Calote pode virar solução global

O candidato do Partido Republicano, John MacCain, se prevelecer o rítmo das pesquisas, até a hora da votação, poderá dançar, perdendo para Barack Obama, do Partido Democrata. Sua proposta, altamente, impactante, no entanto, poderá permanecer, porque teria batido fundo no coração das famílias americanas, cujos lares são assediados pelo desemprego, detonado pela economia monetária especulativa que o governo não consegue mais bancar, dando tranquilidade ao contribuinte e aos aposentados. Todos estão ameaçados por uma neo-pobreza relativa.

Que propós MacCain? O calote. Os mutários que perderam feio na especulação com os imóveis e ficaram mais pobres, impossibilitados de pagarem suas dívidas, terão estas perdoadas.

O Congresso, com ele na presidência, votaria uma nova legislação, flexibilizando as responsabilidades de credores e devedores, algo inexistente. Hoje, a legislação protege credor e penaliza o devedor. 

A grande imprensa brasileira não falou nada sobre o assunto por enquanto, mas, muita gente boa, já falou nisso, inclusive, o Papa João Paulo II.

O Vaticano respeita Marx. Fala por parábolas, como acabou de fazer o Papa Bento 16, ao ressaltar que o apego ao lucro traz a pobreza e a desilusão. Jesus e Marx, uma dobradinha que a Igreja adota, em momentos extremos, mesmo que repudie na aparência. Bento 16 repete São Tomaz de Aquino e Santo Agostinho, condenaram o pecado da usura.

Levado ao extremo, o capitalismo, na sua autodrestruição, está dando lugar uma nova combinação cuja expressão é a condenação do sistema tanto pela visão cristã, como pela materialista.

O modelo tocado por moeda estatal inconversível, sem lastro, expresso, como representação, no dólar – algo abstrato, espiritual, que impulsiona o material – passa a ser condenado pelo altar católico.

MacCain, antevendo o empobrecimento relativo americano, fechou com a Igreja Catôlica, pregadora do calote. Os bispos brasileirs estão batendo palmas, porque, na Era FHC, tentaram o plebiscito, para discutir o endivimanto interno e externo brasileiro, depois da crise monetária dos anos de 1980. A pobreza generalizou-se. A periferia passou a ser brutalmente explorada pelo centro graças aos juros altos.

Pintaria plebiscito nos Estados Unidos, previsto na constituição? Na crise bancária de 2008, essa possibilidade se torna concreta, nos Estados Unidos, que não seriam mais os donos do mundo, diante do empobrecimento relativo.

O calote seria a solução?

Sarney pagou os juros e foi acusado de caloteiro

 

Como superar o prejuízo senão pelo perdão, talvez pela inflação, um dos seus atributos, entre outros? Keynes diz que na economia monetária, a que vigora no mundo no pós-1929, o governo é a única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, porque ao jogar dinheiro na economia com uma mão e enxugar com a outra cria a “eficiência marginal do capital”, o lucro, porque: 1 – eleva os preços, 2 – diminui os salários, 3 – reduz os juros e 4 – perdoa as dívida contratadas a prazo pelo investidor. Ou seja, o espírito animal keynesiano só nasce se o empresário não precisar enfiar a mão no bolso.

Keynes teria  fôlego, agora, pela mão, seja de MacCain, seja de Obama, para bancar o jogo, de modo a dar tranquilidade ao mutuário e ao investidor, desconfiados do sistema bancário e sob desconfiança deste.

MacCain foi muito mais consistente, do ponto de vista do interesse do eleitor, do que Obama, jogando com a “eficiência marginal do capital” do mutuário, abrindo espaço para sua regeneração por meio do perdão.

Mas, o dólar terá gas para patrocinar o perdão?

A desmoralização do governo W Bush é, ao mesmo tempo, a desmoralização da moeda. Sob W. Bush, nao seria possível. Sob Obama ou MacCain será?

A perda de poder relativo da moeda de Tio Sam , que está abrindo espaço para ser subsituida pelo euro, dado que as ações financeiras dos governos europeus revelam credibilidade européia na moeda europeia, abre novo cenário.

Nele, a economia de guerra , para a acumulação capitalista, se transforma de solução em problema. 

Negação da negação 

Como sustentar os gastos públicos inflacionários no Iraque, se o governo precisa gastar muito mais, agora, para salvar o contribuinte da guerra monetária destrutiva interna?

Novas prioridades internas se transformam em freios aos ímpetos dos gastos públicos, para exercer sua dupla função no sistema econômica no contexto da economia monetária keynesiana: enxugar o mercado do excesso de moeda, de um lado, e dinamizar a economia de guerra, keynesianamente, de outro.

Esse foi o jogo mantido até o momento, para manter equilíbrio relativo macroeconômico capaz de sustentar equilibradamente a sobrevivência da produção e do consumo da indústria de bens duráveis.

Caso contrário, sem o Estado gastando para dar bolsa família às grandes indústrias de guerra, a indústria de bens duráveis, padeceria por falta de consumo e renda.

Ambos, na economia monetária, são gerados pelo governo com sua moeda estatal inconvesível, expressa no dólar. O jogo estressou-se.

Significa dizer que a moeda americana  deixou de ser o motor dinâmico da economica global. A lógica passa a ser outra. O governo tem que ser, em vez de guerreiro, pacifista. Não tem gás para bancar guerras nem curtas, nem prolongadas, enquanto perdurar o estrago geral em curso.

O todo poderoso e orgulhoso Henry Paulson, que ganha(va) milhões por dia, milhares por hora, como homem de Wall Street, pediu humildade aos americanos.

Um dos gigantes da especulação com o dólar derivativo, o secretário está com seu poder murcho. De privatista, passou a ser estatista. Vestiu a camisa de Lenin.

 

Show de bancarrota roliudiana

 

A história já demonstrou que em tais situações, as comunidades se viram, criam suas próprias moedas, assim como os governos criam as suas.

Se os governos quebram, a sociedade abandona ele com sua moeda desmoralizada e busca outras convenções, para bancar relações de troca.

Pragmatismo social e econômico para fixar nova representação monetária que sugira suficiente credibilidade.

Sem credibilidade, o dólar pode viver uma monumentação hiperinflação.

Dificilmente, o governo teria fôlego para entesourar os dólares derivativos tóxicos que ele mesmo permitiu serem criados pela engenhosidade dos bancos de investimentos, de cujos postos arregimenta seus assessores de política econômica. Raposa para tomar conta do galinheiro. Governo e mercado financeiro são, no capitalismo dominado pela especulação, irmãos xifópagos.

Os europeus perceberam o jogo. Diante do caos financeiro, tanto os Estados Unidos fugiram da Europa, como a Europa, dos Estados Unidos. Ambos estão altamente intoxicados de moeda podre. Precisam buscar uma forma de passar o prejuízo para frente.

