Vacina desarma planos autoritários bolsonaristas

Jair Bolsonaro durante cerimônia militar com o general Luiz Eduardo Ramos, ex-comandante Militar do Leste e hoje ministro de Governo Foto: Fernando Souza/AFP

Democracia na ponta da fuzil

A pregação bolsonarista de que a democracia é garantida pela ponta do fuzil das forças armadas e dele depende para continuar sobrevivendo, sofre tremenda derrota no novo cenário de esperança e confiança social aberto pela vacina; fica afastado, temporariamente, perigo de fechamento do regime, no qual o chefe de governo aposta como estratégia política; afinal, desde início do governo, Bolsonaro  diz que veio para destruir, não construir; essa pregação é de guerra, exige ditadura para se sustentar. O pânico da falta de vacina, as previsões de que sem vacina a economia não levanta e a extinção do auxílio emergencial aos mais pobres para enfrentarem a crise do desemprego, criou clima de medo e instabilidade que justifica discurso autoritário; atrasar a distribuição da vacina virou cálculo político bolsonarista autoritário que a tragédia de Manaus e decisão do governador João Dória, abortaram. Abaixou, portanto, o facho autoritário do general Pazzuelo, da Saúde, de dedo em risco, chamando todo mundo no saco, como se toda população estivesse no quartel sob suas ordens.

O novo clima de desestresse aberto pela vacina é dissuasório do clima de guerra bolsonarista que estava sendo montado; caminhava-se, de acordo com enrolação do governo quanto às vacinas, para situação de turbulências; a burocracia para aprova-las e distribui-las, mediante aprovação da Anvisa, criou clima de instabilidade e não de tranquilidade com a chegada das providências essenciais; Dória furou o balão bolsonarista de promover o caos e justificar a força; desarma-se, temporariamente, clima de conflito e fortalece democracia; jogou-se água fria na propensão ditatorial fascista bolsonarista; o novo cenário de esperança que a vacina cria apavora, porém, os golpistas; levam-no à conspiração; a tática, agora, é encher a bola das forças armadas, considerando-as fonte da democracia; vangloriam a ditadura com medo de serem derrubados; Freud explica.

Pensamento x Palavra

Freud diz que as palavras servem para esconder o pensamento; o mestre da leitura do subconsciente, das profundezas do espírito, da sua mais pura essência, aquela que não pode ser exposta, talvez, lesse a cabeça de Bolsonaro de forma invertida; a realidade satisfatória para os fascistas é aquela que infelicita a maioria expropriada por eles; essa é a condição essencial para supremacia absolutista totalitária; a democracia que pressupõe o controverso é incompatível com verdade absoluta; a democracia é o problema.

Ficou demonstrado fracasso da estratégia absolutista durante a pandemia; ela expôs as entranhas fascistas do sistema capitalista; a desgraça dos outros faz enriquecer uma minoria e empobrecer a maioria; caminhada inexorável da acumulação capitalista; só é sustentável na guerra, na ditadura, na ausência de liberdade; é a situação satisfatória para Bolsonaro; justifica a força.

O segredo fascista é a lei da força bruta; é impulso de morte do poder absoluto; a democracia, o controverso, naufraga, constantemente, tornando-se figura de retórica, que, aliás, já é;  o bolsonarismo demonstra pulsão de morte, do ponto de vista freudiano, no cenário da economia política; é um encontro de Marx e Freud, no auge da crise capitalista em pandemia virótica mortal global. A democracia, com a chegada da vacina, consegue respirar assim como pode respirar os agonizantes com o oxigênio nos hospitais.

Ódio bolsonarista

Nesse momento, o presidente está tomado de ódio; basta ver as fotos dele de hoje; está contraído, mal-humorado, soltando os cachorros; a satisfação da sociedade com a notícia positiva da vacina deixou o capitão presidente contrariado; ele apostava na morte; segurou a raiva em si com o despacho favorável da Anvisa e lamentou que as novas ordens, adequadas à prevenção da vida e não à promoção da morte, terão de ser cumpridas; a rispidez contractil expressa nas fotos do rosto do presidente deixa entrever sua alma aterrada por não ter dado certo seu plano e perdido a parada para Dória; foi para o brejo a estratégia política e ideologicamente maligna de fechar o regime; a vacina joga por terra os negacionistas, desarmando planos bolsonaristas belicistas; inventarão o que sabem fazer: fakenews, mentiras e propaganda enganosa; se posicionarão de vítimas de golpistas; tentam fazer valer narrativas catastrofistas; o contrapolo a essa atitude está sendo união de forças contraditórias contra o mal que consideram maior; o bolsonarismo; esquerda, direita e centro se unem em favor da alternativa democrática; a chegada da vacina conspira a favor da resistência.

