Globo investe contra soberania sul-americana

 

O jornal O Globo em sua edição de domingo, 30, vai em cima do assunto calote sul-americano nacionalista venezuelano, boliviano, equatoriano e paraguaio que diz estar em marcha contra o Brasil.  Ao todo, são R$ 5 bilhões. É um negócio, a priori, dado. Em cima da pressuposição, projetam-se conclusões abstratas baseadas em fatos pretensamente concretos que ainda não aconteceram, mas tidos como se já acontecidos. Dissemina-se a versão, antes do fato emergir e gerar consequências normais que estariam abertas às ações políticas.

O fato não acontecido, mas tratado como se fosse algo palpável, gerando produtos políticos e econômicos aprioristicamente especulados com  gosto de guerra – eis a tática. Vem aí um calote de R$ 5 bilhões. Cria-se animus nacional contra o ataque emergente e na bica para acontecer. Uma beligerância calculada. 

O alvo não está aparente, mas latente. 

Os governos vizinhos do Brasil, sob ondas políticas nacionalistas, que crescem no rastro do estrondo neoliberal global, estão tendo um encontro com sua própria história, buscando, na investigação democrática, colocar os fatos na mesa, a fim de serem apreciados social, política e economicamente. 

Exercitam o que representa horror ao status quo, ou seja, a soberania nacional plena. Buscar tal alternativa é puro populismo. Os governos querem exercitar a soberania, investigando seu próprio calcanhar de Aquiles, suas dívidas e os interesses existentes, historicamente, em torno de sua formação, multiplicação e escravização econômica. Não pode de jeito nenhum.

Caminham, nessa direção, não porque queiram, mas porque estão sendo impulsionados por ondas de movimentos sociais, politicamente, organizados, em grau crescente em toda a América Latina, e não só.

Foram tais movimentos, por exemplo, que levaram à Casa Branca, pela primeira vez na história, um negro. Obama é fruto de politicas nascidas em núcleos sociais comunitários, que ganharam impulsão política extraordinária no contexto da tecnologia da informação na era do conhecimento. Milhares de núcleos comunitários espalhados por todos os Estados Unidos em favor dele fizeram a diferença. Emergiu, forte, o poder político comunitário digital. 

 

Novo poder sul-americano apavora poder midiático

A onda obamiana gerou sistema de financiamento de campanha à margem dos esquemas políticos institucionalizados, na base da corrupção etc. Criou-se nova ética. Movimento irresistível determinado pela ciência e tecnologia a serviço da comunidade que tende às investigações populistas, perigosas, assustadoras, para os credores, cujos abusos são patentes. 

A surpreendente entrevista de Roberto Troster, no Estadão, segunda, 01, demonstra essa evidência. Ex-economista chefe da Federação Brasileira de Bancos, Febraban, ele relata práticas de abusos dos credores no momento em que o país passa dificuldades, considerando absurdas as atuais taxas de juros vigentes no país. 

Anti-populismo, pensamento bancocrático, atacando o populismo, pensamento nacionalista, favorável às investigações necessárias para comprovar as acusações de quem conhece por dentro a prática dos abusos. Para tal anti-populismo a onda dos movimentos sociais anunciam tempestades em forma de auditagem de dívidas.

 

Emergência guevariana

Novo poder emergente, cuja base são movimentos sociais em expansão, como previu Guevara, está levando os governos sul-americanos nacionalista do Equador, da Venezuela, da Bolívia e do Paraguai para o mesmo caminho da mobilização populista-barackobamiana que apavora a grande mídia.

 Seria o mesmo populismo de outrora, com caciques políticos controlando de cima para baixo, ou outro populismo, já que a história não é estática, mas dinâmica e dialética?

O Eldorado glauberiano , com São Jorge do céu esporando o dragão da maldade contra o santo guerreiro em transe, está aí, nessa busca dos governos neonacionalista lançando-se à investigação sobre a relação Estado-banqueiros na era da oligopolização geral do capital.

Os governos vizinhos que já estão dando calote no Brasil, segundo o Globo, estão fazendo aquilo que Getúlio Vargas fez em 1931. Logo depois de assumir em cima do cavalo dos tenentistas golpistas para destronar governos velhorepublicanos, igualmente, golpistas, Getúlio apertou o pescoço das empresas multinacionais americanas distribuidoras de gasolina. O Departamento de Estado, segundo o historiador Moniz Bandeira, em “Presença dos Estados Unidos no Brasil”(2005, Civilização Brasileira, pag. 328), ouriçou e mobilizou o poder interno, isto é, a mídia, para preservar os interesses que vinham desde o Império, passando pela República Velha. 

Populismo puro tentar desalojar tais interesses.

 

Mina da corrupção exposta

Na investigação sobre os endividamentos públicos interno e externo dos governos está a mina da corrupção. Mexer nisso é populismo puro. Temem os investigados que sejam encontrados e expostos os mecanismos financeiros, traçados pelos interesses externos e internos, no contexto do poder nacional. Devidamente, acautelado por uma superestrutura jurídica que atua sob a influência do capital em sua dimensão máxima, especialmente, nos países de economia dependente, como são, historicamente, os da América do Sul. 

Ora, O Globo, assim como fez no tempo de Getúlio, quando  a nação iniciava busca de sua soberania, faz, nesse momento, com os governos sul-americanos de linha getulista, em suas tentativas de alcançarem a independência econômica nacional e sul-americana, pressuposto, fundamental, para a integração continental.

Mexer com a dívida, investigá-la? Satanás populista.

Marx destacou que a dívida externa é instrumento de dominação internacional. Incialmente, dinamiza; em seguida, com os juros, escraviza. Keynes, idem, ao ressaltar, na mesma linha, que a deterioração dos termos de troca, na relação entre países ricos e pobres, é dada pelo endividamento do país pobre na moeda do país rico, que cobra senhoriagem em forma de dividendos juramentados. 

Investigar essa forma de exploração é tentativa revanchista, populista. 

Os governos nacionalistas sul-americanos, nesse momento, se dispõem a pagar o preço para investigar esse assunto cabeludo, tendo em sua retaguarda o apoio e a cobrança simultânea da sociedade.

O Globo antecipa o calote e parte para o ataque, criando ambiente de controvérsias cujos resultados são os que desejam os eternos dominadores do continente, ou seja, manter os dominados divididos. A grande mídia, assim, está partindo para o mesmo procedimento adotado quando a  Igreja Católica e os partidos de esquerda, na Era FHC, se armaram para concretizar o plebiscito sobre a dívida nacional. Populismo inaceitável.

O tema foi totalmente implodido pelo poder midiático que atua como oligopolio sob impulsão das forças econômico-financeiras que bancam o próprio poder midiático. 

Escândalo: CPIs para investigar dívidas públicas, empreiteiras, bancos, os agentes que se misturam, para produzir as grandes obras, agrupados em interesses que se lançam ao governo tendo por caução os congressistas e suas emendas parlamentares que carreiam dinheiro público para os empreendimentos contratados? Nem pensar. Populismo, manifestação política de atraso.

