Imperialismo petrolífero

É o petróleo, estúpido! O acordo que se perfila entre o ministério iraquiano do petróleo e quatro companhias petrolíferas ocidentais levanta questões delicadas quanto aos motivos da invasão e da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Estas questões deviam ser levantadas pelos candidatos às eleições presidenciais e discutidas seriamente nos Estados Unidos, assim como no Iraque ocupado, onde parece que a população desempenha apenas um papel menor – se é que desempenha – na definição do futuro do país.
As negociações relativas à renovação das concessões petrolíferas, perdidas aquando das nacionalizações que permitiram aos países produtores recuperar o controle dos seus próprios recursos, estão bem encaminhadas para serem entregues à Exxon Mobil, Shell, Total e BP. Estes parceiros originais da Companhia Petrolífera Iraquiana são acompanhados agora pela Chevron e por outras companhias petrolíferas de menor dimensão. Estes contratos negociados sem concorrência, aparentemente redigidos pelas companhias petrolíferas com a ajuda dos oficiais americanos, foram preferidos às ofertas formuladas por mais de 40 outras companhias, especialmente chinesas, indianas e russas.
“O mundo árabe e parte das população americana suspeitavam que os Estados Unidos tinham entrado em guerra precisamente para proteger a riqueza petrolífera que estes contratos procuram garantir” escreveu Andrew E. Kramer no New York Times. A referência de Kramer a uma suspeita é um eufemismo. É além disso mais provável que a ocupação militar tenha ela própria impulsionado a restauração de uma odiada Companhia Petrolífera Iraquiana, instalada na época da dominação britânica afim de “se alimentar com a riqueza do Iraque no quadro de um acordo notoriamente desequilibrado”, como escreveu Seamus Milne no Guardian.
Os últimos relatórios evocam atrasos na apreciação das ofertas. O essencial desenrola-se sob o signo do segredo e não seria surpreendente que surgissem novos escândalos.
A necessidade dificilmente poderia ser mais premente. O Iraque possui provavelmente a segunda reserva mundial de petróleo, que se caracteriza além disso por baixos custos de extracção: sem permafrost [1], nem areias betuminosas a transpor, nem perfuração em águas profundas para empreender. Para os planificadores americanos, é imperioso que o Iraque permaneça, na medida do possível, sob o controlo dos Estados Unidos, como um Estado cliente dócil apropriado para acolher bases militares em pleno coração da primeira reserva energética mundial. Que esses eram os objetivos fundamentais da invasão foi sempre claro, apesar da cortina de fumaça de sucessivos pretextos: Armas de destruição maciça, ligações de Saddam com a Al-Qaeda, promoção da democracia e da guerra contra o terrorismo – o qual se desenvolveu radicalmente com a própria invasão, como era previsível.
Em novembro último, estas preocupações tornaram-se explícitas quando o Presidente Bush e o Primeiro ministro iraquiano, Nouri Al-Maliki, assinaram uma “Declaração de princípio”, com total desprezo pelas prerrogativas do Congresso americano e do Parlamento iraquiano, assim como da opinião das respectivas populações.
Esta Declaração permite uma presença militar indefinida no Iraque, em coerência com a edificação em curso de gigantescas bases aéreas em todo o país, e da “embaixada” em Bagdade, uma cidade na cidade, sem qualquer semelhança em todo o mundo. Tudo isto não é construído para ser em seguida abandonado.
A declaração encobre igualmente uma descarada afirmação quanto à exploração dos recursos do Iraque. Nela se afirma que a economia iraquiana, isto é os seus recursos petrolíferos, deve ser aberta aos investimentos estrangeiros, “especialmente americanos”. Isto é quase como um anúncio de que vos invadimos para controlar o vosso país e dispor de um acesso privilegiado aos vossos recursos.
A seriedade destas intenções foi sublinhada pelo “signing statement”[2] do Presidente Bush declarando que rejeitará qualquer texto do Congresso suscetível de restringir o financiamento necessário para permitir “o estabelecimento de qualquer instalação ou base militar necessária para o abastecimento das Forças Americanas que estão permanentemente estacionadas no Iraque” ou o “controle dos recursos petrolíferos iraquianos pelos Estados Unidos”.
