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Direito de consumo contra crise global

Categoria: (Cultura, Economia, Política) por Conselho Editorial Sul-Americano em 03-01-2012

Em cada 3,5 segundos, um ser humano morre de fome no mundo. Atualmente, são cerca de 1 bilhão de pessoas padecendo de subnutrição, conforme a ONU. Ou seja, o capitaismo em sua fase financeira altamente especulativa comprovou sua total inutilidade para resolver o problema da pobreza absoluta. Ao contrário, agravou-a. No momento em que a crise demonstra a incapacidade do sistema capitalista de continuar exercendo o papel que historicamente lhe cabe, ou seja, de garantir a reprodução ampliada do próprio capital, porque a arma para o exercício de tal tarefa esgotou-se, nas economias monetárias, resta o reconhecimento de que a sua ideologia, essencialmente, utilitarista, deixa de ser útil. Como, de acordo com a utilidade ideológica, tudo que é útil é verdadeiro, se deixa de ser útil, claro, deixa de ser verdade. A fome no mundo, certamente, não será resolvida pelo capitalismo, que, agora, não resolve mais nem os problemas do próprio capital. Que arma que assegurava a reprodução capitalista  deixa de ser útil aos olhos de todo o mundo? A capacidade dos governos vencerem a deflação por meio da inflação, que é, dialeticamente, disfarçada de endividamento público. Como nem os bancos centrais buscam mais salvar os governos endividados, deixando-os na rua da amargura, como se verifica na Europa, tende a explodir a grande contradição do sistema, que é o colapso do desenvolvimento das forças produtivas no contexto das relações sociais da produção. Enquanto o sistema produtivo, mediante impulso da ciência e tecnológica colocada a serviço das atividades produtivas, desenvolve exponencialmente, ampliando a oferta de mercadorias, as relações sociais da produção, pautadas na exploração do trabalho humano como propulsor da lucratividade do capital – produtivo e especulativo – emperram a funcionalidade do sistema devido a sua gênese irracional. Os gastos do governo estavam, temporariamente, ao longo do século 20, resolvendo tal contradição, contendo as forças produtivas. A incapacidade de continuar o processo se expressa no estouro das dívidas e na supremacia dos credores que impõem o tornique fatal. O resultado é a impossibilidade de a economia capitalista de garantir não apenas a reprodução ampliada do capital, mas, também, a supressão da fome, porque sua essência é a permanente sobreacumulação de riqueza, de um lado, e sobreacumulação de pobreza, de outro. A lógica da sobreacumulação potencializada em dois extremos antagõnicos, naturalmente, é a queda de preços, a acumulação de mercadorias excedentes, o desemprego, a deflação e a fome que desatam guerras cambiais. Nesse contexto, em que a irracionalidade, em meio à crise global, ganha rítmo inexorável, no sentido de destruir, tanto o trabalho, como o capital, a única alternativa, para evitar a guerra de extermínio em meio à lei selvagem darwiniana do capital, é satisfazer a necessidade básica do ser o humano, o consumo, assegurando o direito de consumir. Afinal, quando o ser humano não presta para mais nada, ainda lhe resta uma função econômica fundamental: o consumo. Ao consumir, gira as máquinas da produção, do emprego, da renda, da arrecadação, do investimento. No ambiente capitalista em colapso em que o desemprego se amplia nos países capitalistas ricos, somando-se ao subdesemprego crônico na periferia capitalista, condenada a ser produtora de matérias primas e a sofrer permanente sucateamento industrial, em razão das guerras cambiais impostas pelo capitalismo cêntrico, faz-se necessário que a classe política, nos parlamentos, encaminhem projeto de lei capaz de garantia aos pobres o direito de consumo. Por ai, se estabelecerá, a partir do fortalecimento da consciência ética e moral, o princípio da igualdade social, que coloca em cena a prioridade absoluta de promover programas sociais como principais indutores do desenvolvimento econômico sustentável. Deixa de ser prioridade absoluta o pagamento dos serviços da dívida pública interna, como estabelece a Constituição brasileira em seu artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, pelo qual todos os recursos do orçamento não-financeiro(saúde, educação, segurança, infraestrutura, enfim, a vida do povo) podem ser contingenciados em favor da preservação, intacta, dos recursos do orçamento financeiro(destinado a servir aos banqueiros agiotas) etc), livre, por cláusa pétrea constitucional,de sofrer qualquer contingenciamento. O direito de consumo estabeleceria nova lógica para a política econômica. Como muito provavelmente os congressistas brasileiros, prisioneiros do sistema financeiro, que banca suas campanhas sob modelo eleitoral corrupto, não executarão tal tarefa, esta caberia, essencialmente, à democracia direta, a exemplo do que aconteceu com a lei da ficha limpa. Se os ricos de todo o mundo encararem o direito de consumo como direito natural, expresso em lei, a expansão dos consumidores, na África, na América do Sul, na Ásia, nas regiões onde a miséria ainda impera, representaria saída para a crise global. Se os ricos produzem para garantir o consumo da pobreza mundial, o desemprego, na esfera rica, tenderia a ser combatido e, certamente, a insuficiência relativa de demanda, afetada pelo desemprego e pela opção pela poupança daria lugar à produção e ao investimento. Ou não? O exemplo dos programa sociais que fazem ampliar a orientação política nacionalista na América do Sul, somado à riqueza sul-americana, traduzida em matérias primas – energia, alimentos e minerios – dos quais dependem a manufatura global, demonstra que o impasse econômico mundial só será insuperável, se faltar vontade política, já que se os ricos, em processo de falência, sucumbirem-se, os pobres poderiam ir junto, e vice-versa. A nave global é a nova versão da Arca de Noé. Se todos consumirem, todos se salvam; se uns consomem à custa da fome dos outros, todos se lascam.

