Big Bang capitalista afeta PAC lulista

O sistema capitalista está em risco, porque a sua parte podre, a dominação especulativa, geradora de renda para a parte boa sobreviver, ou seja, a parte produtiva, entrou em colapso com a implosão dos bancos, que financiaram os setores imobiliários nos Estados Unidos e na Europa, agora, envolvidos em bancarrota, levando de roldão o sistema bancário. Os ricos estão empobrecendo. Já foram jogados na fogueira da especulação 1,5 trilhão de dólares, valor correspondente a dois PIBs brasileiros. E, ainda, o fogo continua alto, requerendo doses maciças de socorro dos bombeiros, os bancos centrais, cuja convicção na tarefa de eliminar as chamas é, por enquanto, inexistente. Joga-se no escuro. Como fica o Brasil, nesse contexto? Apesar das autoridades se mostrarem excessivamente otimistas, uma coisa é certa: o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC – com o qual o presidente Lula pretende continuar dinamizando a produção, para gerar suficiente poder de confiança, capaz de permiti-lo fazer sua sucessora predileta, na eleição presidencial, em 2010, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, pode, junto com a economia global, desacelerar-se, também. Dez bancos de peso, na Europa e Estados Unidos foram para o buraco e os preços das ações dos 50 principais oligopólios financeiros e produtivos – mais fortes que muitos governos juntos – que valorizaram, no mercado, nos últimos cinco anos, caíram em torno de 90%, nas últimas semanas, demonstrando que tanto a produção como a especulação estão no mesmo barco. Simplesmente, viraram pó. O cassino financeiro global, que estava produzindo renda como coelhos se reproduzem, com a utilização do chamado mercado derivativo, em que moeda se torna parideira de moeda, sem que haja lastro real, deixou de funcionar nas duas praças econômico-financeiras mais poderosas, européia e americana. Está sinalizada a recessão forte, que afetará, globalmente, a todos, já que a interdependência financeira é um dado concreto da realidade global mutante em processo de aceleração destrutiva. Não foi possível suportar a dose de loucura que o capitalismo financeiro imprimiu às ações ultra-especulativas ao longo dos últimos cinco anos, no mercado imobiliário. Repetiu-se a mesma manobra que aconteceu nas grandes jogadas ousadas, que visam ganhar dinheiro fácil, sendo a maior experiência histórica, nesse sentido, a grande crise de 1929. Naquele ano fatídico, em outubro, o mercado emitia papel que era caucionado por valorizações especulativas do próprio papel, de modo a permitir novas compras de papéis, acompanhadas de seguidas sobrevalorizações especulativas, de modo a caucionar mais papéis podres, e assim por diante, até a implosão. Assim que os preços despencaram, os aplicadores não tiveram dinheiro para pagar suas contas. Muitos subiram nos últimos andares dos edifícios de Nova York e outras praças, para saltarem de cabeça, desesperados.

