Energia vira moeda forte na crise global

A criação em andamento da moeda arábe, anunciada semana passada pelos sheiks do petróleo, ligados à OPEP, representa fato novo no cenário da bancarrota capitalista global.  Energia vira moeda. Boas notícias para a América do Sul e o Brasil, que, com o pré-sal, entra na área da moeda-petróleo.

Ao mesmo tempo, a China manda recado ao governo Lula de que está disposta a embarcar, com suas trilhonárias reservas cambiais, na exploração petrolífera nacional. Ou seja, os chineses abrem os olhos para participarem do cartel da OPEP por intermédio da parceria com o Brasil.

Sinais de mudanças qualitativas no cenário internacional nos próximos tempos em que as economias desenvolvidas, afetadas pela crise de crédito, vão perdendo espaço para os emergentes em ações parceirizadas.

A moeda nacional – ou moeda sul-americana – , da mesma forma que a moeda árabe, ganharia status internacional, se o governo Lula, por conta do pré-sal, se filiasse à OPEP. A valorização dela teria o tamanho do potencial da reserva petrolífera trilhonária.

Os árabes querem com sua própria moeda fugir da volatilidade cambial e monetária que está rolando em profusão nas relações de troca depois que o crédito secou nos países capitalistas mais desenvolvidos.

Antes do vendaval detonado pela implosão do mercado imobiliário americano, eles haviam decidido dar os passos iniciais nesse sentido, por meio da elevação dos preços do barril de petróleo até perto de 150 dólares.

A justificativa para essa pressão altista não foi apenas o então aquecimento do mercado da oferta e da procura do óleo, mas a decisão dos governos árabes de compensarem a perda que estavam tendo nas relações de trocas globais.

Como os países do golfo pérsico têm suas importações européias cotadas em euro e suas exportações de petróleo em dólar, estariam, sempre, perdendo valor dado que o euro é mais valorizado que o dólar.

Jogo de compensações. O aumento do preço do petróleo em doses desproporcionais, como justificativa de compensação para a deterioração nos termos de troca dos árabes com seus parceiros, detonou, por sua vez, a inflação mundial.

Agora, no crash global, a inflação se transforma em deflação nos países ricos e fuga de capitais dos países pobres, desvalorizando a moeda nacional e impondo pressões combinadas de inflação com hiper-deflação.

Nesse novo cenário, os árabes tendem a perder duas vezes. Continuarão  a dançar na troca de dólar por euro e, principalmente, na queda dos preços do barril de petróleo na praça global.

Se não podem ganhar na elevação do preço, como compensação pela perda cambial, nem impedir a baixa do preço do produto na recessão em marcha, os governos do golfo se voltam, então, para a valorização do seu produto. Este adquiriria representação monetária, cujo lastro seria o próprio produto, do qual o mundo depende para sobreviver.

O petróleo, enfim,  viraria moeda árabe, sinalizando novo momento do sistema monetário internacional no mundo capitalista em bancarrota. 

 

O poder real e poder fictício

O cenário, para os árabes, é de prejuízo iminente. Primeiro, porque estão perdendo renda, que toca os projetos internos de desenvolvimento, por conta da deterioração nas relações de troca, e, segundo, porque a queda de preços impõe ainda maior deterioração comercial e cambial.

Que fazer?

Os sheiks, ao que tudo indica, estão se dispondo a uma nova radicalidade para a ação da OPEP como alternativa para valorizar, relativamente, seu produto, do qual depende a manufatura global. 

Repetiriam 1973?

Naquele ano, diante dos preços baixos, munipulados pelas empresas multinacionais, americanas e européias, para garantir consumismo barato de energia e combustíveis nos Estados Unidos e Europa às custas dos árabes, estes decidiram criar a OPEP. Causaram revolução econômica. Os governos do golfo fizeram valer o poder de oligopólio, e o mundo se condicionou à nova realidade, desde então.

Os árabes aprenderam que o poder do petróleo é maior que o peso do papel-moeda. Lá, em 1973, agiram para criar o cartel da OPEP, mas continuaram subordinados à área de influência do dólar. Agora, quando falam em criar sua moeda, a moeda-petróleo, estariam pensando e agindo na reafirmação do poder do petróleo no sentido de acelerar uma nova correlação de forças monetárias globais, quando o dólar balança?

Nasceria novo referencial monetário internacional para balisar as trocas comerciais globais, se for efetivada a moeda árabe. O dólar, como confirma a crise, está perdendo esse referencial, como algo absoluto, de acordo com a divisão internacional do trabalho, estabelecida no pós-guerra pelo acordo de Bretton-Woods, em 1944.

A mercadoria efetiva, riqueza real, lastro palpável, que serviu para a criação do cartel da OPEP, impondo, a partir dos anos de 1970, nova conjuntura energética global, pode estar, em 2008,  no auge das incertezas no cenário capitalista global, agindo para fazer valer, de novo, esse mesmo poder, com avanço qualitativo? A disposição de criar moeda árabe diz que sim.

 

Pobreza relativa do ricos e riqueza relativa dos pobres

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A moeda árabe seria, naturalmente, a representação prática do poder do petróleo. O dólar sofrerá natural abalo. Qual o lastro do dólar? Dívidas imobiliárias em profusão que desvalorizam a moeda americana, afetada pela reprodução exponencial dos derivativos dolarizados. Ou seja, não tem lastro real. Perigo total, como prenunciam os próprios árabes, que se lançam à construção de sua própria moeda, para valorizar seu próprio produto. A riqueza fictícia monetária passa a receber outro tratamento no cenário das relações de troca, vindo a emergir a moeda-árabe-petróleo.

Os Estados Unidos e a Europa estão sem sua riqueza visível para dar substância a suas moedas, visto que tanto o euro, como o dólar, estão, na crise, abalados pela bancarrota do mercado imobiliário americano. Os americanos venderam papel podre para os europeus, que distribuiram esses papéis bichados na praça. Tudo falso. Riquezas imensas perdidas, sonhos estourados, fim de ilusões, caída na realidade trágica.

Evidenciou-se o óbvio: os americanos, que haviam perdido para os concorrentes seu mercado de bens e serviço,  perdem, agora, seu mercado de dinheiro. Consequentemente, empobrecem. A prova é a antecipação do discurso da nova Secretária de Estado, do governo Obama, Hillary Clinton, pautado no multilateralismo e não mais no unitarismo bushiano.

O incontrolável aumento do desemprego nos Estados Unidos é o sintoma geral de que a base de sustentação do dólar, o consumo americano, que realiza as importações globais, fragilizou-se.