Biden dá aula a Bolsonaro para enfrentar pandemia

De olho na eleição, governo brasileiro já tenta se aproximar de Joe Biden | ExameKeynes desembarca em Washington

Bem ainda não tomou posse e já o presidente eleito Joe Biden manda o Banco Central dos Estados Unidos emitir U$ 1,9 trilhão para garantir auxílio emergencial aos trabalhadores que estão no sufoco da crise econômica aprofundada pela pandemia do novo coronavírus; já é a segunda rodada de injeção de grana na circulação capitalista americana; a primeira foi feita por Trump, garantindo 600 dólares semanais, em dezembro de 2020: certamente, nova injeções deverão ser feitas, se for preciso, para dobrar salário mínimo; o FED fez isso, de maneira mais desenvolta, depois do crash de 2008; para salvar a economia da implosão dos derivativos de dólares, produzidos pelo colapso do mercado imobiliário, naquele ano, o FED, antes que a praga espalhasse, atuou como bombeiro para apagar o fogo; agora, repete a dose; é Keynes na veia; o grande economista inglês é sempre a solução nas horas dramáticas; para ele, a única variável econômica verdadeiramente independente no capitalismo é a quantidade da oferta de moeda na circulação capitalista; quando o governo faz isso, diz, cria 4 fatores imediatos e simultâneos; 1 – eleva os preços; 2 – diminui salários; 3 – reduz juros e 4 – perdoa dívida contratada a prazo; cria-se, dessa forma, a tal da eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro; é o momento em que desperta o espírito animal do empresário; ele deixa de ter medo de enfiar a mão no bolso e parte para os investimentos; ganha, igualmente, de forma imediata, o próprio governo, com aumento da arrecadação de impostos como produto do aquecimento da demanda.

Nova teoria monetária

Agora, se sabe, depois do crash de 2008, que as emissões nem inflação mais provocam, como teorizava os neoliberais, para conter o Estado em sua ação anticíclica; o BC americano, o FED, jogou bilhões para socorrer a economia, financiando troca de títulos podres por títulos sadios(quantitative eise), salvando, principalmente, a banca; o resultado foi taxa de juro zero ou negativa, que deixou de pressionar dívida pública, abrindo espaço para mais e mais gasto público; é a forma que Tio Sam busca criar inflação, a “unidade das soluções”, segundo Keynes;  acabou a teoria neoliberal de que a inflação é fenômeno monetário; o capitalismo em crise, nesse momento, clama por inflação; o elixir desenvolvimentista keynesiano; assim como o governo americano salvou o capitalismo financeirizado do colapso em 2008, da mesma forma, atua, agora, em plena pandemia, para salvar o mercado consumidor, sem o qual o sistema desaba; o auxílio emergencial de U$ 1,9 tri autorizado por Biden obedece a mesma orientação da expansão monetária(quantitative eise) promovida por Barak Obama, na hora dramática da pandemia decorrente da especulação desenfreada com os derivativos de dólar; de lá prá cá, o capitalismo mudou de pele; enterrou a política monetária restritiva neoliberal segundo a qual a inflação é fenômeno monetário e partiu para a nova teoria monetária moderna, ancorada no argumento de que o governo não tem restrição para se endividar na sua própria moeda; é a nova ordem em Washington; como ficará a periferia capitalista brasileira?; dívida pública é solução, não problema; por isso, o capitalismo entrou em nova fase internacional de expansão financeirizada; o presidente capitão foge da solução, que foi o auxílio emergencial de R$ 600, autorizado pelo Congresso, para enfrentar o mesmo problema; diz que não tem dinheiro; esconde atrás da incompetência para governar, exercitando soberania monetária.

