando espetacularmente.

A BVSP chegou a superar a casa dos 70 mil pontos, quando, como reconheceu o presidente do Itaú, Roberto Setúbal, tem caixa para apenas 45 mil, no máximo, onde passou a ficar, com tendência para cair. Ilusão de riqueza e poder. Crash.

Tal situação cria ambiente político de alta tensão na economia ameaçada por perspectivas futuras sombrias que desarmam o espirito animal investidor dos empresários. 

O PAC, combustível eleitoral do presidente, para tentar fazer sua sucessora, a ministra Dilma Roussef, conforme admitiu o ministro da Justiça, Tarso Genro, pode ficar estressado, como destacam os próprios empresários, embora o governo sustente, compreensivelmente, posições altamente otimistas. 

A euforia recente, que levou o setor produtivo a acreditar demasiadamente no futuro, levando o presidente Lula a um surto otimista excessivo, vê-se diante do seu reverso. O clima anterior, de promoções altamente marquetizadas de lançamentos de ações na bolsa, obedecendo a regulamentação moderna, pautada pela transparência, levou à suposição de paraísos e prosperidades sem fins, capazes de garantir auto-sustentabilidade. 

Alta especulação, transparência total. Sucessos atrás de sucessos. E , agora, a transparência vai ficar diante de todos, quando os balanços contábeis registram fracassos atrás de fracassos?

Nus em cima do palco. 

 

O dragão chinês é ameaça geral

Nesse ambiente, em que as quedas violentas das ações das empresas sinalizam fragilidade financeira dos empresários, as ações delas continuarão despencando junto com a oferta de emprego e renda que estavam bombando o consumo interno. Para piorar essa situação, as empresas brasileiras, de pernas bambas, terão cima, de enfrentar, além dos juros e da carga tributária elevados, a concorrência chinesa, que passou a assustar geral.

Montada numa reserva cambial de quase 2 trilhões de dólares, a China chega super-avalizada, para impor seu preço super-baixo aos mercados concorrentes. Solidariedade socialista-capitalista chinesa?

Calçados chineses estão sendo adquiridos por preços com descontos de até 70%! Quem vai comprar sapato nacional, cujo custo de fabricação é elevado, graças aos juros altos e a excessiva carga tributária?

Antes as empresas buscavam compensação, pelo estrago dos juros e dos impostos na produção, jogando na bolsa. Com a explosão do mercado bursátil, essa possibilidade esgotou. As empresas financeiramente sucateadas, compradas no dólar barato no futuro que explodiu de preço no presente, tendo, além disso, a China fungando no cangote, estão se rebentando, no ambiente de altíssima concorrência global.

Se o BNDES não socorrê-las, os trabalhadores das empresas irão para a rua demonizar Lula e sua candidata à sucessão Dilma Roussef. O desemprego estará batendo às portas no novo tempo de vacas magras.

O que preocupa sobremaneira o Palácio do Planalto nesse momento é a saúde da indústria automobilística. Se ela fraquejar, a vaca pode entrar no brejo. O berço político do presidente Lula está na corda bamba.

 

O carro-chefe da indústria nacional balança as pernas. 

 As 24 diferentes montadoras instaladas no país movimentam 1,3 milhão de empregos, englobando 500 autopeças, para manter uma capacidade instalada de 3,5 milhões de véiculos, vendidos em 3,6 mil concessionárias espalhadas Brasil afora. São 45 plantas industriais estabelecidas em 7 estados brasileiros e em 26 municipios, para vender automóveis, comercial leves, caminhões, ônibus, tratores e colhetadeiras. Trata-se de um parque industrial que recolhe uma receita total de R$ 21 bilhões em IPI, ICMS, PIS e Cofins, cuja saúde pode ficar abalada.

O empoçamento do crédito balança essa estrutura produtiva e ocupacional da qual depende todos os demais segmentos da economia, numa cadeia produtiva que caracteriza o capitalismo nacional dependente de poupança externa, historicamente. Afinal, não houve, no Brasil, a aposta da formação do capital o país, como fizeram os asiáticos, dependentes, no entanto, do mercado externo americano e europeu. 

Sem a renda extra oriunda da especulação, que estava bombando o consumo das classes altas e das médias, favorecidas pelo jogo especulativo, as empresas serão obrigadas a suportarem taxa de lucro cadente na produção interna sob intensa concorrência entre 24 competidores. Luta de gigantes. 

Nesse contexto, a classe empresarial se inquieta extraordinariamente, destaca o primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do DF, Ricardo Caldas, porque a desconfiança evita que os bancos negociem com as empresas, retendo os recursos, dado o alto risco que imaginam correrão diante de clientes de cuja saúde financeira desconfiam.

Estatização já

Para Ricardo Caldas, a saída inglesa é ideal, no ambiente de tumulto geral, em que ninguém acredita em ninguém. O governo participa com os recursos públicos no capital dos bancos – no caso brasileiro, lançando mão dos depósitos compulsórios – , para recapitaliza-los e dessa forma adquire força para conduzir, de maneira mais organizada, o próprio custo do dinheiro, a fim de bancar novas relações de trocas entre setor privado e setor financeiro. Fora disso, acredita, os juros não cairão. Ao contrário, subirão. 