Obama buscará reafirmar a força do dólar por meio do fortalecimento da capacidade da economia de gerar empregos, ampliando keynesianamente os gastos públicos. Caso contrário, sem a renda proveniente da produção, estimulada pela teta estatal, a moeda americana faliria. Derrocada imperial.

Empobrecimento relativo acelerado, no rítmo de aceleração do desemprego. É disso que Barack Obama quer fugir, preocupadissimo, como demonstra o seu semblante pós-eleitoral.

 

Moeda e agroenergia sul-americanas já

Nesse ambiente de total incerteza, os espertos árabes, donos das principais reservas mundiais de petróleo, perceberam que manter o óleo negro indispensável sob referência do dólar é correr risco ascendente no contexto das relações de trocas globais.

Como o mercado despencou e ficou difícil, senão impossível, continuar praticando preços altos, resta aos governantes árabes apegar-se a sua riqueza real e, ao mesmo tempo, colocar preço nela por meio de representação própria, ou seja, moeda árabe.

O petróleo, sendo poder monetário, pode ser lastro de uma representação monetária regional. Por que não? Esse fato, que a grande mídia pouco explorou durante a semana, tem potencial de fogo para influir na aceleração da criação da moeda sul-americana.

A América do Sul tem a riqueza potencial energética que assegura a estabilidade do mundo, em termos de desenvolvimento sustentavelmente equilibrado. Não teria, igualmente, chegado a hora de os sul-americanos, como os árabes, também, botarem preços nas suas mercadorias essenciais?

O pré-sal, nesse novo contexto, representa, efetivamente, base de sustentação monetária do país. Não seria à toa, portanto, que a China manda o recado ao governo Lula, mostrando-se interessada em ser parceira na exploração do óleo nas profundezas do pré-sal.

O poder energético, como não cansa de pregar o professor Bautista Vidal, agora na defesa da criação da empresa brasileira de agoenergia, emerge como poder monetário, no compassos de derrocada do neoliberalismo, que jogou o capitalismo na anarquia total, produzindo a contradição capital do sistema, expressa pelo choque entre as forças produtivas e as relações sociais da produção.

A hora da moeda sul-americana e da Empresa Brasileira de Agroenergia é agora. Lastreada pela riqueza mineral, energética e industrial da América do Sul, a moeda sul-americana, como a moeda árabe, em nascimento, teria influência decisiva no contexto multilateral pós-explosão neoliberal. Muda o conceito de riqueza monetária: o papel-moeda fictício sem lastro emitido pelos países ricos tenderiam a perder substancia para emissões sustentada em lastros reais, concretos.

Desemprego põe Meirelles na corda bamba

O avanço do desemprego na economia em desaceleração, sinalizando recessão, passou ameaçar o emprego do presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles. O crescente prestígio popular do presidente Lula(78% de aprovação na pesquisa DataFolha) corre perigo. Meirelles terá, na próxima quarta feira, o desafio de comandar mais uma reunião do Conselho de Política Monetária(Copom), sob pressão total dos empresários, trabalhadores, governo e coalizão governamental, no Congresso. Todos levantam uma só bandeira: redução das taxas de juros como antídoto à queda geral do nível de atividade econômica em marcha.

Nesse momento, as indagações generalizadas se voltam para a intensificação das especulações financeiras em cima da moeda nacional. O real já se desvalorizou quase 50% ao longo de outubro e novembro, mas a inflação, ao contrário de explodir diante do aumento da sua fragilidade, diminui, de acordo com os números anunciados ao longo da semana, embora as pesquisas dos banqueiros, seguidas pelo BC, sinalizassem o contrário.

Por isso, a surpresa geral está perpassando o mercado, sentindo cheiro de pólvora no ar. Por que o dólar, na quinta feira, 04, pulou para mais de R$ 2,50? Por que o Banco Central somente atuou no final do pregão, para evitar a especulação, quando, nas semanas anteriores, estava jogando no ataque? Hoje, novamente, R$ 2,50, R$ 2,60. Especulação pura. Estaria interessado em manter pressão sobre a moeda nacional, para evitar redução das taxas de juros, já que dólar alto significaria, teoricamente, mais inflação à vista? Jogada especulativa para evitar a redução das taxas de juros na próxima semana, a fim de continuar mantendo os altos lucros dos bancos, enquanto o setor produtivo vê o barco da economia afundar?

Essas perguntas estão na cabeça dos políticos da aliança governista, no Congresso, que começam a ficar desesperados diante do aumento do desemprego, que, no início de 2009, pode ampliar consideravelmente.Seria desgaste total para o presidente e sua candidata à sucessão nas eleições 2010, ministra Dilma Roussef, ao mesmo tempo em que estaria ampliando as chances dos adversários, José Sera, governador de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, que disputam, dentro do PSDB, a vaga para candidatura tucana.

 

Desemprego em marcha, prestígio em alta

Durante a semana, as notícias pioraram , consideravelmente, pintanto anúncio tétrico: a Companhia Vale do Rio Doce(Vale), uma das maiores mineradoras do mundo, demitiu 1.300 trabahadores e colocou em férias coletivas outros 5.000. Os preços dos minérios, com recessão mundial, cairam e a produção siderúrgica, consequentemente, encolheu. Resultado: a empresa, outrora estatal, privatizada na Era FHC, rendeu-se à lógica das demissões trabalhistas quando a procura cai diante de uma oferta abundante. Entre a deflação visível e a demissão de trabalhadores, não titubeou.

O governo Lula tentou minimizar o assunto, jogando com o otimismo, enquanto a realidade desmentiu-o. No Congresso, onde depunha, na terça feira, 02,sobre a situação atual, a ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, não conseguiu vender o produto que o seu chefe tem ofertado em abundância no mercado em desaceleração: esperança em doses exageradas. Sua contenção, relativamente, ao avanço das demissões, ficou transparente, evidenciando que o governo busca correr contra o prejuízo, preparando série de medidas fiscais, como diminuição de impostos e adiamento de pagamento de tributos, enquanto a queda dos juros não vem.

