Deficit segura desemprego, populariza Lula e inferniza oposição na sucessão presidencial

Na Argentina, o pau está quebrando nas ruas, com as massas desempregadas exigindo mais participação do dinheiro estatal na produção e no consumo, para ev itar bancarrota geral

Os números do desemprego, divulgados pelo IBGE, sinalizando estabilização e ligeira queda, em decorrência das medidas anticíclicas adotadas pelo governo, cujos resultados práticos são deficits crescentes,  para evitar bancarrota geral do setor privado, no colapso global, ajudam a bombar a popularidade do presidente Lula. Consequentemente, tenderiam a favorecer, também, a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, a preferida do titular do Planalto para sucedê-lo, se ela desenvolver suficiente empatia com eleitores e eleitoras.

Se estivesse ocorrendo o contrário, ou seja, se a taxa de desemprego, nas sete regiões metropolitanas, registrasse, em vez de redução dos 15,3% em maio para os 14,3% em junho, aumento dos desempregados, com a taxa expandindo, por exemplo, para 20%, o clima político no país estaria mais quente, bem mais agitado.

No lugar de estar com a popularidade beirando os 90%, como têm atestado os institutos de pesquisa, o presidente  poderia estar com ela na casa dos 40%, acossado pelos desempregados, como acontece com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que perde prestígio de forma ascendente, no plano interno, por conta do avanço dos demitidos.

Tudo estaria pior no meio da bagunça política, com a desmoralização total do Legislativo e das lideranças que perderam toda credibilidade. Tal desarticulação de um dos poderes da República, poderia, em meio ao desemprego, gerar motivações revolucionárias bolivarianas, para aprovar legislação trabalhista protecionista.

Pintaria, com grandes chances, movimentação em favor do plebiscito por democracia direta, participativa, rompendo com o jogo democrativo meramente representativo, dominado por lideranças corrompidas.

Lula joga todas as suas fichas no deficit para continuar tentando estabilizar a taxa de desemprego e diminui-la, para não ter que enfrentar as pressões dos desempregados que já começam a acontecer nos Estados Unidos e EuropaA crise do Senado, em contexto de desemprego asc endente e não relativamente cadente, embora no Brasil a situação esteja melhor do que nos países desenvolvidos, financeiramente em bancarrota, poderia se transformar em estopim para radicais acenderem o fósforo.

A política anticíclica anti-deflacionista, inflacionária, expressa no aumento crescente do endividamento governamental, para salvar as empresas, enquanto concede a elas desoração fiscal, de modo a manter relativamente constante sua taxa de lucro, representa o principal sustentáculo do país contra a crise.

Lula está com pé no acelerador. Prega outro PAC, para início do próximo ano e destaca que depois de conceder subsídios à produção, fará o mesmo relativamente ao consumo.

Adiantou que é  melhor colocar dinheiro no bolso do contribuinte consumidor do que no das empresas. Com dinheiro , o consumidor vai lojas e consequentemente ajuda a aumentar a arrecadação, com a qual se faz dinheiro para incrementar investimentos públicos etc.

O aumento dos recursos para o Bolsa Família, no segundo semestre, igualmente, é bombeamento estatal para sustentar a demanda efetiva, jogando mais dinheiro no bolso do pobre, como se faze relativamente ao rico, via desoneração. Se a Bolsa Família, para os miseráveis, de um lado; há o Bolsa-IPI, para os industriais, de outro. O conceito é o mesmo. Deficit e mais deficit contra a desaceleração.

O deficit público, o aumento da quantidade de oferta de dinheiro estatal na economia, mobilizando a produção e o consumo, fazendo o papel que o setor privado, sozinho, não teria condições de fazer, no cenário em que o crédito à produção e o consumo está desacelerado, em escala global, transformou-se na variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, sem a qual o sistema político poderia ir para o brejo.

 

Opção comum de todos governantes

 

Nos Estados Unidos e Europa, berço da crise especulativa, o sistema financeiro, sem dinheiro para irrigar o crédito, mas, ao contrário, sem ele, porque está falido, coloca em risco a estabilidade da democracia

O fenômeno não é brasileiro, é global. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, bem como seus colegas da Europa, que mais sofrem pressões pela avalanche do desemprego, fazem a mesma coisa.

A opção pelos investimentos estatais apressou aprovação na assembléia de Paris de projeto de lei que visa construir uma nova Paris, por cima da velha capital da França. Avenidas flutuantes à vista.

Movimentaria, diz a justificativa do projeto, toda a infra-estrutura nacional, como aconteceu na segunda metade dos anos de 1850. Naquela ocasião, a capital francesa foi inteiramente repaginada, com abertura de largas avenidas, mediante projeto do arquiteto Haussemam. Dinamizou a demanda efetiva global francesa e européia no momento em que havia desaceleração capitalista dada por emergência da deflação. Os economistas do velho continente são escolados.

Presidente Sarkozy , da França, se prepara para renovar e embelezar Paris futurista para sair da crise do desemprego por meio da ampliação do deficit públicoO investimento francês , trocado em miúdos, é o mesmo realizado pelos demais governos, em todo o mundo, voltado para elevar a demanda efetiva que ficou paralisada pela bancarrota financeira, que deixou de promover a acumulação ampliada capitalista.

A impossibilidade de tal acumulação, na escala necessária, para dar rendimento ao capital já excessivamente sobreacumulado, especulativo no ritmo em que o capitalismo financeiro alcançou, girando, segundo o BIS, 580 trilhões de derivativos, voltados ao incremento do varejo mundial, nos últimos 20 anos, colocou ponto final na capacidade do setor privado sobreviver mediante economia de mercado.

Os intrumentos básicos da economia de mercado nos países capitalistas desenvolvidos, que sempre foram o crédito direto ao consumidor a juros baixos, foram para os ares. As empresas perderam a capacidade de levantar dinheiro, descontando seus papeis nos bancos, que os comerc ializavam em escala global, derivatimente ao infinito. Acabou uma era do crédito sem limites. Seria possível existir capitalismo sem o padrão de acumulação necessária capaz de continuar sustentando a acumulação ainda mais ampliada?

Com os mecanismos da reprodução do capital estourados na relação empresas-sistema financeiro, o circuito da produção teve , está tendo, que ser reativado, mais intensamente do que antes, pela demanda estatal, via elevação dos deficits públicos.

Sem déficit, a taxa de desemprego estaria em nível colossal,  explodindo e derrubando governos.

 

Oposição sem discurso

 

Desalento total dos trabalhadores, mesmo os que estão mais preparados, com capacitação profissional, escapam da desaceleração capitalista, que perde, com a especulação, o instrumento de reprodução ampliada do capital

Nesse novo contexto, a oposição fica sem discurso. Os economistas que estão alertando para o perigo de expansão do deficit, não estão vendo que sem ele, o perigo para o capitalismo seria muito maior, em face do colossal desemprego que emergiria.

Foi-se o tempo, na era do populismo cambial, que os economistas ganharam fama de fazer presidentes, como foi o caso do plano cruzado, de congelamento dos preços, e do plano real, com troca de moedas, a ruim, inflacionária, por outra, sem inflação, enquanto se abria espaço , via sobrevalorização da moeda nacional e elevação de juros, para girar a economia atraindo capital externo especulativo.

O governo , nessa nova etapa da economia, entra em choque com os bancos, porque precisa exercitar política monetária que alaga a circulação capitalista de modo a manter juros baixos. Do contrário, a ação anticíclica estatal teria que enfrentar  juros altos, lançando desconfiança generalizada do mercado financeiro relativamente ao fôlego governamental para pagar dívidas.

