Sucessão entre inflação e colapso cambial

Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 09-03-2010

A sucessão presidenc ial 2010 pode se dar debaixo do dilema para o qual o ministro Mario Henrique Simonsen sempre alertava quanto ao comportamento das economias na periferia capitalista dependentes de poupança externa cujas consequências sempre são variações bruscas entre a existência de pressões inflacionárias, de um lado, e perigo de bancarrota nos deficits de balanço de pagamento, de outro. Aquelas, dizia, aleijam; este mata. A política cambial em curso no BC sinaliza a morte enquanto combate a inflação.

A política cambial sobe no palco eleitoral, podendo, em vez de dividir, unir os candidatos em disputa, porque tende a entrar em cena a necessidade de optar entre o pior, a inflação, e o péssimo, o déficit em contas correntes do balanço de pagamentos, agravado pelo ambiente da crise global. O candidato do PSDB, possivelmente, o governador de São Paulo, José Serra, vê necessidade de interferir no câmbio. Dão mostras dessa disposição serrista os economistas ligados aos tucanos, como o ex-ministro Bresser Pereira, em longo artigo, no jornal O Estado de São Paulo, no domingo, e o ex-secretário de Fazenda, Yoshiaki Nakano, no Valor Econômico, nessa terça feira. Ambos antevêem crise de balanço de pagamento que produzirá fuga de capitais, ou seja, depreciação forçada da moeda nacional e conseqüente pressão inflacionária. Da mesma forma, a candidata governista, Dilma Rousseff, de acordo  analistas petistas, que comandam fundos de pensão estatais, destaca a necessidade de maior atenção ao câmbio, que, sob juros altos prenunciados pelo BC, como arma de combate às pressões inflacionárias, detonará maior depreciação do real, pior desempenho das exportações, maior pressão sobre a dívida pública interna e, por isso, maior perigo de corrida cambial em face do aumento do déficit em contas correntes. Candidatos à presidência, oposicionista, de um lado, e governista, de outro, caminham, contraditoriamente, para uma convergência em seus diagnósticos relativamente à política cambial executada pelo presidente do BC, ministro Henrique Meirelles. O câmbio pega fogo. Controla o bicho ou deixa o bicho solto, como está, tensionando o ambiente econômico?

A estratégia do Banco Central pode, portanto, levar o país à inflação incontrolável ao sinalizar aumento das taxas de juros nos próximos meses com argumento de que está, antecipadamente, combatendo pressões inflacionárias. O raciocínio é simples: mais juro alto, mais apreciação cambial, maior pressão salarial, maior redução das exportações, maior pressão sobre o emprego, maior necessidade de poupança externa, para complementar a interna, insuficiente, maior, consequentemente, o déficit com contas correntes, que levam os especuladores a jogarem contra a moeda a partir de determinado instante quando antevêem perigos, cujas conseqüência são fuga de capitais traduzida em desvalorização cambial com resultados conhecidos, ou seja, mais inflação. Jogo manjado. O discurso de que a poupança externa é necessária para complementar a interna produz, ao final, baque cambial, especialmente, na periferia capitalista onde se cumpre a pregação de Marx segundo a qual a dívida externa é instrumento de dominação internacional. Num primeiro momento, diz ele, dinamiza; num segundo, cria insuficiência crônica de demanda efetiva global, que exige novos empréstimos, que implicam em aumentos de juros, juros compostos, sangria financeira etc. História da América Latina em profusão.

Colapso do populismo cambial

Dilma e Serra desconfiam da política monetária do Banco Central, que valoriza o real, bloqueia as exportações, aumenta o desemprego, reduz a arrecadação e eleva a dívida pública interna, forçando deficits em contas correntes, que , no cenário de incerteza e medo global, pode, em algum instante, desatar corrida contra a moeda nacional, levando a economia à combinação mortífera de inflação com deficit em contas correntes, estrangulando as atividades produtivas. Ela como ele vêem criticamente a política cambial meirelliana

O quadro econômico, depois da crise de 2008, agravou-se pela decisão do BC de reduzir, tardiamente, a taxa de juros, a fim de evitar colapso financeiro. Dificultou a ação do governo no sentido de agir anticiclicamente, como forma de manter a economia funcionando. Agora, antecipadamente, o BC sinaliza juros altos em meio ao aumento do endividamento fiscal governamental como fruto da política anticíclica, agravada, por sua vez, pelo fechamento protecionista dos mercados, bem como do aumento da competição comercial em escalada incontrolável. O protecionismo brasileiro, elevando tarifas de bens duráveis sobre importações americanas, para combater protecionismo americano contra exportações brasileiras de algodão é o retrato da guerra comercial global em marcha.

Os juros mais altos anunciados, previamente, pelo BC, rendido às  pesquisas realizadas pelos bancos privados(Focus), criam tensões inflacionarias potenciais, enquanto mistifica que está, com eles, combatendo a inflação. Afinal, juros mais altos atraem, para o Brasil, os especuladores de todo o mundo para jogar no real, a fim de fugirem do juro negativo em vigor nos países capitalistas desenvolvidos, às portas de novas bancarrotas.

O conteúdo real, oculto e latente da política monetária do BC, no ambiente de crise internacional, potencialmente, explosiva, é inflacionário, enquanto, na aparência vende-se o discurso de combate à inflação. Nesse sentido, entra em colapso o populismo cambial que os governos FHC e Lula mantiveram até agora em meio a uma instabilidade global que explodiu em bancarrota global.

O foco da questão passa a ser a política cambial. O excesso de moeda na circulação global transforma-se em fator incontrolável pelos governos, mantido o discurso do câmbio flutuante segundo o qual os mercados se ajustam automaticamente. Papo de Papai Noel. O governo Lula, antes da crise, foi, fartamente, favorecido pelo mercado de capitais global, super-abastecido, até que, em setembro de 2008, a farra acabou.

Escolha de Sofia

Em polêmica aberta com o economista Affonso Celso Pastore, o ex-ministro Bresser Pereira considera a poupança externa, para complementar a interna, fator de sobrevalorização cambial que leva a deficit no balanço de pagamento, no contexto em que vigora câmbio flutuante. Não dá mais, segundo ele, para sustentar a ficção de que os ajustes cambiais são resolvidos pelo livre mercado. Conversa de papai noel.