O recurso extensivo aos “signing statements”, que permitem ao poder executivo estender o seu poder, constitui outra das inovações práticas da administração Bush, condenada pela American Bar Association (Associação de advogados americanos) como contrária ao Estado de direito e à separação constitucional dos poderes”.
Sem surpresa, a declaração provocou imediatos protestos no Iraque, entre os quais dos sindicatos iraquianos, que sobrevivem apesar das duras leis anti-sindicais, instituídas por Saddam e mantidas pelo ocupante.
Segundo a propaganda de Washington, é o Irã que ameaça a dominação americana no Iraque. Os problemas americanos no Iraque são todos imputados ao Irã. A Secretária de Estado Condoleeza Rice sugere uma solução simples: “as forças estrangeiras” e os “exércitos estrangeiros” deveriam ser retirados do Iraque – os do Irã, não os nossos.
O confronto quanto ao programa nuclear iraniano reforça ainda as tensões. A política de “mudança do regime” conduzida pela administração Bush a respeito do Irã é acompanhada da ameaça do recurso à força (neste ponto Bush não é contraditado por qualquer dos dois candidatos à sua sucessão). Esta política igualmente legitima o terrorismo em território iraniano. A maioria dos americanos prefere a via diplomática e opõe-se ao uso da força, mas a opinião pública é em grande parte irrelevante, e não só neste caso.
Uma ironia é que o Iraque está se transformando pouco a pouco num condomínio americano-iraniano. O governo de Maliki é a componente da sociedade iraquiana sustentada ativamente pelo Irã. O chamado exército iraquiano – exactamente uma milícia entre outras – é largamente constituído pela brigada Badr, treinada no Irã e que foi constituída do lado iraniano durante a guerra Irã-Iraque.
Nir Rosen, um dos correspondentes mais astuciosos lá presentes e profundo conhecedor da região, salienta que o alvo principal das operações militares conduzidas conjuntamente pelos Estados Unidos e por Maliki, Moqtada Al-Sadr, já não recolhe os favores do Irã: independente e beneficiando de apoio popular, esta facção é perigosa para este país.
O Irã, segundo Rosen, “apoiou claramente o Primeiro ministro Maliki e o governo iraquiano, na altura do recente conflito em Bassra, contra o que eles descrevem como ‘os grupos armados ilegais’ (do exército Mahdi de Moqtada)”, “o que não é surpreendente tendo em conta que o seu principal testa de ferro no Iraque, o Conselho Supremo Islâmico Iraquiano, apoio essencial do governo Maliki, domina o Estado iraquiano.”
“Não há guerra por procuração no Iraque”, conclui Rosen, “porque os Estados Unidos e o Irã partilham o mesmo testa de ferro”.
Podemos presumir que Teerã gosta de ver os Estados Unidos instalarem-se e apoiarem um governo iraquiano receptivo à sua influência. Para o povo iraquiano porém este governo constitui um verdadeiro desastre e vai provavelmente prejudicá-lo mais.
Em termos de relações externas, Steven Simon sublinha que a estratégia contra-insurrecional atual dos Estados Unidos “alimenta as três ameaças que pesam tradicionalmente na estabilidade dos Estados do Médio Oriente: o tribalismo, os senhores da guerra e o sectarismo.” Isto poderia desembocar no surgimento de um “Estado forte e centralizado, dirigido por uma junta militar que poderia assemelhar-se” ao regime de Saddam. Se Washington conseguir os seus fins, então as suas ações estão justificadas. Os atos de Vladimir Putin, quando conseguiu pacificar a Tchechênia de uma maneira bem mais convincente que o general David Petraeus no Iraque, suscitam contudo comentários de outra natureza. Mas isto são eles, nós somos os Estados Unidos. Os critérios são portanto totalmente diferentes.
Nos Estados Unidos, os Democratas são reduzidos ao silêncio pelo pretenso sucesso da ofensiva militar americana no Iraque. Mas o seu silêncio trai a ausência de oposição de princípio à guerra. Segundo a sua forma de ver o mundo, o fato de se alcançarem os fins justifica a guerra e a ocupação. Os apetitosos contratos petrolíferos são obtidos com a conquista do território.
De fato, a invasão no seu conjunto constitui um crime de guerra – crime internacional supremo, que difere dos outros crimes de guerra porque gera, segundo os próprios termos do julgamento de Nuremberg, todo o mal causado em seguida. Isto está entre os assuntos impossíveis de abordar na campanha presidencial ou em qualquer outro quadro. Porque estamos no Iraque? Qual é a nossa dívida para com os iraquianos por ter destruído o seu país? A maioria do povo americano deseja a retirada das tropas americanas do Iraque. A sua voz tem importância?