A crise argentina já levou Cristina Kirchner à derrota nas eleições parlamentares e prepara novas armadilhas para ela em face da desaceleração econômica que sinaliza crise cambial e fuga de capitais na Argentina, sacudindo os trabalhadores e predispondo-os à greve e às agitações políticasNessa semana, por exemplo, o presidente Barack Obama se prepara para lançar 3 trilhões de dólares na circulação. Com uma mão , ele joga moeda para irrigar a base monetária, enquanto, com a outra, joga papel para enxugar parte dela, a fim de evitar enchente hiperinflacionária.

A dívida, crescendo, dialeticamente, no lugar da inflação, alivia, temporariamente, a situação. Há uma clara fuga para frente. Os banqueiros, nesse cenário, têm que conviver com os juros baixos, porque senão emerge a crise política do desemprego, se o Estado sofrer corrida cambial.

Trata-se, enfim, de um jogo de poquer. O governo tem redobrar suas apostas no deficit, enquanto os bancos, mesmo que a cntragosto, entram no jogo, porque a alternativa seria, em meio ao desemprego sob juro alto, pressão para a estatização bancária.

A oposição, se levantar comprar a tese neoliberal, do perigo do deficit público, obrigará o governo a levantar o seu contrário,  a antítese, o perigo do desemprego, a fim de gerar uma síntese cujo perfil ainda não pode ser dado, porque a crise está em pleno curso.

Na prática, escolhe-se o mal menor, ou seja, o deficit para bancar o desemprego. Qual oposicionista guerrearia a favor do aumento do desemprego?

Se os banqueiros não acelerarem a queda dos juros ao consumidor, para que , por meio do consumo possa haver sustentação da demanda efetiva global da economia brasileira, fortalecem o argumento em fav or da intervenção estatal nos bancos privados em nome do interesse público, como já vem fazendo em relação aos bancos oficiais.

Chavez acelera acordo Brasil-Paraguai

Lula correu para fechar novo acordo com Lugo para não ser ultrapassado pelas propostas mais radicais dos movimentos sociais ligados à onda democrática socialista bolivariana pregada por Hugo Chavez, que levou ao golpe militar em Honduras, desestabilizando o governo constitucional de Zelaya, sinalizando lacerdismo golpista sul-americana de resistência ao avanço da democracia direta, pregada, agora, no Brasil pelo senador Cristovam, para desestabilizar Sarney

As tensões políticas no Paraguai, que estão levando os movimentos sociais a ganharem dimensão extraordinária por conta da pregação mudancista acelerada do presidente Fernando Lugo, colocando-o em confronto direto com as elites tradicionais do país, responsáveis por conduzirem o poder paraguaio nos últimos cinquenta anos, até a chegada da nova ordem popular, levaram o presidente Lula a apressar as negociações em torno da principal bandeira econômica e política paraguaia, a renovação do contrato da destinação da energia de Itaipu. Tal aceleração decorre da necessidade de evitar perda de espaço político para o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, sintonizado com a demanda paraguaia, impulsionada pelos movimentos sociais, que têm queda favorável pelo avanço do socialismo bolivariano na América do Sul por ele comandado, envolvendo parceiros como os presidentes da Bolívia, Evo Morales, do Equador, Rafael Correa, e o presidente deposto de Honduras, Manoel Zelaya.

Maiores demoras por parte do governo brasileiro em atender as demandas do governo Fernando Lugo, sob pressão das oligarquias, que desejam derrubá-lo, em razão dos escândalos políticos que enfrenta, gerando desgastes consideráveis, intensificariam as pressões dos movimentos sociais de esquerda rumo ao bolivarianismo socialista, cujo desfecho poderia resultar em novo golpe de Estado, semelhante ao que derrubou Zelaya. As chancelarias latino-americanas se alarmam com essa possibilidade. Estaria criada zona politicamente conflagrada na América do Sul, somando-se à que se espalha na América Central, levando o status quo sul-americano, que passa por desajustes econômicos consideráveis, em decorrência da crise econômica global, a uma total instabilidade.

Há alguns meses, a elite política do Paraguai vem produzindo tensões na relação com o Brasil, exigindo revisão do acordo de Itaipu, assinado entre os governos Geisel, brasileiro, e Stroessner, paraguaio, no tempo da ditadura, sob supervisão do governo americano. O aumento da temperatura interna no Paraguai entre as correntes políticas divergentes fugiu, porém, do controle institucional precário interno, levando os movimentos sociais, que colocaram Fernando Lugo no poder, a atuarem coordenadamente com  as demandas políticas bolivarianas. Estas, taticamente, não apenas se somam às demandas da própria elite paraguaia, interessada em novo acordo financeiro Brasil-Paraguai, mas, igualmente, ultrapassam tais demandas, intensificando defesas no plano da mudança política, a fim de levar à superação da democracia representativa para a democracia direta, compatível com o processo socialista bolivariano.

Nesse contexto, como estão sendo comprovadas as ações políticas práticas decorrentes das palavras de ordem bolivarianas, as elites tradicionais correm o risco de serem amplamente ultrapassadas. Não foi outra coisa o que aconteceu em Honduras, no momento em que Manoel Zelaya, ancorado no discurso da democracia direta, avançou sobre as elites tradicionais hondurenhas, cujo caráter e motivação históricos é semelhante, ideologicamente, ao das elites paraguaias, com o discurso de aprofundamento institucional, a fim de mudar de mão o poder, tirando-o dessas elites conservadoras, para tentar colocá-lo, revolucionariamente, sob democracia direta, em mãos dos movimentos sociais.

Jogo geoestratégico itamaratiano

O chanceler Celso Amorim jogou politica e geoestrategicamente para minimizar a influência em ascensão do presidente Chavez, no Paraguai, no rastro do avanço dos movimentos sociais, que colocariam as relações Brasil-Paraguai em novo patamar de eletricidade diplomática, capaz de dificultar os acertos em torno de uma diplomacia convergente não totalmente aderente ao bolivarianismo socialista chavista

O Itamarati , diante da movimentação política contraditória paraguaia e consciente da relativa semelhança dela com o movimento que detonou a crise de Honduras, costurou, rapidamente, novo acordo Brasil-Paraguai, para fortalecer a posição fragilizada de Fernando Lugo, internamente, em razão da sua fama de padre mulherengo, que escandalizou a classe média conservadora, ligada às elites políticas tradicionais.

A renovação do acordo em novas bases, que permitirá aos paraguaios disporem de maior volume de capital proveniente das receitas energéticas de Itaipu, fortalece Lugo, mas, também, os seus opositores, enquanto relativiza a força que a pressão dos movimentos sociais produzia em favor do avanço do discurso chavista no Paraguai.

Pelo acordo inicial, o Paraguai e o Brasil dispõem, cada qual, de 50% do total da energia produzida pela maior hidrelétrica do mundo. Como o Paraguai utiliza somente 5% do total de energia a que tem direito, comprometeu-se, quando o país era dominado pela ditadura do general Stroessner, a vender, obrigatoriamente, os 45% restantes para o Brasil, descontado o pagamento da dívida e dos juros.

