O Estado contra ações predatórias capitalistas

 

O que estamos vendo, na grande crise bancária que arrasta para o abismo o sistema capitalista, não é erro nem acidente. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Em meados do século 19, Karl Marx já havia revelado como este jogo se dá.
As economias modernas criaram um novo conceito de riqueza. Não se trata mais de dispor de valores de uso, mas de ampliar abstrações numéricas.
Busca-se obter mais quantidade do mesmo, indefinidamente. A isso os economistas chamam “comportamento racional”. Dizem coisas complicadas, pois a defesa de uma estupidez exige alguma sofisticação. 
Quem refletiu mais profundamente sobre essa grande transformação foi o autor de O Capital.
Em meados do século 19, ele destacou três tendências da sociedade que então desabrochava: (a) ela seria compelida a aumentar incessantemente a massa de mercadorias, fosse pela maior capacidade de produzi-las, fosse pela transformação de mais bens, materiais ou simbólicos, em mercadoria; no limite, tudo seria transformado em mercadoria; (b) ela seria compelida a ampliar o espaço geográfico inserido no circuito mercantil, de modo que mais riquezas e mais populações dele participassem; no limite, esse espaço seria todo o planeta; (c) ela seria compelida a inventar sempre novos bens e novas necessidades; como as “necessidades do estômago” são poucas, esses novos bens e necessidades seriam, cada vez mais, bens e necessidades voltados à fantasia, que é ilimitada.
Para aumentar a potência produtiva e expandir o espaço da acumulação, essa sociedade realizaria uma revolução técnica incessante. Para incluir o máximo de populações no processo mercantil, formaria um sistema-mundo. Para criar o homem portador daquelas novas necessidades em expansão, alteraria profundamente a cultura e as formas de sociabilidade. Nenhum obstáculo externo a deteria. 
Havia, porém, obstáculos internos, que seriam, sucessivamente, superados e repostos. Pois, para valorizar-se, o capital precisa abandonar a sua forma preferencial, de riqueza abstrata, e passar pela produção, organizando o trabalho e encarnando-se transitoriamente em coisas e valores de uso. Só assim pode ressurgir ampliado, fechando o circuito. É um processo demorado e cheio de riscos.
Muito melhor é acumular capital sem retirá-lo da condição de riqueza abstrata, fazendo o próprio dinheiro render mais dinheiro. Marx denominou D – D” essa forma de acumulação e viu que ela teria peso crescente.
À medida que passasse a predominar, a instabilidade seria maior, pois a valorização sem trabalho é fictícia. E o potencial civilizatório do sistema começaria a esgotar-se: ao repudiar o trabalho e a atividade produtiva, ao afastar-se do mundo-da-vida, o impulso à acumulação não mais seria um agente organizador da sociedade. 
Se não conseguisse se libertar dessa engrenagem, a humanidade correria sérios riscos, pois sua potência técnica estaria muito mais desenvolvida, mas desconectada de fins humanos.
Dependendo de quais forças sociais predominassem, essa potência técnica expandida poderia ser colocada a serviço da civilização (abolindo-se os trabalhos cansativos, mecânicos e alienados, difundindo-se as atividades da cultura e do espírito) ou da barbárie (com o desemprego e a intensificação de conflitos). Maior o poder criativo, maior o poder destrutivo. 
O que estamos vendo não é erro nem acidente. Ao vencer os adversários, o sistema pôde buscar a sua forma mais pura, mais plena e mais essencial, com ampla predominância da acumulação D – D”. Abandonou as mediações de que necessitava no período anterior, quando contestações, internas e externas, o amarravam. Libertou-se. Floresceu.
Os resultados estão aí. Mais uma vez, os Estados tentarão salvar o capitalismo da ação predatória dos capitalistas. Karl Marx manda lembranças.  

 

*CESAR BENJAMIN, 53, editor da Editora Contraponto e doutor honoris causa da Universidade Bicentenária de Aragua (Venezuela), é autor de “Bom Combate” (Contraponto, 2006). 

O Brasil pela TV Brasil

 

“Uma notícia está chegando lá do interior
Náo deu no rádio, no jornal , nem na televisão…”    

Notícias do Brasil, 
Milton Nascimeto e Fernando Brant

A emoção invadiu os telespectadores que assistiam, pela TV Brasil, na Abertura dos Jogos Pára-Olímpicos de Pequim,em 6 de setembro,  quando os mais elevados sentimentos humanos afloraram, superaram-se, expandiram -se , multiplicaram-se numa rara sintonia de esperança . E esta emoção pode ter sido tão ampla e tão profunda que, sem pretender, talvez não tenha deixado espaço para uma reflexão necessária sobre televisão e sua missão pública.
Sempre atento às volumosas críticas feitas à TV Brasil, a todas as críticas, inclusive àquelas mais apressadas e impacientes, e também àquelas acertadas e construtivas, arrisco avaliar que a cobertura que a TV Brasil está a fazer desta Pára-Olímpíada, não por comiseração, evidentemente, nos oferece uma oportunidade privilegiada para um balanço acerca da mais nova emissora televisiva brasileira.
Destaca-se, inicialmente, que apenas a TV Brasil realizou a cobertura desta solenidade muito mais que maravilhosa , com o “Bolero de Ravel” entoado naquele Ninho de Pássaros e bailado por centenas e centenas de dançarinos numa harmonia que lembrando a estética grega dos deuses do Olímpo, como a provar que o patrimônio cultural acumulado pela humanidade em sua caminhada de algum modo encontrava um eco ali naquele momento. Era um sinal de convocação para que acreditemos que podemos sim extirpar as formas de embrutecimento ainda vigentes neste etapa histórica, apesar das sombrias nuvens nucleares que ainda pairam como desafios ao gênero humano. Era uma mensagem especial também vinda da própria China que há meio século atrás era conhecida como o país da fome, das doenças e onde mulheres eram compradas nas feiras juntamente com animais. Hoje a China envia naves ao espaço sideral, é o maior produtor mundial de computadores, legalizou e socializou a acupuntura antes clandestina. A TV Brasil mostrou razoavelmente aos brasileiros este misterioso país que utilizou a musicoterapia no salvamento das vítimas do mais recente terremoto! Mas, por quê só a TV Brasil democratizou ao povo brasileiro esta informação tão carregada de grandeza, nobreza, e generosidade humanas? Por quê as tvs comerciais não democratizaram esta informação monumental? Por que não havia patrocinadores interessados? Por quê a TV Globo que se arvora em emissora vanguarda em eventos esportivos internacionais, que se auto-elogia em campanhas ditas humanitárias não viu relevância em retransmitir a Abertura dos Jogos Pára-Olímpicos de Pequim? 

