Elites atrasadas na era da riqueza petrolífera

Monteiro Netto, sem visão histórica larga, como a tinha Nabuco, joga, histociamente, contra o próprio capitalista, quando aposta na redução da renda disponível para o consumo, expressa na longa jornada de trabalhoNabuco lutaria contra a jornada de 44 horas de trabalho como lutou contra a escravidão no século 19, atento às necessidades prolongadas do capitalismo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O trabalhador quer pagar em 4o horas o que está  pagando em 44, assim como pagava, até a pouco tempo, em 48. Deseja, claro, por direito, embolsar,  4 horas que sabe  que significa para o empresário lucro e para ele, trabalhador, trabalho não pago, ou como Adam Smith destacou, mais-valia.

É essa consciência que levou Ricardo a teorizar a lei do valor-trabalho, em que a mercadoria trabalho é comprada por salário e medida por horas, tempo de trabalho. Quanto mais horas, mais lucro para o empresário, menos lucro para a força de trabalho. Inversamente, quanto menor tempo de trabalho assalariado, menos lucros para o empresário e mais lucro para o trabalhador. Enfim, melhor distribuição da renda.

A lei do valor-trabalho liderou a consciência do trabalhador inglês no século 19 e induziu Marx a teorizar a lucratividade capitalista a partir da acumulação valorativa do trabalho não pago. A partir daí entendeu filosófica e materialmente as motivações de ambos os lados em busca de maior e menor tempo de trabalho, para a produção de mercadorias.

Certamente, a essência do problema decorre do fato de que o trabalho é, como disse Engels, valor que se valoriza. O empresário ganha esse valor no tempo de trabalho excedente não pago, para valorizar o seu investimento.

Do contrário, para que investir, se não se obtém lucro com o dinheiro investido?

A Lei de Say, que orienta a cabeça das lideranças político-empresariais, como é o caso do presidente da CNI, deputado Armando Monteiro Netto(PTB-PE), não funciona. Não há a correlação correspondente entre oferta, investimento, e demanda, consumo, razão pela qual o valor que o trabalhador produz em forma de mercadorias é, sempre, inferior ao valor que recebe em forma de salário.

Tal gap, responsável pela crônica insuficiência relativa de demanda capitalista, é, como destacou o autor dO Capital,   o calvário do próprio capital, expresso em insuficiência crônica relativa de demanda global, promtora do subconsumismo.

O investimento tem que dar lucro e essa lucratividade decorre do maior ou menor tempo de trabalho excedente gasto na produção da mercadoria que vai ao mercado ser vendida com lucro dado pela força de trabalho, geradora de valor.

O valor não pago, evidentemente, não entra na circulação capitalista, para equilibrar a relação produção-consumo. Não entra, justamente, porque ele é valor não pago. Se entrasse teria que ser pago. Contabilizado.

O empresário pagaria com lucro o insumo, força de trabalho,  que adquire para produzir seu lucro. Trocaria seis por meia dúzia. Em vez de embolsar lucratividade gerada pelo trabalho excedente não pago, crescentemente, valorizado, grávido de força de trabalho, iria jogar na bolsa, se não visse lucro para o seu capital investido.

Está tudo em Marx, brilhantemente, explicado. É incrível como o autor de “Manuscritos econômicos e filósoficos” – leitura obrigatória para todos os jornalisas, principalmente –  escreve fácil, se se atém à realidade, mas, difícil, para quem está dominado pela ideologia parcial-neoliberal e , consequentemente, aprisionado pela forma e não pelo conteúdo da realidade.

A questão da jornada de trabalho é isso aí. Essencialmente, é disputa pela renda. O trabalhador está consciente de que pode produzir em 4o horas semanais o que está produzindo em 44 horas. Sabe mais, que daria conta do recado em 30 horas. Economizaria, com a ajuda da ciência e da tecnologia, posta a serviço da produtividade, 14 horas de trabalho não pago. Tremenda renda disponível para o consumo.

 

Mais trabalho, mais renda , mais distribuição

 

 

mais trabalho não significa mais renda, como mais investimento não significa mais consumo, mas ao contrário, menos renda e menos consumo

O discurso do principal empresário brasileiro, Antônio Ermírio de Moraes, do Grupo Votorantim, de que é preciso trabalhar mais para gerar mais riqueza é correto, mas precisa ser aperfeiçoado. Trabalhar mais não significa gerar mais renda para o trabalhador, como mais investimento não significa consumo correspondente. A fracassada Lei de Say pode ser olhada do ponto de vista do salário. Mais trabalho, sem maior distribuição da renda, significa , apenas, mais lucro e mais exploração.

O que Ermírio entende por aumento de horas trabalhadas para gerar mais riqueza nacional o trabalhador entende por redução do salário e da qualidade de vida em nome de riqueza mal distribuída.

Evidentemente, o presidente Lula, que escanteou, durante seu governo , o maior empresário brasileiro, não o recebendo até hoje, algo que envergonha a nação, pela mesquinharia presidencial, coloca em cena, nova realidade, novas expectativas políticas, com o seu discurso nacionalista, pautado pela distribuição equitativa da renda petrolífera em nome de projeto nacional sustentável.

O Estado, que sob crise capitalista global, dita as ordens na economia e na política, como fator de estabilização, embora, também, possa estar marcado para morrer, se os seus deficits fugirem do controle, como aconteceu com os Estados Unidos, agora, pagando geladeira econômica, tem pela frente novo desafio. O ponto central passa a ser a relação capital-trabalho, tensionada pelo desemprego, de um lado, e expectativa de riqueza, de outro.

A redução da jornada de trabalho sintoniza com a face nacionalista de carater socialmente distributivo para elevar arrecadação tributária, a fim de garantir reprodução da relação produção-consumo em relativa estabilidade. Tenta o governo Lula, com a grana do petróleo equilibrar a relação do econômico com o social, historicamente, desequilibrada em favor do primeiro.

Nesse ambiente, em que o governo passa a arbitrar a distribuição da renda, redirecionando recursos orçamentários mediante novas regras de apossamento da riqueza do petróleo, a  redução da jornada  estará combinando com decisões oficiais destinadas a salvarem o capital produtivo de bancarrota econômico-financeira.

Se o governo busca sustentar e  elevar a renda do capital investidor, ameaçado de ter a sua capacidade instalada sucateada, na crise, por que não pode arbitrar, também, a política social no contexto do tempo de trabalho, favorecendo, com princípio capitalista segundo o qual menor tempo de trabalho, representando mais renda disponível para o conumo, o próprio capitalismo?

 

 

Getulismo traído

 

 

Vargas sofre facadas nas costas por falsos herdeiros defensores de ponto de vista equivocado como fator de reprodução do capital

A Europa enfrentou duas grandes guerras mundiais, no século 20, em decorrência da relação conflituosa capital-trabalho, até encontrar o ponto de equilíbrio na formação da comunidade econômica, social e política européia sob regime de melhor distribuição da renda nacional mediante social-democracia. Ou seja, equidistância entre  radicalismos dos estruturalistas ortodoxos comunistas, de um lado,  e dos neoliberais monetaritas capitalistas, de outro. Deu certo, até agora, desde a segunda guerra. Continuará dando?

Os empresários europeus, depois de muitas mortes, milhões, entenderam que não haveria paz, se o tempo de trabalho não fosse equitativamente distribuido, na sua formação do lucro, entre o capital e a força de trabalho que o reproduz. 

Teria que haver terceira guerra mundial, para se chegar a esse consenso? Os europeus, cansados de guerra e prenhes de lições históricas, resolveram não correr mais esse risco. Mas, agora, estão mergulhados em bancarrota financeira, cheios de papéis podres, repassados pelos bancos americanos, falidos, no colo do governo Obama.

Os empresários brasileiros, herdeiros das tradições colonialistas, ligadas aos intersses externos, que, no século 19, levaram o país ao vexame de ser o último a abolir a escravidão, formalmente, têm muita dificuldade para alinhar-se às mudanças que modernizam as relações sociais da produção.

Tornaram-se prisioneiros dos interesses que seguem ideologias que estão , economicamente, mortas, como a de sustentação da relação capital-trabalho , bancada pela prioridade à produção relativamente ao consumo, em obediência a mecanicismos falidos, como a Lei de Say.

Patrono do liberalismo, do século 18; do neolberalismo, do século 19, e do neo-neo-liberalismo, do século 20, entrando  no 21, Jean B aptiste Say, repetido pelo presidente da Confederação Nacional das Indústrias(CNI), não dá mais conta do recado. Não é mais suficiente para sustentar o ponto de vista favorável ao privilégio  à  produção, mesmo que haja capacidade ociosa, na esperança falsa de que o consumo seria automativamente puxado, nas asas do falso mecanicismo jeanbaptistesayiano.