O governo, apavorado, está, por enquanto, cuidando de salvar os bancos pequenos, colocando dinheiro da poupança nacional, ou seja, os recursos recolhidos, compulsoriamente, sobre depósitos à vista e a prazo nos bancos grandes privados, na tentativa de fazer com eles cumpram a tarefa. Henry Paulson, secretário de Estado dos Estados Unidos, tentou essa saída. Não deu certo. Dará aqui?

Pode dar certo para os grandes bancos, que caminharão para a oligopolização bancária privada nacional, mas daria, do ponto de vista empresarial, em forma de redução do custo do dinheiro, para ativar a produção?

Os juros estão subindo com a insolvência do mercado empoçado por falta de confiança do setor privado nos bancos e dos bancos no setor privado. A confiança seria adquirida por intermédio da gestão, puramente, privada?

A estatização, à moda inglesa,  seria a solução, para criar ambiente mais adequado para organizar o sistema bancário e restabelecer a confiança nas relações comerciais em geral?

Ricardo Caldas acredita que esse deve ser o caminho do governo, se quiser manter aquecidas as obras do PAC, depois da bancarrota bursátil.

No novo ambiente, disse, não dá para conviver com o juro alto e com carga tributária extorsiva, combinando-se, para manter baixa a rentabilidade, que inviabiliza investimentos. O gargalo é esse.

Calote pode virar solução global

O candidato do Partido Republicano, John MacCain, se prevelecer o rítmo das pesquisas, até a hora da votação, poderá dançar, perdendo para Barack Obama, do Partido Democrata. Sua proposta, altamente, impactante, no entanto, poderá permanecer, porque teria batido fundo no coração das famílias americanas, cujos lares são assediados pelo desemprego, detonado pela economia monetária especulativa que o governo não consegue mais bancar, dando tranquilidade ao contribuinte e aos aposentados. Todos estão ameaçados por uma neo-pobreza relativa.

Que propós MacCain? O calote. Os mutários que perderam feio na especulação com os imóveis e ficaram mais pobres, impossibilitados de pagarem suas dívidas, terão estas perdoadas.

O Congresso, com ele na presidência, votaria uma nova legislação, flexibilizando as responsabilidades de credores e devedores, algo inexistente. Hoje, a legislação protege credor e penaliza o devedor. 

A grande imprensa brasileira não falou nada sobre o assunto por enquanto, mas, muita gente boa, já falou nisso, inclusive, o Papa João Paulo II.

O Vaticano respeita Marx. Fala por parábolas, como acabou de fazer o Papa Bento 16, ao ressaltar que o apego ao lucro traz a pobreza e a desilusão. Jesus e Marx, uma dobradinha que a Igreja adota, em momentos extremos, mesmo que repudie na aparência. Bento 16 repete São Tomaz de Aquino e Santo Agostinho, condenaram o pecado da usura.

Levado ao extremo, o capitalismo, na sua autodrestruição, está dando lugar uma nova combinação cuja expressão é a condenação do sistema tanto pela visão cristã, como pela materialista.

O modelo tocado por moeda estatal inconversível, sem lastro, expresso, como representação, no dólar – algo abstrato, espiritual, que impulsiona o material – passa a ser condenado pelo altar católico.

MacCain, antevendo o empobrecimento relativo americano, fechou com a Igreja Catôlica, pregadora do calote. Os bispos brasileirs estão batendo palmas, porque, na Era FHC, tentaram o plebiscito, para discutir o endivimanto interno e externo brasileiro, depois da crise monetária dos anos de 1980. A pobreza generalizou-se. A periferia passou a ser brutalmente explorada pelo centro graças aos juros altos.

Pintaria plebiscito nos Estados Unidos, previsto na constituição? Na crise bancária de 2008, essa possibilidade se torna concreta, nos Estados Unidos, que não seriam mais os donos do mundo, diante do empobrecimento relativo.

O calote seria a solução?

Sarney pagou os juros e foi acusado de caloteiro

 

Como superar o prejuízo senão pelo perdão, talvez pela inflação, um dos seus atributos, entre outros? Keynes diz que na economia monetária, a que vigora no mundo no pós-1929, o governo é a única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, porque ao jogar dinheiro na economia com uma mão e enxugar com a outra cria a “eficiência marginal do capital”, o lucro, porque: 1 – eleva os preços, 2 – diminui os salários, 3 – reduz os juros e 4 – perdoa as dívida contratadas a prazo pelo investidor. Ou seja, o espírito animal keynesiano só nasce se o empresário não precisar enfiar a mão no bolso.

Keynes teria  fôlego, agora, pela mão, seja de MacCain, seja de Obama, para bancar o jogo, de modo a dar tranquilidade ao mutuário e ao investidor, desconfiados do sistema bancário e sob desconfiança deste.

MacCain foi muito mais consistente, do ponto de vista do interesse do eleitor, do que Obama, jogando com a “eficiência marginal do capital” do mutuário, abrindo espaço para sua regeneração por meio do perdão.

Mas, o dólar terá gas para patrocinar o perdão?

A desmoralização do governo W Bush é, ao mesmo tempo, a desmoralização da moeda. Sob W. Bush, nao seria possível. Sob Obama ou MacCain será?

A perda de poder relativo da moeda de Tio Sam , que está abrindo espaço para ser subsituida pelo euro, dado que as ações financeiras dos governos europeus revelam credibilidade européia na moeda europeia, abre novo cenário.

