Afronta à América do Sul

A decisão do governo dos EUA de reativar a Quarta Frota Naval destinada a vigiar os mares da América Latina provoca ondas desafiadoras para as autoridades encarregadas da elaboração das políticas de defesa em cada um dos países da região. E também marolas no debate em círculos de intelectuais de esquerda ou não, nos meios de comunicação e na academia, com doses de subjetivismo e abstracionismo variadas e surpreendentes, quando a decisão estadunidense é repleta de ameaças sombrias, mas concretas, obrigando mesmo a uma atualização política cuidadosa.Surpreendente e patético, por exemplo, é o artigo do sociólogo estadunidense James Petras criticando Fidel Castro por ter desenvolvido em suas reflexões mais recentes  uma análise que aponta para a necessidade de uma solução política para a grave questão colombiana, realçando as dificuldades para uma vitória militar das Farc nestas novas condições da história. O professor universitário nos EUA, do alto de sua enorme experiência exclusivamente acadêmica, chega mesmo a tentar dar aulas a Fidel Castro sobre luta armada, ética revolucionária, terminando seu artigo com uma assustadora repreensão moral ao líder cubano. O artigo fala por si.

Outra tática, outros métodos

A ciência da tática revolucionária para cada situação histórica exige mesmo desprendimento de conceitos estáticos e dos moralismos abstratos, como se a opção por uma luta armada em determinado momento não pudesse ser transformada em opção por outra forma de ação política igualmente revolucionária, em outro momento, com métodos que incluem até mesmo a clássica participação eleitoral, ainda que os objetivos de transformação social adotados lá atrás, quando da opção pela luta armada, sejam rigorosamente mantidos.

É claro que houve muita capitulação, sobretudo nas fileiras dos partidos comunistas numa determina época e isso pode confundir. Mas isto não invalida esta possibilidade histórica. Não é o moralismo religioso em torno da luta armada que poderá resolver os problemas e os desafios colocados pela alteração desfavorável das relações de força internacionais. Tal como ocorreu com a desorganização da União Soviética.

A luta revolucionária não se paralisou, seja na sua opção armada ou na via política de massas, ainda que a desorganização da URSS tenha produzido um desconcerto generalizado no campo progressista internacional. Novos conceitos, novas táticas, novos métodos de luta tiveram que ser encontrados diante da ofensiva militar (Iugoslávia, Panamá, Iraque) e ideológica do capitalismo apregoando o fracasso histórico do socialismo e até mesmo o fim da própria história.

Mas esta alteração negativa nas relações de forças internacionais produziu condições para a derrota temporária ou transitória de muitos processos revolucionários. A derrota do Governo Sandinista, em 1990, por exemplo, embora não se devam esquecer as limitações internas que ajudaram naquele retrocesso.  Pois mudada a situação histórica, o guerrilheiro Daniel Ortega hoje volta ao poder pela via eleitoral. Para novos tempos, nova tática, outros métodos.

Chávez: da insurreição ao voto; do voto à revolução

Chávez também tentou a insurreição armada em 1992, que, apesar de fracassada em seu intento inicial, transformou-o no líder revolucionário que anos mais tarde, pela via eleitoral, assume o comando da Venezuela Bolivariana e vai produzindo transformações de natureza socialista e levando a Venezuela a ser um centro de animação revolucionária para toda América Latina.

Em uma entrevista televisiva no Brasil, concedida à Telesur, à TV Paraná Educativa e à TV Comunitária de Brasília, Chávez lembrou que quando jovem oficial foi incumbido de controlar guerrilheiros em seu país e que “por pouco não se passou para o lado da guerrilha”. Por sorte, não se passou e tem agora, a oportunidade de cumprir o papel histórico que está a cumprir, preconizando a integração latino-americana sobre bases soberanas e transformadoras, e relançando mundialmente o debate sobre “a volta do socialismo” que pretende, como disse nessa entrevista, levar ao Fórum Social Mundial de Belém do Pará. Cada método de luta revolucionária, para cada momento e condição da história.

O relançamento da Quarta Frota é uma resposta dos EUA à constituição de vários governos progressistas e de esquerda na América Latina. E também à idéia da integração latino-americana, com a formação de um Conselho de Defesa da América do Sul, sem participação dos Eua, pretendida por eles, e também após a derrota da proposta estadunidense da Alca para a qual, segundo disse Chávez, foi decisiva a posição firme do governo Lula.

