
Lulécio - Lula + Aécio - pode estar por trás da jogada político eleitoral do governador mineiro em resistir à parceira com o governador José Serra, que rechaçou as prévias eleitorais dentro do PSDB, afastando Minas de São Paulo. Poderia pintar o mesmo jogo de Aécio no segundo turno da eleição de 2006 em que apoiou Lula e rifou Alckmim? Quem sabe não está em curso um jogo Lula-Aécio para 2014? Tancredo seria o espírito que está soprando algo nesses dias em que se completa centenário dele?
A impossibilidade da formação de uma chapa puro-sangue Serra-Aécio ou Aécio-Serra, para viabilizar o tucanato, decorre da ausência total de democracia no processo eleitoral brasileiro na escolha dos candidatos partidários para as disputas presidenciais. O Brasil, nesse ponto, teria que aprender com a Argentina, onde essa questão foi, brilhantemente, superada pela presidente Cristina Kirchner ao final do ano passado, mediante reforma avançada. Se os tucanos tivessem realizado prévias eleitorais para escolha do seu candidato, base da reforma portenha, toda a angústia que se verifica, no momento, não existiria.
O governador de São Paulo, José Serra, resistiu, tenazmente, à proposta do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, nesse sentido. Ambos teriam percorrido o país de ponta a ponta na preparação da escolha, movimentariam as bases tucanas em todo o território nacional, teriam oportunidade de apresentar suas idéias, elaborariam, nesse processo, as linhas básicas de programa governamental, discutiriam a questão com a sociedade, a mídia , certamente, daria grande cobertura ao assunto etc e, consequentemente, emergiria aquela força energética decorrente da paixão político eleitoral vibrante na escolha político-partidária. Se desse Aécio, a chapa seria Aécio-Serra; se desse Serra, Serra-Aécio, conforme o desejo dos eleitores. Mas, não. Serra, demonstrando autoritarismo, não topou a parada. O ex-presidente FHC anteviu o impasse, pregou as prévias, mas não conseguiu emplacar proposta renovadora democrática dentro do tucanato.

Serra estaria com muito mais confiança, agora, para enfrentar Dilma Rousseff, se tivesse saído escolhido de prévias eleitorais, que atrairiam o apoio de Aécio a sua candidatura. Como quis impor seu nome, está deixando de somar, para dividir. Divididos São Paulo e Minas, o tucanato dança, porque não tem nome no Nordeste para rivalizar com Lula. Serra paga o preço de querer o todo para si e não perceber o outro em si mesmo.
O governador mineiro sentiu o poder paulista querendo se afirmar a ferro e fogo a partir do Palácio dos Bandeirantes e o assunto criou animosidade entre os dois líderes tucanos. Os mineiros, que se sentiram desrespeitados, prepararam o discurso de Minas, ou seja, silêncio e resistência. Os paulistas excitaram-se extraordinariamente.
Os mineiros, por sua vez, sentiram seus brios afetados. Dispuseram-se à ruptura, como aconteceu em 1930, diante da insistência paulista em continuar ocupando a presidência da República, rompendo com pacto histório. O café-com-leite não se configurou. Virou água com azeite. Por que teria que configurar-se diante de posições rígidas a união Minas-São Paulo, no momento em que os paulistas, sob Serra, tentam impor seu jogo no peito e na raça? Deu no que deu.
O problema é que se o café não misturar com o leite, dificilmente, os tucanos paulistas chegam ao Palácio do Planalto. O que farão os tucanos mineiros aborrecidos com o autoritarismo bandeirante? O viés anti-democrático não se verifica, apenas, entre os tucanos.
Pode pintar defecções, como aconteceu na eleição passada, quando os tucanos mineiros abandonaram os tucanos paulistas e apoiaram Lula. Aécio pode fazer isso? Por que não, se aprendeu a desconfiar da arrogância serrista, que negou a Minas o direito das prévias eleitorais? Serra dançou ali, e pode pagar o alto preço. Aécio cuidaria da candidatura de Anastasia, igualmente, escolhido no dedaço, sem prévias, confirmando o anti-democratismo geral, ao Palácio da Liberdade. Deixaria o terreno aberto para Dilma, de leve. Ou seja, a ausência de prévias eleitorais em vez de unir rachou os tucanos. É a expressão anti-democrática explícita do processo eleitoral brasileiro.