 

Informação ou ficção?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A reportagem de O Globo que antecipa o calote de R$ 5 bilhões é menos informação e mais ficção. O calote, diz o lead da matéria, é o objetivo principal. Tal afirmação não é ancorada em nenhuma declaração de entrevistado de peso, amparada em fatos reais, expostos por evidências concretas, para gerar reportagens instigantes. O próprio embaixador brasileiro no Equador, semana passada, no Senado, descartou as categóricas informações midiáticas de efetivação de calote. Viu exagero no contexto.

Mas, indiscutivelmente, os calotes vão em frente, estão sendo preparados pelos governos paraguaio, boliviano, venezuelano, simplesmente, porque resolveram auditar dívidas nacionais. Populismo escandaloso.

Exercer a soberania nacional, do ponto de vista da grande mídia, seria declarar guerra. 

Representa para a grande mídia insuportável acinte o desejo de saber tudo sobre a dívida nacional. Certamente, viria ao ar tudo, numa grande investigação, inclusive, os intestinos do poder midiático, que, nessa crise de crédito, pode estar se deteriorando. 

Calote ou renegociação de compromissos?

Os governos sul-americanos, se depender da grande mídia,  estariam proibidos de ter encontro decisivo com seus credores. Isso é bom ou é ruim para a democracia? Implica calote, inevitável ou possíveis e prováveis negociações?

O mesmo ocorre relativamente aos super-endividados consumidores americanos frente aos bancos que esfolaram suas rendas na especulação que transformou seus ativos em pó e detonou a base da riqueza nacional, a capacidade do consumo interno via crédito direto ao consumidor. 

Se o dólar tinha por lastro, essa garantia e ela se perdeu, a sua ressurreição somente se daria pela negociação ou pelo perdão, pois, do contrário, o império cairia.

John MacCain perdeu a guerra, mas seu discurso está ganhando a paz. 

Durante a campanha , ele pregou perdão de dívida, o que os jornais sul-americanos, na linha do Globo, chamam de calote. Não mencionaram numa linha sequer o populismo maccainiano americano. 

 

John MacCain ganhou a paz

Adam Smith, o pai da economia clássica, o pregador das leis do mercado,  por saber que as contradiçõese do sistema levariam aos gargalos financeiros e às brutais concentrações autodestrutivas de renda, destacou que dívida pública, necessária para equilibrar oferta e demanda, a partir de gastos governamentais que complementam a insuficiência consumista privada,  não se paga, renegocia-se. 

MacCain, representante da velha e sábia direita financeira, sabia o que falava. Tocava direto na história americana. Em diversas ocasiões, no século 19, o governo americano deu o calote no mundo. 

Nixon, em 1971, ao desvindicular o dólar do seu lastro, o ouro, deixando o papel flutuar, deu tremendo beiço na praça. É uma prática histórica dos Estados Unidos. Característica que se acentuou diante da conquista do poder monetário global, que impõe senhoriagem geral a seu favor.

 No entanto, se os governos da América do Sul, que os comentaristas da grande imprensa chamam de subcontinente, entram pelo mesmo caminho, ou seja, se questionam diante dos seus credores, as suas práticas, os comportamentos dos antecessores que adotaram posições excessivamente laxistas diante da banca e dos procedimentos públicos no relacionamento com ela etc, a grande mídia entra em campo, feroz, esbravejando, antecipando, manchetando  desastres iminentes, a fim de criar um clima de confronto. 

Vem por aí pregações caloteiras ou negociações, acertos de contas, diplomaticamente, negociados? 

Barack Obama já está na de MacCain. Vamos continuar aceitando o juro alto depois que ex-diretor da Febraban reconhece que os banqueiros comentem abusos excessivos com a taxa de juro?

 

Obama convoca Adam Smith

Adam Smith já está em ação nos Estados Unidos. O excesso de dívidas das famílias americanas alavancadas pelo crediário em relação a sua renda real demonstra, como inúmeros comentaristas ressaltam, a implosão geral dos mecanismos de criação e transmissão da riqueza pela moeda e seu poder de gerar juros pela via do crediário. O desindividamento familiar tornou-se uma urgente necessidade econômica para o capitalismo americano. MacCain na cabeça.

Se essa estrutura entrou em crise total nos países capitalistas cêntricos, colocando em pé de guerra consumidores e credores, por que não ocorreria o mesmo fenômeno na relação de depedência financeira dos governos sul-americanos, no momento em que governos nacionalistas populares sobem ao poder, em nome da defesa da soberania nacional?

Não, não pode, é populismo.

O poder midiático não quer saber dessa discussão em profundidade. Não é do interesse de tal poder discutir por que uma obra, como a de San Francisco, no Equador, tocada pela Norberto Odebrecht, com recursos do BNDES, ou o túnel que virou cratera em São Paulo, também, tocado pela Odebrecht, acabaram custando o triplo do preço inicialmente contratado.

Por que?

Para dar essa resposta é preciso expor os interesses em jogo, na auditagem do processo de endividamento. Populismo inaceitável.

Conclusão: apelar para acusações populistas é a forma de aceitar, intrinseca e inconscientemente, a corrupção. Busca afastá-la com a acusação de um neologismo político histórico pretensamente decadente.

Querem dizer, então, que a corrupção é a modernidade?

Sócrates resolve fácil crise Brasil-Equador

A metade é maior que o todo, disse Sócrates(470-399 a.C), de acordo com relato de Platão(428/427-347 a.C) em “A República”.

Por que? 

A metade, diz, fiscaliza o todo, enquanto o todo, sozinho,  não consegue se auto-fiscalizar, pois passa a ser dominado pela sua intrínseca prepotência.

“Quem tem o todo, só arruma adversário”, destaca o experiênte empresário socrático Sebastião Gomes.

Essa é questão chave na vida sul-americana, nesse momento, em que as tensões econômicas e políticas ganham dimensão extraordinária no compasso da crise internacional, como acontece com Brasil e Equador, envolvendo conflitos econômicos e financeiros que abalam as relações dos dois países e ameaçam a união sul-americana.

Como superá-los: pelo pragmatismo político-econômico unilateral ou multilateral?

As empresas multinacionais estarão em xeque no novo contexto internacional em suas atuações em terceiros países, ampliando seus mercados e sua escalada lucrativa, se tentarem agir unilateralmente no ambiente de implosão do capitalismo global no qual a produção, promovida de forma anárquica, deixa de se realizar no consumo, no ambiente em que o crédito entrou em colapso.

A China jogou essa estratégia. Chamou as multinacionais para serem sócias dos chineses empreendedores. Na América do Sul isso jamais aconteceu. Os chineses seguiram o conselho de Lenin, dado durante a Nova Política Econômica(NEP), favorável à criação das empresas mistas, e de Sócrates, optando pela metade.