Pelo novo acordo, que deverá ser assinado nesse sábado, 25, em Assunção, depois da reunião dos países do Mercosul, na capital paraguaia, as regras mudam substancialmente. O Paraguai poderá vender no mercado livre a sua parte, tanto para as empresas privadas, no Brasil, como para a Eletrobrás, empresa estatal. Os acertos continuariam comprometidos com as duas partes negociando entre si. Não haveria possibilidade de o Paraguai vender sua parte para a Argentina ou Chile, por exemplo, exceto a produção de outras usinas que dispõem no país.

A previsão é a de que o governo paraguaio venderá pelo triplo do preço, segundo as informações dos bastidores. Atualmente, a Eletrobrás compra por 120 milhões de dólares os 45% do direito paraguaio. Deverá essa quantia pular para 360 milhões, uma despesa que será debitada ao contribuinte brasileiro.

Tal débito virá não, certamente, em forma direta, de assalto ao bolso, via aumento da tarifa de energia, mas em forma indireta, de imposto, cobrado mais à frente, porque o governo assumirá  custo em forma de aumento de déficit público – inflação de sub-solo – , elevando-o em escala ainda mais intensa do que a que ocorre, nesse momento, em que  concede vantagens fiscais e creditícias aos diversos setores produtivos, financeiramente, encalacrados na bancarrota produzida pela grande crise global.

Dólar pode ser descartado

As reservas em dólar da China e do Japão que estão sendo jogadas maciçamente na América do Sul estimulam discussões para acelerar trocas comerciais em moedas locais, para evitar colapsos cambiais

Não estaria fora de cogitação, no novo acordo, uma mudança da referência monetária a  nortear o contrato entre as duas partes. Como avança , na América do Sul, proposta de trocas comerciais por moedas locais, inicialmente, colocadas em prática entre Brasil e Argentina, com tendência a generalizar-se na relação dos demais países sul-americanos entre si, no compasso da desvalorização acelerada do dólar, poderia constar do novo acordo, novidades surpreendentes.

Os termos do novo acordo , que não vieram, inteiramente, à luz, considerariam , em cláusulas específicas, como se admite nos bastidores petistas, cláusula de pagamento por meio de moedas locais, brasileira e paraguaia, conforme interesse soberano dos dois países. Tal inovação, se ocorrer, criaria fato político extraordinário. Pode ser que não venha num primeiro momento, para não levantar controvérsias explosivas, mas estaria aberta porta para que, num segundo instante, houvesse consideração nesse sentido, no ambiente em que a moeda americana sofre contestação internacional como pressuposto para continuar como equivalente mundial nas relações de trocas globais.

Pelo lado brasileiro, os empresários, que já estão enfrentando redução geral do nível de atividade econômica, temem consequências a serem produzidas pelo aumento do déficit público brasileiro, principalmente, no instante em que a taxa de juro cai e leva os banqueiros a resistirem, de agora em diante, a financiar, em escala acelerada, a dívida pública interna. A selic recuou, na última reunião do Copom, nessa semana, de 9,25%, para 8,75%, embora as taxas de juros , para o comércio e a indústrias continuem escorchantes, criando fato inquietante para os bancos continuarem bancando compra de títulos da dívida pública interna de forma permanente.

Por outro lado, no entanto, os empresários paraguaios, com o aumento da renda interna, proveniente dos recursos de Itaipu, em escala bem mais ampla, terão novas oportunidades de investimentos. Como a base industrial paraguaia é insuficiente, para atender uma demanda crescente de consumo, caso ocorra, seriam, naturalmente, os empresários brasileiros os que disporiam de chances para atender as demandas paraguaias, salvo se não conseguirem competir com a concorrência chinesa.

Favorecidos pelo excesso de reservas em dólares, os chineses e, também, os japoneses, intensificam a desova de moeda americana, em processo de ampla desvalorização, adquirindo ativos seguros na América do Sul, para fugirem dos prejuízos, ao mesmo tempo que a entrada de cambiais dolarizadas no continente sul-americano valoriza as moedas dos países, detonando a indústria brasileira e argentina, principalmente, levando os investidores dos dois países ao confronto, expresso, de ambos os lados, na defesa do protecionismo. Nada melhor para os chineses e japoneses. O Japão, por exemplo, durante a semana, fechou contrato para importar etanol brasileiro, pagando, naturalmente, a mercadoria com as reservas em dólares desvalorizados que dispõem. Assustadas, as autoridades japonesas tentam, de todas as formas, desovarem moeda americana disponível em seu caixa. Estão completamente temerosos quanto ao futuro incerto do poder monetário de Tio Sam, atolado em déficits que impedem a capacidade dos Estados Unidos continuarem a ser o carro-chefe da demanda global, como alertou o próprio presidente Barack Obama, na recente reunião do G-14, na Itália.

Moeda sul-americana em marcha

O acordo Brasil-Paraguai pode acelerar moeda sulamericana e consequentemente fortalecimento das trocas sulamericanas, ancoradas em banco sulamericano e parlamento sulamericano, que se deslancham no compasso da crise global, mesmo diante das resistências gerais dos que ganham com a dependencia sulamericana dos capitais externos que, referenciados em dólares, desvalorizam-se aceleradamente

Os paraguaios, nesse contexto, continuarão preferindo, logicamente, os produtos manufaturados chineses, muito mais baratos do que os produtos brasileiros e argentinos, cujas exportações estão sendo limitadas pela valorização do real e do peso. A busca de trocas comerciais na América do Sul por meio de moedas locais tenderia a ganhar adeptos, não somente para nortear a realização do novo contrato de Itaipu, mas, principalmente, para evitar que os asiáticos, cheios de dólares em caixa, destruam as moedas dos países sul-americanos, no compasso da crise global.

A não resolução do impasse monetário – que coloca o dólar em escala acelerada de desvalorização como ameaça à estabilidade sul-americana, nesse momento – cria ambiente, tanto para intensificação de trocas comerciais por meio das moedas locais, como, da mesma forma, para emergência da moeda sul-americana.

O Banco do Sul, que já está pronto para ser lançado, e o Parlasul, parlamento sul-americano, igualmente, articulado, para começara a funcionar,  tenderiam a acelerar sintonias sul-americanas capazes de coordenar ações econômicas, sociais e , sobretudo, políticas integracionistas como resposta às ameaças que o vendaval monetário dolarizado-desvalorizado produz em escala incontrolável.

A não superação desse risco, que coloca em xeque as atividades produtivas na América do Sul e a própria integração econômica sul-americana, vai se transformando, quanto mais ameaçadora se torna, em combustível para o fortalecimento e ampliação dos movimentos sociais que desfraldam a bandeira chavista socialista bolivariana.

Seu arco de influência, acaba, inclusive, de chegar ao Brasil por meio do senador Cristovam Buarque(PDT-DF), ao pregar plebiscito bolivariano contra o presidente do Congresso, senador José Sarney(PMDB-AP). O parlamentar brasiliense, descrente da democracia representativa, que elege para conselho de ética, para julgar  o presidente do Senado, a própria anti-ética em pessoa, o senador Paulo Duque(PMDB-RJ), que desdenhou, vergonhosamente, a opinião pública, considerando-a descartável e volátil. Escândalo que apenas fortalece o jogo político chavista.

A onda socialista bolivariana pegou carona na crise política do Senado, que se desenrola em plena crise econômica, detonando desempregos, queda de arrecadação e fragilização do PAC, com o qual o presidente Lula pretende fazer da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, sua sucessora na eleição presidencial de 2010.

