direita sem rumo e esquerda sem discurso

DIREITA SEM RUMO E ESQUERDA SEM DISCURSO

QUANDO PT VAI ENTRAR NO NOVO DEBATE ECONÔMICO LEVANTADO POR ANDRÉ LARA RESENDE, QUE RACHA OS TUCANOS, 35 ANOS DEPOIS DO PLANO REAL?

Image result for bolsonaro

NOVA MACROECONOMIA

Os tucanos economistas são, essencialmente, políticos; perceberam que a teoria neoliberal não é eleitoralmente útil mais; os candidatos neoliberais de Temer, na última eleição, Meirelles e Alckmin, PMDB e PSDB, dançaram, depois do golpe de 2016, quando, pressionados por Washington, congelaram a economia, para tirar dos pobres para dar os ricos banqueiros, credores da dívida pública; como ganhar eleição ferrando o povo? Bolsonaro ganhou porque não debateu nada; nadou no desgaste da esquerda e na falência da direita tucana; como sobreviverão nas próximas eleições, abraçados com programa econômico antipopular; eles, então, nadam, agora, na onda que se desenvolve nos Estados Unidos, seguindo a esquerda do Partido Democrata, com vista à eleição presidencial de 2020, na tentativa de vencer o nacionalismo de Trump; para tanto se rendem à nova macroeconomia capitalista que tenta evitar bancarrota do estado endividado mantendo juro zero ou negativo como o novo normal no capitalismo em crise keynesiana.

RACHA ESPETACULAR

O racha entre os economistas que montaram o Plano Real na Era FHC(Lara Resende, Bacha, Pedro Malan etc)mostra, claramente, que o grande problema fiscal brasileiro não é a previdência social, como Paulo Guedes e os neoliberais estão falando; são os juros os principais culpados pelo desajuste econômico; desde 1994, quando FHC partiu para a sobrevalorização cambial, para combater hiperinflação, a taxa de juros, ditada pelos banqueiros, tem sido fixada pelo BC muito acima do crescimento do PIB; essa estratégia, ao longo dos últimos 35 anos, representou brutal transferência de renda do setor produtivo para o sistema financeiro; a prática de juros sobre juros, condenada como anatocismo pelo STF, transformou a dívida pública na maior fonte de renda dos bancos que desorganizou as finanças públicas; cálculos dos economistas dão conta de que de 1994 a 2019, a taxa média de juros ficou em torno de 18%; nesse período, o crescimento médio do PIB foi de 2,5%; a disparidade entre crescimento do PIB, em queda relativa, hoje, na casa dos 1%, e a taxa de juro, em permanente alta relativa, selic 6,5%, diante de inflação de 3,5%, desestruturou a economia, o sistema federativo e transformou o Brasil no país campeão mundial da desigualdade social, com expansão absurda da violência.

FHC BOMBEIA BANCOCRACIA

Ressalte-se que, no segundo mandato de FHC – 1998-2002 –, a Selic chegou aos 48%; no período fernandino a taxa média permaneceu em 26%. FHC fez prosperar a bancocoracia; no final de 2002, quando entrou Lula, o desemprego estava em 12,5 milhões de pessoas, a inflação na casa dos 13,5% e a taxa de juros, 26%, em média; ou seja, são os tucanos, desde o real, os responsáveis, com os juros absurdos fixados pelo Banco Central acima do crescimento da economia, os responsáveis por aprofundar o déficit fiscal no Brasil; Lula, diante da crise global, ampliou a oferta de crédito à produção e o consumo, de um lado, mas, de outro, deixou seguir a farra dos juros; não aproveitou o capital político popular, para impor, aos bancos, teto civilizado de taxa de juros; desse modo, os petistas, como os tucanos, sempre se sintonizaram com os especuladores do mercado financeiro; não é à toa que dizem ser o PT e o PSDB irmãos na relação macroeconômica com os algozes do povo brasileira, os banqueiros sanguessugas; quem tentou enfrentar os bancos e se deu mal foi Dilma, ao fazer o que Getúlio Vargas tinha feito, fixar a taxa em 7% ao ano; dançou.

