UDN no shopping e nas eleições

Categoria: (Cultura, Política) por Laurez Cerqueira em 31-08-2010

VELHA UDENISTA RABUGENTA DETESTA OS AVANÇOS SOCIAIS. Há muito tempo a “velha UDN” trocou os oratórios de madeira, que faziam parte do mobiliário das salas das residências, por aparelhos de televisão. As orações da boca da noite deram lugar às telenovelas e aos telejornais. As telenovelas passaram a ser referências tão fortes que são visíveis as mudanças de comportamento provocadas nas famílias. Como diz o compositor Jorge Mautner, em uma de suas músicas: “a telenovela é a educação sentimental da classe média nacional”. A “velha UDN”, em tempos idos, era uma matriarca católica, dessas de penugem nos cantos da boca, se vestia de preto, andava de bordão de jacarandá com brasão da família, cravejado em latão. Ainda hoje, fotos amareladas, emolduradas, de famílias aristocráticas, cobrem paredes de casas e apartamentos ou ocupam lugar de destaque sobre os móveis das salas, nas modernas cidades brasileiras. Uma parte da “velha UDN” e seus descendentes migraram do campo para as cidades muito antes de se tornar uma sigla, uma agremiação partidária, muito antes do PSD se enraizar no coração e na mente dos fazendeiros. Construiu fortuna e se tornou a matrona do sistema financeiro. Quis desfrutar dos produtos do ciclo de industrialização do Brasil, andar de automóvel, beber coca-cola, ir ao cinema, entregar seu coração a Hollywood, ler Seleções Reader's Digest, revista O Cruzeiro, Veja, Caras, O Globo, Folha, Estadão, dar revistas em quadrinhos da Disney aos filhos e incentivá-los a cultivar valores aristocráticos. A UDN se encastelou na política, se apoderou do Estado e dos meios de comunicação como se fossem propriedades suas. Rotulou o governo de Getúlio Vargas de “mar de lama”, levou-o ao suicídio. Tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek, organizou a famosa “Marcha da família com Deus pela liberdade”, em 1964, na capital paulista, para derrubar João Goulart e apoiou o golpe militar que levou o Brasil a um dos mais obscuros períodos de nossa história. Impediu a reforma agrária, ajudou a organizar o latifúndio, mecanizou a produção agrícola com crédito subsidiado pelo Banco do Brasil e com as tecnologias desenvolvidas pela Embrapa. Conseguiu banir das fazendas para as periferias das grandes cidades, onde vivem em condições sub-humanas, um contingente populacional gigantesco de remanescentes da escravidão.

Nova cara udenista

SEMPRE DISFARÇADA DE BOAZINHA, A VELHA UDN NÃO CONSEGUE DISFARÇAR SUAS VESTES REAIS. No campo ou nas cidades, hoje a “velha UDN” ainda dispõe de uma cultura política e ideológica poderosíssima. A UDN urbanizada, que poderia ser chamada de “nova UDN” tem casas e apartamentos com todos os eletrodomésticos disponíveis. Carros de luxo nas garagens, viaja de férias todo ano, tem celular, computador plugado na Internet e tv a cabo. Busca a paz em templos de consumo (shopping-centers) e em igrejas. Uma parte se “modernizou” em relação à fé. Trocou a igreja católica por igrejas evangélicas. A “nova UDN”, quando não está diante da tv ou na internet, alimentando a alma com programação de entretenimento, também vaga pelos shoppings ou por feiras de produtos de contrabando, comprando um pirata qualquer. A “velha UDN” está por aí, travestida, clandestina. Nas praças de alimentação dos shoppings se empanturra nos fast-foods com sanduiches, pizzas e refrigerantes. A balança, a academia, as revistas de boa forma e o colesterol são seu inferno. Um “sofrimento doce” - coisa do “status quo” - assuntos para longas conversas nas tardes tediosas e nos finais de semana, nos encontros de família. A “nova UDN” é “chique”. “Chique” é diferente de elegante. A “nova UDN” é rastaquera. Nas casas e apartamentos “modernos”, a arquitetura mantêm a senzala, a “dependência de empregados”. Um cubículo onde enfiam os novos escravos que cozinham, lavam, passam e cuidam dos filhos. A “ama-seca” virou “babá”, baby-sitter. Livro, revista e jornal, em casa? Às vezes. Ler dá sono. Prefere uma espiada no Jornal Nacional depois da novela. É o melhor horário para ver os anúncios de carros novos, telefones celulares e bancos. Aqueles filmes publicitários que embalam os sonhos de tornar-se uma daquelas personagens chiques e bem sucedidas na vida. A maior aspiração da “nova UDN” é ser rica, manter o “status”, entranhado nas profundezas de sua alma, ter o controle moral da sociedade e recuperar o poder político perdido com a democratização do país. Para a “nova UDN” a democracia a leva à ruína política. Na democracia ela perde sempre.

Mesmo ódio de classe

O LACERDISMO GOLPISTA SEMPRE TEVE SUA MATRIZ NA CASA BRANCA. Mantém latente o mesmo ódio de classe que levou o ex-governador do antigo Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, seu ídolo maior, ao escândalo da “operação mata-mendigo”, realizada pelo Serviço de Recuperação de Mendigos. Os agentes desse serviço foram flagrados jogando mendigos no rio da Guarda, na Baixada Fluminense, depois de denúncias de desaparecimento de grande número deles. Esse serviço foi o embrião da ideologia do “Esquadrão da Morte”. Outro escândalo foi a queima de favelas como a do Pasmado, no Rio, para expulsar os moradores, coordenada pela Secretária de Assuntos Sociais, Sandra Cavalcanti, ex-deputada constituinte, em 1987, pelo PFL. Uma parte da “nova UDN” passou pela universidade, ficou “ilustrada”. Participou, tempos atrás da campanha Diretas Já, com novo verniz, mas preferiu juntar-se aos de cima na defesa do projeto neoliberal, do sucesso profissional, da escalada do enriquecimento e na redução dos sonhos da juventude ao fetiche de um automóvel. Luta para manter privilégios de classe e nada mais, fecha o vidro do carro quando mendigos se aproximam. Para ela os de baixo são invisíveis. Não vê lixeiros, garçons, frentistas, taxistas, mantém disdância das pessoas que andam de transporte coletivo. Sabe que essas pessoas existem quando necessitam de seus serviços. Vê o noticiário policial nos telejornais, viaja de avião e olha lá de cima o amontoado de barracos das periferias das grandes cidades como se as favelas fizessem, naturalmente, parte da paisagem. No parlamento ou na imprensa, como jornalista e comentarista preferidos dos impérios de comunicação, ladram como cães amestrados com o mesmo ódio que movia Carlos Lacerda.