A Europa decidiu apostar no euro, jogando o governo para gastar na moeda européia, na crença – inabalável? – da sua credibilidade internacional. Conseguirá?

Houve, no dia seguinte, à estatização europeia bancária, euforia bursátil, mas, em seguida, o pessimismo reacendeu  brabo.

Tudo indica que tal volatilidade continurá, só ninguém sabe se o governo terá fôlego para continuar sendo o entesourador geral de moeda podre,.

Quem paga dívida numa balbúrdia dessa? 

O calote pinta quase como solução natural, como caminho aberto para nova concertação monetária global, que se traduziria num FMI mundial, como apregoam os europeus.

Daria vez à proposta de Keynes – sempre Keynes! – feita em 1944, em Bretton Woods, de criação de um moeda mundial, o “Bankor”, coordenada por força internacional, capaz de criar câmara de conversão monetária global, para dar novo rumo ao mundo e se transformar em instrumento capaz de restabelecer a credibilidade monetária?

Adam Smith volta ao poder, porque, para ele, dívida pública não se paga, renegocia, interminavelmente, abrindo espaço para novas dívidas.

Agiotagem lulista na crise capitalista

A decisão do presidente Lula de colocar mais de R$ 150 bilhões nos caixas dos bancos privados brasileiros para salvarem bancos pequenos falidos e enfrentarem problemas de liquidez , especialmente, por meio liberação de depósitos compulsórios, ou seja, dinheiro do contribuinte, recolhido pelo Banco Central, como forma de enxugar excesso de dinheiro no mercado, como arma de combate à inflação, vai na linha contrária à adotada pelos governos dos países ricos, como os europeus e o americano, resultando em óbvio favorecimento aos banqueiros.

Primeiro, liquidar ou resgatar instituições financeiras da bancarrota não é tarefa para os próprios bancos privados, senão para que se tornem grandes oligopólios. Dinheiro do contribuinte, para patrocinar oligopolização bancária, numa praça já oligopolizada, com meia duzia de grandes bancos, que escravizam a sociedade, cobrando o juro real mais alto do planeta terra? Absurdo.

Segundo, não está certo, de jeito nenhum, colocar dinheiro nos bancos privados, sem antes determinar, com discussão, no Congresso, o que terão que fazer com esse dinheiro, fixando os setores que deverão ser abastecidos com os recursos e os respectivos percentuais destinados a cada um, sob fiscalização congressual. Caso contrário, fica parecendo amarração de cachorro com linguiça. Esbravejar, como faz o presidente, lá da Europa, que vai tomar o dinheiro de volta, se os bancos não destinarem os recursos para os quais foram estipulados, não adianta.Significa, apenas, reconhecer que algo de errado já está acontecendo. Isso é presidencialismo ditatorial, sem o aval do Congresso, para solução de assunto crucial, para a sociedade brasileira, nesse momento, preocupada com possibilidade concreta de quebradeira de empresas e avanço do desemprego e da queda do consumo.

Tem que jogar pesado contra os bancos, que sempre se fartaram, e ainda se fartam, nos privilégios, em um país em que vigora não uma democracia, mas uma bancocracia exageradamente prejudicial aos setores produtivos. O presidente Lula cuidou muito bem dos bancos, até agora, bem como dos programas sociais, para fortalecer o consumo, mas, para os setores produtivos, indiscutivelmente, foi um tremendo carrasco, deixando-os sob a escravidão jurista, determinada pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que veio da bancocracia americana, direto para escravizar o setor privado nacional.

Olha a diferença de tratamento dado aos bancos, aqui e lá fora. O que aconteceu nos Estados Unidos e na Europa? Os bancos faliram. O que fizeram e estão fazendo os governos? Colocando dinheiro do povo, para salvá-los. Certamente, não interessa ao país consumidor sem crédito e banco quebrado. Tem, sim, que ajudá-los nessa hora, mas fixando, igualmente, compromissos rígidos, sob fiscalização do Congresso, ou seja, da sociedade, atenta em relação ao dinheiro do contribuinte.

Na Europa e nos Estados Unidos, o governo colocou grana no caixa dos bancos, mas, em compensação, estatizou parte deles, pois o dinheiro liberado e em processo de liberação, está se transformando em ações preferenciais em mãos do governo, ou seja, em poder do público, como é o caso dos depósitos compulsórios, poupança popular. Esta deveria ser utilizada para algo nobre, ou seja, para estimular produção e consumo, investimento em infra-estrutura, em estradas, portos, ferrovias etc. Para que acumular reservas em dólar, se a moeda americana está se transformando em moeda podre, sendo superada pelo euro, pois perdeu poder de representatividade cambial na praça global, com seu poder absoluto.

Fundamentamente, esse dinheiro do contribuinte, precisaria ir, também, para o programa social Bolsa Família, a fim de estimular, fortemente, o mercado interno. Qual a salvação nacional na Era Lula? O consumo interno, estimulado pelos programas sociais. Evitou formação de estoque e pressão inflacionária por efeito de desvalorizações cambiais destinada a estimular exportações na falta do consumo interno. Ao colocar poder de compra estatal nos cartões de crédito de consumo popular, a economia girou, a industria, o comércio, a agricultura e os serviços cresceram. E por conta do aumento da circulação de dinheiro, aumentou consequentemente a arrecadação, pois cada venda que se faz, o governo arrecadda 40%,  enchendo seus cofres. E com esse dinheiro vem os investimentos, o progresso etc.

Velhacaria bancária sem controle congressual

Quanto de dinheiro do compulsório vai para o programa Bolsa Família, para manter a demanda interna aquecida, já que a externa entrará em recessão, com a desaceleração global? Quanto irá para a agricultura familiar, para os mais pobres plantarem e colherem sua renda, com a poupança pública dos compulsórios? Quanto se destinará para a reforma agrária? E para a indústria, o comércio? Não há uma discussão ampla sobre o assunto. Falham os poderes públicos. Só R$ 5 bilhões, do total de R$ 150 bilhões, vão para a agricultura! Pouco demais. Onde estão os políticos, para evitar que o presidencialismo autoritário brasileiro faça o que lhe der na telha, favorecendo os bancos?

A sociedade global está em processo de repulsão relativamente aos bancos. Por isso, os governos europeus e americanos estão sendo obrigados a ajudar os bancos falidos, mas, também, a dar ampla satisfação ao poder democrático estabelecido, isto é, aos contribuintes, irados com as ações bancárias especulativas, estimuladas pelos próprios governantes, que se ausentaram em matéria de normas, regulamentações e fiscalizações adequadas, deixando tudo correr solto, até explodir geral. Criminosos.

O presidente brasileiro segue na contramao dos govenantes europeus e americano. Por que estes estatizaram os bancos? Simplesmente para que com o governo, com dinheiro estatal – o Estado é capital com sua própria moeda – , mais atuante nas carteiras dos bancos, forcem juros mais baixos para o comércio, indústria, serviços e agricultura, a fim de que as atividades produtivas continuem girando, evitando, consequentemente, a recessão.