O incômodo governamental aumentou, substancialmente, com a conjugação dos discursos dos empresários e dos trabalhadores, no mesmo diapasão. Embora os representantes de seis entidades sindicais tenham se reunido na Esplanada dos Ministérios, na quarta, 03, para fazer pressão sobre os parlamentares, a fim de livrarem da cassação o deputado Paulinho da Força(PDT-SP), envolvido no escândalo de jogo de influência para liberar empréstimos do BNDES, os sindicalistas corporativistas aproveitaram, também, a oportunidade para defender a redução urgente das taxas de juros e a diminuição do superavit primário. Somente com dinheiro mais barato na praça e menos recursos destinados ao pagamento dos juros da dívida, para que sobre mais aos investimentos, destacaram os líderes sindicais, será possível evitar a recessão e depressão econômica em rítmo crescente.

Na mesma linha, os líderes empresariais, sob coordenação da Confederação Nacional da Indústria(CNI), defenderam, igualmente, diminuição das taxas de juros, mas sem falar em ação semelhante sobre o superavit primário(receita menos despesas, excluindo os juros), como antídoto ao desemprego. Se este não for contido por medidas preventivas, urgentes, poderá disparar, nas próximas semanas, entrando 2009 adentro com previsões catastrofistas.

 

Banqueiros abandonam Planalto

Sob pressão total dos trabalhadores e dos empresários, do capital e do trabalho, bem como dos integrantes da coalizão governamental, no Congresso, o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, começou a ratear em seus argumentos. Sua sustentação favorável ao juro real mais alto do mundo como fator de contenção inflacionária ficou prejudicado. Os números da inflação de novembro, comparados ao de outubro, mostram recuo, mesmo em face do avanço do dólar.

Não bateram as pesquisas realizadas pelos bancos, por intermédio da Focus, que serve de balisamento para ação do BC. Em novembro, o IPC ficou abaixo de 0,3%, quando os bancos sinalizaram perto de 1%. Sem a pressão altista prevista pela pesquisa Focus, alvo de críticas de diversos setores da economia, os argumentos de Meirelles, enquanto avança o desemprego, perderam força.

Tal contradição ouriçou o Planalto, que está, especialmente, irritado com a banca privada, depois que ela se negou, no auge da crise, a colaborar com o esforço governamental, para, utilizando depósitos compulsórios a juro zero, irrigar o mercado com custo estável do dinheiro, bem como socorrer bancos pequenos em bancarrota.

Ao contrário, os grandes bancos, como Itaú e Unibanco, correram para a oligopolização bancária, enquanto elevavam os juros, mesmo com o governo aumentando a oferta de dinheiro na praça, por meio do BNDES. Não teve outra alternativa o governo senão partir, também, para a oligopolização financeira estatal.

Está no ar, no auge das tensões, o confronto entre o oligopólio financeiro privado, de um lado, e o oligopólio financeiro estatal de outro, cujos contornos somente o compasso da crise poderá dizer nas próximas semanas e meses. Na prática, o jogo da banca privada alimenta, entre os governisas, a convicção de que o jogo duro do BC na manutenção do juro alto beneficia os banqueiros e prejudica a estratégia política e econômica do presidente Lula, para enfrentar a crise e bancar a candidatura Dilma.

O titular do Planalto está numa sinuca de bico. Ao intensificar a pregação favorável ao consumo, estimulando os trabalhadores, temerosos do desemprego, a aumentar as compras no crediário, ele poderá ficar, completamente, desmoralizado, caso os juros continuem em alta, como evidenciam os números. As pequenas empresas, sufocadas para pagar o décimo terceiro salário, correm aos bancos para pegar dinheiro a 45%, 50%, 60% ao ano, enquanto o cartão de crédito avança para a casa dos 12%, 15% ao mês. Enforcamento total.

 

Mantega fatura desprestígio de Meirelles

O desespero das empresas diante do dinheiro caro ficou comprovado com o avanço das empresas de Factoring, cuja demanda, nos últimos 30 dias, subiu mais de 30% em dois meses. Além disso, os empresários ressaltam a necessidade de terem de retirar suas aplicações pessoais de fundos de investimentos de modo a fazer frente ao recuo dos empréstimos caros oferecidos pelos bancos.

Entre o desejo do presidente e a realidade configura-se a força desta diante daquele, expressa na onda de desemprego que se amplia. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, que, em sua tentativa de desmentir os fatos, deixou de ver recessão, inclusive, nos Estados Unidos, onde a situação está preta, para anunciar crescimento interno de 4% do PIB em 2009, está tendo que voltar atrás. O contraste emergiu forte entre seu otimismo sem freio e as previsões da ONU e do Banco Mundial que prevêm avanço de somente 1,5% a 2% do PIB brasileiro no próximo ano.

As reações governamentais, na verdade, se baseiam em argumentos prospectivos, porque, na prática, em outubro e novembro, mesmo diante da catástrofe capitalista nos países ricos, a oferta e a demanda, no Brasil, continuaram fortes, sinalizando a possibilidade de crescimento do PIB de quase 5% este ano.

 

Cabeça a prêmio 

 

A comprovação desse clima satisfatório se expressou na pesquisa DataFolha, na sexta, 05, dando conta do enorme prestígio do presidente Lula: 70% dos entrevistados concordam que seu governo está na faixa de bom e ótimo. Avançou 6 pontos percentuais em relação à última pesquisa. O entusiasmo com o presidente se revelou espetacular no Nordeste, onde o percentual de ótimo e bom pula para 81%.

Não foi à toa que o chefe do governo decidiu acelerar a discussão da reforma tributária, em tramitação no Congresso, cujo teor favorece os estados nordestinos relativamente aos do sul e do sudeste, tema que, no entanto, foi para o próximo ano, dada a emergencial situação econômica deteriorada, colocando em cena, de forma intempestiva, a conjugação dos discursos críticos dos empresários e dos trabalhadores, em desespero.

Debaixo desse clima, a situação do presidente do Banco Central ficou complicada.

O titular do BC, ao que tudo indica, sentiu a barra. Durante a semana, circulando no Congresso e nas entidades empresariais, para sentir o clima geral de deterioração e de críticas fortes quanto à condução da política monetária, reconheceu o perigo que ronda a sua porta e se dispôs, para tanto, a encontrar-se, de agora em diante, com os congressistas, para avaliações periódicas do quadro nacional.

Sua posição caminha para a insustentabilidade lógica. Ao longo da semana, não apenas vieram ao ar notícias sobre a inflação em queda, que contrastram com os juros altos, mas, também, as que dão conta de ações de governos pelo mundo afora jogando o custo do dinheiro para baixo, a fim de salvar as economias de bancarrotas iminentes, em escala inusitada.

Se, na próxima quarta feita, na reunião do Copom, a direção do BC não se mexer para diminuir os juros, mantendo posição conservadora, Henrique Meirelles poderá balançar fortemente, com empresários, trabalhadores e congressistas pedindo sua cabeça.

