Lula ganha de Chavez espaço na crise boliviana

O presidente Lula ganhou importante espaço político no contexto da crise boliviana, para tentar coordenar a conciliação entre governo e oposição. Está deslocando, com discurso conciliador, o presidente Hugo Chavez, que optou pelo discurso incendiário.

O presidente Evo Morales, contatado pelo titular do Planalto, na semana passada, para ajudar nos entendimentos, recusou apoio, num primeiro momento. A oposição, diante do vácuo, entrou pedindo o passe de Lula para ser agente da solução de consenso entre as duas partes em confronto.

Morales, sob pressão violenta dos adversários, ao dispensar a oferta lulista, deu a entender dispor de cacife suficiente. Não emplacou. A oposição mostrou força. Morales, então, foi ao contra-ataque, para expulsar o embaixador americano, considerando-o fomentador dos conflitos no país, articulado com a força reacionária, contrária ao avanço da democracia direta por meio de referendo. 

A próxima batalha, nesse sentido, deverá ser em 7 de dezembro, quando haverá ou não ratificação, pela população, da nova Constituição, que faz avançar o poder popular, hoje, em mãos dos indígenas, cujo líder maior é o presidente Morales.

Nessa Constituição, tirada de Assembléia Constituinte revolucionária, os estados mais ricos poderão perder autonomia e riqueza. Neles, estão as grandes fontes de petróleo e gás, sobre as quais Morales quer ampliar cobrança de impostos, para bancar programas sociais. Deseja fazer reformas do capitalismo boliviano, semelhantes às em curso, no Brasil, como forma de estabilizar crescimento e inflação, via melhor distribuição da renda nacional.

 

Precipitação chavista

Nesse contexto, em meio à reação diplomática radical de Morales, o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, apostando no acirramento diplomático, agiu de forma semelhante, expulsando, no mesmo dia, em solidariedade ao colega boliviano, o embaixador americano no país, enquanto destaca, simultaneamente, que estava desarmando complô golpista contra seu governo.

A corda esticou, puxada pelos dois presidentes, Evo e Hugo, contra Washington, considerada por eles culpada pelo acirramento da crise. Evidenciou, então, para os adversários de Morales que seria impossível contornar a crise boliviana, mediante solidariedade de Chavez a Evo, que dispensara ajuda brasileira ofertada por Lula.

As tensões internas explodiram em dois dias, com 30 mortos e outro tanto de feridos, especialmente, em Pando, para onde tropas governistasse se descolocaram. Evidenciou-se o que os analistas já estavam prevendo: nem a oposição, sozinha, tem condições de vencer a parada, assim como o governo, também, dificilmente, sairia vencedor contra as forças dos oligopólios que dominam a economia nacional, tendo a oposição radicalizada como cabeça de ponte.

Com ambos os lados exaustos, falou alto a defesa feita por Lula pelo entendimento. Só que o apelo para a participação do presidente brasileiro como conciliador não partiu, dessa vez, do presidente Morales, mas dos líderes da oposição.

Ou seja, atenderá o apelo direto dos que são contra Morales, aliado a Chavez, que perdeu, pelo açodamento, condições de liderar, na Bolívia, um consenso, pois radicalizou demais antes da hora.

O que Morales e Chavez deveriam fazer, desde o primeiro momento dos ataques terroristas e fascistas da oposição contra o governo, seria a cobrança ao inimigo deles, o presidente W. Bush, de apoio às forças políticas constitucionais, pois, afinal, os Estados Unidos mantêm cruzada permanente contra os terroristas.

No dia 11 de setembro, teria sido o momento ideal, pois representava data dos atentados terroristas em Nova York, há sete anos. W. Bush, com essa cobrança, ficaria no curé.

Em vez disso, Morales expulsou o embaixador, seguido, no gesto por Hugo Chavez. Deu motivo para Bush ficar na dele, parcial, no ataque, contra as forças democráticas bolivianas, expressas por manobras realizadas pelo seu representante no país, com conhecimento pleno dos seus chefes em Washington, claro.

 

Teste para liderança chilena

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nessa segunda feira, os desobramentos da crise rolam em Santiago, Chile, com reunião da União das Nações Sul Almericanas – UNASUL -, sob presidência da presidente Michelle Bachelet, que a convocou para discutir a crise boliviana.

Será o primeiro teste barra pesa da nova organização continental, nascida para promover as demandas por integração econômica e política da América do Sul.

Lula chega lá polarizando com Chavez, no plano diplomático, fortalecido por ter se tornado elemento que poderá gerar consenso entre as partes em conflito, sabendo que o Brasil é o mais interessado no processo de paz, já que depende do gás boliviano para abastecer as indústrias em estados fortes como São Paulo e Rio de Janeiro.

Pode ser a hora do presidente brasileiro destacar-se no plano diplomático sul-americano, com ênfase, dadas as condições favoráveis que dispõe, tanto no plano político, por estar bombando nas pesquisas de opinião, diante da economia nacional em crescimento, enquanto a economia mundial mantém expectativas pessimistas, mas, também, porque o Brasil, com as descobertas trilhonárias de petróleo, na camada pré-sal, passou a ser respeitado no plano continental e global.

Obtém cacife extraordinário, para ser voz de comando no contexto da união sul-americana, pregando moeda sul-americana, banco central sul-americano, segurança sul-americana, tribunal sul-americano e parlamento sul-americano.

As riquezas sul-americanas sobrevalorizadas no ambiente em que as relações de trocas internacionais vivem incertezas diante da sobredesvalorização do dólar, moeda referencia global, podem ser o lastro da união, com o Brasil despontando-se com maior expressão nessa nova conjuntura. 