O exemplo vale para as multinacionais brasileiras, como a Petrobrás, no câmpo energético, e as empreiteiras, como a Norberto Odebrecht, no campo da construção pesada.

O velho unilateralismo levou ao crash atual, muito mais amplo do que o colapso de 1929. Ele produziu a anarquia instaurada pela desregulamentação total dos comportamentos capitalistas unilateralistas, sob dominino do pensamento meramente financeiro, de reprodução do capital. Jogatina e corrupção sem fim.

Os novos governos estarão comprometidos, sob pressão da opinião pública, em resolver tais entulhos históricos.

A desorganização da economia mundial, explícita na crise, por conta do comportamento anárquico neoliberal, representa derrota da própria ação econômica unilateral e impõe, como necessidade de sobrevivência geral, o seu contrário, a ação multilateral.

O multilateralismo expressaria, na prática, a tentativa de organização da produção e do consumo como forma de salvar o sistema que, sob liberdade total sem o concurso de regras, rendeu-se à danação de Marx: o desenvolvimento exponencial das forças produtivas entrou em choque com as relações sociais da produção, gerando deflação destrutiva de capital e trabalho, bloqueados pela eliminação do crédito.

 

Novos tempos, novos paradigmas

O caso da empresa nacional Odebrecheth, que há 25 anos atua na economia equatoriana, realizando obras públicas, para governos de matizes ideológicos neoliberais, é paradigmático. A subida de novo governo coloca em cena conflitos que envolveram a empresa e os governos anteriores em situação que tribunal internacional está avaliando a pedido do presidente Rafael Correa, em meio a uma efervescência nacionalista, que levou o país a uma Assembléia Constituinte, configurando nova correlação de forças internas, a exemplo do fenômeno que avança em praticamente toda a América do Sul, nesse momento histórico de explosão do capitalismo desenvolvido, envolto em bancarrota.

A empresa brasileira, acusada de relaçõese promiscuas com autoridades equatorianas, apeadas do poder pelo voto popular, toca empreendimentos, no país, da ordem de 650 milhões de dólares, grandes obras de engenharia, estradas, hidrelétricas, túneis, viadutos, obras de infra-estrutura urbana, com recursos oferecidos por banco estatal brasileiro, o BNDES, como complemento dos investimentos. Já estava ela sob foco das novas autoridades eleitas, quando uma de suas obras , a hidreletrica de San Francisco, rebentou, criando problemas, que se transformaram em pressões politicas sobre o próprio governo, especialmente, durante a última campanha eleitoral.

Aconteceu, no Equador, o mesmo que, praticamente, no mesmo período, aconteceu em São Paulo, ou seja, obras mal feitas que estouraram, gerando mortes e problemas para a população, cujas consequências estouraram nas costas das autoridades paulistas. Quem era responsável pelas obras? Odebrecht, entre outros sócios empreiteiros. 

O caso, no Brasil, foi parar na justiça brasileira. O caso equatoriano ganhou foro internacional. O presidente Correa reclamou junto a uma corte externa, sob o argumento de que, internamente, poderia ser acusado de manipular os juízes equatorianos a seu favor. Prometeu que, se a corte internacional der ganho de causa a sua ação, puniria a empresa e os financiamentos do BNDES, no valor de 250 milhões de dólares.

Ou seja, não se trata de uma briga entre países, mas entre o governo do Equador e uma empresa internacional, que não agiu , com competência, em relação a determinada obra, embora , relativamente, a outros empreendimentos tenha angariado sucesso, não apenas lá, mas em diversos outros países sul-americanos e europeus.

 

Nova mentalidade empresarial se impõe

Como Rafael Correa está em processo eleitoral, já que, em fevereiro, haverá, no Equador, eleições gerais, e o presidente continua sob pressão dos oposicionistas, seu posicionamento político não poderia ser outro senão seguir adiante sob pena de dançar na mão dos adversários, que sensibilizaram a opinião pública diante da incompetência empresarial da firma nacional que construiu obra comprometedora aos interesses da sociedade. 

O que faltou à Norberto Odebrecht?

No caso da hidrelétrica de San Francisco, competênica; no plano econômico-empreesarial-político, visão socrática, para atuar em terceiros mercados, num ambiente social e político em transformação em toda a América do Sul, cujas consequências, de agora em diante, fixa novo paradigma, já que o mercado sucumbiu-se, graças às suas contradições, à necessidade do socorro estatal, como fator de sobrevivência. 

Os empresários de determinado país, que atua em outro, terá, necessariamente, que levar em consideração os novos tempos, que impõem a eles sabedoria de buscar, onde atua, o exercício da pregação socrática: a parceria. 

Odebrecht não vislumbrou o novo paradigma sob nova correlação de forças políticas no país em que atuou com grande extroversão empresarial, cujos resultados são controversos diante de laxismos de governos corruptos com os quais a empresa relacionou ao longo de duas décadas e meia.

Durante todo esse tempo, somente cuidou de manter o todo do seu negócio. Agora, expulsa, perde o todo, porque não soube dividir. 

 

Parceria Brasil-Argentina sinaliza novo tempo

Como estão se expressando os novos tempos, com seus novos paradigmas, na America do Sul? Basta observar o esforço realizado, contra o interesse do capital externo e da grande mídia a ele ligado, em favor da criação de uma moeda comum para mediar as relações de troca entre Brasil e Argentina, que poderá ser o germe da moeda sul-americana, cujo lastro é poderoso, ou seja, as imensas riquezas a América do Sul, historicamente, sustentáculos da acumulação de capital nos países ricos e desenvolvidos.

A concorrência acirrada impediu, até agora, a integração mundial do comércio porque não se chegou ao pensamento multilateral traduzido na integração do capital internacional com o capital nacional para tocar empreendimentos comuns no âmbito de cada país. 

Como a Norberto Odebrech não abriu espaço para a integração empresarial com suas colegas equatorianas, perdeu espaço no plano político.

Resultado: deu, ao cometer erros de engenharia em projeto desenvolvido no Equador e outras irregularidades levantadas pelo governo equatoriano, depois de instalada comissão para investigar denúncias feitas pela oposição,  durante campanha eleitoral, motivo para ações políticas radicalizadas por parte de poder constituído. Este, sob o impacto das denúncias, viu-se, em tempo de eleições, pressionado a agir.

 

Getúlio agiu como Correa

Os passos de Rafael Correia, que irritam o governo brasileiro, nesse momento, em sua caminhada política nacionalista, são semelhantes aos dados pelo governo nacionalista de Getúlio Vargas, em seu início, em 1931, quando decidiu, sob pressão de acusações políticas, investigar sonegação de impostos e irregularidades generalizadas praticadas pelas companhias americanas distribuidoras de gasolina – Standard Oil Co. of Brazil, The Texas Co. Ltd, Anglo-Mexican Petroleum Ltd, Atlantic Refining of Brasil e The Caloric Company.