Momento de loucura do capital

A cena se repete, dramaticamente, agora, sem maiores suicidios, mas com grandes quebradeiras. Os aplicadores compravam suas casas com empréstimos bancários, as casas, inicialmente, tinham seus preços valorizados, tal valorização servia de caução para levantar novos empréstimos, a fim de comprar mais casas e apartamentos, até que o mercado sinalizou excesso de casas, ou seja, de bananas, no mercado, que começaram a apodrecer, jogando os preços para baixo. Quando a maioria dos compradores foi vender esses ativos, para pagar as prestações, os preços deles estavam pela metade ou menos, quantia insuficiente para quitar os papagaios bancários, acrescidos dos juros. Falência geral.
Nesse ambiente, de falência, os bancos cortaram o crédito e as indústrias, comércios e serviços, sem o oxigênio creditício entraram em desaceleração. Evidenciou-se que deixou de funcionar o mecanismo que mantém a economia capitalista mundial ativada, com os Estados Unidos desempenhando, historicamente, desde o pós-segunda guerra mundial, o papel de consumidor global maior, prioritário, a partir de emissão de papel moeda sem lastro, para, com seus deficites comerciais, gerar superavits comerciais nas demais economias do mundo.
Os bancos, desconfiados da inadimplência generalizada, resistentes a continuar o jogo do crédito direto ao consumidor, somado às desconfianças generalizadas dos consumidores, que, super-endividados, sem poder pagar suas prestações, em face das desvalorizações violentas dos seus ativos imobiliários, suspenderam as compras, perderam a função precípua do sistema bancário, simplesmente, porque começaram a falir.
A roda da fortuna havia quebrado. Se continuasse a situação como ficou, diante da falência dos consumidores endividados, o dominó da quebradeira se tornaria irresistível. O governo americano teve que entrar em campo, para praticar o discurso econômico que prega para os outros, mas não para si mesmo, ou seja, decidiu estatizar os principais agentes financeiros do setor imobiliário americano e a maior agência de seguros bancários do mundo. Já, outros bancos, também, importantes, nas áreas de investimentos, que estavam pela hora da morte, foram empurrados, sem dó, para a cova. Os bancãos viram banquinhos no correr da bancarrota financeira global.
O pânico se genralizou, até que, na madrugada de sexta-feira, o governo americano, exausto, abriu o bico e pediu água. A Casa Branca percebeu que, sozinha, não daria conta do recado. Solicitou socorro aos seis principais bancos centrais do mundo, para tentar salvar o capitalismo. Foram, emergencialmente, injetados mais 250 bilhões de dólares, para tentar acalmar o maremoto financeiro neoliberal, tocado pelo dólar derivativo, o derivodólar derivodoido, que ameaça virar papel de parede.
Ficou claro: o unilateralismo norte-americano, que emergiu depois da guerra fria, em  1989, colocando os Estados Unidos como o bam-bam-bam do mundo capitalista, dá lugar, com a coordenação financeira global, ao multilateralismo político e econômico global, demonstrando a redução do poder relativo do império americano no mundo. A Roma moderna está mais fraca.

Brasil na roda da loucura

A crise é, apenas, americana e européia, sem maiores transtornos para o Brasil, como tenta vender, de formar ufanista, o presidente Lula e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no auge da loucura especulativa implodida? Mentira.
A economia brasileira, igualmente, corre perigo, e pode ser fortemente afetada, apesar de o colchão de segurança contra ela ter sido dado com o aumento do consumo interno, que evitou desvalorizações cambiais aceleradas, nos últimos anos, para elevar exportações, como forma de desovar estoques internos inconsumíveis, graças à péssima distribuição da renda nacional.
Os programas sociais, bombados com dinheiro público, keynesianamente, valorização do salário mínimo,  aumento dos gastos com previdência e expansão do crédito a juro alto, minimizaram o problemas. O governo colocou poder de compra estatal nos cartões de crédito de alimentação dos pobres para consumirem os excedentes internos. Com isso, evitou desvalorização cambial e provocou o seu contrário, sobrevalorização do câmbio, permitindo, assim, combate à inflação, embora o real sobrevalorizado, em contrapartida, tenha, graças aos juros altos, elevado a dívida pública interna, perigosamente, transformando-a em freio efetivo ao crescimento sustentável.
O perigo maior, agora, está à mostra. O dinheiro valorizado inviabiliza as exportações nacionais, em ambiente de elevada competição global, e provoca deficit em contas correntes, pois as importações crescem mais do que as exportações, no compasso do PIB avançando 6% no segundo trimestre do ano. Somente nos dois últimos meses, o deficit aumentou em 2 bilhões de dólares. Estima-se que, nesse ano, poderá aproximar-se dos 2% do PIB, algo em torno de 30 bilhões de dólares, enquanto, no ano passado, registrou-se superavit de 3 bilhões de dólares. Vale dizer, não há tranquilidade, mas preocupação.
A desaceleração da economia mundial, a partir da redução do consumo nos Estados Unidos, dado pelo freio consumista pelas famílias endividadas, já está se fazendo sentir na redução dos preços do petróleo e das matérias primas e metais, que dinamizam a produção de manufaturados. Sendo estas as matérias primas que mais engordam os saldos comerciais brasileiros, ao despencarem os seus preços, ocorrem, prejudicialmente, deficits, cujos efeitos, aos olhos do mercado, são perigos para saúde da moeda.
O real, nessa batida, estaria seguro, para valer, ou, também, poderia se tornar candidato a sofrer uma corrida especulativa?
O ufanismo governamental, nesse momento, diz que essa possibilidade está afastada, já que o Brasil estaria, suficientemente, garantido por suas reservas de mais de 200 bilhões de dólares. O que seria essa quantia, significativa, sem dúvida, diante dos 1,5 trilhão de dólares que já foram torrados na fogueira especulativa global do sistema neoliberal que está perdendo sua utilidade?  Praticamente, muito pouco.