Jogo da discriminação

DISCRIMINAÇÃO SOCIAL SEMPRE FOI A MARCA REGISTRADA DOS CORVOS UDENISTAS. Nas eleições, a “nova UDN” costuma optar por candidatos que representam o ideário aristocrático, meritocrático, condizente com sua escala de valores, de matriz religiosa. Muitos, em 2002, fizeram uma concessão, votaram em Lula para presidente, depois dele penar sob a violência da discriminação de classe. Um dos mais fortes fatores que o levou à derrota em três eleições. O preconceito foi rompido momentaneamente. Certamente pelo fato de votar num “vencedor”, num homem de mérito, que saiu de Garanhuns, em Pernambuco, enfrentou a pobreza em São Paulo e se tornou um líder respeitado não só no Brasil, mas reconhecido nos fóruns internacionais como um líder mundial. Logo depois que ele tomou posse foi chacoteado. Diziam que ele não tinha qualificação para governar. Não falava inglês. Diziam que ele era nordestino, cachaceiro e analfabeto. Quem não se lembra da zombaria da imprensa do “aeroLula”? Como se ele não tivesse o direito de usar o avião presidencial. FHC licitou o avião, mas Lula foi quem sofreu as críticas. Outro fator que deve ser considerado, quando analisamos a eleição de Lula, é que em 2002 a “nova UDN” estava inconformada com o governo do sociólogo Fernando Henrique Cardoso. O governo que, na época da paridade do Real com o Dólar, levou-a ao paraíso do consumo de produtos importados, a viagens internacionais - estava acabando em grave crise econômica e financeira - sob denúncias graves de corrupção, sem permitir investigações, principalmente denúncias sobre o processo de privatização das empresas estatais. Aquele paraíso de ilusões ruiu. Em resumo, em 2002, era “chique” votar em Lula. Afinal, o vencedor tem seu lugar na escala de valores da “nova UDN” como competidor.

Descoberta de novo partido

AS BASES DAS CONSTRUÇÕES UDENISTAS JAMAIS AGUENTARAM O SOPRO DA RENOVAÇÃO POPULAR. Logo depois da democratização política do país, na década de 80, após a promulgação da Constituição de 1988, a “nova UDN” ganhou um presente da elite intelectual paulistana. Um partido político pensado para ela. O PSDB. Um partido para a chamada “classe dos formadores de opinião”. O PFL, neto da velha Arena, que deu sustentação à ditadura militar, andava em dificuldades para se tornar um partido que atendesse às aspirações da “nova UDN”. O PMDB avançava no controle institucional do país e os partidos de esquerda, liderados pelo recém-criado PT, avançavam na organização da população operária urbana e no movimento dos trabalhares rurais sem terra. Foi nesse contexto que surgiu o PSDB, vendido à opinião pública como um partido moderno. O PSDB vestiu como uma luva o ideário da “nova UDN”. Em 1989, liderado por Mário Covas, que parecia um pássaro fora do ninho, por ter posições à esquerda do partido, o PSDB foi às urnas e no segundo turno até subiu no palanque de Lula, candidato do PT, quando este disputou com Collor. No segundo turno, a grande maioria dos votos do PSDB foi para Collor. Collor teve o apoio majoritário da “nova UDN”, que se referenciava no PFL, no PL e no PSDB, em verdadeiro revival da era lacerdista. Era o voto anti-Lula. Aquela parte que se engajou na eleição do “caçador de marajás” queria ver “Frei Damião andando de jet-ski”, como disse Mercadante, quem sabe, exportar Padre Cícero robotizado. Ou seja, a “velha UDN”, que veio do interior para os grandes centros urbanos, em tempos idos, deixou aflorar seu desejo de ser norteamericana, enfim, pertencer ao primeiro mundo e, quem sabe até dar a mão a um astronauta e sair por aí, a passeio, pelo espaço sideral. Queria se desgarrar definitivamente do outro Brasil, aquele da herança colonial, das pessoas invisíveis. Esse parece um desejo latente da “nova UDN”. Nos anos 90, quem defendia interesses nacionais era chamado de dinossauro, xenófobo e outros adjetivos não menos pejorativos. A ordem era globalizar, seguindo orientações das agências internacionais que pregavam o chamado “Consenso de Washington”. Collor foi afastado sob acusação de corrupção, sobretudo, por falta de confiança das grandes corporações financeiras internacionais, que tinham projetos prontos para compra das estatais brasileiras e realização de outros negócios no país. O PSDB tratou de articular a herança do legado político do governo Collor. Começou um namoro firme com o PFL. Noivou, casou-se em 1994, e do casamento nasceram dois mandatos para Fernando Henrique Cardoso. Casamento perfeito. A “nova UDN” urbana, representante do capitalismo financeiro, foi ao altar, sob as bênçãos do império. O PFL reúne desde o setor financeiro, passando pelas corporações dos meios de comunicação até o agronegócio. O PSDB entrou com a tecnocracia formada em famosas escolas internacionais como a escola de Chicago e de Harvard, com apoio do sistema financeiro nacional e internacional, que tinham seus interesses, evidentemente, na moeda e no livre mercado comercial (ALCA), desde que a meca fosse os EUA.

Modelito estadunidense


O JOGO DA UDN É O DE COMPRAR OPINIÕES COM AS AÇÕES VALORIZADAS DA BANCOCRACIA. Esse casamento é a cara da “nova UDN”, cuja estética pode ser percebida nas grandes cidades litorâneas do país, que se transformaram em caricaturas de Miami. Já as cidades do interior, andam com a cara do Texas. Os rodeios dão o tom da música, da vestimenta e do comportamento. Essa estética pode ser vista também em coisas simples como num maço de cigarros de palha fabricado em Minas Gerais. O maço é ilustrado, na parte frontal, com desenho de um cowboy de chapéu texano, óculos Ray Ban, calça e jaqueta jeans. Um modelito estadunidense. Por que não um mineiro pescando num rio, fumando seu cigarrinho de palha? Outro exemplo é a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, uma caricatura de Miami. Lá tem até estátua da liberdade. Esse pequeno exemplo parece suficiente para imaginar o ideário da “nova UDN” em ebulição no Brasil. No parlamento e na grande imprensa é fácil ver Carlos Lacerdas inconformados com o novo Brasil, espalhando preconceitos, principalmente o preconceito de classe, numa rede de comunicação conservadora, autista, fora do contexto, presa num discurso dos anos 90, atrasado, superado pelos fatos que culminaram na crise financeira internacional atual. A imprensa conservadora, num verdadeiro ciclo de retroalimentação com a “nova UDN” constrói um outro Brasil só para eles. Tanto que atacaram o presidente Lula e o seu governo durante os dois mandatos e ele está com 80% de aprovação. Entretanto, nunca se debateu tanto os problemas do país como hoje. Foram realizadas mais de 90 conferências setoriais, na maioria das vezes ignoradas ou atacadas pela imprensa. Educação, saúde, meio ambiente, cultura, comunicação, defesa civil, enfim, as conferências mobilizaram milhões de brasileiros desde os municípios, passando pelos estados até as conferências nacionais de cada setor. Existem outras redes de comunicação construídas pelos movimentos que debatem as políticas públicas do governo e dinamizam a informação. Existe outro Brasil emergindo e rompendo com as cercas que o isolaram por tantos séculos. É esse Brasil que causa tanto incômodo à “nova UDN” e a faz tão raivosa. Na eleição de 2006, causou perplexidade a declaração do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que o Brasil estaria precisando de um novo Carlos Lacerda. Essa declaração escapou num ímpeto de intolerância, quando se confirmava a força da liderança de Lula ao resistir os ataques da “nova UDN” e revelar seu favoritismo nas urnas. O Brasil não é mais o mesmo. Esse caminho não tem mais volta. Resta saber se a “nova UDN” sobreviverá.

(*) Laurez Cerqueira é autor, entre outros trabalhos, de Florestan Fernandes Vida e Obra; Florestan Fernandes – um mestre radical; O Outro Lado do Real, em parceria com Henrique Fontana. Artigo publicado em Carta Maior.

Amorim entre Ahmadinejad e Sakineh

Categoria: (Cultura, Política) por Cesar Fonseca em 15-08-2010

Na vida, meus amigos e minhas amigas, uma hora a gente está prá lá, outra, prá cá, cês entendem?, sempre, naquele pragmatismo, nosso, na lição de Rio Branco. Claro que todos sabem que nós estamos apoiando o Ahmadinejad, com sua luta para ganhar autonomia na área nuclear. Nós lutamos por isso. Por que não apoiaríamos os da nossa classe de emergentes, contra a prepotência dos fortes? Mas, por outro lado, é claro que estamos lutando pela vida de Sakineh. Os aiatolás, pelamor de Deus, nesse ponto, estão no tempo das bruxarias.