Grande oportunidade de Dilma

A presidenta Dilma Rousseff tem a faca e o queijo nas mãos para se tornar grande líder, não apenas brasileira e sul-americana mas mundial, se encaminhar ao Congresso Nacional projeto de lei que estabelece direito de consumo, cuja aprovação, em regime de urgência, graças à maioria governamental disponível, sirva de modelo para que o Diretor Geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação(FAO), o brasileiro José Graziano da Silva, recentemente, eleito para o cargo, vocalize a proposta do Brasil em escala global, como alternativa para a crise mundial do capitalismo, contribuindo para a sua reformulação como instrumento de sobreacumulação de riqueza, de um lado, e sobreacumulação de pobreza, de outro. Em sua fala na ONU, quando ali discurso como primeira mulher presidenta, Dilma propõs a universalização do Programa Bolsa Família como saída capaz de combater efetivamente a fome mundial. Trata-se, agora, de criar instrumento institucional, em escala internacional, do conceito econômico de consumo como principal alavancador dos investimentos, pois, somente por intermedio dele, os governos, que se encontram encalacrados em dívidas, contraídas para promover a sobreacumulação de capital especulativo, terão saída satisfatória no processo de incrementar a demanda global. O governo Lula demonstrou na crise de 2008 que a alternativa para a crise é garantir três pratos de comida por dia aos pobres. Com o cartão de alimentação assegurado pelo Bolsa Família, dona Maria vai ao supermercado comprar uma lata de óleo que dispara pedidos para todos os lados. O comércio pede à indústria, a indústria pede à agricultura, a agricultura vai à indústria, que acelera a distribuição que puxa a demanda de combustível etc etc, sendo que em cada etapa da produção o governo arrecada 40%. É o dinheiro ganho como a maior rapidez jamais vista, à vista, na hora, na boca do caixa, proporcionando-lhe recursos que serão canalizados aos investimentos. Os pobres, na economia altamente tecnificada, certamente, não precisarão trabalhar. Também, não tem emprego para todo o mundo. Mas, embora não trabalhe, eles consomem. E consumindo, agita a atividade produtiva.  Basta garantir a eles o consumo. A China está fazendo a maior reforma agrária do mundo, acabando com os trabalhadores rurais, garantindo-lhes consumo na grande cidade, para onde migram, a fim de que possam desfazer de suas pequenas propriedades, às quais, adquiridas pelo grande capital, serão trabalhadas pelas máquinas, elevando a produtividade em escala exponencial. Acabou o tempo da enxada e do arada puxado por bois. A lei de São Francisco de Assis, dar para receber, é a grande saída do governo para acabar com a pobreza e garantir arrecadação para sustentar os investimentos. A crescente valorização do salário mínimo, em outros tempos, seria demonizada sob argumento de que elevaria os custos de produção, que transferidos aos preços, impulsionariam a inflação. Agora, ao contrário, passa o rendimento mínimo do trabalhador a ser encarado não como custo, mas como renda, que proporciona a ele consumo que fortalece o caixa do governo em forma de tributo, e por aí vai. Isso, sem tensionar, incontrolavelmente, a inflação. A inflação não é produzida pelo consumo, mas pela fome, que eleva os estoques, os excedentes que exigem desvalorização das moedas para serem exportados cujas consequências são elevações internas de preços, como a história está farta de demonstrrar. O fortalecimento dos programas sociais é, por sua vez, parteiro de novas classes sociais. Quem estava na classe E pula para a C, quem estava na C pula para a B etc. A expansão do consumo, por conta da dinamização da visão político-social, elegendo, consequentemente, governos nacionalistas na América do Sul, principalmente, obriga as elites a se modernizarem, politicamente, de um jeito ou de outro, como demonstra a lei da ficha limpa. Ao lado da garantia do direito de consumo, vem a demanda por modelo político capaz de modernizar as relações políticas, no processo de alternância de poder, como ocorre, na Argentina, com a nova lei eleitoral. Esta, que virou pavor dos conservadores,  determina eleições prévias nacionais simultâneas e obrigatórias para as escolhas de candidatos pela comunidade. As organizações sociais nos bairros participamdo processo, na base, escolhendo os candidatos, indistintamente, entre todos os partidos. Acabou o caciquismo. Aquele que é escolhido em prévias já sai com ficha totalmente limpa para a disputa majoritária ou proporcioal, etc. Ou seja, essa é a grande reforma política que elimina a reação conservadora dos caciques que resistem a ela. Dilma tem que entrar nessa. As novas classes sociais nascidas da alavancagem econômica determinada pelo consumo impõem nova dialética política. O avanço da democracia participava é diretamente proporcional à expansão do consumo das classes sociais mais baixas, cujos direitos econômicos adquiridos a partir do ato de consumir se transformam em alavancas que fazem expandir os direitos políticos. Assim, ao encaminhar ao Congresso projeto de lei que garante direito de consumo, disseminando esse processo em escala global por intermédio da ONU-FAO, onde pontifica a liderança do brasileiro Graziano, a presidenta Dilma Rousseff pode dar passo decisivo para materializar o discurso de posse na presidência da República, em 2010, em favor da eliminação da miséria no mundo  e da afirmação da liderança da mulher em escala global.

Liderança ainda prisioneira da clandestinidade

Categoria: (Cultura, Política) por Cesar Fonseca em 31-12-2011

Dilma, economista de esquerda, heterodoxa, anti-neoliberal, em seu discurso de posse, deu o tom da nova liderança política necessária, ainda, não inteiramente materializada por ela, mas como algo que está a caminho, conforme apontam as pesquisas que confirmam sua popularidade, em um ano de governo,  em meio ao presidencialismo de coalizão indutor da corrupção. Destacou dois pontos essenciais: acabar com a miséria e colocar a mulher no centro das transformações, ou seja, ela mesma. Contudo, ainda não se libertou do seu inconsciente político real, urdido na clandestinidade, devido às circunstâncias que determinaram seu verdadeiro caráter, seu etos político: ser filha da vida política clandestina. Sua consciência e seu inconsciente aprenderam a atuar conforme a lógica da própria clandestinidade, como denota o livro “A vida quer é coragem”, 304 pags, Editora Primeira Pessoa, do excelente repórter Ricardo Batista Amaral. A militância clandestina condiciona a personalidade humana aos critérios estabelecidos pela realidade política vigente, no caso a ditadura militar, sobre a qual, durante os anos de chumbo, ela viveu, sobreviveu e triunfou. Sob esse status quo bárbaro o ser humano se endurece no compasso da pedagogia política clandestina. Dilma, por isso, é dura na queda. Nos desdobramentos da sua experiência política brutal sobrou pouco espaço para a tolerância expansiva, o que não quer dizer que o seu humanismo intrínseco tenha sido, totalmente, abortado em favor da utilidade do processo clandestino sobre o qual se ergueu em prova de fogo. Sua sensibilidade é vivíssima. A prática política democrática expressa no embate partidário, pelo qual são canalizados, bem ou mal, os antagonismo de classe, não fez parte do seu aprendizado político, até quando alcançou a presidência, graças ao apoio decisivo de Lula. Depois da experiência do enfrentamento à ditadura, seu destino seguinte não foi a vida político-partidária, mas a político-administrativa governamental. Aí, sem dúvida, ela exercitou sua liderança, que chamou a atenção de um político essencialmente orgânico, instintivo: Lula. A vitória eleitoral traduz a importância do aprendizado da gestão administrativa como canal político para construção democrática, visto que a gestão implica escolhas políticas coordenadas por correlações de forças político-partidárias. Tudo é política. Dilma, portanto, chegou à presidência pelo lado inverso da realidade política construída psicologicamente pelo comportamento social. Enquanto militante, vivendo na clandestinidade, e como gestora, ao largo do embate partidário aparente, demonstrou, como evidencia o livro de Amaral, liderança política autêntica. Falta, agora, exercitar essa liderança no ambiente da liberdade na democracia indireta, insatisfatória, mediante modelo político, socialmente, excludente, elitista, inadequado, historicamente, com o qual navega, comportadamente, por enquanto. Se seu slogan é o de construir um Brasil Sem Miséria, certamente, sua afirmação de autêntica líder política terá que se expressar na abolição não apenas da miséria social, mas, principalmente, da miséria político-eleitoral. Sim, essa tarefa exige coragem. Até agora, Dilma deu continuidade à marca de Lula, de atacar a miséria social e econômica, mas condescendente com o jogo político anti-popular. Falta suprimir a miséria política, dirigida pelo presidencialismo de ocasião, dominado por medidas provisórias que colocam a democracia autêntica no limbo. Em seu primeiro ano de governo, não deu passo nesse sentido. Enquanto, não tiver essa coragem, sua liderança, certamente, continuará obscurecida pela clandestinidade política, longe da vista do povo. As crises capitalistas em curso são, como demonstra a história, parteiras de modernizações políticas fundamentais. Vamos aguardar 2012.

Talvez um dos erros capitais dos oposicionistas durante a campanha presidencial de 2010 tenha sido o de insistirem em ressaltar que a candidata Dilma Rousseff seria alguém sem experiência política e consequentemente incapaz de liderar politicamente a nação, caso fosse eleita.

Desdenharam. No ditado popular, quem desdenha quer comprar. Pretenderam dar um preço baixo para ela, em termos políticos. Como desconheciam o conteúdo da guerreira política forjada na clandestinidade, demonstraram infantilismo.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, sempre com aquele jeito dele de senhor sabe tudo, chegou a insinuar que ela não passava de um poste que Lula poderia eleger, dado seu prestígio popular imenso.

Da mesma forma, o candidato tucano, José Serra, mais de uma vez, bateu na mesma tecla. Dilma seria um pau mandado. Nada pior para o destino do país ser governado por quem não teria opinião própria, sendo necessário consultar o seu mentor, sempre.

Cheio de sabedoria, invariavelmente, se tornando o rei da obviedade ululante, como se deduz da leitura dos seus artigos, Serra, como FHC, foi tomado de excessiva autoconfiança, enquanto olhava para a adversária de cima das suas lentes superiores.

O restante do tucanato, seguindo o mesmo tom das duas sumidades partidárias, da mesma forma, fez pouco caso, configurando a personalidade gremista, excessivamente, auto-suficiente, como evidenciaram as participações do presidente do partido, então, senador Sérgio Guerra, emitindo ridículas e machistas declarações inoportunas.

Tentaram, todos, vender a imagem de que Dilma representaria um cheque em branco que poderia não ter fundo suficiente.

Depois da leitura do livro “A vida quer é coragem”, reportagem e história envolvente em rítmo de disputa eleitoral em campanha eletrizante, o equívoco dos oposicionistas se evidencia com cores fortes.