Provavelmente o professor Petras, em sua larga experiência ……..acadêmica, tenha dificuldade de observar que na luta de classes surgem situações completamente imprevistas para os leitores ortodoxos de textos revolucionários, obrigando a adoção de métodos e táticas que muitas vezes podem ser considerados como heresia para os que fazem da defesa religiosa e moralista da luta armada .

A Unasul e as condições para novas iniciativas progressistas

As análises de Fidel mostram exatamente uma visão geoestratégica e tática apoiada na nova condição da América Latina, com seus governos progressistas, com a perda de influência dos EUA e que por isso mesmo, podem agarrar-se à conturbada situação colombiana para justificar mais presença militar, tensões exclusivamente militares, já que suas teses têm sido derrotadas nas urnas de cada país, nas reuniões da OEA, na constituição da Unasul, a formação do Conselho de Defesa Sul-Americano etc.

Os EUA precisam provocar uma tensão que lhe permita justificar ações no campo militar. Por isso, a Quarta Frota ou o ataque ao acampamento das Farc em território equatoriano, com mísseis dos EUA e total planejamento e inteligência típica dos israelitas. Mesmo assim, jornalistas progressistas, um pouco na linha isolacionista de Petras, chegaram a ver naquele ataque às Farc a participação de tecnologia e inteligência brasileiras. Ou seja, ótimo para provocar desconfianças mútuas no campo progressista e dificultar a tese subjacente à constituição do Conselho de Defesa da Unasul: a integração das políticas de defesa e da indústria militar dos países-membros.

A provocação da revista Cambio, que levantou a fantasmagórica tese de vinculação de membros do Governo Lula com as Farc, nada mais é que a nova escalada de provocações que está em curso, como parte das ondas e marolas causadas pela reativação da Quarta Frota. Por isso, é sumamente importante que o presidente Lula tenha pedido oficialmente ao governo dos EUA explicações para a presença da Quarta Frota. E apesar disso, é surpreendente a extrema capacidade de não enxergar o óbvio em certas ramas da comunicação, como a do editor de internacional da TV Brasil, Nelson Franco Jobim, que afirmou no programa “Diálogo Nacional” que pura paranóia esta tese da crescente presença militar dos EUA sobre a América Latina.

A melhor resposta ao jornalista é o próprio pedido oficial de explicação do presidente Lula ao governo dos EUA pela Quarta Frota, que também foi rejeitada pela Comissão de Relações Exteriores do Senado Federal. O experiente senador Pedro Simon criticou a resposta dos EUA em que se afirma que a Quarta Frota tem missão humanitária: “Missão humanitária com arsenal nuclear???”, contestou Simon.

A função revolucionária de Cuba na África

A Quarta Frota é uma ameaça concreta aos governos progressistas latino-americanos. Seja por promoverem políticas que permitem a Cuba furar o bloqueio norte-americano, como é o caso da Alba e também da decisão brasileira de tornar-se “o parceiro número 1 de Cuba”. Para o professor Petras, nada disso tem relevância, afinal, o Governo Lula é apenas “mais um governo neoliberal”.

Na sua patética tentativa de dar lições a Fidel Castro, Petras esquece de muita coisa já cravada, com sangue e heroísmo, definitivamente nas mais nobres páginas da história. Entre elas, a heróica solidariedade de Cuba a Angola, sob a liderança de Fidel Castro e Agostinho Neto, que levou às terras angolanas 350 mil homens e mulheres combatentes cubanos numa das mais fascinantes operações de internacionalismo proletário dos últimos tempos.

Essa gigantesca operação militar-revolucionária teve o seu desfecho na Batalha de Cuito Cuanavale, em 1988, quando tropas angolanas, cubanas e da organização revolucionária da Namíbia, a Swapo, derrotaram o exército racista-imperialista da África do Sul. Segundo Mandela, “Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid!”. E permitiu ao próprio Mandela, e ao movimento revolucionário armado da África do Sul, adotar a nova tática, passando das armas à ação política, com a inteligência das massas sul-africanas, dando continuidade ao heroísmo armado de Cuito-Cuanavale e derrotando o apartheid, levando Mandela ao poder, pelo voto. E Petras pensa em repreender Fidel…..