Globo investe contra soberania sul-americana

 

O jornal O Globo em sua edição de domingo, 30, vai em cima do assunto calote sul-americano nacionalista venezuelano, boliviano, equatoriano e paraguaio que diz estar em marcha contra o Brasil.  Ao todo, são R$ 5 bilhões. É um negócio, a priori, dado. Em cima da pressuposição, projetam-se conclusões abstratas baseadas em fatos pretensamente concretos que ainda não aconteceram, mas tidos como se já acontecidos. Dissemina-se a versão, antes do fato emergir e gerar consequências normais que estariam abertas às ações políticas.

O fato não acontecido, mas tratado como se fosse algo palpável, gerando produtos políticos e econômicos aprioristicamente especulados com  gosto de guerra – eis a tática. Vem aí um calote de R$ 5 bilhões. Cria-se animus nacional contra o ataque emergente e na bica para acontecer. Uma beligerância calculada. 

O alvo não está aparente, mas latente. 

Os governos vizinhos do Brasil, sob ondas políticas nacionalistas, que crescem no rastro do estrondo neoliberal global, estão tendo um encontro com sua própria história, buscando, na investigação democrática, colocar os fatos na mesa, a fim de serem apreciados social, política e economicamente. 

Exercitam o que representa horror ao status quo, ou seja, a soberania nacional plena. Buscar tal alternativa é puro populismo. Os governos querem exercitar a soberania, investigando seu próprio calcanhar de Aquiles, suas dívidas e os interesses existentes, historicamente, em torno de sua formação, multiplicação e escravização econômica. Não pode de jeito nenhum.

Caminham, nessa direção, não porque queiram, mas porque estão sendo impulsionados por ondas de movimentos sociais, politicamente, organizados, em grau crescente em toda a América Latina, e não só.

Foram tais movimentos, por exemplo, que levaram à Casa Branca, pela primeira vez na história, um negro. Obama é fruto de politicas nascidas em núcleos sociais comunitários, que ganharam impulsão política extraordinária no contexto da tecnologia da informação na era do conhecimento. Milhares de núcleos comunitários espalhados por todos os Estados Unidos em favor dele fizeram a diferença. Emergiu, forte, o poder político comunitário digital. 

 

Novo poder sul-americano apavora poder midiático

A onda obamiana gerou sistema de financiamento de campanha à margem dos esquemas políticos institucionalizados, na base da corrupção etc. Criou-se nova ética. Movimento irresistível determinado pela ciência e tecnologia a serviço da comunidade que tende às investigações populistas, perigosas, assustadoras, para os credores, cujos abusos são patentes. 

A surpreendente entrevista de Roberto Troster, no Estadão, segunda, 01, demonstra essa evidência. Ex-economista chefe da Federação Brasileira de Bancos, Febraban, ele relata práticas de abusos dos credores no momento em que o país passa dificuldades, considerando absurdas as atuais taxas de juros vigentes no país. 

Anti-populismo, pensamento bancocrático, atacando o populismo, pensamento nacionalista, favorável às investigações necessárias para comprovar as acusações de quem conhece por dentro a prática dos abusos. Para tal anti-populismo a onda dos movimentos sociais anunciam tempestades em forma de auditagem de dívidas.

 

Emergência guevariana

Novo poder emergente, cuja base são movimentos sociais em expansão, como previu Guevara, está levando os governos sul-americanos nacionalista do Equador, da Venezuela, da Bolívia e do Paraguai para o mesmo caminho da mobilização populista-barackobamiana que apavora a grande mídia.

 Seria o mesmo populismo de outrora, com caciques políticos controlando de cima para baixo, ou outro populismo, já que a história não é estática, mas dinâmica e dialética?

O Eldorado glauberiano , com São Jorge do céu esporando o dragão da maldade contra o santo guerreiro em transe, está aí, nessa busca dos governos neonacionalista lançando-se à investigação sobre a relação Estado-banqueiros na era da oligopolização geral do capital.

Os governos vizinhos que já estão dando calote no Brasil, segundo o Globo, estão fazendo aquilo que Getúlio Vargas fez em 1931. Logo depois de assumir em cima do cavalo dos tenentistas golpistas para destronar governos velhorepublicanos, igualmente, golpistas, Getúlio apertou o pescoço das empresas multinacionais americanas distribuidoras de gasolina. O Departamento de Estado, segundo o historiador Moniz Bandeira, em “Presença dos Estados Unidos no Brasil”(2005, Civilização Brasileira, pag. 328), ouriçou e mobilizou o poder interno, isto é, a mídia, para preservar os interesses que vinham desde o Império, passando pela República Velha. 

Populismo puro tentar desalojar tais interesses.

 

Mina da corrupção exposta

Na investigação sobre os endividamentos públicos interno e externo dos governos está a mina da corrupção. Mexer nisso é populismo puro. Temem os investigados que sejam encontrados e expostos os mecanismos financeiros, traçados pelos interesses externos e internos, no contexto do poder nacional. Devidamente, acautelado por uma superestrutura jurídica que atua sob a influência do capital em sua dimensão máxima, especialmente, nos países de economia dependente, como são, historicamente, os da América do Sul. 

Ora, O Globo, assim como fez no tempo de Getúlio, quando  a nação iniciava busca de sua soberania, faz, nesse momento, com os governos sul-americanos de linha getulista, em suas tentativas de alcançarem a independência econômica nacional e sul-americana, pressuposto, fundamental, para a integração continental.

Mexer com a dívida, investigá-la? Satanás populista.

Marx destacou que a dívida externa é instrumento de dominação internacional. Incialmente, dinamiza; em seguida, com os juros, escraviza. Keynes, idem, ao ressaltar, na mesma linha, que a deterioração dos termos de troca, na relação entre países ricos e pobres, é dada pelo endividamento do país pobre na moeda do país rico, que cobra senhoriagem em forma de dividendos juramentados. 

Investigar essa forma de exploração é tentativa revanchista, populista. 

Os governos nacionalistas sul-americanos, nesse momento, se dispõem a pagar o preço para investigar esse assunto cabeludo, tendo em sua retaguarda o apoio e a cobrança simultânea da sociedade.

O Globo antecipa o calote e parte para o ataque, criando ambiente de controvérsias cujos resultados são os que desejam os eternos dominadores do continente, ou seja, manter os dominados divididos. A grande mídia, assim, está partindo para o mesmo procedimento adotado quando a  Igreja Católica e os partidos de esquerda, na Era FHC, se armaram para concretizar o plebiscito sobre a dívida nacional. Populismo inaceitável.