Eles marcharam para uma campanha eleitoral sem saber, realmente, quem estariam enfrentando. Pintaram um perfil falso da candidata. Deixaram de seguir a principal regra de uma disputa: saber com quem se disputa uma luta.

Se tivesse tido esse cuidado essencial, que é o de conhecer, com profundidade, o ou a adversária numa batalha política, talvez o excessivamente confiante José Serra não levaria surra eleitoral, expressa em 12 milhões de votos de diferença.

Efetivamente, Amaral, desdobrando os acontecimentos com o molho adequado da racionalidade e da emoção, pulsando os dados e submetendo-os às análises conjunturais de um experiente profissional do jornalismo, demonstra que Dilma não é nem nunca foi neófita em política.

Claro, se não fosse Lula ter instinto político de perceber que gestão governamental bem exercitada representa atributo político essencial, tendo chegado a vez de uma mulher governar o Brasil,  certamente, a vitória poderia não ter acontecido.

Mas, alguma coisa na vida vem por acaso? O acaso, realmente, existe?

Daí, fazer o que fizeram os oposicionistas, desdenharem a candidata escolhida no dedaço pelo ex-presidente, iria uma distância muito grande.

O relato histórico-jornalístico evidencia que o que Dilma mais exercitou na vida foi justamente a luta política, na qual forjou sua liderança não à luz do dia, na batalha democrática, no livre jogo dos partidos, mas na clandestinidade, quando as agremiações partidárias eram praticamente fantoches da ditadura, incapaz de conter o espírito rebelde social.

A rebeldia foi a escola política de Dilma dada pelas circunstâncias históricas decorrentes da supressão da democracia pela ditadura, hoje, sabidamente engajada nas determinações imperialistas do poder americano no Brasil, com o fito de evitar a expansão, aqui, do movimento socialista internacional.

Diversionista nato

Serra só deu tiro errado durante a campanha eleitoral. Seu erro, fundamentalmente, foi o de desrespeitar a candidata, bem na linha tucana, de achar que tudo que não é tucano não merece ser levado em consideração. Tremenda soberba. Fizeram os líderes tucanos leitura errada de Dilma, considerando-a neófita em política, sem levar em conta que o aprendizado político dela foi muito mais rigoroso do que aquele experimentado, tanto por Serra como por FHC, por exemplo, não experientes, como ela, nos desvãos dos porões da ditadura, onde é exercitada a anti-política. Não souberam, portanto, o que é a verdadeira clandestinidade e as consequências brutais decorrentes do seu exercício. Serra, na hora h, exilou-se no Chile, indo, em seguida, para os Estados Unidos, onde acabou se alinhando ao pensamento do império, ao qual, quando chegou ao governo FHC, buscou servir, servilmente, concebendo e apoiando o processo de privatização verdadeiramente contrário ao interesse nacional, não pelo processo em si, mas pela enormidade da disposição de desfazer a qualquer custo o patrimônio público. Rendeu-se aos ditames do Consenso de Wahington, como preço para alinhar-se, caninamente, ao ajustamento econômico entreguista neoliberal. Saiu para a disputa com Dilma vestido de político moderno porém acabou patrocinando a vergonhosa tentativa de alcançar o mais baixo dos preceitos políticos, ou seja, o fundamentalismo religioso, ancorado na mentira descarada, inventando fatos e incensando divisões dentro do seu próprio partido. Sua presença dentro do PSDB se transformou no maior incômodo para os próprios tucanos. É um diversionista nato. Quem vence conseguindo dividir suas próprias forças? 

Os cerceamentos ao movimento democrático, emergentes em escalada, nos anos de 1960, passando pela cassação de mandatos, pela eliminação dos partidos, nascidos no movimento democrático do pós-guerra, pela imposição de partidos, inteiramente, artificiais, a fim de sustentar um Congresso inoperante, administrado por decretos leis, até a edição do AI-5, expressão do desmascaramento geral dos ditadores, expulsaram tanto as  lideranças históricas como impediram, consequentemente, a emergência das novas lideranças.

Dilma estará entre essas lideranças que tiveram suas “Cabezas cortadas”(Glauber Rocha) para não ficarem expostas à luz do dia. Sobrou o formigamento do espírito de resistência na clandestinidade.

Nesse submundo cercado das proibições generalizadas, responsáveis por sequestrarem a liberdade em todo o país –e, também, em toda a América do Sul – em função de uma geopolítica imperialista em que os generais brasileiros se transformaram em marionetes do império, Dilma construiu sua liderança.

Os relatos expostos por Ricardo Amaral são abundantes como alicerces da construção da resistência política clandestina. Nesse contexto, Dilma qualificou-se como líder, organizando, articulando, determinando tarefas relacionadas às ações mais arriscadas possíveis, especialmente, quando o tempo fechou de vez com o AI-5, em 1968.

Pombo correio do movimento revolucionário radical clandestino, ela girou pelos principais centros urbanos onde a resistência era construída, relacionando com companheiros de diversos estados e, certamente, de diferentes personalidades, todos, no entanto, amarrados por uma só causa.

Seu apartamento, herdado do pai que soube ganhar a vida ao aproveitar as oportunidades existentes no campo imobiliário de uma Belo Horizonte nos seus primórdios atrativa aos investidores da construção civil, transformou-se numa cela revolucionária.

A política intensa era feita aí, de forma ousada, atrevida, sonhadora, muitas vezes descuidada do perigo. Nas vinte e quatro horas do dia, o tempo inteiro se voltava para o debate, para a organização, para a relação política perigosa e apaixonada.

Eram desses políticos curtidos na sombra e na coragem sem limites que a ditadura mais tinha medo. Contra eles arregimentou sua maior força, sua maior violência, sua maior ferocidade.

Como dizer, então, que Dilma seria neófita em política ao chegar à presidência da Republica anos mais tarde, se o seu aprendizado foi o total enfrentamento político com os que sequestraram a democracia brasileira para atender as demandas políticas imperialistas dos Estados Unidos?

A escola em que forjou o seu caráter político duro, certamente, foi a clandestinidade. O condicionamento social ao qual está sujeito o ser clandestino obedece a uma lógica inteiramente diversa da que está submetido o indivíduo sobrevivente à luz do dia, condicionado às regras formais da sociedade.

O clandestino está rompido com a normalidade. Sua experiência política é negativa aos olhos dos espíritos conservadores. No entanto, ela se desenvolve por forças das circunstâncias, como o animal que se obriga a sobreviver permanentemente cercado de adversários cuja missão é, instintivamente, matá-lo.

Apesar disso, o ser humano, conforme a visão de Platão, continua sendo ser político, tendo todas as suas ações elaboradas à luz dessa lógica intrínseca ao animal racional, com muito mais intensidade, porque se vê obrigado a construir diques, barreiras, erguer sacos de areia, para não ser pego de surpresa.

O clandestino é o político permanentemente sobressaltado. Seus códigos de convivência são construídos com excessiva dose de paranoia, de modo que o outro sempre poderá ser o adversário a ser derrubado, necessariamente, para que a sua queda não seja antecipada, fragilizando, claro, o movimento político ao qual se vincula.

Eis aí, portanto, a escolaridade política em que se educou Dilma em sua mocidade, culminando, aos vinte e dois anos, com queda nas mãos dos torturadores, que a levariam a um aprendizado político, ainda, mais duro do que o produzido pela clandestinidade.

Ditadura envergonhada

Uma foto espetacular que diz tudo. A altivêz sofrida da guerrilheira política sendo observada com vergonha extrema pelos juízes da ditadura, dominados pelo sentimento de culpa expresso no gesto de esconder as suas próprias faces. Parece que não era ela mas eles os que estavam sendo julgados pela história. Isso é ou não experiência política vivida nos horrores das sombras às quais a ingenuidade dos tucanos não levou em conta para taxar a ex-guerrilheira de neófita em política? Há escola mais dura e mais exigente, portanto, mais poderosa do que essa para esculpir o caráter político do ser humano, preparando-o para um futuro permanente incerto? Aquela jovem que seria a presidenta futura do Brasil, pode-se dizer, viveu todas as vidas antes de alcançar o verdadeiro estrelato dos holofotes lançados aos vencedores que jamais serão psicologicamente vencidos. A democracia, porém, é exigente. Impõe aos caráteres fortes a necessidade da flexibilização para a convivência, no poder, com o presidencialismo de coalizão, propenso à corrupção. Seria indispensável ou não que a postura guerrilheira não fosse de todo removida para enfrentar o modelo político elitista, socialmente, excludente, que impede a plena realização da soberania do social sobre o meramente econômico, na construção da verdadeira democracia?  O movimento social que foi colocado em marcha pelo desenvolvimento econômico com melhor distribuição da renda exige maiores avanços à democracia direta, na linha da ação popular expressa na consagração da lei da ficha limpa, para aprofundar as conquistas políticas relevantes. Esse é o verdadeiro teste – chamar o povo à reforma política – para a guerrilheira democrática em meio a grande crise global que balança as superestruturas jurídicas que dão sustentação ao capitalismo em bancarrota cuja utilidade vai tornando-o ideologicamente contestável econômica e socialmente.       