A diplomacia brasileira está entre o futuro e o passado, simultaneamente, em relação ao Irã, nesse instante em que os ayatolás são colocados no banco dos réus do tribunal da consciência humana.

De um lado, o Itamarati avança em posições que lhe colocam na ponta de lança da diplomacia universal, ao contestar o direito dos mais ricos de imporem aos mais pobres proibições relativas à utilização da energia atômica, clamando pela democracia multilateralista, em que o Irã sairia favorecido, por tentar seguir esse caminho sob sanções internacionais; de outro, tem que combater o passado presente na brutalidade iraniana de condenar à morte por apedrejamento uma mulher acusada de adultério.
São simplesmente abomináveis as aparições de  Sakineh Mohammadi Ashtiani na tevê iraniana para se auto-declarar adúltera e assassina, sabendo que, segundo seu advogado que fugiu do país para contar a farsa, o faz sob pressão de uma ditadura psicológica machista, culturalmente, bárbara, que sinaliza a vida medieval em plena era das comunicações instantâneas. As ditaduras merecem o inferno.
Como o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, vai se explicar ao povo brasileiro essa ambiguidade diplomática explícita?

Bruxaria medieval

Apedrejar mulheres? Quem perdoa governo que ousa matar a natureza que preserva e multiplica a natureza humana e a proibe de exercitar sua natureza sexual livre como impulso sagrado que deve ser respeitado e admirado como ato ao mesmo tempo divino e dionisíaco? Viva Sakineh!

Enquanto destaca, depois de despacho presidencial, que o presidente Lula, na quarta feira,  assinou sanções comerciais contra o Irã contrariado por cumprir determinações do Conselho de Segurança da ONU, depois de ter articulado com a Turquia,, a pedido do presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, acordo capaz de evitar as penalidades contra o Governo Ahmadinejad, o titular do Itamarati,  ao mesmo tempo,  desdobra-se para tentar induzir Ahmadinejad a expatriar Sakineh para o Brasil. Daria curso ao apelo humanitário feito pelo presidente Lula em favor da vida da iraniana condenada pela desumanidade judicial ancorada no atraso cultural monstro.

Se o titular do Planalto não tivesse assinado as sanções comerciais, como o fêz, a contragosto, teria adquirido cacife extraordinário para cobrar dos aiatolás compromisso humanista em termos categóricos. Como não o fêz para não contrariar tradição diplomática brasileira de assinar embaixo do consenso tirado do conselho de segurança da ONU, quase sempre sob comando de voz imperialista, anti-equânime quanto à igualdade de oportunidades, pois a ONU obedece a uma divisão internacional do trabalho dada pelo poder econômico americano, desde a segunda guerra mundial, Lula, ao assinar as sanções, perdeu força relativa para clamar, fortemente, pela vida de Ashtiani. Faltou coragem? Que aconteceu, até agora, quando Israel deu e dá de ombros para a ONU, que tenta enquadrá-lo nas questões nucleares?

Uns podem, outros, não?

Como obter o apoio da humanidade para a construção da bomba atômica, se Ahmadinejad comanda um poder que brutaliza as mulheres que desejam exercitar livremente sua liberade sexual, ultrajada por uma justiça medieval?

Aos olhos e ouvidos de Ahmadinejad e dos aiatolás, caiu o prestígio de Lula, que estava alto, depois das articulações diplomáticas Brasil-Turquia, favoráveis ao direito iraniano de enriquecer o seu urânio para utilizar para fins pacíficos – sem destacar, é claro, que tal enriquecimento, de 3,5% para 20%, permite conquista tecnológica capaz de fabricação da bomba atômica. Prá que disfarçar?

O episódio dramático da condenação à morte de Sakineh, que mexe com a consciência universal, em fase de engajamento total, para evitar a consumação da barbárie, coloca a diplomacia brasileira em seu drama particular e, ao mesmo tempo, geral.
Obriga-se Lula a intensificar a sua defesa favorável à Sakineh, mas num ambiente em que Ahmadinejad já se sente não capaz de apedrejar, mas de estar se sentindo apedrejado pelo presidente brasileiro.
Celso Amorim, nesse interim, conjuga dois discursos conflitantes: busca intervir para salvar a iraniana, mas, da mesma forma, ressalta que está disposto a retomar contatos com a Turquia, para reaver o acordo que o Conselho de Segurança rasgou ao defender e aprovar as sanções, avalizadas, também, pelo Brasil. É como se tivesse o governo arrependido de ter assinado as sanções, dispondo-se, em seguida, tirar a assinatura, insistindo numa causa que não considera perdida. Vai e vem diplomático.

Figuras horríveis

Qual a diferença entre um regime em que o reu confesso assassinou covardemente a namorada atirando pelas costas, mas mantém a justiça enrolando para dar decisão capaz de trancafiar o meliante machista e a justiça que manda apedrejar? Esse Pimenta éuma figura horrível.

Lula se diz contrariado por assiná-las, mas Ahmadinejad, igualmente, se diz contrariado por Lula não ter endurecido o discurso contra o CS da ONU, para dar consequência lógica aos desdobramentos das ações diplomáticas, caracterizadas por resistência à tendência que se consolidou, de as sansões comerciais se materializarem.

Na prática, as coisas se misturam, no plano da conscientização social e popular, para conferir desvantagem ao regime dos aiatolás: se vigora visão jurídico-machista-bárbara num país que busca conquistar a bomba atômica, para se defender do vizinho Israel, armado e rearmado pelos Estados Unidos,como estratégia de dissuassão, já que dois inimigos sabendo que ambos são poderosos e iguais em suas forças se anulam – num repeteco de guerra fria entre EUA-URSS – , tal visão não contaminaria o entendimento geral sobre as intenções maiores iranianas?
Tal abstração, embora passível de questionamento, dado que as más intensões não podem ser creditadas, apenas, ao Irã, no seu afã e direito de conquistar a cadeia produtiva nuclear – por que uns podem e outros, não? – , passa a garantir base de argumentação para os inimigos do Irã.
A secretária de Estado, Hillary Clinton, pede fim da barbárie, mas não tem moral suficiente para fazê-lo, visto que a barbárie, também, vigora nos Estados Unidos, em forma de pena de morte, sem contar o histórico imperialista registrado pela economia de guerra americana como impulsionadora da nação mais rica do mundo à custa de barbáries econômicas e políticas espalhadas na periferia econômica mundial.

Interesses conflitantes

As atrises pornôs, como Elisa Salmudio, correm, ainda, mais perigo contra os machões famosos, quando se engrvidam deles, podendo ser assassinadas pelos amigos do machão, cuja disponibilidade de dinheiro confere à personalidade doentia a sensação de poder tudo, como parece ser o caso do ex-goleiro do Flamengo, Bruno, tipo dos mais repelentes.

E barbárie por barbárie, da mesma forma, o caráter bárbaro do machismo brasileiro não está muito longe do homólogo iraniano, como se verifica no espantoso número de mortes de mulheres, assassinadas, brutalmente, pelos homens incapazes de aceitar o direito dos sexos em porções iguais..