Nele, a economia de guerra , para a acumulação capitalista, se transforma de solução em problema. 

Negação da negação 

Como sustentar os gastos públicos inflacionários no Iraque, se o governo precisa gastar muito mais, agora, para salvar o contribuinte da guerra monetária destrutiva interna?

Novas prioridades internas se transformam em freios aos ímpetos dos gastos públicos, para exercer sua dupla função no sistema econômica no contexto da economia monetária keynesiana: enxugar o mercado do excesso de moeda, de um lado, e dinamizar a economia de guerra, keynesianamente, de outro.

Esse foi o jogo mantido até o momento, para manter equilíbrio relativo macroeconômico capaz de sustentar equilibradamente a sobrevivência da produção e do consumo da indústria de bens duráveis.

Caso contrário, sem o Estado gastando para dar bolsa família às grandes indústrias de guerra, a indústria de bens duráveis, padeceria por falta de consumo e renda.

Ambos, na economia monetária, são gerados pelo governo com sua moeda estatal inconvesível, expressa no dólar. O jogo estressou-se.

Significa dizer que a moeda americana  deixou de ser o motor dinâmico da economica global. A lógica passa a ser outra. O governo tem que ser, em vez de guerreiro, pacifista. Não tem gás para bancar guerras nem curtas, nem prolongadas, enquanto perdurar o estrago geral em curso.

O todo poderoso e orgulhoso Henry Paulson, que ganha(va) milhões por dia, milhares por hora, como homem de Wall Street, pediu humildade aos americanos.

Um dos gigantes da especulação com o dólar derivativo, o secretário está com seu poder murcho. De privatista, passou a ser estatista. Vestiu a camisa de Lenin.

 

Show de bancarrota roliudiana

 

A história já demonstrou que em tais situações, as comunidades se viram, criam suas próprias moedas, assim como os governos criam as suas.

Se os governos quebram, a sociedade abandona ele com sua moeda desmoralizada e busca outras convenções, para bancar relações de troca.

Pragmatismo social e econômico para fixar nova representação monetária que sugira suficiente credibilidade.

Sem credibilidade, o dólar pode viver uma monumentação hiperinflação.

Dificilmente, o governo teria fôlego para entesourar os dólares derivativos tóxicos que ele mesmo permitiu serem criados pela engenhosidade dos bancos de investimentos, de cujos postos arregimenta seus assessores de política econômica. Raposa para tomar conta do galinheiro. Governo e mercado financeiro são, no capitalismo dominado pela especulação, irmãos xifópagos.

Os europeus perceberam o jogo. Diante do caos financeiro, tanto os Estados Unidos fugiram da Europa, como a Europa, dos Estados Unidos. Ambos estão altamente intoxicados de moeda podre. Precisam buscar uma forma de passar o prejuízo para frente.

A Europa decidiu apostar no euro, jogando o governo para gastar na moeda européia, na crença – inabalável? – da sua credibilidade internacional. Conseguirá?

Houve, no dia seguinte, à estatização europeia bancária, euforia bursátil, mas, em seguida, o pessimismo reacendeu  brabo.

Tudo indica que tal volatilidade continurá, só ninguém sabe se o governo terá fôlego para continuar sendo o entesourador geral de moeda podre,.

Quem paga dívida numa balbúrdia dessa? 

O calote pinta quase como solução natural, como caminho aberto para nova concertação monetária global, que se traduziria num FMI mundial, como apregoam os europeus.

Daria vez à proposta de Keynes – sempre Keynes! – feita em 1944, em Bretton Woods, de criação de um moeda mundial, o “Bankor”, coordenada por força internacional, capaz de criar câmara de conversão monetária global, para dar novo rumo ao mundo e se transformar em instrumento capaz de restabelecer a credibilidade monetária?

Adam Smith volta ao poder, porque, para ele, dívida pública não se paga, renegocia, interminavelmente, abrindo espaço para novas dívidas.

Agiotagem lulista na crise capitalista

A decisão do presidente Lula de colocar mais de R$ 150 bilhões nos caixas dos bancos privados brasileiros para salvarem bancos pequenos falidos e enfrentarem problemas de liquidez , especialmente, por meio liberação de depósitos compulsórios, ou seja, dinheiro do contribuinte, recolhido pelo Banco Central, como forma de enxugar excesso de dinheiro no mercado, como arma de combate à inflação, vai na linha contrária à adotada pelos governos dos países ricos, como os europeus e o americano, resultando em óbvio favorecimento aos banqueiros.

Primeiro, liquidar ou resgatar instituições financeiras da bancarrota não é tarefa para os próprios bancos privados, senão para que se tornem grandes oligopólios. Dinheiro do contribuinte, para patrocinar oligopolização bancária, numa praça já oligopolizada, com meia duzia de grandes bancos, que escravizam a sociedade, cobrando o juro real mais alto do planeta terra? Absurdo.