Lula se nega a estatizar, mesmo que parcialmente os créditos correspondentes aos bilhões de reais de depósitos compulsórios. Por que não jogou esse dinheiro no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal, para emprestarem barato, tirando do ar as expectativas negativas que se formam, justamente, porque os bancos privados, em vez de colocar recursos na produção, continuam aplicando na especulação, nos títulos públicos, enquanto, ao mesmo tempo, permanecem tímidos quanto a ajudarem os pequenos que estão pela hora da morte?

Adianta os bancos disporem do dinheiro do compulsório, para emprestar a 6% ao mês, escravizando os tomadores? Que adianta se disporem a emprestar ao custo exorbitante, se a economia está em processo de desaceleração? Quem vai tomar dinheiro a 100% ao ano para aplicar na produção, que , graças ao dinheiro caro e aos impostos escorchantes, deixa margem de lucro inferior à taxa de inflação?

A questão ética e moral não deixa dúvida: se se coloca dinheiro estatal, sem lastro, na circulação capitalista e dela retira parte dele em nome do combate à inflação, em forma de depósito compulsório, o retorno da moeda à circulação, em nome do combate à recessão, teria que favorecer, fundamentalmente, não aos bancos, que não são donos dos recursos, mas os contribuintes, seu verdadeiro proprietário.

Se tudo fica frouxo como está, o resultado pode ser simplesmente estimulo aos agiotas. Eles poderão nem colocar o dinheiro na produção e , se colocar, sob pressão, o farão a um custo elevado, como está acontecendo. Agiotagem criminosa desenfreada.

Congresso alienado na discussão dos compulsórios 

O Congresso brasileiro está fazendo papel de palhaço no cenário da crise bancária. Depois reclama que Hugo Chavez chame os congressistas brasileiros de papagaios do Consenso de Washington.

O que aconteceu nos Estados Unidos? O presidente W. Bush, ao ter que lançar mão de dinheiro do contribuinte, mandou mensagem ao legislativo, para que os congressistas apoiassem , ou não, as propostas desesperadas elaboradas pela Casa Branca.

Foi um pau firme. Num primeiro momento, a Câmara de Represenatntes recuou. O mundo veio abaixo, mas não morreu ninguém. Num segundo instante, o Senado aprovou e, em seguida, a Cãmara ratificou,  mas, aí, o perfil do pacote mudou. Inicialmente, a proposta governamental era escandalosa, como a que Lula propõe, agora, salvando os bancos, com compulsório, mas sem exigir destinação específica dos recursos para o setor produtivo, em mensagem ao Congresso, para dar credibilidade à ação governamental. Estranhamente, o presidente, mediante presidencialismo imperial, sequer realizou reunião com os presidentes das duas casas do Congresso, para dar sonoridade nacional a sua ação política, como se os congressistas fossem meros fantoches. São ou não? Se não reclamaram até agora é porque estão acomodados em suas insignificâncias.

Somente depois de muita discussão no Congresso americano, a situação acomodou-se, sinalizando atendimento de interesses dos contribuintes, que pressionaram os congressistas, antes que estes aprovassem o pacotinho de 700 bilhões de dólares, para cobrir um rombo calculado em mais de 30 trilhões de dólares, a bomba atômica especulativa, impulsionada pelo mercado derivativo dos derivodólares que encharcam a praça mundial  de créditos podres.

Os governos, na Europa, diante da bancarrota, frente ao perigo de se sucumbirem, e sabendo que os congressistas europeus resistiriam à dose do remédio, mudaram de tática. Dançariam feio politicamente, se repetissem W. Bush. Colocação de dinheiro público na banca? Sim. Mas, com participação do Estado na carteira de crédito bancário, dando ao contribuinte poder financeiro.

Por isso, foi aplaudida, mundialmente, a proposta do primeiro ministro Gordon Brown, da Inglaterra, de lançar, na circulação capitalista européia, 1,3 trilhão de euros, quase 2,5 trilhões de dólares, fazendo com que a moeda européia desse um salto de qualidade e credibilidade diante do dólar, francamente, desmoralizado na praça global, sem poder ser mais a representação absoluta nas relações de trocas cambiais no cenário internacional. Brown, que estava perigando, ameaçado de ser detonado pelo parlamentarismo inglês, deu a volta por cima. Virou ídolo nacional, europeu, mundial. Diante das ameaças do parlamento, que o detonaria, sagrou-se campeão, transformando a crise em oportunidade política consagradora, pelo menos por enquanto.

Falta de regras claras pode dar impeachment

E Lula? Sob o presidencialismo autorítário, regado por medidas provisórias ditatoriais, que colocam o Congresso de joelhos, não dá maiores satisfações à sociedade, por meio doLegislativo, sobre o que fará com os R$ 150 bilhões. Quem acredita na pureza dos banqueiros?

Na Europa, de braços dados com Dom Quixote, na Espanha, o titular do Planalto aplaudiu Brown, a nova liderança política europeia, mas mandou o presidente do BC, Henrique Meirelles, jogar debaixo do pano, longe do Congresso, a quantia bilionária, ou seja, poupança popular guardada nos cofres do Tesouro, sem discussão de regras claras, explícitas, sob fiscalização social. Onde está o Procon, nascido para proteger o contribuinte?

O que dizem os congressistas nacionais, sob a fraca liderança do senador Garibaldi Alves(PMDB-RN), subordinados aos conceitos bancocráticos, que dominam a cena nacional? Nada, até o momento.

Se a fantástica quantia do compulsório, poupança popular acumulada – depois ainda falam que falta ao Brasil poupança para o desenvolvimento interno! – continuar sendo manipulada, sem maiores regras – onde estão essas regras, claras, amplamente discutidas no parlamento nacional? – , enquanto as atividades produtivas entram em processo de desaceleração, sinalizando desemprego e consequente diminuição do consumo, estará rolando no cenário nacional prática financeira criminosa, que pode, inclusive, suscitar impeachment do presidente da República.

Imagine se W. Bush mandasse fazer o que Lula está orientando para que o BC faça! Seria chutado da Casa Branca. No Brasil, terra da bancocracia, o governo patrocina a agiotagem e os congressistas ficam calados, ao mesmo tempo em que a produção e o crédito entram em colapso, inviabilizando o consumo. Produção é consumo, consumo é produção. Um não vive sem o outro. Mas, os bancos, com o compulsório, no bolso, vivem muito bem.

Euro desbanca dólar

 

O governo inglês colocou o euro na vanguarda da nova estratégia monetária global para conquistar confiança dos mercados ao estatizar os bancos, botando dinheiro governamental na capitalização deles, tornando, ao mesmo tempo, seus sócios.

O velho capitalismo inglês se transformou num novo socialismo britânico. Socialismo fabiano?

