Colapso da economia de guerra

A bancarrota financeira americana, que está levando a economia global à recessão e provocando tremendos equívocos em líderes políticos, como o presidente Lula, que quis parecer maior que os problemas do mundo, desdenhando fatos dramáticos, coloca ponto final na dinâmica da economia de guerra, bancada por moeda estatal sem lastro real, fictícia, que, agora, no estouro do mercado imobiliário, se revela podre.

Balança perigosamente o poderio do Estado Industrial Militar Americano, assim concebido, em 1960, pelo presidente Eisenhower, a partir dessa moeda guerreira, altamente, contraditória, intervencionista, ditatorial, permanente ameaça à democracia. 

Na base dela ergueu-se visão imperial para dominar unilateralmente o planeta terra do pós-guerra. 

Os Estados Unidos seriam os consumidores-mor do mundo, puxando a demanda global com moeda estatal deslastreada, ancorada em títulos comprados pelos exportadores para o mercado americano. Em troca, seria o gendarme protetor do mundo contra os fantasmas do comunismo.

Tal armação, estrategicamente, concebida em 1944, em Bretton Woods, no pós guerra, que prosseguiu com novas guerras,  inaugurou o poder do dólar, que, agora, em 2008, balança na desvalorização monetária detonada pela especulação desenfreada.

O dólar emergiu dos escombros da guerra e da falência da libra esterlina inglesa todo poderoso, cobrando senhoriagem na imposição de deterioração nos termos gerais de troca cambial, para enriquecer os americanos. 

O poder de uma nação sobre a outra é, segundo Keynes, exercido pela moeda. O dólar de 2008 é, apenas, sombra turva desse passado glorioso.

O que está entrando em tremenda crise não é, propriamente, o neoliberalismo. É o keynesianismo, a moeda estatal deslastreada keynesiana que construiu o estado imaginado por Eisenhower como algo que se eternizaria. 

É essa solução do estado gastador para puxar a demanda global, na guerra, que bate biela.

O pensamento de Keynes, que orientou a direção da economia de guerra americana a partir de 1936, com Roosevelt, revelou, na crise bancária presente, seus próprios limites. A moeda sem lastro do estado capitalista, na crise financeira incendiária, que pode trazer revolução política no seu rastro, deixou de ser solução, para se transformar em problema ainda sem solução.

A contradição explode, agora, dentro dos próprios Estados Unidos. A economia de guerra, bancada pela moeda estatal, que dinamizou o capitalismo no século 20, entrou, agora, em guerra contra seus próprios soldados, o povo americano.

O modelo de guerra passou a escalpelar violentamente os contribuintes e mutuários americanos, na crise bancária , fruto da anarquia financeira detonada pela dinâmica capitalista impulsionada por moeda fictícia. Em nome dela foram detonados todos os controles e regulamentos capazes de impedir sua autonomização suicida. O Estado, na prática, sob o modelo keynesiano, suicidou-se, como havia se suicidado, em 1929, o neoliberalismo de mercado. 

Bancada com o dinheiro estatal, a estratégia de guerra americana no pós-guerra está, ao que parece, esgotando-se. Se o governo está sem bala para colocar dinheiro para salvar os contribuintes prejudicados pela ganância financeira, como bancaria, diante do povo empobrecido, os gastos crescentes com guerras externas, como as do Iraque e do Afeganistão, cujo custo supera 3 trilhões de dólares?

A expressão política da bancarrota da economia de guerra ainda não está desenhada, podendo ser um anjo ou um monstro.

Guerra interna maior que externa

O governo americano está diante de uma guerra interna muito mais perigosa, potencialmente, que as guerras externas. As externas não detonaram governantes. Pelo contrário, elas produziram heróis. John MacCain, candidato republicano, é um deles. 

Ao contrário, a guerra interna pode expulsar governantes do poder, dada a ira popular contra a ganância financeira, como destacou o economista Paulo Nogueira Batista Junior, representante do governo Lula no FMI.

O jogo da guerra estava sendo possível de ser bancado enquanto a dívida pública interna, avalista dos consumidores, tinha credibilidade ilimitada, no papel de regular o valor da moeda, por meio da política monetária dirigista do Banco central americano. 

Se essa possibilidade está sendo colocada em risco, na fogueira monetária em curso, por que os americanos continuariam bancando guerras externas. A jogada imperialista está em risco.

John Maynard Keynes foi profético ao conferir que o capitalismo necessita da guerra na fase pós padrão-ouro de 1929 : “Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego – , exceto, em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensbilizarem com uma grande dissipassão de recursos na preparação das armas, aprenderiam a conhecer sua força, e aprenderiam de uma forma como nunca poderão aprender em outra ocasião; aprenderão uma lição que logo poderá servir para reconstruir o mundo que compreenderá os principaís princípios que governam a produção da riqueza. As preparações de guerra, longe de requererem um sacrifício, serão um estímulo que nem a vitória nem a derrota do New Deal pode oferecer para um maior consumo individual e um melhor nível de vida” (trecho de artigo de Keynes, em  New Republic, em 1940, citado por Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, 1980, Campus, prefácio de Edmar Bacha).

Não há dúvida: a estratégia capitalista keynesiana, que Roosevelt adota, expressa na decuplicação dos gastos do governo, movimenta, dinamiza e reproduz o capitalismo americano que havia entrado em crise em 1929, mas com uma particularidade importante: a dinâmica do sistema seria dada pelos gastos do governo, não mais da iniciativa privada. Essa revelara os seus limites na crise de 1929. Todos os presidentes americanos, depois de 1936, não deixaram cair a lição keynesiana, cuja força é contestada na crise do subprime.

 

Nova divisão internacional do trabalho

 

O que entra em crise, agora, é o modelo de estado keynesiano americano ancorado em moeda deslastreada que organizou a economia mundial a partir da visão americana no pós guerra, tendo a divisão internacional do trabalho subordinada aos interesses dos Estados Unidos e sua moeda, o dólar.