Mundo da moeda apodrecida

O fato, como ocorreu em situações semelhantes, bem menos destrutivas de capital, que se encontra sobreacumulado na Europa e Estados Unidos, não deixa dúvida: a contração do crédito global, que o governo americano tenta restabelecer, para manter ativa a produção, vai afetar a menina dos olhos de ouro do presidente Lula e da aliança governamental: o Programa de Aceleração do Crescimento. Não dá para tapar o sol com a peneira.
O PAC, que precisa, para colocar em dia as previsões de investimentos governamentais, de algo em torno de R$ 40 bilhões, por ano, para manter os gastos públicos crescendo acima do PIB, de modo a bancar crescimento econômico de 5% ao ano, tende a perder fôlego. A desaceleração global imporia relativa desaceleração brasileira, com reflexos na redução dos investimentos, da oferta de emprego, do consumo e da arrecadação, que bombeia gastos públicos superiores ao crescimento do Produto Interno bruto, para puxar a demanda global.
Certamente, as especulações contra a moeda, nesse momento, estão exacerbadas, como sempre acontece nos momentos de comportamento de manada, mas pode ser algo temporário, se as reservas acumuladas derem conta do recado, no sentido de estabilizar o preço dela.
Ficaria em aberto outro perigo, se aquele for contornado: as elevadas taxas de juros. Como nos países ricos está ocorrendo a chamada eutanásia do rentista, com os governos jogando a taxa de juros para baixo, a fim de evitar recessão, embora correndo o risco de mais inflação, no Brasil, ao contrário, os juros mais altos do mundo tenderiam a atrair os dólares derivativos que estão apodrecendo no compasso da crise bancária internacional.
O dólar derivativo apodrecido, se vier em quantidades excessivas para o paraíso brasileiro dos juros altos, terra brasilis jurista, poderia apodrecer, também, a própria economia, ameaçando, consequentemente,  a vida do presidente do BC, Henrique Meirelles.
A areia movediça está em plena atividade, disposta a engolir os personagens centrais do drama.

