O medo da própria riqueza

O papo que está crescendo nos meios econômicos conservadores é o de que é perigoso o governo antecipar receita por conta da riqueza do petróleo descoberto na camada pré-sal, na Bacia de Santos, cuja exploração começaria em 2010/2011. Medo da própria riqueza?

Os investidores sabem que a mercadoria é de primeira qualidade, é segura e não deixará de valorizar constantemente nos próximos anos, a menos que emergisse rápido colapso ecológico que viesse viabilizar o hidrogênio como combustível global não poluente, para salvar a humanidade, fosse a que custo fosse, se fosse o caso, claro.

Por que não pode usar o dinheiro, de forma antecipada, jogando investimentos massivos em educação, na linha nacionalista de Anísio Teixeira?

Por que renunciar a essa grana que pode ser levantada naturalmente, pois o ouro negro é liquidez segura? Quem, em sã consciência, abre mão dessa possibilidade concretta, para revolucionar a infra-estrutura nacional, construindo estradas, portos, aeroportos, ferrovias, hidrovias, todo o insumo necessário para conferir valor agregado ao produto básico existente em abundância?

Os economistas já vocalizam o ponto de vista dos banqueiros, seus patrôes: excesso de riqueza pode virar pressão inflacionária, a maldição do petróleo. Será?

O país possui uma base industrial que precisa ser renovada a cada dois anos, no compasso do desenvolvimento científico e tecnológico, com profissionais altamente preparados.

Por que não acelerar as possibilidades abertas pela riqueza? Não fazê-lo, seria o caso de ter ganhado na loto sozinho e resolvido mudar prá roça.

Quem tem medo de uma educação nacionalista?

A hora da mudança do capitalismo nacional

A campanha nacionalista desatada pelo presidente Lula frente aos estudantes, convocando-os a defender nova legislação do petróleo, que encaminhará ao Congresso, depois das eleições, abre espaço à educação nacionalista e universal, que precisará da antecipação dos recursos oriundos do petróleo a ser explorado.

Está em jogo a modernização capitalista nacional acelerada. Não se trata de risco, mas de certeza, grana viva para investir em ciência e tecnologia, formando  geração de profissionais de alta qualidade, como fizeram os japones, chineses, coreanos e americanos, para não dizer europeus. Por isso, dão as cartas no mercado de patentes internacionais, conhecimento monetarizado.


A história mãe da verdade

Na década de 1930, Anísio pregou universalização da escola integral no Brasil, trazendo para cá a experiência revolucionária americana.

Os Estados Unidos viviam a ressaca da crise de 1929 e passaram a fazer grandes investimentos estatais em pesquisas científicas e tecnológicas, formando mão de obra técnica em larga escala, para atender a standardização empresarial e sua aplicação na economia de guerra, na expansão bélico-espacial, tocada pela moeda estatal inconversível.

O combustível, portanto, foi o gasto público, mediante emissão monetária que viera para estabelecer novo padrão monetário internacional, depois que o crash de 29 detonou o padrão-ouro, que limitava a economia capitalista em rígidos cânones orçamentários-equilibristas-deflacionários, como destacou Keynes.

A dívida pública se transformou na âncora capitalista para gerar a demanda global. A educação virou foco nacional. Anísio Teixeira viveu aquele momento e trouxe a experiência para o Brasil.

Os gastos públicos em educação, nos Estados Unidos, a partir de 1936, quando o governo Roosevelt aceita integralmente o conselho de Lorde Keynes e decide decuplicar os gastos do governo, para tirar a economia  do marasmo decorrente do crash, deram partida à experiência americana de ensino integral na educação básica.

Emergiram razões históricas conflitantes, marcando qualitativamente a diferença cultural entre Estados Unidos e Brasil, naquele momento.

A nação americana foi colonizada pelo espírito empresarial, a nação brasileira pelo espírito burocrático da península ibérica. Esta obediência às determinações manuelinas, que coordenavam as ações práticas, burocráticas, dos gerentes de Portugal, na administração da colonia. Sob regime escravista burocrático, predominou a subordinação e não a coordenação do desenvolvimento nacional sustentável.


Subordinação aos mandamentos coloniais

Cuidaram, em nome dos interesses de Portugal, de capar qualquer espírito ousadamente empresarial. Assim, a experiência americana exitosa com a educação integral entrou em choque com os interesses conservadores que levaram a elite brasileira conceber sistema educacional castrador da criatividade empreendedora.