O falso herdeiro pernambucano do PTB, criado pelo nacionalista Getúlio Vargas, não percebe que está historicamente deslocado em sua posição ideológica, visto que insistir, como ele faz, em defender a sustentação da jornada de trabalho em 44 horas semanais, é, simplesmente, atuar contra o próprio interesse capitalista.

 

 

Moedas trocadas 

 

 

lupi do PDT está no polo oposto de Armando do PTB, em inversão no desfraldar da bandeira getulista-lulista-nacionalista

Bancar, como faz o deputado Armando Monteiro, as 44 horas, extraindo lucratividade forçada do trabalhador, em nome da sustentabilidade econômica improvável, significa  manter menor renda disponível para consumo, a fim de fortalecer a  própria produção de bens e serviços. Contradição.

 Menor renda disponível para o consumo, decorrente das 44 horas trabalhadas, em comparação às 40 reivindicadas pelos trabalhadores,  implicará em não realização da produção e , consequentemente, menor taxa de lucro e maior taxa de desemprego, seguindo a própria lógica do capital.

No ambiente em que o social, politicamente em ascensão, ganha espaço na consciência política nacional, apostar na sustentação da longa  jornada de trabalho é obter o oposto do que o deputado Monteiro Netto prega, ou seja, economia insustentável, e deseja, isto é, votos para tentar uma cadeira de senador pelo PTB em 2010.

Ao contrário de Joaquim Nabuco, que via o fim da escravidão como remédio para evolução do capitalismo e, certamente, veria, hoje, a redução da jornada de trabalho com os mesmos olhos, o deputado petebista pernambucano reforça o ponto de vista colonialista dos seus antepassados escravagistas em Pernambuco, sinalizando o caráter essencial da elite política  nacional .

A bandeira getulista do PTB , simplesmente, é rasgada pelo neo-petebista Armando Monteiro Netto, no momento, em que a política social do governo , com o qual se diz alinhar, busca reverter, agora, com o dinheiro do petróleo, a relação colonial persistente no Brasil entre capital e trabalho. São os partidários eternos da guerra como solução para a acumulação capitalista.

Monteiro abraça o PTB de Ivete Vargas, monitorado, depois da anistia política, em 1982, por Golbery, apóstolo da primazia do capital externo, na exploração do petróleo, durante o golpe militar de 1964, oposto ao que pregaria o petebista Getúlio Vargas, cujo herdeiro, no governo Lula, é o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. Moedas trocadas.

Socialismo lulista em ação

Lula avança com discurso da distribuição da renda nacional e da melhor distribuição da riqueza do petroóleo para os brasileiros

Patrimônio do povo! Riqueza da Nação! Futuro do Brasil!”

Esse foi o destaque político principal que o presidente Lula deu ao lançamento do pré-sal, que muda a consideração político-estratégica do Brasil no cenário capitalista global em crise, no qual desponta como promessa de potência internacional, graças a sua base industrial e a disponibilidade de matérias primas para serem manufaturadas sem custo de transporte, elevando, consideravelmente, a competitividade nacional.

A disposição política do titular do Planalto em destacar que o povo é o principal responsável pela existência da Petrobrás, algo que o emocionou, no final do discurso, na data histórica, explica porque a grande mídia nacional dependente do capital externo , passou a ter mais medo do Estado, na medida em que ele decide arbitrar a renda nacional em nome do povo.

O discurso pode começar a ganhar conteúdo prático. O poder estatal dirigente sobre o petróleo eleva a capacidade política do Estado para fazer política social e mudar a correlação de forças que sempre dominou a destinação dos recursos orçamentários no contexto da produção e do consumo no capitalismo brasileiro ao longo de sua história.

Essa alteração política no comando da destinação da riqueza para abastecer o povo de educação, saúde, infra-estrutura, cultura e ciência e tecnologia, mediante fundo de investimento com a riqueza do petróleo, agilizando esses setores fundamentais e essenciais à nacionalidade, sintoniza-se não com o pensamento conservador, colonialista que sempre dominou as elites nacionais, mas com o pensamento socialista, que agita a América do Sul.

O realce ao “Patrimônio do povo” soa nitidamente socialismo. É disso que os conservadores têm medo. A conjunção histórica está contra eles, no momento, porque a economia de mercado, pregada por eles, à revelia do Estado, faliu na grande crise global mediante anarquia financeira.

O governo americano, praticamente, estatizou os bancos, embora a representação deles seja privada e as montanhas de dinheiro do povo canalizadas para eles não quebrarem, pareça que o setor financeiro privado está dando as cartas. Ilusão. O poder econômico privado, que, sob anarquia financeira, caminhou  para a deflação e a auto-destruição, correu para o colo do governo, a fim de ser protegido da bancarrota.

Uma onda de movimentação política para organizar socialmente a produção varre o mundo no contexto capitalista em crise, em que se denota a anarquia dos mercados. O Estado comanda essa onda em nome do interesse público, demonstrando que o que estava vigorando prejudicava a sociedade dominada pelo discurso da zorra liberal total.

A desregulamentação das atividades financeiras, contra a qual a grande mídia não protestou, ao contrário, saudou, em nome da eficiência e da produtividade, capaz de sustentar a acumulação capitalista aceleradamente especulativa, demonstrou que não é possível ao Estado deixar a nação nas mãos dos loucos. O Estado havia enlouquecido sob comando deles, até que o caldo entornou.

A entrado do governo colocando o dinheiro estatal para evitar que a produção e o consumo desabassem no colapso do crédito, aprofundado pelos banqueiros loucos em sua proteção contra o risco, representou serviço de utilidade púbica fundamental, algo que a busca privada pelo lucro não contempla em suas ações contábeis, obedientes, apenas, à minimização de custos e a maximização de lucros, a qualquer custo.

Ao entrar em cena, para salvar o sistema, o Estado paga um custo, o de ter que descolar dos interesses que estavam controlando-o, para adquitir autonomia a fim de falar em nome do interesse público, como alternativa de sobrevivência sob a democracia representativa.

Sua legitimação dependeria da sua determinação, na crise, de promover o desenvolvimento não apenas do econômico, mas, fundalmente , do social.

A promoção da economia no sentido social, como é o que promete o presidente Lula, entupido de petróleo, amplia-se as chances de se abrirem movimentos sociais de massa em defesa da melhor distribuição da renda nacional, algo incompatível com o capitalismo ultra-concentrador de renda e poupador de mão de obra.

O social tenderia a preponderar sobre o econômico, em meio aos escombros da estratégia neoliberal, com o dinheiro do petróleo, fortalecendo, consequentemente, o discurso socialista.

 

Planejamento econômico e social

 

 

miguel-jorge, o porta-voz do projeto de desenvolvimento sustentável com o dinheiro do petróleo, de agora em diante

No ato de interferir na economia, em nome do interesse público, o governo, com a moeda estatal, que é capital – “poder sobre coisas e pessoas”(Marx) – , ganha dimensão justicialista como prestador de serviço , para evitar que haja a contaminação destrutiva da sociedade, comandada por categoria social dominante que , sob economia de mercado, se auto-suicidou econômica e financeiramente na desregulamentação geral.

O planejamento social e econômico passa a ser uma exigência social fundamental em que o Estado se obriga a cumprir para romper e superar a anarquia privada , a economia tocada pela exuberância irracional, como a denominou o ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Alan Greenspan, ao analisar o sistema financeiro e sua relação com o governo americano, nos anos de 1990-2000, entrando século 21 adentro, até implodir geral na bancarrota do mercado imobiliário em outubro de 2008.

A necessidade do planejamento ganha o debate nos parlamentos e configura, consequentemente, demanda ao governo, para agir como árbitro da distribuição da renda com opção preferencial para o social como forma de salvar o econômico, que se suicidou. Pensou poder se auto-reproduzir, livre e esquizofrenicamente.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, em seu instrutivo artigo “A crise mundial e a política de desenvolvimento produtivo”, no Valor, 01.09, pedagogiza a nova estratégia de desenvolvimento econômico, político e social, que leva o governo a planejar as ações produtivas, como alternativa à anarquia, sempre repetida quando o discurso liberal chega aos seus limites esquizofrênicos, para fugir da realidade.

Não se trata, portanto, de deixar o investidor canalizar sua poupança para uma produção livremente escolhida, mas planejada, que analisa os fatores de produção e de mercado, de modo a ser empreendida. Materializa-se, no cenário do governo, o tipo de ensinamento que é dado pelo Sebrae aos empresários de pequeno porte, de orientá-los, recomendando menos ousadia e mais ciência e pé no chão.