Ou a riqueza, em vez de união, geraria discórdia?

Getúlio, atual, pede passagem

“Abra pasos que el Gege va pasar

En la evolución de la historia

Abra pasos para el Gege desfilar

En la memoria popular”

 

Canción “Dr. Getúlio”, de Chico Buarque y Edu Lobo

 

 

En el domingo 24 de agosto hacen 54 años que el presidente Getúlio Vargas dio un tiro en su corazón poniendo fin a una trayectoria marcada por haber liderado la Revolución de 30 con un pueblo armado, dando inicio a una profunda transformación social en Brasil, retirándolo del atraso rural (tarea no terminada sin la Reforma Agraria), nacionalizando sus más importantes fuentes de riqueza e instalando una etapa de derechos laborales y sociales que hasta hoy son blanco de acciones destructivas del neoliberalismo. Lo que se constata es que la Carta Testamento dejada por Vargas en su lecho de muerte es, cada vez más, un documento histórico actual, fértil, inspirador y que convoca a las nuevas generaciones conscientes de la absoluta necesidad de movilizar radicalmente los pueblos, a costa de la vida, para organizar y sostener inevitables procesos de rupturas con el marco de dominación y expoliación impuesto por las transnacionales que comandan la economía internacional en nombre de una oligarquía imperialista dispuesta a todo para mantener este régimen criminal.

 

Hay muchas maneras de comprobar la actualidad de Vargas para nuestros días, pero, este es un simples artículo, más destinado a homenajear y rememorar este gaucho que partió del Rio Grande del Sud, al frente de un pueblo rebelde, organizado y armado, que realizó una marcha victoriosa que llegó a Rio de Janeiro en 3 de octubre de 1930. Ante todo porque lanza por tierra muchos mitos que la sociología política conservadora, instalada confortablemente en la academia, remunerada y orientada por ideologías colonizadoras, construyó tergiversando para impedir la verdadera valoración histórica de los grandes líderes nacionalistas de América Latina, tales como Vargas, Perón, Alvarado, Cárdenas, presentándolos de modo simplificado y grotesco, ora como populistas, ora como fascistas, ora como corruptos, o todo junto. Toneladas de papeles se han escrito contra ellos, contra el nacionalismo transformador, presentándolo como una idea ultrapasada. Tan ultrapasada que hoy aún siguen, los institutos y fundaciones sostenidas por el imperio, obrando intensamente para impedir la más mínima divulgación de informaciones objetivas y veraces que permitan la recuperación de la verdad histórica.

 

Así, Perón, 3 décadas después de su muerte, sigue siendo el político más atacado en Argentina por la tiranía mediática, por la academia conservadora, por los defensores de los eternos privilegios de las oligarquías. Del mismo modo, Vargas fue el blanco principal de la década de la devastación liberal en la cual los gobiernos, sobretodo el de Fernando Henrique Cardoso, planteaban: derrumbar la Era Vargas. O sea, quebrar el monopolio estatal del petróleo, dar inicio a un proceso indirecto de privatización de la Petrobrás, privatizar las telecomunicaciones, la energía eléctrica, los ferrocarriles, la industria de seguros, la marina mercante, o sea, todo un proceso de construcción de un modelo de desarrollo basado en el estado, que se inicia con la Revolución de 30, liderada por Vargas y sostenida por un pueblo armado. Al inicio de esta revolución, en apenas un día, en el Rio Grande del Sur, 40 mil hombres se alistaran para recibir armas atendiendo a una convocatoria de Vargas para organizar el ejército que derrumbaría el gobierno colonial-oligárquico del presidente Washington Luís, de quién se conoce su pensamiento más famoso: “huelgas son casos de policía, no sociales”.

 

Vargas y el pueblo armado

 

La Revolución de 1930, en la cual Vargas invita Luís Carlos Prestes a ser el jefe armado de la misma, y este recusa  a la misma invitación, ( ya muy influenciado por la visión sectaria-mecanicista y anti-dialéctica del stalinismo ) , tira por tierra una abundante literatura sociológica y política según la cual la alienación es siempre hegemónica, que el pueblo brasileño es un eterno acomodado, incapaz de una justa actitud rebelde,que las nuevas generaciones no se alzan por causas y ideas rebeldes y transformadoras. Vargas y su Revolución de 1930 lo desmiente cabalmente a toda esta literatura que objetiva justificar un conformismo y, para eso, tiene que evitar también que las nuevas generaciones se pongan en contacto con la verdad histórica. Pero, es cada vez más difícil evitar el conocimiento de esta verdad, pues ahí está Telesur recuperando y divulgando ampliamente lo que fue el peronismo, lo que fue el gobierno de Allende, lo que ha pasado en Guatemala en 1954, en Colombia con Gaitan en 1948. O sea, la memoria del fuego de las inapagables luchas revolucionarias de los pueblos latinoamericanos está saliendo a luz, gracias a la Revolución Bolivariana y a Telesur y a todas las luchas de los pueblos de la región que estan instalando gobiernos progresistas a cada dia más, como lo de Cristina, Lula, Evo Morales, Rafael Correa, Fernando Lugo, Tabaré, Ortega, etc…

 

La actualidad del pensamiento político de Vargas también se revitaliza en el mismo instante en que Brasil acaba de descubrir un gran mar de petróleo en las profundidades del pré-sal. Fue exactamente el petróleo el principal causador de la muerte de Vargas como él deja clarito en su Carta Testamento que debería de ser conocida en todos los sindicatos del América Latina, por todos los pueblos, en todas las escuelas. Así como en Venezuela la Revolución Bolivariana está democratizando el Don Quijote, los escritos del escritor brasileño Machado de Assis, los escritos de Che Guevara, publicados y distribuidos gratuitamente en centenas de millares, también se recomienda que esta generosidad venezolana publique este candente documento histórico de Getúlio Vargas, su Carta Testamento, que termina diciendo: “dejo la vida para entrar en la Historia!”

