Cavalo de Troia no Planalto. Drama shakespeariano

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História ou farsa?

A situação complicou deveras; o príncipe filho do rei levou para dentro do palácio tremendo Cavalo de Troia. Nada mais nada menos do que o motorista/cavaleiro do príncipe, cara cheio de rolo, reconhecido pelo próprio rei, o danado do Queiroz.

Na história, o desfecho é a derrota do rei de Troia; os soldados gregos dentro do Cavalo saem à noite para libertar Helena, prisioneira dos troianos.

Mas, sempre há as ações preventivas, desesperadas, para tentar evitar que a história se repita como farsa.

A norma tem sido a farsa predominar, como descreve Marx em 18 de Brumário: Caussidière por Danton, Luís Blanc por Robespierre, a Montanha de 1848—1851 pela Montanha de 1793-1795, o sobrinho pelo tio; Temer pelo FHC, diria, hoje, o autor de O Capital etc.

O grotesco emerge espetacularmente na cena histórica brasileira do momento; o filho do rei suja a barra do próprio pai; destrói o capital vitorioso de sua majestade nas eleições democráticas, com o  grego dentro do Cavalo, o danado do Queiroz; por conta do novo rei, os militares voltaram ao poder legitimados pelas urnas; e, agora, cercados pelo Cavalo, que abriga o inimigo de Troia?

Intervenção cirúrgica

Os vícios do sistema político no reino não haviam sido removidos e já jogam sujeira sobre os ombros de todos os  seus integrantes, inclusive, dos militares, se não houver uma intervenção política drástica; esta se expressaria ou não sacrifício do príncipe, cuja existência, como político, compromete a honorabilidade do rei?

Sua majestade moderna chegou ao poder pelo voto ancorado no discurso da moralidade, no combate à corrupção, em favor da transparência total, para fazer emergir novos costumes, nova sociedade.

Essa é a demanda da nova direita, no reino, que abandonou tanto o centro-esquerda como o centro-direita, para ser, apenas, direita, com o rei; sua vitória ergueu-se sobre a própria instituição ao ser viabilizada pela nova força da comunicação comandada por inteligência artificial; partidos perderam importância.

Os fake News foram a inteligência artificial que comandou a campanha do vitorioso; ele lançou mão, antes dos adversários, com mais profissionalismo e menos escrúpulos, de moderna tecnologia eleitoral, sintonizada com a manipulação midiática envolvida na criação artificial do fato e não no seu mero acompanhamento, sem sentido investigativo, jornalístico, como se tivesse vida própria, autônomo. 

Mito sem história

A vitória da moralidade bolsonariana, fortalecida na prática da mídia eletrônica instantânea, criou fenômeno político midiático: o mito sem história.

Pela primeira vez, por cima das instituições, o rei seguiu carreira política à margem do espírito de conciliação burguesa, predominante na história brasileira; nos momentos dramáticos, centro esquerda e centro direita se ajustam e se revezam, historicamente, no poder.

O novo rei é reflexo do rompimento desse dualismo político tupiniquim; rasgou a fantasia para dizer que a esquerda é inimiga e o centro igualmente danoso por ser vacilante, propenso à esquerda, para ganhar eleição; posição, sempre, de conveniência.

A nova ordem política é o ressentido radicalismo discursivo da direita, no poder, com o grande rei.

Mas eis que entra no cenário, atrapalhando tudo, o príncipe, com seu imenso Cavalo com rabo de palha em chamas, herdeiro dos vícios da velha política que o rei quer exorcizar.

Shakespeare no Palácio

E agora, com o rabo todo à mostra, que fazer?

Manter o mesmo discurso, apenas, na tese, mas negando-o na prática, tentando acomodar situação inacomodável, como essa das movimentações financeiras nas contas de assessor parlamentar que geram controvérsias para todo o lado?

Como ficam os militares, com esse Cavalo de Troia, no Palácio, soltando merda mole e fedorenta, que não cabe no discurso da eterna conciliação entre as elites eivadas de corrupção?

O rei vai ou não vai se sentir cada vez mais apeado, se estiver ao seu lado o príncipe, exalando esse mal cheiro insuportável?

Já não basta a colostomia?

Mas, como evitar a morte política do príncipe?

Quem vai sacrificá-lo para salvar o rei?

Eis o dilema shakespeariano na corte do Rei Jair.

Política, novo desafio do poder cívico-militar

Política em cena

O maior desafio dos militares, a partir de agora, é fazer política.

Terão que relacionar, intensamente, com os civis.

Não, apenas, Congresso, mas organizações sociais, sindicatos, associações, todo poder representativo, conforme autoriza a Constituição de 1988, empoderando, politicamente, a sociedade.