Dinheiro empoçou nas praças ricas

Em todas as crise capitalistas, o capital se sobreacumula nos países ricos, que, para livrarem dos prejuízos, canalizam o excesso de dinheiro, que deixa de render no centro, para a periferia em forma de dívida externa. Daí, Marx destacar que a dívida externa representa, fundamentalmente, instrumento de dominação internacional, como alternativa às crises financeiras cíclicas.
A partir dos anos de 1980, como explica Lauro Campos, em “Moeda e mercadoria:metamorfose e crise”(Ed. UnB, 1992), o processo se inverteu. Em 1979, diante do excesso de dólares, eudólares, petrodólares e nipodólares, na economia mundial, acumulados desde o pós-guerra, guerra fria e guerra do Vietnan, lançados na economia, para fortalecer os países europeus e Japão, evitando serem atraídos para o comunismo, os Estados Unidos elevaram a taxa de juros de 5% para 17%, em nome do combate à inflação.
Resultado: a periferia capitalista, que dinamizava a economia mediante dívida externa, tornando-se, historicamente, dependente, faliu, como destaca Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto, em “Teoria de dependência”. Os bancos internacionais, que, antes, canalizavam as sobras de dinheiro acumulado, no centro, para os países capitalistas periféricos, trancaram o cofre e chamaram o FMI, que passou a ser capitão do mato, na tentativa de ajustar as economias falidas, mediante orientação do Consenso de Washington, a partir de 1982. A receita ficou famosa: desregulamentação, privatização, corte de gastos e superavits primários elevados, para pagar os juros da dívida. Os empréstimos externos secaram.
O capital acumulado no centro, sem poder descolar-se para a periferia em forma de dívida externa, ficou, mesmo, atolados nos países ricos, dando início a nota etapa de reprodução ampliada do capital, a partir de especulação, não na periferia, mas no centro, mesmo, gerando problemas. A especulação inevitável preparou o campo para os desastres, como reconhece o ex-presidente  do Banco Central dos Estados Unidos, Allan Greenspan, que caracterizou esse período do capitalismo como sendo o da “exuberância irracional”( “A era da turbulencia – aventuras em um novo mundo”, 2007, prefaciado por Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, na Era FHC).
O dinheiro sobreacumulado pela superespeculação no capitalismo cêntrico buscou, na imaginação abstrata, suas formas de reprodução ampliada, por intermédio do esquentamento de negócios, de forma cíclica, até que os mesmos explodissem, deixando rastros de destruição. Aconteceu, nos anos de 1990, no contexto da exuberância irracional, a superespeculação com as empresas ponto.com. As valorizações das ações especulativas serviam de caução para novas ações sobreavalorizadas, da mesma forma que, agora, ocorre com as ações do mercado imobiliário, assim como aconteceu no crash de 1929.
A dívida externa, antes formada nos países pobres, dados os deslocamentos de capital do centro para a periferia, se transformou em fonte de especulação nos países ricos, agora atordoados com a falta de fluxo global dos empréstimos para os países pobres, empobrecidos pela crise dos anos de 1980. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Ricos empobrecem, pobres enriquecem

Os ricos, nesse contexto, estão empobrecendo, porque o excesso de moeda, empoçada pela desconfiança generalizada, perde valor, não exerce mais o papel de impor, via política cambial, deterioração nos termos de troca, relativamente, aos países detentores de matérias primas, das quais as manufaturas mundiais dependem. Por isso, o preço das manufaturas, em excesso, graças ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia, que aumenta a produvidade, tende a cair, enquanto o preço das matérias primas, escassas, tende a subir. Inverte-se a deterioração nos termos de troca, como destaca o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os ricos ficam mais pobres e os pobres, detentores das matérias primas, podem ficar ricos.
Talvez seja por isso, que o ministro Guido Mantega e o presidente Lula, nesse momento, estejam contando vantagem. Mas, não se sabe se conseguirão rir por último, antes de o quadro de destruição capitalista neoliberal especulativa, esteja plenamente desenvolvido.
Uma coisa é certa, o neoliberalismo foi para o buraco, mas o seu sucessor, o keynesianismo, expresso em gastos crescentes do governo, não está com vida garantida, porque, como demonstra o próprio governo W. Bush, o mercado passou a desconfiar da capacidade de os próprios governos darem conta do recado.
Na Inglaterra, berço do capitalismo industrial, cresce tendência de tentar separar a economia especulativa da economia real, dando tratamento adequado para esta, enquanto aquela será jogada no sal. O problema é que a chamada economia real sob o capitalismo não consegue sobreviver sem a ajuda da especulação, como a história já demonstrou.
Antes, nas crises, os especuladores corriam para o ouro, que era a forma de entesouramento. Depois que o padrão ouro fracassou no final do século 19, entrando em campo novo padrão monetário, apoiado na moeda estatal, que passou a puxar a demanda global, o entesouramento passou a ser feito pelo próprio governo, via endividamento público.
Nesse momento, os especuladores correm para o ouro, que é insuficiente, e para os títulos do governo, entesourador final do processo capitalista, mesmo para ser remunerado com juro negativo. Até quando a saúde financeira dos governos conseguirá enxugar a montanha de dólares derivativos no mercado global, ninguém sabe.
O neoliberalismo foi para o buraco e o keynesianismo deixou de ser solução, para se transfomar, também, em problema. Verdadeiro salve-se quem puder no Big Bang global.