No frigir dos ovos, a posição política iraniana de resistência à tentativa de proibir o Irã de conquistar a tecnologia nuclear se contamina negativamente pela cultura iraniana calcada no barbarismo jurídico, somando antipatias gerais.
Os acontecimentos, por sua vez, divulgados por uma mídia acomodada aos interesses das grandes potências, que se articulam midiativamente a favor da voz ideológica do império, contribuem para fragilizar relativamente a posição do Irã no cenário internacional, como se uma coisa, a tentativa da conquista da tecnologia nuclear, se misturasse com a outra, o comportamento bárbaro da justiça iraniana.
O Itamarati, como se verificou pelo esforço desdobrado do ministro Amorim, ao longo da semana, de tentar levar as duas faces do problema, sem abandonar a racionalidade, enfrenta a ambiguidade de suas posições, nesse instante, como sua principal adversária. Fica dificil separar o que considera o joio do trigo. Haja discurso diplomático capaz de acomodar interesses conflitantes.

Aiatolás no banco dos réus da humanidade

Categoria: (Cultura) por Cesar Fonseca em 17-07-2010

Quem não tiver pecado que jogue a primeira pedra. Esse foi o recado de Jesus Cristo aos seus contemporâneos que se escandalizaram quando ele recebeu Maria Madalena em seu meio, de forma carinhosa, tratando-a sem preconceitos, para espanto geral dos seus próprios discípulos. A moral cristã se assenta, dessa forma, diante da justiça do filho de Deus no ato de reconhecer a mulher não como pecadora, mas como agente propulsor do amor que é a lei geral do mundo. Se a justiça do Irã ainda não chegou à compreensão de Cristo, não dá para segurar a barra de um governo que se apoia em barbaridade cultural desse tamanho. Insuportável. Viva Sakineh Mohammadi Ashtiani.

O mundo globalizado, sob a instantaneidade da circulação da informação,  mexe fortemente com a consciência humana. Especialmente, quando ela se encontra diante de fatos chocantes para a civilização ocidental, cujo desenvolvimento, no plano científico, tecnológico, cultural, social, político, econômico e psicológico já alcançou patamares extraordinários, conformando espírito ético e moral superior, embora mesclados das contradições que se expressam em opostos anti-éticos e imorais sob sistemas econômicos nos quais os valores humanos são homogeneizados de forma medíocre pelo critério do lucro a qualquer custo. Não dá para suportar mais a presença da Idade Média em pleno século 21.

Nesse sentido, as aberrações comportamentais, no plano cultural, que estejam relacionadas ao culturalismo sociológico, histórico-ontológico, tornam-se inaceitáveis, impulsionando o senso comum para atitudes radicais, de reações de repúdio aos absurdos, exigindo reparações articuladas, igualmente, em escala global, dado que a sensibilidade humana é tocada e agredida de  forma aguda e insuportável.

É o tal caso da condenação à morte por apedrajamento de Sakineh Mohammadi Ashtiani, 43 anos, casada, acusada de adúltera pela justiça iraniana. Inaceitável tal decisão jurídica, visto que ela não tem nada do que se possa considerar mínima justiça.

O mundo inteiro se mobiliza em favor da preservação da vida de Ashtiani. Abaixos assinados na Europa, nos Estados Unidos, no Japão e, também, na América do Sul rolam em favor dela, com as diversas personalidades de destaques entrando no assunto, para tentar mudar o curso dos acontecimentos, marcados por uma visão bárbara, se relacionada à política de direitos humanos.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, comunicou ao seu colega chanceler iraniano Manouchehr Mottaki, do Irã,  que é impossível suportar essa barra, no Brasil, ficando o governo Lula calado, sem que haja profunda pressão social em cima dele, além do mais porque o assunto é horrível.

Sob pressão internacional, o governo Mamud Ahmadinejad forçou a justiça iraniana a suspender a execução. A suspensão ocorre, no entanto, em caráter temporário, podendo ser retomada a qualquer momento. Será possível?

Como o governo Lula justificaria, perante a sociedade brasileira, sua disposição de apoiar o governo do Irã contra as pressões internacionais, articuladas pelo Conselho de Segurança da ONU, com os Estados Unidos à frente, quanto ao justo direito de o Irã conquistar o ciclo da produção nuclear para utilização em fins pacíficos, como argumenta as autoridades iranianas, se a paz interna, no país, não se alcança por conta de comportamentos aberrantes como o que predomina de colocar a mulher sujeita a pena de morte por apedrejamento? Loucura.

Em tempo de campanha eleitoral, se o presidente Lula não tomar providências de dar declarações contundentes de repúdio à decisão da justiça do Irã, apegada aos métodos bárbaros, poderá colher dissabores. Sua candidata Dilma Rousseff já devida ter vindo a público dar declarações peremptórias contra esse escândalo cultural iranianao. E José Serra, da mesma forma, por que não se adiantou, ainda, para pregar o mesmo?

Se Lula é relacionado a Ahmadinejad, por força das relações exteriores, no jogo internacional, na defesa do Irã contra as pressões realizadas pelos Estados Unidos, que se mobilizam para ir à guerra contra o regime dos aiatolás, agilizando navios de guerra, armados com bombas nucleares, poderá sofrer desgastes fortes, como sofre, nesse instante, por ter cometido equívocos quanto aos presos cubanos, deportados para a Espanha, onde, aliás, não estão tendo tratamento digno, como eles mesmos destacam.

Em Cuba, em abril, quando Orlando Zapata acabara de morrer por realizar greve de fome de 85 dias, o presidente Lula, em visita a Fidel Castro, em vez de apoiar a força de vontade dos prisioneiros, que se dispuseram a ir à greve de fome, a fim de enfrentar a dureza do regime político, apoiado em partido único, ficou não apenas calado quanto à reivindicação, mas se adiantou em barbaridades, ao comparar os resistentes a bandidos prisioneiros nas cadeias de São Paulo. Foi dose prá leão.

Vai se configurando, no contexto das relações globais, sob impacto da velocidade das informações, que a política diplomática, quando está em questão os direitos humanos, não aceita tergiversação ou providência debaixo dos panos. Na aparência, procura-se fazer de conta que tudo vai bem, obrigado. Lula, em relação aos presos cubanos, que pediram a ele para interceder-se junto ao governo Raul Castro, para libertá-los, procurou, como destaca os diplomatas, agir sem colocar a cara para bater. Achou que haveria possibilidades de demover, apenas, encaminhando reclamações protocolares. Não deu.

Agora, também, em relação à Sakineh Mohammadi Ashtiani, Lula precisa dar um jeito, rapidamente, de mandar recado duro a Ahmadinejad. Não basta, apenas, o chanceler Celso Amorim escrever carta, protestar protocolarmente. Tem que botar a boca no trombone.

Onde estão, não, somente, Lula, mas, igualmente, Serra, Dilma e Marina, no compasso do avanço da barbaridade em terras iranianas contra a mulher? Insuportável.

O que pode pintar na cabeça do senso comum senão a conclusão de que o país que adota critérios jurídicos tão bárbaros para julgar adultério, naturalmente, não teria condições de contribuir, efetivamente, com a evolução da humanidade, quando tentam ter acesso às armas nucleares?

Se as mulheres iranianas são, nos casos extremos, tratadas dessa maneira, e sendo elas maioria , além de responsáveis pela multiplicação e preservação da espécie humana, o que esperar politicamente da classe dominante do Irã, senão compactuações com a barbaridade?

O governo Lula tem que falar grosso. Do contrário, muito mal comparando, se agir, apenas, na base do protocolo, fica parecendo que mantém-se , também, tímido em dar opiniões sobre a barbaridade que acontece, no Brasil, agora, com a jovem Salmudio, previsivelmente, assassinada, trucidada, retalhada e jogada aos cães. Santa mãe de Deus!