O tema foi totalmente implodido pelo poder midiático que atua como oligopolio sob impulsão das forças econômico-financeiras que bancam o próprio poder midiático. 

Escândalo: CPIs para investigar dívidas públicas, empreiteiras, bancos, os agentes que se misturam, para produzir as grandes obras, agrupados em interesses que se lançam ao governo tendo por caução os congressistas e suas emendas parlamentares que carreiam dinheiro público para os empreendimentos contratados? Nem pensar. Populismo, manifestação política de atraso.

 

Informação ou ficção?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A reportagem de O Globo que antecipa o calote de R$ 5 bilhões é menos informação e mais ficção. O calote, diz o lead da matéria, é o objetivo principal. Tal afirmação não é ancorada em nenhuma declaração de entrevistado de peso, amparada em fatos reais, expostos por evidências concretas, para gerar reportagens instigantes. O próprio embaixador brasileiro no Equador, semana passada, no Senado, descartou as categóricas informações midiáticas de efetivação de calote. Viu exagero no contexto.

Mas, indiscutivelmente, os calotes vão em frente, estão sendo preparados pelos governos paraguaio, boliviano, venezuelano, simplesmente, porque resolveram auditar dívidas nacionais. Populismo escandaloso.

Exercer a soberania nacional, do ponto de vista da grande mídia, seria declarar guerra. 

Representa para a grande mídia insuportável acinte o desejo de saber tudo sobre a dívida nacional. Certamente, viria ao ar tudo, numa grande investigação, inclusive, os intestinos do poder midiático, que, nessa crise de crédito, pode estar se deteriorando. 

Calote ou renegociação de compromissos?

Os governos sul-americanos, se depender da grande mídia,  estariam proibidos de ter encontro decisivo com seus credores. Isso é bom ou é ruim para a democracia? Implica calote, inevitável ou possíveis e prováveis negociações?

O mesmo ocorre relativamente aos super-endividados consumidores americanos frente aos bancos que esfolaram suas rendas na especulação que transformou seus ativos em pó e detonou a base da riqueza nacional, a capacidade do consumo interno via crédito direto ao consumidor. 

Se o dólar tinha por lastro, essa garantia e ela se perdeu, a sua ressurreição somente se daria pela negociação ou pelo perdão, pois, do contrário, o império cairia.

John MacCain perdeu a guerra, mas seu discurso está ganhando a paz. 

Durante a campanha , ele pregou perdão de dívida, o que os jornais sul-americanos, na linha do Globo, chamam de calote. Não mencionaram numa linha sequer o populismo maccainiano americano. 

 

John MacCain ganhou a paz

Adam Smith, o pai da economia clássica, o pregador das leis do mercado,  por saber que as contradiçõese do sistema levariam aos gargalos financeiros e às brutais concentrações autodestrutivas de renda, destacou que dívida pública, necessária para equilibrar oferta e demanda, a partir de gastos governamentais que complementam a insuficiência consumista privada,  não se paga, renegocia-se. 

MacCain, representante da velha e sábia direita financeira, sabia o que falava. Tocava direto na história americana. Em diversas ocasiões, no século 19, o governo americano deu o calote no mundo. 

Nixon, em 1971, ao desvindicular o dólar do seu lastro, o ouro, deixando o papel flutuar, deu tremendo beiço na praça. É uma prática histórica dos Estados Unidos. Característica que se acentuou diante da conquista do poder monetário global, que impõe senhoriagem geral a seu favor.

 No entanto, se os governos da América do Sul, que os comentaristas da grande imprensa chamam de subcontinente, entram pelo mesmo caminho, ou seja, se questionam diante dos seus credores, as suas práticas, os comportamentos dos antecessores que adotaram posições excessivamente laxistas diante da banca e dos procedimentos públicos no relacionamento com ela etc, a grande mídia entra em campo, feroz, esbravejando, antecipando, manchetando  desastres iminentes, a fim de criar um clima de confronto. 

Vem por aí pregações caloteiras ou negociações, acertos de contas, diplomaticamente, negociados? 

Barack Obama já está na de MacCain. Vamos continuar aceitando o juro alto depois que ex-diretor da Febraban reconhece que os banqueiros comentem abusos excessivos com a taxa de juro?

 

Obama convoca Adam Smith

Adam Smith já está em ação nos Estados Unidos. O excesso de dívidas das famílias americanas alavancadas pelo crediário em relação a sua renda real demonstra, como inúmeros comentaristas ressaltam, a implosão geral dos mecanismos de criação e transmissão da riqueza pela moeda e seu poder de gerar juros pela via do crediário. O desindividamento familiar tornou-se uma urgente necessidade econômica para o capitalismo americano. MacCain na cabeça.

Se essa estrutura entrou em crise total nos países capitalistas cêntricos, colocando em pé de guerra consumidores e credores, por que não ocorreria o mesmo fenômeno na relação de depedência financeira dos governos sul-americanos, no momento em que governos nacionalistas populares sobem ao poder, em nome da defesa da soberania nacional?

Não, não pode, é populismo.

O poder midiático não quer saber dessa discussão em profundidade. Não é do interesse de tal poder discutir por que uma obra, como a de San Francisco, no Equador, tocada pela Norberto Odebrecht, com recursos do BNDES, ou o túnel que virou cratera em São Paulo, também, tocado pela Odebrecht, acabaram custando o triplo do preço inicialmente contratado.

Por que?

Para dar essa resposta é preciso expor os interesses em jogo, na auditagem do processo de endividamento. Populismo inaceitável.

Conclusão: apelar para acusações populistas é a forma de aceitar, intrinseca e inconscientemente, a corrupção. Busca afastá-la com a acusação de um neologismo político histórico pretensamente decadente.

Querem dizer, então, que a corrupção é a modernidade?

Lula e mídia massacram Santa Catarina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Todos os méritos para os comentários sarcásticos e irônicos de Joelmir Beting, no Jornal da Band, na sexta, 28, ao levantar o absurdo e o massacre que o governo Lula, através da Caixa Econômica Federal(CEF), patrocina em Santa Catarina em plena catástrofe maior da história, penalizando , brutalmente, os catarinenses por intermédio de empréstimo-socorro(cruz credo) com juros de quase 2% ao mês.

Tremendo agiota sanguessugando as energias exauridas da população, que perde casas, filhos, comércio, indústrias, lavouras, estradas, pontes etc. Diante dessa barbaridade, Joelmir disse que não é hora para levar em consideração a contabilidade, mas a humanidade. Genial.