Derivodólar ameaça Meirelles

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pode dançar no último baile da Ilha Fiscal global. A bancarrota financeira neoliberal representaria seria ameaça a ele.

A política de juros altos, que foi favorável, num primeiro momento, para a economia, tende a se transformar em pesadelo, se os juros brasileiros, os mais altos do mundo, atrairem, irresistivelmente, os dólares derivativos apodrecidos na praça global. Aprodeceria a economia. 

O mundo, depois de viver a pujança e a decadência do dólar, do eudólar, do petrodólar e do nipodólar, vive, agora, os fantasmas da destruição do dólar derivativo, o derivodólar, gerado na bancarrota do setor imobiliário que produz crise bancária aguda.

Os investidores especulativos estão em polvorosa. Nos Estados Unidos, perderam a teta estatal para mamar. Na Europa, idem, apesar de, tanto americanos como europeus e japoneses estarem jogando dinheiro na circulação, nesses dias, para evitar o empoçamento de capital no sistema, perigando falir geral.

Sem chances de reproduzirem nas praças ricas onde se realiza a eutanásia do rentista, com juro baixo para evitar recessão, quem vai perder um negoção chamado juros brasileiros?

Fantástica lucratividade: trocar moeda que está apodrecendo o sistema financeiro internacional por títulos da dívida pública brasileira, cujo lastro é a riqueza do petróleo, dos minérios, dos alimentos, da biodiversidade, da condições naturais – terra, água e sol, que possibilitam até três safras anuais etc.

Nacionalismo ou entreguismo?

Se houver uma corrida de investidores para o Brasil nas próximas semanas, sem dúvida, o dólar, em vez de valorizar-se, seria brutalmente desvalorizado. O presidente do Banco Central tremeria na cadeira. Aumentariam vozes no Congresso pedindo sua cabeça.

Pode ser que tal pedida seja feita pela oposição, sem arma política para combater Lula.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, está colhendo  vitória em cima do discurso jurista neoliberal de Meirelles, no auge da crise financeira.

Como, criticamente, apostou no desenvolvimentista redistributivo- social-nacionalista-getulista-lulista, pregador de juros mais baixos, como faz, também, o vice-presidente José Alencar Gomes da Silva, Guido Mantega vê o chão abrir sob os pés de Meirelles.

Poderia ser tragado pela areia movediça neoliberal em crise de forma acentuada, se houver uma corrida bancária, por esses dias – hoje, ou amanhá, quem sabe? – ou por horas contra eventual enxurrada de moeda podre atraída pelo juro alto. Parece Boró, aquele bichinho que gosta de tudo que é podre, papel, pau etc.

 

Lenin cantou a bola

Em tal ambiente, nada  tão favorável paras as causas socialistas, como destacou Lênin, do que as desorganizações monetárias, que mexem com a segurança íntima do ser humano, já que os movimentos do dinheiro levam a um estresse total, predispondo-o, preocupado, às osciliações politicamente radicais.

O relógio da história está virando contra Meirelles, simplesmente, porque, se o juro alto, até agora, foi solução, daqui para a frente, pode virar problema., causando incertezas generalizadas. O que é positivo numa hora, é negativo em outra, contraditoriamente, dialeticamente.

