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Coalizão presidencial entra em crise na gestão empresarial-neoliberal do capitalismo estatal

Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 30-01-2012

A determinação da presidenta Dilma Rousseff de realizar um governo eminentemente técnico, colocando para escanteio o governo político, que reflete as correlações de forças político-partidárias, capazes de sustentar a governabilidade sob presidencialismo de coalizão, em nome da prevalência de uma gestão profissional empresarial-neoliberal, pode abrir crise política monumental. Trata-se de proposta politicamente explosiva que irá, nos próximos meses, merecer grandes discussões no Congresso Nacional, em ano eleitoral, agitando geral a base multipartidária dilmista. Disposta a caminhar ancorada no pensamento técnico, oposto ao pensamento político, que domina a cena governamental, a fim de priorizar gestão de qualidade capaz de combater desperdícios no custeio da máquina estatal, a titular do Planalto conta, para essa tarefa, com o empresário Jorge Gerdau Johannpeter, em processo de se transformar no alterego dela. Gerdau se propõe a uma ação que o colocaria teorica e praticamente como superministro, distribuindo recomendações e articulando coordenadas, baseadas no princípio da eficiência privada, determinada a minimizar custos e maximizar lucros. Caminhana linha oposta que caracteriza o perfil de governo, historicamente, comprometido em maximizar custos e minimizar lucros. A perseguição dessa meta ousada e políticamente conflitiva Dilma delegou, também, à ministra da Casa Civil, Gleisy Hoffmam, já trabalhando, sintonizadamente, com Gerdau. Tremendo desafio histórico que contradiz as bases do próprio capitalismo estatal, incompatível, conforme demonstra a história contemporânea, com a eficiênca como processo de promoção da reprodução capitalista. Dilma mexe com fogo, no contexto do presidencialismo de coalizão. 2012 promete.

A presidenta Dilma Rousseff, reconhecidamente, preocupada com a determinação que se impôs de dar um jeito na administração corrupta e perdulária do estado nacional, pode estar mirando no acessório e esquecendo do principal, no esforço de levar adiante essa tarefa que seria, claro, bem vista, aparentemente, pela população, contribuindo para melhorar a imagem e a popularidade dela. Mas, seria, verdadeiramente, eficaz colocar em prática o que está pretendendo, ou seja, virar o mundo de cabeça para baixo, dotando o serviço público de administração, essencialmente, empresarial, enquanto vai abraçando a prática e a ideologia do capitalismo estatal, à moda chinesa, que, parece, está seduzindo-a? Como se sabe, a filosofia empresarial, desde sempre, com muita racionalidade, é a de maximizar lucros e minimizar custos. Ao contrário, historicamente, os governos, nas economias monetárias, têm exercitado papel inverso, isto é, o de maximizar gastos e minimizar lucros. Essa postura, evidentemente, se explica pela história do próprio desenvolvimento dialético do capitalismo, especialmente, no sécul0 20, depois da crise de 1929. Enquanto perdurou a supremacia da economia de mercado livre, puro, o que acontecia? O sistema capitalista caminhava inexoravelmente para as crises de sobreacumulação de capital cujas consequências desembocavam em pressões deflacionárias inevitáveis, decorrentes da característica essencial do capitalismo de padecer de crônica insuficiência de demanda global, como demonstrou à larga Marx, em O Capital. Tal insuficiência decorre, basicamente, do excesso de eficiência do setor privado, no compasso do desenvolvimento científico e tecnológico colocado a serviço da produção e da produtividade. Se aumenta, por um lado, a oferta, impulsionada pelo aumento da produtividade, que reduz custos e aumenta os lucros, por outro, diminui a demanda, na medida em que, no regime que prioriza o lucro, sobra cada vez menos renda disponível para o consumo. Não foi à toa que Malthus destacou ser a economia capitalista uma ciência triste, porque joga, permanentemente, o ser humano na desgraça social, visto que o salário zero ou negativo, na expressão matemática do termo, como destacou Marx, é a condição ideal, sob a economia do lassair faire, para sustentar a reprodução ampliada de capital. Que fazer diante do excesso de eficiência do setor privado que leva o sistema capitalista às recorrentes crises deflacionárias, destruidoras não apenas dos salários, mas, igualmente, do capital? Teria, como pregou Malthus, apoiado, posteriormente, com entusiasmo por Keynes, que desenvolver o contrapolo dialético compensário traduzido em dissipação-destruição de capital, para salvar o próprio capitalismo da deflação-destruição.

Nova dama de ferro 

A ministra da Casa Civil, Gleisy Hoffman, passa a ser, depois da titular do Planalto, a toda poderosa da Esplanada dos Ministérios. Dilma não quer saber de receber nenhuma proposição de governo que não pasee antes pelo critério de Gleisy, convocada para trabalhar, em sintnia com Gerdau, cujo grau de influência determina a opção presidencial de implementar o capitalismo estatal com gestão empresarial-neoliberal. O que dirão os líderes politicos dos partidos aliados de Dilma no Congresso cuja ação essencial se volta para a tarefa de obter recursos governamentais para distribuirem às suas bases eleitorais, especialmente, em ano de eleição municipal?

O aumento dos gastos do governo, totalmente, dissipadores, como chegou a defender, abertamente, o autor de “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, seria a melhor solução para o sistema capitalista na economia de guerra. Como o desenvolvimento exponencial, dado pela ciência e tecnologia conjugadas, das forças produtivas em confronto com as relações sociais da produção leva o sistema à destruição, seria preciso, então, queimar capital para salvar capital. Certo, portanto, estava Getúlio Vargas, que, diante da crise de 1929, mandou queimar café para combater o excesso de estoque deflacionário que destruia o preço do produto. Valorizou, consequentemente, o preço da principal fonte de riqueza nacional naquela ocasião, ameaçada de colapso. Os gastos dissipadores do governo têm portanto a função econômica de salvar o capital privado da deflação por intermédio da inflação, disfarçada no aumento da dívida pública. Foi por isso que se tornou necessário ao governo dispor da sua própria moeda, emitida sem lastro, rompendo com o padrão ouro, que limitava a ação governamental à pregação neoliberal, favorável ao equilibrismo orçamentário, quando a natureza do capitalismo é essencialmente desequilibradora. Ele só se equilibra no plano abstrato, nas mentes forjadas nos laboratórios de macroeconomia neoliberalizante. Do ponto de vista da racionalidade, portanto, a pregação da presidenta Dilma Rousseff de conferir eficiência ao sistema capitalista brasileiro, enquadrando o governo, para que ele atue eficientemente, como o setor privado, porporcionando a este poupança interna para investir, é pura irracionalidade. A cabeça da titular do Planalto passou a ser consumida pela ideologia neoliberal que, aparentemene, ela abomina, como integrante histórica da esquerda que lutou contra a concentração de renda patrocinada pela direita. No poder, Dilma vira um elemento inconsciente da direita, que nem Malthus, nem Keynes – os papas do capitalismo estatal -  e muito menos Marx – o anti-capitalista – aprovaria. Ela, talvez, fosse entusiasticamente, defendida pelo papa do neoliberalismo americano, Milton Friedman, da Escola de Chicago, que orientou os brucutus da economia no tempo do ditador chileno que derrubou Allende, o general Pinochet. O problema é que a dialética é o azimute da burguesia, como dizia Marx. Ela tende a ser uma pedra no sapato da titular do Planalto, quanto mais tentar pelo caminho que sugere Gerdau Johannpeter.

A política em segundo plano 

A gestão empresarial neoliberal em curso para dar um novo perfil econômico financeiro ao estado nacional, tornando sua gestão, eminentemente, técnica, a exemplo do que o Banco Central Europeu recomenda aos governos em crise financeira, na Europa, deixando a política em segundo plano, suscitando, inclusive, temores quanto ao futuro da democracia, subordinada à visão tecnocrática, deverá ser amplamente analisada e meditada com sentimentos agudos tanto pelo presidente do Congresso, senador José Sarney, como pelo vice-presidente da República, Michel Temer, os comandantes efetivos do PMDB, cuja ação entra em choque com o tecnicismo governamental em marcha. Esses dois homens fortes da política nacional engolirão as recomendações aos seus comandados no governo pela visão técnica de Gerdau, que não tem voto popular para decidir, politicamente, nada? Que dirão aos governadores e prefeitos do PMDB,o maior partido do Congresso, no momento em que sob impacto do juro mais alto do mundo as dívidas dos estados e municipios sufocam as administrações estaduais e municipais, exigindo maior flexibilidade fiscal por parte do governo? Ou os líderes partidários chegarão à conclusão que as prioridades governamentais terão que ser menos técnicas e mais políticas, indo na contramão da titular do Planalto?