JURO ZERO, NOVA ONDA MUNDIAL

A situação começou a mudar, não por força das resistências internas aos especuladores, mas devido à crise mundial de 2008; de lá para cá, os bancos centrais, especialmente, agora, resolveram jogar na lata de lixo a velha teoria econômica segundo a qual a inflação decorre do excesso de demanda, que justifica juros altos para combater a inflação; papo furado que tucanos e petistas engoliram nas últimas 3 décadas; diante do crash capitalista, os BCs americano, europeu, japonês, chinês, russo, inglês etc ampliaram a oferta monetária e reduziram a taxa de juro a zero ou negativa; a conclusão deles é a de que com o endividamento excessivo, keynesiano, dos governos, não é possível mais ao capitalismo suportar juro positivo; a polêmica levantada, agora, por André Lara Resende, no Valor Econômico, que já dura 2 semanas, colocou em polvorosa os neoliberais seguidores de Paulo Guedes; a crise econômica decorre dos juros altos fixados acima do crescimento da economia; o resto é conversa fiada, como a que a grande mídia engole, de que é preciso fazer superavit primário(receita menos despesas, exclusiva juros) elevado para equilibrar dívida pública, como forma de reduzir os juros; há quase 40 anos vem essa lenga lenga mentirosa, ditada com ares de ciência econômica.

DÉFICIT E PLENO EMPREGO

A saída é fazer o contrário, déficit público para gerar pleno emprego, enquanto se sustenta juro abaixo do crescimento do PIB; e no caso, agora, quando a dívida está saindo pelo ladrão, o jeito é congelar os juros, como fazem os capitalistas desenvolvidos; caso contrário, pinta instabilidade permanente, desemprego, violência etc; com juro congelado, não há perigo de expandir a dívida, que cresce com a emissão de dinheiro pelo governo; como emissor, o estado/governo é capital, não tem, como diz Lara Resende, repetindo Keynes e Abba Lerner, restrição para agir com autonomia; o pleno emprego é fator de estabilidade, para permitir aos empresários, diante da oferta monetária estatal, pagar impostos ao governo; os impostos, como destaca Lerner, são, apenas, lubrificante da economia; o governo, teoricamente, não precisa deles, porque emite sua própria moeda; o pleno emprego, nesse contexto, é o fator de equilíbrio funcional, ao contrário do equilibrismo esquizofrênico imposto a partir de cortes de gastos sociais para equilibrar dívida/PIB como pressuposto para reduzir juros; inversão da realidade que, somente, interessa os credores do governo.

NOVA FRENTE DE LUTA DA ESQUERDA

Assim, a pregação de Guedes de que o déficit só será superado pela reforma da Previdência subiu, no ambiente do debate nacional, que se amplia, no telhado; por isso, no momento, o PT teria que chamar Lara Resende, no Congresso, para ampliar essa discussão que confronta diretamente a tese de Paulo Guedes, cujo objetivo é apenas entregar o sistema de seguridade social para os bancos, no momento em que os credores percebem que se continuarem os juros altos acima do crescimento da economia pintará ruptura econômica e consequente calote; antes que isso aconteça, procuram se resguardar, tomando para si a maior fonte de distribuição da renda nacional, a seguridade social; déficit da previdência é balela pura, como, aliás, comprovou CPI no Senado; a jogada política portanto é lutar pela queda de Guedes, urgente; nem Bolsonaro acredita na proposta dele para detonar a previdência; a saída é ampliar o gasto público para gerar pleno emprego, enquanto congela a taxa de juros, para evitar explosão inflacionária com juro subindo bem acima do crescimento da economia. É a nova luta da esquerda, urgente.

Guedes racha governo e une oposição

Image result for paulo guedes e bolsonaro Bolsonarismo em pânico

Cresce convicção no Congresso de que o projeto Guedes para a Previdência é suicídio político; o bolsonarismo não topa a proposta do ministro ultraneoliberal; amplia-se resistência popular; a base política bolsonarista entra em pânico; ela, aliás, se orienta pelo próprio titular do Planalto, contrário ao que Guedes quer; é o primeiro grande embate entre o presidente e seu principal ministro; em contrapartida, a oposição está se unindo e pode, inclusive, atrair governistas insatisfeitos e sob pressão de suas bases populares; a mobilização oposicionista se amplia no compasso das informações de que o desmonte da previdência prejudica maioria da população; de onde vai sair a economia d R$ 850 bilhões que Guedes quer fazer, em 10 anos?; dos mais fracos, enquanto os mais fortes se mantêm poderosos nas suas articulações e amparadas na burocracia estatal; diante desse cenário, Guedes acusou o golpe e admitiu que se não conseguir passar sua proposta sai do governo etc.