Afinal, sob a livre concorrência, a qualquer custo, o resultado do investimentos não é o de produzir consumo correspondente, mas, ao contrário, crônica insuficiência relativa de demanda global, expressa em estoques elevados e deflação. Ou seja, condição que leva o empresário ao colo do governo, para pedir desoneração, desvalorização monetária, perdão de dívidas, prazos largos para pagamento de tributos, jamais recolhidos em dia etc.

A tendência ao planejamento, na grande crise global,  reforça o poder estatal de organização, especialmente, em relação aos grandes negócios, nas áreas em que o país é economicamente poderoso, como são os casos das produções de petróleo, alimentos, energia, bancos de varejo e desenvolvimento.

As novas regras para exploração do pre-sal reforçam a conjuntura de planejamento, de organização social da produção, para evitar deflação e desemprego. Ganha espaço não a disposição para investir mais na produção relativamente  ao consumo , mas investir mais no consumo relativamente à produção.

 

 

Opção pelo consumo

 

 

A insuficiência crônica de consumo que Marx identificou como lei do capital em processo de acumulação seria superada pela transformação da riqueza nacional mais poderosa , o petróleo, em patrimônio do povo, para retiará-lo do reino da necessidade, para coloca-lo no reino da prosperidade mediante distribuição da renda?

O governo descobriu que mais consumo bombado por programas sociais representa mais arrecadação tributária, com a qual programa investimentos públicos. Os governos asiáticos entraram nessa, do bolsa família. O novo primier japonês do PDJ prega bolsa-natalidade.

Dinheiro para consumo do pobre gera imediata arrecadação e novos investimentos para a indústria. Já dinheiro para a produção em forma de desoneração fiscal e crédito subsidiado gera consumo insuficiente, porque não há correspondência direta entre investimento na produção com geração de consumo. 

Não funciona a Ley de Say, segundo a qual toda a oferta, investimento, gera demanda, consumo, correspondente. Ao contrário, como demonstra Marx, didatica e fulgurantemente, em “As Metamorfoses do Capital e o Ciclo Delas”, terceiro volume dO Capital, o movimento gira no polo oposto, em forma de sobreacumulação de capital, por um lado, e exclusão do social pelo capital, por outro, produzindo, consequentemente, gap em forma de insuficiência de consumo, que desequilibra estruturalmente o sistema.

A crise financeira global é o retrato da teorização de Marx, a partir da lei do valor-trabalho, concebida por Ricardo, que volta a ganhar a consciência do trabalhador em forma de pressão por redução da jornada de trabalho. Trata-se, como praticaram os trabalhadores ingleses, no século 19, de elevar o salário médio real e, consequentemente, renda disponível para o consumo, mediante diminuição do tempo de trabalho empregado na produção sem reduzi-la, graças ao avanço da ciência e da tecnologia responsáveis pelo aumento exponencial da produtividade.

A crise global concluiu uma etapa histórica do pensamento capitalista especulativo esquizofrênico, em nome da acumulação sem freio, e o Estado entra no circuito em nome do interesse público. Nessa condição, o planejamento social e econômico expressa o interesse público, pautado na melhor distribuição da riqueza, que, como figurou no discurso do presidente Lula, é patrimônio nacional.

Os grandes meios de comunicação colocam em marcha uma linha de produção de informações voltada para o otimismo acrítico de que está havendo retomada da produção, mas não mostra que a acumulação capitalista , na fase especulativa, prescindiu da produção. Basicamente, apoiada na especulação financeira, a acumulação do capital dispensou o valor-trabalho, do qual extraia lucratividade, porque ficou mais fácil gerar renda disponível para consumo em cima da moeda fictícia. Esse instrumento de reprodução ampliada do capital, que dispensava a produção e o trabalho, quebrou.

Retomar à produção, com os problemas de insuficiência crônica de demanda que o capitalismo provoca, seria retomar aquilo que a história já superou, ou seja, a fase antetior à crise de 1929, em que predomina o padrão-ouro. Sonho.

O Estado , que entrou na economia para puxar a demanda , depois do crash de 1929, e levou  capitalismo na base do endividamento crônico ao longo de todo o século 20, mediante economia de guerra, busca sobreviver, agora, descolando das forças com as quais alinhou,  o econômico, para dividir com ele , de forma mais equitativa, o social.

Vale dizer, está em curso a construção do discurso social, socialista.

 A força do Estado, com cores nacionalistas e pregações socialistas nas paredes do Planalto, coloca Lula, no  comando de planejamento do projeto de desenvolvimento com o dinheiro do petróleo, alinhado com o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, da Bolívia, Evo Moralez, no desenvolvimento dos princípios econômicos filosóficos nacionalistas-socialistasa.

A regulamentação do Estado venezuelano sobre as reservas de petróleo na Bacia do Orinoco, atrativa para todas as empresas de petróleo do mundo, inclusive, a Petrobrás, guarda as mesmas relações com as regras estabelecidas pelo presidente Lula para explorar a reserva do pre-sal.

Nacionalização da riqueza e distribuição socialista dela, com o discurso de que tal patrimônio é do povo, viram o mote eleitoral que o presidente neo-socialista Lula empreende para tentar eleger a ministra Dilma Roussef  presidente do Brasil em 2010.

Pré-sal abala câmbio e exige controle cambial

Lula rendeu-se ao óbvio: quem vai dar a palavra final sobre o petróleo são os representantes do povo no Congresso e não a cúpula de governadores dos estados produtores em torno do governo federal

O interesse mundial pela exploração das reservas de petróleo na região do pré-sal, extensivo da costa do Espírito Santo até o Paraná, candidatos a se tornarem estados superpotências dentro da Federação brasileira, graças aos royaties que abocanharão, tende a atrair poupança externa em grande quantidade e, consequentemente, fazer oscilar, brabo, a taxa de câmbio.

A moeda nacional forte por conta da imensa riqueza atrativa aos capitais de todos os cantos do globo estimulará as importações e dificultará as exportações. Os brasileiros, graças à garantia concreta dada pelo petróleo, poderiam comprar barato do mundo inteiro com o real forte frente ao desvalorizado dólar, antecipado , possivelmente, por meio de títulos da Petrobrás, avalizados pela nova empresa estatal, Petrosal, ou, quem sae, até mesmo títulos da República, para serem resgatados no futuro. Maná.

Emergiriam os deficits em novas condições objetivas, bancados por riqueza palpável e não por empréstimos externos, como, historicamente, ocorreu, nas fases desenvolvimentistas. A taxa de desemprego, no entanto, poderia subir, porque com importações maiores do que as exportações, a indústria nacional tenderia a entrar em estresse.

O dinheiro do pré-sal, para o futuro ou para o presente, cria novo fato econômico superveniente que tensiona a política cambial e tende a obrigar o Banco Central a mudar a política monetária. “Tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda”(Hegel).

Fechar a torneira de entrada de dólares – candidatos à desvalorização – em profusão, em busca de riquezas reais, pode se transformar na maior motivação econômico-financeira nacional, a partir dessa segunda feira, quando o presidente Lula lança, com toda a pompa, a nova legislação do petróleo.

Com ela, amplia o poder estatal sobre a riqueza nacional, com criação de nova empresa governamental, especialmente, destinada a administra a riqueza a ser extraida e fixar critérios para sua distribuição no contexto federativo. O Congresso, claro, dará a palavra final, em meio às discussões que, na avaliação do Planalto, tenderia a bombar a candidatura Dilma Rousseff.

Mantida a política cambial flutuante como está, poderia ocorrer suicídio econômico. Haveria enchente monetária que resultaria em irresistível pressão inflacionária. O governo teria que lançar continuamente títulos da dívida pública interna para evitar o alagamento. Rolaria, portanto, se a lógica se materializasse, nesse sentido, aumento violento do endividamento interno, cujas consequências seriam elevação dos juros e bloqueio à estratégia de estabilização econômica em meio à crise, com o fito de reduzir o custo do dinheiro, a fim de possibilitar o consumo e a consequente realização da produção, evitando formação de estoques e deflação.

A pressão inflacionária seria tão grande e o apelo ao endividamento idem que poderiam anular a estratégia governamental de criar fundo de investimento com dinheiro do pré-sal, administrado por nova empresa estatal,  para alavancar projeto de desenvolvimento nacional sustentável, amplamente, avalizado pelos investidores internos e externos, configurando o Brasil como o país mais cobiçado do mundo, no ambiente da crise mundial. Ele se transformaria em remédio contra a crise.