Publicado em Khaleej Times a 8 de Julho de 2008, disponível em chomsky.info.
Tradução de Carlos Santos (esquerda.net)
1] Permafrost – tipo de solo das regiões árticas, permanentemente congelado.
[2] Ato pelo qual o Presidente dos Estados Unidos modifica o significado de um texto de lei.

Vida honrada

Quando, no dia 17 de maio de 1985, Emília nasceu, quis registrar o esplendor. Fui em busca das palavras. E quando já me parecia impossível a tarefa, porque me vieram tantas, gravei num pedaço de papel:

“Nasceu Emília e isso basta! Para que outras palavras para quem todas as palavras não bastam?”.

Estas ainda são as palavras. Agora, não para Emília, mas para mim mesmo e aos meus , eu precisei de outras palavras. E tantas novamente encontrei. Mas desta vez, só pude organizá-las numa extensa metáfora.

E como eu me encontrasse suspenso sobre o abismo, olhei para além desse abismo e vi um vasto jardim. Que eu já vislumbrava, mas ainda não percorrera. Olhei então para traz e reconheci. Era o salão da memória e das lembranças. Saltei o abismo e cheguei ao salão.

Nele, as folhas dos livros vinham até mim e me contavam toda a história. Nele, se o silêncio surgisse absoluto como uma surdez exasperante, uma música suave tocava. Um sorriso conhecido do nada surgiria quando eu, olhando-me no espelho, não me reconhecessse. A voz mais bela eu ouviria, quando a minha própria voz se perdesse.

E nele fui andando e vi que um salão terminava em outro salão, que termina em outro e em outro… Andei até compreender que aquele era o caminho para o infinito das origens. Diante dessa certeza voltei, porque a compreensão iluminava todo o resto.

Já sobre o abismo, uma ponte se formara. E ela estampava em suas vigas nomes e rostos conhecidos. E todos eram bons. Atravessei. Na entrada do jardim, um convite, que também era uma advertência: “Entre sem pressa, porque afinal, ninguém chegará mesmo aos meus limites”. Havia planíceis sem fim, vales profundos, montanhas majestosas. Tudo iluminado pelo sol das primeiras horas da manhã.

Pisei sobre ervas miúdas, dessas que a gente nem procura saber o nome. E como era macia a relva, tirei os sapatos, as meias e, descalço, prossegui. Encontrei um campo de flores, de cores conhecidas e outras que jamais vira. Tão delicadas que me aproximei apenas até o limite de não tocá-las.  E o perfume delas era doce.

Adiante, abracei troncos de árvores. E como eram fortes, eu me senti forte. Pássaros vieram até mim e aprendi a cantar. Outros voaram tão alto, como se nuvens fossem. Bebi em fontes cristalinas. Encontrei respostas a perguntas que sequer fizera. Num bosque ao lado, o vento soprava uma música diversa.

Ali eu já entendera que quanto mais eu andasse, mais o horizonte se estenderia. Porque os sonhos se desdobram em sonhos, que se abrem em outros sonhos que a outros sonhos levam. Então parei. Se alguém olhasse, nem me veria, pois já me dissolvera na indivisível paisagem.

Agora, de volta à ponte sobre o abismo, estamos mais prontos para seguir em frente. Somos os sobreviventes de um evento atroz. E aos sobreviventes, cabe honra a vida e ela sera honrada.