O dólar perdeu a capacidade de exercer essa tarefa fundamental de forma absoluta. A moeda americana, em excesso na praça, graças à explosão especulativa com os dólares derivativos, deixou de ser referência, dada a desconfiança que levantou em sua saúde, perdendo preço, jogando o mercado na incerteza.

Com a falência dos bancos americanos, cheios de dólares derivativos podres empoçados, sem poder desovar, restou a necessidade de pintar nova representação monetária que subsituisse a moeda americana, desvalorizada, desacreditada, impulsionadora de desconfiança, cuja representação desgastou-se, no compasso dos deficits gêmeos americanos. Estes, ao longo dos anos, foram lançando dúvidas e temores na praça sobre a capacidade do tesouro dos Estados Unidos de continuar enxugando a liquidez monetária derivativa dolarizada apodrecida, para evitar explosão inflacionária.

O que os ingleses perceberam? Que se Tio Sam jogasse mais dinheiro na circulação, já excessivamente encharcada de dólar derivativo, derivodólar, poderia dar chabu. As três últimas semanas de terremoto financeiro apenas confirmaram a impossibilidade de ser mantido o poder absoluto da derivação monetária dolarizada. A moeda americana se tornou absolutamente relativa no papel de representar as mercadorias nas relaçoes de trocas globais, na escala capaz de sanear o mercado afetado por moedas podres.

O mercado vomitaria o excesso de dólar? Essa dúvida impediu o secretário de Estado Henry Paulson, dos Estados Unidos, de ser ousado. Ficou com pé atrás.

Teria credibilidade a máquina do tesouro de Tio Sam para fabricar 2,5 trilhões de dólares para subsituir 2,5 trilhões de dólares derivativos podres, se os papéis emitidos, na prática, não possuem lastro real, dado pela confiança?

 

Árabes começaram processo de fragilização

Tal possibilidade poderia, por outro lado, não acontecer com o euro, alvo do interesse , principalmente, dos árabes, donos do petróleo. Foram eles que iniciaram o movimento de saída do dólar para o euro, como forma de fugir da inflação em moeda americana.

Como o petróleo é cotado em dólar e como os árabes precisavam importar produtos cotados em euro, tiveram, consequentemente, de aumentar seus preços, como forma compensatória, a fim de manter constante sua margem de lucro. Caso contrário, dançaria nas trocas cambiais.

Fugiam da inflação em euro, mas, ao mesmo tempo, lançavam o germe da inflaçao em dólar, fragilizando esta e lançando, consequentemente, alternativas para criar, no espaço econômico global, possibilidades de emergência de novo equilavente monetário global.

Tal movimento detonou pressões inflacionárias globais, cujo resultado  produção desmoralização adicional do dólar. Ficou cada vez mais claro que a mercadoria petróleo, tão disputada no mercado global como o próprio dinheiro, passou a buscar referência no euro para fugir de perdas com a moeda americana. Detonaram, dessa forma, os árabes o movimento inflacionário especulativo global.

Se a grande mercadoria via sua nova representação no euro, moeda européia, por que as demais não se comportariam da mesma forma, estando por trás delas astúcias comerciais e financeiras de grandes investidores na praça internacional?

Nova correlação de forças do poder monetário global

A fuga do dólar para o euro gerou movimento especulativo com a moeda americana em todas as direções, sabendo o mercado que o excesso dela, proveniente das ações maquinadas pelos bancos de investimentos, por meio de engenharias financeiras reprodutivas-especulativas-monetárias, teria como resultado final o óbvio: o descrédito do dólar.

Agora, no auge da crise monetária, em que os europeus resistem em jogar dobradinha com o dólar, preferindo apostar na sua moeda, o jogo ficou bruto e cristalino.

O euro entrou em cena, de forma fulminante, com a jogada estratégica dos banqueiros ingleses, que decidiram , pela ação política do primeiro ministro Gordon Brown, impor nova correlação de forças no mercado monetário global.

A Europa, que havia perdido o poder monetário, depois da segunda guerra mundial, para os Estados Unidos, que, com o dólar, então forte, criou nova divisão internacional do trabalho e nova senhoriagem nas relações cambiais internacionais em favor dos americanos, volta a dar as cartas no mercado cambial internacional. Os americanos, depois de perderem o mercado de bens e serviços para outras praças, como a chinesa, perde, também, o mercado de dinheiro. Sua moeda, desacreditada, é ultrapassada pelo euro.

A relatividade do poder do dólar, em baixa, dá lugar à relatividade do euro, em ascensão.

Se o mercado poderia refugar uma jogada tão ousada como a inglesa, se fosse, primeiramente, tentada na praça america, com o dólar, sob descrédito, com o euro ocorreu o contrário. Um trilhão de euro deu aquele gás que o dinheiro americano perdeu, depois do processo doloroso das votações no Congresso sobre a proposta da Casa Branca de salvar a praça bombardeada pela enchente dos derivodólares apodrecidos.

Sabedoria financeira inglesa entrou em cena

Os ingleses, velhacos de guerra, entraram no vácuo deixado pelo dólar desacreditado e fizeram a grande experiência do século 21, no plano monetário, por enquanto. Isto é, colocam o euro como a nova representação monetária internacional, que tenderia a ser o novo equivalente geral das trocas internacionais, dando partida a uma nova concertação econômico-financeira global.

O dólar, sozinho, poderia não dar conta do recado, saindo de peito aberto na praça. O euro deu. Agora, o jogo, na mesma linha, realizado pelo tesouro americano, ou seja, destinando dinheiro para estatizar os bancos, estão não inovando, mas copiando a manobra inglesa.

Os europeus demonstram força para dar lastro ao euro com o seu grande mercado consumidor. Caso não pintasse a união da Europa, nesse momento crucial, não teria sido possível relançar o germe da confiança.

Com a estratégia européia, dada pela jogada política inglesa, de grande intensidade, com dinheiro especulativo, já que está por trás dele, apenas, a credibilidade e a crença dos 13 governos europeus, inicia-se novo cenário monetário internacional, no compasso da bancarrota financeira. O poder de representação da moeda americana ficou abalado e o do euro fortalecido.

EUA vendem UE e compram BRICs

 

A primeira grande crise monetária do século 21 coloca os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – como principais alvos de desejo do neo-semi-falido Tio Sam, que abandona a neo-semi-falida Europa às traças financeiras destrutivas.

Numa nova concertação monetária poderia pintar a moeda BRICs, sigla inventada pelo banco Goldman Sachs, no estudo “Dreaming with BRICs: the path of 2050”, em que prevê, nos próximos 40 anos, a predominância desse novo grupo no cenário global, deslocando os outrora poderosos absolutos, Estados Unidos e Europa?

O Grupo dos 7 mais ricos(EUA, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Japão e Canadá), que se reuniu, na sexta e no sábado, em Washington, mostrou o óbvio: os ricos europeus não sacariam parte de suas reservas para salvar os Estados Unidos, baleados, na crise, fazendo dobradinha entre o Banco Central Europeu(BCE) e o Banco Central Americano(BCA), para resgatar títulos podres dos bancos falidos.