Quem não quer ter em seu portfólio ativos em reais. A América do Sul, como destaca o empresário brasiliense, Sebastião Gomes, é a nova rica do mundo. Para ele, o real valerá mais que o dólar, repetindo o que aconteceu com o euro. Este começou desvalorizado em relação à moeda americana, mas, com o tempo, graças ao vigor da economia europeia, sob social democracia distributiva da renda, superou-a.

Se a riqueza real é a garantia disponível em face de um dólar candidato à desvalorização, por que , indaga o empresário, o governo brasileiro não põe preço na sua mercadoria, diante de uma mercadoria com valor muito menor, como é o caso do dólar, afetado, segundo o BIS,  por 600 trilhões de derivo-dólares, que levaram o crédito global ao impasse?

 

Dialética do desenvolvimento e do risco

 

O presidente americano já avisou que quer entrar no negócio do pre-sal, apoiando as multinacionais americanas com os dólares desvalorizados que os Estados Unidos acumulam na grande crise financeira

O positivo e o negativo passam a conviver conflitivamente no contexto da política econômico-monetária-energética nacional , que faz o país vislumbrar nova era desenvolvimentista, mas tendo ao seu encalço, também, o perigo de hiperinflação, se os portos ficarem escancarados, como estão, para receber os dólares, em desvalorização, correndo para o Brasil , a fim de transformar ficção – moeda sem lastro –  em realidade – petróleo, alimentos, matéria primas etc – , comprando os ativos nacionais.

Repete-se, em escala relativa, a euforia que levou à explosão dos petrodólares. Os árabes, sem poder gastar , internamente, a riqueza auferida, começou, nos anos 1970-1980, a comprar imovéis, bancos, indústrias, enfim, todos os valores americanos, até que o Congresso dos Estados Unidos deu um basta, para a entrada dos petrodólares.

Washington faria isso, também, com os nipodólares. O excesso de poupança externa disponível no Japão, no mesmo período, graças às exportações realizadas para os Estados Unidos, fato que ocorreu, também, com a China e os demais países asiáticos, nos anos de 1990-2008, ameaçou a estabilidade do dólar e o patrimônio interno americano. Este poderia mudar de mão. O nacionalismo de Tio Sam entrou em cena, fortemente, para evitar que os dólares  fossem comidos pelos eurodólares, petrodólares e nipodólares.

A reação americana se fez presente em 1979, quando o presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Paul Volker, subiu de 5% para 17% a taxa de juro, prime-rate, americana, em nome do combate à inflação, de modo a salvar o dólar. Os ricos se ajustaram entre si, mas a periferia capitalista, devedora em dólar, se lascou geral, subordinando-se às ordens do Consenso de Washington e às fiscalizações do FMI, em nome dos interesses dos sistema financeiro dos Estados Unidos. A Casa Branca saia em defesa dos bancos, maiores emprestadores aos países devedores da América do Sul, que ficou lascada nessa jogada.

O governo brasileiro faria o mesmo que fez o governo americano, para barrar a enxurrada monetária na economia americana, nos anos de 1980, jogando o prejuízo nas costas da periferia, dominada por lideranças políticas subservientes?

Na ocasião, o governo americano subiu os juros e se endividou, realizando défits, que agora assustam o mundo. O governo brasileiro não teria gás, porque o endividamento interno já se encontra elevado depois de o governo Lula, em nome da estabilização financeira contra a crise, lançar mais dívidas num total próximo dos 150 bilhões de reais. Restaria fechar a torneira e mandar aos ares o câmbio flutuante neoliberal. Esse risco ameaça a festa do pré-sal.

 

Real mais forte que dólar

 

Está ocorrendo desbalanceamento cambial que ameaça o país se não for fechado o cambio para balanço

O real tenderia a valer mais do que as moedas que estão chegando, porque dispõe o Brasil da riqueza real, garantia segura, contra as moedas internacionais, mais importantes, candidatas à desvalorização no cenário da banc arrota financeira global. Faltariam líderes políticos para dar essa palavra de ordem.

O pré-sal e o interesse global que desperta, nesse momento, principalmente, nas multinacionais americanas, que têm garantia do presidente Barack Obama, de jogar dinheiro no negócio, para bombar o capital empresarial norte-americano, estão, antes de nascer, criando esperanças e receios.

Esperanças, porque o governo, depois de distribuidos os resultados com os estados e municípios, disporá de um fundo de investimento, para promover um projeto de desenvolvimento nacional. A economia brasileira se transformaria, nesse embalo, no maior centro de atenção do capital investidor. O país dispõe de base industrial e matérias primas suficientes, que eliminam custos de produção com importações e transporte de insumos.

Petróleo, minérios, alimentação, energia de todas as naturezas e espaço para investimentos amplos em infra-estrutura, são os atrativos intensos dos investidores, que valorizam o real frente ao dólar sobracumulado, afetado pela desconfiança no sentido de continuar sendo o equivalente monetário global por muito tempo. Entra em cena uma inversão dos fatos. Quem teria força para por preço na sua mercadoria, agora, seriam os detentores de matérias primas básicas, fundamentais para a manufatura global, invertendo, dessa forma, como disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a deterioração nas relações de troca. Historicamente, os manufaturados eram faturdos mais caros do que as matérias primas, porque eram cotados em moedas dos países ricos, impondo o poder cambial e sua consequente senhoriagem. Na grande crise, as moedas desabam. As matérias primas, segurança de todos, ganham preços relativos mais altos do que as manufaturas. Os líderes políticas, nesse momento, é que dão as palavras de ordem, não as relações de trocas deterioradas pelo poder dominante.

O capital internacional, que estava bombando na especulação, ao não dispor dessa para continuar promovendo a acumulação especulativa, na moeda, vê o Brasil como o Eldorado tropical da vez. Afinal o capital sobreacumulado na Europa, nos Estados Unidos, no Japão e na China não dispõe, nos países ricos, que estão com suas infra-estruturas prontas, só requerendo manutenção, de espaço para realização de lucro em escala acelerada.

No Brasil e na América do Sul, onde, praticamente, tudo, em matéria de infra-estrutura, está por fazer, ao mesmo tempo que dispõem de matérias primas que valem mais do que as moedas em circulação candidatas à desvalorização, pelo excesso de oferta monetária, o capital vê aquilo que Keynes chamou de “Eficiência marginal do capital”, ou seja, o lucro.

 

Eldorado tropical

 

Roberto Magalhães prevê intranquilidade social , se não houver divisão equitativa da riqueza petrolíferaTodos, portanto, vêem para cá, para o Eldorado tropical, dispostos a jogar suas moedas desvalorizadas em ativos reais candidatos à valorização. A pressão cambial sobre o real passa a ser muito mais forte. Ou o BC  fecha as torneiras ou o alagamento afogará geral.

O pré-sal é, como a realidade, uma dualidade. Tem o lado bom e o lado ruim. O positivo e o negativo. O singular e o plural, o masculino e o feminino, o yin e o yang etc. O bom, repetindo, é a possibilidade de alavancar projeto nacional de desenvolvimento sustentável. O ruim é que os dólares e euros estão chegando antes da obra dar resultado em forma de receita, para alavancar o fundo financeiro e o próprio desenvolvimento, num cenário global de desaquecimento, com possibilidade de reaquecimento lento, sem atender a demanda requerida pelo capital sobreacumulado.

Este requereria mais do que apenas uma reprodução possível nas atividades produtivas. Somente a produção não seria capaz de promover a acumulação na escala necessária exigida pelo capital sobreacumulado. Ele estava sendo reproduzido na ficção especulativa. Sem ela, seria a volta à situação anterior à qual a ficção não existia, ou seja, ao mundo anterior à grande crise de 1929, o do padrão monetário baseado no ouro, o padrão-ouro, relíquia bárbara, segundo Keynes. Seria querer voltar ao útero materno. Só Freud explica.

Certamente, o governo Lula tentará antecipar dinheiro, para fechar as contas e montar o fundo de investimento. Mas, tudo isso corre lentamente em relação à velocidade das tranferências de capitais., movimentadas ao toque de botões eletrônicos na era da ciência da informação. Enquanto um, o fundo,  vai de passo de cágado, o outro, a transferência de grana especulativa, vai de asas de águia.

Dornelles é contra a partilha, mas, pela concessão, contestando orientação estatal de ampliar poder sobre o negocio mais cobiçado do momentoO governo brasileiro alavanca com o petróleo fatores antagônicos, dialéticos, a afirmação e a negação, que se interconectarão, para dinamizar a produção e o consumo.

Abre-se uma página em branco, para ser escrita pela sociedade. No Congresso, o desejo dos estados produtores, que querem ficar com a parte do leão dos royalties e participações especiais, pode não acontecer.