Segundo, não está certo, de jeito nenhum, colocar dinheiro nos bancos privados, sem antes determinar, com discussão, no Congresso, o que terão que fazer com esse dinheiro, fixando os setores que deverão ser abastecidos com os recursos e os respectivos percentuais destinados a cada um, sob fiscalização congressual. Caso contrário, fica parecendo amarração de cachorro com linguiça. Esbravejar, como faz o presidente, lá da Europa, que vai tomar o dinheiro de volta, se os bancos não destinarem os recursos para os quais foram estipulados, não adianta.Significa, apenas, reconhecer que algo de errado já está acontecendo. Isso é presidencialismo ditatorial, sem o aval do Congresso, para solução de assunto crucial, para a sociedade brasileira, nesse momento, preocupada com possibilidade concreta de quebradeira de empresas e avanço do desemprego e da queda do consumo.

Tem que jogar pesado contra os bancos, que sempre se fartaram, e ainda se fartam, nos privilégios, em um país em que vigora não uma democracia, mas uma bancocracia exageradamente prejudicial aos setores produtivos. O presidente Lula cuidou muito bem dos bancos, até agora, bem como dos programas sociais, para fortalecer o consumo, mas, para os setores produtivos, indiscutivelmente, foi um tremendo carrasco, deixando-os sob a escravidão jurista, determinada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que veio da bancocracia americana, direto para escravizar o setor privado nacional.

Olha a diferença de tratamento dado aos bancos, aqui e lá fora. O que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa? Os bancos faliram. O que fizeram e estão fazendo os governos? Colocando dinheiro do povo, para salvá-los. Certamente, não interessa ao país consumidor sem crédito e banco quebrado. Tem, sim, que ajudá-los nessa hora, mas fixando, igualmente, compromissos rígidos, sob fiscalização do Congresso, ou seja, da sociedade, atenta em relação ao dinheiro do contribuinte.

Na Europa e nos Estados Unidos, o governo colocou grana no caixa dos bancos, mas, em compensação, estatizou parte deles, pois o dinheiro liberado e em processo de liberação, está se transformando em ações preferenciais em mãos do governo, ou seja, em poder do público, como é o caso dos depósitos compulsórios, poupança popular. Esta deveria ser utilizada para algo nobre, ou seja, para estimular produção e consumo, investimento em infra-estrutura, em estradas, portos, ferrovias etc. Para que acumular reservas em dólar, se a moeda americana está se transformando em moeda podre, sendo superada pelo euro, pois perdeu poder de representatividade cambial na praça global, com seu poder absoluto.

Fundamentamente, esse dinheiro do contribuinte, precisaria ir, também, para o programa social Bolsa Família, a fim de estimular, fortemente, o mercado interno. Qual a salvação nacional na Era Lula? O consumo interno, estimulado pelos programas sociais. Evitou formação de estoque e pressão inflacionária por efeito de desvalorizações cambiais destinada a estimular exportações na falta do consumo interno. Ao colocar poder de compra estatal nos cartões de crédito de consumo popular, a economia girou, a industria, o comércio, a agricultura e os serviços cresceram. E por conta do aumento da circulação de dinheiro, aumentou consequentemente a arrecadação, pois cada venda que se faz, o governo arrecadda 40%,  enchendo seus cofres. E com esse dinheiro vem os investimentos, o progresso etc.

Velhacaria bancária sem controle congressual

Quanto de dinheiro do compulsório vai para o programa Bolsa Família, para manter a demanda interna aquecida, já que a externa entrará em recessão, com a desaceleração global? Quanto irá para a agricultura familiar, para os mais pobres plantarem e colherem sua renda, com a poupança pública dos compulsórios? Quanto se destinará para a reforma agrária? E para a indústria, o comércio? Não há uma discussão ampla sobre o assunto. Falham os poderes públicos. Só R$ 5 bilhões, do total de R$ 150 bilhões, vão para a agricultura! Pouco demais. Onde estão os políticos, para evitar que o presidencialismo autoritário brasileiro faça o que lhe der na telha, favorecendo os bancos?

A sociedade global está em processo de repulsão relativamente aos bancos. Por isso, os governos europeus e americanos estão sendo obrigados a ajudar os bancos falidos, mas, também, a dar ampla satisfação ao poder democrático estabelecido, isto é, aos contribuintes, irados com as ações bancárias especulativas, estimuladas pelos próprios governantes, que se ausentaram em matéria de normas, regulamentações e fiscalizações adequadas, deixando tudo correr solto, até explodir geral. Criminosos.

O presidente brasileiro segue na contramao dos govenantes europeus e americano. Por que estes estatizaram os bancos? Simplesmente para que com o governo, com dinheiro estatal – o Estado é capital com sua própria moeda – , mais atuante nas carteiras dos bancos, forcem juros mais baixos para o comércio, indústria, serviços e agricultura, a fim de que as atividades produtivas continuem girando, evitando, consequentemente, a recessão.

Lula se nega a estatizar, mesmo que parcialmente os créditos correspondentes aos bilhões de reais de depósitos compulsórios. Por que não jogou esse dinheiro no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal, para emprestarem barato, tirando do ar as expectativas negativas que se formam, justamente, porque os bancos privados, em vez de colocar recursos na produção, continuam aplicando na especulação, nos títulos públicos, enquanto, ao mesmo tempo, permanecem tímidos quanto a ajudarem os pequenos que estão pela hora da morte?