Brincadeira. Essa é a visão sarcástica de Nakano para classificar a convicção do BC de que o câmbio brasileiro é flutuante e suficiente para conter as tensões do fluxo de capital impulsionado, fundamentalmente, pela especulação, no cenário global de excesso de circulação de moeda especulativa. Faz-se necessário o dirigismo cambial em tal ambiente no qual predomina a desregulamentação da movimentação financeira global.














Os governos capitalistas ricos, ameaçados de empobrecerem, reduziram os juros, fortemente, para evitar bancarrotas das dívidas públicas, que, dialeticamente, crescem no lugar da inflação, de forma keynesiana, desde metade do século passado, no contexto capitalista global. Os bancos abarrotados de derivativos tóxicos somente se salvaram até agora, graças ao socorro dos governos americano, europeus e japonês. O que inicialmente favoreceu o consumo interno, isto é, a oferta substancial de poupança externa, na fase de bonança internacional, que permitiu ao governo financiar seus déficits em contas correntes, ao mesmo tempo em que gerava superávits comerciais expressivos, numa praça global compradora, virou em seu oposto. A praça compradora consumista virou praça poupancista, enquanto os especuladores, diante dos juros negativos, na Europa e nos Estado Unidos, deslocaram-se mais fortemente para a periferia capitalista, a fim de tentarem salvação emergencial.

Com isso, sobrevalorizaram moedas capitalistas periféricas, bloqueando, com tal sobrevalorização, o comercio exterior, ao mesmo tempo em que engordaram as dívidas públicas internas, agravadas pelas políticas fiscais anticíclicas. Nesse ambiente, em que a economia brasileira revela fôlego de gigante, para manter o mercado interno aquecido, mas, também, para suportar – não se sabe até quando – desaquecidas as exportações, em decorrência da apreciação cambial, as contradições se elevam extraordinariamente.

A política monetária do BC vai se aproximando do dilema contra o qual o ex-ministro Mario Henrique Simonsen alertava, nos momentos de grandes tensões: de um lado, a inflação aleija; de outro, o balanço de pagamentos mata. Para não morrer, o câmbio terá que ser alvo de novas ações governamentais. Vão deixá-lo solto para matar o paciente ou controlá-lo para , apenas, aleijá-lo? Escolha de Sofia.

Jogo da eterna dependência

Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 03-03-2010

A secretária de Estado lança a casca de banana da relação falsamente problemática Brasil-Irã, quando, na verdade, está interessada é em aplaudir a política monetária do Banco Central brasileiro que favorece os interesses comerciais e financeiros americanos, ao mesmo tempo em que, também, pressiona o presidente Lula a comprar aviões americanos, forçando para escanteio a negociação Brasil-França. Os americanos querem é o mercado sul-americano, depois que o mercado americano entrou em bancarrota, instaurando-se a era do não-consumismo, afetado pelo medo dos filhos de Tio Sam da escalada do desemprego nos Estados Undos.

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, desembarca, hoje, em Brasília, para falar com o presidente Lula, bastante satisfeita com a política monetária brasileira, comandada pelo presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, de sinalização de juros altos como arma de combate à inflação, mas, também, de sobrevalorização do real, que eleva as vantagens dos Estados Unidos no mercado interno brasileiro, tanto para os investimentos produtivos, como, igualmente, para os especulativos. O juro mais alto que o titular do BC sinaliza para a partir do próximo mês muda o perfil do comércio Brasil-Estados Unidos, favorecendo as exportações americanas, e ao mesmo tempo fortalecendo os investidores da terra de Tio Sam. A estratégia deles é a de aproveitar oportunidades de investimento, no país, como forma de continuar concorrendo com a China, em ritmo de grandes aplicações no Brasil, por intermédio de empresários de peso, como Eike Batista, no setor mineral, estratégico para a expansão industrial chinesa no mundo. No contexto da política monetária, agradável aos americanos e aos chineses, quem leva chumbo são os industriais brasileiros. Estes perdem competitividade nas suas exportações, ao mesmo tempo em que o real sobrevalorizado pelos juros meirellianos compra mais mercadorias americanas, elevando o deficit comercial. Esse é o objetivo principal da política econômica dos Estados Unidos, no espaço global, no momento.

O que interessa aos investidores americanos é um comportamento compreensivo do Banco Central em relação ao dólar em desvalorização, acumulando-o e esterizando-o em forma de reservas, para jogar nos títulos americanos e evitar que eles sejam investidos internamente para desenvolver o país, como faz Cristina Kirchner, na Argentina, nesse momento.

O dólar, que se encontra em quantidade excessiva, no mercado internacional, enxarcando a base monetária global, transforma-se em pé de cabra de Tio Sam para ir abrindo mercado, como alternativa à redução do consumo interno americano, afetado pela bancarrota financeira global que promove o conseqüente empobrecimento relativo das famílias, super-endividadas e apavoradas com o aumento do desemprego nos Estados Unidos e, igualmente, na Europa. Clinton considera, do ponto de vista americano, altamente, positiva a ação de Henrique Meirelles, que aumenta os juros para combater a inflação, mas, ao mesmo tempo, com a valorização do real frente ao dólar eleva a dívida interna e salva os empresários americanos da falência, na medida em que, com o dólar desvalorizado vai abrindo mercado na América do Sul. O maior investidor especulativo dos Estados Unidos, Warren Buffett, destacou que o papel da política externa americana, de agora em diante, para valorizar os ativos dos investidores, nas empresas que lançam suas ações nas bolsas, é abrir mercados nos países emergentes, mediante diplomacia comercial agressiva. Trata-se da melhor forma de valorizar os ativos americanos, compensando a débâcle decorrente da bancarrota financeira do dólar e do euro, em setembro de 20008, responsável por destruir a forma em que a reprodução capitalista estava se dando, ou seja, na hiper-especulação.