São 27 estados, dos quais sete(Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catariana e Paraná) seriam os beneficiários privilegiados a ganharem mais em comparação aos 20 restantes, por serem estados produtores.

Os sete já combinaram com os 20, os russos, no Legislativo?

O discurso do deputado Roberto Magalhães, na terça, 25, foi de ameaça. Se não houver equanimidade na distribuição da riqueza do petróleo, em termos federativos, não haverá paz social.

Guerra separatista interna pela distribuição da riqueza trilhonária?

Suplicy dará cartão vermelho a quem discordar da orientação nacionalista do Planalto ou vai alinhar-se a José Serra no cenário do petróleo e dos governadores dos estados produtores?Magalhães lembrou que os cariocas teriam mais sabedoria dos que seus ambiciosos líderes. O senador Francisco Dornelles(PPS-RJ), diplomático, elogiou Lula pelas medidas econômicas de estabilização, mas lembrou que, na área do pré-sal, o buraco é mais embaixo.

O senador carioca não quer mudança no regime de concessão para o regime de partilha, que fortalece o poder estatal, e não abre mão de que o RJ continue abocanhando os royalties e participações especiais. Já o senador Eduardo Suplicy(PT-SP) saiu em defesa de uma democratização da distribuição dos recursos, para beneficiar todos os estados, numa negociação ampla.

Ou seja, Suplicy desalinhou-se do governador José Serra, que juntou-se aos governadores Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro, e Paulo Hartung, do Espírito Santo, para fecharem em favor dos interesses dos seus estados. Suplicy iria em favor dos 27 estados usufrutuários da riqueza petrolífera em termos equânimes, em detrimento da posição paulista, para contrariar os paulistanos?

Não foi isso que aconteceu com o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, que, entre os interesses nacionais equitativos, preferiu optar pelo interesse do Rio, seu estado, juntando-se ao governador Cabral, que denominou de carnavalização petrolífera nacionalista a intenção lulista de dividir a riqueza do petróleo em igualdade de condições entre todos os estados, em prejuízo dos estados produtores.

carlos-mincPinta, como destaca Sebastião Gomes,  a fábula da “Espiga dourada”. O dono dos portos joga um caroço de milho no chiqueiro e os gordões se matam uns aos outros, mas não comem o alimento, tamanha  cobiça e a ambição de cada um querer tudo para si.

O pau, portanto, começa a quebrar, no Congresso, deixando de lado a questão ética, jogando a favor dos interesses dos que são ameaçados de cassações por decoro, porque um interesse maior se alevanta.

TV Câmara põe distribuição da renda nacional na sucessão presidencial

Temer marcou importante tento político ao transformar o plenário e as galerias cheias de empresários, trabalhadores e parlamentares para discutirem a redução da jornada de trabalho, dando inicio à valorização do Legislativo por meio da tevê câmara

Foi um belo espetáculo democrático muito pouco valorizado pela grande mídia que não gosta de ouvir falar em distribuição da renda nacional para não ferir os interesses dos seus anunciantes poderosos que vivem da sobreacumulação de capital. De um lado, os empresários; de outro, os trabalhadores debateram, abertamente, o projeto de lei que reduz a jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais. O presidente da Câmara, deputado Michel Temer(PMDB-SP) marcou tento político significativo em comparação ao deboche em que virou o Senado sob presidência do senador José Sarney, ao transformar o plenário em palco do grande debate sobre a distribuição da renda que enfim sintetiza a proposta do projeto de lei. Os apupos ocorreram de lado a lado e os excessos foram democraticamente contidos pelo senso de humor fino de Temer que parece fazer papel de esfinge.

Para quem está acostumado a ver o ambiente parlamentar nos últimos tempos em que a ausência de participação social tornou-se a tônica, no Legislativo, dominado pela governabilidade eternamente provisória,  o que ocorreu, na terça feira, 25,  pode ser considerado um renascimento do debate parlamentar público com a novidade transformadora de ser ao vivo para todo  Brasil, via TV Câmara. A moda, certamente, vai pegar. Não poderia ser mais apropriada a iniciativa política do deputado paulista, cotado para ser candidato a vice-presidente de Dilma Rousseff, se houver acordo político.

O Congresso, que está rendido à governabilidade à base de medidas provisórias, cuja essência prescinde da participação popular, conferindo ao Legislativo adjetivo de casa sem sabor de povo, recebeu uma lufada forte de vento democrático, com plenário e galerias da Cãmara cheias para mostrar a novidade política, que pode marcar o novo cenário. O circo romano político-simbólico televisado pode sinalizar tendência nas sessões no Legislativo brasileiro, caso sejam repetidas as cenas e debates polêmicos polarizados desencadeados por Michel Temer  como fato político mais relevante do ano. Certamente, Sarney, presidindo Senado, sob galerias e plenário lotados, para audiência popular, poderia, no calor das acusações de que é alvo, sofrer apupos insuportáveis.

O antagonismo capital-trabalho veio ao ar com toda a energia e colocou o assunto na pauta do Congresso como condição para a sua propria afirmação popular, sob perigo de desmoralizar-se, se não houver procedimento compatível com o anseio popular por total abertura e transparência.

Marcou a sessão a emergência de força política que coloca em xeque a forma de governar da Nova República, pautada pelas MPs, como foram pautados os governos militares pelos decreto-leis ditatoriais. O jogo micheltemeriano é de alta voltagem política , se for levado adiante, como estratégia de inserção do Legislativo no ambiente popular, tendo como porta estandarte a TV Câmara. O canal público colocou no ar a novidade política que tende a ganhar platéria:  a disputa pela renda nacional por meio de sessão concressual televisionada. A distribuição da renda entra, assim, na campanha eleitoral.

 

Beneficiários do trabalho não pago

 

os beneficiários do trabalho não pago como reprodução da renda do capital querem impedir a redução da jornada de trabalho que significa aumento da renda do trabalho disponível para o consumo

Os empresários brasileiros, capitaneados pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria(CNI), deputado Armando Monteiro Neto(PTB-PE), abriram suas baterias contra a redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais, da mesma forma que estão berrando, também, contra a redução da sua influência nos destinos do BNDES, que passou a exercitar ação financeira tanto para a promoção do econômico como do social, quando, antes, cuidava, tão somente, do econômico, enquanto o social era decoração.

Na prática, a redução de quatro horas representa ganho do trabalhador que passa a valorizar mais seu salário por hora trabalhada. Se , antes, ele gastava 44 horas para produzir x, gastará 40 para produzir o mesmo x. Toma consciência de que as quatro horas a mais que trabalhava significavam trabalho não pago.

 A teoria do valor trabalho, embora os neoliberais tentem desacreditá-la, é a principal conquista alcançada pelos trabalhadores inglêses, no século 18, como destaca Adam Smith. Por ela, a força de trabalho é medida e remunerada e a sua venda é executada de forma calculada, de modo que o valor correspondente ao salário seja sempre menor do que o valor correspondente à mercadoria que o trabalho produz. O gap – distância entre o valor-salário, menor, e o valor-mercadoria, maior – é o trabalho não pago, que Smith – e não Marx – , chamou de mais valia.

A renda da terra, o lucro do capital , os juros compostos sobre o capital sobreacumulado etc  não seriam, pela lei do valor, desenvolvida por Ricardo e abraçada pelos trabalhadores inglêses como grande conquista, nada mais, nada menos que trabalho não pago. O tempo de trabalho executado pela força de trabalho que gera trabalho não pago, mais valia,  torna-se operação simples que, simplesmente, faz a cabeça do trabalhador.

Dessa forma, a luta dos trabalhadores ingleses, que ditaram as coordenadas para os trabalhadores dos demais países capitalistas europeus, no século 19, e aos dos países da periferia capitalista, no século 20, seguiu sempre a palavra de ordem de redução da jornada de trabalho como forma de aumento de salário e redução de lucros e de sustentação da produção.

Os trabalhadores sabiam , perfeitamente, que o que produziam em 14 horas de trabalho diárias poderiam produzir em 12 e o que produziam em 12 poderiam produzir em 8 e o que produzem em 8 poderiam produzir em 4, no compasso da elevação da produtividade, sem redução da produção. Pelo contrário. Se produzem em 4 o que produziriam em 14 horas, passam a ganhar o correspondente a 10 horas de trabalho que não eram remuneradas, enquanto os empresários perderiam as mesmas 10 horas em forma de lucro não absorvido.