Os tucanos foram muito ingênuos ao desdenharem da experiência política de Dilma, para incorrerem no erro fatal de que estariam, na campanha eleitoral, diante de uma figura politicamente despreparada.

José Serra, tão experiente nas lutas que Dilma enfrentou, porque teve que correr, também, dos ditadores, foi, por Dilma, fulminado no segundo turno, simplesmente, porque tentou construir um antagonismo político baseado no fundamentalismo religioso. Extrema burrice.

Além de desdenhar a experiência política de Dilma construída na clandestinidade, quando exercitou sua conhecida capacidade de liderança, desconheceu ser ela mulher sofrida, que não cairia na armadilha tucana de tentativa de envolvê-la contra as mulheres na discussão da descriminalização do aborto.

Revolucionária, clandestina e mãe, que sofreu aborto involuntário, além de ter enfrentado traumatismo da gravidez tubária, responsável por impedir-lhe de ter mais filhos, Dilma, em si, teve e tem a consciência do sofrimento feminino. Por isso, virou o jogo na base da audácia, ao confrontar Serra contra sua própria mulher que dissera, durante a campanha fundamentalista tucana, que Dilma era adepta da morte de criancinhas.

Derrubados os tucanos por meio de audacioso desarme de sua estratégia político religiosa, Dilma, na reta final da campanha, no segundo turno, colocou em cena a sua experiência de guerrilheira política, jogando os tucanos contra a população, no caso das privatizações, que envergonharam o país, não pelo processo em si, mas pelos escândalos e roubos que praticaram.

Mentiram, descaradamente, ao povo, ao afirmarem, no governo FHC, que venderiam as estatais e com o dinheiro liquidariam as dívidas nacionais. Ocorreu, justamente, o contrário, a dívida quintuplicou enquanto o patrimônio nacional se esfumaçou, ao mesmo tempo em que no final do reinado da privataria a inflação, junto com a explosão do endividamento, estava de volta, como grande fantasma.

Polemista e guerreira, atributos somente possíveis àqueles que têm experiência e liderança política, Dilma, de acordo com a enumeração cronológica dos fatos relatados por Amaral, calou de vez o tucanato.

Artesão do fato histórico

Ricardo Amaral, experiente repórter atuante em diversas publicações da grande mídia, detentor do exato instinto do caçador de notícias, que as busca em seus diversos ângulos, para inseri-las em contexto plural mutante, dialético, interativo, em que a negatividade, como diz Hegel, é a própria realidade, viveu por dentro os acontecimentos que descreve, como um trailing cinematográfico. A campanha eleitoral de 2010 desdobra-se à frente do leitor em diversas faces, como a vida que puxa e estica, criando oportunidades e armadilhas, que possibilitam ao artesão do jornalismo conduzir o enredo com maestria. Não há propriamente grande novidade no relato, mas sim o ritmo surpreendente da amarração dos fatos entre si que forma um conjunto cujo enredo final é o de proporcionar, diante da isenção em que autor se coloca, a formação de uma visão critica. Amaral repete a mesma façanha excitante que executou o grande repórter Carlos Castello Branco, o saudoso Castelinho, na descrição das motivações que levaram Jânio Quadro à renúncia, construindo o desfecho desse fato extraordinario que mudaria a história do Brasil sem descobertas espetaculares, apenas, seguindo a sequência dos fatos que desembocam numa lógica irresistível que afasta construções fantasiosas decorrentes do excesso de excitação histórica. Como Castelo, Amaral se rende aos fatos e os encadeia com honestidade e simplicidade. Ser simples é muito difícil.

O fundamental do livro de Amaral é verificar a prova do pudim dilmista: aquela  luta política dura da clandestinidade formadora de uma liderança autêntica nos porões da ditadura faria emergir aos olhos do povo brasileiro, em tempos de liberdade política democrática, a mesma líder audaciosa, depois da brilhante vitória eleitoral de 2010?

 A liderança de Dilma, forjada na clandestinidade, emergirá para promover novo status político, na linha de uma radicalização semelhante à que empreendeu contra os ditadores, a fim de configurar educação moral ao processo do desenvolvimento econômico, social e político nacional, evidenciando a marca da coragem característica da mulher guerrilheira?

Evidentemente, a possibilidade de que tal venha  acontecer estará, certamente, na dependência dos acontecimentos políticos em escala mundial que promoveram primaveras políticas surpreendentes, ao longo de 2010, tanto nos países capitalistas ricos, em processo relativo de falência, como nos países pobres e emergentes, que anseiam a combinação da democracia com a reforma social.

Se Dilma agir, politicamente, na medida exata consoante à evolução desses acontecimentos, em meio às possíveis dificuldades emergentes na economia, por força da bancarrota capitalista global, poderá exercitar verdadeira liderança política, fazendo emergir, em circunstâncias históricas diferenciadas, o caráter revolucionário do seu espetacular aprendizado político, cuja desvalorização, por parte da oposição, custou a esta amarga derrota.

A liderança política sob governo administrado no compasso de medidas provisórias que revelam condicionamento total da democracia aos interesses econômicos, dependentes, totalmente, da demanda estatal como impulsionadora da dinâmica econômica, se faz pela força da própria organização estatal de viéz muito pouco democrático.

Nesse sentido, se Dilma seguir o figurino do poder de caráter meramente autoritário, poderá não revelar-se a líder política que lutou clandestinamente contra a ditadura. Estaria , portanto, condenada a ser uma eterna líder clandestina.

A não ser que decida, com a força política disponível, lutar para tirar o país da sua própria clandestinidade política expressa no presidencialismo de conveniência escassamente democrático.

Nesse sentido, o país viverá sua primavera política com Dilma?

Dilma – como Daniel – está na toca dos leões

Categoria: (Cultura, Economia, Política) por Conselho Editorial Sul-Americano em 23-12-2011

Os banqueiros agiotas, leões esfomeados, cobrando juros extorsivos do governo e do povo, bloqueando a produção, o consumo e impulsionando a inflação de custos, empobrecendo a todos, implacavelmente, enquanto comandam, pelo dinheiro, o poder do estado, comprando o silêncio dos políticos, no Congresso, estão cercando Dilma Rousseff, como cercaram o profeta Daniel, no Reino da Babilônia sob o rei Dario. Eles querem destrui-la. Não concordam com a política governamental voltada a fortalecer os bancos oficiais que ofertam juros mais baratos à produção, como faz o BNDES. Querem destruir o BNDES, que, outrora, foi generoso com eles, dando-lhes dinheiro subsidiado para comprar as estatais ao preço de banana, como aconteceu na Era FHC. Hoje, a serviço do PAC e dos interesses nacionalistas, o BNDES contraria a bancocracia, os leões entocaiados no Palácio. Por enquanto não ousaram engoli-la, mas cercam-na de todos os lados. Ela está na toca dos leões, como Daniel, jogado lá por Dario, sob pressão dos poderosos do reino, insatisfeitos com a visão humanista do profeta relativamente aos assuntos de governo. Irados contra Daniel, que, como conselheiro do rei, praticava a política distributiva e solidária, fazendo o bem ao povo da Babilônia, os agiotas, gananciosos e egoistas, cultuadores do lucro à custa do suor alheio, querem sangue. Servidores dos deuses da agiotagem, esses leões famintos pressionam Dilma a não reduzir os juros monitorados pelo Banco Central, conforme ela promete fazer, para sustentar o desenvolvimento econômico em plena crise mundial. Como Daniel, buscará ela, pela fé, os poderes superiores da solidariedade humana, conferidos pelo Deus de Judá contra os deuses dos fariseus de Dario, herdeiro de Ciro e de Nabocodonosor, mantendo os leões com a boca fechada pelo anjo do senhor? Até quando esse anjo vai protegê-la? Não estará este já a incensá-la a inverter o jogo, ou seja, transformar os leões de enviados dos agiotas em mensageiros celestes para destruir a agiotagem, estraçalhando os promotores da ganância, isto é, os próprios agiotas? Não terá chegada a hora de enviar os leões para destruirem quem está destruindo o povo, a exemplo do que fez Dario quando viu que a fé de Daniel era maior do que a dos seus assessores, os principes e presidentes das provincias, amigos da bancocracia, jogados todos às bocas das feras esfomeadas, fazendo o feitiço virar contra o feiticeiro? Ou a primeira presidenta do Brasil aceitará patrocinar seu próprio sacrifício, desdenhando-se da sua própria força?