O governo Bolsonaro, apoiado e operado pelos militares, em postos chaves, essencialmente, políticos, poderá dar pontapé em governo cívico militar democrático.

O presidente foi eleito pelas regras democráticas.

Pode-se chiar que houve fraude.

Se Bolsonaro tivesse perdido, estava pronto para denunciar que fora roubado; externou essa predisposição mais de uma vez, na campanha eleitoral.

Exigir apuração faz parte da democracia, e essa luta será levada adiante pela oposição; porém, esticar essa discussão, eternamente, seria produtivo?

A população, a partir de determinado momento, encheria o saco; o assunto não enche barriga; passaria a ser percebido como fuga do problema principal; pintaria reversão de expectativa, como enjoativo repeteco de samba de uma nota só.

Povo quer emprego

A população, pragmática, quer é mais emprego, mais salário, mais consumo, sem o qual a crise econômica continuaria, na batida neoliberal.

Seria continuidade de Temer o programa proposto por Paulo Guedes, essencialmente, ultra-arrocho no lombo do povo.

O programa Temer revelou-se fracasso eleitoral.

Os dois partidos, PMDB e PSDB, que deram sustentação ao presidente, depois do golpe de 2016, dançaram, fragorosamente; não passaram do primeiro turno.

Os militares voltariam ao poder, com Bolsonaro, depois de 33 anos de ausência dele(1984-2018), para seguirem programa eleitoral inviável e se desmoralizarem perante o povo?

Sairiam, moralmente, enxotados, como o governo Temer, com menos de 5% de apoio popular?

Dariam tiro no pé?

Não é o que parece.

Nacionalismo x Neoliberalismo

O general Fernando Azevedo e Silva, futuro ministro da Defesa, confirmou, no Correio Braziliense, domingo, a disposição do governo Bolsonaro trilhar caminho desenvolvimentista; ou seja, incompatível com a terapia econômica neoliberal de Paulo Guedes, à direita da de Temer.

O ministro foi taxativo: as forças armadas querem investimentos em cibernética(Exército); submarino nuclear(Marinha) e; tecnologia espacial(Aeronáutica).

Trata-se de proposta de política industrial.

Somente lançando mão das vanguardas tecnológicas, as forças armadas, segundo o ministro da Defesa, teriam plenas condições de exercerem seu papel constitucional, de garantia da soberania nacional, como fator de dinamismo econômico.

Novo poder cívico-militar, segundo o general, estará aberto e propício aos investimentos no setor de defesa; será a via pela qual os militares pretendem contribuir para o desenvolvimento econômico.

A estrutura produtiva e ocupacional brasileira seria dinamizada, na visão de Azevedo, pela renovação do Exército, da Aeronáutica e da Marinha, como vetores de novo desenvolvimentismo, com base no Plano Nacional de Defesa(PND), essencialmente, nacionalista, aprovado, em 2005, no Governo Lula.

Limitação orçamentária

Tem um porém esse plano desenvolvimentista militar, executado pelos capitalistas ocidentais e orientais, todos, nacionalistas, Estados Unidos, Europa, China e Rússia: ele não cabe no orçamento ultraneoliberal de Paulo Guedes, o guru econômico de Bolsonaro.

Choques à vista.

Para executar essa tarefa, os militares, mais uma vez, terão que fazer política, muita política, para garantir, no Congresso, o orçamento para a defesa, como fator estratégico.

Por aí os militares consideram colocar em prática plano nacionalista que refletirá sobre toda a economia.

Para eles, uma Petrobras, uma Eletrobras, operando na linha de apoio à defesa, não poderiam ser privatizadas, por possuírem papel estratégico, essencial à soberania nacional etc.

Congelamento neoliberal, o impasse

Igualmente, entra em contradição com o Plano Guedes o congelamento de gastos públicos, por vinte anos, obediente ao teto variável, apenas, pela inflação do ano anterior.

Como o plano ultraneoliberal visa inflação baixa via ajuste fiscal drástico, os gastos, obedientes ao teto, seriam sempre decrescentes, insuficientes, portanto, para atender escala de produção industrial reivindicada pelos militares.

Guedes passaria a ser natural obstáculo ao nacionalismo econômico implícito tanto no Plano de Defesa Nacional(PDN), como na Estratégia Nacional de Defesa(END).

Haveria choque inevitável entre a tentação dos militares e a orientação maquiavélica de Guedes para zerar o déficit público de R$ 159 bilhões, preferencialmente, em um ano.

A estratégia paloguedeseana seria a de fazer o mal todo de uma vez, em um ano, para tentar alcançar o bem aos pouquinhos.