Os juros da Caixa escravizarão ainda mais o povo de Santa Catarina, que enfrenta momentos dramáticos, sob ajuda de todo o país, em campanha de doações, de norte a sul e de leste a oeste. Nesse ambiente de devastação, emerge o agiota governamental para impor ainda maiores sacrifícios.

O comentário de Joelmir mexe com os nervos, esquenta o sangue, agita a mente. Jornalismo de conteúdo. Trata-se de crime contra o interesse público, que merece profunda discussão popular. Transforma o telespector em agente e não em mero paciente da notícia.

O episódio dos juros da caixa para acabar de matar os flagelados das enchentes – juros-enchente – demonstra, pela sagacidade do repórter, a distância entre a burocracia e o povo. Aquela não está nem aí.

Os políticos de Santa Catarina até agora não pediram a cabeça da presidente da Caixa, que compromete a cabeça do presidente Lula em todo o país, em face de uma postura absurda com o dinheiro bancário estatal para sufocar quem já está sufocado.


Causas soterradas na falta de investigação jornalística

Os políticos catarinenses, provavelmente, não teriam fôlego para levantar grandes discussões sobre as razões reais do desastre e nem a imprensa está levantando essa discussão a fundo. Os jornais e revistas de final de semana demonstram a falta de apetite para as reportagens investigativas.

Talvez, porque mexeriam nos interesses que manipulam as obras públicas que tocaram a infra-estrutura urbana nas grandes cidades brasileiras e continuam ainda tocando em grande rítmo, agora, sob impulso do PAC.

As relações das classes políticas com os empreiteiros, por meio dos recursos que aquelas levantam no Congresso, para irrigar os empreendimentos urbanos desordenados do ponto de vista do interesse público e ordenados tão somente pelo interesse privado em busca dos lucros com investimentos da arrecadação tributária, jamais mereceram CPI, para valer, no Congresso.

Se tivesse que ir às raízes do porque da imprudência governamental em permitir planejamentos anti-urbanos morro acima, fragilizando a estrutura do solo da região de Itajai, cuja camada superficial, como informam os especialistas, é argilosa, a grande mídia tacaria fogo em paiol dos interesses das grandes imobiliárias e empreiteiras, estimuladoras dos políticos para levantarem as tão mal afamadas emendas parlamentares. Tudo em troca de dinheiro gordo para campanhas eleitorais. Caixa de marimbondo.

O solo afetado pela irracionalidade ocupacional,  cuidadosa com os interesses lucrativos e descuidadosa com os interesses sociais, permitiu infiltrações que, com o tempo, fragilizaram as bases das construções, para levá-las aos escombros diante de chuvas fortes e continuadas.

São tais obras, realizadas de forma desordenada, quanto ao planejamento, como tem denunciado o repórter Washinton Novaes, há anos, as que propiciam os desastres no médio e longo prazo e lucros altíssimos no curtíssimo prazo. Como este é o que interessa, fica valendo a observação cínica de Keynes, em obediência ao mero utilitarismo: “no médio e longo prazo, todos estarremos mortos”.

Se houvesse maiores investigações jornalísticas, o que não aconteceu, evidenciaria o óbio: o cruzamento dos interesses entraria em campo e o assunto poderia ser engavetado, como foi muitas vezes, não , apenas, a discussão sobre as relações entre empreiteiros , políticos e poder, mas, igualmente, políicos, poder e banqueiros, cujas ações conjugadas impediram, até hoje, ampla investigação do endividamento nacional durante a Nova República, dominada, depois da crise dos anos de 1980, pelo Consenso de Washington.


Essência escondida pela aparência terrificante

Os jornais e as revistas foram pródigos em mostrar as imagens e depoimentos dos flagelados, os pânicos populares, o desamparo em geral. Excelente cobertura visual.

Mas, por trás dos escombros, dos fatos que levaram ao horror, essencialmente, os fatos econômicos, que não são expressões neutras no processo, ficou faltando o esclarecimento da conjuntura que propiciou a emergência de tudo.

Nela, chafurdam os interesses escusos das relações setor produtivo-setor estatal na discussão e autorização de realização de obras públicas cujo conteúdo não visam o interesse público, como o desastre catarinense comprova à larga.

Os desastres urbanos atuais foram todos causados por negociatas em torno do dinheiro público para expandir exponencialmente os espaços urbanos tocados por grandes obras de engenharia que pouco se lixaram para os aspectos ambientais que, desdenhados, provocariam tragédias catarinenses de maior ou menor grau Brasil afora ao longo dos últimos anos.

Os exemplos são diários. Chega o tempo da chuva, repeteto de absurdos. As galerias pluviais nunca estão prontas para minimizar as enchentes, que, a cada ano, são mais destrutivas, por conta da insuficiência de competência capaz de gerar empreendimentos públicos eficientes e duradouros, adequados ao equilíbrio populacional, nunca levado em conta etc.

Os demandos dos poderosos que agem de forma umbilical com os governos na implementação das obras públicas para servir de instrumento de viabilidade para as demais atividades produtivas da sociedade não merecem a observação crítica nem da imprensa, em forma de jornalismo investigativo, nem dos políticos, principalmente, estes, que paparicam as grandes empresas para obterem financiamentos nas campanhas eleitorais.

A reação corporativa dos políticos avançam extra-fronteiras. Veja o caso da Norberto Odebrecht no Equador. A empresa brasileira está naquele país há 25 anos, realizando obras públicas e se inter-relacionando estreitamente com os governos neoliberais anteriores ao atual, algo semelhante ao que acontece no Brasil desde sempre.

O que fez a grande mídia diante da acusação de que a empresa patrocinava corrupção no país feita pelo presidente do Equador, Rafael Correa, que destronou a classe política com a qual a empresa brasileira negociava, umbilicalmente?

Ainda não saiu aquela grande reportagem investigativa, buscando as razões da acusação presidencial, nem um perfil geral da empresa e suas relações em cerca de 20 países, gerando orgulho nacional, pelo potencial empreendedor brasileiro no mundo, mas, também, produzindo controvérsias relacionadas às denúncias de corrupção levantadas. Os dois lados da questão têm que se evidenciar, caramba.

Não é preciso ir longe. Estão rolando investigações criminais contra a mesma empresa que está, igualmente, por trás do desastre ambiental causado, em São Paulo, por obra governamental que desabou, assim, como aconteceu no Equador, mas a opinião pública carece da investigação jornalística sobre o assunto.