Daniel, filho de Judá, inteligente, belo, sábio, justo e crente no Deus de Israel, levado por Nabucodonosor II(632 a.C- 562 a.C), depois de arrasar Jerusalém(587 a.C), acabaria, no reino da Babilônia, como um dos maiores amigos do rei por lhe ser não apenas fiel e digno de sua confiança, mas generoso, misericordioso, bom e pregador da igualdade social.

Despertava, por isso, grande ciúme, inveja e desejos de vingança entre os príncipes e presidentes de provincias no reino babilônico, onde, até aos 83 anos, serviu aos reis Nabucodonosor, Dario, Ciro etc, como denodado funcionário público, que virou príncipe, altamente, influente, poderoso, simples e, claro, invejado.

Espiritualista, leu e interpretou os sonhos de Nabucodonosor, conferindo-lhes indicações dadas pela espiritualidade que deixaram o soberano perplexo, invertendo verdades que cultuava com desvelo sob cultura em que vigorava crença em vários deuses, todos, aliás, inferiores, em seus poderes, ao próprio rei, cuja soberba, por isso, era invencível.

Buscaram os amigos(falsos) do rei, no tempo de Dario, o Medo, que conquistou a Babilônia em 539 a.C, dar cabo de Daniel de alguma forma bastante cruel, de modo a afastar, definitivamente, sua influência, responsável por arregimentar adeptos e a simpatia real, em graus crescentes, perigosos para a estabilidade deles.

Armaram os príncipes e presidentes de provincias, temerosos de perder poder, tremendo ardil vingativo, decisivo para retomar posições políticas que estavam sendo solapadas por serem ancoradas, tão somente, no interesse próprio, egoísta.

Destacaram que haveria necessidade de os súditos de Dario renderem graças, apenas, ao rei, num ambiente em que a variedade de deuses existentes sequer conseguia sobrepor ao prestígio de sua majestade em sua soberania máxima.

Caso contrário, se alguém fosse surpreendido rendendo graças a outro deus que não aqueles da conveniência dos doutores príncipes e presidentes das provincias, certamente, deveria ser jogado na toca dos leões.

Claramente,  o objetivo era eliminar Daniel, poliglota, culto, sábio, trabalhador, criativo, engenhoso e crente no monoteísmo, em um só Deus, criador do céu e da terra, imensamente justo e bom, e não no politeísmo, em que a variedade de deuses servia, exclusivamente, para atender as conveniências várias dos grupos de poder interessados na eterna cisânia dada pela disputa dos espólios de guerra entre si como soi acontecer, sempre, nas encarniçadas lutas pelo predomínio do comando político pelos tempos afora, sem escrúpulos nem piedades.

Reuniram com o rei Dario, todo poderoso e sábio, certo dia, príncipes e presidentes de províncias, para resolver a parada, ou seja, despachar para o inferno a influência crescente de Daniel junto à comunidade, atrativa ao espírito exigente de sua majestade por disciplina e justiça.

Defenderam criação de um édito segundo o qual punido seria aquele que não rendesse graças ao todo poderoso rei, acima, inclusive, das crenças tributadas aos diversos deuses politeístas,  divergentes, não raro, entre si nos ensinamentos de suas doutrinas, indutoras de divisões adequadas aos interesses dos presidentes de provincias e príncipes poderosos.

Nada como dividir para dominar.

Estava determinada a lei maior, impossível de ser transgredida sob pena de o transgressor pagar com a própria vida, exposta, então, à sanha dos leões esfomeados em sua toca sinistra.

Resignados teriam que morrer os que fossem alcançados pelos atos de desobediência.

Daniel, ao final de um longo dia de trabalho, consciente do édito reinol, considerando toda a sua seriedade, rendeu, no recesso do lar, graças ao Deus dos judeus por mais uma tarefa cumprida, rogando forças para que outras igualmente fossem vencidas, com o concurso do trabalho duro, responsável por criar valores materiais e espirituais reparadores e multiplicadores.

Os príncipes e os presidentes de províncias estavam de tocaia, esperando colher a prova definitiva contra o adversário a quem visavam destruir como alternativa de sobrevivência política.

Presenciaram o testemunho da fé  do odiado Daniel não ao rei Dario, superior aos deuses diversos cultuados pelos babilônicos, mas ao Deus monoteísta do reino de Judá destruído por Nabucodonosor.

Entregaram Daniel a Dario.

Contrariado e penalizado pelo judeu, a quem respeitava e prezava, profundamente, pelos conhecimentos cuja utilização se mostrava eficaz ao reino em matéria de edificações materiais, éticas e morais, Dario, subordinado ao édito que ele próprio promulgara, por influência dos príncipes e presidentes de províncias, cujo desejo oculto e latente era o de derrotar aquele que julgavam inimigo seus, por ter caído nas graças do rei, manda-o à toca dos leões.

Seria estraçalhado e sua ameaça seria removida, abrindo-se para a sorte e alegria da cupidez de seus inimigos implacáveis, sequiosos de poder e glória.

Desafio de crescer sob agiotagem

A presidenta Dilma Rousseff tem pela frente o grande desafio de enquadrar os banqueiros agiotas brasileiros que cobram o juro mais alto do mundo tanto do governo comprando seus títulos como do povo no crédito direto ao consumidor, atuando como vampiros sanguessugas que têm levado escritórios de advocacia a obterem vitórias nos tributtais contra eles pelas práticas dos intermitentes abusos contra a econmia popular. A titular do Planalto prevê que o PIB em 2012 alcançará 5% contra as previsões pessimistas que apontam para 3% ou até 2,8%, em razão das expectativas de recessão nos países ricos, atolados no endividamento excessivo e total falta de credibilidade. Ao mesmo tempo o Banco Central estima inflação dentro da meta dos 4,5%. Será possível alcançar essas estimativas, se o juro no Brasil continuar escorchantes, tanto para financiar o tesouro como as pessoas voltadas para a demanda interna? Os leões estão na toca para comer não apenas o povo, mas a sua presidenta , se não forem enquadrados duramente por medidas governamentais. Por que Dilma não segue o exemplo dos governos ricos em crise que jogam os juros na casa dos zero ou negativo, para evitar estouro das dívidas públicas e perigo de hiperinflação?

Dario, depois de ordenar aos juízes do reino a sentença de morte, levando ele próprio Daniel ao martírio, tem uma noite de desespero em que sonhos perturbadores o atormentam sobremaneira.

Não tinha certeza sobre o ato que praticara, se fruto da sua consciência ou se da pressão à qual se rendera por não ter percebido inteiramente as intenções dos seus falsos amigos.

Correu, logo que o dia amanheceu, à toca dos leões, fechada por uma grande pedra, ansioso para saber do verdadeiro desfecho quanto à ordem que determinara.

Chama por Daniel, que chega à porta da toca, vivo e feliz.

Indagado por Dario sobre o que acontecera, Daniel diz a ele que, apegado à fé superior em seu Deus,  o anjo do senhor fechara a boca dos leões, impedindo-os de o estraçalharem.

Dario, surpreendido e aliviado, cai na real.

Os deuses que cultuava eram falsos e incapazes de lhe darem o testemunho da força renovadora dos espíritos que ganham a consciência de si diante do perigo ao lançarem mão da sua fé como instrumento de salvação.