Os americanos, com o dólar competitivo, para ajudar os aliados, transformou-se no polo consumidor global, enquanto os aliados se posicionaram no lado oposto, no polo das exportações de mercadorias para o consumidor americano. As exportações dos aliados se revelam nas importações americana, assim como as importações americanas se transformam em objeto de desejo dos exportadores aliados.

O mercado financeiro, para bancar essas relaçóes de troca, apoiado no dólar, foi convocado para ter como grande negócio a dívida americana, que passou a ser o avalista global do capitalismo no pós-guerra. O preço a pagar pelos aliados seria o crescente armamentismo americano, sustentado pelos gastos do tesouro americano cujos títulos passaram a ser adquiridos pelos aliados. Parceria econômica geoestratégica capitalista do pós-guerra para derrotar a União Soviética comunista.

O jogo econômico do pós-guerra pode ser superado porque sua âncora, o dólar, como equivalente geral, está sob ataque insano do mercado global, abrindo vácuo  para outras forças que já se organizam, no rastro da primeira grande crise monetária do século 21. Os efeitos políticos poderão ser imensos.

Como os esforços americanos terão que ser canalizados para dentro, a fim de resolver os estragos internos provocados pela desvalorização do dólar, no patrimônio dos americanos, certamente, as guerras externas poderão perder gás. A guerra interna ameaça ser mais feroz que a guerra externa.

A impotência americana se expressa na falta de fôlego do presidente W. Bush de salvar o mercado, simplesmente, porque rendeu-se às regras do mercado, todo o seu governo, incluindo o próprio poder legislativo, responsáveis por aprovação de leis laxativas que deixaram as raposas soltas no galinheiro.

Essa anarquia monetária é a anarquia do próprio modelo econômico em que o irreal movimenta o real e vice versa. Na prática, entra em colapso a economia de guerra e a moeda que movimenta a guerra, dada a falta de confiança nela disseminada no merc ado.

Marx, em O Capital, diz disse que o sistema capitalista ativaria ao máximo as forças produtivas, entraria em crise de realização e passaria a dinamizar as forças destrutivas, na guerra. A guerra exigiu nova moeda, porque o novo molde de reprodução do capital não cabia mais dentro do padrão ouro do século 19. Agora, a moeda do século 20, que movimenta a guerra, também, precipita no abismo.

 

Visão católica, equívoco dos economistas neoliberais

Os economistas liberais e neoliberais sempre tiveram resistência à formulação macroeconômica marxista desenvolvida pelos neomarxistas no século 20, obedecendo as pegadas do mestre. 

Marx considerava que a economia no século 19 era composta de dois departamentos, o departamento I, produtor de bens de produção, de bens de capital(D1) e o departamento II, de produção de bens de consumo(D2). 

Estudou as relações entre ambos e concluiu que o sistema capitalista, sob esses dois departamentos, entraria em crise, diante da contradição entre produção e consumo, cujo destino é crônica insuficiência de demanda global que leva à deflação. 

Previu que surgiria o departamento III, Estado(D3), cuja função seria a de puxar a demanda global, na guerra. Nesta, como destaca Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, o que dinamiza o capital não é a produção de mercadorias, mas de não-mercadorias, consumidas pelo governo-Estado, D3. 

A produção de mercadorias, impulsionadas por D1+D2, seria superarada e requereria complemento de D3, ou seja, ampliação dos gastos do governo.

D1+D2 = D3. Vale dizer, forma-se uma nova unidade na economia monetária, pós padrão-ouro, somando os dois departamentos da economia de mercado,  D1+D2, dependentes de D3, gerador de moeda que vai para a circulação gerar consumo sem que seja preciso aumentar a oferta.

Essa formulação macroeconômica simples, apoiada na observação da contradição e da superação da contradição que detona novas contradições foi substituida pela fantasia matemática neoliberal que evitou o todo para priorizar as partes do sistema, negando a organicidade intrínseca dele, em movimento dialético. Imperou-se com o neoliberalismo a visão meramente mecanicista da realidade. Viajaram na maionese.

Os neoliberais, segundo Marx, têm uma visão católica da moeda. A moeda, para eles, é apenas mediadora de trocas, valorímetro, quase um relógio, algo neutro, que fica acima das relações sociais. Aparentemente, essa suposição vigorou contraditoriamente no tempo do padrão ouro, século 19. Do século 20 em diante, a moeda é capital do Estado, ou seja, moeda política, que organiza a economia e sociedade cuja essência é o antagonismo, sob o capitalismo.

As forças liberais, que haviam levado a economia capitalista à total anarquia, cujo resultado foi, em 1929, a deflação, foram ultrapassado pelo novo tempo. 

O Estado é a resposta da realidade à loucura neoliberal de 29, como passou a ser, também, agora, a pretensa resposta para a crise bancária, de 2008, como clamam muitos. 

A diferença fundamental  é que entre 1929 e 2008 o Estado não é mais aquela potência financeira de outrora. Precisa de muito viagra, pois se encontra excessivamente endividado, impotente, adiposo e desacreditado pelo mercado.

Se o governo não consegue mais controlar a inflação, via enxugamento do excesso monetário que lança na circulação para girar a produção, a alternativa é sombria: ou instaura-se a desconfiança e o medo, ou o governo passa uma borracha na dívida e começa a endividar-se novamente.

Adam Smith, em “A riqueza das nações”, é claro: dívida não se paga, renegocia, rola. Essa possibilidade estaria limitada para a ação exuberante do império ou suas forças se esgotaram?

 

As diferenças entre 1929 e 2008

 

 

Na crise de 1929, o Estado entrou na economia, para salvá-la do colapso do lassair faire, ou seja, da anarquia dos mercados em concorrência livre das mercadorias. Na crise de 2008, 78 anos depois, o Estado, que entrara, antes, para salvar o mercado, perdeu a capacidade de controlar o mercado.