A elitização educacional destinada a formar espíritos meramente escolásticos impediu que se prosperasse espírito econômico essencialmente renovador.

Mauá, sob o segundo imperio escolástico-escravista, subserviente aos interesses econômicos ingleses, não conseguiu vencer as misérias políticas mediante genialidade empresarial empreendedora. Prosperou contra ele o espírito burocrático português se incomodou com a extroversão criativa-empresarial de Mauá, de agir com a mente global.

Inveja pura, que levou às conjecturas de bastidores, conspiratórias, que destriram o grande empresário brasileiro do século XIX, ou seja, detonaram os próprios interesses nacionais.

Seus investimentos industriais e sua pregação industrial nacionalista, que exigia nova educação, criariam filhotes em termos de formação de mão de obra técnica que permtiria ao país partir para a sua escalada industrial no plano global.

O espírito burocrático das elites escravistas foi , portanto, o responsável pela escalada da ignorância da população em termos educacionais, pois educar o povo seria romper com os limites estreitos da própria elite.

Aníso Teixeira foi perseguido intensamente até à morte, cuja causa ainda precisa ser investida pois teria sido assassinado às vésperas em que seria indicado integrante da Academia Brasileira de Letras e pretendia fazer daquele palante sua pregação educacional renovadora, no momento em que o país vivia sob ditadura militar nacionalista, porém, anti-educação, por termer subversão.

Sementes eternas de libertação

As sementes de Anísio prosperaram sofreram tempestades e perseguições, mas seu pensamento segue firme, renovador, estimulador e permanentemente incômodo, simplesmente, porque a aposta na educação integral pública , que permite a relação da teoria com a prática, no processo pedagógico, é sempre sucesso, onde aplicada como política de Estado em busca da sustentabilidade nacional.

A experiência anisiana gerou marcas profundas no inconsciente nacional e deixou sua experiência em aberto para ser retomada pelos governadores, como José Arruda, no Distrito Federal, e, agora, pelo governo federal, quando a proposta da escola integral passa a ser colocada na agenda nacional, fortalecendo a educação básica, profissional e acadêmica, como integrantes entre si no processo de formação nacional.

O dinheiro do petróleo aceleraria a experiência anisiana, revolucionária. Trata-se, então, de antecipar dinheiro para gastos iminentes no processo educacional renovador. O lastro financeiro? A bacia de Santos. Riqueza imensa, dinheiro vivo.

Por que não colocar o pensamento de Mauá para funcionar, largando de lado o escolasticismo do pensamento positivista que fixa limites estreitos para a ação da economia política no país?


Unitização financeira para o desenvolvimento

O princípio da unitização da produção, que se sustenta no argumento de que existiria uma só camada de reservas petrolíferas, na chamada área do pré-sal, estendendo-se do Espírito Santo a Santa Catarina é a base da alavancagem nacionalista em marcha.

Se, como destacam especialistas, seria quantidade suficiente de petróleo para rivalizar com as reservas da Venezuela, a escala da especulação varia de 8 bilhões, passando por 50 bilhões, 200 bilhões, até 300 bilhões de barris. Haja petróleo.

O novo Sheik tropical, presidente Lula , está a cavaleiro, em cima do camelo. O dinheiro para a educação, disse, virá do petróleo. É fazer dinheiro já, pois , na prática, ele está em caixa.

A tecnologia para transformar em realidade o que está debaixo da terra já está desenvolvida. Por que o megaespeculador internacional, George Soros, jogou quase 1 bilhão de dólares para adquirir perto de 24% das ações ordinárias da Petrobrás?

Certamente, não estaria preocupado por ter a empresa perdido nas últimas semanas valor de mercado da ordem de 70 bilhões de dólares. Cosquinha para o tamanho do negócio chamado Petrobrás, que entrará, brevemente, na área dos fertilizantes, para libertar oos agricultores brasileiros das importações cujos preços são oligopolizados.

Condição histórica excepcional

Lula está com a faca e o queijo nas mãos. O dinheiro pode ser levantado. O próprio George Soros estaria interessado em ajudar o presidente Lula. Prosperaria seu próprio negócio.

Eis a globalização do capital, que coloca em um mesmo patamar de interesse o Palácio do Planalto e o megainvestigor internacional, demonstrando que, realmente, as finanças governam os governos.