Conclama a superioridade do Deus de Daniel, exigindo seja respeitado em seu reino como instrumento da educação superior capaz de fortalecer os propósitos gerais da governança efetivamente justa.

Em seguida, chama os príncipes, os presidentes de provincias, seus filhos e suas mulheres e determina-os entrarem, imediatamente, na toca dos leões, onde, claro, são, por total falta de fé, estraçalhados nas bocas das feras.

O tempo que viria a seguir seria de distensão política relativamente aos judeus que iriam organizar-se para retorno à Palestina de onde foram retirados à força por Nabucodonosor.

O que Dilma Rousseff tem a ver com essa história contada no Livro de Daniel, com a força dos prenúncios bíblicos no Velho Testamento?

A política econômica e social da titular do Planalto, primeira presidenta do Brasil, estaria contrariando profundamente os agiotas, amigos dos principes e presidentes de provincias, que mandam os leões esfomeados ao palácio pedir autorização à raínha para continuar devorando suas vítimas, graças à sustentação de politica monetária que transforma o povo em escravo do capital.

Dilma continuará no palácio cercada pelos leões que a ameaçam ou vai mandá-los devorar aqueles que deles querem se utilizar para sacrificar a população desprotegida do reino Brasil?

No próximo ano, esse será o grande desafio de Dilma, ou seja, tirar os leões do palácio e enviá-los para destruir os agiotas, em nome da salvação da pátria, que não aguenta mais o sanguessuguismo vampirista.

Se não fizer isso, mandando o Banco Central fazer o mesmo que Obama está fazendo nos Estados Unidos, ou seja, jogando os juros para a casa dos zero ou negativo, de modo a evitar o estouro da dívida, das finanças públicas e populares, perigando entornar hiperinflação exponencial,  a vítima poderá ser ela em 2012, ano eleitoral.

É Natal! Educação Moral contra Crise Global

Categoria: (Cultura, Política) por Conselho Editorial Sul-Americano em 21-12-2011

No momento mundial em que as incertezas se acentuam ao final de 2011 sinalizando turbulências e tempestades em todo o globo terrestre em 2012 por pura imprevidência humana que se habilita ao materialismo sem freios enquanto desdenha do espiritualismo por orgulho excessivo, evidencia-se a necessidade de se levantar o valor moral e a lei do amor como os instrumentos mais poderosos à mão dos seres humanos para seguir com segurança – e a custo baratíssimo – a trilha da construção de um mundo melhor, de paz, cansado da opção pela guerra como determinante do sistema econômico que domina a cena internacional como imperativo categórico das forças que insistem em se reproduzir com o lucro, a ganância, a inveja e o amor próprio como produtos da inconsequência suicida. O texto abaixo compõe resposta, recolhida por Allan Kardec, à questão 685-a, do Livro dos Espíritos. Se tem algo que sintoniza religião e ciência como possibilidades concretas de interação objetiva entre si para a evolução mais justa e inteligente da sociedade global nesse planeta que de um vale de lágrima pode, com a decisão e vontade políticas, transformar-se em fonte de amor e paz, nos parece ser esse ensinamento espiritual para quem evolui rumo à eternidade. FELIZ NATAL E PRÓSPERO ANO NOVO.

“Não basta dizer ao homem que ele deve trabalhar.

É necessário que aquele que precisa do trabalho para viver encontre em que se ocupar, o que nem sempre acontece.

Quando se generaliza, a falta de trabalho assume as proporções de um flagelo, como a miséria.

A ciência econômica procura o remédio para isso no equilíbrio entre a produção e o consumo.

Mas esse equilíbrio, mesmo que seja possível estabelecer-se, sempre sofrerá intermitências, durante as quais o trabalhador também precisa continuar vivendo.

Há um elemento a que não se tem dado o devido valor e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria: a educação.

Não a educação intelectual, mas a educação moral.

Não nos referimos à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, àquela que cria hábitos, uma vez que a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos.

Quando se pensa na grande quantidade de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de admirar as consequências desastrosas que daí resultam?

Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar com menos dificuldade os dias ruins que não pode evitar.

A desordem e a imprevidência são duas chagas que só uma educação bem entendida pode curar.

Eis aí o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, a garantia de segurança de todos.”

Aula de jornalismo sobre o lixo tucano

Categoria: (Cultura, Economia, Política) por Cesar Fonseca em 18-12-2011

Amaury Ribeiro Junior, durante uma década, seguiu os passos dos piratas do caribe que lavaram nos paraísos fiscais o dinheiro sujo da corrupção que retornou ao país para engordar patrimonio fictício de empresários qualifcando-os, graças aos bons amigos do rei, na Era FHC, a participarem das privatizações, comprando as empresas estatais a preços de banana, financiados pelos bancos oficiais, BB e BNDES. Correu cartórios e juntas comerciais pelo Brasil afora e no exterior, checando informações e enfrentando perigos que ameaçaram sua vida. Compôs retrato de corpo inteiro da privataria erguida num momento histórico em que o país teve que se subordinar ao Consenso de Washington, quando as determinações predominantes eram dadas pelos credores da dívida, pregadores do sucateamento do patrimônio nacional para receber a qualquer custos os serviços do endividamento. Nesse ambiente, emergiram personagens sinistros que graças ao poder de influenciar e fazer pessoas ditaram as regras no aparelho de estado e comandaram a maior onda de corrupção objetivando entregar o Brasil de bandeja aos seus eternos saqueadores.

“Diga-me com quem andas que eu te direi quem és”. A frase genial de Jesus Cristo pegaria muito bem em cima de José Serra, do PSDB, ex-prefeito de São Paulo, ex-governador paulista e ex-candidato duas vezes derrotado à presidência da República, uma para o ex-presidente Lula, outra para a presidenta Dilma. Eis alguns nomes que, ao longo da Era FHC, foram os que mais andaram com Serra: Ricardo Sérgio Oliveira, Gregório Marin Preciado, Wladimir Antonio Rioli, Verônica Serra, filha do dito cujo, Alexandre Bourgeois, genro, Daniel Dantas, João Bosco Madeira da Costa, José Arcanjo Ribeiro, Carlos Jereissati etc. Só mala, minha gente, só mala.

Todos estão muito bem documentados no livro “A privataria tucana”, do repórter Amaury Ribeiro Junior, que traça uma radiografia de corpo inteiro do processo de doação do patrimônio brasileiro para grupos empresariais e financeiros nacionais e internacionais, facilitada pela oferta de dinheiro público por parte das agências oficiais de crédito, Banco do Brasil e BNDES, pilotados por tucanos que acabaram se entregando como integrantes de perfeitas quadrilhas nacionais com braços internacionais, no mar de doleiros e outros bichos.

Serra tem toda razão quando diz que o livro do repórter ARJ é lixo. Certamente. É puro lixo toda a história que ele demonstra com documentos levantados nas juntas comerciais em São Paulo e em Nova York, para comprovar para onde migrou o dinheiro sujo da corrupção que saiu do Brasil por meio de off shores nos países fiscais, voltando lavados ao Brasil para comprar as empresas públicas pelo preço de banana, como aconteceu com a Cia Vale do Rio Doce, adquirida por cerca de R$ 3 bilhões, cuja cotação, hoje, é de R$ 200 bilhões, sem falar que não foi considerado o patrimônio da empresa expresso em minério ainda por explorar etc. Também é puro lixo o dinheiro que o cunhado de Serra, Preciado, tomou do BB, não pagou e, com a grana, financiou campanha do próprio Serra.

Lixeira pura

José Serra que considerou o livro de Amaury lixo puro é o puro lixo que sai das páginas enlameado de corrupção por ter seu dedo indicador como responsável pela indicação dos personagens que ocuparam os postos-chave da prática corruptora que tomou conta do processo de privatização. Esperto, procurou, nas suas declarações à justiça eleitoral, desvincular-se dos incômodos de ter ao longo da sua vida pública sócios que sujaram seu currículo, mas não pode livrar dos efeitos decorrentes das falcatruas dos seus apadrinhados que assaltaram os cofres públicos, a fim de levantar dinheiro que se dirigiu a sua campanha política. Trata-se de uma das figuras política mais sinistra da República. As suas digitais não aparecem diretamente mas indiretamente em várias passagens. Dificilmente, conseguirá ser presidente da República, seu grande sonho, porque os documentos levantados por Amaury para implicá-lo nas falcatruas realizadas pelos amigos e parentes que o acompanham não deixam dúvida quanto a necessidade indispensável de duvidar do seu caráter. 