Assim como o governador José Serra, de São Paulo, indignou-se e mandou a justiça investigar as causas do desastre que provocou prejuízos e mortes, da mesma forma, Rafael Correa, diante de desabamento de obra construída pela Norberto Odebrecht, com dinheiro do BNDES, mandou investigar.

Até o momento, passados mais de um ano, não se leu, ainda, aquela bela reportagem sobre o estouro do túnel em São Paulo, assim como o estouro da hidrelétrica de San Francisco, no Equador. Dinheiro público enterrado com os corpos de flagelados que não receberão indenizações.

Os políticos catarinenses apoiariam , no Congresso, CPI, para ir fundo no mais destruidor desastre ambiental da história brasileira?


Investigação ou descrédito

O que a imprensa, depois do brilhante comentário de Joelmir Beting, deve fazer é o jornalismo da verdade. Do contrário, ficará na manipulação de sempre, sem penetrar nas verdadeiras causas da devastação. Ou ocorre a competente investigação jornalística ou emerge o descrédito jornalístico.

As políticas públicas urbanísticas nas capitais brasileiras precisam ser profundamente investigadas. Não, apenas, a aparência, mas a essência. Isso, por exemplo, a Veja não fez na última edição.

Colocou na capa uma foto punjente da bela menina Luana Eger, de 3 anos, primeira ser levada pelas águas; descreveu competentemente o estrondo do encontro entre o anticiclone, em sentido anti-horário,  com o vórtice ciclônico, no sentido oposto, para dar o verniz técnico-científico do problema fatal; enumerou prejuízos, mais de R$ 1 bilhão; mencionou, de passagem ligeira, superficialmente, desorganização urbano-ambiental, mas não investigou as razões de tal desorganização, que induziu desordenadamente ocupação e destruição ambiental cujo resultado representa, agora, implosão de tudo.

Veja e Época ficaram na superficie das águas. Os atos políticos que levaram os governos a contratarem empresas para dinamizar espaços urbanos obedientes a uma orientação econômica anti-sustentável ambientalmente não foram devidamente investigados.

Os parlamentares catarinenses que formaram comissão especial para lutar por Santa Catarina caminhariam nesse sentido, como clamam os internautas, que interferem nas reportagens pouco investigativas, pedindo, clamando, mais fatos, mais evidências para permitir formação de opinião mais ampla?

Certamente, ficarão, como a grande imprensa, na superfície, para salvarem a pele: enumerarão, criteriosamente, os prejuízos, levantados pelas estatísticas do governo e das federações empresariais, do comércio, da agricultura e dos serviços, para pedir reparações oficiais.

Debaterão com a comunidade os desvios e desacertos das políticas públicas e dos investimentos governamentais em infra-estrutura, apoiados por eles,  por empresas e empreiteiras que levaram a situação conjuntural e estrutural urbana do vale do Itajaí ao desastre?

A mídia precisaria botar o assunto no cenário, para estimular opiniões. Fará isso?

Nos jornalões de domingo, nada. Nas revistas, noticiário fraco, perdendo de goleada para aquilo que a televisão deu à larga, mostrando ao vivo, tudo. A aparência emergiu, a essência, submergiu.

Eis a grande tragédia nacional de sempre, como diria Beting, sem humanidade, mas com muita contabilidade.

Discurso de Alencar sobe ao poder

A bancarrota financeira global, que se intensificou, nos Estados Unidos, com o socorro emergencial do governo W. Bush ao Citibank, um ícone bancário de varejo, orgulho americano em todo o século 20, agora, no chão, levou o presidente Lula, no Brasil, a mudar o cenário econômico e político, depois da reunião de terça feira, 25, na Granja do Torto, quando reuniu todos os ministros para, juntos, traçarem os novos rumos da economia. Redobrou sua aposta super-otimista na economia brasileira, a ser embalada por propaganda consumista, em meio à crise de crédito, e colocou em cena o discurso do vice-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva, adversário maior dos juros altos, praticados pelo Banco Central.

O titular do Planalto percebeu que sua aposta no consumo somente será possível se os juros no crédito direto ao consumidor diminuir. Caso contrário, ficará desmoralizado frente ao contribuinte, abrindo espaço aos adversários, como os governadores de Minas Gerais, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra, que já levantam a bandeira de José Alencar, na praça, visando a sucessão de 2010. Perderia credibilidade para sustentar a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, pois os juros altos vigentes , ao inibirem o consumo, aprofundarão a desaceleração da produção, da arrecadação tributária e dos investimentos públicos, prejudicando o Programa de Aceleração do Crescimento(PAC), tocado pela ministra, como motivação maior para fazê-la sua sucessora.

A decisão presidencial de orientar o e a presidentes do Banco do Brasil, Antônio Lima Neto, e da Caixa Econômica Federal, Maria Fernanda Ramos Coelho, para que reduzam as taxas de juros, em encontro no Palácio do Planalto, na semana passada, antes da reunição na Granja do Torto, representou, na prática, tabelamento indireto do custo do dinheiro nos bancos oficiais, cujos efeitos poderáo ser, naturalmente, aumento da concorrência bancária. Ao mesmo tempo, significou pressão sobre o presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, para diminuir a taxa básica de juro selic, atualmente, em 13,75%, na próxima reunião do Conselho de Política Monetária, no início de dezembro.

Lula, finalmente, rendeu-se ao discurso do vice-presidente José Alencar, que, fragilizado pelo ataque do câncer, de que padece, encontrou e ainda encontra forças suficientes para atacar o também canceroso problema que destroi as fibras da economia nacional, a elevada taxa de juro, a maior do mundo, na atualidade capitalista global. Uma contratição frontal relativamente ao que vigora nos países capitalistas em geral, cujo custo do dinheiro é jogado para baixo, como antídoto à recessão que avança inexoravelmente por todos os cantos da economia mundial.

Favorecem a estratégia presidencial os últimos números da Fundação Getúlio Vargas, dando conta de que o Índice Geral de Preços(IGP-M) de novembro alcançou 0,38% contra 0,98% de outubro. Trata-se de recuo sensível em relação aos 0,67% aferidos pela pesquisa Focus, apurada pelos banqueiros, que serve de orientação para o Banco Central agir na condução da política monetária. Nesse contexto de desaceleração relativa dos preços, o titular do Planalto parte para o tabelamento indireto dos juros, colocando na parede o titular do BC.