Pé de cabra para abrir negócio



A diplomacia comercial americana junto aos países emergentes, que dispõem de mercado interno, relativamente, mais forte que os mercados internos dos países ricos, deve ser cada vez mais agressivas, para favorecer os acionistas das grandes empresas dos Estados Unidos, que perderam espaço na redução do consumo americano e europeu. Essa é a lógica defendida pelos grandes investidores internacionais, como Warren Buffett, para quem juros altos como os vigentes no Brasil significam visão do paraíso.

A salvação das grandes empresas americanas, segundo Buffett, está nos países emergentes. Assim, quanto mais os bancos centrais dos países da América do Sul, por exemplo, mantiverem políticas monetárias restritivas, como arma para bancar a inflação, mais enfraquece o parque industrial sul-americano e mais abre espaço para as empresas multinacionais, que, com os dólares em desvalorização, utilizam-nos para participar da construção da infra-estrutura no continente, onde tudo está por fazer. Valoriza o que está em processo de desvalorização.  Ao mesmo tempo, os juros altos acumulam excessivas reservas em dólares que são praticamente esterilizadas internamente, já que predomina o conceito, na periferia capitalista, de que elas não devem se destinar aos investimentos internos, mas à compra de papéis dos países capitalistas ricos. Não é à toa que é grande a reação da banca internacional à decisão da presidente da Argentina, Cristina Kirchener, de romper com essa lógica, redirecionando as reservas, tanto para pagar dívidas internas, como para aplicar nos investimentos internos. Cristina, nesse sentido, joga contra os interesses de Hillary Clinton, porque a titular da Casa Rosada passa a fazer com as reservas internacionais argentinas o mesmo que os chineses estão fazendo com as reservas em dólares deles, isto é, desovando-as na produção, em vez de mantê-las na esterilização, como ocorre no Brasil, onde já se acumulam mais de 250 bilhões de dólares esterilizados. Esterilizar dólar, no atual momento, é eternizar o jogo da DEPENDÊNCIA econômica nacional.

Como não se pode utilizar as reservas para investir, porque a autoridade monetária está prisioneira de conceito que faliu na crise, os europeus e americanos aplaudem tal estratégia dependente. Aproveitam as oportunidades de investimentos em infra-estrutura, setor que, na Europa e nos Estados Unidos, está esgotado.  As grandes empresas multinacionais americanas, segundo Warren Buffett, terão, nesse novo contexto, de buscar capital fora das suas fronteiras onde estão as oportunidades. Torna-se indispensável às multinacionais disporem dos dólares desvalorizados, que não rendem nada na Europa e nos Estados Unidos, para ganharem tanto na especulação como na produção. Nesta, aplica na infra-estrutura, que tem nos governos os clientes seguros, e naquela esquenta a especulação com os juros altos, multiplicando os rendimentos nos derivativos que entraram em colapso nas praças dos países ricos.

A sobrevalorização do real via política monetária jurista-altista do Banco Central vai  transformando o real em ativo atrativo para quem tem dólares em desvalorização acumulados na praça global. A estratégia monetária na periferia capitalista vira fonte de reprodução ampliada do capital, que deixou de se sobreacumular na esfera dos países ricos. A quebradeira iminente dos países integrantes do PIGS – Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha -, todos dependurados nos bancos alemães, que exigem austeridade fiscal, para liquidação dos papagaios, transformou-se em escoadouro de investimentos para a América do Sul. Os investidores fogem do perigo de colapso na Europa. O juro alto meirelliano brasileiro representa, para esses investidores, visão do paraíso.


Casca de banana iraniana



A diplomacia americana tenta vender a prioridade falsa de que o maior problema dos Estados Unidos na relação com o Brasil é a opção de independência da diplomacia brasileira no cenário internacional, quando, na verdade, o que interessa, mesmo, a Tio Sam é o jogo da dependência econômica expressa nos juros altos que valorizam o empresário americano em terras brasileiras enquanto condena o empresário nacional à eterna submissão aos conceitos caducos como o da formação de reservas cambiais elevadas e sua esterilização como ativo, impedindo-o de ser utilizado no desenvolvimento interno. Mahmoud Ahmadinejad é pura cortina de fumaça.

As empresas nacionais, nesse ambiente, tenderiam a fragilizar-se, relativamente, enquanto as multis, abarrotadas de moeda desvalorizada, poderiam realizar aplicações no ambiente econômico nacional sem precisar sofrer na carne os efeitos dos juros altos internos, que bloqueiam os investimentos e, igualmente, elevam os preços internos, dificultando a competitividade das empresas brasileiras tanto no mercado interno como internacional. Enquanto a grande mídia tenta colocar em primeiro plano a polêmica da relação Brasil-Irã, como se fosse o interesse maior de Hillary Clinton, no Brasil,a diplomacia americana vai comendo pelas beiradas, saindo-se, amplamente, favorecida, em relação aos interesses americanos, pela política monetária adotada pelo Banco Central.

Conjuga-se força interna que favorece o jogo do BC em favor dos interesses estratégicos norte-americanos, enquanto vai se tornando voz isolada o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que está falando o óbvio, mas ninguém, na grande mídia, dá o tamanho exato da controvérsia no ambiente da estratégia de defesa econômica nacional. Diz Mantega que se há excesso de moeda na circulação interna brasileira, o que deveria ocorrer é a queda e não a alta da taxa de juro. Se sobe o custo do dinheiro, os investidores internos reduzirão seu instinto animal, perdendo espaço para os investidores internacionais, não dependentes do juro extorsivo interno. Se o investidor interno é prejudicado pelo juro alto e o investidor externa não pecisa da poupança interna cara para alavancar negócios no Brasil, ocorre o óbvio: os ativos nacionais vão, paulatinamente, mudando de mão.

A inflação será combatida com mais importações, por um lado, e mais desindustrialização e aumento da dívida pública interna, de outro. Esse é o novo jogo estratégico do capitalismo americano, em sua ação na periferia, para compensar a perda de mercado interno nos Estados Unidos. Hillary Clinton joga essa moeda, enquanto ao mesmo tempo põe na frente a casca de banana da polêmica Brasil-Irã, mero disfarce. Com seu Cavalo de Troia, a secretária de Estado norte-americana desembarca para faturar a guerra comercial em terras sul-americanas. Tenta, para tanto, fechar acordos bilaterais para tudo quanto é lado. Salve-se quem puder.