 

Haciendo renacer a Vargas, Lula llama a los estudiantes a salir a las calles en una nueva campana por “El petróleo es nuestro”, campana que resultó en la Petrobrás. Y Vargas fue llevado a la muerte exactamente 30 días después de haber firmado la ley de la Petrobrás. Ahora, Lula propone que el “petróleo sea del pueblo brasileño, no de media docena de transnacionales que lo explotan”. Y llama a los estudiantes, hasta ahora paralizados en esta lucha. En eso está la actualidad de Vargas. Fue en 1934, durante su primer gobierno, que Vargas nacionalizó los yacimientos minerales, el subsuelo y los recursos hídricos. Después, en 1938, en el Estado Nuevo, durante una reunión del Estado-Mayor del Ejército Brasileño, el gobierno Vargas dio inicio a una marcha definitiva para la construcción de Petrobrás, avanzando en una serie de medidas de nacionalización de la explotación, del refino, etc…, del petróleo, aún antes de que se construyera la empresa.

 

Vargas siempre vuelve en momentos cruciales de la historia política brasileña. En 2005, cuando una fuerte articulación conservadora fue lanzada para desestabilizar el gobierno Lula, incluso para que renunciara, o para que no se postulara para la reelección como le garantiza la ley, el presidente brasileño, en el auge de las presiones que recibía, recordó el presidente gaucho. Dijo que no iría suicidar-se como Vargas, que no iría renunciar como Jânio Quadros – que renunció en 1961 después de haber condecorado a Guevara y conducir una política externa de acercamiento a la URSS y China – y que no sería derrocado como Jango Goulart.

 

Ahora, Lula vuelve prácticamente a recordar Vargas proponiendo una nueva campaña “El Petróleo es Nuestro!”; campaña que unió obreros, militares, estudiantes, amas-de-casa, intelectuales y artistas y logró su intento. Sin embargo, hoy, Petrobrás está sometida a una fuerte influencia de accionistas extranjeros privados que se quedan con la mayor parte de su extraordinaria ganancia. Y Lula ha dicho que el petróleo tiene que servir para el pago de la inmensa deuda social histórica que se ha acumulado contra el pueblo brasileño. Estamos en una encrucijada de la política brasileña. Lula ha reabierto el debate para como garantizar que los nuevos yacimientos descubiertos sirvan para la educación, la salud, para aplacar la miseria del pueblo brasileño, el que detiene tantas riquezas que no debería siquiera conocer la pobreza. Lula y la Ministra Dilma Roussef están hablando de “La maldición del petróleo”, aquél que victima países ricos en ese mineral, que lo exportan, enriquecen los exploradores, pero siguen sin industrializar-se, sin desarrollar su agricultura, sin elevar sus condiciones sociales, como durante tanto tiempo se hizo en la Venezuela pré-Bolivariana, cuando era prohibido sembrar petróleo y aquél país tenía el más indecente consumo de caviar y champagne por parte de su oligarquía petrolera, mientras el país no tenia ni industria, ni agriculturaque solo ahora esta construyendo .

 

Nuevamente, en eso está la actualidad de Vargas: no hay posibilidad de que las riquezas del petróleo o otras sean utilizadas en beneficio del pueblo, en los países sub-desarrollados, sin el control estatal, sin planificación estatal, sin control social de las fuentes decisivas de riquezas. De esa manera, cuando en todo el mundo se nacionaliza el petróleo y el gas – sea en Venezuela, Bolivia, Ecuador, Rusia, China, y en México se lucha por defender la Pemex – son nuevamente las ideas de Vargas, de Cárdenas y de Perón que vuelven a la luz de la agenda política, pero ahora con alcances más profundos, obligando a que una grande parte de la izquierda y de los movimientos progresistas que tuvieran dificultad de comprender lo que fue el varguismo, el peronismo y el cardenismo, reconsideren sus evaluaciones de entonces . Por ejemplo: mientras Vargas y Cárdenas estaban nacionalizando el petróleo, los ferrocarriles, los medios de comunicación, y Trotsky sugería una alianza táctica de los revolucionarios con este nacionalismo en los cuales veía un gran potencial revolucionario, sectores comunistas-stalinistas se oponían a Vargas, a Cárdenas, como más tarde se opusieran a Perón, calificándolos o de populistas o de fascistas; como también se opusieran a Alvarado en Peru; como también no han comprendido las estatizaciones hechas por el general nacionalista Mossadeg enIran, derrumbado por la CIA también en la década del 50, para instalar el sanguinario gobierno del Xá.