Lixo, tudo lixo no Brasil de FHC e Serra. As conexões dos personagens dos bastidores do Governo FHC, atuando, livremente, para vender o patrimônio nacional na bacia das almas são puro lixo. E as transações desses personagens levando e trazendo dinheiro dos contribuintes brasileiros enganados por intermédio das contas abertas por doleiros em paraísos fiscais é igualmente puro lixo.

E no meio desse lixo, ARJ, claro, é um pinto excitado, feliz, extasiando-se como repórter investigativo da melhor qualidade. O pinto no lixo revira a sujeira nas latas, bica aqui, bica ali, bica acolá. Vai levantando imundices por todos os lados, como aquelas crianças que vão escolhendo o banquete da pobreza no meio das montanhas de lixo urbano nas periferias dos grandes centros. ARJ sobrevive nesse lixo. O livro, lixo tucano puro, já vendeu mais de 35 mil exemplares em duas semanas, durante as quais a grande mídia nacional fugiu dele como o diabo da cruz, pois, afinal, a privataria tucana foi incentivada por ela e dela participou como acionista suja no lixo.

Acaba desdobrando-se um panorama de um tempo histórico que envergonha a qualidade dos políticos brasileiros, escolhidos em voto popular, com a responsabilidade de conduzir os destinos do país, levando-o para as mais absurdas e abjetas condições morais e éticas, atuando nas sombras, por meio de personagens componentes de quadrilhas especializadas na pilhagem do dinheiro público em conexões internacionais montadas e administradas por bandidos atuantes com competência impressionante ao largo da impunidade.

Quadrilha competente

Tremedo craque da corrupção. Profissional formado na bancocracia nacional e internacional, conhece profundamente os meandros da corrupção financeira que emergiu forte no mundo capitalista nos anos de 1980 depois que os bancos centrais dos países mais ricos abriram as porteiras ao capital especulativa sem regras para atuar no livre mercado, mandando às favas todas os escrúpulos morais. É um especulador global que capitaneou a campanha eleitoral de FHC e Serra. Depois foi para o BB dar as cartas na formação dos grupos empresariais e financeiros que participariam do processo de privatização, tendo como carta na manga os recursos do fundo de pensão do BB, a Previ, e a capacidade de colocar a grana do Banco a serviço dos seus interesses. Tem tudo para ser preso, se o Brasil fosse sério no julgamento dos verdadeiros Al Capones tupiniquins. Mas, consegue viver vida de milionário zanzando por todos os lados, sem que a sua tranquilidade seja perturbada. É o triunfo vivo dos honestos para apontar para a Era FHC como a verdadeira vergonha nacional em matéria de corrupção grande. 

Nesse lixo escroto transitam os amigos de Serra e de FHC colocados no governo por eles para comandar o espetáculo da vergonha. Os postos-chave são os fartamente conhecidos, ou seja, os instrumentos que atuaram como mediadores da privataria, o Banco do Brasil e o BNDES. No Banco do Brasil, foi colocado o elemento fundamental que constitui  o fio da meada da corrupção: Ricardo Sérgio Oliveira, indicado por Serra – e aceito por FHC -, por sugestão de Clóvis Carvalho, que seria ministro da Casa Civil, para ser o comandante da área internacional do BB, depois de, na campanha eleitoral, ter atuado como tesoureiro dos dois tucanos acima de qualquer suspeita. Levantou dinheiro no mercado da corrupção. Depois, cobrou a fatura, sua ida para o BB, de onde comandaria o assalto ao patrimônio público.

Profissional da bancocracia nacional(Crefisul) e internacional(Citibank), conhecedor profundo dos meandros da ocultação de dinheiro, saindo do Brasil, dirigindo-se para os paraísos fiscais, a fim de ser esquentado, retornando ao Brasil, devidamente, lavado, RSO se envolveria, claro, com as pessoas próximas de Serra. Com elas, construiria uma montanha monumental de lixo.

Com quem andou, Serra? , perguntaria Jesus.  Sócios, primo, filha, genro todos de mãos sujas, ávidos para participarem do butin, que se revelaria fabuloso quando começa o processo de privatização, tocado por FHC, ex-intelectual de esquerda que se transformaria em presidente intelectual de direita, configurando-se, conforme denominou o senador Lauro Campos, no primeiro anti-presidente do anti-estado nacional.

Familia unida pela mentira

Verônica Serra, filha de Serra, e Alexandre Bourgeois, o casal dos especuladores no mundo dos paraísos fiscais com suas off shores espetaculares, atuando nos Estados Unidos, na Argentina, no Brasil e nas Ilhas Ilhas Virgens Britânicas. Daqui seu dinheiro sujo sai e retorna ao Brasil lavadinho da silva, de modo que pode, até, comprar uma mansão para o papai passar a férias no litoral baiano. Alexandre tornou-se um jogador espertíssimo na arte de abrir empresas de participações cujos acionistas são intermitentes caneados pelos empreendimentos de fachada que mudam de aspecto como as cobras mudam de pele. Teve que fugir do país para não ser preso pela polícia federal por ter sonegado imposto, caneando o contribuinte, ao levar seu dinheiro para as lavanderias internacionais. Um casalzinho da pesada, que não conseguiu se safar com suas mentiras, porque Amaury levantou nos cartórios e nas juntas comerciais as suas identidades sujadas pela mentira.

Não é novidade trazida pelo livro de Amaury a algaravia dos grupos empresariais – como o de Jereissati, que adquiriria, sem capital próprio, a Tele Norte Celular, socorrendo-se de parceiros de última hora, para abocanhar o mercado de telefonia no espaço que vai do  Estado do Rio de Janeiro ao Amazonas – e dos grupos financeiros – como o de Daniel Dantas, do Banco Opportunitty, que, da mesma forma, compra a Brasil Telecon – articulando-se com grupos nacionais e internacionais, graças ao acesso fácil ao dinheiro do BB e do BNDES, dirigidos por interventores tucanos perigosíssimos, tipo Mendonça de Barros e Lara Resende, sob intenso aplauso da grande mídia, agora muda diante do instigante livro do repórter em sua exposição didática sobre como atuou o tucanato no mais puro estilo mafioso dos doleiros tupinquins e estrangeiros.

A história nesse sentido é conhecida. O saboroso é a concatenação dos fatos e dos personagens poderosos, expostos pelo trabalho duro de investigação de Amaury, veterano em diversas batalhas jornalísticas que lhe deram vários prêmios e sucesso profissional. Tudo checado e documentado, configurando as certezas de afirmações peremptórias, seguras, de quem conhece o caminho que trilha, embora o mesmo esteja cravejado de armadilhas. O que ficou dormindo na CPI do Banestado, em matéria de informações criminosas relativas à migração de dinheiro da corrupção, por intermédio de doleiros famosos na tarefa de solapar o dinheiro do contribuinte nas grandes transações privadas, Amaury cuidou de despertar.

Diante dessa oferta generosa de informações disponíveis, capazes de propiciar jornalismo de qualidade para a maior e melhor educação popular,  a grande mídia brasileira decepcionou. Jamais se comportou com grandeza quanto ao assunto privatização e a consequente manipulação do dinheiro levantado no processo privatista nos paraísos fiscais para serem internalizados no Brasil, a fim de adquirir patrimônio público, de modo a multiplicar o patrimônio privado.  Sob este aspecto, o livro do excelente repórter é um aula de jornalismo que deve servir para todas as gerações passadas, presentes e futuras. Sua leitura seduz, tornando o leitor sedento de mais informações a cada página, onde os fatos são ancorados em comprovações cabais.