Para piorar a situação conjuntural, emergente, Meirelles errou fragorosamente na última reunião do Copom, na semana passada. Em vez de conduzir a discordia interna dentro da diretoria do BC para um consenso, jogando , policamente, quis dar uma de machão. Fez política econômica em vez de economia política.

Estrepou-se ao optar por mais uma torcida forte no parafuso dos juros. Pegou mal. O momento pedia ponderação. A coragem para atender os interesses dos especuladores, sob o disfarce de combater a inflação, excedeu-se. Foi mais realista que o rei.

Rendeu-se ao mecanicismo, dançou na dialética.

Resultado: os preços do petróleo cairam fortemente; idem os preços das commodities etc. Pode pintar, em vez inflação, deflação.

Haveria deterioração acentuada nos termos de troca em favor de quem dispõe de matéria prima, América do Sul, relativamente, a quem precisa delas para industrializar, Europa, Estados Unidos, Japão, China etc.

Os preços dos produtos primários, escassos, sobem, enquanto os preços dos industrializados, graças ao aumento da concorrência, caem.

Haveria acirramento violento da competição no comércio mundial, carente de regulações, por causa do fracasso da Rodada de Doha.

Pode vir por aí uma sangria dos preços. A solução meirelliana pode estar deixando de ser útil.

 

Imperfeição é fundamental 

Não está pintando clima para compatibilizar-se com as decisões do BC,  que, visando a meta de 4,5% para a inflação para 2009, estaria arrochando, desde já, o custo do dinheiro.

Necessário? Desnecessário? Inconveniente? Imprudente? Prudente? Estados Unidos, Europa, Japão, Chile, que estão reduzindo os juros, estariam errados? 

Ou Meirelles acredita que elevando ainda mais os juros nas alturas estratosféricas continuará distribuindo renda a partir de bônus para os especuladores da classe média com os títulos da dívida pública que geram consumo bem à moda de um keynesianismo financeiro cuja fonte de renda é a própria moeda em circulação, agitando o consumo popular?

A qualidade do momento econômico internacional mudou para pior. A sinalização é de aumento da concorrencia global, que leva às desvalorizações, mediante políticas monetárias e fiscais altamente competivas.

As praticadas no Brasil, como mostram os resultados da balança comercial, não são. E o mais dramático, ainda: o que era bom, tende a ficar ruim, com muito dólar circulando para fugir do juro baixo, isto é, da morte-eutanásia.

Na Europa, nos Estados Unidos, na China, no Japão, no Chile, etc, os juros caem. Já, no Brasil, graças à estratégia meirelliana….

Não seria melhor jogar as reservas cambiais em maciços investimentos públicos do que ficar com elas num contexto altamente volátil?

Meirelles, em entrevista a Willian Waack, disse que não está afastada essa possibilidade. Talvez seja a sua salvação politica.

O giro dos acontecimentos está sendo veloz, criando situações inesperadas, surpreendentes, incontroláveis, desestabilizadoras.

Bastou poucas horas para o Lehman Broths, de 158 anos de idade, ir para o espaço, como fumaça. 

Não dá para não citar Fernando Pessoa diante da bancarrota do pensmento econômico neoliberal que pensava portar verdade única do pensamento perfeito:

“O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.”

