Derivodólar ameaça Meirelles

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pode dançar no último baile da Ilha Fiscal global. A bancarrota financeira neoliberal representaria seria ameaça a ele.

A política de juros altos, que foi favorável, num primeiro momento, para a economia, tende a se transformar em pesadelo, se os juros brasileiros, os mais altos do mundo, atrairem, irresistivelmente, os dólares derivativos apodrecidos na praça global. Aprodeceria a economia. 

O mundo, depois de viver a pujança e a decadência do dólar, do eudólar, do petrodólar e do nipodólar, vive, agora, os fantasmas da destruição do dólar derivativo, o derivodólar, gerado na bancarrota do setor imobiliário que produz crise bancária aguda.

Os investidores especulativos estão em polvorosa. Nos Estados Unidos, perderam a teta estatal para mamar. Na Europa, idem, apesar de, tanto americanos como europeus e japoneses estarem jogando dinheiro na circulação, nesses dias, para evitar o empoçamento de capital no sistema, perigando falir geral.

Sem chances de reproduzirem nas praças ricas onde se realiza a eutanásia do rentista, com juro baixo para evitar recessão, quem vai perder um negoção chamado juros brasileiros?

Fantástica lucratividade: trocar moeda que está apodrecendo o sistema financeiro internacional por títulos da dívida pública brasileira, cujo lastro é a riqueza do petróleo, dos minérios, dos alimentos, da biodiversidade, da condições naturais – terra, água e sol, que possibilitam até três safras anuais etc.

Nacionalismo ou entreguismo?

Se houver uma corrida de investidores para o Brasil nas próximas semanas, sem dúvida, o dólar, em vez de valorizar-se, seria brutalmente desvalorizado. O presidente do Banco Central tremeria na cadeira. Aumentariam vozes no Congresso pedindo sua cabeça.

Pode ser que tal pedida seja feita pela oposição, sem arma política para combater Lula.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, está colhendo  vitória em cima do discurso jurista neoliberal de Meirelles, no auge da crise financeira.

Como, criticamente, apostou no desenvolvimentista redistributivo- social-nacionalista-getulista-lulista, pregador de juros mais baixos, como faz, também, o vice-presidente José Alencar Gomes da Silva, Guido Mantega vê o chão abrir sob os pés de Meirelles.

Poderia ser tragado pela areia movediça neoliberal em crise de forma acentuada, se houver uma corrida bancária, por esses dias – hoje, ou amanhá, quem sabe? – ou por horas contra eventual enxurrada de moeda podre atraída pelo juro alto. Parece Boró, aquele bichinho que gosta de tudo que é podre, papel, pau etc.

 

Lenin cantou a bola

Em tal ambiente, nada  tão favorável paras as causas socialistas, como destacou Lênin, do que as desorganizações monetárias, que mexem com a segurança íntima do ser humano, já que os movimentos do dinheiro levam a um estresse total, predispondo-o, preocupado, às osciliações politicamente radicais.

O relógio da história está virando contra Meirelles, simplesmente, porque, se o juro alto, até agora, foi solução, daqui para a frente, pode virar problema., causando incertezas generalizadas. O que é positivo numa hora, é negativo em outra, contraditoriamente, dialeticamente.

Para piorar a situação conjuntural, emergente, Meirelles errou fragorosamente na última reunião do Copom, na semana passada. Em vez de conduzir a discordia interna dentro da diretoria do BC para um consenso, jogando , policamente, quis dar uma de machão. Fez política econômica em vez de economia política.

Estrepou-se ao optar por mais uma torcida forte no parafuso dos juros. Pegou mal. O momento pedia ponderação. A coragem para atender os interesses dos especuladores, sob o disfarce de combater a inflação, excedeu-se. Foi mais realista que o rei.

Rendeu-se ao mecanicismo, dançou na dialética.

Resultado: os preços do petróleo cairam fortemente; idem os preços das commodities etc. Pode pintar, em vez inflação, deflação.

Haveria deterioração acentuada nos termos de troca em favor de quem dispõe de matéria prima, América do Sul, relativamente, a quem precisa delas para industrializar, Europa, Estados Unidos, Japão, China etc.

Os preços dos produtos primários, escassos, sobem, enquanto os preços dos industrializados, graças ao aumento da concorrência, caem.

Haveria acirramento violento da competição no comércio mundial, carente de regulações, por causa do fracasso da Rodada de Doha.

Pode vir por aí uma sangria dos preços. A solução meirelliana pode estar deixando de ser útil.

 

Imperfeição é fundamental 

Não está pintando clima para compatibilizar-se com as decisões do BC,  que, visando a meta de 4,5% para a inflação para 2009, estaria arrochando, desde já, o custo do dinheiro.

Necessário? Desnecessário? Inconveniente? Imprudente? Prudente? Estados Unidos, Europa, Japão, Chile, que estão reduzindo os juros, estariam errados? 