Socialização da informação é o grande desafio

Eis aí uma vantagem democrática da TV Brasil: o seu patrocinador é o povo brasileiro, o contribuinte que paga para que ela exista. Assim, transmitir ou não algo de superlativa beleza e simbologia hamana não é decidido no departamento comercial, não depende de uma Coca-Cola ou de um banco destes de indecentes privilégios. Depende de uma decisão política sintonizada com o que está determinado na Constituição Federal, no capítulo da Comunicação Social: é obrigação constitucional dos meios de comunicação a elevação cultural, educativa e informativa do povo brasileiro. Neste caso, missão cumprida pela TV Brasil. 
Aparentemente, esta retransmissão – que deveria ser reprisada em horário nobre, pois, pelo fuso horário, foi exibida num sábado matinal – não teria tanta importância político-comunicativa como se pretende argumentar aqui. Mas, se lembrarmos da questão dos seres humanos de qualquer nacionalidade com necessidades especiais, do grau de respeito ou não que as sociedades lhes dispensam através de políticas públicas como um indicador de desenvolvimento humano fundamental, aí fica claro o acerto da emissora pública brasileira ao decidir-se por esta comovedora cobertura. Apenas comparando, no dia 8 de agosto, quando da Abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em razão do oligopólio informativo que impera nos EUA, o povo norte-americano não pode acompanhar aquela solenidade, já que, o único oligopólio que dispunha dos direitos de transmissão da mesma, preferiu oferecer ampla cobertura à bárbara agressão das tropas da Geórgia , com apoio da Otan, à Ossétia do Sul. Claro, entende-se, não apenas os EUA são um país viciado em guerra, como em qualquer guerra estão jogo os interesses do complexo militar-industrial norte-americano, denunciado pelo ex-presidente Einsenhower, e representam a primeira economia nos EUA, portanto, são também os principais anunciantes e controladores da mídia local. Fora do controle da lógica rebaixadora do mercado, a TV Brasil pode demonstrar no episodio estar dotada de missão pública informativa.

Ouvir a sociedade para melhor servi-la

Ouvidoria: siga o meu exemplo?.
Há duas semanas a Empresa Brasileira de Comunicação nomeou o novo Ouvidor-Geral da corporação, o jornalista Laurindo Leal, que traz consigo uma trajetória de permanente defesa da comunicação pública, atributo colado à sua reconhecida carreira profissional. Ultrapassando a constatação do acerto da escolha, há uma pergunta obrigatória feita a partir da própria decisão : por quê as emissoras privadas não seguem o exemplo da emissora do campo público? E por que os críticos não se recordam de debater enfaticamente esta cristalina superioridade democrática da TV Brasil ante as demais?
Na verdade, a nomeação do novo Ouvidor-Geral e a reafirmação deste serviço criado ainda no tempo da Radiobrás vem reforçar a necessidade de aprofundar o debate sobre as possibilidades concretas que a comunicação no campo público oferece à sociedade e, em linha oposta, a reiterada falta de qualquer sinal democratizador e humanizador nas emissoras do campo privado para qualquer forma de permeabilidade aos cidadãos . Ou seja, o que havia de positivo na antiga Radiobrás é preservado, vale registrar, assim como inclinações liberais alimentadas anteriormente são hoje acertadamente abandonadas. A referência é àquela mal-disfarçada campanha, em sintonia com a visão mercadológica da comunicação, visando a extinção da Voz do Brasil, o que implicaria reduzir papel do estado, deixando ainda mais abandonada e sem informação plural e pública a esmagadora maioria dos brasileiros que não pode ainda hoje, embora estejamos no século XXI, ter acesso a uma tecnologia do século XVI, a velha e boa imprensa. de Guttemberg. Uma vez mais, a EBC comprova estar dotada de missão público.

O olhor público sobre o interesse público

Também chama atenção o silêncio daqueles críticos mais apressados que atuaram vivamente no nascedouro da TV Brasil mas que agora, quando há pouco o Conselho Curador da EBC analisou o caso do jornalista Rui Lobo não avaliaram os vários desdobramentos que o episódio encerra.. A composição do órgão já demonstrava por si só os conhecidos compromissos do presidente Lula para com a pluralidade informativa e a democracia. Foi especialmente dos setores mais à esquerda – espectro em que Lula ligou sua trajetória política e à qual ainda mantém-se vinculado – que vieram as críticas mais impacientes. É notória a representação minoritária da esquerda naquele organismo, assim como, em razão de ter uma eclética composição, com a presença de personalidades de pensamento tido como conservador. Esta combinação de fatores tornou impossível aos segmentos mais conservadores da sociedade, ao poder econômico sempre crítico a qualquer forma de comunicação que não seja tiranicamente controlada pelo mercado escravizado pelos cartéis, a realização de qualquer crítica mais consistente à TV Brasil. Especialmente quando aquele Conselho heterogêneo, após realizar monitoramento detalhado do noticiário transmitido julgou descabidas e sem comprovação material a acusação feita pelo jornalista mencionado de que há favorecimento governamental nos informativos da emissora, fazendo eco aquela idéia da mídia comercial que batizara a TV Brasil de TV Lula. Vale indagar: que outra emissora privada possui um conselho composto por uma personalidade que reflitam os mais diferentes espectros e segmentos da sociedade brasileira? Sendo justo registrar que esta composição é incompleta, que pode ser aperfeiçoada, esta crítica deve ser feita a partir da constatação de ser a a TV Brasil a emissora que possui hoje o maior grau de permeabilidade aos cidadãos no panorama televisivo brasileiro.

A arte prepondera sobre o negócio

“A imaginação a serviço do Brasil”
Talvez nem fosse necessário este destaque se aquele momento do nascedouro da EBC-TV Brasil não tivesse sido palco de muitas críticas impressionistas e descontextualizadas, depois renovadas quando da demissão do anterior Diretor-Geral , quando muitos chegaram a vaticinar que o projeto da emissora pública havia gorado. Não é o que se constata. É preciso mesmo recordar que a decisão política de construir uma empresa pública de comunicação comprova, uma vez mais, a sensibilidade e o compromisso do presidente Lula com a causa da democratização da comunicação, apesar do ritmo lento em que se registram as mudanças nesta área excepcionalmente sensível e explosiva políticamente nos tempos modernos. Recordemos que em 2002, o Partido dos Trabalhadores realizou um Seminário Nacional de Comunicação e Cultura, desdobrado em 5 seminários por região e concluído neste evento nacional em Belo Horizonte, em julho, quando se aprovou o texto “A Imaginação a Serviço do Brasil” , entregue por personalidades do mundo intelectual e artístico ao candidato Lula, que o assumiu como plataforma programática específica durante a campanha presidencial. Neste documento constava exatamente a recomendação para que se criasse uma emissora pública de comunicação, inclusive com a indicação de que a fusão entre a Radiobrás e a TVE deveriam servir de base para futura tv de natureza pública. A aprovação deste documento no Seminário petista até motivou raivosa crítica por parte do colunista Diogo Mainardi, que, coerente com linha editorial anti-nacional da Veja, acusou o documento de estatizante e a um de seus redatores nominalmente de “bolchevique-caipira”. O importante é notar que o Presidente ouve sim o que se elabora nos segmentos organizados – é este o seu principal gen de sua personalidade política – nos fóruns dos lutadores sociais, e que a decisão adotada mais tarde de submeter ao Congresso Nacional a criação de uma empresa pública de comunicação, originou-se sim de debate democrático, de todo um conjunto de lutas sociais acumuladas durante anos, mais tarde renovado na realizaçao do Fórum Nacional de TVs Públicas. A conclusão é que a TV Brasil é a única emissora de tv aberta que nasce com o respaldo do congresso nacional – ou náo é a medida provisória um instrumento aprovado na Constituição Federal ? – quando todas as demais emanam de conchavos políticos acobertados pelas sombras indevassáveis da ditadura militar, especialmente a TV Globo, cujo nascedouro emana do golpe militar de 1964 em conluio com intervenção do capital estrangeiro, numa ação ilegal direta do grupo Time-Life.