Entregou sua própria cabeça aos especuladores, ou seja, suas próprias atribuições, sua capacidade de regulamentar a economia, como forma de contribuir para a reprodução ampliada sem freios do capital. 

O Estado, visto do ponto de vista do Direito Administrativo, deixa, no colapso da moeda estatal deslastreada, de ser entidade política, constitucionalmente, constituida, que determina, para ser entidade administrativa, que é determinado.

Tal dinâmica foi imposta pela própria moeda estatal deslastreada. Teria perdido sua dinâmica o capital estatal, única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, segundo Keynes, para organizar a economia e a sociedade mediante capacidade de ofertar quantidade de moeda na circulação capitalista?

Nessa circulação, o produto real e irreal são polos e contrapolos que se interagem dialeticamente, sob modelo keynesiano, agora, abalado, diante da bancarrota financeira estimulada pela desregulamentação do estado keynesiano.

As discussões entre bancos centrais e líderes políticos na ONU já demonstram a necessidade de nova concertação econômica global, no compasso da derrocada da lógica de Bretton Woods, montada sob império da moeda sem lastro real.

O pacote Paulson-Bernamke, alterado pelo Congresso, para tentar salvar o país da bancarrota financeira, é o retrato da ruína da moeda de Tio Sam. Em 1929, explodiu o padrão ouro. Em 2008, explode o padrão monetário especulativo estatal.

Paulson falou o inimagínavel, pediu humildade. O império abriu o bico.

O senador Aluísio Mercadante(PT-SP), excitado pelos acontecimentos e pelas consequências dramáticas que a crise bancária detonará, para negar o excessivo otimismo do presidente Lula, desprovido de realidade, está dizendo que Keynes é a solução. 

Afinal, não é a solução keynesiana que está entrando em crise nos Estados Unidos? Devia ler, urgente, “A crise da ideologia keynesiana”. Do contrário, pode jogar o presidente Lula numa fria.

Real, sob rapina, marcha para crise

 

 

Para futuro não muito distante gesta-se outra crise do real e mais um desgaste insuportável para a economia brasileira, semelhante ao de 1998, quando a taxa dos títulos públicos chegou a 50% aa., sem que isso tenha evitado a galopante desvalorização do real iniciada em 1999.  

A recorrente vulnerabilidade das contas externas é conseqüência inelutável do modelo comandado por bancos e empresas transnacionais. Enquanto perdure o atual regime (não me refiro apenas ao presente “governo”), não há qualquer chance de serem levadas em conta sugestões de política econômica capazes de sequer reduzir a amplitude e a profundidade do desastre, mesmo porque não há como tratar do problema, mantida a atual estrutura dos mercados.  

Eis como começa a Nota para a Imprensa sobre o Setor Externo, divulgada pelo Banco Central (BACEN) em 28.07.2008: “O balanço de pagamentos registrou superávit de US$ 2,6 bilhões em junho de 2008. As transações correntes apresentaram déficit de US$ 2,6 bilhões acumulando, nos últimos doze meses, déficit de US$ 18,1 bilhões, …. A conta capital e financeira foi superavitária em US$ 6 bilhões. (Grifos meus). 

A Nota é pouco esclarecedora. Traz dados a respeito de componentes do balanço de pagamentos quase que só para o mês de junho, sem mostrar o resultado do 1º semestre. Há apenas uma referência, logo no início, ao acumulado nas transações correntes, nos últimos 12 meses. A Nota parece orientada para minimizar a percepção do que mais interessa: a nítida e rápida deterioração das contas externas do Brasil. 

Para recordar, o balanço de pagamentos compõe-se de dois grandes conjuntos: as transações correntes e a conta de capital. As transações correntes englobam, além das transferências unilaterais (principalmente remessas de trabalhadores brasileiros provenientes do exterior), os balanços: 1) comercial (mercadorias); 2) de “serviços”; 3) de rendas. Fazem parte deste as remessas de lucros e dividendos, e os juros. O balanço comercial teve, nos últimos anos, grandes saldos positivos, mas estes se vêm reduzindo muito. Já os serviços e as rendas resultam tradicionalmente em déficits, que vêm crescendo.

 

Números do desastre financeiro nacional  

 

A Nota do BACEN omite que as transações correntes mostraram déficit de US$ 17,4 bilhões, em apenas seis meses (janeiro a junho de 2008), quantia quase igual à desse déficit nos últimos 12 meses. Ela é 25 vezes maior que a verificada de julho a dezembro de 2007. É inegável, pois, que a situação das contas externas do País se agravou aceleradamente mesmo durante a conjuntura externa ainda favorável para as commodities, que ainda prevalecia no 1º semestre de 2008.

O BACEN “esqueceu”, ademais, de utilizar outro dado de suas estatísticas, a saber, que os lucros enviados pelas multinacionais às matrizes somaram US$ 19 bilhões neste mesmo 1º semestre. Essa estarrecedora cifra é o dobro da do mesmo período em 2007 (US$ 9,8 bilhões).

Apesar de superarem, sozinhas, o déficit total das transações correntes (US$ 17,4 bilhões), as remessas de lucros não são o único determinante desse déficit. Há também: 1) o superfaturamento de importações e o subfaturamento de exportações, que fazem o superávit comercial ser muito menor do que seria de outro modo; 2) as despesas a título de juros e de “serviços”, em favor das matrizes das transnacionais.

Com o crescente déficit nas transações correntes, o balanço de pagamentos vai sendo, por enquanto, “equilibrado” por meio do ingresso líquido de capitais: os de curto prazo, aplicados em diversos ativos do mercado financeiro, aproveitando as obscenas taxas de juros “brasileiras”; e os “investimentos” estrangeiros diretos (IEDs), que totalizaram US$ 16,7 bilhões no 1º semestre de 2008 (US$ 20,9 bilhões no 1º de 2007). Quanto ao balanço de pagamentos o 1º de 2008 terminou com superávit de US$ 19,2 bilhões, menos de 1/3 do saldo do 1º semestre de 2007 (US$ 61,6 bilhões), com grande participação dos capitais de curto prazo. 