Tal consciência laboral , evidentemente, sinaliza ao empresário que ele ganhará menos por dispor de menos trabalho não pago como lucro, na medida em que haja a redução da jornada. Jornada longa, lucros máximos acumulados; jornalda curta, lucros máximos melhor distribuidos.

 

Conflito capital-trabalho aprofunda 

 

deputado paulo pereira da silva, paulinho da força, sabe que o trabalho não pago reverte em trabalho pago quando a jornada de trabalho é reduzida, o que eleva a taxa de consumo mediante renda a mais disponível para tanto

A redução do trabalho não pago, que se transforma em trabalho pago, na medida em que a jornada de trabalho, em meio ao desenvolvimento científico e tecnológico colocada a serviço da produção avança, cria novo ambiente político no cenário capitalista nacional. Coloca em cena a disputa entre trabalho e capital pela renda nacional que o Estado, via governo democrático, é chamado a arbitrar, no Congresso.

Altera, substancialmente, nesse novo contexto as forças políticas ligadas à produção e ao consumo em busca dos recursos para a sua afirmação. O desenvolvimento das forças produtivas no Brasil desde o início da industrialização na Era Vargas se deu pelo privilégio concedido aos investimentos em nome da ideologia desenvolvimentista. Para esta, o investimento gera consumo correspondente. Historicamente, ocorreu a concentração da renda na produção , enquanto o consumo, por não ser prioritário, para o investidor, que se interessa, sim, pelo lucro, saiu, amplamente, prejudicado.

A tendência subconsumista tornou-se a regra geral no capitalismo da periferia capitalista, como se verifica, no Brasil, onde, ainda , hoje, 31 por cento da população se encontram excluídos do modelo de desenvolvimento econômico concentrador de renda e poupador de mão de obra. Os prejuízos decorrentes do subconsumismo, expressos em formação de estoques, que sinalizam deflação, sempre levaram os empresários, ou seja, os investidores a buscarem a saída na repetição do mesmo discurso, o de que a solução significa mais investimento, para puxar, correspondentemente, o consumo. Como isso é , apenas, discurso, o resultado foi a necessidade de desvalorizações da moeda nacional, para impulsionar as exportações, de modo a desovar estoques.

Toda a poupança interna disponível nos bancos oficiais foram carreadas para atender o discurso da produção como prioridade do capital. A história do BNDES é a comprovação da tese. Inicialmente, era BNDE. O S , de Social, veio depois, mas para fazer, somente, figuração.

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico(BNDE) era sinônimo da prioridade concedida ao investidor sob amparo da ideologia desenvolvimentista subordinada à poupança externa. O BNDES nasceria depois, mas a predominância do S do BNDES continuou sendo colocado em segundo plano porque as forças políticas dentro do banco, para direcionar seus recursos eram majoritariamente alinhadas aos interesses do E, de econômico.

No contexto do BNDES, a recente disputa entre o E, de Econômico, capitaneado pelos empresários da indústria, do comércio, dos serviços e dos bancos, com o S , de Social, coordenado pelo Ministro do Trabalho,  Carlos Lupi, do PDT,  representante, ao lado das centrais sindicais laborais,  do trabalhismo-varguismo-brizolismo-petismo,  iniciou virada parcial do jogo, ao fazer preponderar dentro do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo do Trabalhador(Codefat) o ponto de vista do trabalho, para direcionar recursos do BNDES. Busca-se a equidade na relação entre os investimentos destinados ao social e aos à produção.

A redução da jornada de trabalho, como destaca o deputado trabalhista do PDT, Paulo Pereira da Silva, de São Paulo, denota mudança de conceito dos investimentos no sentido de fazer valer o princípio de que sem fortalecimento do consumo, do social, não será possível sair da crise de subconsumismo de que o capitalismo brasileiro padece, caso mantida prioridade aos investimentos , apenas, à produção, que não geram consumo correspondente. 

 

Arma da concentração da renda

 

ricardo, seguindo os passos de Adam Smith , teorizou a lei do valor trabalho que fez os trabalhadores ingleses visualizarem o trabalho não pago que se expressa na extensão máxima da jornada de trabalho como arma da acumulação da renda capitalista

A predominância histórica do ponto de vista da produção, apegado à Lei de Say, segundo a qual toda oferta gera demanda correspondente, começou a balançar sob os holofotes da TV Cãmara. Ao ser colocado tal ponto de vista em debate popular no plenário da Câmara pelo deputado Michel Temer, para ser confrontado com o ponto de vista oposto pelos trabalhadores, cria-se ambiente político cujo desfecho, em meio à sucessão presidencial em marcha, é incognita. Contudo, demonstra que o Legislativo se abriu para a polêmica em relação aos antagonismos sociais que estavam encobertos pela governabilidade provisória.

O debate essencial é esse: os investimentos dinamizam? Sim, sem dúvida. Mas, geram demanda correspondente? As sucessivas crises de realização do capital, expressas em desestruturações da produção, que deixa de se realizar no consumo , demonstram ao longo dos séculos 19 e 20, justamente, o oposto.

Não há correspondência entre o investimento, solução empresarial para as crises, e o consumo correspondente, simplesmente, porque a relação capital-trabalho,  resultando num montante de trabalho não pago, significa, dialeticamente, insuficiência de consumo. O capitalismo, como destaca Marx, sofre, desde o seu nascimento, de crônica insuficiência relativa de demanda global.

O fato novo, agora, na grande crise global, é que o processo econômico em bancarrota , na periferia capitalista, desperta reações políticas voltadas à busca de melhor condução, pelo Estado, da economia, como árbitro das classes sociais antagônicas na luta pela apropriação da renda nacional.

Os governos, que sempre socorreram os investidores, aliando-se a sua ideologia desenvolvimentista, chegaram a um ponto de saturação, no sentido de que, assim como o investimento não gera consumo correspondente, as políticas fiscais para salvar os desenvolvimentistas, via desonerações fiscais, igualmente, não geram arrecadações tributárias suficientes.

Como os governos, para se sustentarem, sob democracia, precisam investir em serviços públicos, e estes dependem de arrecadação, a opção governamental tende a ser favorável a quem proporciona maior benefício relativo aos cofres públicos, no processo em que, graças às crises  do capital sobreacumulado, a produção, em meio à crônica insuficiência relativa de demanda global característica do capitalismo, deixa de se realizar no consumo.

Por isso, fortalecer o consumo, via incentivo estatal, passou a ser , para os governos, mais negócio do que bombar a produção, que não gera consumo correspondente e, consequentemente, arrecadação suficiente.

Essa lógica leva o governo a optar pela redução da jornada de trabalho  porque ela sendo , para o trabalhar, recuperação do trabalho não pago, representa, também, renda disponível para o consumo, que se expressa em maior arrecadação. O processo histórico trabalha contra o ponto de vista da sobreacumulação que domina a mente empresarial conservadora brasileira, na etapa histórica atual.

Ataque fascista da Isto É a Beto Almeida

O jornalista nacionalista que coloca em discussão a soberania nacional fere interesses poderosos que tentam manter sua influência abalada pela grande crise mundial que detonou a reputação da moeda dominante, cujo valor cai em relação ao poder potencial sul-americano, necessário seja valorizado

Os presidentes sul-americanos, que, nos últimos dez anos, encetaram o discurso do fortalecimento do consumo interno em seus países, como alternativa nacionalista , para dinamizar a economia,  e se fortalecerem, como detentores de matérias primas indispensáveis à manufatura global, como  petróleo, minérios e alimentos em fartura, passaram a sofrer duras críticas dos governantes do primeiro mundo.

Na periferia capitalista, predomina, historicamente, o discurso promotor do investimento prioritário na produção e não no consumo, porque as elites a serviço do capital tentam fazer valer a tese de que o investimento gera demanda correspondente, como diz o jornal O Estado de São Paulo , em seu editorial , na terça 25, intitulado “O governo traiu lorde Keynes”.

São adeptos de Jean Baptiste Say, pai do neoliberalismo, que a história enterrou. Marx deu uma gozada na tese de Say de que toda oferta(investimento) gera demanda(consumo) correspondente, destacando que ele teria razão, se as mercadorias que os empresários levam ao mercado fossem vendidas sem lucro. Como  o lucro é a prioridade e não o consumo, o sistema, ao caminhar para a sobreacumulação de capital, como algo intrínseco a  sua natureza, produz crônica insuficiencia relativa de demanda global, como demonstrou, cabalmente, Marx. O assunto dá panos para manga, mas é , fundamentalmente, o fulcro da questão sul-americana, no momento histórico.