Essa tese criaria imediata antítese: a resistência política popular.

França à vista?

Assim como os franceses estão indo às ruas contra o ajuste fiscal neoliberal de Macron, poderia ou não acontecer o mesmo, no Brasil, com o super-arrocho – muito pior do que o do presidente francês – de Bolsonaro e Guedes?

O time de Bolsonaro, como disse o general, está, ainda, no vestiário, mas, doidinho, para entrar em campo, tentando dar novo rumo ao país.

Qual rumo?

Recessão à lá Temer, que não ganha eleição, ou desenvolvimentismo à lá Lula, que produz votos aos borbotões?

O fato é que, como diz o general Villas Boas, em palestra, no Ceub, no Dia do Soldado, em 2016, o país não sairá da crise se mantiver-se prisioneiro do mercado financeiro, que não pensa, estrategicamente, constituindo-se, em essência, em perigo para a segurança nacional.

O programa de Guedes é puro mercado financeiro.

Logo….

 

Direita, volver: militarização educacional-cultural anticapitalista-fundamentalista bolsonariana

Educação familiar

Os militares emplacaram o novo ministro da Educação, Ricardo Velez Rodrigues, colombiano, egresso da teologia acadêmica, na Universidade Federal de Juiz de Fora, e professor da escola de comando do Estado Maior.

Suas primeiras declarações são as de priorizar a educação familiar, na linha do projeto de lei bolsonariano, em tramitação, no Congresso, da denominada escola sem partido, pregada – e, agora, negada – pelo filósofo anti-acadêmico de direita, Olavo Carvalho; trata-se de ideologizar a educação brasileira, voltando-a, preferencialmente, para os valores familiares em relação aos valores mundanos, desenvolvidos na social democracia sintonizada com a Constituição de 1988.

De acordo com a nova ordem, o Ministério da Educação recomendaria, para concretização da educação familiar, a criação, nas escolas, dos comitês de ética, a objetivar união família-escola; a família conduziria a escola e não a escola a família; abre-se, dessa forma, conflito ideológico sócio-econômico-cultural, no Brasil, inserido, por sua vez, no contexto da globalização capitalista cultural ocidental.

A educação bolsonariana, monitorada pela cultura religiosa evangélica, fundamentalista, anti-ocidental, quer remover o que está assentado na Constituição de 1988, a pluralidade democrática, consagrada na lei de diretrizes e bases; sua origem cultural, por sua vez, está no pensamento ocidental, desenvolvido mais intensamente no século 20 no curso do progresso social democrata, no pós-segunda guerra mundial.

Fim da pluralidade social democrata

Nos governos do PT, a pluralidade ganhou dimensão extraordinária, no compasso do processo de melhor distribuição da renda; nova regra para o salário mínimo, reajustado pelo desenvolvimento econômico, impulsionado como opção pelo social como base da dinamização econômica, criou nova realidade social participativa.

Maior poder de compra aumentou as demandas sociais culturais, que influenciam, decisivamente, a expansão de novos costumes, novos consumidores, sempre associados à necessidade de expansão consumista capitalista, para justificar investimentos em escala.

A extroversão cultural, sexual e ideológica, associada à liberação dos costumes etc avançou, significativamente, com a oferta de oportunidades às classes sociais mais pobres por mais educação, cobrindo todos os ciclos, do primário ao superior; ampliaram-se mercado de trabalho e mercado consumidor cultural capitalista, motor de reprodução do capital investidor, público e privado.

Haveria essa expansão em governos tucanos, por exemplo, se eles tivessem exercido, para valer, a social democracia – que o bolsonarismo ideológico generaliza como comunista -, e não um arremedo social democrata, cuja eficácia eleitoral inexistiu, ao longo de 4 disputas presidenciais entre PSDB e PT; os tucanos jamais  distribuíram renda; foram punidos nas urnas, seguidamente.

A social democracia tucana vigorou, apenas, da boca para fora, em comparação à social democracia praticada pelo PT, que se revelou, eleitoralmente, sucesso; somente foi barrada pelo golpe neoliberal de 2016, para prender Lula, candidato petista, sem prova concreta do suposto crime praticado.

Perigo revolucionário

A democratização social, econômica e cultural petista transformou a social democracia brasileira em perigo revolucionário, para o fundamentalismo evangélico, cultor dos valores conservadores; com Bolsonaro, a bancada evangélica quer reverter essa lógica; planeja expandir-se, política, social, comercial e ideologicamente, de preferência.