Fidel, Malvinas e Haiti

O mesmo Fidel Castro, demonstrando que em cada momento histórico são requeridas táticas diferenciadas e audazes, ofereceu ao governo argentino, durante a Guerra das Malvinas, em 1982, a solidariedade das tropas cubanas para lutar contra a Inglaterra. A recusa foi do governo de Galtieri, talvez percebendo, por instinto de classe, o grande efeito revolucionário que a presença de tropas cubanas a lutar na América Latina contra o imperialismo inglês teria sobre a consciência das massas latino-americanas.

É curioso lembrar que, na década de 30, quando havia a ameaça de uma guerra entre Inglaterra e Brasil, Trotsky, recém-chegado ao México, também recomendava que num conflito entre os dois países os revolucionários deveriam estar ao lado de Vargas contra o “democrático” império inglês. Coincidências da história. O mesmo general Cárdenas que havia dado asilo a Trotsky no México, liberou Fidel e Che, que haviam sido presos na capital mexicana, na década de 50, antes do embarque revolucionário no iate Granma, para libertar Cuba do imperialismo e das trevas do subdesenvolvimento colonial.

Os tempos são outros, a nova situação política latino-americana exige outra tática dos movimentos revolucionários mesmo, sem abdicar de seus objetivos, de suas metas. O Fidel que Petras tenta criticar revela também sua visão estratégica ao afirmar, diante de críticas de militantes brasileiros num Fórum em Havana, em 2005, contra a presença militar do Brasil no Haiti: “prefiro militares brasileiros que marines norte-americanos no Haiti”.

Por trás desta ação, ainda que com todas as suas limitações e complexidades – vale destacar que sem a presença dos EUA – está o embrião do Conselho de Defesa Sul-Americano, a proposta de integração da tecnologia e da indústria militares do sul, a proposta de cooperação técnica para construção de um submarino nuclear, pois, como alerta o vice-presidente José Alencar, o “Brasil deve ter seu submarino nuclear para defender sua imensa riqueza petroleira e dissuadir aventureiros”.

Os estadunidenses estão registrando com preocupação a instalação de fábricas de fuzis Kalashinikov na Venezuela, a compra de aviões Sukoy, a construção cooperada por Brasil e Argentina do carro de combate Gaúcho, os planos para a integração industrial aeronáutica brasileira-argentina, a integração energética em curso entre Brasil-Venezuela-Argentina-Bolívia, a integração educacional-social entre Cuba, Venezuela, Argentina, Bolívia, com médicos e professores cubanos semeando humanismo, saúde e cultura por aí.

A resposta a tudo isto é a Quarta Frota, o bombardeiro dos EUA ao território do Equador, as provocações desestabilizadoras contra o Governo Evo Morales na Bolívia, a sabotagem produtiva da oligarquia contra Cristina Kirchner. E, agora, a revista Cambio indicando a insatisfação dos EUA com a política externa brasileira e também de segmentos mais à direita no espectro colombiano, contra os acordos da Colômbia com o Brasil, ou contra a Venezuela, Afinal, para quem a burguesia industrial da Colômbia vai vender, se os EUA não lhes oferecem mercado, mas apenas que comprem armas…..

Mas, há os que querem ver na proposta de que as Farc tomem iniciativas no campo político, com todo o risco, dificuldade e complexidade que isso signifique, apenas uma capitulação dos que apregoam tal posição. É como se numa guerra fosse indigno recuar num momento, preservar posições, desistir transitoriamente de um objetivo, trocá-lo por outro, como se não fosse inevitável recarregar, reagrupar, redimensionar, sintonizar com as mudanças políticas internacionais, as novas relações de força que surgem. Ou seja, ou se mantém inabalavelmente o mesmo método de luta ou será indigno de chamar-se revolucionário. É como se houvesse apenas duas cores na natureza, o branco e o preto…

A esquerda está desafiada a desenvolver política e táticas que reforcem essa frente antiimperialista em estruturação e expansão a partir dos novos governos progressistas eleitos, produzindo iniciativas que possam reforçar seus fatores mais avançados e outras que permitam encorajá-los na superação de suas limitações mais complexas. Mas, esse debate pouco resultado terá a partir de condenações moralistas, repreensões professorais e pitos da mesma ordem.