Expansão chinesa

A China, já nos anos 1980, recusou entrar na restrição monetária ditada pelo Consenso de Washington, depois que o FED puxou taxa de juros de 6% para 22% ao ano, em 1979; fizera isso em nome da salvação da moeda, ameaçada pela inflação decorrente do déficit público gerado por guerras, que levaram o governo de Tio Sam a descolar o dólar do ouro; desobedientes a Washington, os chineses construíram, soberanamente, sua pujança econômica, que, hoje, ameaça a hegemonia americana no mundo; o Brasil, que se rendeu ao Consenso de Washington, entrou em buraqueira; sua soberania econômica foi para o sal; obedeceu as políticas neoliberais ditadas por Wall Street, FMI, Banco Mundial e BID e se encalacrou; a China seguiu o exemplo do próprio imperio americano: aumentou emissão de moeda nacional sem medo de fazer dívida pública, para puxar desenvolvimento nacionalista chinês; o resultado é a China nova potência global; o Brasil obedeceu Washington; hoje é neocolônia americana; Biden segue a velha regra do império: manda ver na dívida pública, para tirar os americanos da crise; segue não, apenas, Keynes, mas, também, Adam Smith, que diz que dívida pública não se paga, renegocia, interminavelmente.

Desastre bolsonarista

Bolsonaro faz o contrário e, cada vez mais, se afunda na economia, seguindo, com Paulo Guedes, os ultrapassados conceitos de Chicago; nem as empresas americanas acreditam em Chicago; a Ford acaba de dar seu exemplo: sem subsídios do Estado brasileiro, não enfrenta o livre mercado; prefere ir embora, deixando prá trás dívidas e prejuízos, depois de ganhar muito dinheiro por aqui, durante mais de 100 anos; Biden, como Trump, não acreditam em livre mercado; creem, isso sim, em intervenção estatal permanente, para conduzir o capitalismo americano; Bolsonaro, ao seguir Paulo Guedes, não tem outra coisa a fazer senão seguir sucateando o Estado, destruindo empresas nacionais, como tenta fazer, nesse momento, com o Banco do Brasil, depois de seguir desestruturando dois dos principais agentes desenvolvimentistas brasileiros: Petrobrás e a Eletrobrás; ao deixar na mão do Posto Ipiranga o futuro do país, ameaçado pelo colapso neoliberal, intensificado pela pandemia do coronavírus, o resultado que cai no colo do presidente capitão é o desastre total da escalada de mortes, a desestruturação do SUS etc; ao fazer o contrário do que faz Biden, de renovar o auxílio emergencial, como forma de dinamizar a economia, corre perigo cada vez maior; sua continuidade no poder pode ser abreviada antes da sucessão de 2022; o impeachment está batendo cada vez mais forte na porta do Planalto, quanto mais o governo militarizado pelo capitão seguir as ordens dos banqueiros; estes impõem-lhe o teto de gastos, reformas neoliberais destrutivas do mercado interno, enquanto lhe falta dinheiro para saúde, afim de evitar escaladas de morte; Bolsonaro ainda não acordou para o fato de que Paulo Guedes significa falta de oxigêncio, como está acontecendo com os que estão morrendo por asfixia, em Manaus.

Genoino prega Brizola no PT contra Ford

José Genoino é internado em hospital de São Paulo | Agência Brasil
Uma Coluna Virtual: Leonel Brizola, Lula, o PT e Marina

Nacionalismo getulista

Nacionalizar, sim, urgente, a Ford; oxigenação política total do PT, na crise neoliberal; aliança com a comunidade, como destaca o jurista marxista Allison Mascaro, da USP; essa é a estratégia de renovação imposta pela radicalização multinacional da Ford americana, depois de ganhar muito dinheiro no Brasil e dar no pé, deixando dívidas bilionárias e desemprego para trás. Salvar os empregos e a economia; o governador da Bahia, Rui Costa, do PT, sugere José Geonoíno, quadro histórico petista, tinha que dar uma de Leonel Brizola: OCUPAR A FORD EM CAMAÇARI; o gaúcho nacionalista estatizou empresa americana de eletricidade, Bond & Share, quando foi governador do Rio Grande do Sul, em 1960, pelo mesmo motivo; levantou a população em defesa do governo golpeado de Jango; criou o melhor sistema educacional que o país conheceu, as escolas integrais, os CIEPs, enfrentando Banco Mundial, adversário da ideia etc; estaria ele, agora, defendendo os trabalhadores da Ford, como está fazendo Genoíno.
O PT nasceu, nos anos 80, brigando contra os contratos coletivos de arrocho salarial propostos pelas industrias americanas, com destaque para a Ford; ali nasceu Lula como líder operário que chegaria à presidência do Brasil; o PT combatia a Ford como adversária dos trabalhadores; agora, novamente, a multinacional atravessa o caminho do PT; o partido tem que lutar contra velho adversário, a própria Ford, no sentido, de manter sua estrutura produtiva e ocupacional no Brasil; ela foi erguida com o valor do trabalho do operariado brasileiro; e ainda a Ford tenta dar no pé, deixando para trás os trabalhadores sem nenhuma segurança e com largas dívidas da empresa junto ao BNDES.