 

Vargas, Chávez y el nacionalismo revolucionario

 

Vargas vive en cada nacionalización que se hace en Venezuela y Bolivia, asi como vive su plena actualidad cuando el Movimiento de los Sin Tierra y los movimentos sociales y sindnicales de Brasil organizan una campaña para la re-naciacionalización de la empresa Vale do Rio Doce, creada también en la Era Vargas, una alianza politica concreta entre los movimentos sociales y el nacionalismo-revolucionário tal como hoy ocurre también en Ecuador, en Paraguay y en Argentina. Por eso es tan importante cuando el presidente Hugo Chávez en sus visitas a Brasil recuerda a Vargas, a Tiradentes, a Abreu e Lima, porque son parte fundamental de la historia del pueblo brasileño, para su verdadera independencia, todavía por ser conquistada en su plenitud. Para eso es necesario apoyar el llamado “varguista” que hace Lula para que el petróleo sea de hecho del pueblo brasileño no de las transnacionales que rapiñan la ganancia de la Petrobrás sin haber puesto a rigor nada de tecnología y sin correr ningún riesgo para pesquisar y encontrar el petróleo que está a una profundidad de más de 6 mil metros en el mar. Pues cuando Vargas se propuso a fundar la Petrobrás se desató una fiera campaña de mentiras y desestabilización que alardeaba por los medios de comunicación, que ya entonces practicaban el terrorismo mediático, que no había petróleo en Brasil.

 

Al hacer el homenaje a Vargas en esta fecha de heroísmo y dolor para el pueblo brasileño, el 24 de agosto, hay que decir que la sangre de Vargas será eternamente una llama encendida de rebeldía y independencia, no solamente para los brasileños, pero también para los pueblos latinoamericanos, para que jamás volvamos a tener el martirio de presidentes, como ha escrito Flavio Tavares en su libro “El día que Vargas mató Allende”. Es necesario apoyar el llamado que Lula hace a los brasileños para nacionalizar de verdad el petróleo, todo el petróleo y re-nacionalizar la Petrobrás, reviviendo a Vargas, fortaleciendo el protagonismo del estado, el control social, democratizando las tierras, impidiendo que sean desnacionalizadas por los que quieren internacionalizar tanto el petróleo como el bio-combustible, que también debe ser estatal y bajo control del pueblo, en alianza con la agricultura familiar y los asentamientos de los sin-tierras, cambiando el modelo económico. Solo así, uno de los pensamientos más profundos que nos dejó Vargas en su Carta Testamento tendrá vigencia total y amplia: “yo les dejo mi sangre y tengo la certeza que el pueblo del cual fui esclavo no será más esclavo de nadie”.