A situação confrangedora das contas externas brasileiras não está somente nessas cifras, mas sobre tudo nestes deploráveis aspectos qualitativos:  

1) o Brasil envia recursos financeiros líquidos ao exterior nas transações correntes, não obstante exportar colossais recursos naturais e, abusando destes, bens industrializados de baixo valor agregado;  

2) tenta “equilibrar” o déficit das transações correntes com a conta de capital, subsidiando o ingresso de capitais estrangeiros, que implicam crescentes remessas de ganhos especulativos, e subsidiando a intensificação do controle dos meios de produção por parte de empresas transnacionais, a plataforma de lançamento ao exterior, por exemplo, dos US$ 19 bilhões de lucros às suas matrizes, no 1º semestre de 2008.

 

Vampirismo explícito sobre riqueza nacional

 

As cifras a seguir descrevem a explosão das remessas, que não passam de fração pequena dos lucros reais, transferidos ao exterior por outras contas do balanço comercial e do de serviços. Anotam-se também os ingressos de IEDs.

      Remessas de lucros    Ingressos IEDs

2003 – US$ 5,7 bilhões      US$ 10,1 bilhões  
2004 – US$ 7,3 bilhões    US$ 18,1 bilhões     
2005 – US$ 12,7 bilhões    US$ 15,1 bilhões    
2006 – US$ 16,4 bilhões     US$ 18,8 bilhões 
2007 – US$ 22,4 bilhões   US$ 34,6 bilhões 
2008 – US$ 19 bilhões, em 6 meses.

Vê-se, pois que os novos ingressos de IEDs mal equilibram as remessas de lucros, as quais crescem em velocidade bem maior. E o pior é que esses ingressos são a base para remessas de lucros ainda mais fantásticas no futuro. É evidente que quanto maior for o controle das atividades produtivas pelo capital estrangeiro, mais este disporá de meios de produção para realizar lucros e enviá-los para o exterior, inclusive lucros que não se apresentam como tais na contabilidade das transnacionais, livre para escriturar preços convenientes a fim de, além disso, evitar o pagamento do IRPJ e da CSLL.

No livro “Globalização versus Desenvolvimento” mostro que todos os países hoje ditos desenvolvidos criaram estruturas para isso por meio da participação direta do Estado na economia produtiva, além de todo um conjunto de políticas destinadas a viabilizar o setor privado nacional.

Exatamente o contrário do que o Brasil foi induzido a fazer: subsidiar grandes transnacionais, ajudando-as a apoderar-se dos mercados e a aprofundar seu comando sobre a política econômica do País. Isso decorreu da intervenção política, cultural e militar estrangeira, especialmente a partir do golpe de 1954 que derrubou o presidente Vargas.

 

 

* – Adriano Benayon é Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. benayon@terra.com.br

 

Big Bang capitalista afeta PAC lulista

O sistema capitalista está em risco, porque a sua parte podre, a dominação especulativa, geradora de renda para a parte boa sobreviver, ou seja, a parte produtiva, entrou em colapso com a implosão dos bancos, que financiaram os setores imobiliários nos Estados Unidos e na Europa, agora, envolvidos em bancarrota, levando de roldão o sistema bancário. Os ricos estão empobrecendo. Já foram jogados na fogueira da especulação 1,5 trilhão de dólares, valor correspondente a dois PIBs brasileiros. E, ainda, o fogo continua alto, requerendo doses maciças de socorro dos bombeiros, os bancos centrais, cuja convicção na tarefa de eliminar as chamas é, por enquanto, inexistente. Joga-se no escuro. Como fica o Brasil, nesse contexto? Apesar das autoridades se mostrarem excessivamente otimistas, uma coisa é certa: o Programa de Aceleração do Crescimento – PAC – com o qual o presidente Lula pretende continuar dinamizando a produção, para gerar suficiente poder de confiança, capaz de permiti-lo fazer sua sucessora predileta, na eleição presidencial, em 2010, a ministra Dilma Roussef, da Casa Civil, pode, junto com a economia global, desacelerar-se, também. Dez bancos de peso, na Europa e Estados Unidos foram para o buraco e os preços das ações dos 50 principais oligopólios financeiros e produtivos – mais fortes que muitos governos juntos – que valorizaram, no mercado, nos últimos cinco anos, caíram em torno de 90%, nas últimas semanas, demonstrando que tanto a produção como a especulação estão no mesmo barco. Simplesmente, viraram pó. O cassino financeiro global, que estava produzindo renda como coelhos se reproduzem, com a utilização do chamado mercado derivativo, em que moeda se torna parideira de moeda, sem que haja lastro real, deixou de funcionar nas duas praças econômico-financeiras mais poderosas, européia e americana. Está sinalizada a recessão forte, que afetará, globalmente, a todos, já que a interdependência financeira é um dado concreto da realidade global mutante em processo de aceleração destrutiva. Não foi possível suportar a dose de loucura que o capitalismo financeiro imprimiu às ações ultra-especulativas ao longo dos últimos cinco anos, no mercado imobiliário. Repetiu-se a mesma manobra que aconteceu nas grandes jogadas ousadas, que visam ganhar dinheiro fácil, sendo a maior experiência histórica, nesse sentido, a grande crise de 1929. Naquele ano fatídico, em outubro, o mercado emitia papel que era caucionado por valorizações especulativas do próprio papel, de modo a permitir novas compras de papéis, acompanhadas de seguidas sobrevalorizações especulativas, de modo a caucionar mais papéis podres, e assim por diante, até a implosão. Assim que os preços despencaram, os aplicadores não tiveram dinheiro para pagar suas contas. Muitos subiram nos últimos andares dos edifícios de Nova York e outras praças, para saltarem de cabeça, desesperados.