Resultado: fracasso da reuniâo. O Grupo dos 7 – são eles os patronos do unilateralismo e, não apenas, os americanos – esfarelou-se.

A Europa se recolhe para lamber feridas abertas

 

Os europeus, largados por Tio Sam, voltaram, correndo, para casa, partindo para ação emergencial conjunta – arrumar algo em torno de 2,3 trilhões de dólares(1 trilhão de euros), para irrigar o sistema financeiro europeu em bancarrota – , para não entrarem em crise política aguda.

Se estavam, inicialmente, tendentes a cada um ir para o seu canto, dentro da comunidade européia, depois do fracassado encontro de Washington, na tentativa de coordenação entre os ricos, para agirem conjuntamente, alarmaram-se diante da possibilidade de ficarem sós. No calor da crise, os líderes europeus sentiram a barra. Não haverá saída para eles, senão agirem, conjuntamente, CQC, custe o que custar.

Como, isoladamente, faliram, restaram-lhes, financeiramente, ampliar a união europeia, mesmo que a institucionalidade política do continente não tenha ainda vigando inteiramente. Ela se tornou imperativo categórico.

Do contrário, poderão pintar, nos países europeus, individualmente, tendências políticas nacionalistas variadas em seu conteúdo ideológico, como resposta radical da ira popular contra os governos irresponsáveis que levaram a economia ao desespero especulativo, suspendendo regras e regulamentações, cujo efeito é pobreza reltiva emergente.

Hitler surgiu depois da crise monetária de 1931, na Europa, começando pela Austria, espalhando, em seguida, por todo o continente, gerando tendências fascistas e nazistas irresistíveis.

Repetiriam os líderes europeus a dose hitlerista, como reação ao avanço do pensamento socialista, sintonizado com a pregação de Lenin de que as crises monetárias são parteiras do socialismo?

Se a União Europeia fracassasse, agora, novos hitleres poderiam botar a cabeça de fora. A Europa unida poderia impedir avanço do nazismo. Favoreceria o socialismo, de forma controlada, numa nova versão avançada da social-democracia, em versão avançada relativamente à moda chinesa?

 

W. Bush jogou os europeus a sua própria sorte

 

O presidente W. Bush, parece, jogou calculado. O que teria a ganhar, entrando no barco furado europeu, a menos que a Europa colocasse grana na praça americana, para ajudar Washington a pagar os pepinos da bancarrota do dólar derivativo?

O que tem a Europa a oferecer, se não tem mais grana? Petróleo? Alimentos? Metais? Só teria tecnologia e cultura. Esta, rica, única; aquela, avançada, porém, democratizada, patrimônio de todos, não apenas europeu.

Como o titular da Casa Branca percebeu que não tiraria mais carne do osso, correu, então, para os braços do Grupo dos 20. O semi-falido esfarrapado Tio Sam, no sábado, à noite, no meio dos emergentes foi histórico. Ficou entre os quatro mais ricos em ascensão, os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China. Somados, correspondem a quase 25% do PIB mundial. Tio Sam detesta pobre e adora rico.

Aos europeus, neo-semi-pobres, tchau; aos emergentes, neo-ricos, olá, gente!

W. Bush pontificou ao lado dos ministros dos países em desenvolvimento demonstrando que são eles a companhia que, realmente, interessa ser cultivada pelos Estados Unidos. O ministro Guido Mantega, da Fazenda, colocará o retrato na parede. Como presidente pró-tempore do G 20 ficou de peito cheio ao lado do falido Tio Sam. História.

A Europa ficou para trás. Perdeu serventia para os americanos. Afinal, os europeus não podem mais continuar bancando o financiamento de parte importante do deficit americano de 6% do PIB dos Estados Unidos, algo em torno de 800 bilhões de dólares de um total de 13 trilhões de dólares. Esse jogo foi possível de ser jogado desde Bretton Woods, em 1944, quando Washington, com o dólar todo podereso estabeleceu a nova divisão internacional do trabalho. O dólar de hoje é uma sombra daquele passado glorioso.

Se os governantes europeus, no contexto da destruição monetária, continuassem bancando o jogo de sustentar parte dos deficits americanos, adquirindo títulos da dívida pública lançados pelo tesouro dos Estados Unidos, tendo como lastro o dólar deslastreado, fictício, provocariam crises políticas agudas, dada a consciência política desenvolvida européia. Por que salvar os americanos, se os europeus estão em processo de autodestruição?

Por outro lado, para os europeus, não teria sentido continuarem financiando os déficits americanos, se não haverá possibilidade de a economia européia prosseguir acumulando superavits comerciais na praça americana, em processo de esfriamento no compasso da grande crise monetária.

Se o que está pela frente é a recessão, o mercado americano não absorverá as mercadorias européias na escala necessária para permitir que a Europa continue, como vinha fazendo desde o pós-guerra, financiando Washington.

Neo-divisão internacional do trabalho à vista

Os Estados Unidos, no pós-guerra, com o dólar forte, promoveram divisão internacional do trabalho cuja configuração ficou clara: a moeda americana passaria a ser o equivalente universal nas relações de troca, impondo deterioração nos termos destas em favor dos EUA.

A economia americana seria francamente importadora do mundo, gerando superavit comercial na Europa e na Ásia, para salvar o capitalismo europeu e asiático das garras do comunismo. O Plano Marshall foi isso.

O preço a pagar pelos aliados seria o financiamento dos déficits americanos com o dinheiro adquirido com os superavits comerciais europeus e asiáticos. Jogo de duas mãos.

Tal preço representava a garantia de o capitalismo, super-armado com bombas atômicas e nucleares, ganhar a parada política, econômica e militar da URSS, enquanto era sustetanda a guerra fria e as demais guerras que viriam pela frente como a do Vietnam etc.

Quando os americanos, em 1979, diante a moeda ameaçada pela inflação decorrente do excesso dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, petrodóalres, nipodóares, na praça global, subiram a taxa de juros de 5% para 17%, quebrando a periferia capitalista, para dar sustentação e confiança à moeda equivalente geral nas trocas comerciais globais, o ex-ministro Delfim Netto, no governo Figueiredo, entendeu o jogo: “É o preço que os Estados Unidos cobram para sustentar a democracia representativa e a segurança do mundo contra os comunistas”.

E agora?

A nova ordem relativa do poder estabelecido

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A bancarrota financeira global atual mostra quadro inverso. Os Estados Unidos, exaustos de tantos déficits gêmeos, como custo de sustentação do capitalismo global, gastando em consumo e armamentos, à moda keynesiana, abriram o bico.

Não têm mais gás para bancar, com rítmo acelerado, a economia de guerra.