Imperialismo petrolífero

É o petróleo, estúpido! O acordo que se perfila entre o ministério iraquiano do petróleo e quatro companhias petrolíferas ocidentais levanta questões delicadas quanto aos motivos da invasão e da ocupação do Iraque pelos Estados Unidos. Estas questões deviam ser levantadas pelos candidatos às eleições presidenciais e discutidas seriamente nos Estados Unidos, assim como no Iraque ocupado, onde parece que a população desempenha apenas um papel menor – se é que desempenha – na definição do futuro do país.
As negociações relativas à renovação das concessões petrolíferas, perdidas aquando das nacionalizações que permitiram aos países produtores recuperar o controle dos seus próprios recursos, estão bem encaminhadas para serem entregues à Exxon Mobil, Shell, Total e BP. Estes parceiros originais da Companhia Petrolífera Iraquiana são acompanhados agora pela Chevron e por outras companhias petrolíferas de menor dimensão. Estes contratos negociados sem concorrência, aparentemente redigidos pelas companhias petrolíferas com a ajuda dos oficiais americanos, foram preferidos às ofertas formuladas por mais de 40 outras companhias, especialmente chinesas, indianas e russas.
“O mundo árabe e parte das população americana suspeitavam que os Estados Unidos tinham entrado em guerra precisamente para proteger a riqueza petrolífera que estes contratos procuram garantir” escreveu Andrew E. Kramer no New York Times. A referência de Kramer a uma suspeita é um eufemismo. É além disso mais provável que a ocupação militar tenha ela própria impulsionado a restauração de uma odiada Companhia Petrolífera Iraquiana, instalada na época da dominação britânica afim de “se alimentar com a riqueza do Iraque no quadro de um acordo notoriamente desequilibrado”, como escreveu Seamus Milne no Guardian.
Os últimos relatórios evocam atrasos na apreciação das ofertas. O essencial desenrola-se sob o signo do segredo e não seria surpreendente que surgissem novos escândalos.
A necessidade dificilmente poderia ser mais premente. O Iraque possui provavelmente a segunda reserva mundial de petróleo, que se caracteriza além disso por baixos custos de extracção: sem permafrost [1], nem areias betuminosas a transpor, nem perfuração em águas profundas para empreender. Para os planificadores americanos, é imperioso que o Iraque permaneça, na medida do possível, sob o controlo dos Estados Unidos, como um Estado cliente dócil apropriado para acolher bases militares em pleno coração da primeira reserva energética mundial. Que esses eram os objetivos fundamentais da invasão foi sempre claro, apesar da cortina de fumaça de sucessivos pretextos: Armas de destruição maciça, ligações de Saddam com a Al-Qaeda, promoção da democracia e da guerra contra o terrorismo – o qual se desenvolveu radicalmente com a própria invasão, como era previsível.
Em novembro último, estas preocupações tornaram-se explícitas quando o Presidente Bush e o Primeiro ministro iraquiano, Nouri Al-Maliki, assinaram uma “Declaração de princípio”, com total desprezo pelas prerrogativas do Congresso americano e do Parlamento iraquiano, assim como da opinião das respectivas populações.
Esta Declaração permite uma presença militar indefinida no Iraque, em coerência com a edificação em curso de gigantescas bases aéreas em todo o país, e da “embaixada” em Bagdade, uma cidade na cidade, sem qualquer semelhança em todo o mundo. Tudo isto não é construído para ser em seguida abandonado.
A declaração encobre igualmente uma descarada afirmação quanto à exploração dos recursos do Iraque. Nela se afirma que a economia iraquiana, isto é os seus recursos petrolíferos, deve ser aberta aos investimentos estrangeiros, “especialmente americanos”. Isto é quase como um anúncio de que vos invadimos para controlar o vosso país e dispor de um acesso privilegiado aos vossos recursos.
A seriedade destas intenções foi sublinhada pelo “signing statement”[2] do Presidente Bush declarando que rejeitará qualquer texto do Congresso suscetível de restringir o financiamento necessário para permitir “o estabelecimento de qualquer instalação ou base militar necessária para o abastecimento das Forças Americanas que estão permanentemente estacionadas no Iraque” ou o “controle dos recursos petrolíferos iraquianos pelos Estados Unidos”.
O recurso extensivo aos “signing statements”, que permitem ao poder executivo estender o seu poder, constitui outra das inovações práticas da administração Bush, condenada pela American Bar Association (Associação de advogados americanos) como contrária ao Estado de direito e à separação constitucional dos poderes”.
Sem surpresa, a declaração provocou imediatos protestos no Iraque, entre os quais dos sindicatos iraquianos, que sobrevivem apesar das duras leis anti-sindicais, instituídas por Saddam e mantidas pelo ocupante.
Segundo a propaganda de Washington, é o Irã que ameaça a dominação americana no Iraque. Os problemas americanos no Iraque são todos imputados ao Irã. A Secretária de Estado Condoleeza Rice sugere uma solução simples: “as forças estrangeiras” e os “exércitos estrangeiros” deveriam ser retirados do Iraque – os do Irã, não os nossos.
O confronto quanto ao programa nuclear iraniano reforça ainda as tensões. A política de “mudança do regime” conduzida pela administração Bush a respeito do Irã é acompanhada da ameaça do recurso à força (neste ponto Bush não é contraditado por qualquer dos dois candidatos à sua sucessão). Esta política igualmente legitima o terrorismo em território iraniano. A maioria dos americanos prefere a via diplomática e opõe-se ao uso da força, mas a opinião pública é em grande parte irrelevante, e não só neste caso.
Uma ironia é que o Iraque está se transformando pouco a pouco num condomínio americano-iraniano. O governo de Maliki é a componente da sociedade iraquiana sustentada ativamente pelo Irã. O chamado exército iraquiano – exactamente uma milícia entre outras – é largamente constituído pela brigada Badr, treinada no Irã e que foi constituída do lado iraniano durante a guerra Irã-Iraque.
Nir Rosen, um dos correspondentes mais astuciosos lá presentes e profundo conhecedor da região, salienta que o alvo principal das operações militares conduzidas conjuntamente pelos Estados Unidos e por Maliki, Moqtada Al-Sadr, já não recolhe os favores do Irã: independente e beneficiando de apoio popular, esta facção é perigosa para este país.
O Irã, segundo Rosen, “apoiou claramente o Primeiro ministro Maliki e o governo iraquiano, na altura do recente conflito em Bassra, contra o que eles descrevem como ‘os grupos armados ilegais’ (do exército Mahdi de Moqtada)”, “o que não é surpreendente tendo em conta que o seu principal testa de ferro no Iraque, o Conselho Supremo Islâmico Iraquiano, apoio essencial do governo Maliki, domina o Estado iraquiano.”
“Não há guerra por procuração no Iraque”, conclui Rosen, “porque os Estados Unidos e o Irã partilham o mesmo testa de ferro”.
Podemos presumir que Teerã gosta de ver os Estados Unidos instalarem-se e apoiarem um governo iraquiano receptivo à sua influência. Para o povo iraquiano porém este governo constitui um verdadeiro desastre e vai provavelmente prejudicá-lo mais.
Em termos de relações externas, Steven Simon sublinha que a estratégia contra-insurrecional atual dos Estados Unidos “alimenta as três ameaças que pesam tradicionalmente na estabilidade dos Estados do Médio Oriente: o tribalismo, os senhores da guerra e o sectarismo.” Isto poderia desembocar no surgimento de um “Estado forte e centralizado, dirigido por uma junta militar que poderia assemelhar-se” ao regime de Saddam. Se Washington conseguir os seus fins, então as suas ações estão justificadas. Os atos de Vladimir Putin, quando conseguiu pacificar a Tchechênia de uma maneira bem mais convincente que o general David Petraeus no Iraque, suscitam contudo comentários de outra natureza. Mas isto são eles, nós somos os Estados Unidos. Os critérios são portanto totalmente diferentes.
Nos Estados Unidos, os Democratas são reduzidos ao silêncio pelo pretenso sucesso da ofensiva militar americana no Iraque. Mas o seu silêncio trai a ausência de oposição de princípio à guerra. Segundo a sua forma de ver o mundo, o fato de se alcançarem os fins justifica a guerra e a ocupação. Os apetitosos contratos petrolíferos são obtidos com a conquista do território.
De fato, a invasão no seu conjunto constitui um crime de guerra – crime internacional supremo, que difere dos outros crimes de guerra porque gera, segundo os próprios termos do julgamento de Nuremberg, todo o mal causado em seguida. Isto está entre os assuntos impossíveis de abordar na campanha presidencial ou em qualquer outro quadro. Porque estamos no Iraque? Qual é a nossa dívida para com os iraquianos por ter destruído o seu país? A maioria do povo americano deseja a retirada das tropas americanas do Iraque. A sua voz tem importância?