Levantado o assunto por comissão governamental, comandada pelo ministro da Fazenda, Oswaldo Aranha, Getúlio, conforme destaca Moniz Bandeira, em “Presença dos Estados Unidos no Brasil”(2005, Civilização Brasileira, pag 328),  tascou violenta multa nas empresas. A embaixada americana interferiu. Getúlio jogou pesado e rompeu prática que era corriqueira ao longo da República Velha, impondo novo paradigma.

O mesmo poderia estar rolando nas relações do governo equatoriano com empresas internacionais, antes de Rafael Correia assumir. Agora, sob pressão política, o titular do poder equatoriano, estaria agindo como Getúlio, sanando práticas que vigoravam antes, tornando o Equador casa de mãe joana da empreiteiras internacionais, que disputam o mercado de infra-estrutura nacional, tocado com moeda governamental.

O governo brasileiro, sob a excitação da grande mídia, que trombeteou calote equatoriano iminente, ao entrar em cena chamando seu embaixador em Quito, para discutir o assunto, age conforme velhos paradigmas.

Se Lula e Correia traçarem ação geoestratégica, para a atuação econômica conjunta dos dois países, a partir de novos paradigmas que o estresse capitalista global proporciona, numa linha socratiana, criariam novos fatos que repercutiriam amplamente na integração econômica sul-americana, em vez de, sob pressão da imprensa conservadora, buscarem, inutilmente, quem é o culpado numa pendenga governo-empresa, cujos contornos são bichados.

A presença da Odebrecht estaria garantida no país, parcerizada com grupos econômicos equatorianos, e a vida econômica nacional ganharia novo conteúdo, adequado ao espírito multilateral em ascensão, no rastro da decadência do unilateralismo econômico, implodido pela derrocada neoliberal global.

Quem vai lucrar com possível divisão dada por essa controvérsia, senão os interesses anti-sulamericanos históricos que sempre lutaram contra a possibilidade da união continental?

 

Eterno jogo de dividir para governar

Não se deve esquecer, a título de exemplo, da trama armada pelos Estados Unidos contra o Iraque, em 1990, no conflito deste país com o Kuwait, culminando com invasão das tropas de Saddan Hussein, em 1990.

Inicialmente, Washington botou fogo em Saddam para invadir. Depois que o ditador caiu na armadilha, jogando seus tanques em cima dos kuwaitianos, os americanos decidiram,numa coalizão de forças ocidentais, cmandadas pelos Estados Unidos e Grã-Bretanha, invadir o Iraque, em nome da defesa do Kuwait. 

Evitariam, disseram, expansão saddamhusseiniana no Oriente Médio, com apoio da Rússia etc.

O presidente Lula, como destaca o empresário Sebastião Gomes, poeria ter caído na mesma armadilha, se tivesse atendido os arroubos guerreiros do PSDB, quando da nacionalização do petróleo boliviano, pelo presidente Evo Morales, e colocado tropas nas fronteiras Brasil-Bolivia, como clamaram os tucanos, no Congresso, estimulados pelos editoriais da grande imprensa.

Era o que as forças aliadas externas desejavam.

O presidente da Venezuela, Hugo Chavez, naquela ocasião, caso Lula rendesse à pregação tucana, mobilizaria tropas venezuelanas para defender Morales, como antecipou em diversos pronunciamentos. Nada melhor para os adversários da Unasul.

Novamente, o tumulto se forma relativamente ao Equador, com os protagonista da máxima de dividir para governar incentivando ações politicamente confrontacionistas, belicosas.

Lula e Correia cairão nessa armadilha?

Ou como líderes políticos de um novo tempo abrirão novas perspectivas e expectativas de avanço nas relações diplomático-político-comerciais, pautadas pelo multilateralismo, que eliminaria perigo de guerra, alimentado pelo unilateralismo?

Está na mão deles o destino da construção da união sul-americana.

Sucessão lulista em ritmo marxista

A emergência simultânea da deflação, nos países ricos, e da inflação, nos países pobres e emergentes, está criando um monstro devorador da produção capitalista, destruindo capital e trabalho, com tal força, que , no rastro da derrocada impressionante de empresas, bancos e grandes negócios especulativos, emerge ressurreição dos socialistas e do pensamento marxista, cujo diagnóstico está batendo firme com a realidade dos países desenvolvidos.

Somente eles , historicamente, apresentam as condições básicas que Marx descreve em O Capital, para permitir a ultrapassagem do capitalismo ao socialismo, ou seja, desenvolvimento máximo das forças produtivas em confronto com as relações sociais da produção. A sucessão presidencial no Brasil em 2010 sofreria o impacto direto das inquietações ideológicas que se formam nos países capitalistas desenvolvidos.

Nada mais parecido com o diganóstico marxista que as economias européias, americana e japonesa, na fase atual da implosão do capitalismo financeiro especulativo cuja produção deixa de se realizar no consumo, de forma satisfatória, para reprodução ampliada do capital sobreacumulado que perdeu a especulação como instrumento de acumulação, detonado na escassez de crédito internacional em meio ao excesso de dinheiro disponível, guardado pela desconfiança generalizada na saúde do sistema.

Todas as três grandes economias, interligadas, desde a segunda guerra mundial, pela divisão do trabalho, estabelecida em Bretton Woods, em 1944, demonstram, em alto grau, explosivo, o confronto entre a estrutura da produção, altamente concentradora de renda e poupadora de mão de obra, de um lado, e as relações sociais da produção, totalmente, ameaçadas pela emergência do desemprego em massa, de outro.

 

O Capital vira sensação editorial

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A bancarrota automobilística é a comprovação da tese marxista. O colapso das três grandes montadoras americanas, Chrysler, Ford e GM, demonstra o acerto do diagnóstico de Marx, cuja essência é a previsão de que o sistema, no confronto dos seus opostos, joga a economia na deflação, derrubando o capital e o trabalho, ao mesmo tempo em que provoca, nos países emergentes, inflação monetária incontrolável, dada a fuga de capital que sobredesvaloriza  as moedas nacionais, de forma, igualmente, incontrolável. O dólar pode chegar a R$ 3,00 , nos próximos dias.

A emergência irresistível e dialética de tal antagonismo induz à discussão ideológica e ao incremento dos movimentos sociais, algo que os analistas euorpeus e americanos já anunciam, amplamente.

Neos-maios de 1968, politicamente, agitados, poderiam estar a caminhando, eletrizando, nos países ricos, onde a contradição chegou ao grau máximo, o ambiente a caminho da radicalização ideológica, lançando, consequentemente, faíscas emocionais que poderiam contaminar o mundo inteiro ligado pela internet, de forma on line.

Barack Obama é fruto da crise envolvida pela mundo digital. Ganhou a eleição com discurso de esquerda liberal, nos moldes americanos, tendo como base de sustentação e alavancagem a tecnologia da informação, que aliou à sua característica de político nascido em núcleos comunitários.