Dialeticamente, a eficiência governamental , para gerenciar recursos públicos, é um contrasenso econômico, na medida em que a função dos gastos do governo é a de freiar o desenvolvimento das forças produtivas para evitar confronto com as relações sociais da produção, impulsionando radicalismos políticos, que alimentam a pregação socialista. Se se soma a natural eficiência privada, em busca de minimização de custos e maximização de lucro, com a conquista de provável eficiência estatal, também, voltada à minimização de custos, a fim de alcançar, da mesma forma, eventual lucratividade crescente do capitalismo estatal, tese abraçada pela presidenta, pode ocorrer o inusitado, isto é, a adição virar subtração. Afinal, se o governo deixa de combater a deflação, por meio de aumento de gastos, necessariamente, dissipadores, de modo a frear as forças produtivas que levam ao processo deflacionário, evidentemente, o que ocorreria, teórica e praticamente, seria aceleração hiperdeflacionária. Aumentariam os excedentes de produção, produzindo quedas de preços. Achar que a deflação é solução, como disse Keynes, é um erro eterno. O resultado imporia necessidade de desvalorização mais acelerada da moeda, para desovar estoques via exportações, como alternativa à inevitável redução potencial do mercado consumidor interno. Ocorreria uma inversão histórica em relação ao atual combate à inflação pela via da melhor distribuição da renda, trazendo em cena de novo pressões inflacionárias, dessa vez, por conta do retorno de maior concentração da renda. Hoje o governo combate à inflação distribuindo melhor a riqueza nacional. Se ele parte, como os empresários, para a maximização de lucro e minimização de custos, que levam à deflação, em nome da eficiência administrativa, corre o risco de aprofundar, claro, a deflação, da qual os governos dos países ricos tentam fugir. Acelerará tal procedimento as tensões e radicalizações políticas que arrebentariam, evidentemente, com a coalizão governamental. Acabaria o sonho de eventual segundo mandato dilmista. A inflação, patrocinada pelo governo, que esconde ela na expansão da dívida pública interna, afasta a possibilidade de afirmação da deflação, sinônimo de destruição do capitalismo. Dessa forma, pelo jogo dialético, o controle fiscal efetivo não ocorreria, evidentemente, com sucesso. O ajuste fiscal draconiano que se esboça no Planalto é arma deflacionária, com o fito de atender os credores. Opostamente, tal estratégia eleva o risco do sistema, impulsionando a taxa de juro, em vez de diminui-la. Trata-se de perseguir, justamente, o inverso do que está sendo implementado, de acordo com a crítica do economita Amir Khair, um dos maiores especialistas em contas públicas do país, cuja proposta é a de ser perseguida, pelo governo, meta de crescimento e não de inflação, à custa de corte de gastos, para garantir desenvolvimento sustentável.

Inversão de prioridades 

Consagrado especialista em contas públicas, o economista Amir Khair demonstra, cabalmente, que as economias que o governo Dilma pretende realizar em nome de uma gestão mais eficiente, de modo a desperdiçar menos recursos, que poderiam ser canalizados, compensatoriamente, para políticas sociais, teriam melhores resultados, para a estabilidade econômica geral, se os juros incidentes sobre a dívida pública interna caíssem à metade. O que se gasta com os políticos e com a gestão não-financeira do governo, em termos proporcionais, é pinto perto do que se desembolsa em pagamento de juros, comprometendo a saúde geral do sistema econômico. Os gastos com juros produzem muito mais ineficiência em termos de gestão governamental do que as economias que a presidenta pretende realizar cortando o custeio da máquina administrativa, cujos efeitos serão os de colocarem em preoceso de rebelião o presidencialismo de coalizão.  

A economia de gastos públicos que a presidenta pretende obter por meio de ajuste fiscal neoliberal, diminuindo o custeio da máquina administrativa, com o objetivo de alcançar a meta cheia de superavit primário de 3,1% do PIB, algo perto de R$ 140 bilhões, seria mais facilmente alcançável, diz o economista, se se partisse para a redução mais drásticas dos juros incidentes sobre a dívida pública. “Nos últimos doze meses encerrados em novembro(último dado disponível), só de juros, o setor público gastou R$ 236 bilhões(5,7% do PIB) e o governo federal, R$ 175 bilhões(4,3% do PIB). Enquanto as despesas totais do governo central(Tesouro, Previdência Social e BC) evoluiram 2%, abaixo, portanto, da inflação de 6,5%, a despesa com juros evoluiu 44,4%! Apesar disso, as críticas ao governo se concentram na queda dos investimentos de R$ 2,7 bilhões em relação ao ano anterior, mas o mais importante, que passou despercebido, foi o aumento de R$ 51 bilhões nas despesas com juros”. Ou seja, trata-se de quantia maior do que o total dos investimentos públicos previstos para esse ano, em torno de R$ 48 bilhões. E o brilhante economista segue adiante com sua lógica cristalina: “Se o Brasil adotasse uma política de taxa básica de juros equivalente à praticada nos países emergentes(média de 5% ao ano), seria possível, com base em novembro, economizar R$ 205 bilhões(!) por ano, considerando a dívida mobiliária do governo federal de R$ 1,7 trilhão. Esses recursos dariam com folga para atender o deficit social e de infraestrutura do País. Portanto, não faltam recursos; trata-se de não desperdiçá-los”. Predomina, desse forma, falso moralismo e alienação no discurso presidencial quando diz que se busca uma gestão mais eficiente, se a ineficiência se expressa claramente na política de juros. Enquanto o orçamento da educação – a maior carência nacional – foi de R$ 67 bilhões, em 2011, tendo sido aplicado sobre esse total um corte de mais de R$ 500 milhões, como economia forçada(superavit primário) para pagar juros, a banca levou para seus cofres, a titulo de serviço da dívida, até agosto, R$ 120 bilhões!  Se os juros selic, como sugere Khair, caissem para 5% ao ano, seriam economizados, ao longo de 12 meses, R$ 118 bilhões, ou seja, quase duas vezes o orçamento do Ministério da Educação.

Privilégio garantido 

O poderoso banqueiro Roberto Setúbal, do banco Itaú, considera altamente produtivo que a presidenta Dilma esteja realizando um governo essencialmente técnico, colocando em segundo plano a política, como orientadora das decisões governamentais. A prioridade total à formação de um superavit primário cheio capaz de produzir economia de gastos forçada na casa dos R$ 140 bilhões( duas vezes o orçamento da educação) garantirá a lucratividade excepcional dos bancos, enquanto colocará em risco a ofertas de serviços públicos para a sociedade na escala satisfatória capaz de estabilizar as relações sociais com o capitalismo estatal sob gestão empresarial neoliberal.         

A gestão competente dos gastos públicos teria que ser feita no orçamento financeiro, que diz respeito ao pagamento dos serviços da dívida às taxas de juros escorchantes, e não no orçamento não-financeiro, que diz respeito à vida dos cidadãos, consumidores de ofertas precárias de serviços públicos, saúde, educação, segurança, infaestrutura etc. Assim, as recomendações do empresário Gerdau, que está tentando se despontar como superministro, dando conselhos gerais, na República, para cortar gastos da máquina administrativa, estão mal colocadas. Ele visa a aparência e não a essência do problema. Bastaria a presidenta chamar a Brasília, como fazia Delfim Netto, no tempo da ditadura militar, os banqueiros, e dar um arrocho neles, em vez de arrochar os trabalhadores, os usuários dos serviços públicos, sucateados. Os privilégios dos banqueiros estão escritos na Constituição, por meio de cláusula pétrea, no artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b. Nele fixa-se que podem ser contingenciados os recursos do orçamento não-financeiro, mas jamais os recursos do orçamento financeiro. Ou seja, a prioridade absoluta da política econômica é pagar juros. República jurista! Os políticos, sob a orientação dada por Gerdau, são os bodes expiatórios. Os recursos que são destinados a eles não fazem sequer cosquinha, se comparados aos que se destinam ao cofres da banca, graças aos juros mais altos do mundo, causadores, claro, do deficit e da inflação, sem falar no assalto ao crédito direto ao consumidor, que leva este ao permanente perigo de inadimplência. Se os congressistas não discutirem, para valer, a cláusula pétrea constitucional que garante a prioridade dos recursos do tesouro nacional ao pagamento dos serviços da dívida a juros escorchantes, acabarão, naturalmente, sucateados, quanto mais avançar o capitalismo estatal sob gestão empresarial neoliberal. Dilma vai preferir contiuar sendo elogiada pelos banqueiros, como foi pelo presidente do Banco Itaú, Roberto Setubal, em Davos, por estar fazendo governo eminentemente técnico, ou dará mais atenção aos políticos, dos quais depende para governar sem maiores tempestades, assim como para abrir espaço ao seu segundo mandato? Ou ela já está renunciado a essa possibilidade em nome do voluntarismo anti-político?

Infarto do capitalismo exige superação da economia de guerra pela economia da paz

Categoria: (Cultura, Economia, Política) por Conselho Editorial Sul-Americano em 27-01-2012

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL. A estrutura produtiva e ocupacional sobre a qual se assenta o capitalismo - a guerra e a especulação financeira - levaram a humanidade a um beco sem saída. Faz-se, necessário, portanto, superar a economia de guerra -a negação - , que deixou de ser útil à própria reprodução do capital, para dar lugar ao seu oposto, ou seja, a economia da paz - a negação da negação - a fim de salvar o ser humano dos perigos fatais produzidos pelo impasse decorrente do desenvolvimento das forças produtivas, de um lado, e o das relações sociais antagônicas, de outro, de modo a abrir possibilidades a expansão do espírito humano a uma nova era, ancorada na vontade solidária de construir nova estrutura produtiva e ocupacional, tirando da frente os empecilhos que colocam em risco a sobrevivência humana no planeta terra.