Se a Casa Branca está gastando o que não pode para comprar títulos podres na praça americana, a fim de evitar quebradeira geral não apenas dos bancos, mas dos contribuintes, como continuar financiando guerras caras, como a do Iraque, que já consumiu mais de 2 trilhões de dólares, como destacou Josef Stiglitz, premio nobel de economia? 

Por não poder mais suportar elevados deficits, na escala necessária, capaz de puxar a demanda global, a partir da economia de guerra keynesiana, é de se prever que uma nova geopolítica-estratégica econômica e militar emerja no Oriente Médio, com o Iraque, fragilizado, sendo atraído para o Irã, enquanto Israel terá dificuldades de continuar se financiando no tesouro americano, preocupado com a guerra maior, interna, desatada pela bancarrota financeira. 

Sairia mais facilmente o Estado palestino? Tudo está virando de ponta cabeça.  

A Europa e a Ásia –  Japão, antes, e China, depois – poderão dizer não à continuidade do processo do pós-guerra. Ganharão o que, se o mercado americano vai dar uma esfriada legal?

Teriam que retirar das suas reservas acumuladas para financiar o tesouro americano. Sem capital de giro, enfiarão a mão no bolso?

As posições, de lado a lado, dos Estados Unidos e da Europa, ficaram rígidas. Os europeus, entregues à sua falta de segurança na ausência do mercado americano, em baixa, e resistentes a sacarem suas poupanças, que viraram pó, na crise, perceberam a necessidade de correrem do jogo proposto por Washington.

 

Chavez pode ir à Casa Branca baleada pela crise

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Casa Branca lavou as mãos e correu para conquistar os novos aliados, emergentes, que serão, também, alvos do interesse europeu. Os BRICs e a América do Sul têm muito mais a oferecer a eles do que eles aos BRICs e aos sul-americanos.

Surgem nova correlação de forças políticas e econômicas no cenário das trocas comerciais.

Os preços das matérias primas, das quais toda a manufatura global depende, tendem a aumentar, por serem, relativamente, escassos. Já os preços das manufaturas, por serem fartas, dado o aumento exponencial da produtividade, impulsionada pela ciência e tecnologia, colocadas a serviço da produção, tenderão a cair, relativamente.

Ou seja, os pesos relativos das matérias primas, de um lado, e os preços relativos das manufaturas, de outro, serão alterados em favor dos primeiros e em prejuízos dos segundos, como destacou o ex-presidente FHC em recente reunião com os tucanos em Brasília.

Nesse ambiente, os Estados Unidos se interessarão por uma nova ALCA, não com a cara que antes pretendia imprimir, ou seja, preponderância do discurso de Tio Sam sobre o quintal de sua suposta propriedade, a América do Sul, historicamente,  mas com a fisionomia nova, que os neo-aliados emergentes estabelecerem, na base do consenso.

A ira de Hugo Chavez contra Tio Sam pode dar lugar a uma flexibilidade na era pós-Bush. Da mesma forma, Tio Sam não terá mais vigor para impor a Cuba eterna discriminação, porque os aliados de Cuba, no continente, colocarão, na mesa, a exigência de supressão do bloqueio comercial contra a resitente e brava Ilha caribenha socialista fidelista.

América do Sul e Caribe, cujos ministros da economia, recentemente, se reuniram pela primeira vez, na história – conforme disse o ministro Celso Amorim ao repórter Roberto D’Avila – estão diante de novas possibilidades, prontas a sairam da condição de subordinação para a de coordenação dos seus interesses, fora das influências externas, a partir de um conjunto de interesses convergentes sul-americano-caribenho?

Nova configuração geoestratégica, portanto, coloca os Estados Unidos, não mais como aqueles que vê a América do Sul, a Ásia e a África, como dependentes de Washingotn, aliados menores, mas, maiores, isto é, caminhando para serem independentes de Tio Sam.

Tempo de subordinação abre para o de coordenação

A Casa Branca, como demonstrou W. Bush, na reunião do G20, quer ficar perto dos que têm a oferecer vantagens. Que vantagens a Europa oferece ao capitalismo americano? Os bancos europeus faliram. O mercado consumidor da Europa, para as mercadorias americanas, é insuficiente. Insumos básicos, nada. Enfim, mala sem alça. Igualmente, Tio Sam, para os europeus, virou  avião jumbo sem asas.

Otelo destesta Iago e Iago não tolera Otelo.

Já a America do Sul possui tudo o que os americanos desejam. O que vai ser mais vantajoso, de agora em diante, para a economia americana? A aproximação com quem tem bala ou a com quem está desarmado e falido, querendo comprar fiado?

Como vão precisar de energia em escala crescente, a fim de se livrarem da dependência do petróleo, que exige guerras, cujos custos não podem pagar, na escala em que sustentaram até agora, os Estados Unidos, como alternativa, ampliarão suas alianças com a America do Sul. Os BRICs são sua salvação.

Pode pintar, inclusive, como destacou Delfim Netto ao jornalista William Waack, a necessidade de o governo brasileiro impor uma tarifa de exportação sobre o álcool para evitar que toda a produção, nos próximos tempos, se destine ao mercado americano, colocando pressões inflacionárias sobre o mercado brasileiro de etanol.

A América do Sul estará preparada para viver novos contextos políticos altamente transformadores da mentalidade subordinativa histórica que as liderança sul-americanas, ancoradas nos velhos coroneis e em políticas industriais semi-integradas, dependentes, para incorporar-se do oposto, isto é, de mentalidade coordenativa, em torno da União das Nações Sul-Americanas?

Nova lider sul-americana diante de grandes desafios

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Por que Michelle Bachelet, presidente do Chile e pró-tempore da Unasul, ainda não reuniu os líderes sul-americanos, para esse debate, depois de três semanas de terremotos financeiros globais, lançando novas sementes da ordem internacional?

A Unasul, que mostrou sua efetividade na superação parcial da crise boliviana, evitando destruição fascita do governo de Evo Morales, por uma oposição separatista disposta a ir ao extremo da radicalidade, terá pela frente a tarefa de coordenar a América do Sul no novo cenário global.

Trata-se de alcançar os propósitos sul-americanos maiores:  moeda sul-americana, banco sul-americano, segurança sul-americana, tribunal su-americano, parlamento sul-americano, que originarão pensamento sul-americano.

 Qual o lastro real sul-americano, no compasso da crise? A riqueza real sul-americana: biodiversidade infinita, petroleo – renovável e não-renovável – , metais, alimentos, terra, água e sol que garantem até três safra anuais etc. Ou seja, moeda que se sobrevaloriza diante da moeda equivalente internacional, o apodrecido dólar derivativo, que se sobredesvaloriza, pois seu lastro é, tão somente, ficção.

Ficção e realidade no colapso capitalista

Os repórteres e analistas em geral estão insistindo, catolicamente, em separar a economia real da economia irreal, a ficção da realidade.

Primeiro, a economia real, diziam, estava imune à economia irreal, que está implodindo na crise bancária americana e européia. Agora, também, ela, a real, entrou na dança. Se entrou, é porque está ligada à outra. Seria possível uma sem a outra?