A voz da consciência não sai do interesse privado

O resgate de uma dívida informativo-cultural
“O Sertão de Glauber”, “O Velho – a história de Luiz Carlos Prestes” e “Conversações com Milton Santos”, “A guerra do gás na Bolívia” e “O nascimento do cinema em Moçambique”, filmes recentemente exibidos pela TV Brasil, são apenas alguns dos exemplos a serem citados para demonstrar que há um considerável esforço, com raros paralelos na tv aberta brasileira atual, para saldar aquela gigantesca dívida informativo-cultural acumulada contra o povo brasileiro ao longo de décadas. Além de uma programação que não viola a Constituição – o que não ocorre com a programação da mídia comercial – a TV Brasil já pode afirmar que em 10 meses de existência exibiu mais um volume de produção audiovisual nacional que nenhuma outra emissora o fez ao longo de décadas. Exibe-se praticamente um filme brasileiro, longa ou curta, por dia. Há emissoras de tv aberta no Brasil que não exibem um filme brasileiro sequer por ano…. Os programas jornalísticos, os debates de estúdio, são sempre marcados pela pluralidade de opiniões e posições, o que contrasta radicalmente com a unilateralidade e não-diversidade que caracterizam o jornalismo da mídia privada, que, em muitos momentos, adquire mesmo tom de campanha contra o presidente da república. Este, mesmo depois de ter “pago para apanhar” por mais de 5 anos, por meio de verbas publicitárias distribuídas generosamente a estes grandes conglomerados midiáticos, continua registrando uma elevação constante de sua popularidade, o que transforma os espaços editoriais desta mesma mídia de verdadeiras sessões de desespero, talvez pela proximidade da abertura das novas urnas, onde o povo dirá o que pensa sobre os aliados políticos do presidente que se candidatam hoje às eleições municipais e os votos populares terão que virar notícia novamente.

Sociedade dos amigos da TV Brasil

“Muito que andar por aí” , diria o Gonzaguinha, e serve para caracterizar o tanto que falta fazer. Mas, estas tarefas não são unilaterais. Cabe à direção da EBC empreender toda sorte de iniciativas no campo político para vencer as inúmeras barreiras que permanecem não transpostas ainda, sem o que as emissoras públicas que a conformam não conseguirão atingir as metas fundamentais previstas naquele importante pronunciamento de Lula no I Fórum Nacional de TVs Públicas, quando lembrava que o povo pobre, o povo trabalhador, os jovens pobres, devem ter o direito de uma comunicação que informe, que eleve-os culturalmente, que seja educativa, que seja plural, rica em debates inteligentes e democráticos, o que não se vê grosso modo em qualquer uma das emissoras comerciais hoje. Mas, para isso o sinal tem que chegar lá nos grotões! E o sinal da TV Nacional não chega nem ali no final da Asa Norte em Brasília e comprar uma assinatura de tv a cabo para assistir a TV Brasil é algo economicamente proibido para a grande maioria do povo brasileiro, embora alguns segmentos do movimento de democratização da comunicação ainda insistam fanaticamente em afirmar o contrário, ignorando o cruel apartheid audiovisual existente hoje na comunicação brasileira. especialmente na tv paga.. E com riscos de piorar caso seja aprovado o PL-29 que desnacionaliza radicalmente o audiovisual, relatado por um deputado sintonizado com os oligopólios telefônicos internacionais, com apoio de alguns laboratórios comunicacionais que, apesar de situados nas universidades públicas, favorecem a estes interesses privados internacionais, aos quais, não por ingenuidade, chamam de novos atores.

O reinado da justiça depende do debate nos canais públicos

Aliás, vale lembrar que parte das críticas desferidas à TV Brasil carecem de coerência, como as daqueles que criticam o fato de que a emissora pública ainda não alcance todo o território nacional, mas que, quando o presidente Lula tentou criar a Rede de Televisão Institucional, a RTVI, se opuseram , como a Fenaj, para dar um exemplo , que emitiu nota pública questionando a legitimidade do mandatário eleito por 53 milhões de votos para criar por decreto uma rede de tv que hoje permitiria que tivéssemos o sinal da TV Brasil, bem como das tvs Senado, Câmara, Justiça e das legislativas estaduais, democratizados em todos os municípios brasileiros. Vale lembrar que a Abert também emitiu, na oportunidade, nota oficial que , como a Fenaj, era contrária à criação da RTVI. Outros críticos, que reclamam da timidez do governo federal de fazer o enfrentamento com a poderosa tirania midiática privada são, em contrapartida, os mesmos que apóiam a aprovação do PL-29 pelo qual os oligpólios midiáticos que controlam férreamente o fluxo da informação mundial passem a ter o controle legal ilimitado sobre a televisão brasileira. Há ainda aqueles críticos que rejeitam a TV Brasil considerando-a não pública, ou até ilegítima pelo fato de ter nascido de uma Medida Provisória, mas que elogiam e citam como exemplo de tv pública a BBC de Londres, fechando os olhos para o fato de ser esta emissora nascer de poder emanado pela monarquia, a famosa “Carta Real”, cujo poder se construiu na história por meio de criminosas açoes de violëncia e rapina contra os povos colonizados e explorados. Ao contrário, o mandato do presidente Lula emana um poder social legítimo das entranhas das lutas sociais e do voto popular. A monarquia inglesa nunca foi eleita, seu poder se constituiu pela violência colonial e agora, dando continuidade ao seu comportamento sinistro e opressivo, na violência imperialista, como a que a Inglaterra exerce ilegal e criminosamente contra o Iraque, o Afeganistão e a Irlanda., ocupação militar imperial que recebe sustentação editorial da BBC, tão elogiada pelos críticos da TV Brasil.

O diálogo nacional nasce do interesse nacional

É claro que há muito que construir e alterar na TV Brasil e também no sistema de Rádio da EBC. que ainda não deu sinais de pretender sequer disputar audiência transformando-se num rádio vibrante, com jornalismo caliente, com sucursais espalhadas por todo o país etc. Há também problemas editoriais. Um exemplo de linha editorial inadequada está nos comentários feitos pelo editor internacional da TV Brasil no programa “Diálogo Nacional” quando chegou a afirmar ser paranóia a idéia de que há ameça aos povos latino-americanos na presença militar dos EUA na região. A resposta à alienação do editor veio pelo tino político do próprio presidente Lula que pediu explicações formais ao governo dos EUA sobre a presença da Quarta Frota nos mares do sul. Mas, atodos estes elementos desiguais e insuficientes, que podem ser corrigidos sem traumas, não impedem observar a grande qualidade democra’tica da TV Brasil em relação às tvs comerciais. Basta considerar que a TV Brasil exibiu agora o documentário “A guerra do gás na Bolívia” enquanto as tvs comerciais cobrem a situação boliviana de modo unilateral, reberberando o preconceito elitista contra um governo chefiado por um indígena eleito pelo voto popular.
As tarefas são gritantemente claras: é preciso que o sinal da TV Brasil alcance todo território brasileiro, tal como ocorre com as emissoras privadas, que recebem polpudas verbas do orçamento público para isto; é preciso ter sinal aberto em todas as grandes capitais, como estão conseguindo já fazer as tvs Senado e Câmara; é preciso vencer o entulho privativista da Anatel que ainda impede a simples presença da TV Brasil no cabo; é inadiável ter uma rede de rádio com jornalismo público, plural e democrático, para oferecer ao grande público alternativas radiofônicas ao rádio comercial que segue delirantemente em campanhas privateiras, em cruzadas anti-governistas, distantes dos pressupostos básicos do bom jornalismo. E violentando a Constituição.
Mas, tudo isto implica também em estabelecer uma relação de cooperação e de interação com o público, a exemplo do que faz hoje o próprio presidente Lula que vai até a sede da Une e a convoca para sair às ruas em torno de uma nova Campanha “O petróleo é nosso” , ou quando sugere aos metalúrgicos que se movimentem para a melhoria salarial nesta farra de grandes lucros das montadoras, como reivindica a greve recente dos trabalhadores do ABC. Devemos tomar a criação da TV Brasil também como sendo uma convocacão do presidente Lula que encarna uma história de luta social para que também participemos ativamente deste desafio de dotar o Brasil de outra realidade televisiva, democrática, sintonizada com a Constituição. A diferença é abissal: enquanto o presidente anterior mandava o exército para reprimir a greve dos petroleiros, o presidente Lula vai aos sindicatos, vai á sede da Une, questiona a presenca da Quarta Frota dos EUA, apóia o governo Evo Morales contra açoes golpistas. Este comportameno político deve ser considerado pelos movimentos sociais para saírem ou da contemplação, ou da crítica paralisante, ou do ceticismo igualmente cômodo e inoperante.