BC entra na polêmica eleitoral

Categoria: (Economia, Política) por Cesar Fonseca em 26-02-2010

A decisão do Banco Central coloca o presidente Lula em situação de risco. Juro mais alto diminui o consumo, a arrecadação e o investimento do governo no PAC, que sustenta a candidatura Dilma. Já, Serra fica solto para dizer que o juro mais alto sobrevaloriza o real e pressiona a indústria nacional que perde competitividade no cenário global. Se o desempre sobe, com o juro em ascensão, a popularidade do governador paulista tenderia a se manter relativamente acima da de Dilma, podendo, assim, ganhar a eleição. Só se os juros aumentarem o nível de emprego e de arrecadação teria chances a candidatura governista. Aconteceria esse milagre?

Não se tem certeza de nada. É jogo de varetas. Tenta-se afastar uma, mexe com as outras, e o perigo é sempre o edifício desabar. Os bancos centrais dos países ricos deixaram de ter credibilidade, justamente, porque se tornaram laxistas na adoção de regras para conter a especulação e levaram o mundo à explosão especulativa. E o Banco Central do Brasil, que sustenta uma das taxas de juros mais alta do mundo, como entraria nessa classificação, quando adota medida para enxugar a liquidez, cuja conseqüência tem sido sempre elevação do custo do dinheiro, em nome do combate à inflação? Estaria ou não favorecendo a especulação, para elevar o custo da dívida pública e ao mesmo tempo sobrevalorizar o real, comprometendo o desenvolvimento industrial? A candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, passa a sofrer os impactos da decisão do BC, nessa quarta feira, 24, de elevar os recolhimentos compulsórios, que pressionam a taxa de juro, ao mesmo tempo em que o seu adversário, governador José Serra, de São Paulo, dispõe de assunto para tentar levantar seus índices de popularidade junto ao eleitorado na corrida presidencial, na qual entrará a partir do final de março, como anunciou, na quinta, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra.

Indiscutivelmente, pode sofrer impacto, com a enxugada do dinheiro no mercado interno, a arrecadação do governo, que movimenta os investimentos do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. O ministro Henrique Meirelles joga uma lipoaspiração no mercado de dinheiro, justamente no momento em que o discurso desenvolvimentista de Dilma depende dos juros mais baixos, para aquecer o consumo interno, para assegurar a arrecadação capaz de bancar o PAC. O oposto dessa estratégia, que começa a ganhar força, é o aumento do juro para conter o consumo interno, que segura a arrecadação, que diminui os investimentos, a fim de segurar a inflação, para que não haja, segundo o argumento dos bancos, ameaça de o país superar os limites das possibilidades do seu PIB potencial.


Discussão ideológica


Meirelles diz que visa impedir aventuras, mas quem não aventura com um jurinho mais alto? Ele não sabe precisar exatamente o PIB potencial brasileiro, para tomar medidas precisas capazes de conter pressões inflacionárias decorrentes da superação daquela potencialidade, justamente , porque o conceito de PIB potencial é pura abstração, cujas consequências, quase sempre, é a teoria não corresponder à prática, como já rolou de vezes passadas.

Trata-se de discussão mais abstrata do que concreta. Ao longo dos anos de 1990-2003, predominava, sob o Consenso de Washington, a verdade bancocrática segundo a qual o país não podia jamais crescer acima de 3%. Esse seria o PIB potencial. Subiu mais do que isso qualquer coisa, haveria, sempre, pressão inflacionária. Era e sempre continua sendo arma de política econômica aumentar os juros para segurar o crescimento potencial tendente sempre a ser superado, porque, afinal, o Brasil é um continente em desenvolvimento e tudo ainda está por fazer em grande parte do território nacional, carente de infra-estrutura dinâmica que o capitalismo moderno requer.

Como os brasileiros são teimosos, querem, de qualquer jeito, crescer, porque, como disse Cazuza,  o tempo não pára,  a ameaça inflacionária se torna constante. A tentação é sempre o atleta superar os seus limites. Mas, aí, o BC, que se subordina aos interesses do mercado, rende-se ao critério do abstracionismo que está na base da construção do PIB potencial.

O presidente do BC, ministro Henrique Meirelles, em entrevista ao repórter Cristiano Romero, no Valor Econômico, deixou imprecisos, como sempre, os critérios corretos, científicos, consistentes e convincentes sobre a exatidão do PIB potencial. Até 2004, o PIB potencial era de 3,5%. Foi superado na Era Lula e a inflação não explodiu, como os bancos previram.

Na Era Lula, com o aumento do consumo interno por conta dos aumentos dos gastos governamentais com as classes sociais D, E e C, o PIB potencial, no compasso da valorização do real, dada pelo maior poder de compra popular, que evitou desvalorização cambial para exportar excedente, teve que ser alterado. E essa alteração decorreu em queda da inflação. Maior consumo interno, menor o excedente exportável e menor a desvalorização cambial. Consequentemente, menor a taxa de inflação.

Ou seja, o mercado interno fortalecido elevou o PIB potencial para 6%. Só que quando passa o PIB potencial de 3,5% para 6%, reduzem-se os superávits primários, antes realizados mediante política monetarista ortodoxa. Ou seja, sobra menos recursos para pagamento dos juros da dívida, porque juro mais baixo incidente sobre o montante da dívida – na casa dos R$ 1,5 trilhão – representa  despesa menor de juro. Assim, a ameaça do PIB potencial de 6% emerge aos olhos dos bancos como fenômeno que requer austeridade monetária para evitar a inflação.

Mas, se  a superação do PIB potencial de 3,5% não se revelou inflacionária, como previa o mercado financeiro, para segurar superávit primários, a superação do PIB potencial de 5%, 5,5% , 6% seria potencialmente inflacionária?


Espaço para Serra crescer


Mantega tenta segurar os gastos para não dar argumento aos bancos para pressionarem o BC em favor de juros altos, ao mesmo tempo em que trabalha para evitar que enxugamentos fiscais e monetários invertam tendência desenvolvimentista em marcha para tendência restritiva que reduza arrecadação, diminuindo ritmo do PAC. Caso contrário, favorecerá a candidatuara Serra, que vai se enchendo de argumentos, principalmente, se os empresários começarem a chiar contra o juro alto.