Publicado em Khaleej Times a 8 de Julho de 2008, disponível em chomsky.info.
Tradução de Carlos Santos (esquerda.net)
1] Permafrost – tipo de solo das regiões árticas, permanentemente congelado.
[2] Ato pelo qual o Presidente dos Estados Unidos modifica o significado de um texto de lei.

Vida honrada

Quando, no dia 17 de maio de 1985, Emília nasceu, quis registrar o esplendor. Fui em busca das palavras. E quando já me parecia impossível a tarefa, porque me vieram tantas, gravei num pedaço de papel:

“Nasceu Emília e isso basta! Para que outras palavras para quem todas as palavras não bastam?”.

Estas ainda são as palavras. Agora, não para Emília, mas para mim mesmo e aos meus , eu precisei de outras palavras. E tantas novamente encontrei. Mas desta vez, só pude organizá-las numa extensa metáfora.

E como eu me encontrasse suspenso sobre o abismo, olhei para além desse abismo e vi um vasto jardim. Que eu já vislumbrava, mas ainda não percorrera. Olhei então para traz e reconheci. Era o salão da memória e das lembranças. Saltei o abismo e cheguei ao salão.

Nele, as folhas dos livros vinham até mim e me contavam toda a história. Nele, se o silêncio surgisse absoluto como uma surdez exasperante, uma música suave tocava. Um sorriso conhecido do nada surgiria quando eu, olhando-me no espelho, não me reconhecessse. A voz mais bela eu ouviria, quando a minha própria voz se perdesse.

E nele fui andando e vi que um salão terminava em outro salão, que termina em outro e em outro… Andei até compreender que aquele era o caminho para o infinito das origens. Diante dessa certeza voltei, porque a compreensão iluminava todo o resto.

Já sobre o abismo, uma ponte se formara. E ela estampava em suas vigas nomes e rostos conhecidos. E todos eram bons. Atravessei. Na entrada do jardim, um convite, que também era uma advertência: “Entre sem pressa, porque afinal, ninguém chegará mesmo aos meus limites”. Havia planíceis sem fim, vales profundos, montanhas majestosas. Tudo iluminado pelo sol das primeiras horas da manhã.

Pisei sobre ervas miúdas, dessas que a gente nem procura saber o nome. E como era macia a relva, tirei os sapatos, as meias e, descalço, prossegui. Encontrei um campo de flores, de cores conhecidas e outras que jamais vira. Tão delicadas que me aproximei apenas até o limite de não tocá-las.  E o perfume delas era doce.

Adiante, abracei troncos de árvores. E como eram fortes, eu me senti forte. Pássaros vieram até mim e aprendi a cantar. Outros voaram tão alto, como se nuvens fossem. Bebi em fontes cristalinas. Encontrei respostas a perguntas que sequer fizera. Num bosque ao lado, o vento soprava uma música diversa.

Ali eu já entendera que quanto mais eu andasse, mais o horizonte se estenderia. Porque os sonhos se desdobram em sonhos, que se abrem em outros sonhos que a outros sonhos levam. Então parei. Se alguém olhasse, nem me veria, pois já me dissolvera na indivisível paisagem.

Agora, de volta à ponte sobre o abismo, estamos mais prontos para seguir em frente. Somos os sobreviventes de um evento atroz. E aos sobreviventes, cabe honra a vida e ela sera honrada.

A vida é celebração e como a celebramos tão intensamente, às vezes nos cobram uma dor imensa. Mas, se em algum momento o músculo ameaçar romper-se, sabemos onde encontra a fibra.

A fonte estará sempre próxima de onde estivermos. No salão das lembranças, no jardim dos sonhos, nada nos faltará. E a vida seguirá pelos tempos inesgotáveis.

Emilia Cunha Borges(17.05.1985-25.05.2008)

Afronta à América do Sul

A decisão do governo dos EUA de reativar a Quarta Frota Naval destinada a vigiar os mares da América Latina provoca ondas desafiadoras para as autoridades encarregadas da elaboração das políticas de defesa em cada um dos países da região. E também marolas no debate em círculos de intelectuais de esquerda ou não, nos meios de comunicação e na academia, com doses de subjetivismo e abstracionismo variadas e surpreendentes, quando a decisão estadunidense é repleta de ameaças sombrias, mas concretas, obrigando mesmo a uma atualização política cuidadosa.Surpreendente e patético, por exemplo, é o artigo do sociólogo estadunidense James Petras criticando Fidel Castro por ter desenvolvido em suas reflexões mais recentes  uma análise que aponta para a necessidade de uma solução política para a grave questão colombiana, realçando as dificuldades para uma vitória militar das Farc nestas novas condições da história. O professor universitário nos EUA, do alto de sua enorme experiência exclusivamente acadêmica, chega mesmo a tentar dar aulas a Fidel Castro sobre luta armada, ética revolucionária, terminando seu artigo com uma assustadora repreensão moral ao líder cubano. O artigo fala por si.

Outra tática, outros métodos

A ciência da tática revolucionária para cada situação histórica exige mesmo desprendimento de conceitos estáticos e dos moralismos abstratos, como se a opção por uma luta armada em determinado momento não pudesse ser transformada em opção por outra forma de ação política igualmente revolucionária, em outro momento, com métodos que incluem até mesmo a clássica participação eleitoral, ainda que os objetivos de transformação social adotados lá atrás, quando da opção pela luta armada, sejam rigorosamente mantidos.