Medo da Câmara

A fuga dele de comparecer à Câmara pegou mal; seria massacrado pelo oposição e não teria apoio da base bolsonarista, que está bombardeando-o; hoje, no Senado,  vende o peixe de que, se a reforma dele passar, desconcentraria recursos da união para estados e municípios;  hoje, ela leva 70% da arrecadação; eles, 30%; além disso, flexibilizaria Lei Kandir que toma receita de ICMS dos governos estaduais, desonerando exportações de produtos primários e semielaborados; a união promete compensar, mas, passados 22 anos de vigência dessa lei, eminentemente, imperialista, não compensou nada; mais de R$ 500 bilhões de colote nas unidades federativas; sem esse dinheiro, executivos estaduais não puderam fazer desenvolvimento sustentável; industrialização regional foi para o sal.

Rebelião federativa

Guedes não tem como atender as unidades federativas quebradas; nem os banqueiros aceitarão descentralização de recursos da União para elas; haveria dispersão e diminuição de pagamento de juros e amortizações da dívida, se os estados gerirem seus recursos de forma autônoma, ocorreria, isso sim, uma repactuação de dívidas; ganharia, também, ressonância auditoria da dívida, porque ela é acumulado de juros sobre juros especulativos ao longo das últimas três décadas; da mesma forma, ganharia força a defesa, que já se faz por parte de tucanos, de juros mais baixos sobre o endividamento público; há conscientização crescente entre os políticos de que o peso dos juros é a maior fonte do déficit, bombeando endividamento insuportável, que paralisa os investimentos, graças ao congelamento dos gastos sociais; afinal, são estes que produzem renda disponível para o consumo, sem o qual o PIB não cresce, como ocorre desde o golpe de 2016.

Governo maluco

Guedes está fugindo desse assunto; Bolsonaro sentiu cheiro de pólvora queimada; começa tomar distância do ultraneoliberal de Chicago; agindo nesse sentido, estimula onda popular contra desmonte da previdência; a boiada poderia estourar; as consequências são incógnitas totais; quem se dá bem, nessa situação, é a oposição; a resistência popular vira oxigênio para união oposicionista engordar movimento Lula livre, quanto mais a crise financeira avança; o mercado, que patrocina Guedes, entra em parafuso; o governo, sem rumo, fica maluco.

GLOBO, FONTE DA ALIENAÇÃO NACIONAL

Imagem relacionada

ANTINACIONALISMO

O Globo, em editorial, “Crise colocou em xeque modelo de Estado que tutela sociedade”, culpa o estado patrimonialista português, a revolução de 30 dos tenentistas, o nacionalismo de Vargas e dos militares, no poder, pelos males do País.

O déficit da previdência, atual, seria rescaldo dessa opção desenvolvimentista equivocada, diz o porta voz midiático de Washington, plenamente, favorável ao ultraneoliberalismo de Bolsonaro/Paulo Guedes, para desarmar a previdência social democrata brasileira.

A palavra de ordem do Globo é acabar com o espírito coletivo, solidário e integracionista, social democrata, contido no pacto de gerações, intrínseco ao modelo de repartição, em que gerações mais novas bancam gerações mais velhas, como se configura conceito de Seguridade Social, fixado na Constituição cidadã de 1988.

Tal proposta, emergente depois da ditadura militar, no ambiente da Constituinte, ergueu maior e melhor programa de distribuição de renda da história brasileira, por meio do SUS, considerado pelo Globo um atraso.

Para ele, a modernidade é o processo individualista, egoísta de capitalização, por meio do qual os trabalhadores, em meio à volatilidade capitalista permanente, imposta pela financeirização econômica global, morrem antes de se aposentarem, sem garantia de emprego e submetidos à liberação do mercado de trabalho.

O ideal, para o Globo, é o aumento da superexploração do trabalhador, com consequente, aumento da jornada de trabalho, decorrente da reforma trabalhista neoliberal, imposta depois do golpe de 2016, contra social democracia brasileira; com ele, inaugurou, no País, trabalho intermitente, sangrento.

A superação do déficit público, para o Globo, se daria pela proposta ultraneoliberal de Guedes, por meio da qual se extermina programa Benefício de Prestação Continuada(BPC), para os mais pobres; ignora o porta voz de Tio Sam que, se não fossem os programas sociais distributivos de renda, que vigoraram de 2002 a 2014, a economia teria ido para o brejo do subconsumismo deflacionário.