Economia política dita maracutaia sucessória

Ontem eles condenaram Sarney; hoje se unem para salvar Sarney, em meio a uma conjuntura em que a economia política passa por cima da política econômica para tentar salvar o capitalismo da bancarrota neoliberal

O colapso econômico do setor privado, em escala global, em decorrência da excessiva alavancagem do crédito, gerado na especulação, especialmente, nos Estados Unidos e Europa, responsáveis maiores pela dinâmica capitalista mundial, até outubro de 2008, colocou o Estado no centro da política econômica para revertê-la em economia política estatal em plena sucessão presidencial no Brasil. Como o Estado é produto da correlação de forças políticas, o enfraquecimento relativo do setor privado, que determinava as ações prioritárias  do governo em relação aos interesses dele, comparado aos das classes sociais antagônicas dos trabalhadores, que estão ficando desempregados,  no calor da desaceleração deflacionária da produção, gera o fortalecimento político estatal como contrapartida dialética. Ganha dimensão política extraordinária o comandante do Estado, o presidente da República, como árbitro político que administra centralizadamente a economia. Os poderes da República são abalados pela força presidencial emergente que vai distribuindo favores, maracutaias e anti-éticas por todos os lados, evidenciando democracia de fachada tocada por medidas provisórias em nome da governabilidade.
 
A força não está mais no setor privado, mas no próprio Estado, que dispõe de moeda própria – os títulos que ele troca por moeda – , fictícia. A política econômica, que estava animando a concentração da renda em mãos do setor privado, vira, em parte, de posição e obriga o governo a agir políticamente, abandonando as prioridades anteriores, expressas na  política econômica, para adotar o seu inverso, a economia política. O dinheiro estatal inflacionário – cuja inflação é disfarçada em dívida pública em expansão – é a grande  força econômica estatal, mas pode ser , também, a maldição, porque os limites de endividamento do Estado  se tornaram estreitos, dado que a grande crise financeira já pegou ele excessivamente endividado, em todos quadrantes do mundo.

A força da economia americana, por exemplo, diminuiu porque a Casa Branca não tem mais credibilidade infinita, para jogar papéis públicos  na praça, a fim de levantar dinheiro, de modo a cobrir os deficits fiscais e comerciais americanos, responsáveis por dinamizar a locomotica capitalista global, depois da segunda guerra mundial. O mesmo acontece com o presidente Lula. A OCDE chamou a atenção para a voracidade lulista rumo ao endividamento sem controle, como alternativa para salvar a produção em colapso por escassez de consumo, que detona a arrecadação e, consequentemente, o PAC. A ministra Dilma Rousseff está a perigo como candidata à sucessão, ancorada no PAC que se desacelerou.

O quadro é de instabilidade total, no Brasil e  no mundo. A China, o Japão e a Europa realizavam, até outubro do ano passado, a sua produção no consumo dos Estados Unidos à custa de moeda fictícia. Os seus derivativos acabaram por inundar a circulação do sistema além do suportável pelas veias gastas de endividamento de Tio Sam,  já esburacadas pelos excessivos déficits. O quadro não é diferente em relação às contas públicas brasileiras, afetadas pelas dívidas que correspondem ao tamanho do PIB, no embalo do juro alto.
 

Opção pelo mal menor
 

O presidente da CNI, deputado Armando Monteiro Netto, prefere o mal menor do Estado interventor do que o mal maior que seria a quebradeira geral do setor privado

O risco de o Estado explodir vai crescendo paulatinamente, mas o mercado prefere enfrentar esse risco futuro do que optar pelo risco presente, isto é, a bancarrota privada, que depende do colo estatal. Entre a desgraça futura e a desgraça presente, já causando estragos, os empresários optaram, sem ter outra opção, pela salvação do presente lançando mão do futuro incerto. Opção pelo mal menor feita pelos líderes empresariais, como o titular da CNI, deputado Armando Monteiro Netto(PTB-PE).

O governo do presidente Obama deu o alerta, que deixou o mercado aparentemente eufórico, durante a semana, com as notícias de renovação de estoques em escala global, especialmente, por parte da C hina, a nova estrela capitalista pós-crise. No entanto, os impasses do mercado financeiro, que intensificam mudanças no sistema monetário internacional, para superar a supremacia abalada do dólar baleado,  indicam que o setor privado continuará com problemas para desovar rapidamente os estoques, devido à falta de crédito suficiente. Mais razão para a emergência forte da economia política, como acontece , explicitamente, no Brasil.

O titular da Casa Branca destacou ao titular do Planalto, em LÁquila, Itália, na reunião do G-14, seus problemas comuns em escalas diferenciadas. Não se pode esperar mais do consumo americano como garantia da salvação capitalista, alertou Obama. A Europa, igualmente, está fora dessa jogada. Os consumidores europeus e americanos entraram em uma nova era. Abandonaram a Era da Gastança, para entrar na Era da Poupança.

A poupança, por sua vez, acelera a bancarrota privada, que fortalece, em contrapartida, o Estado e a economia política em subsituição à política econômica neoliberal. Vão-se aos ares os pressupostos do neoliberalismo econômico, apoiados no câmbio flutuante, nas metas inflacionárias, nos superatis primários elevados , mas os limites do Estado não aguentam expansões sem limites.

 

Falsas lideranças no bolso estatal
 

Lúcia Stumpf, presidente da UNE, faz o discurso do Planalto, que subvenciona as lideranças estudantis com dinheiro público, para arrefecer a rebeldia dos jovens contra a antiética governamental que patrocina uma grande pizza no Congresso Nacional

No comando da economia política, o governo Lula lança mão de tudo, tendo como escudo o dinheiro do contribuinte. Para equilibrar-se na nova correlação de forças, que enfraquece a economia e fortalece a política, o governo joga para subjugar as categorias sociais. A fim de enfraquecer as forças renovadoras das bases sociais, que se radicalizam no ambiente de antagonismo entre capital e trabalho, o governo compras as lideranças, transforman do-as em falsas lideranças.

Às lideranças empresariais dá exoneração fiscal, até a um limite cuja essência torna-se perigosa para a saúde do próprio Estado gastador sem limites. Às lideranças trabalhistas, que passaram a conviver com desemprego e consequente arrocho salarial, dá mordomia. Os líderes sindicais se transformaram em síndicos do dinheiro público.

As empresas, com seus líderes pelegos fragilizados,  somente conseguem capitalizar-se com os recursos do BNDES se seguem as orientações determinadas polo FAT cujo peso político das lideranças pelegas trabalhistas é preponderante.

Ou seja, o governo calou os empresários e os trabalhadores. E, igualmente, silenciou a voz dos estudantes, que, outrora, durante a ditadura militar, faziam excessivo barulho a alimentar a própria ditadura. Liderada por Lúcia Stumpf, a velha UNE, transfigurada pela subvenção do crédito público, transformou-se em porta-voz do Palácio do Planalto, com o mesmo discurso governista.

O trabalho de conter os antagonismos sociais foi realizado com a compra da consciência das falsas lideranças, que passaram a dispor de influência na destinação dos recursos do povo por intermédio do governo.

 

Compulsório contra juros
 

O monetarista se transformou em incrementalista no ritmo da economia política para ver se chega ao governo de Goiás sem incomodar o todo poderoso chefe no Palácio do Planalto com os juros altos que viraram inferno astral do governo

Ao se transformar em maior adversária da economia política praticada pelo Palácio do Planalto, a política econômica, comandada pelos juros altos bancados pelo Banco Central, deve, igualmetne, entrar na dança do poder estatal, para sofrer mudanças.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, metamorfoseou-se, completamente,  em relação ao discurso monetarista que praticou até há pouco. Agora, para ele, não tem sentido as especulações altista da taxa de juro detonadas pelo sistema financeiro especulativo, no momento em que a inflação é cadente e a deflação ascendente. Pelo contrário, o que espera os banqueiros, na próxima reunião do Copom, pode ser mais uma pancada baixista no juro básico, selic.