*Jornalista

Pasolini vive

De Veneza

O melhor filme que vi, no sexagésimo quinto Festival de Veneza, foi o documentário La Rabbia de Pasolini, 1960, só agora concluido por Giuseppe Bertolucci. Obra prima global e contundente ainda que quase cinquentona.

O que difere este dos outros filmes em exibição é que a maioria dos novos diretores não discute idéias. São, apenas, obras audiovisuais em que a ideologia e a crítica desapareceram.

Com a obra, absolutamente, poética, Pasolini, na década de 60, realizou um filme eterno, cujos ersonagens são os grande líderes mundiais do período, de Eisenhower a Nikita Kruchov, de Fidel Castro a Mao Tsé Tung, De Gaule a rainha Elizabeth.

Todas as lideranças são passadas a limpo na história que questiona as vertentes de todas as correntes políticas globais. As cenas são arquivos de cinejornais e imagens de cinematecas que resultam em impressionante panorama de nossos tempos modernos.

Em Veneza, mesmo Watchbird, produção italo brasileira patrocinada pela CSN, que aborda a questão indígena, patina no terreno apenas factual.

Falta cinema no festival de Veneza que, como Cannes, transformou-se numa mostra banal de quem paga mais. Uma competição como o Oscar americano.

Aliás todos os grandes festivais da atualidade, ao que parece, estão premiando obras  mais ao agrado da indústria das armas.

Por exemplo: em 2008, Hollywood deu Oscar para No Coutry for Old Man; Berlim, Urso de Ouro para Tropa de Elite;  Cannes deu Palma D’Oro  para Camorra, todos esbanjando violência gratuita em nome da sétima arte.

A indústria cinematográfica atira no próprio pé.

Não estaria aí um movimento para extinguir o estado da arte?

Aguardo ansiosamente que Win Wenders, o Presidente do Juri do festival Veneza dê um basta nesta sequência, no mínimo para ser coerente com a própria filmografia.

Referendo para o pré-sal

Quando o presidente Lula declarou que o petróleo recém descoberto na camada pré-sal é do povo brasileiro e não de meia dúzia de transnacionais, que a Petrobrás é do Brasil e não o Brasil da Petrobrás,  e quando convocou a UNE para sair às ruas e reeditar uma nova “Campanha “O petróleo é nosso”, chamou contra si o ódio da tirania petroleira mundial. A mesma tirania imperialista que hoje ocupa militarmente o Iraque, o Afeganistão, que deu um golpe de estado contra o presidente Hugo Chávez, na Venezuela e tenta desestabilizar o governo de Evo Morales, na Bolívia, desde que estes iniciaram a nacionalização do petróleo e demais fontes de riqueza nacional, por meio de atos soberanos, com o apoio de seus respectivos povos.

A história ensina que qualquer mandatário que ouse desafiar os indecentes privilégios das multinacionais do petróleo vira alvo de campanhas de desestabilização, de golpes de estado, de atentados, não raro são levados à morte. Foi o que aconteceu com o General Mossadeg, que estatizou o petróleo no Irã, derrubado por um golpe de estado organizado pela CIA em 1953, a mando da tirania petroleira, colocando no poder o colonizado Xá da Pérsia, que lá ficou até ser varrido pela Revolução Islâmica de 1979, que novamente reestatizou o petróleo, recuperando o nacionalismo de Mossadeg.

Isto também ocorreu com Vargas, alvo de campanha midiática de desestabilização que precedia um golpe militar, apenas interrompido com o seu suicídio. Como ele denuncia em sua inapagável Carta Testamento – um documento histórico que deve ser divulgado mundialmente – os imperialistas jamais aceitaram o monopólio estatal do petróleo brasileiro e a criação da Petrobrás. Em 1954 o povo não pode decidir, não pode se organizar para evitar aquela tragédia, apenas manifestou sua fúria após o suicídio do presidente, saindo às ruas e empastelando todos os jornais que faziam campanha contra Vargas. O suicídio adiou o golpe por 10 anos, até 31 de março de 1964.