Essa é uma discussão que não foi feita ainda, com profundidade, pela imprensa brasileira, simplesmente, porque a interatividade dialética entre ambas, realidadade e ficção, paira além da visão mecanicista que frequenta as redações.

A colônia, escravizada pelos juros, copia a metrópole. Não pensa com sua própria cabeça. Fica no idealismo imaginado nos laboratórios dos neoliberais e suas caixas de ferramentas salvacionistas.

Como diz Mário Juruna, no filme de Armando Lacerda, “Jururã, o espírito da floresta”, brasileiro pensa pequeno com cabeça de estrangeiro!”.

 

Com a cabeça no século 19

A economia capitalista, no século 20, continuou sendo interpretada pelos neoliberais , juristas, da periferia capitalista, com a cabeça do século 19. Chega-se, agora, ao século 21 sequer com a cabeça do século passado, mas do retrazado.

O pensamento econõmico crítico não frequenta as redações. Prevalece dentro delas, o pensamento marginalista, equilibrista, do tempo do padrão ouro, neoclássico, quando a moeda era ainda, como Ricardo denominava, valorímetro, meio de troca, falsamente, neutra, como se pairasse, incólume, acima das classes sociais. Ou seja, produto da imaginação esquizofrênica.

Marx, professor indispensável, para entender o capitalismo, como destaca Delfim Netto, já tinha mostrado que a realidade iria derrotar o capitalismo e a ficção seria chamada em seu socorro.

A totalidade do valor recebido pelos trabalhadores em forma de salário, disse, não consegue comprar a totalidade do valor correspondente às mercadorias produzidas. Há uma disparidade entre o valor-capital que se acumula e o valor-salário que se desvaloriza.

Pinta uma crônica insuficiência de consumo global. É o preço cobrado pelo investidor capitalista, que visa o lucro e não a satisfação do consumidor, como prioridade fundamental.

O real não suporta as suas próprias dores. Precisa do irreal. A insuficiência consumista produz um estoque crônico cuja lógica reduz os preços e destroi o capital e os salários, na deflação.

O que fazer com o estoque?

Imaginaram os neoliberais que a saida seria o comercio internacional. Se não há mercado interno, massacrado pelo subconsumismo, exportar é a solução.

Mas, se todo mundo exporta… a contradição final do sistema explode, disse, no mercado mundial interligado, globalizado.

 

O nascimento da ficção

Marx detonou o pensamento neoliberal do século 19. Analisou que o capitalismo, nesse período, se baseia em dois setores, o departamento I (D1), produtor de bens de produção, bens de capital, e o departamento II (D2), produtor de bens de consumo.

Concluiu que a contradição entre ambos, entre produção e consumo, D! e D2, isto é, entre mercadoria e dinheiro, levaria o sistema à crônica insuficiência de demanda global, dado seu caráter intrínseco de marchar, dialeticamente, para a sobreacumulação.

De um lado, sobreacumulação; de outro, subconsumismo. Resultado: sobreacumulação e crise sob a moeda falsamente neutra. 

D1 + D2 se autoanulariam, no limite da contradição, o que exigiria sua superação em D3, departamento III, que representaria o Estado, conforme prevê o autor de O Capital.

O que é D3? A ficção que surge para ressuscitar o real, D1+D2, com a moeda estatal. A moeda ouro, no padrão ouro, transformara-se, dessa forma, como reconheceu Keynes, em relíquia bárbara.

Grande Malthus

Essa formulação de Marx em O Capital repetiu o que Malthus já havia dito nos anos de 1850. A eficiencia do capitalismo, impulsionado pela ciência e tecnologia, gera oferta maior que demanda cujo resultado é queda de preços.

É necessário, frisou, que nasça o oposto da eficiência, isto é, a ineficiência. Se o setor privado é eficiente e produz tanto que leva o sistema à crise, se o Estado repetir tal eficiência, igualando-a ou superando-a, para gerar, como o mercado privado, insuficiência de demanda global, para que o Estado? Agravaria a situação em vez de resolvê-la.

Malthus falou a verdade e, por isso, foi excomungado.

A ineficiência estatal, que assusta tanto os analistas econômicos, como se estivessem frente ao próprio diabo, é a solução, já que o capitalismo não suporta o desenvolvimento das forças produtivas em sua potência máxima deixada ao livre jogo dos mercados. Olha o caos aí no mercado imobiliário. Precisa mais prova?

Apenas reduzir salários, para elevar a lucratividade na exploração da mais valia, não asseguraria a sobrevivência do capital. Seria necessária, disse, uma demanda suplementar. Qual? O Estado, D3.

Os liberais e os neoliberais desdenham a formulação macroeconômica malthusiana-keynesiana, analisada criticamente por Marx, porque vêem a moeda como fator que fica no exterior da realidade, como fator neutro, acima das classes sociais antagônicas, no processo de acumulação capitalista.

A demanda complementar proporcionada pelo Estado, com moeda estatal sem lastro, expressão maior de D3, não encaixa na formulação neoliberal, porque os neoliberais não entendem ser válido que a moeda, sob o comando do Estado, constitua em fator econômico decisivo, já que, essencialmente, pela visão neoliberalizante, parcial, e, apenas, meio de troca.

Essa fase dezenovecentista da cabeça neoliberal separou o Estado da produção privada, quando a produção privada, no século 20, somente conseguiu sobreviver , depois da crise de 1929, mediante intermediação da moeda estatal. Esta entra em cena na circulação para dinamizar os setores que haviam perdido gás na grande crise.

Visão anti-histórica da realidade

Essa visão neoliberal do Estado de que os gastos do governo criam desajustes no setor privado de modo que é preciso que haja enxugamento forte da demanda estatal para que a economia capitalista seja sustentavelmente suficiente e eficiente é, tão somente, sonho de noite de verão. Completamente anti-histórico.

A moeda estatal que Marx previu mas não viveu para vê-la em ação é a expressão de D3, sua representação essencial em forma de moeda estatal sem lastro, fictícia. O valor da moeda passa a ser o que dissera Hegel, sopro do Estado num pedaço de papel.

Ao contrário da moeda que ainda vigora no imaginário da cobertura econômica, com seu caráter de neutralidade, pairando acima das classes sociais antagônicas, como se o século 21 estivesse no século 19, a nova moeda, no século 20, não tem nada de neutra. 

O Estado, entidade política, emite sua moeda política, para tentar organizar e dinamizar aquilo que tinha sido paralisado pelas contradições do livre mercado.

O cenário da crise bancária atual é comprovação histórica desse caráter básico da economia monetária, fetiche monetário, predominante no século passado que entra em colpaso.

A ficção movimenta o real, que havia sido destruído pela crise de 1929. O irreal nasce para ressuscitar o real. Não há, do ponto de vista macroeconômico marxista, no seu processo de análise das contradições, divisão entre o real e o irreal.