O BC, cujo titular é candidato ao governo de Goiás, em 2010, caiu na real, sintonizando sua feição ao perfil da economia política lulista. Juro alto, na crise, é caixão para o Planalto. Encarece a dívida pública, a moeda fictícia, e bloqueia o crediário, o consumo, para animar a produção e a arrecadação, com a qual se garante o PAC.

O desafio , a partir de agora, do poder estatal são as taxas de juros no crediário. Enquanto a taxa básica poderá cair para perto do intervalo entre 8% e 9%, o povo está sendo sangrado quando vai ao crédito ofertado a juro superior a 80% ao ano. Um tênis comprado pelo trabalhador para dar de presente ao seu filho custa 100% mais no crediário. Puro assalto.

O titular do Planalto dispõe de uma arma, para tentar submeter, também, os banqueiros-assaltantes aos interesses da economia política no ambiente da sucessão presidencial. Trata-se dos depósitos compulsórios. Até agora, o Banco Central manteve o compulsório elevado, para vigorar a política da escassez do dinheiro na praça. Quanto maior o compulsório, menor a oferta de dinheiro, mais alto o juro para o trabalhadores e microe e pequenas empresas , que precisam financiar suas folhas de pagamento de pessoal.

Restaria, portanto, ao Planalto, para tentar subjugar os assaltantes banqueiros à sua determinação, afrouxar as rédeas da oferta de dinheiro, por meio da liberação mais acelerada do compulsório. Os banqueiros teriam que ganhar dinheiro, não mais na taxa de juro alta, mas na disputa pelo cliente via juro baixo, como acontece com os bancos americanos e europeus. Conseguirão sobreviver sem a mamata do juro alto que aplicam sobre a dívida pública interna, para tentar esconder a inflação?

 
República da maracutáia
 

Lina virou bode expiatória para salvar as aparências da república da maracutaia tupiniquim

O presidente Lula, que encabeça a pregação de nova moeda internacional no rítmo da decadência do dólar como equivalente monetário internacional, demonstra, no comando da economia política, em ambiente de valorização do Brasil na cena internacional, não estar nem aí para a ética que sustenta a República, dividida entre três poderes, bem como se lixa para as comparações entre o Lula de hoje com o Lula de ontem, pregador do sindicalismo livre do poder do Estado.

Se ontem ele, como o ex-presidente Fernando Collor, juntos condenaram o ex-presidente Sarney, concordando entre si para taxá-lo de marajá e promotor das maracutais, hoje, Lula e Collor se unem para tentar salvar o marajá da maracutaia, simplesmente, porque os critérios de moralidade pública do presidente Lula, assim como os do ex-presidente Collor, metamorfosearam-se, passando a  confundir com os daquele que condenaram, ou seja, Sarney.

Configura-se, claramente, a República da Maracutáia, no ambiente da economia política sob impulso da crise mundial e da sucessão presidencial.

Nesse ambiente , a ética é um estorvo para quem administrou o processo geral dos pizzaiolos, com o mensalão. Passa a ser condenada, em tal conjuntura, a própria ética. Cumprir a lei vira critério de inutilidade.

A secretária da Receita Federal, Lina Vieira, por exemplo, transformou-se em danação a ser extirpada, no ambiente do colapso tributário nacional, porque a arrecadação caiu e empresas poderosas e bancos passaram a ser incomodados pelos fiscais, mediante multas e fiscalizações.

Depois que foi eliminado, por força das pressões dos bancos, o imposto sobre o cheque – a CPMF – , eliminou-se, consequentemente, o instrumento de fiscalização automática dos bancos, por meio de transparência total, no conta corrente diário da contabilidade estatal.

Os banqueiros compraram a ética dos políticos, eliminando a transparência tributária, e quem paga o pato é a secretária exonerada, acusada de laxismo no comando da Secretaria.

Inversão total de valores que vai configurando o perfil do novo poder estatal em que a economia política determina as regras da política econômica e do processo sucessório em meio à deterioração completa dos valores republicanos.

Banco paga PAC para eleger Dilma

Banqueiros deixarão de ganhar mais de R$ 60 bilhões para que sobre mais recursos para o PAC  que tem a missão de dinamizar a economia e, consequentemente, eleger Dilma

Gasto público não é deficit, é investimento, portanto, gastar mais significa investir para gerar emprego, renda, consumo e, consequentemente, arrecadação tributária, que impulsiona novos investimentos. Essa virou a máxima maior do governo Lula para engordar o Programa de Aceleração do Crescimento(PAC), na reta final da administração da coalizão governamental PT-PMDB, atravessando aguda crise politica, ética e moral no Congresso.  A Lei de Diretrizes Orçamentárias(LDO), a ser aprovada até a próxima semana, antes do recesso parlamentar, livra o PAC de sofrer reduções orçamentárias, para formar superavit primário(receita menos despesas, excluindo pagamento de juro), destinado ao pagamento dos serviços da dívida pública interna. Sobrarão menos recursos para os banqueiros e mais para os investimentos públicos. Ao ficar fora do cálculo do superavit primário, o principal programa de investimento governamental, com o qual o presidente Lula conta para eleger sua candidata à eleição presidencial em 2010, ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, disporá adicionalmente de mais R$ 22,5 bilhões. Somam-se a esse total outros R$ 16 bilhões, correspondentes aos investimentos da Petrobrás, igualmente, retirados do cálculo feito para pagamento dos juros, e tem-se quase R$ 40 bilhões que os bancos credores do governo deixarão de ganhar em 2010, em plena campanha eleitoral. O Planalto assegura, com relativa tranquilidade, os recursos não apenas para o PAC, mas, igualmente, para o reajuste do salário mínimo, em patamar superior ao crescimento do PIB, que está em queda, com a crise global, bem como satisfaz a reivindicação dos aposentados, favoráveis a reajuste semelhante ao concedido ao mínimo. Além disso, acrescentem-se aos R$ 40 bilhões excluídos do superavit primário outros R$ 40 bilhões resultantes da redução da taxa de juro básica de 13,75% para 9,25%, de janeiro a junho. Nesse caso, em vez de o Planalto utilizar o dinheiro economizado para fomentar a infra-estrutura, deve aproveitá-lo para bancar as negociações salariais realizadas no ano passado, a serem liquidadas em 2009 e 2012, como destaca a repórte Claudia Safatle, do Valor Econõmico. As autoridades econômicas e monetárias fizeram, dessa maneira, economia forçada para compensar queda de 32%  das receitas do FGTS, algo em torno de R$ 2 ,3 bilhões, nos últimos seis meses, e de quase R$ 70 bilhões correspondentes à arrecadação tributária, segundo o ministro do Planejamento , Paulo Bernardo, decorrente da desaceleração da economia mundial. Esta, segundo relatório do FMI, divulgado essa semana, registrará recuo de 1,4% em 2009, podendo não reagir, satisfatoriamente, em 2010, em face das incertezas levantadas pela escalada dos deficits públicos em todo o  mundo, cujas consequências, como alertam os analistas em geral, poderão ser inflação, que implicará juros altos e, evidentemente, mais desaceleração. O pior dos mundos.