Vicio anti-democrático

O Senador Eduardo Suplicy paga alto preço por ter insistido em disputar prévias eleitorais dentro do PT, desafiando o candidato Lula que viria a ser presidente. Violou o espírito coronelista que toma conta das cúpulas partidárias no Brasil, ainda não evoluídas para um processo político que respeita a escolha popular no interior dos partidos, como passa a acontecer na Argentina, depois da reforma eleitoral aprovada pelo Congresso no Governo Cristina Kirchner. Sem prévias, não há candidatos com suficiente credibilidade. Por meio delas, obtém-se os verdadeiros candidatos fichas limpas obtidas no processo de escolha comunitária. Serra está dançando por isso. É o preço cobrado pela democracia.
Dentro do PT rola a mesma coisa. A tentativa do senador Eduardo Suplicy encontra o mesmo autoritarismo petista pela frente na sua tentativa de introduzir práticas democráticas nas escolhas prévias. O senador paulista, um dos mais importantes políticos do país, conseguiu levantar a ira de toda a petelhada, quando, em 2002, decidiu disputar as prévias para a escolha da presidência da República com o presidente Lula. O líder metalúrgico se sentiu agredido e desde então Suplicy é tido como ovelha negra na família petista. Ousou enfrentar Deus, o onipotente Lula. As cabeças coronelistas das cúpulas partidárias estão assentadas em todos os partidos. Agora, o senador paulista tenta, novamente, lançar seu nome nas prévias, para disputar a sucessão de José Serra. De novo, a mesma resistência se levanta. É como se representasse um gesto autoritário e não democrático tal tentativa.
Os líderes do PT em São Paulo se movem de todas as formas para impedir o propósito suplicista. A democracia brasileira é pura fachada. A Constituição é amplamente divulgada e respeitada, em sua aparência, mas em sua essência é jogo de palavras. Os candidatos não seguem as regras do compromisso democrático. A começar pelo presidente da República. Escolheu sua candidata à revelia do partido e os petistas tiveram que engolir. O presidente Lula demonstra formalmente sua filiação aos preceitos democráticos, mas não segue a prática, quando diz respeito à candidata que tentará emplacar. Os modos de escolha são na base do dedaço. E quem ousou contrariar é jogado às feras, como ocorre com Suplicy.
Lula o isola, completamente, mesmo sabendo que o grande triunfo político do governo tem suas raízes, também, na luta de Suplicy para garantir renda mínima aos miseráveis, o que não deixa de representar uma variação do Programa Bolsa Família. Nunca, dentro do Palácio, o presidente Lula jogou para cima o feito político estratégico de Suplicy como contribuição do partido às políticas sociais no país. O titular do Planalto não gosta de dividir com o outro o prestígio dele. A frieza petista à nova investida supliciana é manifestação de espírito anti-democrático partidário, concernente ao comportamento dos demais partidos em matéria de democracia eleitoral.
O PMDB é outro poço eterno de anti-democracia, embora o espírito democrático peemedebista furado seja cantado em prosa e verso. Não se dignaram os comandantes do PMDB a batalhar a democratização partidária pela promoção das prévias. Escolhe-se de cima para baixo os caciques e o resto tem que engolir. O governador nacionalista do Paraná, Roberto Requião, defende as prévias. Mas, por ser, justamente, pregador da democracia partidária, recebe o esfriamento político peemedebistas necessário.
Coronelismo eletrônico ditatorial

A pregação das prévias eleitorais ecoou no último congresso nacional do PMDB, mas as lideranças taparam os ouvidos olimpicamente, para alinhar ao partido à vice-presidencia da República, enquanto capava a formação de lideranças peemedebistas nacionais, que ambicionam disputar democraticamente a presidência da República, como o governador Roberto Requião
A proposta requiana, a exemplo da de Suplicy, é vista como um insulto.
Os democratas, idem. É tudo acerto de cúpula, jogada de coronéis eletrônicos. Tudo se subordina a uma armação anti-democrática. O presidente Lula escolhe ditatorialmente sua candidata e acerta com os líderes dos partidos da coalizão governamental o palanque no cenário político eleitoral nos 27 estados da federação.