Adianta os bancos disporem do dinheiro do compulsório, para emprestar a 6% ao mês, escravizando os tomadores? Que adianta se disporem a emprestar ao custo exorbitante, se a economia está em processo de desaceleração? Quem vai tomar dinheiro a 100% ao ano para aplicar na produção, que , graças ao dinheiro caro e aos impostos escorchantes, deixa margem de lucro inferior à taxa de inflação?

A questão ética e moral não deixa dúvida: se se coloca dinheiro estatal, sem lastro, na circulação capitalista e dela retira parte dele em nome do combate à inflação, em forma de depósito compulsório, o retorno da moeda à circulação, em nome do combate à recessão, teria que favorecer, fundamentalmente, não aos bancos, que não são donos dos recursos, mas os contribuintes, seu verdadeiro proprietário.

Se tudo fica frouxo como está, o resultado pode ser simplesmente estimulo aos agiotas. Eles poderão nem colocar o dinheiro na produção e , se colocar, sob pressão, o farão a um custo elevado, como está acontecendo. Agiotagem criminosa desenfreada.

Congresso alienado na discussão dos compulsórios 

O Congresso brasileiro está fazendo papel de palhaço no cenário da crise bancária. Depois reclama que Hugo Chavez chame os congressistas brasileiros de papagaios do Consenso de Washington.

O que aconteceu nos Estados Unidos? O presidente W. Bush, ao ter que lançar mão de dinheiro do contribuinte, mandou mensagem ao legislativo, para que os congressistas apoiassem , ou não, as propostas desesperadas elaboradas pela Casa Branca.

Foi um pau firme. Num primeiro momento, a Câmara de Represenatntes recuou. O mundo veio abaixo, mas não morreu ninguém. Num segundo instante, o Senado aprovou e, em seguida, a Cãmara ratificou,  mas, aí, o perfil do pacote mudou. Inicialmente, a proposta governamental era escandalosa, como a que Lula propõe, agora, salvando os bancos, com compulsório, mas sem exigir destinação específica dos recursos para o setor produtivo, em mensagem ao Congresso, para dar credibilidade à ação governamental. Estranhamente, o presidente, mediante presidencialismo imperial, sequer realizou reunião com os presidentes das duas casas do Congresso, para dar sonoridade nacional a sua ação política, como se os congressistas fossem meros fantoches. São ou não? Se não reclamaram até agora é porque estão acomodados em suas insignificâncias.

Somente depois de muita discussão no Congresso americano, a situação acomodou-se, sinalizando atendimento de interesses dos contribuintes, que pressionaram os congressistas, antes que estes aprovassem o pacotinho de 700 bilhões de dólares, para cobrir um rombo calculado em mais de 30 trilhões de dólares, a bomba atômica especulativa, impulsionada pelo mercado derivativo dos derivodólares que encharcam a praça mundial  de créditos podres.

Os governos, na Europa, diante da bancarrota, frente ao perigo de se sucumbirem, e sabendo que os congressistas europeus resistiriam à dose do remédio, mudaram de tática. Dançariam feio politicamente, se repetissem W. Bush. Colocação de dinheiro público na banca? Sim. Mas, com participação do Estado na carteira de crédito bancário, dando ao contribuinte poder financeiro.

Por isso, foi aplaudida, mundialmente, a proposta do primeiro ministro Gordon Brown, da Inglaterra, de lançar, na circulação capitalista européia, 1,3 trilhão de euros, quase 2,5 trilhões de dólares, fazendo com que a moeda européia desse um salto de qualidade e credibilidade diante do dólar, francamente, desmoralizado na praça global, sem poder ser mais a representação absoluta nas relações de trocas cambiais no cenário internacional. Brown, que estava perigando, ameaçado de ser detonado pelo parlamentarismo inglês, deu a volta por cima. Virou ídolo nacional, europeu, mundial. Diante das ameaças do parlamento, que o detonaria, sagrou-se campeão, transformando a crise em oportunidade política consagradora, pelo menos por enquanto.

Falta de regras claras pode dar impeachment

E Lula? Sob o presidencialismo autorítário, regado por medidas provisórias ditatoriais, que colocam o Congresso de joelhos, não dá maiores satisfações à sociedade, por meio doLegislativo, sobre o que fará com os R$ 150 bilhões. Quem acredita na pureza dos banqueiros?

Na Europa, de braços dados com Dom Quixote, na Espanha, o titular do Planalto aplaudiu Brown, a nova liderança política europeia, mas mandou o presidente do BC, Henrique Meirelles, jogar debaixo do pano, longe do Congresso, a quantia bilionária, ou seja, poupança popular guardada nos cofres do Tesouro, sem discussão de regras claras, explícitas, sob fiscalização social. Onde está o Procon, nascido para proteger o contribuinte?

O que dizem os congressistas nacionais, sob a fraca liderança do senador Garibaldi Alves(PMDB-RN), subordinados aos conceitos bancocráticos, que dominam a cena nacional? Nada, até o momento.

Se a fantástica quantia do compulsório, poupança popular acumulada – depois ainda falam que falta ao Brasil poupança para o desenvolvimento interno! – continuar sendo manipulada, sem maiores regras – onde estão essas regras, claras, amplamente discutidas no parlamento nacional? – , enquanto as atividades produtivas entram em processo de desaceleração, sinalizando desemprego e consequente diminuição do consumo, estará rolando no cenário nacional prática financeira criminosa, que pode, inclusive, suscitar impeachment do presidente da República.