A vida é celebração e como a celebramos tão intensamente, às vezes nos cobram uma dor imensa. Mas, se em algum momento o músculo ameaçar romper-se, sabemos onde encontra a fibra.

A fonte estará sempre próxima de onde estivermos. No salão das lembranças, no jardim dos sonhos, nada nos faltará. E a vida seguirá pelos tempos inesgotáveis.

Emilia Cunha Borges(17.05.1985-25.05.2008)

Afronta à América do Sul

A decisão do governo dos EUA de reativar a Quarta Frota Naval destinada a vigiar os mares da América Latina provoca ondas desafiadoras para as autoridades encarregadas da elaboração das políticas de defesa em cada um dos países da região. E também marolas no debate em círculos de intelectuais de esquerda ou não, nos meios de comunicação e na academia, com doses de subjetivismo e abstracionismo variadas e surpreendentes, quando a decisão estadunidense é repleta de ameaças sombrias, mas concretas, obrigando mesmo a uma atualização política cuidadosa.Surpreendente e patético, por exemplo, é o artigo do sociólogo estadunidense James Petras criticando Fidel Castro por ter desenvolvido em suas reflexões mais recentes  uma análise que aponta para a necessidade de uma solução política para a grave questão colombiana, realçando as dificuldades para uma vitória militar das Farc nestas novas condições da história. O professor universitário nos EUA, do alto de sua enorme experiência exclusivamente acadêmica, chega mesmo a tentar dar aulas a Fidel Castro sobre luta armada, ética revolucionária, terminando seu artigo com uma assustadora repreensão moral ao líder cubano. O artigo fala por si.

Outra tática, outros métodos

A ciência da tática revolucionária para cada situação histórica exige mesmo desprendimento de conceitos estáticos e dos moralismos abstratos, como se a opção por uma luta armada em determinado momento não pudesse ser transformada em opção por outra forma de ação política igualmente revolucionária, em outro momento, com métodos que incluem até mesmo a clássica participação eleitoral, ainda que os objetivos de transformação social adotados lá atrás, quando da opção pela luta armada, sejam rigorosamente mantidos.

É claro que houve muita capitulação, sobretudo nas fileiras dos partidos comunistas numa determina época e isso pode confundir. Mas isto não invalida esta possibilidade histórica. Não é o moralismo religioso em torno da luta armada que poderá resolver os problemas e os desafios colocados pela alteração desfavorável das relações de força internacionais. Tal como ocorreu com a desorganização da União Soviética.

A luta revolucionária não se paralisou, seja na sua opção armada ou na via política de massas, ainda que a desorganização da URSS tenha produzido um desconcerto generalizado no campo progressista internacional. Novos conceitos, novas táticas, novos métodos de luta tiveram que ser encontrados diante da ofensiva militar (Iugoslávia, Panamá, Iraque) e ideológica do capitalismo apregoando o fracasso histórico do socialismo e até mesmo o fim da própria história.

Mas esta alteração negativa nas relações de forças internacionais produziu condições para a derrota temporária ou transitória de muitos processos revolucionários. A derrota do Governo Sandinista, em 1990, por exemplo, embora não se devam esquecer as limitações internas que ajudaram naquele retrocesso.  Pois mudada a situação histórica, o guerrilheiro Daniel Ortega hoje volta ao poder pela via eleitoral. Para novos tempos, nova tática, outros métodos.

Chávez: da insurreição ao voto; do voto à revolução

Chávez também tentou a insurreição armada em 1992, que, apesar de fracassada em seu intento inicial, transformou-o no líder revolucionário que anos mais tarde, pela via eleitoral, assume o comando da Venezuela Bolivariana e vai produzindo transformações de natureza socialista e levando a Venezuela a ser um centro de animação revolucionária para toda América Latina.

Em uma entrevista televisiva no Brasil, concedida à Telesur, à TV Paraná Educativa e à TV Comunitária de Brasília, Chávez lembrou que quando jovem oficial foi incumbido de controlar guerrilheiros em seu país e que “por pouco não se passou para o lado da guerrilha”. Por sorte, não se passou e tem agora, a oportunidade de cumprir o papel histórico que está a cumprir, preconizando a integração latino-americana sobre bases soberanas e transformadoras, e relançando mundialmente o debate sobre “a volta do socialismo” que pretende, como disse nessa entrevista, levar ao Fórum Social Mundial de Belém do Pará. Cada método de luta revolucionária, para cada momento e condição da história.