Consultoria legislativa neoliberal favorece capital e prejudica trabalho na crise global

Categoria: (Cultura, Economia, Política) por Cesar Fonseca em 13-07-2010

Paulo Moura, com sua versatilidade musical dialética em que o som se desdobra em melodias que evoluem de acordo com as circunstâncias, ritmos e culturas, no embalo da improvisão, poesia, beleza e harmonia, a demonstrar que o engessamento do pensamento cria positismos ideológicos incompatíveis com a realidade, que é sempre dual, interativa, produzindo negatividade como expressão da verdade, teria muito que ensinar, com o seu trabalho, aperfeiçoado ao longo de 77 anos de vida, dedicados à musica popular brasileira, à consultora do Congresso Sandra Cristina Filgueiras, como optar pela inventividade para produzir estudos sociais, econômicos e políticos, adequados ao rimo do real concreto em movimento de criatividade sem condicionantes neoliberais agonizantes anti-artísticos irreais.

Sandra Filgueiras, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, diz que se for aprovada e sancionada pelo presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva emenda constitucional apresentada pelo senador Paulo Paim(PT-RS) que reajusta os beneficios das aposentadorias pelas regras do salário mínimo haveria rombos orçamentários adicionais dos atuais 6,9% do PIB para 9,3%, pulando de R$ 166,5 bilhões para R$ 269 bilhões ao ano. Se já estivesse em vigor há dez anos, por exemplo, de 1998 a 2008, o déficit, acrescentou, pularia dos atuais R$ 48,5 bilhões ao ano para R$ 117,9 bilhões.

Apoiada em raciocínio positivista-mecanicista neoliberal, destaca que há “um preconceito em se discutir o assunto”, pois os aposentados se organizam em poderosos lobbies, que acabam por fazer valer suas reivindicações por meio de pressões políticas. Onde ficaria a democracia?

Para a consultora, seria, portanto, condenável a emenda do parlamentar gaúcho. No seu entender neoliberalizante, produz aprofundamento perigoso do deficit público.

Tal raciocínio enviezado, como se vê, considera salário custo e não renda. Do ponto de vista do capital, se é custo, que eleva os preços, deve ser, ao máximo possível, minimizado, para não pressionar a inflação.

Já, do ponto de vista do trabalho, salário e rendimento, em vez de custo, são rendas. Quando o assalariado gasta, não eleva, apenas, o consumo, mas, igualmente, a produção, visto que, segundo Marx, produção é consumo e, dialeticamente, consumo é produção.

Seria mesmo rombo orçamentário o aumento da renda dos aposentados, reajustada, tanto para os que ganham o piso salarial, como para os que ganham acima dele, de acordo com a regra do salário mínimo, acompanhado da média do aumento do PIB nos dois últimos anos, conforme proposta de Paim, historicamente, comprometido com as lutas dos trabalhadores?

Para Sandra Cristina Filgueiras, que raciocina do ponto de vista do capital, o reajuste é déficit, porque provoca despesas públicas de bilhões e bilhões. Dessa forma, não deveria ocorrer de acordo com as novas regras do salário mínimo, para os que ganham acima do piso salarial. Para estes, bastaria, então, apenas a variação do INPC. Não mereceriam melhor sorte, em nome do combate ao déficit.

Mas, serão, apenas, aumentos de despesas, conforme o raciocínio do capital, que exigem cortes, em obediência a sua lógica mecanicista-positivista-maniqueista-utilitarista-ideológica, ou essas despesas, conforme a lógica do trabalhador, corresponderiam a rendas que serão gastas, transformando-se em receitas tributárias a serem expressas em investimentos públicos, capazes de puxar a demanda global?

Em vez de aumento de despesas, que, segundo o raciocínio neoliberal da consultora Sandra Filgueiras, contribuiria para reduzir a capacidade de poupança nacional, elas não representariam, justamente, o seu contrário dialético, ou seja, aumento da renda do trabalho, cujo gasto, transformando-se em receita, corresponderia à verdadeira poupança nacional?

A poupança nacional, como destaca Barbosa Lima Sobrinho, historiando a economia do Japão, em seu livro “A capital-poupança  se faz em casa” , evidentemente, depende da melhor distribuição da renda nacional no contexto da relação capital-trabalho.

Não seria conveniente à consultora legislativa apropriar-se dos dois pontos de vista para produzir conclusões concernentes ao movimento da realidade que é, essencialmente, dual, positivo-negativo, singular-plural, masculino-feminino, claro-escuro, yin-yang em eterno movimento de vir a ser, sem conclusões precipitadas? Ou , obrigatoriamente, teria que cair na esparrela em que escorrega, de fortalecer, apenas, o ponto de vista do capital, prejudicando o ponto de vista do trabalho?

Jazz em Jerusalém

Victor Leonardi, historiador, autor de 31 livros, 27 roteiros cinematográficos, destaca em "Jazz em Jerusalém" a epopéia da inventividade humana que compara ao rítmo de jazz, aplicado à ciência, à tecnologia, à arte, no embalo dos compassos jazzisticos, essencialmente, anti-neoliberais de Lester Young, Benny Goodman, Coleman Hawkins, Charles Parker, Miles Daves, Chat Baker etc

Nada como voltar a Marx, o cara que, realmente, entendeu o capitalismo , profundamente. Diz ele que dívida externa, considerada pelos neoliberais poupança externa, representa instrumento de dominação internacional.

Num primeiro momento, o capital externo, que fica problemático nos países ricos, graças às contradições decorrentes do antagonismo econômico e social que ele produz, flui para as periferias do capitalismo em busca de rentabilidade e, dessa forma, dinamiza a economia hospedeira, agitando os investimentos e a produção; num segundo instante, no entanto, como sua lógica é o lucro e não o desenvolvimento, produz insuficiência crônica de consumo.

Por que tal insuficiência crônica é gerada? Por que a coisa não funciona como imaginou o pai do neoliberalismo, Jean Baptiste Say, segundo quem toda oferta gera demanda correspondente? Haveria tal correspondência, ironizou Marx, se todas as mercadorias que vão para as prateleiras dos supermercados fossem vendidas SEM lucro. Qual empresário faria uma besteira desta? Claro, só embarcam na produção, comprando capital constante(C) – máquinas , equipamentos, matérias primas etc – e capital variável(V), se puderem vender suas mercadorias como produto financeiro da soma não, apenas, de C+V, mas, sim, de C+V+S, sendo S o lucro. Do contrário, qual a vantagem que Maria leva?

De onde vem S, o lucro, indaga Marx. Não vem, diz ele. O valor a menos que o trabalhador recebe em forma de salário não é suficiente para comprar o valor que ele produz a mais em forma de mercadorias, trabalhando horas e horas excedentes que lhes são roubadas. Capital(lucro) é trabalho roubado, diz Proudhon.

Jean Baptiste Say teorizou esquisofrenia do falso equilibrismo decorrente da dança do capital como se ele fosse produzido no compasso da geração de compensações harmoniosas e não de descompensações desarmoniosas, produtoras de desestrutuções desequilibrantes, totalmente, opostas ao apelo da inventividade inerente ao sistema capitalista que gera desequilbrismos permanentes como fruto intrínseco da sua própria natureza dialética, incompatível com formalismos mecancisitas neoliberais.

Na prática, bastaria, tão somente, no ambiente da alta tecnologia e ciência aplicada à produção, no mundo atual, para que o trabalhador produzisse em apenas umas quatro horas diárias o que ganha para fazer em oito horas, conforme a legislação. Quem se apropria das quatro horas sobre as quais não recebe rendimento nenhum? Claro, o capital. Assim, como a totalidade do valor recebido em forma de salário não é suficiente para o trabalhador comprar a totalidade do valor que produz em forma de mercadoria, surge defasagem(gap) crônica entre produção e consumo.