Banco nacionalista

O banco criado por Getúlio nasceu para impulsionar a industrialização; agora, a Ford só pode liquidar sua saída, se pagar suas dívidas; enquanto isso não acontecer, essa recomendação de Genoíno é perfeita; é o ponto de partida para o PT voltar as suas bases, lembrando suas origens de luta; o neoliberalismo levou a Ford ao colapso, porque a política econômica neoliberal descapitalizou o poder de compra dos trabalhadores; sem consumo, qual investidor ficaria no Brasil? Se o Estado entra em cena para garantir os empregos, estará, também, garantindo o consumo; não há industrialização sem consumidor, sem valorização dos salários, sem as empresas estatais, como Petrobrás e Eletrobrás, cujos planos estratégicos, puxam a demanda global; é o que acontece na China, cujo desenvolvimento se baseia no crédito público e nas empresas estatais; esse modelo, os chineses copiaram do Brasil, como destaca o economia Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e ex-secretário de política econômica do governo Sarney. Seguir o caminho proposto por Genoíno é dar injeção de ânimo no PT para engajar na luta em que justificou sua existência; ocupar a Ford para preservação do mercado interno, dos empregos, do investimento e da expansão econômica é imperativo categórico, diante da escalada neoliberal antinacionalista colonialista.

Teto neoliberal de gasto expulsa Ford do Brasil

A Indústria automotiva precisa mudar de marcha pós-coronavírus - Carros do Célio - iG

Sucateamento econômico periférico

A decisão da Ford de ir embora do Brasil está diretamente relacionada ao golpe neoliberal de 2016 que congela por vinte anos orçamentos sociais que geram renda disponível para o consumo e prioriza o pagamento de juros e amortizações da dívida pública interna que se aproxima de 100% do PIB; tudo piorou com emergência da pandemia do novo coronavírus e tende a piorar, ainda mais, porque o governo neoliberal resiste a ampliar investimentos públicos no novo setor que pode ser a salvação, o da saúde, afetado pela visão negacionista bolsonarista neoliberal. Em semiparalisia, o mercado consumidor, bombardeado pelas reformas trabalhista e previdenciária, que aprofundam, ainda mais, a insuficiência de consumo, adicionalmente, massacrada com a extinção do auxílio emergencial, apressou decisão da Ford de dar no pé; por que ficaria por aqui, se o Estado neoliberal se nega a fazer reforma tributária que distribua melhor a renda, diante da escalada de concentração de riqueza e de desigualdade social, que impulsiona fuga de capital? Trata-se, poranto, de mais um triste capítulo da desindustrialização nacional.

Culmina-se em tragédia econômica uma sequência de fatos históricos, econômicos e sociais que explicam o apogeu e a decadência da indústria automobilística no país, desde os anos 1950 até agora; segundo o marxista senador do PT/PDT, Lauro Campos(1998-2002), autor de A crise da Ideologia Keynesiana(1980), as indústrias automobilísticas vieram para o Brasil como movimento de pressão do capitalismo cêntrico para a periferia em decorrência da bancarrota de 1929, que durou 13 anos, até 1943; depois do crash, causado, segundo Keynes, por superacumulação de capital, a reprodução ampliada do capitalismo americano mudou de foco; até então, os Estados Unidos fabricavam 5 milhões de unidades/ano, dispondo de mercado de 27 milhões de carros; com queda da bolsa de Nova York, a produção caiu para 900 mil unidades/ano, de 1931 até perto do início da guerra, quando foram fabricados apenas 700 mil; ou seja, não havia mais condições de a reprodução capitalista ampliada se dar mais na indústria de bens duráveis de luxo.