Não há confirmação sobre isso, porque a tese é fruto de abstração matemática, ciência, segundo Hegel, que se desenvolve no exterior da realidade, não podendo , pois, determiná-la. Dessa forma, a decisão do BC, nessa quarta-feira, 24, de elevar os depósitos compulsórios, para enxugar a liquidez interna, de modo a conter pressões inflacionária, evitando a superação do novo PIB potencial na casa dos 6%, pode dar certo ou não, simplesmente, porque é uma experimentação.

A tese gera antítese. Vale dizer: se, por um lado, o enxugamento de liquidez força a taxa de juro para cima, para tentar conter a pressão inflacionária detonada pelo desejo do povo de crescer acima de 6%, por outro, haverá maior atração de capital externo , produtivo e especulativo, que sobrevalorizará a moeda e prejudicará , certamente, o setor industrial, que ficará, com o real mais forte, sem competição para enfrentar os concorrentes, sendo a China o dragão que está comendo todo mundo, vomitando mercadoria barata produzida pelo Yuan desvalorizado. No mundo capitalista em convulsão, não certeza de sucesso. Se o juro sobe pode ser que não haja queda da inflação, porque as empresas passam aos preços o custo do juro , diminuem  a produção e sustentam preço alto, na base do oligopólio, para manter constante a taxa de lucro.

As incertezas, decorrentes da manobra adotada pelo BC, que está gerando controvérsias generalizadas, no meio econômico e político, em ano de eleição, colocam Dilma Rousseff vulnerável aos  ataques da oposição. No jogo de varetas dos juros o contexto é de imbricação de fatores, internos e externos, além das tensões contraditórias produzidas pela concentração excessiva da renda nac ional. Dessa forma, a decisão do BC vira assunto de campanha eleitoral. O BC, em tempo de eleição, agindo para ser solução, pode virar problema, no ambiente de bancarrota financeira global. De qualquer forma, os especuladores estão achando ótimo os juros subirem, porque nos países ricos predominam a eutanásia do rentista para não quebrarem os governos já excessivamente deficitários.


BC salva os ricos e condena os pobres

Categoria: (Economia) por Cesar Fonseca em 11-02-2010

O presidente do BC, Henrique Meirelles, alerta para os juros mais altos para combater a inflação, enquanto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, teme que tal estratégia detone o mercado interno e a Classe C que elevou a economia ao grau de excelência internacional, evitando que o país entrasse em bancarrota financeira. O jogo dos juros altos favorece os especuladores internacionais que se deslocarão mais forteme para o Brasil. Sobrevaloriza ainda mais a moeda, bloqueando as exportações, sucateando as indústrias e, consequentemente, salvando os bancos internacionais que estão cheios de liquidez ameaçados pela deflação, na Europa e nos Estados Unidos. BC pode transformar o Brasil no santo salvador dos especuladores. Seria canonizado pelo Vaticano.

O presidente do BC, Henrique Meirelles, alerta para os juros mais altos para combater a inflação, enquanto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, teme que tal estratégia detone o mercado interno e a Classe C que elevou a economia ao grau de excelência internacional, evitando que o país entrasse em bancarrota financeira. O jogo dos juros altos favorece os especuladores internacionais que se deslocarão mais forteme para o Brasil. Sobrevaloriza ainda mais a moeda, bloqueando as exportações, sucateando as indústrias e, consequentemente, salvando os bancos internacionais que estão cheios de liquidez ameaçados pela deflação, na Europa e nos Estados Unidos. BC pode transformar o Brasil no santo salvador dos especuladores. Seria canonizado pelo Vaticano.

Os economistas dos fundos de pensão estatais estão se convencendo de que os juros altos brasileiros estão se transformando em salvação dos  bancos europeus e americanos. Às portas da falência, com a bancarrota da Europa e dos Estado Unidos, pulam com seus capitais especulativas para o Brasil, onde faturam altos. Em seguida, retornam às suas bases capitalizados, para apresentar lucros. Dessa forma, arrefecem as pressões sociais para que os governos atuem cada vez mais intensamente contra eles no sentido da regulamentação bancária. A jogada é cristalina. A boiada desloca-se em massa.

Enquanto vigora na Europa e nos Estados Unidos eutanásia do rentista, com juros zero, para evitar que, se elevados, quebrem os tesouros nacionais, obrigados a se endividarem para evitar a recessão, no Brasil, a taxa real de juros se transforma no maior atrativo mundial, no momento. Eles vêm para cá, magros, especulam, levantam lucros e retornam gordos que nem um major, como no baião de Luíz Gonzaga. Melhor negócio do mundo não há. Vai melhorar, ainda, mais a situação deles, se o Banco Central elevar a taxa básica de juros, como especula, largamente, o mercado financeiro.

Será mais um motivo para a atração dos capitais internacionais atolados no excesso de liquidez que impede os juros nos países ricos de subirem, como outrora, como arma de combate à inflação, que está escondida, dialeticamente, nas dívidas públicas nacionais, crescendo no lugar dela, mas podendo explodir, se os mercados começarem a desconfiar da capacidade de sustentação do endividamento por parte dos governos financeiramente encalacrados. Na prática, estão em sinuca de bico. Se os juros não subirem, os capitais empoçados entram em deflação; se subirem, detonam inflação exponencial, caso os mercados promovam corridas contras as moedas. Nesse ínterim, o Brasil, com os juros reais meirellianos mais altos do mundo se transformam na salvação da bancocracia nacional e internacional. 

 

Classe C vai dançar    

 

Os governantes dos países ricos torcem para que os juros subam no Brasil, a fim de aliviar os passivos financeiros dos bancos europeus e americanos, atolados no excesso de liquidez, correndo perigo de quebradeira. Viriam para cá, faturariam altos lucros especulativos e retornariam às suas praças, registrando balanços positivos, impossíveis de serem alcançados por lá onde vigora a eutanásia do rentista em nome da preservação dos ricos altamente endividados à beira do colapso.