O relançamento da Quarta Frota é uma resposta dos EUA à constituição de vários governos progressistas e de esquerda na América Latina. E também à idéia da integração latino-americana, com a formação de um Conselho de Defesa da América do Sul, sem participação dos Eua, pretendida por eles, e também após a derrota da proposta estadunidense da Alca para a qual, segundo disse Chávez, foi decisiva a posição firme do governo Lula.

Provavelmente o professor Petras, em sua larga experiência ……..acadêmica, tenha dificuldade de observar que na luta de classes surgem situações completamente imprevistas para os leitores ortodoxos de textos revolucionários, obrigando a adoção de métodos e táticas que muitas vezes podem ser considerados como heresia para os que fazem da defesa religiosa e moralista da luta armada .

A Unasul e as condições para novas iniciativas progressistas

As análises de Fidel mostram exatamente uma visão geoestratégica e tática apoiada na nova condição da América Latina, com seus governos progressistas, com a perda de influência dos EUA e que por isso mesmo, podem agarrar-se à conturbada situação colombiana para justificar mais presença militar, tensões exclusivamente militares, já que suas teses têm sido derrotadas nas urnas de cada país, nas reuniões da OEA, na constituição da Unasul, a formação do Conselho de Defesa Sul-Americano etc.

Os EUA precisam provocar uma tensão que lhe permita justificar ações no campo militar. Por isso, a Quarta Frota ou o ataque ao acampamento das Farc em território equatoriano, com mísseis dos EUA e total planejamento e inteligência típica dos israelitas. Mesmo assim, jornalistas progressistas, um pouco na linha isolacionista de Petras, chegaram a ver naquele ataque às Farc a participação de tecnologia e inteligência brasileiras. Ou seja, ótimo para provocar desconfianças mútuas no campo progressista e dificultar a tese subjacente à constituição do Conselho de Defesa da Unasul: a integração das políticas de defesa e da indústria militar dos países-membros.

A provocação da revista Cambio, que levantou a fantasmagórica tese de vinculação de membros do Governo Lula com as Farc, nada mais é que a nova escalada de provocações que está em curso, como parte das ondas e marolas causadas pela reativação da Quarta Frota. Por isso, é sumamente importante que o presidente Lula tenha pedido oficialmente ao governo dos EUA explicações para a presença da Quarta Frota. E apesar disso, é surpreendente a extrema capacidade de não enxergar o óbvio em certas ramas da comunicação, como a do editor de internacional da TV Brasil, Nelson Franco Jobim, que afirmou no programa “Diálogo Nacional” que pura paranóia esta tese da crescente presença militar dos EUA sobre a América Latina.

A melhor resposta ao jornalista é o próprio pedido oficial de explicação do presidente Lula ao governo dos EUA pela Quarta Frota, que também foi rejeitada pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. O experiente senador Pedro Simon criticou a resposta dos EUA em que se afirma que a Quarta Frota tem missão humanitária: “Missão humanitária com arsenal nuclear???”, contestou Simon.

A função revolucionária de Cuba na África

A Quarta Frota é uma ameaça concreta aos governos progressistas latino-americanos. Seja por promoverem políticas que permitem a Cuba furar o bloqueio norte-americano, como é o caso da Alba e também da decisão brasileira de tornar-se “o parceiro número 1 de Cuba”. Para o professor Petras, nada disso tem relevância, afinal, o Governo Lula é apenas “mais um governo neoliberal”.

Na sua patética tentativa de dar lições a Fidel Castro, Petras esquece de muita coisa já cravada, com sangue e heroísmo, definitivamente nas mais nobres páginas da história. Entre elas, a heróica solidariedade de Cuba a Angola, sob a liderança de Fidel Castro e Agostinho Neto, que levou às terras angolanas 350 mil homens e mulheres combatentes cubanos numa das mais fascinantes operações de internacionalismo proletário dos últimos tempos.