As declarações do presidente Lula são dramaticamente corajosas porque retomam o direito do povo brasileiro de decidir soberanamente como usar suas riquezas. Lula vai mais além ao afirmar que esta imensa riqueza do petróleo pré-sal pertence ao povo brasileiro e deve ser utilizada para pagar a dívida social, com investimentos em educação e saúde. Acena contra a submissão à “maldição do petróleo”, aquela que se abateu sobre países ricos em petróleo mas com esta riqueza rapinada pela tirania petroleira mundial e por isso não conseguiram sair da miséria, industrializar-se. Só agora a Venezuela está investindo a riqueza do petróleo em habitação, educação, na construção de ferrovias, na instalação de indústrias, de moradias, de infra-estrutura. Lula já disse que este petróleo não será exportado cru. Propõe corretamente o desenvolvimento de uma indústria petroquímica, e membros do governo têm defendido abertamente a re-nacionalização do setor de fertilizantes. Menciona-se também, corretamente, que esta riqueza petroleira deve servir para ampliar a capacidade de defesa do Brasil, hoje precária, inclusive com o desenvolvimento de submarinos nucleares, cujo projeto já tem recebido mais recursos orçamentários, uma decisão política estratégica, que deve ser apoiada publicamente..

Pela importância das declarações de princípio sustentadas corajosamente pelo presidente Lula, sinalizando de que há a necessidade de uma intervenção estatal de maior alcance e mudanças amplas na Lei de Petróleo para que este petróleo pré-sal não seja apenas repassado a uma Petrobrás hoje controlada, em boa medida, por acionistas estrangeiros – o que significaria uma automática internacionalização deste patrimônio recém descoberto – fica clara a necessidade de que o Povo Brasileiro seja convocado a ser o protagonista desta verdadeira encruzilhada histórica. Um ato de soberania como este sinalizado por Lula não pode ser concretizado, no mundo atual, sem plena participação popular, com os brasileiros sendo convocados a debater, a deliberar, e a sustentar conscientemente esta decisão histórica, pela qual o Brasil pode sim ser alvo de represálias, como já foi no passado.

Por isso, é decisivo que o governo federal convoque oficialmente um REFERENDO POPULAR, através de mensagem ao Congresso Nacional, no qual haveria a possibilidade de debate amplo – como reivindica Lula – através dos meios de comunicação, com horário gratuito em cadeia nacional de TV e Rádio para a exposição das alternativas para o aproveitamento soberano desta riqueza petroleira em favor do povo brasileiro. Que todos os partidos, os técnicos, os especialistas, os movimentos sociais, os empresários e também as Forças Armadas sejam convocados a expor suas plataformas para evitar que esta riqueza seja rapinada dos brasileiros..É indispensável ter claro os riscos que a convocação feita pelo Presidente Lula implica. A história está aí para nos ensinar. Por isso mesmo, a única maneira de desmascarar aqueles que por meio de um jogo de palavras defendem a privatização e desnacionalização desta riqueza, é imperativo que o povo seja convocado a decidir sobre o que fazer com o petróleo pré-sal, inclusive assegurando que o governo Lula não seja alvo de ações de desestabilização por parte das petroleiras imperialistas, através da mídia pré-paga, controlada pelos anunciantes e pelos eternos inimigos da Era Vargas.


O trono por um prato de lentilhas

Agusto Carvalho
Agusto Carvalho

O deputado Augusto Carvalho(PPS-DF), convidado pelo governador Arruda para ser Secretário de Saúde do Distrito Federal, vive um drama bíblico-político nesse momento. Aceitará ou não?