Implode o estado capitalista

O capitalismo está no banco dos réus em Davos e em Porto Alegre.

Destacam generalizadamente que chegou a hora de melhor distribuição da renda para que ocorra uma reinvenção do sistema capitalista.

O chato, no capitalismo,  é que quando tudo vai, relativamente,  bem, não tem porquê distribuir; quando tudo vai, relativamente, mal, como agora, não tem o que distribuir. É ou não é?

Fica esse cinismo aí!

Na verdade, o de que se trata é saber se a lei geral do capital permite o que se está pregando, isto é, a igualdade.

No tempo de Delfim Netto, ditadura militar, ele preferiu destacar que, primeiro, era preciso fazer crescer o bolo, para, depois, distribui-lo.

O bolo cresceu, veio o milagre econômico,  mas foram poucos os que o abocanharam.

Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, onde avançaram práticas políticas sociais democráticas, ancoradas no Estado do Bem Estar Social, emergem os impasses.

Excessivamente, endividados, os governos, garantidores desse Estado do Bem Estar, sob pressão dos credores, são obrigados a cortar os benefícios sociais, de modo a sobrar mais para os banqueiros, os que compram os títulos do governo com o dinheiro do governo, a moeda papel sem lastro, fictícia.

Tem um problema: para continuarem pagando os seus credores, os governos precisam continuar se endividando. Essa é a função deles: gastar para distribuir.

Agindo assim, produzem consumo, sem aumentar a produção, freiando as forças produtivas e atenuando as relações sociais da produção, evitando, consequentemente, as tensões políticas produzidas pelas próprias contradições detonadas pelo capitalismo.

José Graziano, o brasileiro que chegou à direção da FAO, dá o tom da nova economia da paz para substituir a economia de guerra. Ela se voltaria para garantir aos seres humanos socialmente excluídos o direito de consumo como alternativa econômica fundamental para girar a produção global, impulsionando os mercados internos, assegurando aos governos arrecadações capazes de impulsionarem os investimentos em infraestruturas indispensáveis para resgatar os marginalizados pelo sistema capitalista que deixa de ser socialmente útil.

Se o governo não pode endividar-se, por já ter dívidas demais, não pode, também, distribuir, nem pode, portanto,  arrecadar, perde sua função e utilidade, deixa, de acordo com a ideologia utilitarista, que dá vida ao capitalismo, de ser verdade.

Não é à toa, portanto, que o calote na dívida se transforma, nos países ricos, em solução, mediante prática de juro zero ou negativo, para que haja espaço capaz de permitir que o endividamento governamental continue.

O juro perde a função no sistema: se existir, quebra o governo, do qual o sistema, na economia monetária, depende, visceralmente.

Deixa de existir, especialmente, nos países ricos, em crise total, a preocupação com a preferência pela liquidez, bloqueadora dos investimentos, mas estes, igualmente, ficam comprometidos, pois, se o governo não pode gastar, devido aos excessos de dívidas, quem investirá, mesmo se o juro for zero ou negativo?

Ou seja, elimina-se, simultaneamente, tanto a preferência pela liquidez como a opção pelo investimento, ambas anuladas, na medida em que o governo, cheio de papagaios, não pode mais gastar para puxar a demanda global, na escala necessária capaz de sustentar a reprodução ampliada do capital.

Se, realmente, o Estado,  como disse Lenin, é a expressão acabada da luta de classes, existindo, sob o capitalismo, para satisfazer os interesses dos capitalistas em detrimento dos interesses dos trabalhadores, o baque capitalista global compromete a capacidade da classe capitalista de continuar no comando do processo político, porque, em obediência à própria ideologia utilitarista, suprassumo do capitalismo, deixa de ser útil.

Está em jogo o controle do poder do Estado, visto que o governo capitalista, simplesmente, enfartou na crise de 2008 e não demonstra competência para continuar no comando do processo político, no compasso do aprofundamento do antagonismo de classe em marcha inexorável.

Apodrece estrutura produtiva

FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL. A confusão é geral em Davos. Cada um vai para um lado. A Alemanha, a mais rica, diz que não pode emprestar aos mais pobres. Os mais pobres, como Portugal, dizem que não podem pagar. Os remediados,como os ingleses e os franceses, que estão em queda livre, querem fugir, os primeiros, da Europa, os segundos, de si mesmos. Os Estados Unidos, divididos entre si, estão sem rumo, entre a deflação e a inflação, propensos a dar a calote no mundo. Os europeus debatem se vale ou não a pena continuar com o capitalismo, que deixou de ser útil, para atender as demandas sociais. Estas, ao contrário, têm que ser eliminadas para aqueles que detêm o poder do Estado capitalista, ou seja, os banqueiros, continuem garantindo sua lucratividade. Está em cena, mais do que nunca, o acirramento da luta de classes pelo comando do poder estatal. A direta se esfacela, desunindo-se internamente. Já a esquerda se encontra desorganizada, porque acreditou na eficácia do remédio da direita que se desmancha, ou seja, o estado do bem estar social. Emerge o estado do mal estar social que joga uns contra os outros, gerando incompatibllidades gerais. O clima revolucionário se acirra, mas como os revolucionários, simplesmente, estão desorganizados, abre-se o campo para o fascismo, que se fortalece no ambiente em que o medo social quanto ao futuro domina as mentes fragilizadas pelas incertezas. Mas, a economia capitalista, em sua versão, essencialmente, fascista demonstra ser inviável.

Torna-se indispensável, como diz Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, Campus, 1980, ver o sistema do alto da montanha e não do meio da floresta.

Do alto, se percebe que o que se esgotou é a estrutura produtiva e ocupacional.

Que estrutura é essa?

Aquela que emergiu depois da crise de 1929, muito bem expressa no conselho de Keynes a Roosevelt, em 1944, diante do colapso do padrão ouro, sob economia de mercado:

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego -, exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer a sua força”.

Ou seja, a estrutura produtiva e ocupacional que se ergue no rastro do crash de 1929 é, nada mais, nada menos, do que a economia de guerra.

Por isso, é preciso voltar a Marx, quem melhor teorizou e dissecou o sistema capitalista.

O autor de O Capital disse que o capitalismo desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver ao máximo as forças destrutivas, na guerra, mediante os gastos do governo, algo que ele não descreveu, largamente, apenas, esboçou, porque morreu antes.

Evidencia-se que agora o que sofreu infarto não é apenas as forças produtivas, mas, também, as destrutivas, de modo que o edifício desabou, como os três prédios na tragédia recente no Rio de Janeiro.

O pensamento de Keynes poderia ser aperfeiçoado à luz da pregação marxista, no momento em que o capitalismo se encontra infartado:

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego -, exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, acabarão destruindo suas forças”

Ou seja, está em jogo a democracia, diante da crise capitalista.

Trata-se, portanto, de, seguindo as pegadas de Marx, discutir tanto o esgotamento das forças produtivas, impulsionadas pelos departamentos I – de produção de bens de consumo – e II – produção de bens de produção(bens de capital) – e das forças destrutivas, alavancadas pelo departamento III – gastos do governo, alavancador, depois da crise do lassair faire, da economia de guerra.

Em 1929, entraram em colapso, os departamentos I e II, detonados pelo processo deflacionário, como fruto final da economia de livre mercado; em 2008, implode o departamento III, nascido para salvar o lassair faire, por meio do desenvolvimento de nova estrutura produtiva e ocupacional dependente da ampliação dos gastos do governo – produção bélica e espacial, especulação financeira, desregulamentação bancária etc.

O infarto capitalista se dá, agora, no departamento III, configurando uma crise completa do sistema.

Desenvolvimento das contradições

CABEÇA DIALÉTICA REVOLUCIONÁRIA. Marx demonstrou que o desenvolvimento das forças produtivas, impulsionado pela ciencia e tecnologia colocadas a serviço da produção e da produtividade, entraria em choque, sempre, com as relações sociais da produção, organizadas para manter os trabalhadores em posições subalternas no processo político, levando-os a se organizarem, para construir a opção socialista. A deflação, como fruto do processo capitalista competitivo, entraria em colapso, abrindo espaço para o sistema tentar se eternizar por meio da inflação, impulsionadora das forças destrutivas, comandadas pelo o dinheiro emitido pelos governos capitalistas. A estrutura produtiva e ocupacional criada a partir desse projeto, cuja função seria a de tentar frear as forças produtivas explosivamente deflacionárias, entrou em crise de realização em 2008, com a falência da financeirização econômica global. Os antagonismos de classe voltam a se acirrar. Entra em cena, o fundamental: o controle político do Estado, visto que os que o comandam no momento deixaram de ser úteis aos interesses sociais, que despertam do sono profundo da alienação produzida pelo capital que sofreu violento infarto.

A economia capitalista, até final do século 19, como teorizou, largamente, Marx, sustentava-se no bimetalismo(ouro e prata) monetário, dinamizador dos dois departamentos econômicos em desenvolvimento contraditório: o departamento I, bens de consumo; segundo, o departamento II, bens de produção.