Essa gigantesca operação militar-revolucionária teve o seu desfecho na Batalha de Cuito Cuanavale, em 1988, quando tropas angolanas, cubanas e da organização revolucionária da Namíbia, a Swapo, derrotaram o exército racista-imperialista da África do Sul. Segundo Mandela, “Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid!”. E permitiu ao próprio Mandela, e ao movimento revolucionário armado da África do Sul, adotar a nova tática, passando das armas à ação política, com a inteligência das massas sul-africanas, dando continuidade ao heroísmo armado de Cuito-Cuanavale e derrotando o apartheid, levando Mandela ao poder, pelo voto. E Petras pensa em repreender Fidel…..

Fidel, Malvinas e Haiti

O mesmo Fidel Castro, demonstrando que em cada momento histórico são requeridas táticas diferenciadas e audazes, ofereceu ao governo argentino, durante a Guerra das Malvinas, em 1982, a solidariedade das tropas cubanas para lutar contra a Inglaterra. A recusa foi do governo de Galtieri, talvez percebendo, por instinto de classe, o grande efeito revolucionário que a presença de tropas cubanas a lutar na América Latina contra o imperialismo inglês teria sobre a consciência das massas latino-americanas.

É curioso lembrar que, na década de 30, quando havia a ameaça de uma guerra entre Inglaterra e Brasil, Trotsky, recém-chegado ao México, também recomendava que num conflito entre os dois países os revolucionários deveriam estar ao lado de Vargas contra o “democrático” império inglês. Coincidências da história. O mesmo general Cárdenas que havia dado asilo a Trotsky no México, liberou Fidel e Che, que haviam sido presos na capital mexicana, na década de 50, antes do embarque revolucionário no iate Granma, para libertar Cuba do imperialismo e das trevas do subdesenvolvimento colonial.

Os tempos são outros, a nova situação política latino-americana exige outra tática dos movimentos revolucionários mesmo, sem abdicar de seus objetivos, de suas metas. O Fidel que Petras tenta criticar revela também sua visão estratégica ao afirmar, diante de críticas de militantes brasileiros num Fórum em Havana, em 2005, contra a presença militar do Brasil no Haiti: “prefiro militares brasileiros que marines norte-americanos no Haiti”.

Por trás desta ação, ainda que com todas as suas limitações e complexidades – vale destacar que sem a presença dos EUA – está o embrião do Conselho de Defesa Sul-Americano, a proposta de integração da tecnologia e da indústria militares do sul, a proposta de cooperação técnica para construção de um submarino nuclear, pois, como alerta o vice-presidente José Alencar, o “Brasil deve ter seu submarino nuclear para defender sua imensa riqueza petroleira e dissuadir aventureiros”.

Os estadunidenses estão registrando com preocupação a instalação de fábricas de fuzis Kalashinikov na Venezuela, a compra de aviões Sukoy, a construção cooperada por Brasil e Argentina do carro de combate Gaúcho, os planos para a integração industrial aeronáutica brasileira-argentina, a integração energética em curso entre Brasil-Venezuela-Argentina-Bolívia, a integração educacional-social entre Cuba, Venezuela, Argentina, Bolívia, com médicos e professores cubanos semeando humanismo, saúde e cultura por aí.

A resposta a tudo isto é a Quarta Frota, o bombardeiro dos EUA ao território do Equador, as provocações desestabilizadoras contra o Governo Evo Morales na Bolívia, a sabotagem produtiva da oligarquia contra Cristina Kirchner. E, agora, a revista Cambio indicando a insatisfação dos EUA com a política externa brasileira e também de segmentos mais à direita no espectro colombiano, contra os acordos da Colômbia com o Brasil, ou contra a Venezuela, Afinal, para quem a burguesia industrial da Colômbia vai vender, se os EUA não lhes oferecem mercado, mas apenas que comprem armas…..