Quem defenderá as riquezas nacionais senão os interesses nacionais?

Devemos utilizá-lo como medida das iniciativas políticas que podemos utilizar, dentro de um processo contraditório, com obstáculos que estão dentro e fora das estruturas do governo, para que reconheçamos também as condições políticas para ações construtivas para que a TV Brasil tenha de fato uma programção cada dia mais criativa, mais dialogal com o seu público, que seus instrumentos como a Ouvidoria sejam fortalecidos e usados com zêlo para assumirmos parcela de responsalidade pelos destinos da TV Brasil, Cabe a todos nós identificados com a causa da democratização da comunicação, com a necessária expansão e qualificação da comunicação do campo público, aos jornalistas, intelectuais, sindicatos de trabalhadores, tvs comunitárias, universitárias, educativas, tomar iniciativas para a consolidação, o fortalecimento e a qualificação crescente da TV Brasil, da Rádio Nacional, da EBC, organizando um movimento político, social, cultural para fazer frente à inevitável reação e sabotagem que sempre virão do campo da tirania da mídia privada. Por isso mesmo, para que nossas críticas sejam cada vez mais sintonizadas com um caráter construtivo, para que as iniciativas a serrem sugeridas possam encontrar um eco conseqüente e organizativo, para que possamos ampliar a participação nos já existentes espaços democráticos dentro da EBC, que devem ser alargados, multiplicados, enriquecidos , entendemos que chegou a hora também de se discutir e organizar uma Sociedade dos Amigos da TV Brasil.

Depois da TV Brasil, nada será como antes

Esta emissora que nasce de fóruns democráticos, que tem lastro em décadas de luta dos trabalhadores, comunicadores populares, intelectuais e artistas, que nasce do compromisso do próprio presidente da república com estas bandeiras e que deve ser considerada como uma ferramenta em permanente construção, precisa agora de um instrumento para esta lapidação cidadã , instrumento que ofereça o apoio crítico conseqüente e organizado, com uma participação sistemática e regular na formulação e elaboração de mecanismos que aprimorem a sua programação. É hora de criar a Sociedade dos Amigos da TV Brasil. Para assegurar e consolidar a missão pública desta tv e ajudar a pagar a dívida informativo-cultural que temos para com o povo brasileiro! E para que não percamos esta oportunidade que as mudanças históricas, aqui e na América Latina, está nos oferecendo, com todos os riscos, dficuldades e desafios que temos que enfrentar. Para que não sejamos historicamente colhidos pela dispersão, pela perplexidade ou pela passividade. E, finalmente, para que possamos dizer em breve, como a música dos mineiros “Nada será como antes”.    

Carlos Alberto de Almeida, jornalista
Presidente da TV Comunitária de Brasília

O fim da pré-história

 

Onde está Francis Fukuyama, aquele que, sob aplauso da grande mídia nacional e internacional, escreveu em 1989 ensaio famoso intitulado “O fim da história”, como comemoração à vitória ideológica neoliberal diante da queda do Muro de Berlim e do colapso da União Soviética e consequente  soerguimento do unilateralismo político americano na condução dos assuntos internacionais, sem levar em consideração a opinião dos outros?

O princípio único fukuyamista, que caracterizou o neoliberalismo em sua tentativa de ressurreição no século 20, a partir do final dos anos de 1970, depois de ter falido no final do século 19 e implodido no inicio do seguinte, no crash de 1929, entrou em parafuso. O cadáver insepulto tentou voltar ao útero materno, freudianamente. Não deu pé. A pretensa concepção fukuyamista do absoluto hegeliano em funcionamento perfeito, com base na unicidade básica pensante, personificada no Estado burguês, ajustado, em sua superestrutura jurídica, à lógica da lei da oferta e da procura, foi para os ares na bancarrota financeira do mercado imobiliário nos Estados Unidos. Levou de roldão grandes bancos, podendo afetar, igualmente, grandes oligopólios. Já era a etapa da pura financeirização econômica global, totalmente, desregulamentada. O império está tremendo em suas bases e, com ele, a grande mídia, que, como mostram os editoriais, analisando o processo em curso, não dispõe de suficiente clareza, para ir fundo, a fim de analisar a evolução do capitalismo em suas contradições históricas. Fica na superfície. Por isso, o panorama permanece furta-cor. Tenta-se separar duas coisas inseparáveis no capitalismo atual, o real e o fictício, sem perceber que o real passou a depender da ficção e a ficção do real, interativamente, de modo que a crise de um é a crise do outro e vice-versa.Mostrar as contradições do sistema e seus impasses seria condenar a própria grande mídia que não jogou com a dialética da realidade, mas com o seu caráter meramente mecânico, distante da concretude do real em movimento contraditório.

O pecado do falso pensador

Pecou o falso pensador americano – e seus porta-vozes do poder midiático alienado – , porque não considerou, corretamente, com amplo conhecimento de causa, a dialética, que impõe rítmo de mudança à história. 
Ficou esdrúxulo. Falar em fim da história, como foi o caso do filósofo, representa a negação da dialética colocada em uso sistemático pelo autor que tenta cultuar, ou seja, Hegel, grande pensador alemão(1770-1831). 
Marx, atrevido, dialético e amante de Hegel, a quem chamou de “O grande Hegel”, reconhecendo que escreveu O Capital com a “Ciência da Lógica”, de Hegel, debaixo do braço, fez o próprio mestre dançar no processo dialético em “Manuscritos Econômicos e Filosóficos”, sem que ele perdesse, entretanto, o passo. 
Tentou mostrar que Hegel colocou a realidade de cabeça para baixo, para ressaltar que a dialética hegeliana se altera em seu movimento, dialeticamente, para sofrer mudanças  nos pressupostos de sua própria conceituação, que ergueu a conformação do Estado burguês. 
E daí? Exausto, na tentativa de sobrepor-se a ele, Marx rende-se ao ensinamento dele, sem conseguir, inteiramente, desbancá-lo, considerando-o, enfim,  fundamental. 
Na prática, Hegel vira a realidade de cabeça para baixo, porque , como filosofo do Imperador, não podia falar as coisas muito claramente. Perderia o emprego. O espírito é a matéria e a matéria é o espírito.
Lênin, em 1922, acompanha Marx em sua admiração pela dialética hegeliana que Fukyama não entendeu amplamente. Pregou criação da sociedade dos amigos de Hegel, na URSS, como forma educativa popular para o povo, levando-o a pensar mediante formação de categorias lógicas que, impulsionam indagações conforme às contradições do próprio movimento do pensamento diante da realidade, essencialmente, dual, que avança por processo de negação.
Fukuyama, que pensou comandar a dialética, foi, ao final, detonado por ela. O fim da história dele é o fim da pré-história que ele esqueceu de analisar, observando a contradição do real concreto em movimento. Agora, é arrastado pelo próprio processo histórico dialético.
O anuncio de Fukuyama foi excessivamente prematuro. Ejaculação precoce. O fim da pré-história que ele e a grande mídia, que o consumiu, acriticamente, não viram , é a confirmação não do fim, mas do renascimento de nova história.