Transplante capitalista

O governo americano de Roosevelt, diz Lauro Campos, passa a seguir o conselho de Keynes, dado em 1936: “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego –, exceto em condições de guerra; se os Estados Unidos se INSENSIBILIZAREM para a preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força”; Keynes considerava positiva a estratégia de Hitler, tocada pelo seu mago das finanças, Hjalmar Shacht, que armara a Alemanha com a expansão monetária do BC alemão, para tirar o país da crise da República de Weimar; o genial autor inglês de Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda seguiu o plano da política econômica fascista hitlerista; Roosevelt confessaria, no seu livro, “Os mil dias”, que fazia nos Estados Unidos o que Hitler fazia na Alemanha, só que com mais cuidado, moderadamente; a expansão bélico-militar-espacial-nuclear americana keynesiana, rooseveltiana passou a ser fator de reprodução ampliada do capitalismo americano; vale dizer, os Estados Unidos jamais caíram na ladainha do discurso neoliberal; já em 1944, o déficit público alcançava 144% do PIB; sem dívida pública para fazer déficit, jamais os Estados Unidos seriam potência global.

A indústria automobilística – o setor de bens duráveis – deixara, então, de ser o acelerador da lucratividade ampliada do capital sobreacumulado; a partir desse momento, a estratégia de Washington e dos países europeus, salvos pelos Estados Unidos, pelo Plano Marshall, foi a de expatriar, transplantar, da Europa e dos Estados Unidos, a indústria automobilística; na periferia capitalista, ela, com sua  poderosa cadeia produtiva, alavancou o capitalismo periférico juscelinista, por exemplo; para operar o transplante, os governos europeus e americanos financiaram, mediante bancos privados e FMI/BIRD/BID, construção de estradas; o Brasil foi rasgado de norte a sul e de leste a oeste por rodovias modernas, sem as quais não seria possível expansão da produção de carros, caminhões, tratores etc; Brasília é fruto do transplante da indústria automobilista do capitalismo cêntrico para a periferia, com importação desse capital problemático; para ele se afirmar, na periferia, foi necessária acumulação de renda numa classe social, em prejuízo das mais pobres, capaz de consumir bens duráveis; os conflitos sociais e econômicos desembocariam no golpe de 1964, destaca Lauro Campos.

Crise monetária acelera subdesenvolvimento

A tendência dessa escalada na América do Sul, na Ásia, Oceania, África etc salva a indústria automobilística de novos colapsos tipo 1929, até que com a nova expansão americana, nos anos 1970, com o descolamento do dólar do ouro, voltasse à cena o que acontecera nos Estados Unidos nos anos 1930, reproduzido no capitalismo periférico: aumento da oferta em relação à demanda; as montadoras foram para todos os lugares, aumentando, globalmente, a capacidade instalada, capaz de sobreviver graças aos subsídios garantidos pelos incentivos governamentais, cujas consequências foram aumento dos déficits público; o mercado começaria a claudicar depois que o excesso de moeda americana na circulação global, diante do dólar sem lastro, levou os credores internacionais a pressionarem o FED americano a elevar as taxas de juros contra perigo de inflação mundial; os americanos puxariam as taxas de 6% para 22%, em 1979; consequentemente, quebrou a periferia capitalista, endividada.

Os draconianos ajustes fiscais, impostos pelos credores, os arrochos salariais, as políticas cambiais desindustrializantes, as privatizações se intensificaram, com o novo Consenso de Washington, baixado, em 1980, pelos bancos: a prioridade passa a ser pagar juros da dívida aos bancos, que haviam financiado o transplante; o discurso do equilibrismo orçamentário neoliberal vira a nova ordem econômica e, desde então, inicia-se a lenta retração dos mercados internos da periferia para os bens de luxo, afetados pela restrição de consumo crescente imposta pela visão neoliberal ditada pelos credores; as montadoras instaladas na periferia, reformulam sua estratégia para diminuir a oferta, especialmente, devido à incapacidade de os governos continuarem a bancar incentivos fiscais; o teto neoliberal de gasto, por exemplo, impede a continuidade do subsídio às montadoras; se tentasse continuar, teriam que dar calote na dívida; desmonta-se, com isso, a estrutura produtiva e ocupacional de bens duráveis, cujo fôlego se esgotou depois da crise monetária dos anos 1970 em diante.

Marcha ré ao passado

Tudo ficou mais complicado para a indústria automobilística americana com a entrada da China no mercado de bens duráveis, no final dos anos 1980 em diante; os chineses não se subordinaram à teoria monetária restritiva imposta pelo Consenso de Washington; ficaram com as mãos livres para adotar política monetária segundo a qual o governo não tem restrição para gastar mediante emissão de sua própria moeda; resultado, a indústria automobilística chinesa, japonesa, coreana, submetida à lógica monetária aplicada pela China e Japão, principalmente, passou na frente da indústria americana e europeia e tomou mercado mundial.