Momento de loucura do capital

A cena se repete, dramaticamente, agora, sem maiores suicidios, mas com grandes quebradeiras. Os aplicadores compravam suas casas com empréstimos bancários, as casas, inicialmente, tinham seus preços valorizados, tal valorização servia de caução para levantar novos empréstimos, a fim de comprar mais casas e apartamentos, até que o mercado sinalizou excesso de casas, ou seja, de bananas, no mercado, que começaram a apodrecer, jogando os preços para baixo. Quando a maioria dos compradores foi vender esses ativos, para pagar as prestações, os preços deles estavam pela metade ou menos, quantia insuficiente para quitar os papagaios bancários, acrescidos dos juros. Falência geral.
Nesse ambiente, de falência, os bancos cortaram o crédito e as indústrias, comércios e serviços, sem o oxigênio creditício entraram em desaceleração. Evidenciou-se que deixou de funcionar o mecanismo que mantém a economia capitalista mundial ativada, com os Estados Unidos desempenhando, historicamente, desde o pós-segunda guerra mundial, o papel de consumidor global maior, prioritário, a partir de emissão de papel moeda sem lastro, para, com seus deficites comerciais, gerar superavits comerciais nas demais economias do mundo.
Os bancos, desconfiados da inadimplência generalizada, resistentes a continuar o jogo do crédito direto ao consumidor, somado às desconfianças generalizadas dos consumidores, que, super-endividados, sem poder pagar suas prestações, em face das desvalorizações violentas dos seus ativos imobiliários, suspenderam as compras, perderam a função precípua do sistema bancário, simplesmente, porque começaram a falir.
A roda da fortuna havia quebrado. Se continuasse a situação como ficou, diante da falência dos consumidores endividados, o dominó da quebradeira se tornaria irresistível. O governo americano teve que entrar em campo, para praticar o discurso econômico que prega para os outros, mas não para si mesmo, ou seja, decidiu estatizar os principais agentes financeiros do setor imobiliário americano e a maior agência de seguros bancários do mundo. Já, outros bancos, também, importantes, nas áreas de investimentos, que estavam pela hora da morte, foram empurrados, sem dó, para a cova. Os bancãos viram banquinhos no correr da bancarrota financeira global.
O pânico se genralizou, até que, na madrugada de sexta-feira, o governo americano, exausto, abriu o bico e pediu água. A Casa Branca percebeu que, sozinha, não daria conta do recado. Solicitou socorro aos seis principais bancos centrais do mundo, para tentar salvar o capitalismo. Foram, emergencialmente, injetados mais 250 bilhões de dólares, para tentar acalmar o maremoto financeiro neoliberal, tocado pelo dólar derivativo, o derivodólar derivodoido, que ameaça virar papel de parede.
Ficou claro: o unilateralismo norte-americano, que emergiu depois da guerra fria, em  1989, colocando os Estados Unidos como o bam-bam-bam do mundo capitalista, dá lugar, com a coordenação financeira global, ao multilateralismo político e econômico global, demonstrando a redução do poder relativo do império americano no mundo. A Roma moderna está mais fraca.

Brasil na roda da loucura

A crise é, apenas, americana e européia, sem maiores transtornos para o Brasil, como tenta vender, de formar ufanista, o presidente Lula e o ministro da Fazenda, Guido Mantega, no auge da loucura especulativa implodida? Mentira.
A economia brasileira, igualmente, corre perigo, e pode ser fortemente afetada, apesar de o colchão de segurança contra ela ter sido dado com o aumento do consumo interno, que evitou desvalorizações cambiais aceleradas, nos últimos anos, para elevar exportações, como forma de desovar estoques internos inconsumíveis, graças à péssima distribuição da renda nacional.
Os programas sociais, bombados com dinheiro público, keynesianamente, valorização do salário mínimo,  aumento dos gastos com previdência e expansão do crédito a juro alto, minimizaram o problemas. O governo colocou poder de compra estatal nos cartões de crédito de alimentação dos pobres para consumirem os excedentes internos. Com isso, evitou desvalorização cambial e provocou o seu contrário, sobrevalorização do câmbio, permitindo, assim, combate à inflação, embora o real sobrevalorizado, em contrapartida, tenha, graças aos juros altos, elevado a dívida pública interna, perigosamente, transformando-a em freio efetivo ao crescimento sustentável.
O perigo maior, agora, está à mostra. O dinheiro valorizado inviabiliza as exportações nacionais, em ambiente de elevada competição global, e provoca deficit em contas correntes, pois as importações crescem mais do que as exportações, no compasso do PIB avançando 6% no segundo trimestre do ano. Somente nos dois últimos meses, o deficit aumentou em 2 bilhões de dólares. Estima-se que, nesse ano, poderá aproximar-se dos 2% do PIB, algo em torno de 30 bilhões de dólares, enquanto, no ano passado, registrou-se superavit de 3 bilhões de dólares. Vale dizer, não há tranquilidade, mas preocupação.
A desaceleração da economia mundial, a partir da redução do consumo nos Estados Unidos, dado pelo freio consumista pelas famílias endividadas, já está se fazendo sentir na redução dos preços do petróleo e das matérias primas e metais, que dinamizam a produção de manufaturados. Sendo estas as matérias primas que mais engordam os saldos comerciais brasileiros, ao despencarem os seus preços, ocorrem, prejudicialmente, deficits, cujos efeitos, aos olhos do mercado, são perigos para saúde da moeda.
O real, nessa batida, estaria seguro, para valer, ou, também, poderia se tornar candidato a sofrer uma corrida especulativa?
O ufanismo governamental, nesse momento, diz que essa possibilidade está afastada, já que o Brasil estaria, suficientemente, garantido por suas reservas de mais de 200 bilhões de dólares. O que seria essa quantia, significativa, sem dúvida, diante dos 1,5 trilhão de dólares que já foram torrados na fogueira especulativa global do sistema neoliberal que está perdendo sua utilidade?  Praticamente, muito pouco.