Imagine se W. Bush mandasse fazer o que Lula está orientando para que o BC faça! Seria chutado da Casa Branca. No Brasil, terra da bancocracia, o governo patrocina a agiotagem e os congressistas ficam calados, ao mesmo tempo em que a produção e o crédito entram em colapso, inviabilizando o consumo. Produção é consumo, consumo é produção. Um não vive sem o outro. Mas, os bancos, com o compulsório, no bolso, vivem muito bem.

Lula e Chavez à sombra de Vargas

 

Sempre que  o presidente Hugo Chávez menciona de modo elogioso o ex-presidente brasileiro Getúlio Vargas em suas freqüentes visitas ao Brasil, as reações são variadas. Convenhamos,  para os brasileiros é raro ouvir de um dirigente revolucionário de esquerda, socialista, que cita Marx, Engels e convida à leitura de Trotsky, elogios ao papel histórico desempenhado por Vargas. Há reações de surpresa, outros reagem com incompreensão, há também desconcerto e até mesmo de discordância. Mas, mesmo assim, o presidente venezuelano tem razão ao colocar Vargas na História da América Latina como um líder nacionalista, antiimperialista e responsável pelas mais profundas transformações sociais progressistas que mudaram a cara do Brasil. Não por acaso, o presidente Lula assinou decreto criando a Semana Vargas, destinada a divulgar a obra e o pensamento do líder anualmente, oportunidade em que afirmou ter sido aquele o mais importante presidente brasileiro. Portanto, mais uma concordância entre Lula e Chávez.

 

A própria relação atual entre Brasil e Venezuela produz algumas significativas respostas para as reflexões que os discursos de Chávez  suscita. Os dados indicam um crescimento vigoroso nesta relação, especialmente das vendas brasileiras para o país caribenho-andino-amazônico,  dividindo parte do empresariado brasileiro que não sabe se comemora e apóia a intensificação desta cooperação bilateral ou se segue as orientações intervencionistas emitidas da Casa Branca para que seja vetado o ingresso da Venezuela no Mercosur, buscando transformar Chávez numa ameaça à democracia, sem que haja sustentação factual para tal rotulação propagada arbitrariamente pela mídia controlada pelos anunciantes transnacionais. Neste caso, vale citar declarações de Lula, do alto de sua popularidade:  “o que há na Venezuela é democracia demais!”.  Com uma pecualiaridade que deve merecer atenção mais acurada. Sendo a economia mais desenvolvida do continente sul-americano, o Brasil está possibilitando à Venezuela ter acesso a um conjunto de bens, tecnologias e serviços que, dada sua posição política, talvez fosse mais difícil de obter se procurados, por exemplo,  nos EUA. Registre-se as dificuldades que o bloqueio impõe a Cuba nesta matéria. Os EUA recusam vender aviões a Venezuela. Com oBrasil, a relação tem permitido a instalação de condições para queimar etapas e a Venezuela,  numcurto espaço de tempo vem operando algumas fases de seu próprio desenvolvimento não realizadas antes em razão do pensamento retrógrado, parasitário e colonizado dos dirigentes políticos que comandaram esta verdadeira fortaleza petroleira até a chegada de Hugo Chávez ao poder,

 

                                      A “maldição do petróleo”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não é simples enfrentar a “maldição do petróleo” pela qual países ricos no mineral sofrem intervenções imperiais, golpes de estado, têm seus presidentes levados à morte, como Vargas, e são impedidos de transformar a receita petroleira em alavanca de desenvolvimento para seus povos. Como agora proclama o presidente Lula face à estupenda descoberta de um mar de petróleo, desde já alvo de pressões e tentativas de manipulações pelos poderosos interesses que quebraram o monopólio estatal do petróleo criado na Era Vargas e forçam para uma desnacionalização desta nova riqueza. Lula chegou a ir até a sede da UNE convocando os estudantes a saírem às ruas para uma nova campanha “O petróleo é nosso”…. E tem anunciado que este petróleo novo será industrializado aqui mesmo e será usado em proveito do povo brasileiro, não de meia dúzia de transnacionais. É o Lula retomando Vargas.  Na Venezuela, a  “maldição do petróleo” condenou aquele país riquíssimo a uma atrofia sócio-econômica por décadas, pois, apenas o setor petroleiro se desenvolveu, mas em benefício das camarilhas colonizadas pelo império, impedindo o desenvolvimento global do país,  sua infra-estrutura, sua industrialização, suas políticas públicas, sua legislação trabalhista, sua cultura soberana. O caso da Venezuela é dos mais graves e mais emblemático: era tal o nível de submissão e vassalagem das oligarquias que dirigiram o país antes da República Bolivariana, que as reservas petroleiras venezuelanas eram consideradas como reservas nacionais …. pelos governos norte-americanos! Contavam com elas em seus cálculos de política energética interna! Chávez deu um basta a esta era de rapina colonialista e isto explica o ódio que desperta nas camarilhas entreguistas venezuelanas  –  pelas quais está jurado de morte   – que sempre se sentiram “maiameiras”, de voracidade insaciável.  Por isso, o petróleo venezuelano sustentou o padrão de consumo norte-americano, asfaltou as avenidas de Washington e Nova York, suas guerras, mas o povo venezuelano era obrigado a viver em “en las casas de cartón” como no vigoroso canto-denúncia de Ali Primera, hoje o cantor oficial do processo revolucionário venezuelano, embora morto em 1986, em circunstâncias que levantam fortes dúvidas.