Quanto mais investimento é realizado, nesse contexto de disparidade na relação capital-trabalho, mas acumulação da renda, mais a insuficiência crônica de consumo avança, exigindo, consequentemente, mais poupança externa que vai, ao longo do tempo, impondo natural dependência para aquele que depende dessa fonte de investimento externa, gerada nos países ricos como fruto de suas próprias contradições expressas em permanente sobreacumulação capitalista. Esta, como a história demonstra, vai se complicando no plano da reprodução ampliada do capital, exigindo a migração deste, da produção, onde sua reprodução fica sempre mais complicada quanto mais insuficiência de consumo é produzida, para a especulação bursatíl, expandindo bolhas e bolhas especulativas, cujo resultado é, evidentemente, implosão recorrente, quase em ritmo de jazz, como ressalta Victor Leonardi , em “Jazz em Jerusalém”.

Dialética em ação

A consultora do Congresso teria, naturalmente, que ler Marx para perceber que a dialética é incompatível com a cintura dura do mecanicismo neoliberal que não vê a evolução dos fatos no ambiente em que a realidade é essencialmente dual e interativa, na revelação do ser em si no seu ser outro fundamental, em ritmo, como diz Leonardi, de jazz.

Qual seria, então, a solução para reduzir os constantes excedentes de produção não consumidos por falta de renda, decorrente da crônica insuficiência de consumo que provoca inflação e déficits, senão pelo remédio oposto ao da acumulação de capital, ou seja, pela melhor distribuição da renda?

O presidente Lula jogou nessa alternativa, elevando os gastos sociais – valorização do salário mínimo, das aposentadorias, ampliação dos gastos com programa bolsa família, luz para todos etc – como arma para puxar a demanda via consumo. O que recolheu? Mais arrecadação, que se transforma, agora, em investimentos em plena crise global, transformando o país, graças à sustentação do mercado interno de consumo, em atrativo aos investidores. Estes, que temem a taxa de juro negativa no mundo rico onde vigora a eutanásia do rentista, claro, estão de olho na construção da infra-estrutura nacional, como destaca Karen B. Peetz, vice-presidente do Bank of New Yor Mellon.

Se Lula escutasse a consultora legislativa Sandra Cristina Filgueiras, para reduzir despesas, arrochando os bolsos dos aposentados e os que recebem salário mínimo e bolsa família, teria que, em vez de arrecadar mais, contar com menor arrecadação. Seria obrigado a desonerar os investimentos privados e ao mesmo tempo desvalorizar a moeda para estimular exportações, recolhendo como resultado menores arrecadações e maiores pressões hiperinflacionárias.

Qual teria sido o resultado da política econômica lulista, especialmente, no contexto da grande crise global em marcha, se tivesse sido adotado, tão somente, o ponto de vista do capital sobreacumulador, que domina a mente de Filgueiras, cortando gastos, em vez de ampliá-los, a fim de elevar consumo e obter arrecadação, de modo a expandir investimentos públicos, capazes de bombar a demanda global, já que o setor privado não teria gás, na crise, para enfrentar a parada?

Negação da história

Em vez de entender as razões políticas que levam Paim a uma adequação da realidade, em obediência à correlação de forças dialéticas em movimento de contrários, no interir dos partidos, onde reina os antagonismos de classe, algo em permanente mudança do quantitativo em qualitativo, a consultora Filgueiras ingessa-se sob pensamento mecanicista rígido sem perceber que as classes sociais antagônicas fazem das pressões políticas o seu próprio movimento de realização concreta e substantiva como sujeito da história.

Paulo Paim, quando encaminha emenda fortalecendo o poder de compra dos aposentados, caminha na mesma direção de Lula, ou seja, fortalecendo a poupança interna, capaz de produzir os investimentos internos e crescentes ingressos tributários.

Certamente, o sistema é contraditório e os aumentos dos gastos do governo, no ambiente em que predominam juros altos, sinalizam perigos para as finanças públicas. Estas, no entanto, estão ameaçadas não porque a estratégia de aumento dos rendimentos dos aposentados cria indexação de despesas que elevam o déficit, mas porque, no âmbito da política monetária, existe uma indexação muito mais destrutiva, algo que Filgueiras parece não perceber, de acordo com sua mente neoliberal.

Trata-se do fato maior que contribui decisivamente para promoção da desestruturação crônica do sistema econômico nacional, expresso nos privilégios conferidos ao capital financeiro no âmbito da relação capital-trabalho, garantidos, constitucionalmente.

De acordo com o artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, da Constituição, o capital financeiro, durante a Nova República neoliberal, tem sido engordado pela proibição de contingenciamento de verbas orçamentárias destinadas ao pagamento dos serviços da dívida. Enquanto isso, todos os demais setores da economia ficam sujeitos a tal engessamento, justamente, para que não falte nada para a bancocracia acumuladora de capital, como dizia o senador Lauro Campos. Vale dizer, indexar o ganho dos aposentados às regras de reajuste do salário mínimo, não pode, como deseja Paim, sob ataque de Filgueiras, quando propõe emenda constitucional nesse sentido. Já a indexação do lucro bancocrático por meio de privilégios constitucionais não seria condenável. Dois pesos, duas medidas.

Por acaso, não se trataria de elevação real de despesas a pregação constante no artigo constitucional, visto que não gera arrecadação, mas, sim, buraco orçamentário, ao contrário das “despesas” para com os aposentados?

Afinal, quando o governo gasta com os aposentados, estes, com mais dinheiro no bolso, demandam ou não mercadorias? Fazem ou não fazem crescer a arrecadação, traduzida em poupança interna, enquanto quando se gasta com o aumento dos juros não se verifica, dialeticamente, o fenômeno reflexo da despesa se transformando em consumo?

Pelo contrário, pagar juros escorchantes representa a negação de que consumo é produção e produção, consumo. Fica, apenas, confirmado, com a sustentação do desenvolvimento com base em poupança externa, que esta, como destaca Marx, apenas, significa eterna dominação internacional.

Eterna dependência externa

Como o recentemente falecido poeta Clésio(apoiado na roda), integrante de trio brasiliense famoso, com Clodo e Climério, poderia compor "Revelação", grande sucesso gravado por Fagner, se tivesse sua mente condicionada pelo pensamento subordinado à anti-poesia, adestrada pelo pensamento mecanicista, que campeia na consultoria legislativa do Congresso, a serviço, como é o caso de Filgueiras, do ponto de vista explorador do capital frente ao trabalho? Jamais pintaria a beleza clesiana: "...Quando a gente tenta de toda a maneria dele se guardar sentimento ilhado morto e amrodaçado volta a incomodar" Inventividade e criatividade não combinam com mera utilidade.

Filgueiras, ao insistir que pagar melhor aos aposentados corresponde a aumentar o rombo do déficit público, está, tão somente, contribuindo para promover a eterna dependência externa, já que sem o aumento da “despesa”, que, na prática, se transforma em consumo, que vira arrecadação, que produz investimento, expressando o fenômeno da verdadeira formação da poupança interna – nacionalista –, o que sobra é crônica insuficiência de consumo. Esta, dialeticamente, exige desvalorização cambial recorrente que leva à hiperinflação e, consequentemente, à necessidade de buscar mais poupança externa, mais empréstimos internacionais, ou seja, mais escravização do capital.