 

Novo conceito de contas públicas

 

Serra foi o primeiro a pedir mudança no conceito de superavit primário do FMI que considera gasto o que é investimento, para limitar o crescimento da economia

Faltava um motivo forte para os governos romperem com o conceito de superavit primário. A grande crise mundial ofereceu essa oportunidade. Desde a Era FHC, o governo se divide em torno dele. O ex-ministro do Planejamento e da Saúde do governo Fernando Henrique C ardoso, hoje,  governador de São Paulo, José Serra, candidato tucano à presidência da República em 2010, tornou-se adversário encarniçado do conceito de superavit primário, criado pelo Fundo Monetário Internacional, sob orientação do Consenso de Washington. Serra argumentava que os investimentos públicos, realizados pelas empresas estatais não se constituiam deficit, mas investimentos. Os recursos aplicados pela Petrobrás, por exemplo, dizia, representavam retornos seguros para o governo em forma de impostos, emprego, renda e consumo. Brigou dentro da administração neoliberal fernandina. Perdeu a parada. Durante  o governo Lula, até agora, não fora possível emplacar o argumento serrista. Diante da crise global, que desestruturou a economia mundial e ameaça a periferia capitalista , adquiriu consistência a defesa levantada, primeiramente, pelo governador paulista. A administração Lula conseguiu retirar do cálculo do superavit primário os “gastos” da Petrobrás, responsáveis maiores por puxar a demanda industrial brasileira. Chegou a vez de o argumento serrista valer, também, para o PAC. E não apenas para ele, pois gastos ampliados com salários dos servidores, aumento do salário mínimo e reajuste dos aposentados, que, com o chamado fator previdenciário, sofreram corte de 5%, em nome do ajuste fiscal, para formar crescentes superavits primários, passam a ser considerados, também, investimentos. O conceito de superavit primário encobre a lógica do FMI e dos banqueiros de criar, no âmbito do orçamento brasileiro, dois orçamentos distintos. De um lado, o ORÇAMENTO FINANCEIRO; de outro, o ORÇAMENTO NÃO-FINANCEIRO. O primeiro reserva recursos para o pagamento dos serviços da dívida. Jamais podem tais recursos serem contingenciados, conforme determina o artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b da Constituição. Já o segundo, que representa gastos com saúde, educação, segurança, infra-estrutura etc, pode ser contigenciado a torto e a direito. Ou seja, a prioridade do governo, de acordo com o texto constitucional, foi, até agora, o pagamento dos juros e não o desenvolvimento econômico. Ao enxugar, também, a partir da LDO de 2010, os recursos do ORÇAMENTO FINANCEIRO, e não apenas os do ORÇAMENTO NÃO-FINANCEIRO,  inicia-se reversão de processo histórico que determinava privilégio à categoria social dos banqueiros, enquanto as demais categorias sociais pagavam o pato. Como no rítmo da desaceleração econômica global, tornou-se politicamente impossível garantir superavit primário elevado – que chegou, na Era Lula, a quase 6% do PIB, caindo, seguidamente, para patamares inferiores até limitar-se ao atual de 2,5%, podendo despencar, ainda mais, chegando a 1,5%, ao final do ano, para ser eliminado em 2010, depedendo do andar da carruagem econômica avariada – não estaria afastada a hipótese de sua extinção.

 

Inflação, por enquanto, vira solução

 

Os governantes do G8 e do G5, todos quebrados, no cenário da grande crise global, unificaram seus discursos favoráveis aos aumentos dos gastos públicos, como alternativa para salvar o capitalismo do colapso geral

A reunião dos líderes mundiais do G-8 e do G-5, em LÁquila, Itália, condena, de morte, o superavit primário, no Brasil. Durante a semana, evidenciou a confluência de interesses dos governos capitalistas ricos e emergentes em favor do aumento dos gastos públicos de modo a garantir sobrevivência do setor privado em total bancarrota, em face da carência de crédito à produção e o consumo, para girar, satisfatoriamente, o comércio mundial. Até o Papa Bento VI lançou encíclica para clamar aos governantes que mantenham o Estado ativo, gastador em escala ampliada, como arma para dinamizar a produção e evitar escalada do desemprego, cuja taxa se aproxima dos 10%, na Europa e nos Estados Unidos, sinalizando tensões políticas globais. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, avisou aos seus colegas que o consumo americano não vai se sustentar na escala necessária para puxar a demanda global, como aconteceu durante as últimas décadas, desde o final da segunda guerra mundial, a partir do acordo de Bretton Woods, em 1944. Tal hipótese está descartada, por conta dos elevados déficits americanos, que precisam ampliar-se ainda mais como defendeu Warren Buffett, o maior empresário americano, embora destaque que haverá, com isso, pressões inflacionárias. A inflação virou solução conta o perigo de deflação. Os deficits americanos, ao longo dos últimos sessenta anos, serviram para realizar as exportações asiáticas e européias para os Estados Unidos, enquanto a economia americana, com o dólar, como equivalente monetário global, garantia superavits financeiros compensatórios aos deficits comerciais e fiscais. A bancarrota financeira americana, em outubro de 2008, pôs fim ao processo, abrindo nova etapa histórica. Os países, que antes dependiam da locomotiva econômica de Tio Sam, terão que incrementar seus mercados internos, se quiserem continuar sobrevivendo. Ou seja, para evitar que se formem grandes estoques produtivos, que não teriam como ser desovados senão via exportações, os governos, principalmente, os emergentes,  teriam que promover distribuição acelerada da renda, para incrementar consumo interno. Do contrário, emergiriam grandes deflações de preços que destruiriam as economias. Tal contexto, por sua vez, em meio às instabilidades monetárias desatadas pela crise global, tendem a produzir protecionismos crescentes. Cada um buscaria proteger seu espaço. As disputas comerciais , em escala global, virariam guerras comerciais. A China, nesse ambiente, dispondo de reservas de trilhões de dólares, já está produzindo deslocamentos dos produtos industriais brasileiros em todo o Mercosul. Não foi à toa que o presidente Lula e o presidente francês, também, afetado pela agressividade chinesa, combinaram-se em defesa de novo sistema monetário. Uma cesta de moedas seria a solução para evitar guerras comerciais encarniçadas no ambiente de ampla desvalorização do dólar.  O real brasileiro, que acaba de completar 15 anos, não teria fôlego suficiente para suportar a pressão chinesa. Talvez por isso, durante as comemorações natalícias, tenha o líder do governo, senador Aluízio Mercadante(PT-SP), pregado união nacional, para garantir sustentação da moeda. Caso contrário, o real, no cenário em que o governo gasta sem controle, para sustentar a produção e o consumo, a fim de garantir arrecadação para tocar o PAC, poderia ir para o brejo.