Ou Meirelles acredita que elevando ainda mais os juros nas alturas estratosféricas continuará distribuindo renda a partir de bônus para os especuladores da classe média com os títulos da dívida pública que geram consumo bem à moda de um keynesianismo financeiro cuja fonte de renda é a própria moeda em circulação, agitando o consumo popular?

A qualidade do momento econômico internacional mudou para pior. A sinalização é de aumento da concorrencia global, que leva às desvalorizações, mediante políticas monetárias e fiscais altamente competivas.

As praticadas no Brasil, como mostram os resultados da balança comercial, não são. E o mais dramático, ainda: o que era bom, tende a ficar ruim, com muito dólar circulando para fugir do juro baixo, isto é, da morte-eutanásia.

Na Europa, nos Estados Unidos, na China, no Japão, no Chile, etc, os juros caem. Já, no Brasil, graças à estratégia meirelliana….

Não seria melhor jogar as reservas cambiais em maciços investimentos públicos do que ficar com elas num contexto altamente volátil?

Meirelles, em entrevista a Willian Waack, disse que não está afastada essa possibilidade. Talvez seja a sua salvação politica.

O giro dos acontecimentos está sendo veloz, criando situações inesperadas, surpreendentes, incontroláveis, desestabilizadoras.

Bastou poucas horas para o Lehman Broths, de 158 anos de idade, ir para o espaço, como fumaça. 

Não dá para não citar Fernando Pessoa diante da bancarrota do pensmento econômico neoliberal que pensava portar verdade única do pensamento perfeito:

“O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.”

Bancarrota financeira neoliberal

A pregação neoliberal americana é para inglês ver. Vale da boca para fora. Aos países capitalistas da periferia, a solução é o neoliberalismo. Quando a situação fica preta na economia americana, a solução é estatal. O internacionalismo americano se transforma em nacionalismo bancário quase xenófobo. A estatização dos bancos imobiliários Fannie Mae e Freddie Mac, que têm  financiamentos imobiliários da ordem de 5 trilhões de dólares, demonstra a duplicidade da teoria americana. W. Bush, para evitar bancarrota financeira, entrou em campo. O tesouro americano vai assumir os prejuízos, jogando 200 bilhões de dólares na fogueira, para os consumidores, depois, pagarem a conta em forma de impostos, taxas e contribuições, já que não existe almoço grátis. Os aplicadores nas hipotecas dos dois grandes bancos privados, que atuam com o aval do governo dos Estados Unidos, para tocarem a política habitacional, estão dependurados na brocha. Governos asiáticos, que aplicaram suas reservas no Fannie Mae e Freddie Mac, podem levar prejuízos monumentais. As grandes exportações asiáticos, mediante moedas competitivas relativamente ao dólar, geram divisas que são gastas em compras de títulos da dívida americana e de grandes bancos dos Estados Unidos. A febre imobiliária, comandada pelos bancos Fannie Mae e Freddie Mac, atraiu muita grana asiática. Esta, agora, pode transformar-se em poeira. A ultra-especulação que se verificou, nos dois ultimos anos, no mercado imobiliário americano, espraiando-se pela Europa, deu-se com a proliferação do dólar derivativo. Dinheiro que gera dinheiro em escala global, levou o mercado imobiliário à esquizofrenia. Financiamentos para comprar casas se reproduziram em escala inimaginável no mercado de derivativos, alavancando negócios sem lastro, cujos efeitos, agora, são quedas violentas das cotações imobiliárias e perdas de hipotecas e falências generalizadas. Onze bancos já foram para o espaço. Os bancos, que alavancaram créditos podres, garantidos por outros créditos pobres, deslastreados, tiveram, diante da queda de preços dos imóveis, de suspender o crédito. A interrupção do mercado creditício levou ao empoçamento do dinheiro, que perde valor monetário. Sem a circulação do dinheiro no mercado, os prejuízos se avolumam. O capital, em sua fase puramente financeira, não consegue se reproduzir na produção porque a circulação das mercadorias se interrompe na bancarrota do crédito. Os bancos estão sendo condenados a registrarem prejuízos de bilhões de dólares. São quase 7 trilhões de dólares de prejuízos. Estes tendem a aumentar indefinidamente, especialmente, se os dois bancos estatizados tivessem ido à falência. O governo americano banca a estatização bancária como alternativa para evitar o colapso do capitalismo americano. Evidencia-se que na economia meramente monetária, bancada pelo dólar sem lastro, a estatização dos bancos vai se transformando em necessidade imposta por um fenômeno caracterizado pelo próprio colapso da moeda deslastreada, da qual os investidores, apavorados, fogem. O momento é de pânico na economia mundial, que, sob o dólar apodrecido no mercado de derivativos, gera tensões sociais e políticas, altamente, explosivas. Este é o momento mais crítico para a economia capitalista, segundo Lenin, pois, diante do perigo de perda de poder aquisitivo da moeda, as reações humanas se tornam irracionais. Nada mais adequado para as teses socialistas. Na verdade, as crises monetárias, conforme destacou o líder da revolução comunista soviética, em 1917, são as parteiras do socialismo, a melhor propaganda do movimento socialista internacional. Muitas tensões à vista nos próximos tempos de grande recessão na economia mais poderosa do mundo, cujos reflexos estão se fazendo sentir na Europa, podendo balançar os alicerces da social-democracia ocidental.