O equilibrismo fracassado de jean baptiste say ainda faz a cabeça da grande mídia alienada em seu discurso que confunde na tentativa de explicar o inexplicávelOs governos nacionalistas pregam, agora, mais prioridade ao consumo do que à produção e isso desloca interesses poderosos. Antes, os governos, em mãos das elites conservadoras, priorizavam a produção, dando incentivos e aliviando impostos, em nome da ideologia do investimento cujo incremento geraria consumo correspondente. Não gera nunca. Resultado: crises de subconsumo que levam os governos a redobrarem aposta nas elites que comandam a cena política enquanto as desonerações fiscias enriquecem os privilegiados nos paraísos fiscais.

A crise está demonstrando, principalmente, para os governantes do sudeste asiático, que penam com excesso de estoques de bens duráveis, que o negócio não é apostar na produção, porque já há capacidade instalada em excesso, mas no consumo. Quanto mais consumo, mais arrecadação. Quanto mais desoneração fiscal, menos arrecadação. Os governos democráticos caem ao deixarem de cumprir com suas obrigações em ofertar serviços públicos dignos à sociedade, algo somente possível mediante arrecadações crescentes. Tem que dar consumo para ter imposto. Eis a nova lógica capitalista na grande crise.

O Japão, por exemplo, está tendo recuperação das atividades mais rapidamente do que a Europa e os Estados Unidos, em termos relativos, porque o governo passou a distribuir dinheiro para o consumo popular de bens duráveis. Repete, filosoficamente, o bolsa família lulista, cuja função econômica salva as indútrias, embora os editorias da grande mídia tenham dificuldades em perceber a lógida do dar para arrecadar. Dá dinheiro para ganhar imposto. Tal jogada dos governos, de privilegiar o consumo, subsidiando, em vez de favorecer a produção, igualmente, subsidiando-a, incomoda, profundamente, as elites políticas e empresariais. Temem perder a teta estatal histórica.

Os governantes nacionalistas da América do Sul, ao engajarem na promoção do consumo, que significa aumentar a renda interna, melhor distribuindo-a, para dinamizar as atividades produtivas, movimentam forças sociais que incomodam o conservadorismo histórico das elites políticas sanguessugas do dinheiro público na América do Sul.

Marx demonstrou em sua grande reportagem sobre os agricultores alemães que a concentração de capital é o motor do capitalismo que gera, consequentemente, crônica insuficiencia de consumo que impede a realização da produção no consumo , de modo a sustentar equilibradamente o sistema essencialmente concentrador e socialmente excludenteFundamentalmente, a grande mídia sul-americana, de direita, conservadora, resiste a esse movimento democrático de mudanças em marcha, impulsionado pelas massas sociais em crescente agregação, embaladas por palavras de ordens que pregam distribuição da renda nacional e apossamento das riquezas sul-americanas, altamente, disputadas, porque estão sendo valorizadas em relação ao dólar, que se desvaloriza.

Os governos sul-americanos estão percebendo que farão mais negócio apoiando o consumo das massas do que os privilégios das minorias que comandam a produção, mediante desonerações fiscais que diminuem em vez de aumentarem as arrecadações tributárias. O jogo da concentração de renda nas elites deixou de ser útil aos governos, porque reduz os ingressos tributários de que necessitam para se sustentarem no poder por meio da oferta de serviços públicos e investimentos. Produção é consumo, consumo é produção(Marx). Sem consumo, não há arrecadação. Só incrementar a produção, como se ela puxasse consumo correspondente, como acredita, ingenuamente, o editorial do Estadão, não assegura acumulação capitalista, principalmente, depois que estourou a válvula acumuladora da especulação.

Engajar nessas forças de mudanças é pecato mortal para a grande mídia. O jornalista Beto Almeida, que é um desses engajados, animando o mais nacionalista dos programas televisivos do Brasil, na atualidade, o BRASIL-NAÇÃO, que vai ao ar aos domingos na tevê pública paranaense, no governo nacionalista de Roberto Requião(PMDB-PA), virou demônio para a grande mídia.

Por meio dos debates que Beto promove são questionados os valores tradicionais que ainda impedem que 31% da população saiam da miséria e se afirmem como seres humanos dignos e educados. Por identificar-se com as idéias sul-americanistas que ganham corações e mentes no compasso dos movimentos sociais, Beto está sendo taxado pela Isto É de chavista, lobista de Chavez, que o convidou, como jornalista, para participar do esforço midiático sul-americano de divulgação das idéias sul-americanas pela primeira vez na História da América do Sul.

 

Força que incomoda

 

 

A grande mídia , dependente do capital externo, trabalha o tempo todo para impedir o mandamento constitucional brasileiro que prega a integração econõmica, política e cultural latino-americana e considera terrorista quem trabalha por essa causa

O desejo nacional de crescer com independência, favorecido pela força das suas riquezas potenciais, é visto pelos que eternamente exploraram econômica e financeiramente a América Latrina, como algo perigoso. Orientar a população para tomar conta do seu próprio terreiro, da sua riqueza, a fim de colocar preço nela, em vez de tal preço ser colocado por jogo cambial determinado de fora para dentro, representa, para os governantes ricos, terrorismo político. O sul-americanismo  que Beto Almeida abraça, no programa BRASIL-NAÇÃO, divulgado pela TV Comunitária, é puro terrorismo, para o dedodurismo da Isto É.

A grande crise mundial está colocando ponto final na estratégia de dominação externa por meio dos financiamentos em moeda que deu as cartas no cenário monetário e cambial global, mas que, agora, afetada pelos deficits, perde credibilidade, a partir das desconfianças levantadas pelos próprios mercados nos quais a circulação dela como equivalente geral das trocas mundiais é questionada em sua continuidade, graças à insistente desvalorização, como é o caso do dólar americano. Alertar contra esse perigo , como faz o economista Adriano Benayon, em entrevista a Beto Almeida, é chavismo, é terrorismo.

FHC, que domina a dialética marxista, percebeu a virada da história antes da grande crise em reunião em brasilia com os tucanos que alertou para a inversão da deterioração dos termos nas relações de troca globaisA moeda americana se mostra frágil, na grande bancarrota financeira global, assim  como fragilizou, também, a libra esterlina inglesa, depois da primeira guerra mundial, deixando de ser o equivalente, da segunda grande guerra em diante. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em reunião do diretório nacional do PSDB, destacou que ocorre, na crise atual, uma inversão na deteriração dos termos de trocas globais.

As moedas dominantes, o dólar e o euro, disse, passam, com o perigo deflacionário, a valer relativamente menos que as mercadorias básicas, que valorizam mais que as manufaturas, candidatas a sofrerem redução de valor no cenário da deflação global. Inverte a história: nos anos de 1950, no desenvolvimentismo, as manufaturas impunham, graças ao preço ditado pelo câmbio da moeda dominante, deterioração nos termos de troca relativamente às matérias primas básicas. Na crise deflacinária global deixam de impor. Debater esse grande assunto para os que reinaram sob o dólar tatibitate é terrorismo. 

No ambiente deflacionário, como disse Marx, valor e preço se tornam proporcionais quando a taxa de lucro vai a zero, caso atual. A moeda sem garantia real perde valor relativamente às matérias primas que são garantias reais, cujos preços sobem. O real brasileiro, como disse o economista José Mendonça de Barros, à repórter Miriam Leitão, na GloboNews, virou atrativo para os portfólios internacionais. Reafirmar, politicamente, essa riqueza, mediante posição nacionalista, é terrorismo , e quem debate o assunto, como Beto Almeida, é terrorista, é chavista, precisa ser eliminado por meio da tentativa caricaturesca. Fascismo.

O aumento da produtividade capitalista sem limite diminui o preço relativo das manufaturas enquanto aumentou o preço relativo das matérias primas básicas. Essa é a nova realidade que incomoda as elites por causa de governos que tentam mudar os rumos da economia, a fim de sintoniza-la com as forças reais e as riquezas reais e não com as forças do atraso e as riquezas fictícias, que a grande crise expõe, cruamente.

A força da América do Sul é vista pelo capital externo, que não dispõe de oportunidade de investimentos nos países ricos, onde estava acumulando especulativamente,  com grande sofreguidão e cobiça. O pré-sal brasileiro ouriça geral os investidores em busca de excelentes negócios. Os governantes sul-americanos, por isso,  como o de Lula, buscam valorizar, do ponto de vista nacionalista,  sua riqueza. Esta, indubitavelmente, ganhou dimensão relativa maior do que a riqueza monetária. A sociedade merece saber disso ou não? Pela grande mídia, claro, não. Pela mídia nacionalista, evidentemente, é o prato do dia, o horror dos conservadores, que querem destruir Beto Almeida, à moda fascista.