Os governantes dos países ricos torcem para que os juros subam no Brasil, a fim de aliviar os passivos financeiros dos bancos europeus e americanos, atolados no excesso de liquidez, correndo perigo de quebradeira. Viriam para cá, faturariam altos lucros especulativos e retornariam às suas praças, registrando balanços positivos, impossíveis de serem alcançados por lá onde vigora a eutanásia do rentista em nome da preservação dos ricos altamente endividados à beira do colapso.

A comprovação prática de que a especulação internacional com os juros brasileiros está em alta foi dada pela volatilidade das bolsas nas últimas semanas. As notícias dando conta das eminentes bancarrotas financeiras dos chamados PIGS – Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha – promoveram corridas contra a bolsa. Os especuladores tiraram dinheiro daqui para levar para lá. Mas, o movimento não teve fôlego. Onde os capitais especulativos aplicados no Brasil, rendendo juros positivos escorchantes, teriam alternativa de ganho? Na Europa, nos Estados Unidos, no Japão? Nessas três outroras locomotivas capitalistas do mundo, dinheiro aplicado é prejuízo na certa. Assim, o dinheiro foi, mas já está voltando, como demonstram as recuperações das cotações nos últimos dias.

Se os juros subirem ainda mais na praça brasileira, evidentemente, aumentará a corrida para cá, como já destacam os economistas dos fundos de pensão estatais, prevendo avanço da especulação. Quem vai perder? A classe C, que, com os juros relativamente em queda, a partir de 2007 até a explosão da crise de 2008, estendendo-se por todo o ano passado, quando as taxas básicas ficaram estagnadas, sustentou o aumento do consumo interno, bombado, durante o ano passado, pelo aumento do endividamento governamental em gastos sociais e para a sustentação da demanda de crédito por parte dos bancos estatais, a fim de compensar a fuga dos grandes bancos privados, que, no auge da bancarrota, continuaram especulando com os juros altos da dívida pública interna.

Agora, com a dívida pública inchada – 62% dela financiada pelo juro selic –, os bancos privados voltam à carga em favor de juros mais altos sob argumento de que o endividamento provoca tensões inflacionárias. Consideram déficit o socorro estatal para bombear a produção e o consumo, quando, na verdade, esses recursos promovem o desenvolvimento e o retorno sobre o capital investido, bem como aumento da arrecadação tributária. Não se trata, dessa forma, de renda especulativa, para pagar juros, mas renda produtiva. Ao retornar o investimento em forma de arrecadação ao governo, este, por sua vez, disporá de recursos para alavancar novos investimentos etc.

O bombardeio midiático favorável aos juros tenta fazer confusão entre o esforço governamental para manter acesa a produção, o consumo e o emprego e a “verdade” bancocrática de que tal estratégica é, essencialmente, deficitária, cujo remédio, claro, é juro alto. E as notícias nesse sentido se multiplicam na grande mídia. As conseqüências de tal bombardeio midiático são, claramente, as tensões especulativas que já fazem subir o custo do dinheiro no mercado futuro que trazido ao presente reflete nas taxas cobradas no crédito direto ao consumidor. Estas estão pulando para a casa dos 120 a 130 por cento ao ano, ou seja, entre 115 e 125 por cento reais, descontada inflação de 4,% a 5%.

Trata-se de assalto à propriedade dos meios de consumo da população, contra o qual se mantém calado o presidente do Supremo Tribunal Federal(STF), ministro Gilmar Mendes, tão pródigo em condenar os assaltantes da propriedade dos meios de produção, como são acusados, por ele, os integrantes do MST. Parcialidade jurídica.  

 

Armadilha bancocrática  

 

O governador José Serra, que , segundo os líderes do PSDB, mexeria, se eleito, na política monetária, para evitar aumento da dívida, que eleva os juros, será o principal beneficiário , se os juros subirem, de agora em diante, em nome do combate à inflação. O que será pior , juro alto que eleva a dívida ou juro mais baixo que aumenta a produção que evita a pressão inflacionária, como tenta fazer Lula transferindo recursos do tesouro para os bancos estatais fortalecerem as atividades produtivas, que darão retorno em forma de arrecadação, que eleva os investimentos etc?

O governador José Serra, que , segundo os líderes do PSDB, mexeria, se eleito, na política monetária, para evitar aumento da dívida, que eleva os juros, será o principal beneficiário , se os juros subirem, de agora em diante, em nome do combate à inflação. O que será pior , juro alto que eleva a dívida ou juro mais baixo que aumenta a produção que evita a pressão inflacionária, como tenta fazer Lula transferindo recursos do tesouro para os bancos estatais fortalecerem as atividades produtivas, que darão retorno em forma de arrecadação, que eleva os investimentos etc?

A defesa dos juros altos, manipulada pelo mercado financeiro, trabalha, evidentemente, contra a estratégia do governo de sustentar a demanda global por meio do mercado interno, porque, no plano das exportações, as dificuldades são grandes em face da sobrevalorização cambial produzida pelo próprio juro alto praticado pelo BC. Haverá, consequentemente, bloqueio das exportações, por conta das taxas em elevação, de um lado, e contenção do consumo interno, de outro, se os juros subirem em nome do combate à inflação, claramente, manipulada pelos especuladores.

 Nada melhor para os capitais que estão perdendo dinheiro na Europa e nos Estados Unidos, onde a onda consumista deu lugar à onda poupancista. Os bancos, com medo de calotes, não emprestam e, mesmo se emprestassem, o consumidor, superendividado, joga na retranca,  com medo do desemprego que alastra na aldeia global , especialmente, nos países mais ricos, onde a crise econômica caminha para se transformar em crise política, com expansão das greves , ameaçadoras dos governos e das sociais-democracias.