No Congresso, na quarta, 26, Meirelles,  sob pressão dos senadores, fez pouco caso dessa desinflação relativa de novembro, deixando indecisão no ar sobre se tal notícia poderia ou não refletir positivamente na diminuição dos juros, no momento em que os governos nos países ricos, temerosos quanto ao avanço da deflação, joga o custo do dinheiro para baixo, fortemente.

A tensão entre o Planalto e o Banco Central promete seguir em frente, nos próximos dias, com o tabelamento dos juros, enquanto, no mercado financeiro, configura confronto de gigantes: de um lado, o oligopólio financeiro privado, que mantém o juro alto, apesar de o governo injetar dinheiro na circulação, mediante liberação dos depósitos compulsórios, na tentativa, sem sucesso, até o momento, de diminuir seu preço, e, de outro, o oligopólio financeiro público, com os bancos estatais, sob pressão governamental, impondo, efetivamente, a sua baixa.

Os efeitos, no Banco do Brasil, começaram a ser sentidos, por enquanto, timidamente, mas já representam fato novo na economia, que o presidente quer reanimar na base da pressão e da propaganda, tentando virar o jogo no gogó. A taxa mínima de juros dos cartões de crédito, no BB,  recuou de 4,23% para 3,79% ao mês, nos financiamentos rotativos, nos quais os consumidores pagam uma parte dos débitos no vencimento das faturas, e de 4,99% para 2,92% ao mês nas compras parceladas. Nos descontos de cheques, operações utilizadas pelo comércio que trabalha com predatados, os encargos recuaram de 2,32% para 1,98% mensais.

Nos empréstimos para capital de giro de empresas e nos financiamentos a exportações(adiantamento de contrato de câmbio, ACCs), os juros baixaram de 2% para 1,96% ao mês. Foi o primeiro corte de juros pelo BB em mais de um ano, relativamente, às taxas que passam a valer a partir de hoje.

Já a Caixa Economia Federal deverá anunciar sua nova tabela de juros, na próxima semana, beneficiando, primeiramente, empresas de pequeno e médio porte, as mais prejudicadas pelas restrições de crédito, no país, embora sejam responsáveis pela maior oferta de emprego na economia. Ao mencionar “nova tabela” a presidente da CEF comprovou a jogada lulista: tabelamento de juros contra a crise para forçar concorrência bancária.

 

Oligopólio estatal financeiro fortalece Dilma

Os bancos públicos, dessa forma, por meio de decisão governamental, de caráter ,  nitidamente, intervencionista, partiram para disputa de mercado com os bancos privados, que fugiram de qualquer compromisso com o governo, apesar de instado por este, a trabalharem com juro mais baixo, mediante oferta de depósitos compulsórios a juro zero, para evitar bancarrota empresarial. Lula não apenas força a concorrência, mas abre espaço, também, para fortalecer a candidatura de Dilma Roussef, se o crediário começar a esquentar, novamente.

Estaria em curso no confronto de gigantes oligopolizados, governo e setor privado, avanço da concorrência cujo beneficiado, enfim, poderia ser o contribuinte?

O oligopólio financeiro estatal, engordado com a compra do banco paulista Nossa Caixa pelo BB junto ao governo de São Paulo, como resposta à união oligopólica dos bancos Itaú e Unibanco, passa a induzir, claramente, o comportamento das taxas de juros, tentanto impor competição.

Conseguirá?

Se o oligopólio bancário privado não diminuir os custos dos empréstimos no crediário, de agora em diante, correria risco de perder espaço para o oligopólio estatal, quanto mais o titular do Planalto insistir, avançando em propaganda, junto à população para que continue consumindo, na crença de que a crise mundial não afetaria, para valer, a economia brasileira, a partir de 2009.

A aposta do presidente na economia, redobrada com a indução para baixo dos juros ao consumidor a serem praticados pelos bancos estatais, tenta, dessa maneira, inverter tendência aferida, na semana passada, por pesquisas setoriais comandadas pela Confederação Nacional da Indústria(CNI), sinalizando tempos difíceis.

Não há dúvidas: Lula parte para um confronto mais direto com os bancos privados e, por tabela, com o Banco Central, colocando-se ao lado das posições desenvolvimentistas do ministro da Fazenda, Guido Mantega, que insiste, junto com governadores oposicionistas tucanos Serra e Aécio, em política monetária e fiscal mais flexível.

 

Mantega: mais poder depois da reunião do Torto

O titular da Fazenda, nesse aspecto, estaria ajudando o presidente Lula com seu propósito de, animando a economia, empinar a candidatura Dilma, o que dificilmente aconteceria, se forem mantidas elevadas as taxas de juros sob monetarismo ortodoxo bancado pelo ministro Henrique Meirelles.

O exercício de política fiscal mais frouxa, com injeção de recursos públicos  para garantir investimentos na produção e no emprego, somado a pressões sobre bancos públicos, para exercitar juros mais baixos, representa nova postura lulista na condução da crise econômica.

A atuação presidencial determinada, depois da reunião de terça-feira, significa a nova aposta governamental, ou seja, abandono da crença de que o custo do dinheiro cairia pela força do mercado, dada, apenas, pela injeção maior de depósitos compulsórios em mãos dos bancos privados. Na semana passada, foram colocados mais R$ 6 bilhões, na circulação, mas a taxa de juros, em vez de cair, subiu. O crédito para as empresas pulou de 45% para 60%. Foi a gota dágua na paciência lulista. A intervenção no mercado de crédito é o novo perfil da administração petista na crise global. Meirelles ficou contra a parede.

Apesar de a medida provisória 443, editada às pressas pelo Planalto, ter dado poder extraordinário ao Banco Central para enfrentar a crise, no campo da política monetária, resultados estão se revelando contraditórios. Quanto mais o governo coloca dinheiro no mercado, mais o custo dele, nos últimos dias, sobe.

Seria tal subida dada pelo risco do Brasil aos olhos dos investidores?

Parece que não, porque os fundos de investimentos, depois de patrocinarem fuga de dólares, agora voltam, diante do real sobredesvalorizado, para comprar ativos nacionais na bacia das almas, demonstrando que a economia nacional representa baixo risco para o investidor.

Se o risco Brasil não espanta investidor, pelo contrário, atrai, e se a inflação de novembro sinaliza recuo, o remédio presidencial, para o juro que insiste em subir, deixa de ser o mercado, para dar lugar à intervenção.

O avanço da estatização bancária oligopolizada, para garantir crediário a custo razoável, via tabelamento indireto, passa a ser o jogo principal do presidente Lula, para o bem e para o mal, na linha josealencariana.