O dinheiro do petróleo monetizaria em excesso a economia, gerando maldição inflacionária?

Esse é o alarme levantado pela revista Veja, que vocaliza os interesses dos grandes investidores internacionais do petróleo, preocupados com a decisão de Estado que leva a União a participar da partilha direta com as empresas no resultado da exploração do petróleo.

A pauta política nacional passa a ser essencialmente nacionalista em torno da destinação dos recursos que serão antecipados pela riqueza monetária líquida em que se transformou o petróleo, no contexto em que o dólar se desvaloriza por conta do colapso bancário nos Estados Unidos, que leva a economia à recessão.

Quem renuncia à utilização do excesso do dinheiro disponível em caixa, para tocar o desenvolvimento, se é confrontado com argumento monetário de que os investimentos públicos gerariam forte liquidez monetária que levaria à explosão inflacionária?

A realidade não é pre-estabelecida, não se trata de livro já escrito, mas a escrever pela ação humana, que é, essencialmente, política. Por que renunciar a essa caracterítica essencialmente humana em nome do desenvolvimento, a fim de render-se às preocupações excessivamente conservadoras?

Certamente, essa estratégia levará o governo, liquidamente financeiro, com as reservas monetárias engordadas pela receita antecipada do petróleo, a ganhar cacife para renegociar seus débitos, com descontos mais consideráveis, dada sua vantagem comparativa expressa nas reservas petrolíferas, dinheiro vivo.

Melhor lastro, impossível. Faltaria , portanto, não a economia, mas a politica.

Lula se renderia ao discurso que os credores ditaram pelas páginas da Veja ou imporia a sua agenda, no momento em que o Brasil dispõe dessa condição excepcional de fazer sua própria agenda, ancorada na sua riqueza sobreavalorizada no cenário da sobredesvalorização do dólar, bombardeado pela crise bancária?

Medo da própria riqueza?

Doha sinaliza guerras cambiais

Celso Amorin
Celso Amorin

O fracasso nas negociações de Doha, em Genebra, sinaliza aumento da competição comercial internacional, acompanhada de políticas cambiais cada vez mais flexíveis, como resposta à sobredesvalorização do dólar, que desvaloriza a dívida americana e favorece as exportações dos EUA, simultaneamente, como resposta à desaceleração interna gerada pela crise bancária, detonada pela interrupção do crédito, enforcado pelo colapso imobiliário.

Os impasses explícitos entre EUA e Europa, de um lado, e China e Índia, de outro – com o Brasil fugindo da rinha para uma acomodação mineira – , demonstraram que são grandes as dificuldades para se organizar as trocas comerciais globais.
Há excesso de manufaturados estocados em forma de capacidade produtiva ociosa nos países capitalistas cêntricos, no compasso acelerado do aumento da produtividade impulsionada pela ciência e tecnologia a serviço da produção.
Como desovar?
Guerra cambial. Como competir com o dólar desvalorizado, senão promovendo desvalorizações das moedas nacionais para tornarem compatíveis as relações de troca?
Como subsidiar estoques internos inconsumíveis em face de possível esfriamento econômico gera tensões fiscais, desvalorizar o câmbio pode, no contexto da desvalorização acelerada do dólar, voltar a ser opção.
Doha comprovou que não há entendimento entre produtores de matérias primas básicas e semi-manufaturados, de um lado,  e os produtores de manufaturados de ponta científica e tecnológica, de outro.
Ambos os lados precisam de uma só coisa: mercado, mas os preços que cobram, de lado a lado, são altos e não se chegou, por enquanto, a um acordo.
Os emergentes querem exportar produtos agrícolas para os países cêntricos que não querem importar, mas subsidiar o produto interno.
Os ricos querem exportar suas mercadorias de alto valor agregado que se desvalorizam mediante abertura comercial total dos países emergentes, enquanto apelam ao protecionismo velho de guerra. Angu global.
No contexto inflacionário impulsionado pelo dólar sobredesvalorizado, as mercadorias secundárias – bens industrializados – encontram dificuldadades para se valorizarem, devido à concorrência global, enquanto as mercadorias básicas, matérias primas ganham valorização súbita, impondo deterioração nos termos de troca e, consequentemente, pressões tanto deflacionárias como inflacionárias.
A guerra econômica, em face do fracasso de Doha, salvo ludidez de última hora dos negõciadores, está no ar.