 

                                      A Era Vargas e a Venezuela

 

A oligarquia da Venezuela registrava um dos mais elevados consumos de caviar e champanhe do mundo,  mas não fabricava fósforos, não possuía sequer economia agrícola, apesar da exuberância de suas terras, clima, água e da enorme quantidade de mão-de-obra atirada no abismo do desemprego, devorada por uma gigantesca  criminalidade que só agora vem sendo realmente combatida  de verdade, através da industrialização , do desenvolvimento agrícola e das obras de infra-estrutura, capazes de gerar emprego em massa. Nesta empreitada o Brasil é importante parceiro da Venezuela. É neste ponto que se revela a atualidade de Vargas, o que dá razão às constantes referências que Hugo Chávez ao ex-mandatário brasileiro, que, acossado por um golpe orquestrado pelo capital externo contra seu governo nacionalista, preferiu dar um tiro no peito a aceitar ser deposto.

Fica claro que o Brasil só pode hoje desempenhar este papel de ser uma alavanca para o desenvolvimento venezuelano,  para que as etapas de desenvolvimento não realizadas em função da “maldição do petróleo” sejam agora recuperadas sob uma direção revolucionária, como num processo de revolução permanente, graças a uma estrutura instalada e consolidada pela Era Vargas no Brasil e que mesmo a fúria dos governos da privataria não conseguiu demolir totalmente. É com financiamentos do BNDES  –  banco estatal de fomento, um dos maiores do mundo,  criado por Vargas  –  que são realizadas obras de grande porte na pátria de Bolívar, tais como a expansão do metrô de Caracas, a kilométrica ponte sobre o Rio Orenoco e agora o apoio à produção agrícola. As parcerias entre a Petrobrás  –  empresa criada por Vargas e que foi provavelmente o motivo maior da sua dramática morte, como ele diz em sua Carta Testamento  –   e PDVSA, também só podem ser viabilizadas graças à sólida estrutura estatal que sustenta estas duas grandes alavancas de desenvolvimento, sendo que o processo de recuperação da soberania venezuelana sobre a PDVSA é um forte estímulo para que providências com o mesmo sentido sejam  urgentemente adotadas no Brasil, agora alvo maior de cobiça pelos novos campos de petróleo descobertos, para a plena recuperação do controle nacional sobre a Petrobrás, tal como era a vontade de Vargas, não sem razão, citado por Chávez.

 

                            A ameaça está em outro lado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem a industrialização brasileira da Era Vargas, sem a estruturação do Estado Nacional, sem a implantação de instrumentos desenvolvimentistas como o BNDES, não teria surgido no Brasil ferramentas como a a Petrobrás, a Vale do Rio Doce, a CSN e, mais tarde, a Embrapa, que hoje, sob acertada orientação de Lula, cumpre decisiva função para ajudar a Venezuela a recuperar os anos perdidos de sua economia agrícola  durante a prevalência da “maldição do petróleo”. Somente agora pode a Venezuela falar com realismo em conquistar a meta da soberania alimentar, supondo-se que o governo Chávez esteja atento para impedir a captura da agricultura venezuela em expansão pela oligopólica das sementes transgênicas. Vale assinalar ainda que a Venezuela compra 100 milhões de litros de etanol por ano do Brasil para reduzir a poluição da gasolina. Assim, o que se nota é que os setores produtivos vão se interligando, tal como na eletricidade venezuelana da usina de Guri que abastece Roraima, sendo esta a única “invasão”, muito benéfica ao nosso povo por sinal, para o desespero  dos setores mais conservadores no espectro político brasileiro, que querem inventar a “ameaça Chávez”.

 

Enquanto responsavelmente a Venezuela fortalece sua defesa, o Ministério da Marinha do Brasil reconhece que não tem condições  de proteger nosso petróleo de algum “espertinho”, como disse Lula com realismo,  ao tempo em que liberou concretamente recursos para a construção do submarino nuclear brasileiro. Está claro que não é da Venezuela que o Brasil tem que se defender, há outros países poderosos que historicamente sempre rapinaram, à mão armada, o petróleo de outros povos. Basta olhar a história…. É contraditório também reconhecer, como fazem os pensadores militares preferidos da mídia conservadora,  que o Brasil sim tem necessidade urgente de reconstruir sua defesa demolida e recriar uma indústria militar para defender sua soberania, mas acusar Chávez de fazer o que se pretende fazer aqui. Diante das reiteradas críticas deste setor a Chávez, resulta  curioso o silêncio mantido ante o impressionante armamentismo da Colômbia, que acaba de receber 600 tanques dos EUA, supostamente para se “combater a guerrilha”. Combate-se guerrilha com tanques??? Afinal, Chávez é uma ameaça ou é um exemplo do que deveria ser feito para recuperar soberania aqui?  Ou não será exatamente por ser um exemplo é que se torna uma “ameaça” para os que querem impedir uma indústria militar ao sul do Equador?