Assim, o Banco Central, avalizando a onda especulativa em marcha, ajuda a combater a recessão na Europa e nos Estados Unidos e a intensificar as dificuldades internas, potencializado-as. Ao mesmo tempo, fortalece a armadilha preparada pela bancocracia de alardear que as capitalizações do tesouro para os bancos estatais geram déficits, que, consequentemente, recomendam juros altos. Tenta, dessa forma, toscamente, como diria FHC, fragilizar o Estado. Se o juro alto incide sobre o endividamento já elevado, evidentemente, o tesouro quebra. Não poderia continuar a capitalizar os bancos públicos. Sem essa transfusão de sangue financeiro estatal, eles perderiam fôlego, candidatando-se, num segundo momento, à privatização. Quem iria priviatizá-los? Os grandes bancos privados, claro. Foi isso que aconteceu na Era FHC com os bancos estaduais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bolsa Família para o Haiti

Categoria: (Economia, Política) por Beto Almeida em 10-02-2010

Em vez de mandar exércitos, por que não distribuir cartões de crédito de alimentação? Indo com ele às compras o povo estimularia, via consumo, a produção e o emprego no Haiti, como ficou comprovada a experiência no Brasil, dando sustentação ao processo macroeconômico nacional, erguendo a classe C, elevando-a de miserável à classe média. Representaria ponto de partida para a recuperação da nação destruída. Ficaria demonstrado o fato que realmente acontece quando sob o capitalismo a massa pode comer, promovendo o fenômeno da multiplicação ao se dar cabo do subconsumismo, responsável pela crônica insuficiência de demanda global que domina estruturalmente o sistema capitalista desde o seu nascimento. A ONU toparia na hora a jogada.

Em vez de mandar exércitos, por que não distribuir cartões de crédito de alimentação? Indo com ele às compras o povo estimularia, via consumo, a produção e o emprego no Haiti, como ficou comprovada a experiência no Brasil, dando sustentação ao processo macroeconômico nacional, erguendo a classe C, elevando-a de miserável à classe média. Representaria ponto de partida para a recuperação da nação destruída. Ficaria demonstrado o fato que realmente acontece quando sob o capitalismo a massa pode comer, promovendo o fenômeno da multiplicação ao se dar cabo do subconsumismo, responsável pela crônica insuficiência de demanda global que domina estruturalmente o sistema capitalista desde o seu nascimento. A ONU toparia na hora a jogada.

“Então por que que esta gente que tudo tem
não aprende a lição
com este povo que nada tem
mas…tem bom coração” (Zeca Pagodinho)

 

O presidente Lula , escolhido como o estadista do ano, poderia propor ao mundo a implantação de um programa Bolsa-Família Internacional para o Haiti. Se no Brasil o Bolsa-Família foi capaz de assegurar alimentação diária para 44 milhões de seres humanos que viviam , ou melhor, vegetavam dormindo e acordando com fome, como não será possível que algumas dezenas de países juntos , sobretudo os ricos, destinassem parte de seus recursos para assegurar a 10 milhões de haitianos que possam alimentar-se regularmente, enquanto o país é reconstruído?
 
É verdade que muitos países estão já repartindo parte de suas receitas com os haitianos. O Brasil aprovou recursos de 350 milhões de reais para a ilha caribenha. Cuba mandou para lá cerca de 60 médicos e já está montando o quinto hospital de campanha, com a ajuda dos países que formam a ALBA – Aliança Bolivariana dos Povos da América.
 
A Unasur estará reunindo-se por estes dias também para propor uma ação concreta de ajuda ao Haiti.
 
Mas, a diferença de um Programa Bolsa-Família Internacional é que daria regularidade, sustentação e promoveria o compromisso da comunidade internacional com a sorte daquele povo que já sofreu invasões militares tanto de franceses como de norte-americanos, que já teve seus recursos rapinados, que foi obrigado a pagar uma dívida escorchante com a França, que teve que suportar uma sanguinária ditadura apoiada pelos EUA e agora tem que reconstruir-se todo após o terremoto. É evidente que com uma pequena parcela do que estes países ricos gastam em armamentos, em cosméticos, em comida para cachorro, em alcool e guloseimas, já seria possível garantir o funcionamento de um Bolsa-Família no Haiti. O que deve ser indagado, com veemência, é se querem mesmo salvar o Haiti, como afirmam neste circo midiático que se formou ou se vão, uma vez mais, condenar o Haiti à morte?
 
No caso brasileiro, também é importante que além dos médicos, alimentos, medicamentos, veículos e maquinário para realização de obras de infra-estrutura, o Batalhão de Engenharia do Exército Brasileiro, os programas de reconstrução que Lula está direcionando para o Haiti incluíssem a proposta de  Bolsa-Família Internacional. Isto porque não é difícil prever, lamentavelmente, que um país que já praticamente não tinha uma economia de pé, que teve sua agricultura destruída colonialismo, agora, após um terremoto deste porte, venha a sofrer também efeitos catastróficos da fome e da desnutrição. Sem contar, infelizmente, com alguma possibilidade grave de epidemias, como alertam já os profissionais de saúde. 
                                              

Rádio Solidariedade
 

A função consumo é que puxa a demanda. Os neoliberais sempre pregam a defesa do investimento na produção como pressuposto básico do desenvolvimento, mas como tal prioridade requer acumulação de capital, que desequilibra estruturalmente, o sistema, na tarefa da geração do lucro do investidor, o resultado acaba sendo, como a história tem demonstrado, crônica insuficiência de consumo, responsável por jogar o sistema na anarquia e nas guerras de conquistas, das quais o Haiti é , historicamente, vítima, embora tenha sido o primeiro país a decretar sua independência em 1804. Desde então a nação de negros passou a representar efeito demonstração de como não se deve viver em liberdade um povo que tem dignidade, tentando subjulgá-lo a ferro e fogo. Garantido o consumo, os haitianos seguirão adiante na construção do seu próprio destino, revertendo a desgraça em glória.

A função consumo é que puxa a demanda. Os neoliberais sempre pregam a defesa do investimento na produção como pressuposto básico do desenvolvimento, mas como tal prioridade requer acumulação de capital, que desequilibra estruturalmente, o sistema, na tarefa da geração do lucro do investidor, o resultado acaba sendo, como a história tem demonstrado, crônica insuficiência de consumo, responsável por jogar o sistema na anarquia e nas guerras de conquistas, das quais o Haiti é , historicamente, vítima, embora tenha sido o primeiro país a decretar sua independência em 1804. Desde então a nação de negros passou a representar efeito demonstração de como não se deve viver em liberdade um povo que tem dignidade, tentando subjulgá-lo a ferro e fogo. Garantido o consumo, os haitianos seguirão adiante na construção do seu próprio destino, revertendo a desgraça em glória.