NEOCOLONIALISMO

Certamente, para o Globo, em substituição ao atraso tenentista/getulista, o ideal é filosofia contida na imperialista Lei Kandir, que eterniza Brasil na condição de economia primário exportadora, por meio da isenção de impostos para exportadores de grãos e minérios, desonerados do ICMS, a partir de 1996; tratou-se de providência imposta pelo Consenso de Washington, para gerar divisas externas ao pagamento da dívida, impulsionada pelo populismo cambial de FHC, de modo a combater inflação à custa do desemprego e desindustrialização.

Ficaram estados e municípios privados de sua receita constitucional, impedidos, portanto, de fazer desenvolvimento sustentável; não foi e não está, até hoje, sendo possível desenvolver cadeias produtivas ligadas à produção primário exportadora, o que expõe a economia brasileira à permanente deterioração nos termos de trocas; exportamos primários baratos e importamos manufaturados caros; assim, sujeita-se a economia ao endividamento externo colonial, em forma de anatocismo crônico, cobrança de juros sobre juros, no reinado da agiotagem financeira.

O Globo não tem isenção para perceber, ou, se percebe, finge não entender, que a raiz do déficit público é a orientação econômica primário-exportadora neoliberal, da qual tentaram se safar Getúlio e os militares nacionalista no poder, buscando a industrialização das cadeias produtivas; sem elas não se desenvolvem, sustentavelmente, a produção e a produtividade, com profissionalização de mão de obra, valor que se valoriza.

Essa estratégia colonial está por trás da crise federativa, da falência de estados e munícipios, acusados, agora, pelos neoliberais de fomentadores do déficit; ora, o modelo primário exportador, por ter impedido tal desenvolvimento sustentável, é o verdadeiro motor do estrangulamento fiscal do Estado brasileiro, e não o nacionalismo contra o qual o Globo se insurge, desviando atenção da sociedade, na tentativa permanente de aliená-la do verdadeiro problema nacional.

http://infoglobo.pressreader.com/o-globo/20190223/textview

Crise capitalista bombeia socialismo

O sonho não acabou

The Economist, mais importante revista de economia do mundo, debate, como matéria de capa, nessa semana, o retorno do socialismo, como alternativa à crise do capitalismo, antevista pelos especialistas em geral, diante da crise do estado keynesiano, atolado em dívidas, incapaz de continuar puxando demanda global capitalista; ensaia-se novo colapso semelhante ao de 2008, que jogou por terra as finanças públicas como motor desenvolvimentista, depois que, em 1929, a economia de mercado, o lassair faire, entrou em bancarrota.

Em 2008, o sistema não incendiou porque o BC americano, dominado pelos banqueiros, correu para salvá-los; estavam abarrotados de papeis bichados; recolheu-os, rapidamente, por meio de megas expansões monetárias, emissões de papeis novos, para substituir os antigos, que apodreceram; na sequência, ditaram aos devedores, encharcados de moeda podre, terapias ultraneoliberais, tipo essa que Paulo Guedes capitaneia, no Brasil; a palavra de ordem da banca aos devedores foi entregar tudo, como resgate da conta de juros e amortizações; tal estratégia exige, sobretudo, destruição do Estado nacional e retorno à ordem neoliberal, apoiada no padrão ouro, século 19, no lassair faire; o problema é que essa saída deixou, já no final do século 19, de ser funcional, pois levara o capitalismo à crise de 1929. A proposição dos banqueiros, em 2008, portanto, seria, para a humanidade, voltar ao útero materno; só Freud explicaria.

Volta ao padrão ouro

Durante o século 19, o capitalismo, como destacam Marx, Malthus, Hobson, Dobb, Hilferding, Lenin, Keynes, Mandel etc, desenvolveu-se por meio de dois departamentos complementares, que entraram em colapso na crise neoliberal de 1873-1893: departamento I, produtor de bens de consumo, e departamento II, produtor de bens de produção(máquinas para produzir máquinas); ambos se sustentavam, no plano macroeconômico, no padrão ouro, no equilibrismo orçamentário; quem gastasse além das reservas de ouro disponíveis, lastro para emissão de moeda, tinha de cortar salários, em obediência à lei de Ricardo dos rendimentos decrescentes, nascida quando a renda da terra ditava ritmo da taxa de acumulação capitalista; as terras novas, mais distantes dos centros de consumo, impunham custos mais altos; para compensá-los, os capitalistas reduziam salários, para manter constante sua taxa de lucro.