Mas, há os que querem ver na proposta de que as Farc tomem iniciativas no campo político, com todo o risco, dificuldade e complexidade que isso signifique, apenas uma capitulação dos que apregoam tal posição. É como se numa guerra fosse indigno recuar num momento, preservar posições, desistir transitoriamente de um objetivo, trocá-lo por outro, como se não fosse inevitável recarregar, reagrupar, redimensionar, sintonizar com as mudanças políticas internacionais, as novas relações de força que surgem. Ou seja, ou se mantém inabalavelmente o mesmo método de luta ou será indigno de chamar-se revolucionário. É como se houvesse apenas duas cores na natureza, o branco e o preto…

A esquerda está desafiada a desenvolver política e táticas que reforcem essa frente antiimperialista em estruturação e expansão a partir dos novos governos progressistas eleitos, produzindo iniciativas que possam reforçar seus fatores mais avançados e outras que permitam encorajá-los na superação de suas limitações mais complexas. Mas, esse debate pouco resultado terá a partir de condenações moralistas, repreensões professorais e pitos da mesma ordem.

*Jornalista

Pasolini vive

De Veneza

O melhor filme que vi, no sexagésimo quinto Festival de Veneza, foi o documentário La Rabbia de Pasolini, 1960, só agora concluido por Giuseppe Bertolucci. Obra prima global e contundente ainda que quase cinquentona.

O que difere este dos outros filmes em exibição é que a maioria dos novos diretores não discute idéias. São, apenas, obras audiovisuais em que a ideologia e a crítica desapareceram.

Com a obra, absolutamente, poética, Pasolini, na década de 60, realizou um filme eterno, cujos ersonagens são os grande líderes mundiais do período, de Eisenhower a Nikita Kruchov, de Fidel Castro a Mao Tsé Tung, De Gaule a rainha Elizabeth.

Todas as lideranças são passadas a limpo na história que questiona as vertentes de todas as correntes políticas globais. As cenas são arquivos de cinejornais e imagens de cinematecas que resultam em impressionante panorama de nossos tempos modernos.

Em Veneza, mesmo Watchbird, produção italo brasileira patrocinada pela CSN, que aborda a questão indígena, patina no terreno apenas factual.

Falta cinema no festival de Veneza que, como Cannes, transformou-se numa mostra banal de quem paga mais. Uma competição como o Oscar americano.

Aliás todos os grandes festivais da atualidade, ao que parece, estão premiando obras  mais ao agrado da indústria das armas.

Por exemplo: em 2008, Hollywood deu Oscar para No Coutry for Old Man; Berlim, Urso de Ouro para Tropa de Elite;  Cannes deu Palma D’Oro  para Camorra, todos esbanjando violência gratuita em nome da sétima arte.

A indústria cinematográfica atira no próprio pé.

Não estaria aí um movimento para extinguir o estado da arte?

Aguardo ansiosamente que Win Wenders, o Presidente do Juri do festival Veneza dê um basta nesta sequência, no mínimo para ser coerente com a própria filmografia.

Referendo para o pré-sal

Quando o presidente Lula declarou que o petróleo recém descoberto na camada pré-sal é do povo brasileiro e não de meia dúzia de transnacionais, que a Petrobrás é do Brasil e não o Brasil da Petrobrás,  e quando convocou a UNE para sair às ruas e reeditar uma nova “Campanha “O petróleo é nosso”, chamou contra si o ódio da tirania petroleira mundial. A mesma tirania imperialista que hoje ocupa militarmente o Iraque, o Afeganistão, que deu um golpe de estado contra o presidente Hugo Chávez, na Venezuela e tenta desestabilizar o governo de Evo Morales, na Bolívia, desde que estes iniciaram a nacionalização do petróleo e demais fontes de riqueza nacional, por meio de atos soberanos, com o apoio de seus respectivos povos.

A história ensina que qualquer mandatário que ouse desafiar os indecentes privilégios das multinacionais do petróleo vira alvo de campanhas de desestabilização, de golpes de estado, de atentados, não raro são levados à morte. Foi o que aconteceu com o General Mossadeg, que estatizou o petróleo no Irã, derrubado por um golpe de estado organizado pela CIA em 1953, a mando da tirania petroleira, colocando no poder o colonizado Xá da Pérsia, que lá ficou até ser varrido pela Revolução Islâmica de 1979, que novamente reestatizou o petróleo, recuperando o nacionalismo de Mossadeg.