O autor de O Capital disse que o sistema, contraditoriamente, desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver as forças destrtivas , na guerra.

O prêmio nobel de economia, Josef Stglitz, reconhece que a guerra do Iraque, com custo superior a 2 trilhões de dólares, é a própria dinamização do capitalismo americano, na guerra.

 

O mundo das não-mercadorias

Com a moeda estatal, não-moeda sem lastro, o governo compra não a mercadoria que dinamizava o capitalismo anterior a 1929. A mercadoria que passa a adquirir é o oposto, uma não-mercadoria, conceito desenvolvido por Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”(Campus, 1980).

Vale dizer, a economia capitalista pós-29 é dinamizada pela não-moeda que viabiliza a não-mercadoria consumida pelo governo que vai tirar da crise a economia das mercadorias de consumo social que havia explodia no crash.

O capitalismo bi-setorial, D1+D2, rígido, mecânico, apoiado no padrão ouro dezenovecentista, fora superado pelo capitalismo tri-setorial, D1+D2+D3.

O Estado, D3, com a não-moeda compra não-mercadoria que destroi, para gerar renda e consumo de bens duráveis que deixaram, depois do crash, de serem o carro-chefe da reprodução capitalista, dando lugar ao novo carro-chefe, D3, os gastos do governo.

Para a cabeça mecanicista é difícil entender que a não-moeda surge, dialeticamente, para aumentar o consumo sem aumentar a oferta.

Separar os gastos do governo dos gastos do setor privado que busca reprodução lucrativa é querer tirar a corcunda do sujeito porque ela o deformou. Mata o caboclo.

Somente o Estado pode consumir não mercadorias – produtos bélicos e espaciais, gastos acima da receita, desperdícios necessarios, para dar via à ciência econômica capitalista, segundo Malthus, uma ciência lúgubre, dada seu caráter autodestrutivo.

O espírito crítico da grande mídia, dominado pelo pensamento bi-setorial, rígido, mecânico, nada orgânico, evoluiu muito pouco.

Teria evoluído bastante, se essa visão da moeda,  no conceito de Marx, de Maltus, Keynes, tivesse sido mais debatida, sem preconceitos, criticamente.

 

Preconceito ideológico impediu consciência

A não percepção clara sobre a gênese da moeda capitalista no século 20 ficou ainda mais obscura e acrítica, no plano da cobertura econômica, depois da crise monetária dos anos de 1980, provocada por excessiva oferta mundial de dólares, que levou o governo americano a aumentar brutalmente os juros. Imperou, desde então,  escuridão, o mecanicismo total, vestido de princípio único detonador do fim da história.

D3, gastos do governo que movimentam a economia capitalista, foi eleito alvo preferencial a ser combatido, porque interferiria negativamente na vida privada. Se o governo gasta mais do que arrecadada…

Visão mecanicista, que deseja demonstrar que o ideal de um governo é aquele expresso pela dona de casa: não gastar além da renda familiar.

O que é valido, do ponto de vista da parte, não o é do ponto de vista do todo. Destruir o Estado passa a ser o objetivo do poder midiático alienado.

Na base da ignorância, os neoliberais – e seus oráculos na grande mídia – na periferia passaram a pregar, nada mais, nada menos que a destruição do próprio capital nacional, por desconhecerem, ou abafarem, o caráter não-neutro da moeda capitalista na fase pós-29 em que o Estado vira capital.

A neutralidade monetária era conveniente para os interesses dos bancos, cuja preocupação maior, depois da crise, foi a de receber, em dia, o pagamento dos juros.

Foi tão cega a visão acrítica que a grande mídia passou completamente batida na discussão do artigo 166, parágrafo terceiro, II, letra b, da Constituição que confere, no âmbito do orçamento, causa pétrea ao pagamento dos serviços da dívida. Os banqueiros ficaram imunes, constitucionalmente, a qualquer contingenciamento possível ou imaginável.

Já os gastos com  sáude, educação, investimentos em infra-estrutura etc, esses podiam ser amplamente contingenciados. Ao mesmo tempo, cerraram-se fileiras os neoliberais para destuirem, também, o art. 192 que fixava limite de 12% para a taxa de juro no país.

A Constituição, que acaba de fazer 20 anos, representa o domínio da bancocracia(Lauro Campos). 

Resultado: sucateamento do Estado e, claro, também, da iniciativa privada. Afinal, sob a economia monetária, o Estado, abstração, o irreal, e a iniciativa privada, o real, são dois lados de uma só moeda, unha e carne, mediados pela moeda estatal sem lastro, durante todo o século 20.

 

Novo Keynes ou o velho Adam Smith?

O fato novo, agora, com a crise americana, não é  a derrocada neoliberal, mas a keynesiana, expressa nos déficits americanos que desvalorizam o dólar e jogam a economia global, com a implosão do setor imobiliário, seguido de bancarrota financeira, no empoçamento geral do crédito.

O lubrificante, a moeda dominante, está deixando de lubricar as peças do sistema.

Keynes destacou que o sistema precisa fingir para si mesmo que o útil é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade. Máxima ideológica utilitarista inglêsa cínica que cobra preço alto ao própro Keynes. Ele mesmo, com sua solução, está, na grande crise do governo keynesiano americano, indo para o buraco.

Novo Keynes, como clamam muitos, pode pintar, isto é, nova  ficção, novo D3? Seria americano ou mundial? Valeria se fosse apenas para bancar o capital em crise ou somente teria sucesso se o social, quem sabe um D4, surgisse para dividir prioridades com o econômico?

O grande economista inglês pregou, em Bretton Woods, em 1944, moeda mundial, o Bankor, que representaria caixa de conversão geral, para equilibrar os desequilíbrios decorrentes do domínio dos ricos sobre os pobres por intermédio da moeda, via deterioração nos termos de troca, impondo senhoriagem.

Sua proposta  não emplacou, porque os americanos sairam da guerrra com a força total, impondo o dólar como moeda mundial. 

Tio Sam, agora, na primeira grande crise monetária do século 21, parece, está entre tomar uma dose monstra de viagra, para ver se recupera a potência, para continuar dominando unilateralmente o cenário global, correndo risco de ter um infarto, ou partir para o conselho, não mais de Keynes, mas de Adam Smith.

Em “A riqueza das nações”, Smtih não deixa dúvidas: a dívida pública, os deficits, existem para não serem pagos, mas rolados, indefinidamente.

A ficção que entra na moeda com um sopro do estado pode desmanchar, igualmente, com outro sopro, para salvar o real?

O calote emergiria como solução. Seria engraçado a grande mídia bater palma para o calote global, logo ela, que, religiosamene, condenou os calotinhos brasileiro e argentino, depois da crise monetária dos anos 80, imposta pelos países ricos sobre os pobres, mediante Consenso de Washington e debaixo do chicote do capitaão do mato FMI.