É claro que houve muita capitulação, sobretudo nas fileiras dos partidos comunistas numa determina época e isso pode confundir. Mas isto não invalida esta possibilidade histórica. Não é o moralismo religioso em torno da luta armada que poderá resolver os problemas e os desafios colocados pela alteração desfavorável das relações de força internacionais. Tal como ocorreu com a desorganização da União Soviética.

A luta revolucionária não se paralisou, seja na sua opção armada ou na via política de massas, ainda que a desorganização da URSS tenha produzido um desconcerto generalizado no campo progressista internacional. Novos conceitos, novas táticas, novos métodos de luta tiveram que ser encontrados diante da ofensiva militar (Iugoslávia, Panamá, Iraque) e ideológica do capitalismo apregoando o fracasso histórico do socialismo e até mesmo o fim da própria história.

Mas esta alteração negativa nas relações de forças internacionais produziu condições para a derrota temporária ou transitória de muitos processos revolucionários. A derrota do Governo Sandinista, em 1990, por exemplo, embora não se devam esquecer as limitações internas que ajudaram naquele retrocesso.  Pois mudada a situação histórica, o guerrilheiro Daniel Ortega hoje volta ao poder pela via eleitoral. Para novos tempos, nova tática, outros métodos.

Chávez: da insurreição ao voto; do voto à revolução

Chávez também tentou a insurreição armada em 1992, que, apesar de fracassada em seu intento inicial, transformou-o no líder revolucionário que anos mais tarde, pela via eleitoral, assume o comando da Venezuela Bolivariana e vai produzindo transformações de natureza socialista e levando a Venezuela a ser um centro de animação revolucionária para toda América Latina.

Em uma entrevista televisiva no Brasil, concedida à Telesur, à TV Paraná Educativa e à TV Comunitária de Brasília, Chávez lembrou que quando jovem oficial foi incumbido de controlar guerrilheiros em seu país e que “por pouco não se passou para o lado da guerrilha”. Por sorte, não se passou e tem agora, a oportunidade de cumprir o papel histórico que está a cumprir, preconizando a integração latino-americana sobre bases soberanas e transformadoras, e relançando mundialmente o debate sobre “a volta do socialismo” que pretende, como disse nessa entrevista, levar ao Fórum Social Mundial de Belém do Pará. Cada método de luta revolucionária, para cada momento e condição da história.

O relançamento da Quarta Frota é uma resposta dos EUA à constituição de vários governos progressistas e de esquerda na América Latina. E também à idéia da integração latino-americana, com a formação de um Conselho de Defesa da América do Sul, sem participação dos Eua, pretendida por eles, e também após a derrota da proposta estadunidense da Alca para a qual, segundo disse Chávez, foi decisiva a posição firme do governo Lula.

Provavelmente o professor Petras, em sua larga experiência ……..acadêmica, tenha dificuldade de observar que na luta de classes surgem situações completamente imprevistas para os leitores ortodoxos de textos revolucionários, obrigando a adoção de métodos e táticas que muitas vezes podem ser considerados como heresia para os que fazem da defesa religiosa e moralista da luta armada .

A Unasul e as condições para novas iniciativas progressistas

As análises de Fidel mostram exatamente uma visão geoestratégica e tática apoiada na nova condição da América Latina, com seus governos progressistas, com a perda de influência dos EUA e que por isso mesmo, podem agarrar-se à conturbada situação colombiana para justificar mais presença militar, tensões exclusivamente militares, já que suas teses têm sido derrotadas nas urnas de cada país, nas reuniões da OEA, na constituição da Unasul, a formação do Conselho de Defesa Sul-Americano etc.

Os EUA precisam provocar uma tensão que lhe permita justificar ações no campo militar. Por isso, a Quarta Frota ou o ataque ao acampamento das Farc em território equatoriano, com mísseis dos EUA e total planejamento e inteligência típica dos israelitas. Mesmo assim, jornalistas progressistas, um pouco na linha isolacionista de Petras, chegaram a ver naquele ataque às Farc a participação de tecnologia e inteligência brasileiras. Ou seja, ótimo para provocar desconfianças mútuas no campo progressista e dificultar a tese subjacente à constituição do Conselho de Defesa da Unasul: a integração das políticas de defesa e da indústria militar dos países-membros.

A provocação da revista Cambio, que levantou a fantasmagórica tese de vinculação de membros do Governo Lula com as Farc, nada mais é que a nova escalada de provocações que está em curso, como parte das ondas e marolas causadas pela reativação da Quarta Frota. Por isso, é sumamente importante que o presidente Lula tenha pedido oficialmente ao governo dos EUA explicações para a presença da Quarta Frota. E apesar disso, é surpreendente a extrema capacidade de não enxergar o óbvio em certas ramas da comunicação, como a do editor de internacional da TV Brasil, Nelson Franco Jobim, que afirmou no programa “Diálogo Nacional” que pura paranóia esta tese da crescente presença militar dos EUA sobre a América Latina.

A melhor resposta ao jornalista é o próprio pedido oficial de explicação do presidente Lula ao governo dos EUA pela Quarta Frota, que também foi rejeitada pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. O experiente senador Pedro Simon criticou a resposta dos EUA em que se afirma que a Quarta Frota tem missão humanitária: “Missão humanitária com arsenal nuclear???”, contestou Simon.

A função revolucionária de Cuba na África

A Quarta Frota é uma ameaça concreta aos governos progressistas latino-americanos. Seja por promoverem políticas que permitem a Cuba furar o bloqueio norte-americano, como é o caso da Alba e também da decisão brasileira de tornar-se “o parceiro número 1 de Cuba”. Para o professor Petras, nada disso tem relevância, afinal, o Governo Lula é apenas “mais um governo neoliberal”.