Por que o drama? Simples. A saída de Augusto abriria vaga para tornar deputado o notório ex-deputado distrital José Edmar, preso e indiciado por corrupção eleitoral de diversas naturezas, vivendo no limbo.
Um ficha suja amplamente conhecido da população. O fato político, dessa forma, não seria a chegada de Augusto na Secretaria de Saúde, mas a entrada de Edmar à Câmara, impactando a imoralidade política pelas mãos do próprio Augusto.
Augusto trocaria seu capital político, pautado na ética, como demonstra sua participação na história política recente do Distrito Federal, por uma indignidade, ou seja, contribuiria para que chegasse à Câmara Federal a anti-ética como representação popular do Distrito Federal?
Seria uma incongruência política do próprio deputado Augusto Carvalho, que tem se alinhado em defesa da proibição da participação dos fichas sujas na disputa eleitoral.
Ao contribuir para chegar um ficha suja no Parlamento como representante do povo brasiliense, o parlamentar poderia sujar sua própria ficha. Desastre político.
Trocaria seu trono, o patrimônio moral, por um prato de lentilhas, a conquista de uma secretaria de Estado, independente de ser ou não, politicamente, problemática?
Poderia cair numa cama de gato.
Tornar-se secretário de Saúde à custa do capital ético que acumulou, trocando seu conceito de ficha limpa para viabilizar um ficha suja, que se transformaria em capital negativo na sua folha política corrida historicamente pautada pelo discurso ético, representaria desafio e temeridade.
Os que antevêem desgastes políticos para o parlamentar pregam que ele, em vez de virar Secretário, seja o responsável por indicar um nome de prestígio para o cargo, como representante de sua corrente política, à qual recorre o governador Arruda, reconhecendo sua força político-partidária, como aliado governista.
A possibilidade de ele assumir o cargo, no entanto, segundo observadores do movimento de tomada de decisão do parlamentar, é considerável. Estaria considerando possibilidades futuras, ou seja, possível candidatura ao Senado, apoiada pelo governador, que tentaria reeleição.
Nesse caso, o destino poderia poderia proporcionar, quem sabe, disputa pelo Senado por dois políticos brasilienses oriundos de Patos de Minas.
De um lado, deputado Augusto Carvalho, apoiado por Arruda; de outro, deputado Geraldo Magela, do PT, que busca acordos secretos com o PMDB, cujo chefe maior, no DF, é o ex-governador Joaquim Roriz. Seria sensacional.
Mas, e se Augusto Carvalho desgastar-se politicamente por ter viabilizado o seu próprio contrário, o seja, a anti-ética expressa na possibilidade de José Edmar entrar no Congresso.
A ética viabilizaria a anti-ética.

Lula desata onda nacionalista

Getúlio Vargas
Getúlio Vargas

O petróleo pode bombear o terceiro mandato para o presidente Lula, se vingar a campanha nacionalista-getulista que passou a estimular de defesa das reservas petrolíferas do subsolo do território nacional como propriedade da população de 190 milhões de brasileiros e brasileiras e não de apenas meia duzia de empresas multinacionais investidoras na exploração do ouro negro no país.