Isto também ocorreu com Vargas, alvo de campanha midiática de desestabilização que precedia um golpe militar, apenas interrompido com o seu suicídio. Como ele denuncia em sua inapagável Carta Testamento – um documento histórico que deve ser divulgado mundialmente – os imperialistas jamais aceitaram o monopólio estatal do petróleo brasileiro e a criação da Petrobrás. Em 1954 o povo não pode decidir, não pode se organizar para evitar aquela tragédia, apenas manifestou sua fúria após o suicídio do presidente, saindo às ruas e empastelando todos os jornais que faziam campanha contra Vargas. O suicídio adiou o golpe por 10 anos, até 31 de março de 1964.

As declarações do presidente Lula são dramaticamente corajosas porque retomam o direito do povo brasileiro de decidir soberanamente como usar suas riquezas. Lula vai mais além ao afirmar que esta imensa riqueza do petróleo pré-sal pertence ao povo brasileiro e deve ser utilizada para pagar a dívida social, com investimentos em educação e saúde. Acena contra a submissão à “maldição do petróleo”, aquela que se abateu sobre países ricos em petróleo mas com esta riqueza rapinada pela tirania petroleira mundial e por isso não conseguiram sair da miséria, industrializar-se. Só agora a Venezuela está investindo a riqueza do petróleo em habitação, educação, na construção de ferrovias, na instalação de indústrias, de moradias, de infra-estrutura. Lula já disse que este petróleo não será exportado cru. Propõe corretamente o desenvolvimento de uma indústria petroquímica, e membros do governo têm defendido abertamente a re-nacionalização do setor de fertilizantes. Menciona-se também, corretamente, que esta riqueza petroleira deve servir para ampliar a capacidade de defesa do Brasil, hoje precária, inclusive com o desenvolvimento de submarinos nucleares, cujo projeto já tem recebido mais recursos orçamentários, uma decisão política estratégica, que deve ser apoiada publicamente..

Pela importância das declarações de princípio sustentadas corajosamente pelo presidente Lula, sinalizando de que há a necessidade de uma intervenção estatal de maior alcance e mudanças amplas na Lei de Petróleo para que este petróleo pré-sal não seja apenas repassado a uma Petrobrás hoje controlada, em boa medida, por acionistas estrangeiros – o que significaria uma automática internacionalização deste patrimônio recém descoberto – fica clara a necessidade de que o Povo Brasileiro seja convocado a ser o protagonista desta verdadeira encruzilhada histórica. Um ato de soberania como este sinalizado por Lula não pode ser concretizado, no mundo atual, sem plena participação popular, com os brasileiros sendo convocados a debater, a deliberar, e a sustentar conscientemente esta decisão histórica, pela qual o Brasil pode sim ser alvo de represálias, como já foi no passado.

Por isso, é decisivo que o governo federal convoque oficialmente um REFERENDO POPULAR, através de mensagem ao Congresso Nacional, no qual haveria a possibilidade de debate amplo – como reivindica Lula – através dos meios de comunicação, com horário gratuito em cadeia nacional de TV e Rádio para a exposição das alternativas para o aproveitamento soberano desta riqueza petroleira em favor do povo brasileiro. Que todos os partidos, os técnicos, os especialistas, os movimentos sociais, os empresários e também as Forças Armadas sejam convocados a expor suas plataformas para evitar que esta riqueza seja rapinada dos brasileiros..É indispensável ter claro os riscos que a convocação feita pelo Presidente Lula implica. A história está aí para nos ensinar. Por isso mesmo, a única maneira de desmascarar aqueles que por meio de um jogo de palavras defendem a privatização e desnacionalização desta riqueza, é imperativo que o povo seja convocado a decidir sobre o que fazer com o petróleo pré-sal, inclusive assegurando que o governo Lula não seja alvo de ações de desestabilização por parte das petroleiras imperialistas, através da mídia pré-paga, controlada pelos anunciantes e pelos eternos inimigos da Era Vargas.