Os fascistas têm medo da verdade. O déficit americano, que poderá até final do ano, alcançar 10 trilhões de dólares, sinaliza aos  consultores que não é bom negócio ficar com as verdinhas. Alertar para isso é terrorismo midiático. Por isso, Hugo Chavez, presidente da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, Rafael Correia, do Equador, etc, quando buscam valorizar suas mercadorias são terroristas populistas anti-democráticos. Lula, fortalecido pelo real, se acreditar que a moeda nacional vale mais que o dólar, viria, igualmente, terrorista.

Quem, como os governantes nacionalistas sul-americanos, defendem e valorizam suas  riquezas, no sentido de colocar melhores preços nelas em forma de organização política, que submete o poder monetário especulativo a regras mais restritas sob economia política, é, duramente, atacado. Como atacados, igualmente, são os jornalistas nacionalistas que se alinham com o pensamento sul-americano, favorável à valorização das mercadorias sul-americanas, como é caso de Beto Almeida.

A América do Sul é a nova rica do mundo e os repórteres nacionalistas, como Beto Almeida, que comandam, nas tevês públicas sul-americanas, programas que debatem propostas nacionalistas e sulamericanistas, viram alvo prioritário no conservadorismo midiático.

Glauber foi sacrificado pela grande mídia porque defendeu o nacionalismo de Geisel contra os direitos humanos de Carter, destacando ser a luta política essencialmente uma luta ideológicaA lula política, como disse Glauber Rocha, é  luta ideológica. O sulamericanismo, que se fortalece com a consciência política dos governantes sul-americanos, voltados a dar consistência política a Unasul – União dos Países Sul-Americanos – , pela pregação favorável à moeda sul-americana, ao  banco  sul-americano, ao parlamento sul-americano, à segurança sul-americana , ao tribunal sul-americano etc, é considerado , aleatoriamente, chavismo perigoso.

A mídia está com saudade do Consenso de Washington, que passou a ditar as ordens na América do Sul aos governos e a ela, grande mídia, a partir da década de 1980. Para salvar o dólar, afetado pelos deficits americanos, contraídos nos gastos com a guerra fria,  Tio Sam elevou os juros e quebrou a periferia capitalista. Com ela, quebrou, também, a mídia. que, desde, então, depende dos governos que não querem debater a questão nacional do ponto de vista social, mas, apenas, econômico.

Subordinados ao receituário econômico cuja prioridade principal ditada do credor para o devedor era pagar juros mediante formação de crescentes superavits primários, os governos neoliberais , por meio da grande mídia, exercitaram a ditadura do pensamento único neoliberal, mecanicista-positivista-equilibrista-esquizofrênico. Priorizaram o econômico e esqueceram o social, como se não fossem dialéticas as relações entre ambos.

 Quem, como os governantes nacionalistas, fogem desse receituário, como são os casos nacionalistas sul-americanos do momento, transformam-se aos olhos dos governantes ricos, que estão falidos, em agentes do mal. Saddam Husseim começou a cair quando quis cotar o petróleo em euro porque cotado em dólar dava prejuízo aos iraquianos, em forma de inflação. Importavam mercadorias cotadas na moeda européia com pagamento em dólar desvalorizado. Virou demônio.

Agora, quem anima as discussões sobre a criação do Banco do Sul, da moeda sul-americana, da segurança sul-americana, de modo a colocar preço valorizado nas mercadorias sul-americanas, sem submeter-se ao jogo cambial que impõe deterioração nos termos de troca, são, simplesmente, anti-democráticos, demônios perigosos. Por trabalhar com o ponto de vista sulamericanista, Beto Almeida, no comando do programa nacionalista BRASIL-NAÇÃO, virou tiro ao alvo dos fascista.

 

Caricaturização racista

 

A materia é puro dedurismo como se fosse pecado mortal um jornalista ser convidado para trabalhar suas ideias nacionistas por um presidente da República. E para trabalhar para o entreguismo nacional característico da grande mídia?

A matéria de Claudio Dantas Sequeira, na Isto é, intitulada “O lobista de Chávez”, destinada a destruir a reputação jornalística de Beto Almeida,  sugere conveniências subliminares. O negócio é disseminar na grande mídia sul-americana, eminentemente, conservadora, resistente às mudanças, amigas dos golpes de estado fascistas, como ocorre, no momento , em Honduras, que o pensamento sul-americano chavista é um mal terrorista a ser eliminado.

Não se discute a essência da proposta política que prega a mudança na correlação de forças políticas, virando o jogo das lideranças conservadoras, em favor das mudanças renovadoras.

Os movimentos sociais, que, na década de 1970,  Guevara previu seriam os instrumentos políticos a empurrarem governos sul-americanos a mudanças qualitativas e quantitavias, estão aí, demonstrando o movimento da história, da negatividade produzida pelo investimento que não produz consumo democrático, por isso, precisa estar sempre  socorrido pelos bancos oficiais, a teta estatal.

As elites têm medo das mudanças. Os pregadores das mudanças não são discutidos em seu conteúdo essencial, mas por meio da caricaturização racista da direita em relação ao biotipo sul-americano, mistura de negro, índio, branco, cafuzo, cabelo duro etc, que é, de fato, o que está rolando relativamente ao presidente Hugo Chavez, da Venezuela, Evo Morales, na Bolívia, Rafael Correia, no Equador, Cristina Kirchner, na Argentina etc. São os cucarachos, como se ouve nos bastidores racistas.

Como o discurso nacionalista chavista identifica opções políticas sul-americananas disseminadas, historicamente, em categorias sociais influentes em todos os países do continente, levantá-lo, como bandeira, passa a ser taxado de caricato.

getuliovargas foi atacado pela grande mídia brasileira como chavez é atacado pela grande mídia sulamericana, pelo mesmo motivo, defesa dos interesses nacionaisClaudio Dantas Sequeira não diz que Beto Almeida coloca em  cena o histórico sulamericanismo, mas o  chavismo, como se o chavismo fose o todo e não apenas parte do sulamericanismo em marcha. Sequeira, se tivesse estudado história, contextualizaria sua matéria dizendo que as idéias chavistas, evomoralistas, rafaelcorreistas, kirchenistas-peronistas, foram antecedidas, no Brasil, por Getúlio Vargas, nos anos de 1930. Com elas, Vargas e sua geração construiram o pensamento nacional, que levou a economia brasileira a ganhar maioridade no cenário global, preparando-se para ganhar predominância relativa no século 21.

A esquerda fascista brasileira matou Glauber Rocha porque ele defendeu o nacionalismo de Geisel, em 1976, contra o pacifismo de Jimmy Carter, presidente dos Estados Unidos. Geisel havia rompido o acordo militar com os norte-americanos e feito a opção pela tecnologia nuclear  alemã. Os americanos ficaram putos dentro das calças. Carter , que posava de pregador dos direitos humanos, mereceu da esquerda reverência, enquanto Geisel foi condenado em seu nacionalismo, como Chavez está sendo condenado pelas idéias nacionalistas-sulamericanistas que está propagando pela Telesur, a primeira tevê realmente sulamericana. Deu um show de cobertura no golpe terrorista em Honduras, contra o qual a grande mídia , praticamente, calou.

Num plano mais largo, o movimento político em marcha, na América do Sul, ancorado no avanço dos movimentos sociais, que tanto apavoram a grande mídia, guarda relação com a teorização política marxista-evolucionista-sulamericanista  de José Carlos Mariategui, peruano genial, que, nos anos de 1930, escreveu “Sete Ensaios da Realidade Peruana”, um clássico da economia política, tipo Caio Prado Junior, autor de “Formação do Brasil Contemporâneo”.

O espírito socialista indigenista estaria na base do pensamento mariateguiano, que evolui, em meio às contradições do capital, para buscar uma síntese política no socialismo sul-americano integracionista-continental.

geisel foi demon izado pela esquerda por ter adotado posição nacionalita de decidir soberanamente que tecnologia o país queria comprar para instalar equipamentos nucleares em territorio nacional, à revelia de Tio SamEssa evolução histórica causa pavor nos conservadores. Sendo jornalista, que não adota a falsidade midiática da neutralidade, Beto Almeida, em seu programa de difusão do debate nacional engajado, pregador do apossamento das riquezas nacionais pelo povo brasileiro, por meio do Congresso Nacional, não pode passar incólume sem ser caricaturizado por quem está rendido ao pensamento conservador mecanicista do jornalismo da Isto É, atado à subserviência do ponto de vista do capital financeiro, que, na crise atual, faliu.

Resta alardear, dedurar, ao lado da tentativa de caricaturização, para evitar que o debate sulamericanista ganhe as consciências para atuarem na grande mudança política.