A interação entre ambos desenvolveu ao máximo as forças produtivas sob a lei geral do capitalismo, ou seja, a busca do lucro,  cujo pecado capital, disse o mestre, é o de produzir crônica insuficiência de demanda global.

Por que?

Marx gozou a cara de Jean Baptiste Say, o pai dos neoliberais, segundo o qual toda oferta gera demanda correspondente, de modo que o sistema capitalista viveria eterno moto  continuo, sem crises de realização.

A famosa Lei de Say, disse Marx, seria válida, se toda mercadoria que vai para as prateleiras dos mercados fossem vendidas sem lucro. Gastou 100 para produzir, vende por 100. Oferta e demanda iguais, eternas, ótimo. Aí, tudo bem, não haveria crise.

Porém, o empresário, quando bota seu dinheiro no negócio, quer ter retorno lucrativo – joga 100 para recolher 150, por exemplo – , pois, caso contrário, exerce a preferência pela liquidez, deixando seu dinheiro render no juro composto, é claro.

Como é o lucro que move o capital, o empreendedor, ensina Marx, compra capital fixo(C) – máquinas e equipamentos -  e capital variável(V) – trabalho assalariado e matérias primas -, para produzir mercadorias, a fim de vendê-las, lucrativamente.

Ou seja, ele gasta C + V, mas precisa recolher C + V + S, sendo S o lucro. De onde vem S, perguntará, sempre, Marx, para concluir que não vem. Por que?

Simples: o valor que o empresário recolhe da venda das mercadorias que fabrica tem que ser maior do que o valor que o trabalhador recebe em forma de salário para produzi-la.

Desse modo, a totalidade do valor gerado pelo trabalho será sempre inferior à totalidade do valor obtido pelo empresário.

Haverá, portanto, um gap eterno entre esses dois valores, cujo resultado é a insuficiência crônica de demanda global, no sistema.

Na prática, ocorre o óbvio: a diferença entre esses dois valores é apropriada pelo capitalista em forma de salário não pago. Roubo.

Se falta uma parte da renda do trabalhador, que se transforma em lucro do capital, faltará sempre renda disponível para manter em equilíbrio produção e consumo.

O desequilíbrio é a expressão real do capitalismo. O equilíbrio é uma ficção inventada nos laboratórios dos economistas neoliberais.

Marcha para a deflação

PACIÊNCIA SOCIAL ESGOTADA COM CAPITALISMO. As massas, ameaçadas pela debache capitalista, que destroi o estado do bem estar social, que a social democracia capitalista ergueu, precariamente, para conviver com a sobreacumulação de capital, na base da especulação, vão às ruas para contestar a continuidade do sistema, que deixou de ser funcional. De agora em diante, está em jogo o controle político do Estado. Este, como produto do antagonismo de classe, que estava a serviço do capital, reproduzido na base da especulação, entrou em colapso, não podendo mais ser referência para a sustentabilidade social. Uma nova etapa de desenvolvimento da humanidade se abre com a crise do departamento III da economia capitalista voltada para sustentação da economia de guerra. O interesse social aponta que a alternativa adequada a ela é o seu oposto, a economia da paz, incompatível com o individualismo, o egoismo e ambição sem limites, a conduzirem a humanidade ao impasse total.

Evidentemente, o sistema, em permanente desequilíbrio, como expressão da sua verdade essencial, caminha, inexoravelmente, para a deflação, pois haverá sempre sobra de mercadoria para a falta de salário capaz de consumi-la.

A menos que haja distribuição da renda. Mas, essa não é a função do capitalismo.

A produção dos dois departamentos – o de bens de consumo e de bens de produção – caminharia, evidentemente, em termos cabais, para uma eterna sobreacumulação de capital geradora de pressões deflacionárias, visto que o ideal, para o sistema, como disse Marx, é a vigência do salário zero ou negativo, na sua expressão matemática do termo.

O desequilíbrio estrutural do capitalismo, apoiado nos departamentos I e II, motivou grandes polêmicas entre os economistas clássicos, com destaque para Malthus, na primeira metade do século 19, quando reconheceu que a economia é uma ciência essencialmente triste, porque produz não a felicidade, mas a desgraça do ser humano.

O desenvolvimento das forças produtivas, no compasso do avanço científico e tecnológico, potencializador da produtividade, entrará, sempre, em choque com o desenvolvimento das relações sociais da produção, que precisam ser contidas, via arrocho salarial, para sustentar a lucratividade do capital, embora esta seja alcançada sob pena de levar o sistema à deflação, isto é, a sua própria destruição.

Por isso, Malthus, gênio, revelou que o sistema capitalista é incompativel com a eficiência que ele próprio gera, pois quanto mais eficiente, mais produtivo, mais potencial, mais deflacionário ele se torna. Qual seria a alternativa?

O inverso da deflação, ou seja, a inflação.

Se os departamentos I, produtor de bens de consumo, e o II, de bens de produção, levam o capitalismo, graças ao excesso de eficiência e produtividade, à tensão deflacionária, que destroi tanto o capital como o trabalho, teria que haver uma força compensatória em forma de ineficiência e dissipação, indispensável a uma busca de relativo equilíbrio precário, claro, visto que o desequilíbrio, levado às ultimas consequências, implodiria o sistema.

Começa, portanto, com Malthus, a nascer aquele que, no século 20, seria o departamento III, o governo, consumidor não de mercadorias, geradas pelas forças produtivas, mas de não-mercadorias, impulsionadas pelas forças destrutivas, na guerra.

Os departamentos I e II, organizados sob o padrão ouro, viviam em busca do equilibrismo orçamentário esquizofrênico, de modo a evitar as deflações, jamais freadas, no compasso do desenvolvimento das forças produtivas em choque com o desenvolvimento das relações sociais da produção, desembocando em sobreacumulação de capital, sinalizadora de radicalizações políticas.

A contradição do processo de desenvolvimento dos dois departamentos levaria ao impasse, ao acirramento do antagonismo de classe, enfim, à emergência do socialismo.

Tal fato conduziria à necessidade de superação do padrão ouro, para que fosse materializada a opção salvacionista expressa na construção do departamento III, cujo perfil desembocaria na estrutura produtiva e ocupacional que dependeria da expansão dos gastos do governo, como aconteceu ao longo do século 20 até agora.

Brecar a deflação, produzida pelo padrão ouro, eis a função do novo padrão monetário que surgiria, depois da crise de 1929.

Emergência do departamento III

Malthus teorizou que a economia é uma ciência triste, porque leva a humanidade a um beco sem saída. O excesso de eficiência, propulsora da produtividade, no ambiente de acumulação excessiva de capital, joga o sistema capitalista na deflação. Seria necessária, segundo ele, a compensação dada pela inflação, ou seja, a expansão da ineficiência, como contrapolo dialético, capaz de dissipar capital como forma de garantir a sobrevivência do próprio capital, por intermédio dos gastos do governo. Tentar ver o governo, na economia, como agente eficiente, a exemplo do que pregam os católicos liberais e neoliberais equilibristas, que pululam na grande mídia capitalista, é não entender, de acordo com o pensamento malthusiano, o próprio capitalismo. A proposta de Malthus, porém, entrou em crise, porque o excesso de endividamento do governo impede a continuidade da solução que virou problema.

Keynes confrontou os neoliberais de Cambridge para defender Malthus, a quem considerou o maior economista do mundo, por entender ter ele percebido, claramente, que a necessidade de dissipação de capital representava salvação do capitalismo, via inflação, disfarçada de dívida pública, financiada pela moeda estatal inconversível, rompendo o padrão ouro, que considerou relíquia bárbara. A solução malthusina-keynesiana, porém, não seria eterna. Duraria, apenas, enquanto a incapacidade de o governo se endividar eternamente se manifestasse por intermédio do estouro das bolhas financeiras, como aconteceu, para valer, na crise de 2008, pondo fim à solução que virou problema.

O desenvolvimento do departamento III, essencialmente, inflacionário, promotor das forças destrutivas, tornara-se fundamental para exercer o papel de freio ao processo deflacionário desencadeado pelo desenvolvimento dos departamentos  I e II, promotor das forças produtivas, cujas consequências  são, no capitalismo, a deflação estrutural.

Como emissor de moeda, o governo capitalista joga  dinheiro na circulação, com uma mão, e lança, com a outra, títulos da dívida pública, para enxugar parte da base monetária alagada, a fim de evitar enchente inflacionária.

Ou seja, o modelo malthusiano, imaginado para conferir ao governo – o departamento III -  ineficiência como antídoto à eficiência expressa nos departamentos I e II – bens de produção e bens de consumo – tem como sustentáculo a inflação que se expressa dialeticamente no crescimento da dívida pública.

A dívida – o governo, o departamento III – cresce  no lugar da inflação, para atuar como mecanismo de reprodução ampliada do capital que fora bloqueado pela deflação como produto do desenvolvimento contraditório dos departamentos I  e II.

Assim, para garantir a reprodução do capital, torna-se necessária a promoção das forças destrutivas – gastos inflacionários do governo em produção bélica e espacial –, de modo a garantir, precariamente, a sobrevivência das forças produtivas, impedindo estas de se desenvolverem exponencialmente.