A consultora do Congresso critica o que considera preconceito a não discussão dos rombos orçamentários. Credita ele ao poderoso lobby dos aposentados, que se fortalecem, especialmente, em temporadas eleitorais. Mas, afinal, a democracia não é o jogo do contraditório, da organização das classes sociais antagônicas, cujas demandas precisam passar pelo interior dos partidos, onde os antagonismos se transformam em consensos possíveis, conforme a correlação de forças políticas vigentes?

O aumento da poupança interna, expresso no aumento das “despesas” para com os trabalhadores, que, do ponto de vista deles, representam gastos em consumo, que vira produção, que vira arrecadação, não se traduziria, politicamente, em novas correlações de forças, a influírem, dialeticamente, no comportamento dos políticos no legislativo?

Ou o legislativo teria que ficar prisioneiro do pensamento neoliberal utilitarista, mecanicista, positivista de consultores – nem todos, é claro – formados ao largo da realidade dual em que positivo e negativo se interagem para demonstrar que a negatividade, como diz Hegel, é a essência da verdade?

Copa: futebol, racismo e política

Categoria: (Cultura, Política) por Beto Almeida em 11-07-2010

SÍMBOLO DA LIBERDADE, NELSON MANDELA, EMBORA ESTEJA SOFRENDO PERDA DE NETA QUERIDA, SABOREIA SEU GRANDE TRIUNFO HISTÓRICO. Vai chegando ao final a primeira Copa do Mundo de Futebol realizada na África. Talvez a frustração da torcida brasileira, combinada com uma destrambelhada cobertura midiática, - que exortou sentimentos racistas contra paraguaios e de hostilidade gratuita contra argentinos- não tenha permitido compreender que o simples fato da Copa ter sido na África do Sul é uma grande vitória contra o racismo internacional e contra as grandes potências capitalistas que tentaram boicotar ou desmoralizar os africanos. Mas, sobretudo, é a vitória de um país e de um povo que sequer participou da Copa. Cuba, que ao derrotar o exército racista sul-africano em Cuito Cuanavale, Angola, para onde enviou 400 mil soldados, deu o passo fundamental para a libertação da África do Sul. “A Batalha de Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid. E isto devemos a Cuba”, disse Mandela, após ser liberado de 27 anos de prisão. A torcida mundial deveria ser amplamente informada destas verdades. Quando Lúcio, o aplicado capitão da seleção canarinho, leu mensagem condenando o racismo antes daquela fatídica partida contra a Holanda, talvez não pudesse medir o grande alcance de seu gesto, que nos obriga a recuperar um fase da história recente. Condenar ali mesmo o racismo era imperioso pois era respeitar aquele povo e também alertar para as novas expressões racistas que estão se projetando em outros países, inclusive países que estavam ali disputando o certame.

Apartheid espantaria Copa

O GRANDE CAPITÃO CANTOU A ORAÇÃO ANTI-RACISTA. O certo é que a Copa do Mundo só estava se realizando ali em território sul-africano porque milhares de seres humanos deram suas vidas contra o animalesco regime do apartheid, que com o apoio de países como Estados Unidos e Inglaterra, principalmente, massacrou de maneira cruel a pátria de Mandela. A África do Sul racista, imperialista, ditatorial, que foi recebendo sanções internacionais quanto mais crescia a resistência popular em seu interior e mundo a fora, levando-a a receber algumas sanções internacionais, jamais poderia ser a sede de uma Copa do Mundo se estivesse sob o apartheid. Queremos, portanto, estender a oração do capitão Lúcio para fazer justiça a um povo que não estava disputando a Copa, mas que foi fundamental para que a Copa ali se realizasse para alegria e orgulho da nova África do Sul. A declaração de Lúcio tem raízes na história da solidariedade revolucionária que Cuba ofereceu á África, a começar pelo envio de médicos para a apoiar a Revolução na Argélia, onde esteve trabalhando o próprio Che Guevara. Enquanto Mandela ainda estava preso, Cuba já estava apoiando os vários processos de libertação em território africano. Libertação que veio a receber um grande impulso a partir da Revolução dos Cravos, em Portugal, liderada por jovens capitães, muitos deles egressos das então colônias portuguesas em território africano, onde aprenderam muitas lições de dignidade por parte daqueles povos a quem deveriam esmagar. Houve capitães que mais tarde relataram que em território angolano se convenceram que a razão da história estava com os guerrilheiros angolanos. Por isso mesmo, chegavam a organizar certas incursões pelas selvas, onde deixavam deliberadamente suas armas para serem recolhidas pelos soldados do Movimento Popular para a Libertação de Angola, simulando que haviam sido desarmados, quando estavam a dizer, com aquele gesto, que apoiavam a causa da libertação africana. Estes gestos dos militares portugueses floresceram em Cravos Vermelhos pelas ruas de Lisboa, após soarem os primeiros acordes da canção “Grândola, Vila Morena”. A razão histórica venceu! Não sei se o capitão Lúcio, na sua juventude de uma vida dedicada ao futebol, teve oportunidade de informar-se sobre isto antes de ler aquela importante declaração contra o racismo, num gesto de grandeza da nossa seleção.

Cuito Cuanavale

CUBA DEU GRANDE CONTRIBUIÇÃO HISTÓRICA À LUTA ANTI-RACISTA PARA QUE OS POVOS SUL-AFRICANOS AFIRMASSEM SUA INDEPENDENCIA. Quando Cuba atendeu ao chamado do presidente angolano, o médico, poeta e guerrilheiro Agostinho Neto, para que enviasse ajuda militar para assegurar a libertação de Angola, conquistada em 11 de novembro de 1975, com pronto reconhecimento de Brasil e óbvia contrariedade dos EUA, abria-se uma nova página na história da África, mas também da solidariedade internacional. A hipocrisia e a malignidade intrínseca da mídia comercial não deu a conhecer aos milhões de torcedores do mundo inteiro de olhos magnetizados no televisor uma linha sequer desta luta heróica para derrotar o apartheid e permitir, afinal, não apenas a libertação de Angola e da Namília, mas também de Nelson Mandela e a erradicação total do regime racista, derrotado no campo militar em Cuito Cuanavale e, mais tarde, novamente derrotado pelos votos que elegeram Mandela seu primeiro presidente da república, o primeiro com legitimidade! Não tínhamos nenhuma dúvida da bravura e da grandeza do gesto do povo cubano ao fazer a travessia do Atlântico no sentido contrário àquela rota feita pelos navios negreiros que vieram para o Brasil e também para o Caribe, nos unindo para sempre na dor, no sangue, na música, na cultura e também no compromisso de saldar esta imensa dívida que toda a humanidade tem para com os povos africanos. Porém, Cuba decidiu pagar antes de todos e para lá enviou 400 mil homens e mulheres, negros e brancos, inclusive a brancura da filha de Che Guevara, que também já havia lutado em Cabinda, enclave angolano próximo ao Congo. O médico brasileiro Davi Lerer estava exilado em Angola naquele período, ensandecido de solidariedade e de compromisso com a libertação angolana. Foi quando começou a perceber que alguns dos feridos de guerra por ele tratados, falavam espanhol. Era fruto da Rota do Atlântico feita no sentido contrário, no sentido da libertação. Todos devemos à Mama África. Mas, só Cuba teve a audácia de pagar esta dívida com armas nas mãos!