Criou a comunidade polticamente eletronizada americana com eficiência científica e tecnológica que deixou rastro para organizações políticas cujos efeitos tenderão a ganhar novas cores ideológicas no compasso da destruição da produção e do consumo na escalada deflacionária-inflacionária.

Obama corre contra o tempo

Se Obama, com o seu liberalismo de esquerda americana, claramente, limitado para superar as contradições globais que emergiram, não der conta do recado, para equilibrar o jogo ideológico em favor dos Estados Unidos, guardião global do sistema capitalista, sob o dólar, desde o pós guerra, a partir de Bretton Woods, o espaço para novos discursos políticamente avançados à esquerda, tanto nos Estados Unidos, como na velha Europa, estariam, amplamente, abertos.

Nesse ambiente de deterioração política e econômica deflacionária-inflacionária, que destroi capital e trabalho, o discurso marxista renasce porque estaria em seu verdadeiro elemento, ou seja, sob o pleno desenvolvimento da contradição explosiva entre a implosão das forças produtivas, em grau máximo, de um lado, e as relações sociais da produção, em estado semelhante, de outro, potencializadas pelo avanço do desemprego.

 

Fraudes históricas marxistas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A experiência socialista apenas seria possível nesse estágio, segundo o autor de O Capital. As experiências que ocorreram mundo afora em nome do marxismo, na Europa do leste e na América do Sul ao longo do século 20, não poderiam ser consideradas marxistas, pela exegese de Marx, porque nos países onde se deram – União Soviética, Chile, Brasil, México, Espanha, Portugal, Grécia, Polônia, Tchecoslováquia etc – não existiam, ainda, as condições satisfatórias, econômicas e politicas, isto é, pleno desenvolvimento das forças produtivas em confronto com as relações sociais da produção em estado de ebulição política.

Marx cresce enquanto a ideologia utilitarista capitalista decresce. O Utilitarismo, essência ideológica do capital,  sob a crise, está deixando de existir. Tudo que é útil, disse Keynes, é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade, concluiu. Para os trabalhadores que estão perdendo empregos em escala incontrolável por políticas fiscais, na Europa e nos Estados Unidos, onde os pressupostos marxistas mais se desenvolveram, a ideologia utilitarista perde, na prática, a sua utilidade, deixando de ser verdade.

Rompido o véu ideológico, graças à evidência da inutilidade ideológica que estava animando as consciências na sociedade dominada pelo crediário que desapareceu, abre-se tempo de inquietação política.

As categorias sociais antagônicas buscarão a predominância dos seus interesses não mais lançando mão do que deixou de ser útil, mas daquilo que poderia ser para elas, em suas características sociais peculiares, uma nova utilidade política.

Socialismo? Capitalismo reformado, para dividir melhor a renda? A página da história está aberta pela crise para ser reescrita.

 

Legislativo tenta se salvar do incêndio moral

A subida da temperatura política, nos países ricos, por conta da dinâmica deflacionária, e nos pobres, por conta do seu oposto, a inflação, colocaria a sucessão do presidente Lula em novo patamar ideológico, criando ambiente inverso ao do debate conservador levado até agora pela classe política governada por medidas provisórias.

O Congreso, nesse ambiente, já começou a mostrar suas inquietações rumo a uma superação do marasmo político em que se encontra, para não ser ultrapassado pelos acontecimentos.

O presidente do Congresso, senador Garibaldi Alves, radicalizou contra o presidente Lula, devolvendo ao Planalto a medida provisória número 446, que anunciava o escândalo da salvação financeira das associações “pilantrópicas”, firmando comportamente ético do Legislativo frente ao Executivo, buscando sair do lamaçal anti-ético emque se encontra a instituição, que se vergou à governabilidade provisória, cuja sustentação se dá pela cooptação subordinativa do legistativo ao executtivo em troca de favores politicamente anti-éticos.
Ao mesmo tempo, os congressistas, diante da bancarrota das empresas, que poderá ser ampliada nos próximos meses, ao longo de 2009, decidiram apressar a discussão da reforma tributária, para criar o imposto sobre valor agregado, substituo do ICMS, que se transformou em transtorno nacional. Lutam para vencer o empecilho ao desenvolvimento das forças produtivas no país, emperrada pela burocracia tributária ineficiente e cara, para garantir competitividade nacional no cenário global.

O novo movimento do poder legislativo, em plena crise, impulsionado por Garibaldi, no plano ético, e pelos deputados, no plano econômico, demonstrou tentativa de fuga parlamentar da pecha social de ser instrumento institucional inútil.

Garibaldi, com sua jogada política, emerge, no Rio Grando do Norte, como candidato ao governo em 2010, e os parlamentares, dando uma meia sola no sistema tributária, dariam satisfações ao setor produtivo, que, diante dos juros altos e dos impostos escorchantes, estariam dispostos a apoiar um discurso nacionalista mais radical tipo Hugo Chavez, se trabalhasse mais atentamente seus interesses.

Planalto leninista

O titular do Planalto, nesse novo contexto histórico, pode cair para a esquerda de forma mais intensa. Sua ação no plano econômico já demonstra tal opção, ao aprofundar medidas leninistas, como oligopolização do crédito pelos bancos estatais e intervenção direta no setor econômico, para animar o crédito e a produção, a fim de evitar que a ausência daquele inviabilize esta, jogando a sociedade na tensão do aumento do desemprego irremediável e da agitação político-ideológica consequente.

Ou seja, clima propício ao avanço do pensamento socialista e comunista, que, em Sáo Paulo, nesse final de semana, é reanimado por ideólgos de esquerda de vários países, para simularem o futuro sob capitalismo submetido à danação marxista, pauta obrigatória para a sucessão 2010.

Quem percebeu , com tremenda sagacidade, o momento, foi Delfim Netto, que, antevendo debate ideológico inevitável, em vez de avançar nas análises futuristas da crise em curso, decidiu trabalhar, olhando para o retrovisór histórico, contra o que considera possível retorno do socialismo, que apelida, sarcásticamente, de leninismo autárquico.

Embora se mostre equivocado, nesse aspecto – como desenvolvemos no post “Marx acertou. Delfim está apavorado” – o ex-ministro, ex-deputado e tremenda cabeça política, Delfim Netto, enxergou o óbvio: o marxismo está voltando com toda a força. Deseja condenar o passado, para inviabilizar o futuro no que considera passado. Ao abandonar a disposição para investigar o futuro e centrar ataque no passado socialista, revela, inconscientemente, o essencial, isto é, que o socialismo torna-se opção alternativa ao colapso capitalista. A prática já está demonstrando: os empresários e banqueiros,sem falar dos trabalhadores, correm para o colo do Estado como tábua de salvação diante da eficiência do capital de sustentar , na produção, sua própria e ampliada reprodução.

Marx acertou. Delfim está apavorado

Marx está deixando Delfim Netto completamente doido.