Lição viva da destruição da economia de guerra 

Ambos, Fukuyama e grande mídia, viajaram na maionese escorregadia da alienação, expressa na derrocada do modelo monetário que ancorou a sobrevivência da reprodução ampliada do capital, depois que o padrão-ouro, vigente no século 19, deixou de ser solução, para se transformar em problema, para o próprio capitalismo.
Uma aula de história da economia política está sendo escrita com cores vivas, excessivamente fortes e dramáticas no transcurso turbulento da bancarrota financeira da moeda substituta do ouro, o dólar sem lastro – moeda estatal inconversível – sopro de Tio Sam em pedaço de papel, que, ancorado nas bombas e produtos bélicos espaciais, dinamizou, no século 20, até agora, a economia capitalista, essencialmente, economia de guerra.
O fim da pré-história é o começo do fim da economia de guerra. O strep-tease de Tio Sam é total em cima do palco global iluminado.
Tomba-se, nesse instante, com grande encenação teatral global, a  moeda do estado burguês, que chegou ao poder no final do século 19, para desbancar, definitivamente, o poder das monarquias e suas moedas, impulsionadoras do capitalismo industrial, ancorado no discurso promotor da poupança e do puritanismo conservador que construiu a Era do Capital industrial, sob o padrão-ouro, descrito por Hobbsbaum.
O século 20 nascia não para preservar as virtudes da poupança, mas para pregar a religião consumista como abridora das portas do céu para o consumismo capitalista como passaporte para a salvação eterna.
A ciência e a tecnologia, colocadas a serviço da produção, afastaram os perigos de desabastecimentos. Pelo contrário, exigia consumo e mais consumo para assegurar a reprodução capitalista ampliada. 
Abaixo as virtudes poupadoras. Viva as novas virtudes, consumidoras, a liberação dos sonhos, construídos a partir das bases de uma moeda sem lastro, propulsora da desinibição total.
Quem daria partida a esse processo não poderia ser a velha moeda monárquica, expressão das reservas de ouro, seguras, puritanas, o padrão-ouro anti-consumista.

Eficiência capitalista exige Estado ineficiente e guerreiro

Essa filosofia econômica, predominante no século 19, levou o capitalismo, conforme descreve Malthus em “Princípios de economia política”, a viver, permanentemente, a contradição entre produção e consumo.
O desfecho de tal contradição sempre foi o de levar o sistema às recorrentes crises deflacionárias, produzidas pelo subconsumismo, de um lado, e sobreacumulação de riqueza, de outro.
O excesso de eficiência das forças produtivas produzia além da capacidade de consumo da comunidade, afetada pela sobreacumulação de capital, de tal modo que requeria, dialeticamente, o seu contrário, a ineficiência, dada pelos gastos do governo. 
Escândalo para as virtudes puritanas, mas, fazer o que? Era, como reconheceu Keynes, neomalthusiano de carteirinha, dissimulador genial, a solução para o capital. 
Malthus falara a verdade e, consequentemente, fora condenado ao ostracismo eterno.
Como superar, no século 20, essa contradição, que levou o capital à primeira guerra mundial e, em seguida, à derrocada final do modelo de economia de mercado, na crise de 1929?
Simplesmente, deixando de lado o real e adotando-se a ficção. A ficção monetária impõe-se, como arma para sustentar a reprodução ampliada do capitalismo, para livrá-lo da deflação, por meio da sua oposição dialética, a inflação, expressa na moeda estatal inconversível, sem lastro.
Fukuyma ou não viu ou fingiu que viu e fez de conta que entendeu, mas não de todo: a nova moeda, no século 20, é uma representação do Estado, não mais sob o poder do rei, mas dos burgueses, que abandonam o real e adotam a ficção.

Poder monetário abstrato comanda espetáculo

Não são mais as reservas de ouro, mas o próprio poder estatal abstrato, ancorado numa infra-estrutura jurídica, que se ergue como instância poderosa capaz de dar sustentação política à moeda deslastreada, sob domínio burguês, que deslocara o rei do comando do processo político.
Os burgueses vinham, desde a Idade Média, tentando fugir dos altos impostos cobrados pelas monarquias, para sustentar ampliações territoriais por meio de guerras. Entre 1740 e 1974, houve 344 guerras, 85 milhões de seres humanos detonados, relata Lauro Campos em  “Neoliberalismo, crise e miséria”(Senado, 2001).
Em nome dessa nobre causa, os monarcas – depois os burgueses fariam a mesma coisa – , avalizadores do padrão-ouro, extraiam riqueza da burguesia, via tributação cada vez mais elevada, até que a roda a história alcançou as monarquias, destruindo-as.
Primeiro, com a Revolução Francesa, em 1789, depois com as seguidas revoluções burguesas em toda a Europa, no século 19, apogeu do capitalismo industrial.
Faltava à burguesia sua própria moeda, para fugir do equilibrismo orçamentário imposto pelo rei, via controle monetário e fiscal. A oportunidade chegou com crise neoliberal de 1873-1893. 
Esta sinalizou explosão do padrão-ouro neoclássico. A falsa segurança das monarquias rompeu-se e emergiu o Estado que se transforma em capital para contrapar ao lassair faire, ao mercado, não mais sob comando dos reis, mas dos próprios burgueses.
Se o rei teve sua moeda, por que os burgueses não teriam a sua? Por que se limitar ao reino, se destronara o rei?
Nascia, sob o poder burguês, expresso em democracia representativa, o papel moeda inconversível estatal que levaria o capitalismo, depois do estouro do padrão ouro, na crise neoliberal de 1929, a romper os controles monetaristas monarquistas e impor sua nova lei.