O cravo e a rosa

CRAVOS PORTUGUESES E REVOLUÇÃO CUBANA SE ABRAÇARAM NUM MOMENTO HISTÓRICO. A nobreza do gesto provocou o instinto assassino das chamadas democracias imperialistas. Acaba de ser divulgado que Israel forneceu armas nucleares à África do Sul para serem lançadas sobre as tropas cubanas no sul de Angola. Com o apoio dos aviões Migs de fabricação soviética, a tropas do exército racista da África do Sul foram enxotadas de território angolano, postas para correr também do território da Namíbia, cujas forças revolucionárias também formavam aquele formidável exército de libertação. Chegou-se a discutir nas forças de libertação a ida até Pretória!. Por isto os imperialistas cogitaram o uso de armas nucleares contra o exército cubano, pois o seu exemplo de internacionalismo proletário era por demais poderoso à humanidade! Tudo isto resultou no agravamento da crise do regime de Botha, na libertação de Mandela, no fim do apartheid, nas eleições diretas, e, por fim, na conquista da realização da Copa do Mundo, pela primeira vez, em território africano!. Vitória da humanidade, após tantas vitórias que abrilhantam a linda história de justiça da humanidade, unindo a Revolução Cubana à Revolução dos Cravos de Portugal! As armas nucleares na foram utilizadas daquela vez. Não se atreveram! Não se sabe se as utilizarão agora contra o Irã.

Racismo imperialista

DEMOCRACIA SELETIVA DOS RICOS USA OS IMIGRANTES PARA A GLÓRIA FRANCESA MAS NÃO DEIXA ELES ESCOLHEREM DEMOCRATICAMENTE OS GOVERNOS DA FRANÇA. A condenação ao racismo lida pelo nosso capitão, é atualíssima. Tem endereço. Depois da desclassificação das seleções dos Eua e da França, vimos pipocar novamente manifestações de racismo contra negros, imigrantes, árabes, hispânicos, sobretudo nestes dois países. Há os que considerem a França uma democracia exemplar, mas não querem prestar atenção nas declarações de Zidane, o craque da seleção francesa de origem argelina. Contrariando a tese dos acadêmicos pouco atentos, ele questiona a democracia francesa: “Eu posso ser campeão do mundo com a camisa da França, orgulho nacional, mas não posso eleger o presidente?” Agora o deselegante técnico da seleção francesa atira a culpa pelo fracasso aos jogadores de origem africana, à cultura dos bairros de periferia das grandes cidades francesas. Nenhum questionamento ao sistema político francês que é tão duramente combatido pelos jovens das periferias pobres na França, sem perspectiva de estudo ou de emprego! Nos EUA não foi muito diferente. Buscam-se justificativas para a desclassificação, mas, as vozes racistas voltam a falar alto, sobretudo contra hispânicos, asiáticos e afro-descendentes. A gigantesca contradição política vivida pelos Eua só tende a se agravar, certamente de forma dramática, já que o presidente Obama tem sido pressionado pelo complexo militar-industrial a reforçar sua presença armada mundo afora. Já mandou mais 30 mil soldados para o Afeganistão, continua a ordenar bombardeios de povoados matando crianças e destruindo alvos civis naquele país empobrecido. Esqueceu-se das torturas de Guantânamo? Manda uma frota nuclear para as proximidades da costa do Irã. Multiplica o orçamento do Pentágono. O prêmio Nobel da Paz vai se revelando o Prêmio Nobel da Guerra e continua colecionando cadáveres e mais cadáveres! Na linha inversa, o Brasil aprova o seu Estatuto da Igualdade Racial e cria a Universidade Lusoafricana Brasileira (Unilab), na cidade cearense de Redenção, a primeira em extinguir o escravagismo no Brasil. Lá teremos professores e studantes africanos, estudando gratuitamente. É a forma brasileira de também começar a apagar a enorme dívida que temos para com os povos africanos, como assinalou Lula. É verdade que estes dois gestos concretos nos chegam com 112 anos de atraso. Há muito ainda para caminhar, mas a linha é a de continuar a abrir espaços para que os negros sigam aumentando sua presença qualificada nas universidades, para que os Territórios dos Quilombos sejam definitivamente escriturados em nome dos remanescentes dos escravos, que as políticas públicas de habitação contemplem as necessidades da população negra, ainda alvo de desumana discriminação no mercado de trabalho, recebendo ainda os piores salários, ocupando as piores funções, e, ainda por cima, confinada à invisibilidade nos meios de comunicação, salvo as honrosas exceções da comunicação das tvs públicas e comunitárias, que registram alguma justiça racial televisiva.

Rivalidades exageradas

OBDÚLIO VARELA, O GRANDE JOGADOR URUGUAIO QUE CALOU O BRASILL EM 1950, SIMBOLIZA UMA AMBIGUIDADE HISTÓRICA DE LUTA QUE MISTURA INTEGRAÇÃO E DESINTEGRAÇÃO SUL-AMERICANA. O mal exemplo vem exatamente das tvs comerciais. Ofendem gratuitamente ao povo paraguaio ou insuflam uma exagerada hostilidade contra argentinos, certamente, fazendo um tipo de jornalismo de desintegração, exatamente quando nós latino-americanos estamos a organizar e por em prática, por meio de vários governos, políticas públicas de integração econômica, energética, comercial, cultural educacional. Seguindo as orientações dos que querem impedir que sejamos solidários e cooperativos entre nós - por acaso, as mesmas nações imperiais que antes apoiaram o apartheid e recentemente tentaram boicotar a realização da Copa na África - cria-se um clima para uma rivalidade exacerbada, agressiva, verdadeira hostilidade, por exemplo contra argentinos e paraguaios. Basta recordar o comportamento do capitão da seleção uruguaia, Obdúlio Varela, que ,em 1950, fez o Brasil todo chorar quando derrotarem a equipe canarinha em pleno Maracanã. Varela sentiu tanta segurança e confiança no caráter amistoso do povo brasileiro que foi comemorar a vitória uruguaia com brasileiros na noite carioca, sendo tratado com fraternidade e nobreza olímpicas pelos nosso povo. Diante de comportamento tão elevado dos brasileiros, certos narradorestelevisivos de hoje, apesar de frequência em certames internacionais, revelam-se verdadeiramente torpes e ineptos para alcançarem um padrão de jornalismo desportivo minimamente olímpico, tal como a Grécia Antiga - não a atual induzida á falência pela oligarquia financeira - legou à humanidade. Querem animalizar, embrutecer, despertar baixos instintos, estando portanto, em choque frontal com os princípios e valores que a Constituição pauta para os meios de comunicação, exigindo que sejam educativos, respeitosos aos mais nobres valores humanos e destinados à elevação cultural da sociedade. As nações imperiais sabem perfeitamente da utilidade destas rivalidades fomentadas, muitas vezes artificialmente. Sobretudo contra povos que possuem grande potencial de cooperação entre si, como é o caso de Brasil e Argentina, cuja integração das bases produtivas poderia acelerar e encurtar sobremaneira os prazos históricos para a integração da América Latina. Por isto fazem o jornalismo da desintegração. Pela mesma razão, são incapazes, como meios de comunicação, de informar sobre o papel que Cuba desempenhou na história recente de libertação da África.

Jornalismo de integração

O AMOR É A LEI GERAL DA VIDA. OS POVOS ESTÃO CONDENADOS A ELA POR MEIO DE UMA COMUNICAÇÃO VERDADEIRA E SOLIDÁRIA. As nossas tvs públicas precisam fazer o contraponto. A diversificação e a pluralidade informativas, neste episódio, seriam extremamente válidas. Sobretudo se permitisse ao povo brasileiro conhecer quanta história existe por detrás da declaração contra o racismo que o capitão Lúcio fez naquele estádio repleto de sul-africanos libertos do regime do apartheid. E também conhecer quanta manipulação se faz do esporte, em nome de causas mesquinhas e anti-civilizatórias, como as que pretendem reviver o racismo e o impedimento ideológico da cooperação e da solidariedade entre os povos que tem um destino comum. O da unidade, da cooperação e da solidariedade.