O governo gasta inflacionáriamente, destrutivamente, para conter a expansão das forças produtivas, aumentando o consumo, sem aumentar a oferta.

Como? É isso aí.

Passa a vigorar, com o fim do padrão ouro e início do novo padrão, ancorado nas emissões monetárias governamentais, o inusitado: o desenvolvimento do departamento III, que depende da capacidade de endividamento dos governos, freia o desenvolvimento das forças produtivas, evitando que elas caminhem para a deflação, gerando, consequentemente, crises políticas que levariam à superação do capitalismo pelo socialismo.

A inflação, desse modo, transforma-se, como teoriza Lauro Campos, em uma técnica, um instrumento de controle social, ao evitar a emergência socialista.

Teórico das não-mercadorias 

DESCONHECIDO PELA GRANDE MÍDIA ALIENADA. Em "A crise da ideologia keynesiana", Campus, 1980, e em "A economia política do não - crise completa do capitalismo", Boitempo, 2002, Lauro Campos, bem antes do estouro global em 2008, teoriza o desenvolvimento das forças destrutivas produtoras das não-mercadorias, que passam a dinamizar o capitalismo, depois da crise de 1929, seguindo os passos de Marx, atento, sobretudo, às contradições em marcha do sistema, sempre caminhando para o impasse decorrente do avanço das forças produtivas em choque com as relações sociais da produção, desembocando em processos deflacionários, sob o reinado dos departamento I e II, complementados pelo processo inflacionário, gerado no departamento III, que, de solução, se transforma em problema, quando o modelo malthusiano-keynesiano deixa de promover a reprodução ampliada do capital sobreacumulado, produzindo, consequentemente, o infarto fulminante do sistema.

Quando o governo lança moeda em circulação, para promover as forças destrutivas – guerras, produção bélica e espacial, movimentos especulativos, expansão da máquina pública, enfim, dinamização da ineficiência via dissipação necessária de capital para garantir a reprodução do próprio capital – ele garante a sobrevivência das forças produtivas, porque:  1 – eleva os preços, 2 – reduz os salários, 3 – perdoa a dívida dos empresários contraída a prazo e 4 – reduz a taxa de juro.

Desperta, consequentemente, o espírito animal, que passa a ver na sua frente a eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro, como disse Keynes.

Sob padrão ouro, os salários eram arrochados, diretamente; sob o novo padrão, eles são contidos, indiretamente.

Ou seja, escolha de Sofia: a inflação, sim, aleija os salários, indiretamente, ao elevar os preços consumidos pelos assalariados; mas, a deflação destrói, não , apenas, os salários, diretamente, mas, também, o capital.

A sobrevivência do departamento III é o dinâmo da reprodução capitalista vigente ao longo do século 20, utilizado para superar a crise deflacionária de 1929.

Porém, a crise de 2008 detona esse mecanismo, porque o esgotamento da capacidade de endividamento governamental impossibilita a continuidade da reprodução ampliada do capital sobreacumulado na especulação que se transforma em perigo simultâneo de explosão tanto da inflação como da deflação.

A bancarrota financeira capitalista em curso impõe a necessidade de superar a estrutura produtiva e ocupacional erguida com a moeda estatal inflacionária visto que a capacidade de sustentá-la pelo governo está esgotada.

Historicamente, portanto, constata-se que o capitalismo, ao longo do século 20, desenvolveu ao máximo as forças destrutivas, pelo departamento III(inflação), depois de desenvolver ao máximo as forças produtivas, no século 19, pelos departamentos I e II(deflação), encontrando-se, agora, no início do século 21, em impasse total, sob ameaça da combinação mortífera de deflação e inflação exponenciais.

A economia de guerra – forças destrutivas – , que se expressa na estrutura produtiva e ocupacional característica do estado industrial militar, impulsionadora da reprodução ampliada de capital, de um lado, e de contenção da forças produtivas, de outro, deixa de ser útil à sobrevivência do sistema.

Assim, a superação da crise, expressa no colapso da economia de guerra, estaria no desenvolvimnto do seu oposto, ou seja, na economia da paz, ou melhor, na superação da estrutura produtiva e ocupacional ora em colapso.

A esquerda está organizada para enfrentar esse desafio?

Grande exemplo do Império para o mundo: dar calote nos bancos para reduzir dívida e se salvar

Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 26-01-2012

NOS ESTADOS UNIDOS, CACETE NOS BANCOS. Ben Bernamke, presidente do Banco Central dos Estados Unidos manda uma trolha bem grande para os aplicadores nos títulos do governo americano, ENTRE ELES OS EMERGENTES, COMO O BRASIL: juro zero ou negativo ou de no máximo 0,5% até final de 2014. Trata-se, na prática, de uma política deliberada de calote no endividamento público, a fim de reduzir o deficit de modo a sobrar mais recuros para os investimentos. Os banqueiros que adquirem os papéis do governo terão que se contentar com uma remuneração baixíssima como forma de contribuição para o combate à crise que mantém a economia do império em rítmo de banho maria, elevando a taxa de desemprego para a casa dos 9%, dificultando, consequentemente, a possibilidade de Barack Obama garantir seu segundo mandato. Quem disse que o BC americano é antipolítico, neutro, equidistante? Mentira, ele age firme para buscar o crescimento, embora este esteja comprometido pela crise capitalista desencadeada pleo próprio governo em sua política contraditória de estimular a especulação sem freios para criar demanda interna destinada ao consumo. O abuso dessa prática levou os consumidores ao endividamento excessivo, bem como , também, ao governo, fato que leva este, agora, a decretar juro negativo para que a remuneração sobre a dívida seja, igualmente, zero. Enquanto isso, no Brasil, a presidenta Dilma arrocha o orçamento fiscal, apertando a garganta do povo, ao passo que transfere aos especuladores o grosso do sangue popular, a fim de continuar a dança da agiotagem que empobrece a sociedade e coloca em risco as finanças governamentais. Até quando?

O que a presidenta Dilma Rousseff está esperando? Enquanto ela se esforça e se esfola para controlar a taxa de juro real mais alta do mundo, incidente sobre a dívida pública brasileira, e principalmente, aquela que recai sobre o lombo sofrido do povo, no crédito direto ao consumidor, empobrecendo-o, sobremaneira, e enriquecendo, apenas, os agiotas sanguessugas da bolsa popular, eis que o presidente Barack Obama faz justamente o contrário em favor do povo norte-americano, ou seja, mandou, na quarta feira, o Banco Central sustentar a taxa de juro na casa dos zero ou negativa. Com isso, estanca o endividamento governamental, contém o avanço do deficit público, diminui a inflação e abre espaço para investimentos públicos, a fim de tentar vencer a crise, o desemprego e, dessa forma, dispor de chances para conquistar seu segundo mandato presidencial.

Quem aposta nos títulos do governo americano sabe que não ganhará nada, apenas disporá da segurança de que não levará o cano no principal aplicado, deixando de perdê-lo. Combatendo o deficit, mediante juro zero ou negativo, recobre o fôlego governamental. Não apenas reduz a dívida, mas, principalmente, conquista espaço para ampliar os gastos do governo, já que de nada adianta reduzir a zero o custo do dinheiro e a inflação, se a demanda global for jogada no chão.
Quem vai investir, se o consumo por conta da impossibilidade de o governo gastar não reage?

O juro pode ficar abaixo de zero que não adianta nada, se a demanda governamental, dependente da emissão de moeda estatal, não se realiza. É a demanda do governo, como já dizia Keynes, que provoca quatro movimentos capazes de produzir os investimentos, atiçando o espírito animal dos empresários: 1 – eleva os preços, 2 – reduz os salários, 3 – diminui os juros e 4 – perdoa a dívida do investidor contraída a prazo.

Nesse sentido, criam-se as condições para expansão da eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro. Desse modo, o empresário, claro, faz a opção pela produção, enquanto renuncia à liquidez, já que vislumbra retorno vantajoso sobre o capital investido, garantido pelo consumo, fomentado pelo gasto governamental.

Valentia contra os fracos

NO BRASIL, CACETE NO POVO. Guido Mantega estufou o peito para fazer o mesmo gesto de Bernamke, só que em vez de fazer como aquele a opção pelo povo, enquanto sacrifica os credores, o titular da Fazenda brasileiro cuidou de anunciar que, primeiro, é preciso satisfazer a banca, garantir a ela a meta cheia de superavit primário, ou seja, uma economia forçada de cerca de R$ 70 bilhões, somados aos outros R$ 120 bilhões destinados ao pagamento dos juros, de modo a garantir a lucratividade excessiva e recorde dos agiotas que esmagam o consumidor no crediário, enquanto vão impondo ao governo uma carga sobrehumana de endividamento cujas consequências são aumento das tensões inflacionárias, perigo de estouro dos deficits e carência crescente de oferta de serviços de saúde, educação, segurança, lazer, infraestrutura à população, embora diga sua excelencia que estará garantida ao longo do ano a adoção de políticas sociais distributivistas capazes de sustentar o mercado interno, para permitir crescimento de 5% do PIB. Tal meta até pode ser alcançada, mas ao final da jornada, a sociedade poderá estar totalmente esfolada para que sejam satisfeitas as prioridades concedidas aos banqueiros. Afinal, pagar juro extorsivo é a primeira e maior tarefa da política econômica do Governo Dilma.