Real em crise pode provocar Dilmécio: Dilma+Aécio

 

A disputa entre Serra e Aécio dentro do PSDB pode implodir para levar o titular de Minas a aliar-se com Lula , compondo com Dilma, em 2010, criando fato totalmente novo no cenário da sucessão presidencial

A  grande crise mundial tende a reservar surpresas ainda não admitidas pela racionalidade política, mas que podem pintar, principalmente,  se  a instabilidade econômica aprofundar-se por força do tsunami hiperinflacionário que vai se formando no ambiente de elevado endividamento governamental decorrente da necessidade de o Estado entrar em cena para salvar da bancarrota os setores produtivos em geral, elevando o endividamento público, mediante déficits incontroláveis. Aparentemente, a inflação está cadente, mas, seu conteúdo oculto, real  e latente, a dívida pública interna em expansão sem controle, crescendo, dialeticamente, no lugar da própria inflação, demonstra estar em andamento outra essência, muito mais perigosa. Não apenas para o governo Lula, mas, para todos os governos capitalistas atuais, sufocados pelas contradições que pegaram o capitalismo pelo pé e o viraram de ponta cabeça. O décimo quinto aniversário do Plano Real, que uniu, para comemorações, fragilizadas lideranças governistas e oposicionistas, sacos vazios que, isoladamente, não se sustentam, deixou claro que os enigmas e perigos estão no ar. Evidentemente, o governo Lula não suportará, por muito tempo, a combinação demoníaca de drástica redução da carga tributária, gerada pela desaceleração da economia, com a sustentação do Programa de Ac eleração do Crescimento(PAC), que, para ser materializado, exige ingressos tributários crescentes, no rítmo em que vinha ocorrendo antes da falência financeira americana que contaminou a praça mundial, paralisando tudo. Se , no tempo da bonança, o ritmo do PAC já era criticado, por conta de sufocante burocracia, no tempo oposto, instalado pela grande cirse, nem se fala. Por falta de recursos, o programa governamental vive de encenação midiática, pura mentira. Mais alguns meses de previsível queda de arrecadação, a situação tenderia a ficar dramática, evidenciando a incapacidade do Planalto, no ambiente de desaceleração ou lentíssima recuperação, de evitar desajuste cujas consequências sugeririam, no plano político, soluções cesaristas , tipo terceiro mandado, se a política, em clara deterioração ético-moral, não der conta do recado, fazendo valer a democracia. Nesse contexto, em que o governador tucano de São Paulo, José Serra, admitiu, segundo o Valor Econômico, não disputar a eleição de 2010, talvez por perceber, intuitivamente, que seu objetivo não seria alcançado, salvo via quimérica união política nacional, dadas as circunstâncias, nacionais e internacionais, cujos desdobramentos não podem, racionalmente, ser percebidos a priori, não estaria afastada a possibilidade de, no vácuo aberto por ele, surgir o que sugeriu o senador Aluísio Mercadante(PT-SP), em seu discurso de síntese sobre o décimo quinto aniversário do real, ou seja, a imperiosa necessidade da união. Abriu chances ao até agora inimaginável, à convergência entre governistas e oposicionistas.

 

De Gerson para Pelé

 

Com visão extraordinária de futuro, Mercadante pregou a união governo-oposição para manter a sobrevida do plano real ameaçado pela grande crise global

Roubando a cena, que estava montada pelos tucanos, para endeusar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Mercadante, sem dúvida, a melhor cabeça do Senado, na atualidade, demonstrou extraordinário descortínio, ao destacar acertos e erros do Plano Real. Ressaltou, equilibradamente, acertos e erros da oposição petista ao real, quando foi lançado, primeiro, pelo presidente Itamar Franco(1993), em seguida, pelo presidente FHC(1994), e, igualmente, destacou  acertos e erros da oposição tucana, na sequência do real, na Era Lula. Num rasgo de premonição, o senador paulista previu que a estabilidade, no embalo da crise mundial, dependeria de  acerto e combinação das duas partes , na sequência histórica do Plano. Abriram-se, consequentemente, amplas possibilidades para eventual materialização da pregação seguinte do governador tucano de Minas Gerais, Aécio Neves, de que o interesse nacional impõe a sabedoria política da união para a preservação da obra econômica e política maior da Nova República, herdeira da ditadura militar. Subitamente, um manto de concórdia se espraiou durante a valsa juvenil do real em um plenário lotado do Senado em simbólica sessão histórica, na terça, 07. Um quadro inverso ao que se tem verificado nas últimas semanas, em que oposição e governo estão totalmente rachados por conta da crise administrativa da casa senatorial, manchada de corrupção por todos os lados, sem que se possa dizer quem tem ou não razão, senão os 81 senadores que, juntos, são os responsáveis pela obra final.  As palavras de Mercadante, segundo as quais se fazem necessários encontros mais assíduos entre o ex-presidente FHC e o presidente Lula, para acertos de rumos e traçados de futuros, retumbaram forte. Em sua fala final, FHC, rendendo-se à tal proposta, sensibilizou-se e destacou que sugestão nesse sentido deve ser feita à autoridade maior. O passe genial  de longa distância lançado por Mercadante, qual Gerson para Pelé matar no peito e bombar as redes da Tchecoslováquia, em 1970, consagrando o tri-campeonato mundial, foi dado para Lula na boca do gol. José Prates, prefeito de Salinas, Minas Gerais é a síntese que levará à formação de correlação de forças que unirá o país para vencer as forças conservadoras que impedem o verdadeiro desenvolvimento de uma agenda nacional com enfase no mercado interno, para romper as articulações históricas que construiram uma elite que atua com a cabeça alienada dominada de fora para dentro a serviço dos interesses que marginalizam a população em favor de uma minoria que eterniza privilégiosNo compasso da grande crise, em que nem oposição nem situação tem a chave para, isoladamente, resolver os impasses emergentes, o titular do Planalto desperdiçará ou emplacará? Se Lula está com a bola toda, traduzida em 80% de popularidade, que o credenciam  a bancar a candidatura da sua preferida, ministra Dilma Rousseff, que vai vencendo, galhardamente o câncar linfático; se Serra, que cometeu pecado político capital por estar ausente em Brasília em dia histórico, parece jogar a toalha em face dos problemas que requerem despreendimentos totais da individualidade política, para serem ultrapassados; e se Aécio, num rasgo de sabedoria e esperteza mineiras, viu o clarão, que foi percebido como escuridão pelo governador de São Paulo, estaria aberta a possibilidade da pregação em marcha do prefeito de Salina, José Antônio Prates(PTB-MG), para 2010, favorável à chapa DILMÉCIO = DILMA + AÉCIO? Ou seria ADIL? O capital de Aécio para formação da unidade nacional já foi dado. O de Serra ainda não. Basta perceber a ação dos dois nas últimas eleições municipais. Aécio, em Minas, costurou com o PT a vitória do prefeito Márcio Lacerda(PS-MG); em São Paulo, Serra, opostamente,  partiu para o pau, rachando seu próprio partido, na disputa com o candidato petista, para dar vitória ao prefeito Gilberto Kassab(DEM-SP). Ambos, Aécio e Serra, foram vencedores, mas, enquanto o titular do Palácio da Liberdade, deixou rastro de concórdia, o titular do Palácio dos Bandeirantes salpicou o chão paulista de discórdia. Por que a estratégia mineira não poderia ser repetida no plano nacional?