Sobretudo, a tarefa de destruição da social democracia, no governo Bolsonaro, visa, em nome do combate à corrupção, acelerar economia do livre mercado – melhor remédio contra a corrupção social democrata.

O livre mercado, portanto, requer a bancarrota da social democracia, fonte de corrupção dos valores e dos costumes, alvo preferencial a ser atacado pela cultura evangélica, restauradora de nova moralidade.

A educação social democrata, para os evangélicos, possui o germe destruidor da crítica; ele precisa ser eliminado, com supressão do pluralismo democrático, cuja essência é a liberdade; essa dinâmica libertária incomoda os evangélicos; consideram-na corruptora dos valores familiares; para mantê-los e fortalecê-los, tome escola sem partido, marcha fúnebre rumo à obscuridade cultural de neo idade média em pleno século 21.

Má notícia para negócios

Do ponto de vista dos capitalistas da indústria cultural, essa estratégia obscurantista, que marca fim da pluralidade ideológica, para estabelecer a ordem evangélica, inibe negócios e inviabiliza os lucros industriais, dependentes do comércio da cultura e da educação.

A estratégia educacional fundamentalista, que está por trás da escola sem partido, capitaneada pelo ministro Rodrigues, apoiado pelos militares, baterá de frente com os capitalistas da indústria cultural social democrata, essencialmente, plural – puro comunismo, segundo o bolsonarismo ideológico.

Seria uma boa para a imagem popular dos militares, que bancariam o novo ministro e sua política obscurantista culturalmente prejudicial aos negócios?

Os militares, em nome da ideologia, estariam dispostos a destruir a indústria cultural anti-fundamentalista, que precisa, para sobreviver, da pluralidade cultural capitalista, como negócio que se espalha, no mercado global?

A contradição essencial é que o imaginário social libertário, que movimenta a indústria cultural, dependente do mercado plural, teria que ser exterminado, para dar espaço ao obscurantismo evangélico bolsonarista militarista medieval.

O resultado, claro, seria mais desemprego, menos renda, menos consumo, menos produção, arrecadação e investimento e mais recessão e tensão social.

Greves universitárias estão à vista como antítese a essa tese bolsonariana conservadora anticapitalista.

Juristocracia e militares, aliança sombria ameaça democracia

O protagonismo do general Villas Boas, comandante do Exército, influindo, firme, sobre decisões do STF, que impediram concessão de habeas corpus a Lula e sua participação no processo eleitoral, peitando a ONU, dizendo que ela não poderia interferir na soberania nacional, transformou-se em novo espectro sombrio do poder militar, pairando sobre instituições democráticas.

Em meio a essas sombras, por meio das quais o panorama político ficou turvo e indefinido, à espera de surpresas, possivelmente, desagradáveis, Dias Toffoli, presidente do STF, cordeirinho, estranha e surpreendentemente, disse, hoje, em SP, que não houve golpe em 1964, mas, apenas, um movimento.

Suas surpreendentes declarações vem na esteira da indicação, feita por Villas Boas, de general reformado para ser assessorar da nova presidência do Supremo.

Daqui a pouco, Toffoli coloca farda e quepe, para assumir a cadeira do STF, a caráter.

Direita, volver!

Elefante voando

O fato é que elefantes parecem  que estão voando no ar brasileiro.

Os fardados estão em ação, cada vez mais intensa, na tarefa de serem ativos protagonistas no processo político, agora, a partir da candidatura Bolsonaro, que entrou em buraqueira, por erros estratégicos dos seus próprios componentes, levantando desconfianças na sociedade.

De um lado o vice general Mourão deitou falação quanto à possibilidade de serem removidas conquistas econômicas e sociais dos trabalhadores, como o 13º salário e o adicional de férias; também, deixou no ar perigo de  ocorrer mudanças constitucionais à revelia do poder popular; o serviço poderia ser feito por juristas escolhidos a dedo, para tal tarefa etc. Antes, Mourão, já havia dito o disparate de que filhos criados por avós, na ausência dos país, são matéria prima para o narcotráfico; e por aí vai.

Já Bolsonaro, igualmente, em cavalgaduras trepidantes, destacou não aceitar resultados das urnas, se perder a eleição.

Recebeu pancadas de todos os lados.

As manifestações das mulheres, no último final de semana, contra #elenão representaram, possivelmente, pá de cal em chances de vitória bolsonarista.

Tudo isso revelou, em poucos dias, o que seria governo militar em que capitão manda em general, caso Bolsonaro saísse vitorioso, sinalizando, do ponto de vista militar, quebras de hierarquias aos olhos dos fardados, embora, a política seja algo mais sofisticado do que bater continências.

A democracia, insegura, está tremendo nas bases.