Imagine se Barack Obama tivesse, para pagar a dívida pública, a fim de combater o deficit, de fazer o que Dilma Rousseff promete fazer esse ano, ou seja, realizar um superavit primário de 3,1% do PIB – economia forçada -, destinado ao serviço da dívida.

Sabendo que o PIB americano está na casa dos 15 trilhões de dólares, teria que cortar no orçamento algo em torno de 470 bilhões de dólares – antes do pagamento dos juros -  ou cerca de 850 bilhões de reais, vale dizer, mais da metade do PIB brasileiro.

Em vez de partir para essa solução, que, politicamente, seria suicida e cujas consequências afetariam duramente a vida dos americanos, impondo-lhes péssimas ofertas de serviços públicos, além de corte de gastos que detonariam muitas atividades produtivas, Obama, ao contrário, decidiu pelo oposto: pratica juro negativo, ou melhor, dá o calote nos credores.

Já Dilma Rousseff dobra a aposta no arrocho sobre a sociedade, para que ela aperte de todas as formas o cinto, a fim de sobrar mais para os agiotas. No próximo mês, estão previstos anúncios de novos cortes no orçamento não-financeiro governamental, aquele que envolve as necessidades vitais da sociedade em matéria de educação, saúde, segurança, infraestrutura etc. Fala-se em facada de  até R$ 70 bilhões, em forma de superavit primário, fora pagamento dos juros, que exige outros R$ 120 bilhões, por aí, totalizando perto de R$ 200 bilhões.

Serão, portanto, menos R$ 70 bilhões a serem destinados ao atendimento das necessidades fundamentais da sociedade.

Por outro lado, o orçamento financeiro, aquele que abastece a vida dos credores, estará gordo que nem um major, fazendo a festa da agiotagem financeira nacional e internacional, enriquecida no juro extorsivo, assassino da galinha dos ovos de ouro do país, ou seja, os consumidores, condenados à crescente inadimplência.

Evidencia-se, portanto, aquilo que, realmente, é prioridade das prioridades da política econômica do Governo Dilma, da mesma forma que foi a de todos os governos neorepublicanos, depois que a ditadura militar foi derrubada pela democracia, em 1984: primeiro, os banqueiros, a bancocracia, os agiotas devem ser servidos em seus interesses.

Está lá na Constituição essa determinação, expressa no artigo 166, parágrafo terceiro, item II, letra b, como cláusula pétrea constitucional. Todos os recursos do orçamento da União podem ser contigenciados, menos aqueles destinados ao pagamento dos serviços da dívida.

Acabou a ditadura política, mas iniciou a ditadura econômica.

Depois de atendida essa prioridade das prioridades, vem os interesses do povo, sujeitos, no orçamento, a todos os tipos de cortes, justamente, para atender os bacanas da banca.

Eis aí viva a luta de classes em grande contornos, fortalecida pela orientação neoliberal de um governo que, por adotar, paralelamente, políticas sociais distributivistas, tenta manter a aparência anti-neoliberal, mas fica difícil conciliar duas posições antagônicas.

A conciliação dilmista, de satisfazer, de um lado, os banqueiros, dando-lhes o filé mingnon do orçamento financeiro, enquanto destina à sociedade, no orçamento não-financeiro, carne de pescoço, duríssima de mastigar, joga a titular do Planalto na dependência do discurso indisfarçadamente neoliberal, que vai ganhando dimensão: arrocho na previdência social, desregulamentação da legislação trabalhista, aceleração da privatização, esvaziamento dos sindicatos etc.

A luta de classe ganha corpo no Governo Dilma, enquanto, nos Estados Unidos, Obama tenta amenizá-la, caloteando os agiotas, que, no Brasil, mandam e desmandam.

Terceira guerra mundial em marcha

Categoria: (Economia, Política) por Conselho Editorial Sul-Americano em 25-01-2012

O oculto e o latente não conseguiram se disfarçar no discurso do presidente Barack Obama nessa terça feira 24, ou seja, a disposição do governo americano de barrar o avanço da moeda chinesa, o yuan, que ameaça o dólar, abalado pela crise financeira internacional, detonada pelos próprios Estados Unidos. O titular da Casa Branca se dispõe, com todo o arsenal armamentístico atômico do império americano a impedir que o Irã e o Oriente Médio, nesse momento, avancem em negociações com os chineses, trocando mercadorias da China pelo petróleo dos árabes, envolvendo o yuan em lugar do dólar. Assim, a disposição de confrontar o Irã não tem por motivação essencial a vontade soberana do governo Ahmadinejad de construir armas nucleares, algo que já se tornou possível pela humanidade, sem maiores mistérios, diante dos avanços científicos e tecnológicias disponíveis. A posição radical americana que tende a avançar é no sentido de buscar a defesa da expressão maior do poder do império americano , o dólar, que os árabes começam a desdenhar, em face da crescente fragilidade dele nas relações de trocas globais, decorrente da crise mundial, produzida pelo excesso de oferta da moeda americana, no plano especulativo, dado pela supressão da regulamentação do mercado financeiro dos Estados Unidos como estratégia de reprodução ampliada do capitalismo financeiro, em estresse total depois da crise de 2008. A moeda papel que substituiu o padrão ouro, levado de roldão pela crise de 29, responsável por jogar o mundo na segunda guerra mundial, entra em bancarrota, sinalizando perigo da terceira guerra, porque, evidentemente, o império americano tentará de todas as formas manter as aparências de que continua com o poder total, quando a prática demonstra estar ele sustentado em alicerçes cada vez mais fragilizados. O grito de Obama de que o império está forte é a expressão cabal de que ocorre o inverso, pois, afinal, como destaca Freud, as palavras servem para esconder o pensamento. Mas, quem ainda se engana com o dólar em colapso por conta do excessivo endividamento que fragiliza Tio Sam? 

A crise de 1929 levou o mundo à segunda guerra mundial. A crise de 2008, mais poderosa que o crash dos anos de 1930, levará ele à terceira? Como demonstram as crises do capitalismo, os movimentos começam de cima para baixo, a partir dos paises ricos, simplesmente, porque elas, invariavelmente, são iniciadas neles, no estouro das contradições que buscam suas superações, detonando-as, impondo mudanças quantitativas e qualitativas inevitáveis, quanto mais são bloqueadas a reprodução ampliada de capital. Por exemplo: no plano da moeda, a crise de 1929 abriu espaço para o rompimento do padrão ouro, vigente no século 19, durante o qual reinou a libra esterlina inglesa, afinal, detonada pela deflação, no início do século 20. Vigorou, no século passado, o reinado do dólar, justamente, porque, com o fim do ouro como mediador das relações de troca, entrou em cena o governo emissor de papel moeda, para puxar a demanda global, num ambiente em que os vencedores dos conflitos, saindo deles todos poderosos, foram os Estados Unidos. E, agora, na crise de 2008, passado mais de meio século de dominação do dólar, na cena internacional, o que se vê? O esgotamento da moeda americana, no sentido de continuar mantendo a hegemonia econômico-financeira dos Estados Unidos, devido, claro, ao esgotamento das finanças do império, visto que não pode mais continuar se endividando por meio da continuidade, sem fim, da emissão de papel moeda, sem lastro, que deixou de merecer a confiança internacional, como outrora. O perigo, portanto, é o mesmo que sinalizou a segunda guerra. A derrocada das moedas dos impérios é parteira dos conflitos globais. De posse do poder imperial de emitir, os Estados Unidos, seguindo os conselhos dos estrategistas econômicos conscientes de que os gastos do governo em guerra seriam a solução, construíram o todo poderoso estado industrial militar norte-americano. A partir dele, a economia ganhou fôlego, para puxar a demanda global, ao mesmo tempo em que a capacidade de emitir moeda sem lastro real garantiu aos americanos poder ilimitado, somente, contido, evidentemente, pelo esgotamento da capacidade de endividar, que foi o sinal claro dado pela crise de 2008, como resultado das decisões do poder imperial, nos anos anteriores, de eliminar toda a regulamentação prudencial ao mercado financeiro dos Estados Unidos, conferindo a ele poder de ampliar suas ações em todas as partes do mundo.

Yuan desloca o dólar na crise

Os chineses, que não acreditam mais na potencialidade do dólar, ameaçado pela crise mundial, buscam valorizar sua moeda, o yuan, acertando acordos comerciais com os árabes e com o Irã, para trocar mercadorias chinesas pelo petróleo passando ao lado das verdinhas de Tio Sam. Detentores de reservas cambiais na casa dos 3 trilhões de dólares, os chineses podem manobrar seu poderio cambial no mundo, jogando para cima e para baixo a cotação da moeda americana, na medida em que elevam ou diminuem a oferta dela, em escala global, ao mesmo tempo em que com as trocas comerciais firmes, acertadas em yuan, com seus parceiros, fortalece, relativamente, o poderio chinês na cena internacional. Ou seja, lenta e gradualmente, a China vai minando o poder imperial da moeda americana, enquanto, internamente, nos Estados Unidos, a saúde das finanças da economia americana vão sendo esvaziadas pela própria divisão política interna entre republicanos e democratas, em torno de providências macroeconômicas capazes de sustentar a potencialidade econômica do império, abalado pela incapacidade de concorrer com os produtos chineses, japoneses e sul-coreanos, agora, dispostos, para horror da Casa Branca, em partirem para uma união comercial asiática pautada pelas moedas dos três países. Estes, por sua vez, necessitados do petróleo do Irã, fortalecem a disposição da China de intensificar o comércio com o Oriente Médio, passando ao largo das relações de trocas tendo a moeda ameicana como equivalente geral, progressivamente, esvaziado. Eis os reais codimentos explosivos que preparam a terceira guerra mundial.  