Radicalização contra os emergentes

A exigência máxima dos Estados Unidos e da Europa em favor de corte de mais de 50% nas tarifas de importação de produtos industrializados pelos países emergentes, enquanto resistem a cortar subsídios no montante de apenas 15 bilhões de dólares, cria guerra comercial.
O governo brasileiro, no contexto inflacionário, que o obriga a tomar medidas que evitem o desânimo empresarial, especialmente, na política cambial, terá que jogar mais agressivamente no comércio internacional, para não sufocar a industria nacional, mantida a sobrevalorização do real frente ao dólar.
As declarações empresariais guardam expectativas desaceleracionistas. Elas, por sua vez, criam psicologias que se expressam em restrição ao impulso animal empresarial para o investimento, já que vêem fatores de perturbação no horizonte. Estes colocariam em risco o seu capital. É o momento em que o empreendedor perde a visão do que Keynes denominou de eficiência marginal do capital, isto é , o lucro.
O perigo para o governo Lula é o avanço das incertezas que desatam intensas resistências psicológicas negativas e restritivas em matéria de investimento. Diante das incertezas internas, sobraria a visão do passado, ou seja, as certezas externas, impulsionadas pela mão do Estado por meio das desvalorizações cambiais.
O passado, porém, traz seus pecados: as pressões inflacionárias. Elas, nas águas da desvalorização, jogaria areia no PAC. Os empresários, envolvidos com ele, refariam suas contas, para saber até onde o jogo do juro alto contra a inflação influenciaria suas margens de lucro. Exigiriam preços e reformulações de contratos etc.
Forma-se, com as pressões inflacionárias atacadas pelo juro exageradamente alto, conjunto de expectativas psicologicamente carregadas de receios negativos, que seriam adequadas para os empresários exportadores fortalecerem discursos voltados para a sobredesvalorização do real frente ao dólar.
A moeda nacional está quase 140% mais cara do que o dólar no espaço de 24 meses encerrados em junho. Se fragilizar o gás do governo, para bancar a sobrevalorização do real, crescerão as pressões exportadoras, com o discurso de que são geradoras de saldos comerciais capazes de atenuar o deficit em contas correntes que avança com o dólar barato.
O governo Lula passa a enfrentar novo contexto internacional, inverso ao que saboreou nos últimos quatro anos. Se antes, o mercado estava, para os emergentes, mais comprador do que vendedor, agora, como demonstra Doha, a situação se inverte: os ricos querem desovar seus estoques de qualquer jeito, mediante pregação agressiva de abertura comercial, em Genebra, porque temem deflação em face do dólar sobredesvalorizado que impõe deterioração nas relações de trocas entre produtos primários, em alta, e secundários, em baixa.

Lula segue lição de Ruth

Morta, na terça, 24, de arritmia cardíaca, aos 77 anos, Ruth Cardoso, antropóloga socialista marxista, nascida em Araraquara, em 19 de setembro de 1930, criadora e gestora do programa Comunidade Solidária, no Governo FHC, 1995-2002, deu pontapé histórico na virada das políticas governamentais, que passaram a trabalhar a superação da fome, no Brasil, como estratégia de economia política para impulsionar a política econômica.

Lula, com o programa Bolsa Família, segue lição dela, que poderia ter chegado à Presidência da República, se FHC tivesse antevisto o poder político-eleitoral do solidarismo comunitário e a lançado sua sucessora, para enraizar o PSDB nas massas, algo ainda não materializado, historicamente. Teria, talvez, pintado a Evita Peron Cardoso nacional consagrada nas urnas.

Tratou-se de alternativa que iniciou, lentamente, a tarefa capaz impulsionar o capitalismo nacional, livrando-o dos perigos agudos das crises deflacionárias-inflacionárias crônicas decorrentes do subconsumismo propulsor de derrocadas cambiais. Estas foram responsáveis por desmoralizar a moeda nacional e levar o país às recorrentes instabilidades políticas, econômicas e sociais, que balançaram e derrubaram governos, instaurando ditaduras, fragilizando e atrasando processos democráticos.

Os programas sociais, até então trabalhados como assistencialismos populistas, na linha do Programa Legião da Boa Vontade, substituído pelo Comunidade Solidária, a partir de 1995, passaram a exercer papel de estabilizador da inflação. Ao elevarem o consumo interno, por meio de ampliação do poder de compra dos miseráveis, dotados de cartão de crédito, evitaram as repetidas sobredesvalorizações cambiais, baixadas para ampliar as exportações, como forma de diminuir os estoques inconsumíveis.