 

                           Integração e cooperação

 

O ideário de Vargas estava rigorosamente presente no mais recente encontro de Lula e Chávez em Manaus. Ante perguntas da imprensa sobre como enfrentar a crise financeira do capitalismo os dois mandatários coincidiram na condenação da irresponsabilidade do fundamentalismo econômico que transformou economia em cassino. E também quanto à necessidade de desenvolver o mercado interno, expandindo a economia real, verdadeira, produtiva, e  consolidar a integração sul-americana, pois, conforme ressaltou o presidente brasileiro, “como maior economia na região o Brasil tem obrigação de ser solidário com os países de economia mais frágeis, para que todos cresçamos juntos”  Desde Vargas não se ouve um presidente do Brasil falar com semelhante lucidez e visão estadista.  Foi preciso um operário chegar ao Palácio do Planalto para que a política externa brasileira superasse a fase da diplomacia de pés descalços do ex-chanceler Celso Lafer e  reaprendesse a praticar os conceitos de soberania, independência, solidariedade e desenvolvimentismo. Tudo junto, seguindo o estabelecido na Constituição Brasileira, muito citada, mas nem sempre cumprida: a integração latino-americana é objetivo da Republica Federativa do Brasil. Assim como os elogios de Chávez a Vargas, também produziram desconcertos as declarações de Trotsky que, em 1938,  considerava positivamente  os processos nacionalistas de Vargas como de Cárdenaz, que lhe concedeu asilo no México. Para Trotsky eram como uma espécie de “bonapartismo suy generis, com conteúdo progressista”, chegando mesmo a recomendar que diante de um eventual conflito entre Brasil e Inglaterra, os revolucionários deveriam posicionar-se ao lado do Governo Vargas, mantendo sua independência crítica, contra o imperialismo inglês. Não por acaso Chávez recorda tanto Trotsky, quanto Vargas, numa espécie de síntese das forças históricas que apontavam para o progresso naquela etapa.

 

                   O Banco do Sul e a nacionalização dos seguros

 

 

 

Diante dos excelentes resultados que a relação bilateral Brasil-Venezuela, animada por uma madura relação dos dois presidentes, apesar da alta dose de intrigas midiáticas de que tem sido vítima,  soa realmente  incompreensível a insistência de segmentos importantes da sociedade brasileira, particularmente no estamento militar,  em rejeitar este processo de crescente cooperação entre estes dois países, cujo passo seguinte, muito provavelmente, desaguará na incorporação da Venezuela ao Mercosur. Que os interesses imperiais se oponham a este curso cooperativo é compreensível. O império quer submissão, incomoda-se com qualquer cooperação, sobretudo, quando dela está ausente, quando nela não dá as ordens e quando ela fortalece a emergência  de um novo mapa geopolítico regional, mas também internacional. Os empresários brasileiros que têm hoje extraordinárias oportunidades de vender equipamentos, serviços e tecnologia para a Venezuela, não possuem qualquer objeção lógica para rejeitar o ingresso da Venezuela no Mercosur. É meio suicida capitalista que não quer expandir mercado….Ao contrário, hoje os sinais de turbulência e instabilidade partem da economia norte-americana, cuja predominância sobre as operações  brasileiras foi providencialmente reduzida, por uma opção política que questionou, embora timidamente,  o “fundamentalismo de mercado”, e encoraja o fortalecimento de relações sólidas com as economias da América do Sul, recomendando apostar num novo curso de desenvolvimento regional, marcado pela integração, inclusive com a adoção de instituições financeiras e até mesmo de moeda própria, tal como o já criado Banco do Sul, lamentavelmente ainda não em operação.

 

 O Banco do Sul  oferece a oportunidade de depositar as reservas sul-americanas em porto mais seguro que os instáveis bancos do centro da economia virtual e especulativa, onde a moeda, o dólar, vem sendo emitida sem qualquer lastro. Todos estes foram problemas analisados por Vargas que sempre os encarou a partir de um projeto soberano para o Brasil e para a América Latina também. E diante das sombras imprevisíveis na economia dita desenvolvida, vítima se seu próprio veneno, cabe estranhar a demora injustificável para a instalação definitiva do Banco do Sul no qual os países que têm ativos reais, riqueza física, poderiam resguardar mais eficientemente suas reservas e emprega-las apenas em projetos de desenvolvimento cooperativo com efeitos benéficos para o conjunto da região que já deu sinais políticos nítidos, pela mobilização de seus povos,  de não querer mais aceitar  viver sob “a maldição do petróleo”.

 

Face à necessidade de adoção de medidas protetoras da economia nacional, cabe pedir reconsideração da quebra do monopólio estatal dos seguros e resseguros, instrumento criado na Era Vargas ante a ameaça das turbulências da guerra  e agora injustificavelmente anulado, permitindo a contaminaçào de seguradoras transnacionais envoltas no “cassino irresponsável” condenado pelo próprio Lula, que sancionou a lei. Ainda é tempo.

 

De todo modo, é salutar que pela palavra instigante do presidente Hugo Chávez se renove o debate e a consciência sobre a importância da Era Vargas para o desenvolvimento autônomo brasileiro, cujos efeitos se fazem notar na alavancagem que alguns daqueles instrumentos varguistas exercem hoje para que a Venezuela supere mais rapidamente  –   já como território livre de analfabetos  –    a herança nefasta deixada pelo não-desenvolvimento programado de quando esteve sob a era da rapina apelidada de “a maldição do petróleo”.