O ex-ministro, ex-deputado, economista nacionalista, tem se mostrado, indisfarçavelmente, preocupado com os rumos do capitalismo, demonstrando temores, depois de ter sido ácido com os condutores do sistema nos últimos dez anos, quando se tornaram excessivamente laxistas no processo de controle de reprodução ampliada do capital, levando-o às bolhas especulativas autodestrutivas e,finalmente, à deflação, que destroi capital e salários.

Particularmente, ergueu-se como um dos maiores batedor nas taxas de juros que sobrevalorizaram a moeda e aumentaram as dívidas, fragilizando, estruturalmente, o sistema economico nacional.

Mas, a crise emergente veio com tanta força, agora,  que seus efeitos destrutivos pegaram-no de surpresa, levando-o, consequente e assustadoramente, da posição crítica a uma mais conservadora. Ao mesmo tempo, passou a sentar a pua nos teóricos do socialismo, que previram o desastre do capitalismo, como Marx e Lenin.

Em vez dele avançar nas críticas, buscando , pela dialética, abrir novas fronteiras sobre uma realidade que está se desmoronando, para dela tirar algo ainda não teorizado, suficientemente, à luz dos fatores em jogo, volta-se, apavorado,  para o passado como fuga.

Demonstra temor e tremor de que dos escombros do estresse decorrente do aumento das forças produtivas em confronto com a estrutura produtiva concentradora de renda e socialmente excludente, característica fundamental do sistema em decomposição, emerja o que o apavora, o que está denominando de estado autárquico.

O pavor delfiniano não é outro senão a possibilidade da viabilidade do estado socialista, ao qual o capitalismo, agora, em crise de realização, se recolhe, pedindo socorro, depois que as livres forças do mercado privado deixaram de funcionar.

Banqueiros e empresários falidos – olha os gigantes da indústria automobilística passando o chapéu no Congresso americano! – , todos buscam proteção estatal contra o risco de empreender-se competitivamente via propriedade privada.

A autarquia estatal – isto é, a destruição da propriedade privada, do espírito empreendedor egoísta, – seria emergência socialista, avançando, radicalmente, em relação à social democracia, que bate biela? O socialista fabiano inglês, Delfim, apavora-se, brandindo teses cuja credibilidade, na crise, é nenhuma.

Seria , verdadeiramente, autárquica solução alternativa ao que está se decompondo a olhos vistos, ou algo ainda não experimentado pela humanidade, com características, historicamente, peculiares, fruto das correlações de forças políticas novas que estão se formando na afirmação do Grupo dos 20 no plano global?

Negando-se a avançar nessa especulação futurista, o ex-ministro faz incursão passadista. O gordo Delfim, aparentemente, é pesado, mas acomoda-se como uma lebre ligeira em situações difíceis, como um rei do disfarce.

De início, criticou que a excessiva flexibilidade quanto às regras levou ao desastre, mas, em seguida, passou a alertar aos quatro ventos – cuida, preferencialmente, disso, agora – que o excesso de regras, colocadas como alternativa ao desastre, trás de volta o estado autárquico socialista.

Vendo a autarquia como fantasma, ele procura desancar pretensas soluções socialistas e desacretidar os seus pregoeiros históricos, Marx, Lênin e Trotski.

No Valor Econõmico, terça, 18, demonizou Marx e Lenin, colocando em ambos a pecha de promotores do autarquismo econômico, historicamente, fracassados. Sobretudo, destaca que o marxismo não foi solução, portanto, retornar a ele , seria retornar à autarquia.

Mas, não são, exatamente, as teses de Marx que estão apontando para o desastre do capitalismo nos Estados Unidos e Europa , onde as forças produtivas e as relações sociais de produção, plenamente desenvolvidas, estão em confronto encarniçado, com quebradeiras generalizadas e desemprego em massa?

 

Condições marxistas estão dadas nos EUA e Europa

Pelo que consta dos escritos de Marx, ele nunca teorizou o estado autarquico como resultado do estágio final do desenvolvimento capitalista contraditório das forças produtivas, de um lado, e o das relações sociais da produção, de outro, abrindo espaço para revoluções sociais e transformação do capitalismo em socialismo.

Nos países em que as tentativas socialistas foram buscadas sem que fossem obedecidas as determinações marxistas do pleno desenvolvimento das forças produtivas, as experiências se relevaram fracasso histórico.

Allende caiu na do socialismo chinelo em 1973. Dançou na mão da CIA e dos golpes imperialistas de Kissinger e Nixon. Não tinham sido ainda no país desenvolvidas totalmente os pressupostos básicos marxistas para a virada histórica do sistema capitalitas para o socialista. Emergiu o terrorista Pinochet, armado pela Casa Branca.

Em 1964, no Brasil, idem. A CIA armou a direita empresarial, que financiou governadores e militares, como demonstra , minuciosamente, o historiador uruguaio René Armand Dreifuss, em “1964: A conquista do Estado – Ação política, poder e golpe de classe”, editora Vozes, 1981.

Em diversos países latino-americanos, o samba de uma nota só ditatorial tocou interminavelmente, até a emergência atual de neonacionalismo com tendências socialistas. A guerra civil espanhola, igualmente, foi ilusão socialista sem que existissem as condições que Marx relacionou, cientificamente, ao avaliar, em O Capital, o sistema capialista.

Especialista em história americana e soviética, o historiador Luis Alberto Moniz Bandeira, destaca em “Presença dos Estados Unidos No Brasil” como o não desenvolvimento pleno das forças produtivas representa o fracasso das revoluções de esquerda mundo afora, ao longo do século 20, com destaque para a América Latina.

A própria União Soviética, na qual Lenin, Trotski e Stalin lutaram para instalar o socialismo, depois de 1917, culminando com a derrocada em 1989, na queda espetacular do Muro de Berlim, não conseguiu alcançar o paraíso socialista, porque lá, também, não estava completada a etapa final do pressuposto básico a partir do qual o socialismo se viabiliza, de acordo com o marxismo. Este não teria, ainda, encontrado, historicamente, o seu elemento essencial.

Onde tal elemento, historicamente, está dado, na fase atual do desenvolvimento do capitalismo?

Indiscutivelmente, nos Estados Unidos, onde a ciência e a tecnologia, colocadas a serviço da produção e da produtividade, desembocam na terrível deflação.

Por isso, o temor conservador delfiniano, depois do colapso do crédito, aguçou seu pensamento marxista para tentar espantar Marx e Lenin.

A verdade, no entanto, é que em vez de espantar, está sendo espantado. Ninguém chuta cachorro morto. Se está chutando, é porque ainda não morreu.

 

Deflação e desemprego, morte do capital

Se o não desenvolvimento pleno das forças produtivas representa o não socialismo, o seu oposto, isto é, o desenvolvimento pleno de tais forças, expresso, atualmente, na realidade econômica do capitalismo americano em colapso, comprovaria a materialização da tese marxista.