Estado é capital em estresse na bancarrota

O Estado, capital em si, por si, para si, por si mesmo,  emerge, no século 20, século americano, nascido nos escombros da libra esterlina, dominante no século 19,  para irrigar a circulação capitalista. 
Essa moeda estatal, que Keynes considerou essencial, para dinamizar o capitalismo depois do crash de 29, tem a missão não mais de desenvolver as forças produtivas, mas as forças destrutivas, na guerra, como previu Marx, em O Capital. 
A moeda estatal burguesa inconversível, sem lastro, impõe, pela sua dinâmica, o fortalecimento militar do Estado burguês mediante gastos crescentes com produção bélica e espacial, como arma macroeconômica. 
São tais gastos, em sua dimensão macro, expressos na moeda estatal, que cria o chamado Departamento III da economia capitalista, para sustentar a reprodução ampliada do capital que havia entrado em crise em 1929, quando, então,  o sistema se apoiava em apenas dois departamentos: D1, produtor de bens de produção, de capital, e  D2 , produtor de bens de consumo. 
As contradições entre produção(D1) e consumo(D2), no contexto do livre mercado, à moda neoliberal, neoclássica, levou a economia à bancarrota deflacionária,que exigiu a emergência de um departamento salvacionaista, o Estado(D3), com sua moeda estatal inconversível, burguesa, sem lastro, ficção pura. 
Com D3, nasce uma moeda que não é, apenas, reserva de valor, meio de troca, aspecto ao qual se prende, neuroticamente, a grande mídia, mas, sobretudo, representa instrumento de poder, de ação política do próprio Estado investidor.  
A reserva de valor se transforma em um não-valor. A crise monetária americana, agora, mostra, claramente, esse aspecto. O dólar, moeda papel, sob ataque, corre risco de virar papel podre, deixando de ser equivalente universal.
O Estado, virando capital, sob poder burguês, livre das monarquias, cujo controle orçamentário enforcava a capacidade de investimento e expansão da própria burguesia, dispõe de uma moeda que não é neutra no processo econômico, como ensina a cartilha neoliberal. 
Os comentaristas do poder midiático, em geral, salvo honrosas exceções, estão, nas páginas da grande mídia, vendidos. O valor que cultuam, transforma-se em não-valor do qual todos fogem.

Colapso do monetarismo guerreiro

Fukuyama pensou que essa armação monetária para reprodução ampliada do capital seria eterna e estabeleceria um repouso absoluto sob o neoliberalismo capaz de sobreviver a si mesmo. Eterno se transforma em etéreo.
Esse poder monetário estatal, D3, que compra mercadorias que não são consumidas pela sociedade, mas pelo Estado – corrida armamentista, produtos bélicos e espaciais etc – torna-se a fonte de sobrevivência de D1 + D2, que haviam entrado em crise nos anos de 1930.
De lá para cá, D3 puxa D1+D2 até entrar, também, em crise. O dinheiro estatal, keynesiano, é o que, agora, explode na crise dos subprime nos Estados Unidos. Fim de linha? 
D3, conforme destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, impulsiona a produção, não de mercadorias, mas, sim, de não-mercadorias, bancada pela capacidade do Estado de manejar a quantidade da oferta de moeda , única variável econômica  verdadeiramente independente, sob o capitalismo, como reconhece Keynes. 
É ela que desperta o espírito animal dos empresários, pois, quando lança moeda em circulação, o governo 1 – aumenta os preços, 2 – diminui os salários, 3, perdoa a dívida dos empresários contratata a prazo e 4 – diminui os juros. 
Vale dizer, os empresários somente se animam, ou melhor, se animalizam, dispostos aos investimentos, quando não precisam enfiar a mão no bolso. Grande Keynes, cuja solução, no entanto, mostra-se, na crise americana, limitada, quando antes era soberana. 
O governo, diz Lauro,dinamizando D3, aumenta o consumo sem elevar a oferta, nem de D1 nem de D2, para que ambos possam conviver em relativo equilíbrio, sob relativa escassez, para que os preços subam e os lucros, idem, a fim de evitar que a contradição entre produção e consumo de bens e serviços não exploda em deflação. 
D3 é a guerra que sustenta a paz expressa em D1 + D2. Isso, até que a capacidade de endividamento do Estado mereça a confiança do mercado e da sociedade. 
Não está sendo mais o caso, no presente momento da crise monetária, que leva de roldão a arrogância uniltaralista utilitarista de Tio Sam, endeusada por Fukuyama e grande mídia.
Marx disse que o capitalismo dinamizaria as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a dinamizar as forças destrutivas, na guerra. A moeda estatal, no século 20, é a moeda promotora da economia de guerra. 
O fim da pré-história é o começo do fim da economia de guerra. O contrário do fim da história de Fukuyama e dos seus oráculos do poder midiático global.
A humanidade vai, finalmente, entrar na história? Ou ainda vai demorar demais?

Sucessão em ritmo de desaceleração econômica

A sucessão do presidente Lula, certamente, vai ocorrer em clima oposto ao que o titular do Planalto estaria planejando, se for levada em consideração suas  declarações super-otimistas, de primeira hora, quando estourou a crise bancária, levando de roldão o bancão Lehman Brothers e, em seguida a seguradora AIG, exigindo cobertura estatizante.

Pouco antes, já havia estourado os dois maiores bancos imobiliários, também, estatizados, dando dimensão sombria da catástrofe financeira.

Naquele momento, o presidente sorria largo. Que crise? Era sua pergunta irônica. Pergunte ao Bush, gozou. Além disso, falou grosso contra os que ficaram ao longo dos últimos vinte anos dando palpites errados sobre a condução da economia brasileira, como o FMI e o Consenso de Washington. Talvez sonhando com o dinheiro antecipado do petróleo do pré-sal, o presidente jogou para o alto as possibilidades de que consequências mais sérias venham a afetar fortemente a a economia brasileira.

Era uma convicção psicológica expressa sobre a sua segurança relativamente não apenas à economia, mas, também, à política, pois declarou sua confiança em fazer sua sucessora, ao admitir que quem o substituirá poderá ser uma mulher. Os ventos poderiam mudar, abrindo maiores chances à oposição, no momento, sem bandeira?

Confiança abalada

Sintomaticamente, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, supostamente, a preferida do presidente, passou a falar prospectivamente sobre supressão de todas as carências sociais nacionais mediante exploração da riqueza do petróleo depositado no pré-sal. Passou a sacar contra o futuro.

Entretanto, a confiança excessiva presidencial sobre o panorama global mudou da água para o vinho em Nova York, onde foi falar, na terça, 23, na Assembléia Geral da ONU.

Ali, na babel capitalista, a confusão era geral entre os líderes mundiais, todos apavorados. O presidente, que pregou multilateralismo e governo mundial, para tratar do assunto crise americana, sentiu que a barra da bancarrota financeira é , realmente, super-pesada e que o Brasil seria afetado.

Teve que deixar de olhar apenas para o seu umbigo.

Por mais que a economia brasileira esteja bombando nesse momento, no compasso dos números positivos do IBGE, sinalizando PIB de quase 6% em 2008, pode pintar um ressaca braba, se o crédito internacional diminuir para todos, de modo a diminuir o rítmo da economia global, como começou, efetivamente, acontecer.

O presidente Lula pegou onda econômica internacional favorável, depois que havia passado onda desfavorável, que levara o governo FHC, de roldão. Fragilizara-se financeiramente depois de três transfusões de sangue pelo FMI, sob vigilência do Consenso de Washington, nos anos de 1997-2002.

Agora, o titular do Planalto tem a oportunidade de enfrentar situação inversa, negativa, nos dois anos finais de administração petista,  podendo ser mais severa do que a enfrentada por FHC.

O ex-presidente enfrentou vendaval das economias capitalistas periféricas, de 1997 e 1998. Lula, nesse  momento, passa a enfrentar crise da maior economia do globo, no capitalismo cêntrico, do qual todos dependem, organicamente. O buraco é mais embaixo. 