Antes, os empresários, sob pressão dos estoques altos, impossibilitados de serem consumidos, graças ao crônico subconsumismo nacional histórico, corriam aos governos em busca de depreciações da moeda nacional.

O resultado, invariavelmente, era pressão inflacionária. A taxa de câmbio, ajeitada pelo governo, para permitir desova dos estoques, elevava os preços, corroia os salários, agitava os sindicatos. Impulsionava, enfim, a corrida preços-salários. A instabilidade econômica se transformava em norma cujos efeitos eram, consequentemente, tensões sociais e desestabilizações políticas.

Com os programas sociais, ganhando impulso, a situação começou, gradualmente, a mudar. Primeiro, timidadamente, com FHC, por meio da orientação social, imprimida por Ruth Cardoso ao Programa Comunidade Solidária; posterioremente, com Lula.

Nascido, no Brasil, na Universidade de Campinas; copiado pelo ex-governador Cristóvam Buarque, quando governador do Distrito Federal; semente do Programa Renda Mínima, proposto como projeto de lei pelo senador Eduardo Suplicy(PT-SP), copiado, por sua vez, de ideólogos americanos liberais, o Bolsa Família se afirmou como política governamental indispensável ao sistema capitalista nacional.

Ruth Cardoso, autora de teses antropológicas sobre o desenvolvimento econômico, social e político dos emigrantes japoneses, intelectual de peso específico próprio e respeitada pelos trabalhos acadêmicos que realizou, colocou em prática modalidade de promoção social gestada pela necessidade de preservar o próprio capitalismo.

Enxergou-a como atenuante indispensável ao sistema contra sua tendência natural à sobreacumulação de renda e capital, cujas consequências, como destacou Marx, são crônica insuficiência de demanda global. Ruth Cardoso aprendeu a lição do autor de “O Capital”: “Produção é consumo. Consumo é produção”. Ambos se interagem dialeticamente.

O presidente Lula, como a prática demonstra, intensificou ação nessa linha, fomentando os investimentos sociais. Deu virada histórica capaz de impulsionar o consumo interno, conferindo, por meio do Programa Bolsa Família – extensão quantitativa relativa ao Comunidade Solidária – maior poder de compra aos miseráveis.

O suicídio do Congresso

César Fonseca


O enterro da CPI dos cartões corporativos representou o funeral do próprio Congresso, que se suicidou, ao renunciar, olimpicamente, as suas próprias prerrogativas. Os congressistas não jogaram com a dialética, porque estão dominados pelo pensamento mecanicista, bancário, jurista, que, como dizem os mineiros, cultiva os juros.

Não condenaram as práticas altamente condenáveis, nem tampouco tiveram a coragem suficiente para destacar que os cartões corporativos, filhos da tecnologia da informação, são, evidentemente, um avanço ético na convivência republicana.

No mundo da moeda de plástico, em que o poder monetário é fictício, construído sobre a moeda sem lastro – desde a grande crise de 1929 – os cartões de crédito significam avanço no plano da transparência e, igualmente, dos abusos, por parte dos que metem a mão no bolso para gastar dinheiro dos outros, dos contribuintes.

Ocorreram os abusos? Sim, demais. Publicamente, reconhecido e comprovado, o poder, em Brasília, é excessivamente gastador e agride a consciência moral da cidadania, quanto mais avançam as informação que formam opinião. Mas, os poderosos, como as práticas abomináveis têm demonstrado, não estão nem aí. Se safam, agora, nas CPIs.

Os abusos nos gastos não foram punidos, os acusados se salvaram e os atos de espionagem e sabotagem política ficaram por isso mesmo. Carnaval e Quarta Feira de Cinzas, tudo junto.

O governo se ancorou na sua prerrogativa de não informar sobre os gastos secretos da administração lulista com os cartões corporativos. Teriam bancados excessiva mordomia de filha do presidente, que estuda na capital catarinense? Não foi, por isso, possível comparar com as informações vazadas pelos gastos desnecessários do governo FHC.

O vazamento foi provocado pelo fogo amigo – que tenta detonar a ministra Dilma Roussef, agora, novamente, alvo de escândalos na venda super-faturada da Varig para a Gol – ou por forças oposicionistas incrustradas dentro do governo, na base da vida no mundo de 007?