Mundo da moeda apodrecida

O fato, como ocorreu em situações semelhantes, bem menos destrutivas de capital, que se encontra sobreacumulado na Europa e Estados Unidos, não deixa dúvida: a contração do crédito global, que o governo americano tenta restabelecer, para manter ativa a produção, vai afetar a menina dos olhos de ouro do presidente Lula e da aliança governamental: o Programa de Aceleração do Crescimento. Não dá para tapar o sol com a peneira.
O PAC, que precisa, para colocar em dia as previsões de investimentos governamentais, de algo em torno de R$ 40 bilhões, por ano, para manter os gastos públicos crescendo acima do PIB, de modo a bancar crescimento econômico de 5% ao ano, tende a perder fôlego. A desaceleração global imporia relativa desaceleração brasileira, com reflexos na redução dos investimentos, da oferta de emprego, do consumo e da arrecadação, que bombeia gastos públicos superiores ao crescimento do Produto Interno bruto, para puxar a demanda global.
Certamente, as especulações contra a moeda, nesse momento, estão exacerbadas, como sempre acontece nos momentos de comportamento de manada, mas pode ser algo temporário, se as reservas acumuladas derem conta do recado, no sentido de estabilizar o preço dela.
Ficaria em aberto outro perigo, se aquele for contornado: as elevadas taxas de juros. Como nos países ricos está ocorrendo a chamada eutanásia do rentista, com os governos jogando a taxa de juros para baixo, a fim de evitar recessão, embora correndo o risco de mais inflação, no Brasil, ao contrário, os juros mais altos do mundo tenderiam a atrair os dólares derivativos que estão apodrecendo no compasso da crise bancária internacional.
O dólar derivativo apodrecido, se vier em quantidades excessivas para o paraíso brasileiro dos juros altos, terra brasilis jurista, poderia apodrecer, também, a própria economia, ameaçando, consequentemente,  a vida do presidente do BC, Henrique Meirelles.
A areia movediça está em plena atividade, disposta a engolir os personagens centrais do drama.

Dinheiro empoçou nas praças ricas

Em todas as crise capitalistas, o capital se sobreacumula nos países ricos, que, para livrarem dos prejuízos, canalizam o excesso de dinheiro, que deixa de render no centro, para a periferia em forma de dívida externa. Daí, Marx destacar que a dívida externa representa, fundamentalmente, instrumento de dominação internacional, como alternativa às crises financeiras cíclicas.
A partir dos anos de 1980, como explica Lauro Campos, em “Moeda e mercadoria:metamorfose e crise”(Ed. UnB, 1992), o processo se inverteu. Em 1979, diante do excesso de dólares, eudólares, petrodólares e nipodólares, na economia mundial, acumulados desde o pós-guerra, guerra fria e guerra do Vietnan, lançados na economia, para fortalecer os países europeus e Japão, evitando serem atraídos para o comunismo, os Estados Unidos elevaram a taxa de juros de 5% para 17%, em nome do combate à inflação.
Resultado: a periferia capitalista, que dinamizava a economia mediante dívida externa, tornando-se, historicamente, dependente, faliu, como destaca Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto, em “Teoria de dependência”. Os bancos internacionais, que, antes, canalizavam as sobras de dinheiro acumulado, no centro, para os países capitalistas periféricos, trancaram o cofre e chamaram o FMI, que passou a ser capitão do mato, na tentativa de ajustar as economias falidas, mediante orientação do Consenso de Washington, a partir de 1982. A receita ficou famosa: desregulamentação, privatização, corte de gastos e superavits primários elevados, para pagar os juros da dívida. Os empréstimos externos secaram.
O capital acumulado no centro, sem poder descolar-se para a periferia em forma de dívida externa, ficou, mesmo, atolados nos países ricos, dando início a nota etapa de reprodução ampliada do capital, a partir de especulação, não na periferia, mas no centro, mesmo, gerando problemas. A especulação inevitável preparou o campo para os desastres, como reconhece o ex-presidente  do Banco Central dos Estados Unidos, Allan Greenspan, que caracterizou esse período do capitalismo como sendo o da “exuberância irracional”( “A era da turbulencia – aventuras em um novo mundo”, 2007, prefaciado por Pedro Malan, ex-ministro da Fazenda, na Era FHC).
O dinheiro sobreacumulado pela superespeculação no capitalismo cêntrico buscou, na imaginação abstrata, suas formas de reprodução ampliada, por intermédio do esquentamento de negócios, de forma cíclica, até que os mesmos explodissem, deixando rastros de destruição. Aconteceu, nos anos de 1990, no contexto da exuberância irracional, a superespeculação com as empresas ponto.com. As valorizações das ações especulativas serviam de caução para novas ações sobreavalorizadas, da mesma forma que, agora, ocorre com as ações do mercado imobiliário, assim como aconteceu no crash de 1929.
A dívida externa, antes formada nos países pobres, dados os deslocamentos de capital do centro para a periferia, se transformou em fonte de especulação nos países ricos, agora atordoados com a falta de fluxo global dos empréstimos para os países pobres, empobrecidos pela crise dos anos de 1980. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Ricos empobrecem, pobres enriquecem