Na sua patética tentativa de dar lições a Fidel Castro, Petras esquece de muita coisa já cravada, com sangue e heroísmo, definitivamente nas mais nobres páginas da história. Entre elas, a heróica solidariedade de Cuba a Angola, sob a liderança de Fidel Castro e Agostinho Neto, que levou às terras angolanas 350 mil homens e mulheres combatentes cubanos numa das mais fascinantes operações de internacionalismo proletário dos últimos tempos.

Essa gigantesca operação militar-revolucionária teve o seu desfecho na Batalha de Cuito Cuanavale, em 1988, quando tropas angolanas, cubanas e da organização revolucionária da Namíbia, a Swapo, derrotaram o exército racista-imperialista da África do Sul. Segundo Mandela, “Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid!”. E permitiu ao próprio Mandela, e ao movimento revolucionário armado da África do Sul, adotar a nova tática, passando das armas à ação política, com a inteligência das massas sul-africanas, dando continuidade ao heroísmo armado de Cuito-Cuanavale e derrotando o apartheid, levando Mandela ao poder, pelo voto. E Petras pensa em repreender Fidel…..

Fidel, Malvinas e Haiti

O mesmo Fidel Castro, demonstrando que em cada momento histórico são requeridas táticas diferenciadas e audazes, ofereceu ao governo argentino, durante a Guerra das Malvinas, em 1982, a solidariedade das tropas cubanas para lutar contra a Inglaterra. A recusa foi do governo de Galtieri, talvez percebendo, por instinto de classe, o grande efeito revolucionário que a presença de tropas cubanas a lutar na América Latina contra o imperialismo inglês teria sobre a consciência das massas latino-americanas.

É curioso lembrar que, na década de 30, quando havia a ameaça de uma guerra entre Inglaterra e Brasil, Trotsky, recém-chegado ao México, também recomendava que num conflito entre os dois países os revolucionários deveriam estar ao lado de Vargas contra o “democrático” império inglês. Coincidências da história. O mesmo general Cárdenas que havia dado asilo a Trotsky no México, liberou Fidel e Che, que haviam sido presos na capital mexicana, na década de 50, antes do embarque revolucionário no iate Granma, para libertar Cuba do imperialismo e das trevas do subdesenvolvimento colonial.

Os tempos são outros, a nova situação política latino-americana exige outra tática dos movimentos revolucionários mesmo, sem abdicar de seus objetivos, de suas metas. O Fidel que Petras tenta criticar revela também sua visão estratégica ao afirmar, diante de críticas de militantes brasileiros num Fórum em Havana, em 2005, contra a presença militar do Brasil no Haiti: “prefiro militares brasileiros que marines norte-americanos no Haiti”.

Por trás desta ação, ainda que com todas as suas limitações e complexidades – vale destacar que sem a presença dos EUA – está o embrião do Conselho de Defesa Sul-Americano, a proposta de integração da tecnologia e da indústria militares do sul, a proposta de cooperação técnica para construção de um submarino nuclear, pois, como alerta o vice-presidente José Alencar, o “Brasil deve ter seu submarino nuclear para defender sua imensa riqueza petroleira e dissuadir aventureiros”.

Os estadunidenses estão registrando com preocupação a instalação de fábricas de fuzis Kalashinikov na Venezuela, a compra de aviões Sukoy, a construção cooperada por Brasil e Argentina do carro de combate Gaúcho, os planos para a integração industrial aeronáutica brasileira-argentina, a integração energética em curso entre Brasil-Venezuela-Argentina-Bolívia, a integração educacional-social entre Cuba, Venezuela, Argentina, Bolívia, com médicos e professores cubanos semeando humanismo, saúde e cultura por aí.

A resposta a tudo isto é a Quarta Frota, o bombardeiro dos EUA ao território do Equador, as provocações desestabilizadoras contra o Governo Evo Morales na Bolívia, a sabotagem produtiva da oligarquia contra Cristina Kirchner. E, agora, a revista Cambio indicando a insatisfação dos EUA com a política externa brasileira e também de segmentos mais à direita no espectro colombiano, contra os acordos da Colômbia com o Brasil, ou contra a Venezuela, Afinal, para quem a burguesia industrial da Colômbia vai vender, se os EUA não lhes oferecem mercado, mas apenas que comprem armas…..

Mas, há os que querem ver na proposta de que as Farc tomem iniciativas no campo político, com todo o risco, dificuldade e complexidade que isso signifique, apenas uma capitulação dos que apregoam tal posição. É como se numa guerra fosse indigno recuar num momento, preservar posições, desistir transitoriamente de um objetivo, trocá-lo por outro, como se não fosse inevitável recarregar, reagrupar, redimensionar, sintonizar com as mudanças políticas internacionais, as novas relações de força que surgem. Ou seja, ou se mantém inabalavelmente o mesmo método de luta ou será indigno de chamar-se revolucionário. É como se houvesse apenas duas cores na natureza, o branco e o preto…

A esquerda está desafiada a desenvolver política e táticas que reforcem essa frente antiimperialista em estruturação e expansão a partir dos novos governos progressistas eleitos, produzindo iniciativas que possam reforçar seus fatores mais avançados e outras que permitam encorajá-los na superação de suas limitações mais complexas. Mas, esse debate pouco resultado terá a partir de condenações moralistas, repreensões professorais e pitos da mesma ordem.

*Jornalista