As incertezas não permitem prognósticos confiaveis

 

O exemplo de susto pavoroso foi dado durante toda a semana no compasso do vai-e-vem das bolsas em queda. Os bancos, esperando sinal do Congresso americano, fecharam as torneiras. As empresas, consequentemente, sinalizaram suspensão de investimentos, para compatibilizar com tempos de vacas magras no mercado consumidor mais forte do planeta.

Os empresários brasileiros, com as torneiras fechadas para os financiamentos às importações e exportações, correram para o BNDES, pedindo empréstimos e redução da TJLP – Taxa de Juro de Longo Prazo – na casa dos 8% ao ano. 

Teria dinheiro para todos?

Certamente, as torneiras serão abertas, depois da tempestade, mas não se sabe quando a tempestade passará, mesmo depois do acerto político de democratas e republicanos no Congresso, embora os candidatos Barack Obama, democrata, e John MacCain, republicano, relutem diante de W. Bush, para aprovar o pacote de 700 bilhões, quantia considerada insuficiente para cobrir os prejuízos gerais deixados pela implosão do setor imobiliário americano altamente alavancado na base da moeda podre.

Calcula-se que os dólares podres derivativos, que encharcaram o mercado imobiliário, nos últimos dois anos, somando-se a outros créditos podres, herdados de crises especulativas anteriores, alcançam entre 45 e 55 trilhões de dólares, algo três vezes superior ao PIB americano. Seriam os chamados “credit default swaps”(CDS), sobreacumulados na praça.

Trata-se de quantia ainda não contabilizada, inteiramente, configurando fenômeno de reprodução monetária jamais visto na história do sistema, engolfado no excesso de dinheiro que perde valor e pede socorro ao governo para ser enxugado.

Parece hiperinflação alemã dos anos de 1920, que destruiu a República de Weimar e abriu espaço, com a crise bancária de 1931, à ascensão de Hitler e do nazismo, como relata Hjalmar Schacht, o mago das finanças do furher, em sua autobiografia “Setenta e Seis Anos de Minha Vida”, Ed. 34, 1999.

Nesse ambiente, a moeda brasileira seria porto seguro, sabendo que, com a desaceleração da economia global, torna-se mais difícil financiar o deficit em contas correntes de perto de 2,5 do PIB, algo em torno de 30 bilhões, quando, no início de 2007, havia um superavit de quase 1,5%?

Confiança externa maior que interna

 

O presidente Lula, na última etapa do seu governo, veria a sorte abandoná-lo em meio a possível tempestade, invertendo situação que o levou aos pincaros da popularidade de quase 95%, somando os que acham que faz um governo ótimo e os que dizem que realiza governo regular, segundo a última pesquisa Sensus?

A crença do presidente Lula nesse sentido pode ser dada menos pela confiança interna do que a externa. O jornal inglês Financial Times destacou, na quinta, 25, que o Brasil pode ser porto seguro para os investidores.

Há três meses, o primeiro ministro inglês, Gordon Brown, destacou ser necessário ampliar espaço para Brasil e Índia, no Grupo dos 8. O presidente Sarkozi, essa semana, na ONU, bateu na mesma tecla.

O século 21 não seria, pelo andar da carrugagem da crise monetária, um século americano, como foi o século 20, na era do dólar. O dólar, inchado pela especulação, abriu o bico.

Brasil e América do Sul, destacam líderes mundiais, estão na tela dos investidores. Os árabes, que estão preocupados com a saúde do dólar, que cota o preço do petróleo, podem desembarcar no Brasil, em busca de terras para comprar, a fim de garantir alimentação, como já estão fazendo na Ásia e na África.

Se for lançada moeda sul-americana e banco sul-americano, ancorados nas reservas reais sul-americanas disponíveis, os depositantes no banco poderão  pintar, como admitiu agir nesse sentido o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, em encontro com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez.

Os dólares do petroleo iraniano seriam convertidos, no Banco sul-americano, em moeda sul-americana,como nova alternativa monetário no cenário pós-era dólar?

Nesse contexto, o Brasil, de riquezas incomensuráveis, junto com os países sul-americanos, que caminham para uma integração econômica mais acelerada, tem, aos olhos externos mais que os internos, possibilidades de continuar sendo o paraíso dos especuladores e dos oligopólios. Estes, felizes, aumentam a cada ano as remessas líquidas de lucro, já na casa dos 35 bilhões de dólares, valor correspondente ao total dos investimentos externos. Tremenda sangria financeira que se eterniza.

Apocalipse bushiano é jogo de pânico fascista

O tom apocaliptico adotado pelo presidente W. Bush para tentar convencer o Congresso a aprovar o pacote salvacionista de 700 bilhões de dólares para economia mergulhada em crise bancária, caracterizada por sumiço do crédito, oxigênio da produção capitalista, joga estrategicamente com o medo como arma política, algo tipicamente fascista, para alcançar rapidamente seu objetivo. Na prática, é dinheiro podre, sem lastro, para tentar salvar dinheiro podre, que está apodrecendo a vida dos americanos e lançando desconfianças generalizadas do mundo na saúde do dólar, como moeda equivalente nas trocas comerciais globais. A economia de guerra, tocada com dinheiro estatal fictício, bate biela.

Os americanos, nesse momento, estão, certamente, temerosos sobre o futuro da sua segurança pessoal. Vão apostar numa renovação radical, com Barack Obama, o primeiro negro que ganharia a eleição nos Estados Unidos? Ou, com medo, optariam pelo conservadorismo, deixando renovações e mudanças mais ousadas para depois?

O povo da América,  que traz, psicologicamente, a certeza de ser o enviado de Deus, do destino manifesto na terra, onde a riqueza é o bônus da benção divina, para a salvação eterna como prêmio pelo lucro acumulado no juro composto, sente o medo do imprevisível, do imponderável, do espectro da pobreza. Quem lhe dá mais segurança, depois que W. Bush espalhou a insegurança geral, Obama ou MacCain?

A classe média, super-endividada nos cartões de crédito, com os quais vai rolando seus papagaios financeiros impagáveis – calcula-se que seja de 15 trilhões de dólares a dívida global das famílias no crediário – , como se tal costume representasse segurança eterna em suas vidas, teme pelo pior.

A segurança do futuro abre-se em seu oposto, em abismo sob os próprios pés. Segurança nenhuma. Os aposentados estão apavorados, pois seus sonhos são jogados no mercado de hipotecas e ações, desde sempre. Pavor coletivo.

W. Bush, em discurso dramático, na quarta à noite, não regateou. Falou em perigo de pânico. Pânico vira estratégia política da Casa Branca.

O presidente que alerta para o pânico quer o quê? Chocar. Amedrontar. O estadista falaria como Churchill:” nada tenho a oferecer-lhes senão suor e lágrimas, sendo a salvação a capacidade de enfrentar a realidade adversa”.

O que propõe W. Bush? Papel podre para combater papel podre, o mesmo papel que está financiando a demanda global puxada pelo consumo americano, bem como ampliando, por sua vez, essa mesma demanda, por meio do aumento de gastos na produção bélica e espacial, jogo keynesiano que vem desde 1936.

O Congresso pôs as barbas de molho, porque sabe que os 700 bilhões de dólares não são suficientes. O FMI adiantou e disse ser a quantia insuficiente. Aposta em 1,3 trilhões.