Nos Estados Unidos, onde as forças produtivas e, também, as destrutivas, guerreiras, desenvolveram ao máximo as suas potencialidades, surgem os fatores marxistas que apavoram os conservadores: derrocada financeira e industrial e desemprego em massa.

Se existe lugar onde a palavra de ordem de derrubada do poder capitalista está madura para ser dia por num neo-revolucionário leninista ou trotskista, esse lugar, indubitavelmente, é os Estados Unidos.

A deterioração do capitalismo americano seria, historicamente, o ponto de inflexão, para a aferição da  tese de Marx, porque nos demais lugares, falar que houve marxismo, sem que tenha desenvolvido o ambiente descrito por ele como necessário ao início da experiência socialista, representaria heresia, fraude.

Plenamente desenvolvida, a contradição busca superação na pátria de Barack Obama, abrindo tempo que pode ser de revolução. Está sob teste verdadeiro o pressuposto marxista da revolução socialista , pela primeira vez na história.

Se explodir social e politicamente o status quo americano em desaceleração total, a energia política magnética que seria desatada poderia corresponder a uma onda global bem mais potente em termos de contágio rebelde do que o maio de 1968, na França.

Eis o medo de Delfim Netto, que, inteligente, percebeu o viés de baixa histórico do sistema capitalista. Tal evidência, em vez de levá-lo a avançar, impulsiona-o a retrocedoer.

Marx acertou na mosca. Delfim está apavorado.

 

Ignorância delfiniana sobre leninismo

O ex-ministro e ex-deputado deitou falação despropositada sobre Lênin. Demonstrou que não leu Lênin, especialmente, os aspectos econômicos desenvolvidos pelo líder soviético, o que seria sua obrigação, como expert em economia.

Soltou tremendo besteirol ao arrolar Lênin como pensador autárquico, tão cruel como Stalin. Mais moderno do que ele, ressaltou, seria Bukharin, autor do clássico “A economia mundial e o imperialistmo”, pensador marxista sofisticado,  a quem Lênin teria marginalizado, para favorecer aquele que seria o seu sucessor-ditador, Stalin, que mandou matar Bukharin.

Aqui, Delfim demonstra sua falta de conhecimento histórico.

Ficando, apenas, no terreno da economia – porque no da politica as versões sobre Lenin, Stalin, Trotski, são altamente controversas, ainda mais sendo comentadas por quem, como Delfim, serviu ao regime militar terrorista de 1964, que detonou a democracia brasileira -, o que se evidencia, relativamente ao leninismo econômico, é o oposto da acusação, sem provas, de Delfim.

Pelos documentos e falas de Lênin, no auge da crise de escassez de consumo, na União Soviética, em 1921/1922, a pregação leninista é a acabada representação de pensamento não-autarquico, mas, essencialmente, dinãmico, renovador, dialético, capitalista, inverso da teorização cerebrina furada delfiniana.

No brilhante relatório que preparou para o XI Congresso do PCR, realizado entre 27 de março e 2 de abril de 1922, Lenin destacou, claramente, que a Nova Política Econômica(NEP), em implementação pelo seu governo, somente teria chances de sobreviver se fossem multiplicadas por toda a União Soviética a experiência capitalista que buscou disseminar, expressa no que denominou de “empresas mistas”. Seriam , hoje, as PPPs, Parcerias Público Privadas.

Lênin pagou alto preço por tal proposição. Bukarin, por exemplo, não foi ao encontro, porque considerou a posição do chefe do poder soviético traição à revolução comunista de 1917. Com excessivo senso de realismo, para espanto dos integrantes do Congresso, Lênin destacou que o de que a União Soviética mais necessitava, com urgência, era não de teóricos comunistas brilhantes, mas de caixeiros viajantes. Pânico entre comunistas.

 

China adotou Lênin; Tio Sam, também

Exaltou Lenin o empreendedorismo individual dos camponentes e destacou que o fundamental não era fazer a distinção entre coletivo e individual, como propulsores do processo econômico, mas perceber que, qualitativamente, a integração de ambos seria fundamental como sobrevivência econômica do país.

A vantagem que os comunistas dispunham nesse contexto, frisou Lenin,  era o fato de que tinham o poder político para manejar interesses dos trabalhadores e dos capitalistas com suficiente flexibilidade, para dinamizar a economia.

A ausência do caixeiro viajante, do empresário, era o gargalo. Lenin considera fundamental sua participação no processo de desenvolvimento das forças produtivas sob a experiência socialista. A burguesia, com sua vivência histórica, não poderia ser descartada.

Ou seja, havia espaço para experimentos sob comando da política, mediante novos paradigmas, capazes de quebrar velhas crenças comunistas, ancoradas na teorização excessivamente abstrata dos brilantes intelectuais comunistas, porém, totalmente incompetentes em matéria de negócios. E dos negócios, em desenvolvimento pleno, dependia a União Soviética.

Essa proposição leninista foi, plena e amplamente, adotada pela China, anos mais tarde, como destaca o historicador Luiz Alberto Moniz Bandeira , em “Formação do império americano”(Civilização Brasileira, 2005, 851 pags).

O Estado chinês seria um estado lenista, conforme pregação de Lenin no último congresso do partido em que esteve presente, para dar seu recado final, cuja continuidade foi interrompida pelas tromboses cerebrais que eliminaram a sua capacidade de continuar no comando do poder soviético, matando-o.

Lembrou que poderia estar sendo alvo de risinhos da platéia em burburinho, mas lembrou, com extrema vivacidade,  que sem o espírito do caixeiro viajante, sob estímulos dados pelo Estado indutor da criação das “empresas mistas”, das PPPs, seria impossível resolver o maior problema interno, a oferta de alimentos.

 

NEP: socialismo-fordismo

Naquela altura, 1922, a NEP já completara três anos e os fracassos eram evidentes. Baixa produção e produtividade e alta de preços especulativos.

Lênin, ousadamente, como verdadeiro herege, lança tudo isso na cara dos companheiros comunistas, apelando para envio dos comunas aos Estados Unidos, Canadá, Itália, Espanha, para ganhar espírito e experiência empreendedora suficientes, de modo a alavancar a mistura entre o capital e o social, com relativo sucesso.

Robert Service, em “Lenin – a biografia definitiva”, Difel, 629 pags, destaca que o líder soviético era fã número um do espírito fordista americano que criava na classe trabalhadora espírito de disciplina invencível, tão carente nos operários soviéticos, na sua época, dado o pouco desenvolvimento, na União Soviética, das forças produtivas capitalistas.

Ou seja, Lenin tinha consciência de que o socialismo soviético carecia largamente dos pressupostos de Marx. A materialização do marxismo somente ocorreria em seu país depois do desenvolvimento que estava experimentando o capitalismo nos Estados Unidos.