A Ford, primeiro, nos Estados Unidos, depois, nos demais países para onde fora transplantada, arriou; há anos, vem perdendo lucratividade; só sobreviveu, até agora, graças aos subsídios governamentais; os executivos da empresa, diante do neoliberalismo de Paulo Guedes, jogaram a toalha; não poderiam mais contar com a política protetora do Estado brasileiro, diante da ordem neoliberal imposta depois do golpe de 2016, para impor a ferro e fogo o teto de gastos; este congela, por vinte anos, os orçamentos sociais, os que geram renda disponível para o consumo capaz de impulsionar mercado interno; a prioridade não é construir mercado interno, mas destrui-lo para que a conta de juros seja quitada; diante disso, as empresas, como acaba de fazer a Ford, aceleram fuga, para tentar se salvar. É a lógica do sucateamento neoliberal periférico; na prática, as montadoras tentam voltar para a casa de onde saíram na década de 1950, sem ter garantia de que, voltando, sobreviverão.

Neoimperialismo midiático ditatorial global

MATERIALISMO DIALÉTICO HEGELIANO
IMPÕE-SE AO DEVIR UTÓPICO MARXISTA
NA GUERRA DO OLIGOPÓLIO PÚBLICO X
OLIGOPÓLIO PRIVADO NOS ESTADOS UNIDOS
Jack London, escritor socialista americano, em Tacão de Ferro, prefaciado por Trotski, diz que, no estertor capitalista, o grande confronto final se dará entre o oligopólio público versus oligopólio privado; este cuida do lucro; aquele, do interesse público; o Estado, por sua vez, no capitalismo, é, como disse Marx, o comitê executivo da burguesia financeira; como tal, o Estado é capital, poder sobre coisas e pessoas; quem vencerá a parada? A censura do oligopólio privado da informação se realizou, incontrastavelmente, sobre o Estado sob Trump, alguém, diga-se, do setor privado, amarrado ao oligopólio privado; a burguesia exercitou, portanto, como comitê executivo, o seu poder estatal pela força do capital.
Hegel disse que o Estado é o ponto final, na sua visão materialista da Fenomenologia do Espírito, encarnado como idealismo absoluto; Marx brigou com ele; contradiz que o Estado é a alienação do objeto que se sobrepõe ao sujeito, a sociedade civil, dominada, enfim, pelo objeto, o capital; Hegel põe o objeto como preponderante ao sujeito.
Tal polêmica levou o autor de O Capital a conceituar sociedade civil como agrupamento de classes de interesses contraditórios; lançou mão, então, do materialismo dialético e histórico de quem, mesmo? De Hegel, embora Marx tenha dito que Hegel colocou a realidade de cabeça para baixo, ao considerar a sociedade civil objeto em relação ao Estado, sujeito; List, economista nacionalista alemão, pregou Hegel, o Estado, contra o primado da sociedade de classe, conceituada por Marx, como saída para o desenvolvimento da Alemanha sob monarquia constitucional; essa briga se estende até hoje em todos os quadrantes da terra.
Marx, frente ao idealismo alemão, ancorado na força do Estado, deu, na Inglaterra, onde o operariado se desenvolveu, na revolução industrial, o salto qualitativo; pregou revolução socialista proletária, como arma para vencer o Estado burguês, para, depois, extingui-lo como propriedade privada do capital; ou seja, o proletariado, criação do capital, vira o seu antídoto, ao assumir(quando?) o Estado e extinguir a propriedade privada; Getúlio Vargas, em 1953, 1º de maio, em São Januário, disse aos proletários que “hoje sou eu que está no governo{ou seja, no comando do Estado nacionalista burguês]; amanhã, serão vocês”. Vargas, naquele momento, expressava menos Marx, pois o Estado era sua arma, e mais Hegel/List, o poder estatal, conforme o idealismo absoluto, na sua versão varguista.
Marx não queria, como Hegel e Getúlio, reformar, mas extinguir o Estado, assentado na propriedade privada; a reforma do Estado é fortalecimento do capital, que manda nele, como se vê, agora, os donos das plataformas sociais mandarem o chefe do Estado mais poderoso da terra ficar calado; por enquanto, ainda, manda no Estado o comitê financeiro da burguesia, no comando da financeirização econômica global.
Hegel é, portanto, o pé no chão; Marx, a utopia, erguida sobre o materialismo dialético hegeliano; Hegel é o aqui e agora; Marx, o devir.