Não se tem nenhum estímulo à democratização político partidária. Em Minas Gerais, por exemplo, o ministro Patrus Ananias, do PT, propõe prévias eleitorais dentro do partido, porque deseja ser candidato, mas a cúpula é contra, para que haja acerto prévio, a fim de armar a coligação entre PT-PMDB, dispondo os peemedebistas da cabeça de chapa com o ministro Hélio Costa, tendo como vice o petista Virgilio Guimarães.
E os eleitores , na comunidade, que, na democracia verdadeira, escolheriam os candidatos para a disputa, como é que ficam?
Na Argentina, Cristina Kirchner conseguiu aprovar no Congresso a reforma que daria exemplo ao Brasil. A cada agosto de ano eleitoral, os partidos vão aos urnas, simultaneamente, para escolha dos seus representantes, com o detalhe de que eleitores e eleitoras com ou sem filiação partidária possam comparecer às prévias de um ou vários partidos, para influir, democraticamente.
Divórcio São Paulo-Minas

Os petistas dão as costas a um a liderança autência do PT que deseja disputar as prévias, porque precisam atender os acertos de cúpula entre o presidente Lula e a coalizão partidária, para favorecer o PMDB nas Gerais em nome do interesse maior que é eleger Dilma. Mas, e os eleitores que desejam as prévias, não são consultados?
Ou seja, o candidato sai das prévias para a disputa nacional devidamente avalizado, com ficha limpa.
Essa prática, no Brasil, no contexto em que as cúpulas coronelísticas eletrônicas determinam os resultados a partir das cartas puxadas do bolso dos coletes, significa sonho de noite de verão.
Em vez de a oxigenação democrática vir de baixo para cima, influenciando as decisões em escala crescente, como é o caso do processo eleitoral, nos Estados Unidos, em que o espetáculo das prévias eleitorais conduzem o sentimento popular ao qual as cúpulas se rendem, nas terras tupiniquins ocorre o oposto, as ordem vêm de cima para baixo, em escala decrescente. Não há democracia efetiva, apenas, formal, sem carimbo popular vibrante.
O governador José Serra é um exemplo acabado de resistência à democracia partidária. Como não emergiu como fruto da vibração político partidária tucana , obtida em prévias que promovem a emulação eleitoral irresistível, cuida de atrasar o anúncio da própria candidatura, pois encontra ela parcialmente queimada em Minas Gerais.
Cuidou, o tempo todo, de não abrir mão da cabeça de chapa, recusando a escolha pré-eleitoral. Compreensivelmente, está inseguro, sem vibração, vendendo , em vez de vitalidade, medo. Medo da democracia pré-eleitoral.
Por ter fugido dela, dividiu o partido , impedindo a união dos dois colégios eleitorais mais potentes do país, Minas e São Paulo. Como Minas não viu seu direito respeitado, não aceita, consequentemente, ser empurrada para uma situação esdrúxula por São Paulo.
Pode pintar o mesmo que aconteceu no segundo turno da eleição de 2006. O governador Aécio Neves jogou discretamente a favor de Lula e vendeu ao diabo a alma de Geraldo Alckmim.Não estaria já sendo costurada entre Lula e Aécio alguma jogada para 2014?
Vai pintando repeteco não muito afinado com o que aconteceu em 1930, cujo desfecho foi revolução, enquanto que , agora, em 2010, está sendo evolução. Minas e São Paulo se encontram no centro dos acontecimentos.
A separação entre ambos provoca atritos. Em 1930, Minas se uniu a um candidato do Rio Grande do Sul, depois de separar-se de São Paulo. Deu Minas e Rio Grande do Sul, com um gaúcho chegando ao poder, rompendo-se o histórico café-com-leite.
Em 2010, Minas se aparta de novo de São Paulo, para se unir a quem? A uma candidata que fez carreira no Rio Grande do Sul, sendo mineira de nascimento, herdeira do poder popular lulista? Ou emergiria a candidatura Aécio, percebendo Serra que será uma fria sair sem o titular do Palácio da Liberdade como companhia segura? O titular dos Bandeirantes preferiria disputar segundo mandato?
Que traumatismo ou que evolucionismo político decorreria de eventual nova separação São Paulo-Minas?