Lênin, falando, em “Obras Escolhidas 3”, editora Alfa-ômega, pg 582, põe fim às especulações sobre seu propósito verdadeiro, naquele momento histórico:

“É indispensável organizar as coisas de modo a que seja possível o curso normal da economia capitalista e da circulação capitalista de mercadorias, porque isso é necessário ao povo. Sem isso não se pode viver. Para eles{os camponeses] tudo o resto não é absolutamente indispensável, com tudo o resto podem conformar-se

 

Complexo de édipo delfiniano

Onde está o pensamento autárquico leninista, que Delfim, levianamente, caracterizou, porque não percebeu o que Moniz Bandeira sacou, que Lenin, hoje , está na China?

Os chineses adotaram o leninismo econômico, objeto do desejo inconsciente de Delfim, que pregou, no Brasil, a solução chinesa, quando era o czar da economia nacional sob Médici, na ditadura.

Delfim, inconscientemente, estaria incorporado por Lenin, sem saber que o lider soviético, agora, chicoteado por ele, temeroso da implosão capitalista nos Estados Unidos, fez sua cabeça.

Maconha leninista deixa Delfim muito doido.

Lenin faz a cabeça não apenas de Delfim, mas do governo W. Bush e dos governos europeus, que, diante da bancarrota, estatiza o crédito e busca regulamentar o sistema, afastando-o do excesso de liberdade irresponsável, como Lenin propôs, no seu último congresso comunista.

Por que a ojeriza delfiniana contra Lenin? Rejeição paterna. Só Freud explica.

 

Distribuir a renda contra deflação-inflação

Alavacar, ainda mais , as forças produtivas, no ambiente de desaceleração dada pela limitação dessas proprias forças, sob predomínio do espírito absolutamente privado?

Deflação nos países ricos, inflação, nos pobres. Fenômeno dialético global, como resultado da bancarrota capitalista americana-européia. O desemprego crescente na Europa e nos Estados Unidos, apesar das decisões governamentais de aumento de gastos, demonstra que o remédio inflacionário deixou de ser plenamente satisfatório porque, como a deflação, também, deixou de ser solução, para se transformar em problema.

A inflação, sob deficits elevados, como alertou o presidente do BC americano, Ben Bernamke, em São Paulo, durante a reunião do Grupo dos 20, alcançou seus limites.

Qual seria a síntese, depois de superação da tese, o livre mercado,  e da antítese, o estado deficitariamente baleado?

Ressuscitaria o velho estado gerador de renda, como vaca leiteira, para o setor privado, ou outras bocas chegaram para mamar, também?

A questão estaria não mais no incremento da produção, mas da justa distribuição da renda nacional, que, excessivamente, acumulada, sob a exclusividade do emprendedorismo privado, se impõe como nova necessidade histórica a ser superada.

Esse é o recado fundamental de Lauro Campos, teórico socialista-marxista, autor de “A crise completa – a economia política do não”(Boitempo, 2002) e “A crise da ideologia keynesiana”(Campus, 1980). Ele previu que a inflação, que veio para dar sobrevida ao capitalismo sob deflação, em 1929,  entraria em crise com o estresse keynesiano, agora, consumado, diante da impossibilidade de os gastos públicos dinamizarem o consumo em colpaso, nos Estados Unidos.

Sobretudo, anunciou, amplamente, o que está em evidência: a bancarrota da indústria automobilístico como o apito derradeiro do trem capitalista antes do desastre de realização da produção no consumo, afetado pela falta de crédito, no contexto de desconfianças generalizadas no seio do sistema financeiro.

Delfim, atacado pelo complexo de Édipo, ciúme da mãe – o capitalismo – e raiva do pai – o socialismo – , recorre-se , reprimidamente, à castração sexual-ideológica.  Apela-se aos velhos paradigmas economicamente conservadores, que o impedem de ver que, ao pregar o modelo chinês, mostra que é filho do pai ao qual lança chamas, ou seja, Lenin.

 O líder da revolução russa, incorporado como dragão chinês, consciente de que, no seu tempo, seria impossível, na União Soviética, materializar o socialismo puro, adaptou, pragmaticametne, discurso compondo articulação regida pela combinação de Marx e Henry Ford.

Onde está a autarquização leninista que desperta tanto medo em Delfim?

Obama: decadência e pacifismo

Obama, até agora, exprime uma impossibilidade de superação da decadência. Essa superação não pode se realizar se o que ela produz, como negação de si mesma, é afirmação daquilo que a produziu.

Dito de outra forma: ao afirmar, em seu discurso, um retorno ao movimento de expansão positiva da sociedade norte-americana, Obama pretende instituir aquilo que está sendo negado pelo movimento de decadência que vivemos.
Mas isso é contraditório com a afirmação de que “a mudança chegou aos EUA”. A mudança real só é possível se for negação do movimento de decadência, se for produto (como negação) do movimento que se instaurou no seio da potência norte-americana, da forma como está colocada.
A negação da decadência surgirá num movimento que negue a expansão da indústria da guerra e da consciência da guerra. E o grande problema é que a negação dessa indústria da guerra não parece madura para ser instituída pelo presidente Obama.
Essa indústria fornece combustível essencial para o motor da sociedade de consumo, porque através dela o estado emprega indiretamente milhões de pessoas, através das empresas que lhe prestam serviços na fabricação e manutenção da força de destruição das armas, da vigilância permanente sobre cidadãos e inimigos potenciais.

Líder pacífico ou fantoche da guerra?

A negação da indústria da guerra e da decadência que ela produziu surgirá no tempo em que se tornar madura uma consciência realmente pacifista, que não seja mero contraponto produtivo – antagonista forjado para justificar o uso da violência.
O falso pacifismo – exemplo bem acabado de falsa negação da decadência – é aquele que propõe paz como negação de todos os conflitos, algo totalmente imaginatório, uma vez que a vida se instituiu e se nutre do conflito.
O verdadeiro pacifismo, como afirmação da esperança de um novo começo, nutrido da decadência absolutamente necessária em que estamos inseridos, é o reconhecimento do conflito e da convivência com os antagonistas como única forma possível de harmonia construtiva.
A consciência desse pacifismo surgirá no momento em que for possível transformar a máquina produtora de guerra em algo que produza uma nova forma de lidar com os conflitos, tanto internamente, na doença, quanto externamente, na guerra.
A reafirmação do expansionismo do padrão consumista que nos fascina hoje não aponta nessa direção.
Assim como não aponta nessa direção a injeção de mais crédito para a indústria automobilística, num momento em que o excesso de veículos transforma em inferno a vida das cidades no mundo inteiro.
Realimentar essa indústria é reafirmar a decadência e não superá-la.
Até onde chegou, Obama sugere mais um fantoche superdotado na arte da oratória, treinado e aperfeiçoado no domínio das palavras: um apresentador de TV que dispensa o teleprompter.
Se ele é mais do que isso, se por trás dele existe um movimento de superação da consciência decadente em que estamos mergulhados, ainda é cedo para saber.