Os ricos, nesse contexto, estão empobrecendo, porque o excesso de moeda, empoçada pela desconfiança generalizada, perde valor, não exerce mais o papel de impor, via política cambial, deterioração nos termos de troca, relativamente, aos países detentores de matérias primas, das quais as manufaturas mundiais dependem. Por isso, o preço das manufaturas, em excesso, graças ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia, que aumenta a produvidade, tende a cair, enquanto o preço das matérias primas, escassas, tende a subir. Inverte-se a deterioração nos termos de troca, como destaca o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Os ricos ficam mais pobres e os pobres, detentores das matérias primas, podem ficar ricos.
Talvez seja por isso, que o ministro Guido Mantega e o presidente Lula, nesse momento, estejam contando vantagem. Mas, não se sabe se conseguirão rir por último, antes de o quadro de destruição capitalista neoliberal especulativa, esteja plenamente desenvolvido.
Uma coisa é certa, o neoliberalismo foi para o buraco, mas o seu sucessor, o keynesianismo, expresso em gastos crescentes do governo, não está com vida garantida, porque, como demonstra o próprio governo W. Bush, o mercado passou a desconfiar da capacidade de os próprios governos darem conta do recado.
Na Inglaterra, berço do capitalismo industrial, cresce tendência de tentar separar a economia especulativa da economia real, dando tratamento adequado para esta, enquanto aquela será jogada no sal. O problema é que a chamada economia real sob o capitalismo não consegue sobreviver sem a ajuda da especulação, como a história já demonstrou.
Antes, nas crises, os especuladores corriam para o ouro, que era a forma de entesouramento. Depois que o padrão ouro fracassou no final do século 19, entrando em campo novo padrão monetário, apoiado na moeda estatal, que passou a puxar a demanda global, o entesouramento passou a ser feito pelo próprio governo, via endividamento público.
Nesse momento, os especuladores correm para o ouro, que é insuficiente, e para os títulos do governo, entesourador final do processo capitalista, mesmo para ser remunerado com juro negativo. Até quando a saúde financeira dos governos conseguirá enxugar a montanha de dólares derivativos no mercado global, ninguém sabe.
O neoliberalismo foi para o buraco e o keynesianismo deixou de ser solução, para se transfomar, também, em problema. Verdadeiro salve-se quem puder no Big Bang global.

Derivodólar ameaça Meirelles

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, pode dançar no último baile da Ilha Fiscal global. A bancarrota financeira neoliberal representaria seria ameaça a ele.

A política de juros altos, que foi favorável, num primeiro momento, para a economia, tende a se transformar em pesadelo, se os juros brasileiros, os mais altos do mundo, atrairem, irresistivelmente, os dólares derivativos apodrecidos na praça global. Aprodeceria a economia. 

O mundo, depois de viver a pujança e a decadência do dólar, do eudólar, do petrodólar e do nipodólar, vive, agora, os fantasmas da destruição do dólar derivativo, o derivodólar, gerado na bancarrota do setor imobiliário que produz crise bancária aguda.

Os investidores especulativos estão em polvorosa. Nos Estados Unidos, perderam a teta estatal para mamar. Na Europa, idem, apesar de, tanto americanos como europeus e japoneses estarem jogando dinheiro na circulação, nesses dias, para evitar o empoçamento de capital no sistema, perigando falir geral.

Sem chances de reproduzirem nas praças ricas onde se realiza a eutanásia do rentista, com juro baixo para evitar recessão, quem vai perder um negoção chamado juros brasileiros?

Fantástica lucratividade: trocar moeda que está apodrecendo o sistema financeiro internacional por títulos da dívida pública brasileira, cujo lastro é a riqueza do petróleo, dos minérios, dos alimentos, da biodiversidade, da condições naturais – terra, água e sol, que possibilitam até três safras anuais etc.

Nacionalismo ou entreguismo?

Se houver uma corrida de investidores para o Brasil nas próximas semanas, sem dúvida, o dólar, em vez de valorizar-se, seria brutalmente desvalorizado. O presidente do Banco Central tremeria na cadeira. Aumentariam vozes no Congresso pedindo sua cabeça.

Pode ser que tal pedida seja feita pela oposição, sem arma política para combater Lula.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, está colhendo  vitória em cima do discurso jurista neoliberal de Meirelles, no auge da crise financeira.

Como, criticamente, apostou no desenvolvimentista redistributivo- social-nacionalista-getulista-lulista, pregador de juros mais baixos, como faz, também, o vice-presidente José Alencar Gomes da Silva, Guido Mantega vê o chão abrir sob os pés de Meirelles.

Poderia ser tragado pela areia movediça neoliberal em crise de forma acentuada, se houver uma corrida bancária, por esses dias – hoje, ou amanhá, quem sabe? – ou por horas contra eventual enxurrada de moeda podre atraída pelo juro alto. Parece Boró, aquele bichinho que gosta de tudo que é podre, papel, pau etc.

 

Lenin cantou a bola

Em tal ambiente, nada  tão favorável paras as causas socialistas, como destacou Lênin, do que as desorganizações monetárias, que mexem com a segurança íntima do ser humano, já que os movimentos do dinheiro levam a um estresse total, predispondo-o, preocupado, às osciliações politicamente radicais.

O relógio da história está virando contra Meirelles, simplesmente, porque, se o juro alto, até agora, foi solução, daqui para a frente, pode virar problema., causando incertezas generalizadas. O que é positivo numa hora, é negativo em outra, contraditoriamente, dialeticamente.

Para piorar a situação conjuntural, emergente, Meirelles errou fragorosamente na última reunião do Copom, na semana passada. Em vez de conduzir a discordia interna dentro da diretoria do BC para um consenso, jogando , policamente, quis dar uma de machão. Fez política econômica em vez de economia política.

Estrepou-se ao optar por mais uma torcida forte no parafuso dos juros. Pegou mal. O momento pedia ponderação. A coragem para atender os interesses dos especuladores, sob o disfarce de combater a inflação, excedeu-se. Foi mais realista que o rei.

Rendeu-se ao mecanicismo, dançou na dialética.

Resultado: os preços do petróleo cairam fortemente; idem os preços das commodities etc. Pode pintar, em vez inflação, deflação.

Haveria deterioração acentuada nos termos de troca em favor de quem dispõe de matéria prima, América do Sul, relativamente, a quem precisa delas para industrializar, Europa, Estados Unidos, Japão, China etc.

Os preços dos produtos primários, escassos, sobem, enquanto os preços dos industrializados, graças ao aumento da concorrência, caem.

Haveria acirramento violento da competição no comércio mundial, carente de regulações, por causa do fracasso da Rodada de Doha.