A capacidade dos Estados Unidos de se endividarem  chegou ao limite, a partir das contradições que implodiram dentro do próprio sistema político dos Estados Unidos, com os republicanos entrando em campo para conter o poder dos democratas por intermédio do cerceamento da ação governamental no sentido de continuar expandindo o endividamento do governo, cujo eventual estouro financeiro provocaria, evidentemente, hiperinflação exponencial. A descrença na moeda dos Estados Unidos se estabelece, portanto, na medida em que as divisões políticas internas se acentuam, ampliando as posições radicalizadas da direita americana, manifestando, sem meias palavras, posicionamentos políticos fascistas. O resultado das divisões internas, que fazem explodir as contradições inerentes ao sistema econômico ancorado em moeda que paulatinamente vai deixando de ser acreditada em sua capacidade de gerir as trocas comerciais, expressa-se, por sua vez, em desenvolvimento de estratégias econômicas dos aliados, concorrentes e adversários dos Estados Unidos, todos em busca de alternativas salvacionistas. Da parte dos aliados, vê-se a Europa atolada em situação que se desenvolveu a partir da expansão da desregulamentação do mercado financeiro americano cujos tentáculos alcançaram os países europeus, ampliando a ação dos derivativos dolarizados tóxicos, largamente produzidos pela expansão da bolha imobiliária nos Estados Unidos. Inicialmente, expandida, sem limite, até estourar, tal bolha especulativa teve seu corresponde na Europa, especialmente, nos emergentes. Estes seguiram a onda, até, também, estourarem. Os bancos americanos financiaram bancos europeus que passaram dinheiro aos governos que emprestaram ao mercado, puxando uma corrente da felicidade, cujos resultados estão à mostra, ou seja, a prostração econômica européia. Por essa razão, os europeus estão mais do que nunca desconfiados do dólar, que bichou geral o euro, colocando em risco total a união monetária continental. Se da parte dos aliados dos Estados Unidos, como os europeus, a disposição de fugirem do dólar é crescente, o mesmo, em escala, igualmente, ascendente ocorre relativamente aos concorrentes da economia americana, com destaque para os chineses.

Parceiros desconfiados entre si

Depois de detonarem a Líbia, incensados pelo governo americano, interessado no petróleo líbio, os líderes europeus, igualmente, de olho naquele ouro negro, aliados desconfiados de Obama, ameaçam o Irã, agora, com as forças da OTAN, para que os iranianos sejam impedidos de levar adiante o comércio do petróleo com a China, pautado pelo yuan e não mais pelo dólar. O problema é que a Europa se encontra em enrrascada econômico-financeira justamente por conta da política monetária dos Estados Unidos. A expansão ilimitada de dólares pelo Banco Central dos Estados Unidos, responsável por detonar o mercado imobiliário americano e produzir a crise de 2008, atingiu, em cheio o euro, levando a moeda européia, igualmente, à bancarrota, afetada pelos efeitos contagiantes intoxicantes letais dos derivativos dolarizados, responsáveis por colocar em risco tanto o sistema financeiro como os governos europeus, agora, envolvidos nos perigos inafastáveis das recessões econômicas, tendentes a se prolongarem pelos próximos dez anos. Como os europeus confiarão num parceiro dessa natureza, responsáveis por levarem eles ao colapso? Ao mesmo tempo, a Europa mira a China como possível saída salvacionista, como já se cogita de os chineses comprarem dívidas dos europeus, reciclando-as, em troca de ativos, de modo a reanimar a economia européia, amenizando os perigos da recessão. Se os europeus seguirem cegamente Washington, detonando o Irã, que fornece petróleo para a China, Japão e Coreia do Sul, motivados a ser unirem em torno de um mercado livre que dispense a utilização do dólar, a fidelidade canina da Europa relativamente aos Estados Unidos poderá ser abalada, por chifradas inevitáveis, dadas pela realplitik mundial. Por que ficar ao lado do dólar, se o seu poder nas relações de troca passa a ser mal negócio para os parceiros, visto que seu resultado tende a ser pressões inflacionárias inevitáveis no compasso da guerra cambial em curso? 

Abarrotada de moeda americana em seus cofres, acumulada nos anos de bonança do mercado consumidor dos Estados Unidos, antes do estouro da crise de 2008, a China, agora, busca fugir do dólar, fechando negócios com os parceiros em moeda própria, o yuan. O acerto que o presidente chinês, Hu Jin Tao acaba de fazer comos árabes, de trocar petróleo por moeda e mercadorias chinesas, desloca a moeda americana na área dos petrodólares. O que, realmente, está por trás da disposição do governo dos Estados Unidos de detonarem o governo do Irã não é outra coisa senão a decisão dos aiatolás de comerciarem com os chineses ao largo do dólar, trocando, como começou a fazer a Arábia Saudita, petróleo por yuan. O discurso da União de Obama, já em campanha eleitoral, dando o recado de que fará tudo para evitar que o Irã consiga desenvolver armas nucleares, tem tudo para ser mera cortina de fumaça. O que o titular da Casa Branca teme, na verdade, é a bancarrota total da expressão do poder imperial, isto é, a moeda, o dólar, que, graças ao excessivo endividamento dos Estados Unidos, vai perdendo o poder de determinar, em favor dos americanos, a deterioração nos termos de troca, dado pelo poderio cambial das verdinhas. Estas passaram a encardir no bolso dos seus detentores, depois do estouro da crise de 2008, da mesma forma que o estouro da crise de 29 soou o fim da hegemonia da libra esterlina inglesa. O império, ou seja, o dólar, está ferido e ruge, criando argumentos diversionistas para confundir. Na prática, o que o imperialismo americano, sob comando de Obama, orientado pelos falcões do Pentágono, desejam é barrar as vendas de petróleo do Oriente Médio para os chineses, colocando em risco o abastecimento de energia para o maior adversário comercial e industrial dos Estados Unidos. Para alcançar esse objetivo, tem que detonar os aliados dos chineses que lhe fornecem essa energia, o Irã, principalmente. Entra nessa geopolítica de guerra a Síria, aliada do Irã. Destruir  o governo sírio, amigo dos aiatolás, representa criar estado de guerra geral no Oriente Médio, para obstruir o avanço do comércio Irã-China, pautado em yuan e não em dólar. Nada mais temido e indesejado pelos americanos.

América do Sul busca união

Brasil e Venezuela, os dois maiores produtores de petróleo da América do Sul, que, juntos, representam a maior produção mundial do ouro negro, colocam suas barbas de molho diante do avanço do espírito guerreiro de Washington, na tentativa de impedir o progresso comercial do Irã com os chineses e asiáticos em geral, em detrimento da moeda americana. Reunidos nessa terça feira em Caracas, o presidente Hugo Chavez e o ministro da Defesa do Brasil, Celso Amorim, discutirem os rumos da crise internacional e as estratégias de defesa conjunta a ser desenvolvidas pelos dois países, visto que ambos, estrategicamente, podem se transformar no fiel da balança, no plano global, se a guerra estourar entre Estados Unidos e China, a partir do Oriente Médio, que pega fogo, com a disposição dos governos da Síria, do Irã e da Arábia Saudita de intensificarem comercialização do seu petróleo com os chineses, sem utilização do dólar como equivalente monetário das relações comerciais, colocando, realmente, em risco o império americano, cuja moeda perde credibilidade, no compasso do aumento do endividamento público dos Estados Unidos, sob desconfiança generalizada do mercado financeiro global. Chegou a hora de acelerar a união sul-americana, quando todas as forças da guerra colocam suas unhas de fora, sinalizando que Estados Unidos e China, as duas maiores potencias mundiais, se estranham em escala crescente, no compasso da guerra cambial total.