Parente caloteiro

Preciado, espanhol, cunhado de Serra, é um grande malandro internacional. Criou empresas que faliram com dinheiro emprestado do Banco do Brasil, reiteradamente, renovado, graças à influência do cunhado poderoso, que tinha suas campanhas financiadas com essa articulação de vigarista. Sempre fugindo das cobranças dos fiscais da Receita Federal, dava uma jeito de renegociar dívidas, as quais empurrava para frente, fazendo mais e mais dívidas, num vai e vem frenético com o dinheiro público. Acabou, graças às influências do parente poderoso, tomando terras de índios na Bahia, vendendo-as a grandes grupos europeus para desenvolver o turismo na costa baiana tropical brasileira. Está mais enrolado que novelo, mas consegue sobreviver à sombra das influências dos poderosos aos quais rende homenagem financiando campanhas com dinheiro emprestado que toma dos bancos oficiais. Só mesmo no Brasil acontece essas barbaridades, putz!

Tentam os aliados de Serra destacar que não há provas concretas contra o ex-governador e ex-prefeito paulista. Trata-se de ligar-se na frase de Cristo, “Diga-me com quem andas que eu te direi quem és”. RSO, ao longo da investigação jornalística, deixa marcas evidentes de que atuou indiretamente com Serra para favorecer seus amigo, primo, filha e genro, tudo documentado. A filha de Serra manipulou dinheiro em paraísos fiscais que comprou mansão para o pai. Inversão dos fatores tradicionais. Dinheiro não de pai para filha mas de filha para pai. Ajudado por Ricardo Sérgio, Preciado, primo de Serra, levantou dinheiro no Banco do Brasil, mesmo estando inadimplente.

Com a grana, financiou campanha eleitoral de Serra. Ou seja, diretamente, pode se afirmar que Serra não foi pego com a mão na cumbuca, mas, indiretamente, seus prepostos chegaram aos cofres públicos, tirando dinheiro do contribuinte que seria abocanhado pelo candidato tucano em forma de financiamento de campanha proporcionado por modelo político eleitoral condizente com a corrupção.

Da mesma forma, as investigações de Amaury evidenciam as malandragens de Serra no sentido de excluir das suas prestações de contas à justiça eleitoral patrimônio que repartiu com parentes e amigos. Tremendo lixo. Tudo documentado. Ele teria sido o único? Claro que não. Esse comportamento condenável permeia a personalidade da maioria dos políticos brasileiros submetidos à lógica do processo político eleitoral que favorece uma elite na tarefa de governar à revelia dos interesses populares, tudo na base de medidas provisórias. Eis o país eternamente provisório.

Chantagem em cena

Gigante da esperteza e da sabotagem, o banqueiro Daniel Dantas, do Opportunitty, armou e desarmou grupos nacionais e internacionais para participar do processo de privatização, especializando-se em formar contratos sociais que embora o colocassem em condição de minoritário, conseguia, com ardis do ambientte vigente nas sociedades anônimas, dar as cartas, impondo suas condições, para comandar o espetáculo privatizante neoliberal fernandino. Jogou muito com ACM para fazer pressão sobre FHC a fim de abocanhar a Brasil Telecon, tirando-a dos homens comandados por Serra. Ao final, rico e poderoso, continuou e continua se enriquecendo. Aguarda ansioso que nova orientação liberal suba ao poder para continuar fazendo das suas, pois se especializou em enriquecer sem fazer força. 

Amaury não deixa barato sujeiras tanto de governistas como de oposicionistas. O PT está com suas digitais expostas no famoso episódio do mensalão, cujos integrantes petistas poderão ter suas condenações jamais efetivadas, se houver prescrição de julgamento, graças aos atrasos nas conclusões dos trabalhos jurídicos comandados pelo relator ministro do STF, Joaquim Barbosa, colocado lá pelo ex-presidente Lula. Por que demorou tanto? Diz que esteve doente, mas, por que não repassou a tarefa para outro, sabendo ser o assunto de capital importância para a corte maior julgar, a fim de conferir nova moral aos costumes políticos?

Ademais, o repórter expõe cruamente, também, os intestinos petistas durante a campanha eleitoral de 2010, demonstrando que durante ela grupos adversários entre si digladiaram ferozmente, algo que conduz à percepção de que no governo Dilma a convivência entre aliados representa verdadeiro saco de gatos. No que isso vai dar é possível ter uma idéia decorrente da demissão, até agora, de seis ministros, acusados de corrupção!

Faltou no livro uma abordagem do tempo histórico. A privataria tucana é produto genuíno do modelo de desenvolvimento traçado pelo Consenso de Washington, ao longo dos anos de 1990. As economias capitalistas periféricas, como a brasileira, haviam sido destruídas pela jogada monetária especulativa praticada pelo governo americano no início dos anos de 1980, em nome da salvação do dólar.

Informação que vale dinheiro

Comandou o BNDES colocando-o a serviço da desnacionalização, acelerando vendas das estatais de telefonia a preço supostamente vantajoso com total desfaçatez, articulando grupos empresariais sem capital para participar dos leilões, mas obtendo do Banco do Brasil presidido por Ricardo Sérgio Oliveira o aval necessário para garantir o negócio. Enquanto isso, dava a dica aos filhos que possuem corretora, a Link, para que apostassem sem medo nas ações das empresas que estava entregando de bandeja com a certeza de que comprariam na baixa para faturarem na alta. Mais esperto do que pulga de hotel. 

Pressionado pelos excessivos déficits orçamentários acumulados desde final da segunda guerra, para salvar a Europa do comunismo soviético, via guerra fria, guerra do Vietnan etc, Washington, diante da desvalorização perigosa do dólar, elevou a taxa de juros – prime rate – de 5% para 17% ao ano, em 1979. Quem devia em dólar, como o Brasil – e toda a América do Sul, África, Ásia etc – dançou.

Os banqueiros, credores da dívida, criaram o Consenso de Washington. Exigiram, com o tacão do FMI, corte de gastos, aumento de impostos, demissão de funcionários públicos, aumento de juros e privatizações aceleradas, tudo para assegurar o pagamento, em dia, dos serviços das dívidas interna e externa.

 Os governos neorepublicanos, como os de Sarney e Collor, tentaram programas mirabolantes para combater a inflação, que se extrapolou diante da escassez total de crédito, imposta pelos banqueiros. Durante o governo FHC, veio a mágica: a inflação foi contida mediante câmbio sobrevalorizado, mas a dívida explodiu.

No compasso da inflação baixa, a privataria deslanchou, proporcionando uma farra financeira em nome da necessidade de enxugamento dos gastos públicos. Teoricamente, o dinheiro das privatizações serviria para pagar a dívida. Nada disso aconteceu na prática. Pelo contrário, a  dívida, que , no início do governo FHC, estava em R$ 60 bilhões, ao final, alcançou R$ 600 bilhões. Terminando o segundo mandato fernandista, a inflação estava de volta e o patrimônio nacional havia se esfumaçado.

Vergonha de si mesmo

Falso moralista, metido a honorável, sujou-se todo nas manobras privatizacionistas. No final, ficou enojado de tudo e mudou para Londres com o argumento de que o Brasil não tinha mesmo jeito sendo necessário tomar distancia do país para se limpar espiritualmente da baixaria que ajudou a erguer, na tarefa de entregar o Brasil de bandeja para os capitalistas especuladores com dinheiro do BNDES. Santo do pau oco.

O livro de Amaury não fica prejudicado por conta da ausência dessa abordagem que daria para enxergar a floresta como um todo. O repórter, porém, maneja, de forma brilhante, entre as árvores, evidenciando todas aquelas que estão podres, contaminando quase tudo.

No final, resta a clara certeza de que o dinheiro das privatizações e das corrupções,  que vai sujo e volta lavado, depois de passar nas lavanderias dos paraísos fiscais, para financiar as campanhas eleitorais dos políticos, somente será efetivamente combatido, depois que for realizada reforma política que abra espaço maior à democracria direta.

Enquanto isso não acontece, predominará, certamente, a impunidade de um modelo político cujas determinações favorecem os Serras e seus comparsas, assim como os Lulas e seus comparsas, que, uma vez, no poder, jogam com as lideranças partidárias o jogo da conveniência das alianças sob presidencialismo tocado no compasso das MPs, negociadas a peso de ouro, cuja essência é a de sustentar o poder ao largo dos interesses sociais verdadeiros.

A Era do Lixo acabou? Sei não. Se as bases que proporcionam sua existência e extensão no tempo estão aí, firmes, as possibilidades de que estejam desenrolando corrupções a rodo são concretas. O momento reclama outros Amaury Ribeiro Junior.