O Bolsa-Família, por meio do cadastramento das mães, permitiria salvar as crianças, a parte mais frágil de tudo isto, bem como os idosos e enfermos. O uso do rádio pode ser decisivo para orientar e dar informações de utilidade pública para toda uma população que hoje vive sob barracas, ao relento, sem endereço, sem instalações sanitárias, sem água, luz etc. Por isso, é positiva a idéia de algumas entidades sindicais e comunitárias brasileiras de coletar milhares de radinhos de pilha e doar ao Exército Brasileiro para distribuir entre os haitianos. Assim, os haitianos podem ser alcançados pela programação da Rádio ONU, por exemplo, ou outra que cumpra a função social e humanitária, rigorosamente obrigatórias. A depender de avaliação do Exército  -  consultas estão em curso  -   estas entidades poderiam também enviar transmissores de rádios comunitárias, desde que assegurado o seu funcionamento seguro e adequado, já que há ainda a atuação de grupos armados que organizam saques
 
Assim, caberia também ao governo pensar na instalação de um Ponto de Cultura do Minc por lá, tal como o já existente em Caracas. Assim, a solidariedade brasileira ao Haiti ganharia em qualidade com a participação popular, tal como está propondo o MST, disposto a enviar técnicos agrícolas, sementes, ferramentas. Vale lembrar que relatório da Fao indica que existe uma produção de feijão com risco de perda já que os haitianos tudo perderam, estão cuidando dos enfermos, não tem transporte, não há infra-estrutura para promover esta colheita. Quantas brigadas de solidariedade não se enviaram à Nicarágua e a Cuba para a colheita do café da cana. É hora de refazê-las. O movimento estudantil, os sindicatos,  as universidades brasileiras também poderiam oferecer ajuda, seja coletando os radinhos, ou sementes, seja desenvolvendo programas técnicos adequados para a situação, seja por meio do envio de brigadas, que atuariam em coordenação com o Exército Brasileiro, conformando uma aliança cívico-militar que já atuou de forma muito positiva em nossa História, por exemplo, na Campanha “O Petróleo é Nosso”, que resultou na criação da Petrobrás.

 
 Integração latino caribenha
 

Se não fosse a decisão governamental de estimular os programas sociais , nos últimos 15 anos, no país, começando na Era FHC e se intensificando na Era Lula, a inflação teria tomado conta da economia. Matendo a fome dos miseráveis, tornou-se possível eliminar os excedentes internos, que exigiam desvalorizações cambiais, a fim de exportá-los por falta de consumo interno. Resultado: a função consumo atendida fortaleceu a moeda nacional e conteve as pressões inflacionárias, dando força à economia para suportar os reveses decorrentes da bancarrota global de 2008, que afundou o capitalismo especulativo. Os pobres salvaram os nobres.

 Se não fosse a decisão governamental de estimular os programas sociais , nos últimos 15 anos, no país, começando na Era FHC e se intensificando na Era Lula, a inflação teria tomado conta da economia. Matendo a fome dos miseráveis, tornou-se possível eliminar os excedentes internos, que exigiam desvalorizações cambiais, a fim de exportá-los por falta de consumo interno. Resultado: a função consumo atendida fortaleceu a moeda nacional e conteve as pressões inflacionárias, dando força à economia para suportar os reveses decorrentes da bancarrota global de 2008, que afundou o capitalismo especulativo. Os pobres salvaram os nobres.

Há uma disputa de ocupação estratégica naquela região. Mesmo nas tragédias s planos mais sinistros vicejam. Se há supostos missionários dos EUA presos por tentarem seqüestrar crianças haitianas….como denunciou a Telesur. O Brasil tem realizado obras importantes no Caribe, com a presença de suas empresas estatais    -   como a Petrobrás que está ampliando e modernizando o Porto de Mariel , em Cuba  -  e esta presença deveria ser consolidada, qualificada, obviamente , não com o sentido colonialista como se aventa maliciosamente nas páginas do jornalismo de desintegração. O sentido deve ser o de promover a legítima e necessária integração dos países da América latina e Caribe. No Caribe está a Quarta Frota dos EUA, que despejaram mais de 13 mil fuzileiros no Haiti. Por ali também navega a Frota Russa. Ali está a Venezuela nacionalizando seus recursos e onde estão importantes empresas estatais e privadas brasileiras. E sabemos que não é apenas no filme “Avatar” que o complexo militar-industrial possui planos agressivos contra a Pátria de Bolívar.
 
Já Cuba tem hoje no Haiti 600 médicos. Já tinha centenas antes do terremoto, além de programas de alfabetização em dialeto creole, desenvolvido por pedagogos cubanos, com o uso criativo do rádio. Detalhe: em Cuba já não há mais analfabetismo, há décadas! E agora o país também  está enviando para Porto-Príncipe jovens haitianos que estudam na Escola de Latinoamericana de Medicina, localizada em Havana. Nesta  Escola também estudam, gratuitamente,  500 jovens estadunidenses, em sua maioria negros e pobres dos bairros do Harlem e do Brooklin. Alguns destes estudantes estadunidenses também estão sendo enviados para o Haiti para atender os enfermos.
 
 O episódio caracteriza uma situação muito interessante para ser examinada não à luz da medicina, mas da política: o mais rico país do mundo, que tem o maior número de médicos do mundo, que tem também o maior orçamento militar de todo o mundo, desembarca 13 mil soldados no país destroçado. E Cuba, que é um país de escassos recursos materiais,  além de permitir que jovens pobres e negros estadunidenses formem-se em medicina   -  um deles declarou que se continuasse no Harlem provavelmente cairia nas mãos do narcotráfico  -   os envia  para prestar solidariedade a um povo negro e irmão, evidenciando o sentido simbolicamente antagônico das duas iniciativas. Lá no Haiti, este estudante armado de idéias, de sabedoria e uma consciência de medicina social, tal como o Che praticou, quando se defrontar cara a cara com um mariner armado, preparado para matar, revelará ao mundo uma das mais generosas lições do dolorido Haiti.
 
Beto Almeida
Membro da Junta Diretiva de Telesur
Presidente da TV Cidade Livre de Brasília