Os chineses assustam demasiadamente a Casa Branca. A disposição em marcha na Ásia de construção de um mercado livre, envolvendo China-Japão-Coréia do Sul, com o compromisso de que as relações comerciais sejam pautadas por moedas locais, sem utilização do dólar, no qual ninguém mais confia, acendeu o sinal vermelho que leva o Pentágono à aceleração de procedimentos guerreiros no Oriente Médio, abastecedor de petróleo, tanto da China, como da Coréia e do Japão. Os asiáticos, sem o petróleo dos árabes, que já acertam com os chineses trocas comerciais em yuan e não em dólar, entrariam em crise total, pois não dispõem de fontes energéticas sustentáveis capazes de tocarem seus colossos industriais que estão ganhando os mercados consumidores do mundo, colocadando em segundo ou terceiro plano as mercadorias americanas. Os avanços do yuan prosseguem em todas as partes do mundo. Não estaria fora de propósito que eles se deem, até mesmo, com os europeus. Em crise total, a Europa não dispensaria o apoio financeiro do colosso asiático, se a China resolvesse, para valer, comprar parte da dívida européia com os dólares americanos que dispõe em caixa, alavancando, em seguida, trocas comerciais pautadas, totalmente,  não mais entre euro e dólar, mas uma parte em dólar outra em yuan, como já se cogita e se realiza em outras dimensões. Os europeus estão vulneráveis, justamente, porque foram detonados pelo dólar, cuja expansão, sem limites, por conta da desregulamentação financeira americana, acabou por bichar a moeda européia e, por tabela, comprometendo a união monetária da Europa. No momento, os chanceleres europeus, como aconteceu, no início dessa semana, anunciam crescentes embargos ao Irã, algo que prejudicaria os interesses chineses, mas até que ponto a Europa avançaria contra os interesses da China, se esta se dispor a adquirir ativos europeus, para erguer a economia do velho continente, abalada, especialmente, pela expansão da moeda americana, que comprometeu a saúde da moeda européia?  Da mesma forma, a estratégia chinesa, de trocar mercadorias produzidas na China por petróleo onde este existe em abundancia prossegue por todas as partes. Por exemplo, na América do Sul. Argentina e Venezuela já ensaiam ações comerciais nesse sentido, assustando, sobremaneira, os americanos. Os governos brasileiro e venezuelano se reunem para discutir ações comuns, no plano da segurança da América do Sul, em face das incertezas crescentes que ameaçam a paz mundial, com a disposição do governo americano de ir à guerra contra o Irã, na tentativa de obstaculizar o avanço da moeda chinesa frente ao dólar. Por essas e outras razões, não está fora de cogitação, a partir de agora, no calor do espírito guerreiro em marcha, em Washington, maiores pressões da Casa Branca sobre o pré-sal brasileiro, por parte de multinacionais americanas, forçando realização de leilões, de modo que elas possam ampliar participação na riqueza nacional, como antídoto ao que está ocorrendo no Oriente Médio, antes que a China comece negociações com o Governo Dilma, na mesma linha em que abre relativamente aos árabes, aos iranianos e aos venezuelanos. A onda nacionalista em torno do pré-sal, por essas e outras, tenderia a crescer, no ambiente de sinaliza terceira guerra mundial.

Washington racha Brasil e Argentina

Categoria: (Economia, Política) por Conselho Editorial Sul-Americano em 14-01-2012

A política monetária adotada pelo Governo Barack Obama, pautada na expansão sem limites da oferta de moeda na circulação capitalista global, para tentar viabilizar as empresas americanas, na cena internacional, prejudicadas pela desaceleração econômica dos Estados Unidos, detonadora do desemprego, está na raiz dos desentendimentos econômicos crescentes entre Brasil e Argentina. O dólar sobredesvalorizado, que tende a se desvalorizar ainda mais, ao longo desse ano, que promete turbulências econômicas e políticas, em meio ao capitalismo em colapso nos países ricos, sobrevaloriza o peso argentino e o real brasileiro, contribuindo para afetar, duramente, a competitividade das indústrias dos dois países. Consequentemente, os industriais, abalados pela baixa competitividade, aprofundada pela guerra cambial praticada pelos Estados Unidos, pressionam os governos brasileiro e argentino a adotarem medidas capazes de proteger seus sistemas produtivos por intermédio do fechamento das fronteiras ao comércio, como se a origem dessa desavença fosse dada pelas políticas econômicas argentina e brasileira, subsidiárias da grande crise financeira global. De um lado, o Brasil tenta se proteger dos estragos provocados pela importação de produtos baratos chineses; de outro, a Argentina busca se proteger dos manufaturados brasileiros, que, também, deixam de ser competitivos na Argentina, inundada, por sua vez, de manufaturados fabricados na China. Se a complemetaridade econômica Brasil-Argentina fosse buscada na política cambial, com ampliação das trocas comerciais por meio da utilização das moedas nacionais, peso e real, como buscam fazer os asiáticos, fugindo do dólar, seria possível acelerar a integração sul-americana, que está dando lugar à desintegração, patrocinada pela guerra cambial americana. Como, em 2012, nos Estados Unidos, haverá eleição presidencial e a bandeira de Barack Obama, para conquistar a reeleição, está sendo a busca por maior competitidade da indústria nacional, via dólar desvalorizado, para aumentar as exportações, a fim de elevar a taxa de emprego, deslocando, dessa forma, os concorrentes, certamente, as tensões Brasil e Argentina se estenderão ao longo de 2012, com ameaças de um combater o outro, quando ambos deveriam se unir para lutar contra o inimigo comum, o imperialismo monetário de Tio Sam. O jogo da complementaridade estaria na alavancagem financeira das duas economias por meio da criação, URGENTE, do Banco do Sul. Este, com o aval do potencial econômico do Brasil e da Argentina, possuidores das matérias primas relativamente mais valorizadas que os manufaturados que importam, abaladas pela deflação global, teria condições de viabilizar a união monetária brasileira-argentina, por meio das duas moedas, atuando ao largo do dólar. Além disso, o Banco do Sul teria condições de reciclar investimentos externos interessados em deslocarem para a América do Sul, fugindo da taxa de juro negativa nos países ricos, como arma para desvalorizar as dívidas dos governos, de modo a alavancar a infraestrutura sul-americana, dotando-a de poder econômico-financeiro geoestratégico na nova divisão internacional do trabalho em marcha, construída no contexto do desmoronamento do capitalismo cêntrico, baleado pelo processo deflacionário, destruidor de capital e trabalho nas esferas ricas. Olha a poderosa França aí, caindo pelas tabelas. Outros cairão. A coisa vai chegar, também, na poderosissima Alemanha. Portanto, a guerra monetária se intensificará, sem dúvida alguma. A Unasul, que abriga os países detentores de petróleo, de alimentos, de minerais etc, está dormindo no ponto. Por que? Vai esperar acontecer o sucateamento industrial sul-americano?

O rei está nu

A grande mídia sul-americana, subordinada aos interesses de Washington, cuidou de propagandear, durante toda a semana, mais uma vez, que o Irã continua sendo uma ameaça à humanidade, porque estaria construindo armas atômicas. Se isso fosse verdade, os países que detêm essas armas deveriam, a começar dos Estados Unidos, destruir suas próprias armas atômicas, visto que, segundo eles mesmos, representariam ameaça à sobrevivência do ser humano no planeta terra, já excessivamente abalado pelas políticas industriais poluidoras, que exigem , por sua vez, destruição do meio ambiente, como uma necessidade para continuidade da reprodução ampliada do capital, agora, dependente, cada vez mais da especulação financeira, visto que se tornou incapaz de se reproduzir na criação de riqueza real, já que sob o regime que busca o lucro a qualquer custo o resultado previsível é amplamente conhecido, ou seja, a deflação. As investidas contra o Irã, certamente, são alimentadas pela necessidade de o imperialismo, tanto americano, como europeu(ambos na banguela, sem freio, descendo a ladeira), buscar bodes expiatórios, a fim de desviar a atenção dos seus povos dos problemas insoluveis que ele criou. Deslocar as preocupações do plano interno para o plano externo, como se as causas da derrocada capitalista estivessem fora e não dentro das economias ricas, impulsionadas pelas suas contradições, dadas pelo impasse decorrente do confronto entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais da produção, torna-se tarefa fundamental. Caminha-se para a desmoralização o governo americano, principalmente, se a Europa baquear forte, pois, afinal, tornou-se incapaz de resolver o problema que mais o desgasta, ou seja, o desemprego, provocado pela crise que ele mesmo desatou, abrindo o sistema econômico para a ampla especulação financeira detonadora de bolhas, produzindo capitalismo de catástrofe, agora, em total impasse. Assim, não seriam a maior ameaça à humanidade tais contradições que o capitalismo especulativo americano implementou, irresponsavelmente, mas sim a disposição do governo do Irã em utilizar, como destaca Ahmadinejad, a energia nuclear, capaz de proporcinar aos iranianos condições amplas para conquista do domínio tecnológico de vanguarda, de modo a promover o desenvolvimento do povo iraniano. O negócio é confundir: o capitalismo estaria sendo ameaçado pela bomba atômica supostamente construída pelo Irã e não pelo que ele realmente se transformou , ou seja, na própria bomba atômica econômico-financeira, já está detonada, provocando estragos globais, cuja expressão é a recessão, a se estender nos próximos dez anos, no mínimo. Os governos sul-americanos, a começar pelos de tendência nitidamente socialista, transformam-se em esteios à causa política iraniana, demonstrando que a América do Sul e América Central, no jogo da política internacional, vão se transformando em forças morais que incomodam os impérios, na medida em que, como faz Fidel Castro, com seus potentes artigos, manejados como poderosas armas políticas, evidenciam o óbvio: o rei está nu. E nada mais desmoralizante para o império que a pulga vença o elefante pelo incômoco que a sua ação inteligente provoca, demonstrando que o fraco não é Davi, mas, sim, Golias.