Doha sinaliza guerras cambiais

Celso Amorin
Celso Amorin

O fracasso nas negociações de Doha, em Genebra, sinaliza aumento da competição comercial internacional, acompanhada de políticas cambiais cada vez mais flexíveis, como resposta à sobredesvalorização do dólar, que desvaloriza a dívida americana e favorece as exportações dos EUA, simultaneamente, como resposta à desaceleração interna gerada pela crise bancária, detonada pela interrupção do crédito, enforcado pelo colapso imobiliário.

Os impasses explícitos entre EUA e Europa, de um lado, e China e Índia, de outro – com o Brasil fugindo da rinha para uma acomodação mineira – , demonstraram que são grandes as dificuldades para se organizar as trocas comerciais globais.
Há excesso de manufaturados estocados em forma de capacidade produtiva ociosa nos países capitalistas cêntricos, no compasso acelerado do aumento da produtividade impulsionada pela ciência e tecnologia a serviço da produção.
Como desovar?
Guerra cambial. Como competir com o dólar desvalorizado, senão promovendo desvalorizações das moedas nacionais para tornarem compatíveis as relações de troca?
Como subsidiar estoques internos inconsumíveis em face de possível esfriamento econômico gera tensões fiscais, desvalorizar o câmbio pode, no contexto da desvalorização acelerada do dólar, voltar a ser opção.
Doha comprovou que não há entendimento entre produtores de matérias primas básicas e semi-manufaturados, de um lado,  e os produtores de manufaturados de ponta científica e tecnológica, de outro.
Ambos os lados precisam de uma só coisa: mercado, mas os preços que cobram, de lado a lado, são altos e não se chegou, por enquanto, a um acordo.
Os emergentes querem exportar produtos agrícolas para os países cêntricos que não querem importar, mas subsidiar o produto interno.
Os ricos querem exportar suas mercadorias de alto valor agregado que se desvalorizam mediante abertura comercial total dos países emergentes, enquanto apelam ao protecionismo velho de guerra. Angu global.
No contexto inflacionário impulsionado pelo dólar sobredesvalorizado, as mercadorias secundárias – bens industrializados – encontram dificuldadades para se valorizarem, devido à concorrência global, enquanto as mercadorias básicas, matérias primas ganham valorização súbita, impondo deterioração nos termos de troca e, consequentemente, pressões tanto deflacionárias como inflacionárias.
A guerra econômica, em face do fracasso de Doha, salvo ludidez de última hora dos negõciadores, está no ar.

Novo oxigênio da cadeia produtiva

Com os cartões de crédito de consumo, os pobres, antes impossibilitados de consumirem, foram aos supermercados; os supermercados, diante do aumento da demanda, dirigiram-se às indústrias para renovar estoques; as indústrias, por sua vez, recorreram à agricultura; esta, na sequência, gastou em máquinas, equipamentos e insumos, impulsionando cadeia produtiva, alavancando serviços etc.

Expandiram-se os investimentos e seu corolário foi a dinamização da política de crédito. Hoje, graças a tal estratégia, o crédito direto ao consumidor atinge R$ 240 bilhões, beneficiando 80 milhões de novos consumidores, cujo destino financeiro é uma incognita. Dependem do comportamento da inflação, detonada, agora, pelo dólar sobredesvalorizado, no plano global, responsável pela instabilidade bancária e explosão do terceiro choque de preços do petróleo.

Enquanto o desastre não vem – se é que virá – , o consumo interno segue aquecido. Cadeias de supermercados populares se instalaram no Nordeste, palco maior da miséria histórica nacional. Da mesma forma, bancos ampliaram agências na região. O consumo interno elevado dispensou os empresários de buscarem, nos governos, o socorro das políticas cambiais inflacionárias.

A inflação – “unidade das soluções”, segundo Keynes – vinha em forma de desvalorização da moeda. Agora, sem precisar desvalorizá-la, como antes, amenizaram-se, graças às políticas sociais, as pressões inflacionárias. Emergiu, por isso, o contrário da desvalorização, isto é, a valorização monetária, transformando-se em fonte de combate à inflação.

Caso não houvesse fortalecimento dos programas sociais, na linha seguida por Ruth Cardoso e continuada por Lula, certamente, o país estaria em situação muito pior, possivelmente, diante de hiperinflações selvagens, no momento em que o dólar entra em parafuso global. .

A prova de que Lula segue a lição de Ruth foi dada na semana em que ela se foi, lançando sentimento de tristeza sobre a alma nacional: mandou reajustar em 8% o orçamento do Programa Bolsa Família, como forma de compensar a queda do poder de compra dos miseráveis, afetado pela desvalorização da moeda de Tio Sam, detonadora da inflação global.

Se não fizesse isso, sua popularidade começaria a declinar. As crises subconsumistas anteriores poderiam renascer com muito maior força destrutiva.