Na terça, 12, no Rio de Janeiro, o titular do Planalto fez um pronunciamento histórico, ao convocar os estudantes a se mobilizarem para defender o petróleo nacional, a partir da criação de uma empresa estatal que gerenciaria as novas reservas descobertas na camada pré-sal do litoral fluminentes, estimadas em mais de 8 bilhões de barris. Seu discurso, surpreendente, de caráter eminentemente nacionalista, ocorreu no terreno onde se instalou a antiga União Nacional dos Estudantes(UNE), destruída pela intolerância da ditadura militar.
No mesmo dia, em São Paulo, a Petrobrás recebia homenagem de “Empresa de Valor” do ano, feita pelo jornal Valor Econômico, no rol das 1.000 principais empresas brasileiras. Com faturamento anual de R$ 45,2 bilhões, em 2007, lucro líquido de R$ 21,5 bilhões, produção de 2,3 milhões de barris/dia de petróleo e gás, 71,121 funcionários, 70 sondas de exploração, 109 plataformas de produção(77 fixas e 32 flutuantes), 16 termelétricas com capacidade para gerar 6,1 mil MW, frota de 154 navios(55 da empresa), 11 refinarias no Brasil e mais 4 planejadas, 38% do mercado de distribuição de combustíveis com mais de 6 mil postos e presente em 19 países, a Petrobrás, hoje dominada por 40% dos acionistas privados, fonte de preocupação governamental, no momento, nasceu da mobilização popular nacionalista, em que, como lembrou Lula, a participação estudantil foi fundamental.
Ovacionado pelos jovens, aos quais prometeu reparar, indenizando o mal feito pelos ditadores, que, também, cultivavam o pensamento nacionalista, o presidente ressaltou ter sido fundamental a luta histórica e patriótica da classe estudantil de engajamento na campanha do Petróleo é Nosso, desencadeada pelo ex-presidente Getúlio Vargas, que culminou com a estatização das reservas petrolíferas brasileiras antes mesmo de criada a Petrobrás em 1954.
Tratou-se do maior movimento popular de massas, no Brasil, de cores nacionalistas, destinado a defender as riquezas nacionais.
Cinquenta e quatro anos depois, Lula, em gesto tipicamente getulista, repete a dose: convoca os jovens para defender o patrimônio nacional, ou seja, a descoberta bilionára dos novos campos petrolíferos abaixo da camada de sal, que despertou o mundo para o poder brasileiro no campo da produção de petróleo.
A disposição presidencial pela criação de nova empresa estatal para gerenciar essa nova descoberta, sob o argumento de que tal riqueza tem um dono, o povo brasileiro, gera intensas ambiguidades.
Sabendo que as reservas se encontram no subsolo e, estando ai, automaticamente, representam patrimônio nacional, evidentemente, todas as demais reservas ainda não exploradas ou em exploração, no subsolo, pela Petrobrás nou qualquer outra empresa internacional, já têm dono.
Portanto, os acionistas privados da Petrobrás não seriam os donos das reservas, nem as existentes na camada pré-sal, nem nas águas profundas sob exploração da empresa estatal.
A reação dos acionistas de se disporem ir à justiça para reclamar direitos em forma de resistência à criação da empresa estatal nova mencionada pelo presidente tende a se ampliar internacionalmente.
Para enfrentá-la, Lula teria que dispor de amplo respaldo popular. Os estudantes dariam esse respaldo, ou haveria mobilização, não apenas, deles, mas, também, dos trabalhadores e demais classes sociais, no engajamento da pregação lulista de que o dinheiro do petróleo brasileiro deve ser para intensificar investimentos em educação?
Grande movimento político
Está em marcha movimento político de grandes proporções e envergadura , convocado pelo presidente da República, cujas consequências são incognitas, podendo, inclusive, culminar em fator positivo para fortalecer a tese dos que defendem terceiro mandato para o titular do Planalto, a ser conseguido por referendo ou plebiscito.
Lula joga politicamente com a força da riqueza nacional para despertar espírito nacionalista no momento em que os preços de tal riqueza se sobrevalorizam no compasso da sobredesvalorização do dólar, responsável pela atual inflação mundial.
A convocação do presidente aos estudantes representa chamamento à mobilização. Como reagirão os estudantes? Irão à luta pela defesa do patrimônio nacional, a fim de atender a convocação presidencial, ou ficarão parados, com a boca aberta, cheia de dentes, esperando a morte chegar, como disse o poeta Raul Seixas?
Lula está dando uma tremenda sucudidela na classe estudantil, que frequenta  universidades públicas, classe essa,, indiscutivelmente,  filha da elite, já que os pobres não podem frequentá-las, dada a insuficiente oferta de vagas para a maioria, sendo obrigados a trabalhar e pagar caro universidades particulares nos turnos noturnos, depois da labuta diária extenuante, regada a salários baixos.
Os filhos da elite irão encarar nova campanha pelo Petróleo é Nosso ou se rendirão aos ensinamentos macroeconométricos que dominam mentalmente a ordem universitaria mediante pensamento meramente mecanicista, matemático, racionalista, cartesiano-positivista-neoliberal, anti-dialético, distante dos fatos políticos, que impõem o que Lula propõe, ou seja, a mobilização política para mudanças dialéticas, transformadoras, emancipadoras?
Vão à luta ou optarão pelo hobby atual de grande parte da juventudade universitária, isto é, fazer cursos para jogar na bolsa de valores, acompanhando, freneticamente, a partir das dez horas da manhá, diariamente, ininterruptamente, preocupadamente, as oscilações das ações das empresas negociadas no pregão, como esporte nacional que se amplia, exatamente, entre os filhos da elite?
A mobilização universitária seria vital para o presidente Lula sustentar campanha nacionalista. Ela representaria disposição lulista de conquistar terceiro mandato nas águas do nacionalismo, utilizando os estudantes como massa de manobra?
O debate está aberto . Os estudantes negarão fogo ou se engajarão?
Na hora H, eles, recentemente, demonstraram sua garra, ao irem à luta pela derrubada de ex-reitor que desrespeitou o contribuinte, exorbitando-se em gastos públicos anti-eticos e abusivos.
A causa, agora, é bem maior, envolvendo o patrimônio público como um todo, que estaria sendo cobiçado por meia dúzida de grandes investidores internacionais.
A UnB e as demais universidades brasileiras estão com a palavra.