Pode vir por aí uma sangria dos preços. A solução meirelliana pode estar deixando de ser útil.

 

Imperfeição é fundamental 

Não está pintando clima para compatibilizar-se com as decisões do BC,  que, visando a meta de 4,5% para a inflação para 2009, estaria arrochando, desde já, o custo do dinheiro.

Necessário? Desnecessário? Inconveniente? Imprudente? Prudente? Estados Unidos, Europa, Japão, Chile, que estão reduzindo os juros, estariam errados? 

Ou Meirelles acredita que elevando ainda mais os juros nas alturas estratosféricas continuará distribuindo renda a partir de bônus para os especuladores da classe média com os títulos da dívida pública que geram consumo bem à moda de um keynesianismo financeiro cuja fonte de renda é a própria moeda em circulação, agitando o consumo popular?

A qualidade do momento econômico internacional mudou para pior. A sinalização é de aumento da concorrencia global, que leva às desvalorizações, mediante políticas monetárias e fiscais altamente competivas.

As praticadas no Brasil, como mostram os resultados da balança comercial, não são. E o mais dramático, ainda: o que era bom, tende a ficar ruim, com muito dólar circulando para fugir do juro baixo, isto é, da morte-eutanásia.

Na Europa, nos Estados Unidos, na China, no Japão, no Chile, etc, os juros caem. Já, no Brasil, graças à estratégia meirelliana….

Não seria melhor jogar as reservas cambiais em maciços investimentos públicos do que ficar com elas num contexto altamente volátil?

Meirelles, em entrevista a Willian Waack, disse que não está afastada essa possibilidade. Talvez seja a sua salvação politica.

O giro dos acontecimentos está sendo veloz, criando situações inesperadas, surpreendentes, incontroláveis, desestabilizadoras.

Bastou poucas horas para o Lehman Broths, de 158 anos de idade, ir para o espaço, como fumaça. 

Não dá para não citar Fernando Pessoa diante da bancarrota do pensmento econômico neoliberal que pensava portar verdade única do pensamento perfeito:

“O perfeito é o desumano, porque o humano é imperfeito.”

Bancarrota financeira neoliberal

A pregação neoliberal americana é para inglês ver. Vale da boca para fora. Aos países capitalistas da periferia, a solução é o neoliberalismo. Quando a situação fica preta na economia americana, a solução é estatal. O internacionalismo americano se transforma em nacionalismo bancário quase xenófobo. A estatização dos bancos imobiliários Fannie Mae e Freddie Mac, que têm  financiamentos imobiliários da ordem de 5 trilhões de dólares, demonstra a duplicidade da teoria americana. W. Bush, para evitar bancarrota financeira, entrou em campo. O tesouro americano vai assumir os prejuízos, jogando 200 bilhões de dólares na fogueira, para os consumidores, depois, pagarem a conta em forma de impostos, taxas e contribuições, já que não existe almoço grátis. Os aplicadores nas hipotecas dos dois grandes bancos privados, que atuam com o aval do governo dos Estados Unidos, para tocarem a política habitacional, estão dependurados na brocha. Governos asiáticos, que aplicaram suas reservas no Fannie Mae e Freddie Mac, podem levar prejuízos monumentais. As grandes exportações asiáticos, mediante moedas competitivas relativamente ao dólar, geram divisas que são gastas em compras de títulos da dívida americana e de grandes bancos dos Estados Unidos. A febre imobiliária, comandada pelos bancos Fannie Mae e Freddie Mac, atraiu muita grana asiática. Esta, agora, pode transformar-se em poeira. A ultra-especulação que se verificou, nos dois ultimos anos, no mercado imobiliário americano, espraiando-se pela Europa, deu-se com a proliferação do dólar derivativo. Dinheiro que gera dinheiro em escala global, levou o mercado imobiliário à esquizofrenia. Financiamentos para comprar casas se reproduziram em escala inimaginável no mercado de derivativos, alavancando negócios sem lastro, cujos efeitos, agora, são quedas violentas das cotações imobiliárias e perdas de hipotecas e falências generalizadas. Onze bancos já foram para o espaço. Os bancos, que alavancaram créditos podres, garantidos por outros créditos pobres, deslastreados, tiveram, diante da queda de preços dos imóveis, de suspender o crédito. A interrupção do mercado creditício levou ao empoçamento do dinheiro, que perde valor monetário. Sem a circulação do dinheiro no mercado, os prejuízos se avolumam. O capital, em sua fase puramente financeira, não consegue se reproduzir na produção porque a circulação das mercadorias se interrompe na bancarrota do crédito. Os bancos estão sendo condenados a registrarem prejuízos de bilhões de dólares. São quase 7 trilhões de dólares de prejuízos. Estes tendem a aumentar indefinidamente, especialmente, se os dois bancos estatizados tivessem ido à falência. O governo americano banca a estatização bancária como alternativa para evitar o colapso do capitalismo americano. Evidencia-se que na economia meramente monetária, bancada pelo dólar sem lastro, a estatização dos bancos vai se transformando em necessidade imposta por um fenômeno caracterizado pelo próprio colapso da moeda deslastreada, da qual os investidores, apavorados, fogem. O momento é de pânico na economia mundial, que, sob o dólar apodrecido no mercado de derivativos, gera tensões sociais e políticas, altamente, explosivas. Este é o momento mais crítico para a economia capitalista, segundo Lenin, pois, diante do perigo de perda de poder aquisitivo da moeda, as reações humanas se tornam irracionais. Nada mais adequado para as teses socialistas. Na verdade, as crises monetárias, conforme destacou o líder da revolução comunista soviética, em 1917, são as parteiras do socialismo, a melhor propaganda do movimento socialista internacional. Muitas tensões à vista nos próximos tempos de grande recessão na economia mais poderosa do mundo, cujos reflexos estão se fazendo sentir na Europa, podendo balançar os alicerces da social-democracia ocidental.