Ninharia perto do mercado de dólares derivativos , raiz da crise, ainda não contabilizados, que somariam entre 45 trilhões e 55 trilhões de dólares, os chamados “credit default swaps(CDS).

Trata-se de quantia superior a quase 4 vezes o PIB dos Estados Unidos. Os 700 bilhões de dólares bushianos seriam pinto perto dessa montanha fantástica de dinheiro podre que o mercado imobiliário pôs para rodar no mercado derivativo, em que dinheiro pare dinheiro, indefinidamente.

Realmente, o capitalismo derivativo regado pelo derivodólar viajou na maionese. Agora, esburracha-se no chão. Não há fôlego keynesiano capaz de levar o tesouro americano a acalmar a situação com apenas 700 bilhões de dólares. Brincadeira.

A solução(keynesiana) que virou problema

 

O que já está acontecendo não suporta panos quentes. Pega fogo geral. Mais dinheiro sem lastro para cobrir dinheiro que apodreceu, simplesmente, resultará em inflação e mais inflação.

A bomba de enxugamento do mercado especulativo, a dívida pública, para tentar dar sensação de escassez de moeda, para que esta suba de preço, desviando a desconfiança na sua saúde, mostra-se incapaz de exercitar a tarefa keynesiana.

Keynes não é mais solução, mas, problema, na medida em que o fôlego financeiro de Tio Sam, para enxutar o mercado de derivativos, esgota-se.

Está parecendo a República de Weimar, que tinha um marco-ouro valendo 12 bilhões de marco-papel, quando todos os pepinos foram contabilizados pelo presidente do Banco Central alemão, Hjalmar Schacht, para que a cotação caisse, repentinamente, para 1 marco-ouro = 4,2 bilhões de marco-papel, como passo inicial, fundamental, para inverter a tendência e dar visibilidade ao tamanho da hiperinflação alemã entre 1919 e 1923.

Evidentemente, se os dólares derivativos, os derivodólares, os CDS – “credits default swaps –  forem contabilizados, pode pintar uma brutal desvalorização da moeda americana, semelhante à do marco-papel, que obrigaria Tio Sam a submeter-se à receita de Hjalmar Schacht, conforme demonstra em “Setenta e Seis Anos de MInhas Vida”( Ed. 34, 1999).

A dívida pública interna americana, que já não está pagando juro nenhum para vender títulos, teria que enxugar, lançando uma montanha de títulos, que, sem rendimento nenhum, sinalizaria negócio desinteressante para o rentista, que se candidataria ao empobrecimento compulsivo, como se a eutanásia rentista fosse a sua opção fundamental.

Os árabes já estão fugindo desse fantasma, buscando jogar o dinheiro arrecadado com petróleo, isto é, os dólares, em terras e outros ativos mundo afora. Dólar virou moeda quente da qual todos tentam fugir para não se queimar.

As expectativas psicológicas da comunidade, nesse momento, bombada por um sistema de comunicação instantâneo, que a estressa, extraordinariamente, produzem desastres psicológicos que se materializam em sentimentos de frustração e radicalização.

Tal espírito social irascível emerge irresistível, quanto mais aumenta a sensação popular de perda de poder de compra da moeda nacional.

Sim, W. Bush tem razão. Pânico. O titular da Casa Branca utiliza o pânico como arma política. Com essa estratégia tenta forçar a barra, no Congresso, em busca de solução rápida. 

Conseguirá? Dificil. Todos os políticos que estão disputando eleição, agora, percorrendo o território americano atrás de votos, subordinam-se aos interesses da comunidade medrosa, que quer reaver suas perdas.

Poder executivo faliu. O Legislativo compensará?

Os movimentos sociais que se manifestam pela internet, fazendo pressão sobre os congressistas, para que sejam equitativos na distribuição dos prejuízos, avisam que se não cumprirem essa determinação social, não terão o voto necessário na eleição, para continuar na vida política.

A pressa que W. Bush exige para tentar movimentar a economia e afastar o fantasma da quebradeira choca-se com a característica essencial do parlamento, ou seja, a necessária falta de urgência para tratar o jogo dos contrários, no debate político.

A divisão da sociedade capitalista em grupos sociais antagônicos impõe, dialeticamente, condição que produz o confronto entre a pressa do Executivo e a não-pressa do Legislativo, na apreciação da crise bancária.

W. Bush joga com a pressa, pois pode ser ejetado, antes de terminar seu mandato, pela ira popular. Já se os congressistas, sob pressa de W. Bush, acionarem decisão que tenha como resultado frustração, deixam de ser acreditados, para serem desacreditados pela sociedade.

A pressa de W. Bush, que tem por trás os poderosos interesses financeiros e oligopolistas, que dominam Wall Street, representa, na prática, uma armadilha para os congressistas e uma má conselheiras, deixando o Congresso diante de dois caminhos: ou render-se ao Executivo ou agigantar-se e tornar-se, na crise, maior que o Executivo.

Pode lançar sementes de mudanças, no médio e longo prazo, no comando do próprio poder político, visto que as lições a serem tiradas dos acontecimentos dramáticos do presente se materializarão em possíveis alterações na correlação de forças no contexto da democracia americana.

O que se vê, na bancarrota financeira americana, não é um desastre do mercado, mas do governo, que deixou o mercado comandá-lo. O Congresso, na prática, está sendo jogado no fogo, para resolver problemas criados pelo Executivo. Qual a fatura que cobrará?

 

Casa Branca se autocondenou ao render-se ao mercado

 

 

Como o governo é executivo, legislativo e judiciário, com distribuição de atribuições de poderes relativos aos três entes republicanos no ambiente da democracia representativa, sua capacidade institucional de comandar o processo econômico tenderia a ser democraticamente contestada.

A destinação constitucional do Executivo para executar poderia ser relativizada com o legislativo que além de legislar poderia, também, executar, como se dá no modelo parlamentarista. As chances do legislativo estão colocadas por W. Bush, desesperado.

O executivo, no governo imperial americano, entrou em crise, porque em vez de disciplinar o mercado capitalista, rendeu-se ao mercado, à especulação, à loucura.

Comanda o caminhão capitalista na ladeira rumo ao precipício sem freio, na banguela, a loucura dolarizada-derivativa, proporcionada pelo Executivo, que abandonou as regras da regulamentação, da fiscalização e da prudência, eximindo-se da responsabilidade de ser coordenador geral do processo.

Inevitavelmente, a desmoralização do Executivo se intensficia, quanto mais elevados são os prejuízos financeiros da população, afetada pela irresponsabilidade do próprio Executivo

A questão é econômica, mas, também, política.

A pressa de W. Bush é a pressa de uma Executivo falido, em cima de um poder, o Legislativo, que somente se justifica, constitucionalmente, se tiver condições de impor a relatividade das coisas no ambiente do poder democrático. Sua lei é a flexibilidade.

A lei de W. Bush, enforcado pela crise bancária, é a da inflexibilidade, característica da pressa, semelhantte ao caráter das medidas provisórias que governam o Brasil desde a crise monetária dos anos de 1980.

O jogo do medo de W. Bush é a tentativa de ganhar no grito. O jogo do Congresso, pela sua peculiaridade, é o oposto.

A democracia americana, nas águas da bancarrota financeira impressionante, está diante do seu maior desafio.