O fato é que o essencial foi ao ar, ou seja, os números dos abusos de gastos com cartões corporativos. Imagine antes quando a moeda utilizada não era a de plástico, mas notas fiscais sub ou super faturadas, para conveniência do infrator?

As evidências dos abusos comprovaram a imoralidade republicana nos gastos do poder neorepublicano. O que disse o relatório do deputado Luiz Sérgio(PT-RJ), para dar conta dos trabalhos da CPI à sociedade? Não disse, escondeu o fato.

A oposição, igualmente, não saiu bem na fita, sem força moral. Não se revelou com suficiente fôlego para a bataqlha, criando fatos para discussão do assunto diretamente com a sociedade. Deixou no ar que tinha alguma cumplicidade com o vazamento do dossiê – que a ministra da Casa Civil, acusada de construí-lo, para chantegear FHC, disse ser banco de dados. Ficou parecendo que o episódio do vazamento se deveu às artes das cortes sheakespeariana, onde todos são coniventes.

A oposição se negou a questionar, para valer, um dos seus membros, o senador Álvaro Dias(PSDB-PR), cujo assessor parlamentar recebeu de um funcionário da Casa Civil, o famoso dossiê.

Os governistas e oposicionistas renunciaram às suas prerrogativas constitucionais. Os governistas se recusaram a condenar práticas abusivas, enquanto os oposicionistas jogaram panos quentes sobre a espionagem. Repetiram comportamento adotado na era FHC, quando evitaram investigar compras de votos para aprovar emenda da reeleição. Governo e oposição, tudo a ver.

Falência das CPIs

O instrumento político constitucional – Comissão Parlamentar de Inquérito(CPI) -fortalecido pelo Constituição de 1988, recebeu extrema unção sob a governabilidade provisória neorepublicana.

Ficou demonstrada  sua inutilidade. Negou a lei maior do capitalismo, ancorado na ideologia utilitarista. “Tudo que é útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”(Keynes). O Congresso declarou não ser verdadeiro por ter deixado de ser útil, algo reconhecido pelo seu presidente senador Garibaldi Alves(PMDB-RN).

Os congressistas brasileiros, reféns das MPs, renderam-se, completamente, ao pensamento mecanicista, anti-político. Perderam, na análise dos cartões corporativos, conforma demonstra relatório do deputado Luiz Sérgio(PT-RJ), a capacidade essencialmente político-congressual de trabalhar os contrários, tratando a realidade do ponto de vista dual, interativo, reagente, transformador, dialético.

Comprovaram que os próprios partidos estão em xeque. Canais por onde os antagonismos e contradições se realizam dialeticamente, sob ambiente democrático, as agremiações partidárias foram enterradas pelo pragmatismo das MPs, expressão da negação político-parlamentar, que inviabiliza o contraditório, ou seja, a democracia. A essência neorepublicana se mostra essencialmente anti-democrática.

Nesse ambiente, os congressistas, no comando das CPIs, viciaram-se na corrupção produzida pela intermediação de recursos parlamentares por meio de emendas ao orçamento da União, cujas aprovações dependem dos favores do Executivo ao Legislativo.

Suas posições, nas CPIs, subordinam-se não à moralidade pública, mas ao atendimento dos interesses que estão por trás de suas emendas legislativas nem sempre morais.

O Legislativo demonstrou ser subordinado ao Executivo na produção de relatórios que analisam o comportamento do Executivo. O gesto dos congressistas comprova que, no Brasil, mediante as medidas provisórias, o Executivo legisla e o Legislativo executa. Inversão geral de papéis. O conteúdo do relatório nega a essência da atividade parlamentar.

Os governos neorepublicanos, imobilizados pelo excessivo endividamento, exercitaram, com as medidas provisórias, a fantasia terceirumundista da democracia parlamentar – erguida historicamente como representação política do capital – sem dispor da democracia econômica.

O carater imediatista da governabilidade provisória criou, ao longo da Nova República, o desvio do caráter constitucional do Legislativo frente ao Executivo, sob o domiínio de uma política econômica ditada pelos credores, maiores beneficiados por mais um aumento de 0,5 pontos percentuais na taxa de juro, na última semana, em nome do combate à inflação.

O imediatismo provisório é o pai do relatório final da CPI dos cartões corporativos e o mentor do pensamento mecanista neorepublicano no balanço do juro real mais alto do mundo, bancado pela provisoriedade neorepublicana.