 

Plano traçado por Washington

 

FHC se disse pronto a estender as mãos ao acordo político capaz de garantir a estabilidade econômica sob o real ameaçada pela crise internacional, como solução adequada ao interesse nacional

Os inumeráveis discursos de loas ao Plano Real não focaram o principal: o olho do capital. O capitalismo, em sua evolução contraditória, somente pode ser entendido, segundo Marx, se acompanhado pelo olhar do próprio capital. Os adoradores do real olharam-no com o olhar dos subordinados ao capital.  O Plano Real foi concebido em pleno domíno das determinações do Consenso de Washington pelos países credores. Os ajustes macroeconômicos adotados pela periferia capitalista obedeceram estritamente as ordens da Casa Branca nas linhas principais da política monetária, fiscal e cambial. O câmbio flutuante, o superavit primário e as metas inflacionárias são imposições dadas de fora para dentro, que ajustaram, de acordo com o interesse do capital externo, a bagunça hiperinflacionária decorrente , não dos erros da política econômica interna, mas do ajuste brutal da economia americana, adotado no final dos anos de 1980, mediante aumento exorbitante da taxa de juro americana em nome do combate à inflação. O excesso dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, que inundavam a praça mundial desde o final da segunda guerra mundial – primeiro para salvar a Europa dos braços do comunismo e, segundo, para sustentar a guerra fria, a fim de derrotar os comunistas – , ameaçava a credibilidade do dólar e levava o sistema financeiro internacional a desconfiar da saúde da moeda americana já no início dos anos de 1970. Os pacoteiros brasileiros não entenderam a lição de Marx: leram o movimento do capital pelo olhar dos dominados e não dos dominantes. Só poderiam inverter a realidade, fetichistamente.Em 1974, Washington, sob ameaça da social democracia alemã, que queria resgatar seu ouro nos cofres do tesouro americano,  rompeu a paridade ouro-dólar, deixando a moeda americana flutuar. Beiço geral de Tio Sam na praça global. Em seguida, em 1979, a Casa Branca aumentou a taxa de juros de 5% para 17%. Na ocasião, o ministro do Planejamento do governo Figueiredo, Delfim Netto, sob pressão para justificar o desarranjo geral da economia brasileira e mundial, justificou que Tio Sam tinha a missão de salvar o ocidente do comunismo. A questão política essencial não foi discutida, como sempre, pela grande mídia, dependente do capital externo, que mandava no jogo, de forma imperial. A subida dos juros americanos, evidentemente, quebrou os países devedores em dólares, caso do Brasil. O governo brasileiro lançou mão das empresas estatais para levantar empréstimos, a fim de fechar balanços de pagamentos. A dívida, que já era alta, ficou insuportável. Os preços especulativos fugiram do controle. Os planos de ajustes, como o Plano Brady, emergiram imperialmente, para enquadrar a periferia capitalista. Os embaixadores americanos eram, na ocasião, os verdadeiros governantes na América Latina. Os militares brasileiros tentaram maxidesvalorizações, para levantar dinheiro via exportações. Como o mercado interno não era levado em conta, dada a insuficiência crônica de consumo decorrente de modelo de desenvolvimento econômico, essencialmente, exportador, o resultado foi hiperinflação. Os economistas que subiram ao poder com a queda de Delfim e dos militares, em vez de buscarem a raiz do problema, correram para a Casa Branca, culpando Delfim por tudo, de modo a receber as novas ordens ditadas pelos planos salvacionistas, que configuraram a essência do Consenso de Washington. Os pacoteiros da Nova República tentaram sacrificar Delfim Netto em vez de mergulharem nas verdadeiras causas da inflação que a abalou a periferia capitalista depois da crise monetária dos anos de 1980No ambiente de restrição de empréstimos externos e de pressões inflacionáridas, decorrentes das maxidesvalorizações cambiais, o resultado não poderia ser outro senão hiperinflação. Os governos neorepublicanos , a começar pelo do presidente José Sarney, foram engolfados, totalmente. Os planos antiinflacionários surgiam ao sabor das pressões do FMI, que determinavam as premissas básicas das políticas monetárias, fiscais e creditícias. O salário mínimo era anuncia por Ana Maria Juhl, a célebre chefe da missão do Fundo. Os demais que a substituiram fizeram o mesmo. O Palácio do Planalto apenas cumpria a ordem externa e ponto final. O Plano Real, depois dos fracassados planos cruzado, collor, cruzeiro novo, bresser, feijão com arroz etc, mudou a aparência hiperinflacionária expressa no descontrole geral dos preços, para traduzir a essência hiperinflacionária oculta e latente na dívida pública interna, mediante sobrevalorização cambial, ou seja, o famoso populismo cambial. Os preços, com a mudança de moeda, cairam, graças ao novo real sobrevalorizado, que passou a importar barato. A inflação desabou. FHC faturou seus dois mandatos, mole. Contudo, o seu oposto, em movimento dialético, se realizou na expansão incontrolável da dívida pública interna, que passou a crescer no lugar da inflação, como destacou Lauro Campos, em “Capitalismo e barbárie”(2000, Senado). O desajuste fiscal, para não se aprofundar, em meio a um contexto em que os empréstimos externos diminuiram, dado o risco que o próprio FMI viu na emergência do real, obrigou o governo a subir a carga tributária de forma irracional. O poder se centralizou absolutamente em Brasília sob comando das forças financeiras paulistas. A Federação virou caricatura. Ao mesmo tempo, o Congresso, prisioneiro das ordens dos credores, já havia, em 1988, segundo o autor da “Crise da ideologia keynesiana(1980, Campus), inserido na Constituição o artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, para proibir contingenciamento de recursos orçamentários destinados ao pagamento dos serviços da dívida. Ajoelhou-se à governabilidade eternamente provisória, abrindo espaço ao avanço da corrupção. A prioridade total da Nova República, portanto, passara a ser não o desenvolvimento , mas o pagamento dos juros compostos aos banqueiros. Escravidão jurista. O maior crítico da Era FHC, totalmente, ignorado pela grande mídia, viu o Plano Real, como Marx, pelo olhar do capital externo, que mantém domínio sobre a economia brasileira, desde o tempo da independencia, impondo seu jogo e exigindo recompensas altas em forma de juros compostos, que desarticulma a economia e garentem governos subordinados a ele, para o bem e para o mal, sempreAs crises externas que os tucanos dizem que a Era FHC enfrentou – a mexicana, a russa, a argentina, a asiática e, claro, a brasileira – foram, evidentemente, produzidas pelos Estados Unidos em nome da salvação do dólar. Inexistia soberania nacional para falar mais alto do que as pressões de Tio Sam. Lula substitui FHC , prometendo seguir o figurino. Deu sorte, porque no seu período, houve bonança mundial especulativa. A grande crise, agora, jogou tudo para os ares, e as premissas sobre as quais o Plano Real se sustenta, a partir das ordens de Washington, implodiram. No ambiente em que o Estado entra na economia para salvar o setor privado da bancarrota, não dá mais para bancar o câmbio flutuante, nem metas inflacíonárias e muito menos superavit primário. Até a Igreja Católica entrou em campo para afirmar que o mercado, pregado pelo Consenso de Washington, que escravizou governos neorepublicanos, acabou. O futuro do real , portanto, está nas mãos da política, e não mais da economia. O senador Aluísio Mercadante, ao pregar união da oposição e da situação, para enfrentar o que vem por aí, demonstrou grande lucidez. Certamente, para não sentar ao lado do senador José Sarney, como fez Aécio Neves, o governador Serra, que ficou calado, talvez não acreditando nessa pregação mercadantina, imaginando, quem sabe, que a implosão pudesse favorecê-lo, perdeu grande oportunidade ao não vir a Brasília, nessa terça, para engrossar a corrente político-unionista traçada pelo senador paulista. O governador mineiro não deixou a oportunidade passar. Montou no cavalo arriado, possivelmente, na garupa de Dilma. Se vai dar certo a proposta de José Prates, só a história dirá, mas ela se sintoniza com a lógica, no compasso da derrocada do real, cuja salvação depende da união nacional.