Bancarrota financeira neoliberal

A pregação neoliberal americana é para inglês ver. Vale da boca para fora. Aos países capitalistas da periferia, a solução é o neoliberalismo. Quando a situação fica preta na economia americana, a solução é estatal. O internacionalismo americano se transforma em nacionalismo bancário quase xenófobo. A estatização dos bancos imobiliários Fannie Mae e Freddie Mac, que têm  financiamentos imobiliários da ordem de 5 trilhões de dólares, demonstra a duplicidade da teoria americana. W. Bush, para evitar bancarrota financeira, entrou em campo. O tesouro americano vai assumir os prejuízos, jogando 200 bilhões de dólares na fogueira, para os consumidores, depois, pagarem a conta em forma de impostos, taxas e contribuições, já que não existe almoço grátis. Os aplicadores nas hipotecas dos dois grandes bancos privados, que atuam com o aval do governo dos Estados Unidos, para tocarem a política habitacional, estão dependurados na brocha. Governos asiáticos, que aplicaram suas reservas no Fannie Mae e Freddie Mac, podem levar prejuízos monumentais. As grandes exportações asiáticos, mediante moedas competitivas relativamente ao dólar, geram divisas que são gastas em compras de títulos da dívida americana e de grandes bancos dos Estados Unidos. A febre imobiliária, comandada pelos bancos Fannie Mae e Freddie Mac, atraiu muita grana asiática. Esta, agora, pode transformar-se em poeira. A ultra-especulação que se verificou, nos dois ultimos anos, no mercado imobiliário americano, espraiando-se pela Europa, deu-se com a proliferação do dólar derivativo. Dinheiro que gera dinheiro em escala global, levou o mercado imobiliário à esquizofrenia. Financiamentos para comprar casas se reproduziram em escala inimaginável no mercado de derivativos, alavancando negócios sem lastro, cujos efeitos, agora, são quedas violentas das cotações imobiliárias e perdas de hipotecas e falências generalizadas. Onze bancos já foram para o espaço. Os bancos, que alavancaram créditos podres, garantidos por outros créditos pobres, deslastreados, tiveram, diante da queda de preços dos imóveis, de suspender o crédito. A interrupção do mercado creditício levou ao empoçamento do dinheiro, que perde valor monetário. Sem a circulação do dinheiro no mercado, os prejuízos se avolumam. O capital, em sua fase puramente financeira, não consegue se reproduzir na produção porque a circulação das mercadorias se interrompe na bancarrota do crédito. Os bancos estão sendo condenados a registrarem prejuízos de bilhões de dólares. São quase 7 trilhões de dólares de prejuízos. Estes tendem a aumentar indefinidamente, especialmente, se os dois bancos estatizados tivessem ido à falência. O governo americano banca a estatização bancária como alternativa para evitar o colapso do capitalismo americano. Evidencia-se que na economia meramente monetária, bancada pelo dólar sem lastro, a estatização dos bancos vai se transformando em necessidade imposta por um fenômeno caracterizado pelo próprio colapso da moeda deslastreada, da qual os investidores, apavorados, fogem. O momento é de pânico na economia mundial, que, sob o dólar apodrecido no mercado de derivativos, gera tensões sociais e políticas, altamente, explosivas. Este é o momento mais crítico para a economia capitalista, segundo Lenin, pois, diante do perigo de perda de poder aquisitivo da moeda, as reações humanas se tornam irracionais. Nada mais adequado para as teses socialistas. Na verdade, as crises monetárias, conforme destacou o líder da revolução comunista soviética, em 1917, são as parteiras do socialismo, a melhor propaganda do movimento socialista internacional. Muitas tensões à vista nos próximos tempos de grande recessão na economia mais poderosa do mundo, cujos reflexos estão se fazendo sentir na Europa, podendo balançar os alicerces da social-democracia ocidental.

Doha sinaliza guerras cambiais

Celso Amorin
Celso Amorin

O fracasso nas negociações de Doha, em Genebra, sinaliza aumento da competição comercial internacional, acompanhada de políticas cambiais cada vez mais flexíveis, como resposta à sobredesvalorização do dólar, que desvaloriza a dívida americana e favorece as exportações dos EUA, simultaneamente, como resposta à desaceleração interna gerada pela crise bancária, detonada pela interrupção do crédito, enforcado pelo colapso imobiliário.

Os impasses explícitos entre EUA e Europa, de um lado, e China e Índia, de outro – com o Brasil fugindo da rinha para uma acomodação mineira – , demonstraram que são grandes as dificuldades para se organizar as trocas comerciais globais.
Há excesso de manufaturados estocados em forma de capacidade produtiva ociosa nos países capitalistas cêntricos, no compasso acelerado do aumento da produtividade impulsionada pela ciência e tecnologia a serviço da produção.
Como desovar?
Guerra cambial. Como competir com o dólar desvalorizado, senão promovendo desvalorizações das moedas nacionais para tornarem compatíveis as relações de troca?
Como subsidiar estoques internos inconsumíveis em face de possível esfriamento econômico gera tensões fiscais, desvalorizar o câmbio pode, no contexto da desvalorização acelerada do dólar, voltar a ser opção.
Doha comprovou que não há entendimento entre produtores de matérias primas básicas e semi-manufaturados, de um lado,  e os produtores de manufaturados de ponta científica e tecnológica, de outro.
Ambos os lados precisam de uma só coisa: mercado, mas os preços que cobram, de lado a lado, são altos e não se chegou, por enquanto, a um acordo.
Os emergentes querem exportar produtos agrícolas para os países cêntricos que não querem importar, mas subsidiar o produto interno.
Os ricos querem exportar suas mercadorias de alto valor agregado que se desvalorizam mediante abertura comercial total dos países emergentes, enquanto apelam ao protecionismo velho de guerra. Angu global.
No contexto inflacionário impulsionado pelo dólar sobredesvalorizado, as mercadorias secundárias – bens industrializados – encontram dificuldadades para se valorizarem, devido à concorrência global, enquanto as mercadorias básicas, matérias primas ganham valorização súbita, impondo deterioração nos termos de troca e, consequentemente, pressões tanto deflacionárias como inflacionárias.
A guerra econômica, em face do fracasso de Doha, salvo ludidez de última hora dos negõciadores, está no ar.

Novo oxigênio da cadeia produtiva

Com os cartões de crédito de consumo, os pobres, antes impossibilitados de consumirem, foram aos supermercados; os supermercados, diante do aumento da demanda, dirigiram-se às indústrias para renovar estoques; as indústrias, por sua vez, recorreram à agricultura; esta, na sequência, gastou em máquinas, equipamentos e insumos, impulsionando cadeia produtiva, alavancando serviços etc.

Expandiram-se os investimentos e seu corolário foi a dinamização da política de crédito. Hoje, graças a tal estratégia, o crédito direto ao consumidor atinge R$ 240 bilhões, beneficiando 80 milhões de novos consumidores, cujo destino financeiro é uma incognita. Dependem do comportamento da inflação, detonada, agora, pelo dólar sobredesvalorizado, no plano global, responsável pela instabilidade bancária e explosão do terceiro choque de preços do petróleo.

Enquanto o desastre não vem – se é que virá – , o consumo interno segue aquecido. Cadeias de supermercados populares se instalaram no Nordeste, palco maior da miséria histórica nacional. Da mesma forma, bancos ampliaram agências na região. O consumo interno elevado dispensou os empresários de buscarem, nos governos, o socorro das políticas cambiais inflacionárias.

A inflação – “unidade das soluções”, segundo Keynes – vinha em forma de desvalorização da moeda. Agora, sem precisar desvalorizá-la, como antes, amenizaram-se, graças às políticas sociais, as pressões inflacionárias. Emergiu, por isso, o contrário da desvalorização, isto é, a valorização monetária, transformando-se em fonte de combate à inflação.

Caso não houvesse fortalecimento dos programas sociais, na linha seguida por Ruth Cardoso e continuada por Lula, certamente, o país estaria em situação muito pior, possivelmente, diante de hiperinflações selvagens, no momento em que o dólar entra em parafuso global. .

A prova de que Lula segue a lição de Ruth foi dada na semana em que ela se foi, lançando sentimento de tristeza sobre a alma nacional: mandou reajustar em 8% o orçamento do Programa Bolsa Família, como forma de compensar a queda do poder de compra dos miseráveis, afetado pela desvalorização da moeda de Tio Sam, detonadora da inflação global.

Se não fizesse isso, sua popularidade começaria a declinar. As crises subconsumistas anteriores poderiam renascer com muito maior força destrutiva.