Porém, no capitalismo industrial, pós-Ricardo, embora os rendimentos fossem, ao contrário, sistematicamente, crescentes, como novo fator de acumulação do capital, devido ao aumento da produção e da produtividade, dada pelo avanço tecnológico, continuaram os dois departamentos, I e II, conduzidos pela lei ricardiana, que, naturalmente, levou o sistema a sua máxima contradição: acumulação de riqueza, de um lado, e pobreza, de outro; confirmou-se, então, a pregação de Marx:

“A razão última de todas as crises reais é sempre a pobreza e restrição ao consumo das massas em contraste com o impulso da produção capitalista a desenvolver as forças produtivas como se estas tivessem seu limite apenas na capacidade absoluta de consumo da sociedade. “

Resultado: o sistema, organizado pelos dois departamentos I e II, sob padrão ouro, marcharia, inexoravelmente, para a insuficiência crônica de consumo, bombeadora de deflação, maior inimiga do capitalismo, segundo Keynes. Optar pela deflação, ou seja, pelo equilibrismo orçamentário neoliberal, pelo lassair faire, seria, segundo o autor de Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, erro eterno; afinal, foi ele que, depois da crise neoliberal de 1873-1893, impulsionou os movimentos revolucionários na Europa, o nascimento dos sindicatos, a pregação socialista, que desembocaria na revolução comunista russa de 1917 etc.

Nasce departamento III: economia de guerra

O colapso de 29 representaria corolário do padrão ouro equilibrista imposto pelo lassair faire, afogado no subconsumismo antevisto por Marx, em seu diagnóstico, segundo o qual o capitalismo desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver, dialeticamente, as forças destrutivas, na guerra, a partir de novo padrão monetário, ditado pelo Estado, que ele não desenvolveu, mas, apenas, esboçou; essa tarefa ficaria para Keynes.

Diante da bancarrota deflacionária, expressa na queda violenta da produção dos departamentos I e II(bens de consumo e bens de produção), nasce o keynesianismo, cuja base é o deslocamento do Estado para o plano do consumo, a fim de puxar demanda global estagnada do lassair faire, mediante emissão de sua própria moeda, o state Money; o padrão ouro, a partir de então, como disse Keynes, viraria “relíquia bárbara”.

Evidenciou-se o colapso: os Estados Unidos, que possuíam, em 1929, frota de automóveis de 27 milhões de unidades e produção anual de 5 milhões de carros, passaram a produzir, em 1931, apenas, 900 mil; a crise se estende até 1943, quando a produção caiu para 700 mil; a produção de bens duráveis de luxo – automóveis, geladeiras, eletroeletrônicos e eletrodométicos – deixou de ser carro-chefe da demanda global capitalista.

Keynes, em 1936, sopraria no ouvido de Roosevelt:

“Penso ser incompatível com democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego –, salvo em condições de guerra; se os Estados Unidos se INSENSIBILIZAREM para preparação das armas, aprenderão a conhecer sua força.”

Materializa-se a pregação de Marx de que o capitalismo deixaria de ser dinamizado pelas forças produtivas, para dar lugar às forças destrutivas, na guerra; sai de cena as mercadorias(bens de produção e de consumo), para dar lugar às não-mercadorias(produtos bélicos e espaciais, consumidos por moeda estatal), como conceituou, genialmente, Lauro Campos, em “A crise da ideologia keynesiana”, 1980, Ed. Campus; o Estado consumidor keynesiano/malthusiano entra em cena, para: 1 – congelar os departamentos I e II, mantendo-os no reinado da escassez, de modo a evitar excesso de produção frente ao consumo, que leva à deflação, e 2 – muda, dialeticamente, o padrão de acumulação capitalista.

Aposentou-se, portanto, o padrão ouro(relíquia bárbara), substituído pela moeda estatal inconversível; a moeda perde, com Keynes, sua pretensa neutralidade macroeconômica, para ser, por meio da expansão da dívida, a dinâmica do capitalismo de guerra, cuja base de sustentação é a capacidade de endividamento estatal.

Ingenuamente, os neoliberais, ainda hoje, pensam que se acabar com a dívida(zerar déficit primário – receita menos despesas, exclusive pagamento de juros), elimina-se a crise(há, há, há)

Fim de uma época

A bancarrota financeira global de 2008 demonstrou o fim do fôlego keynesiano como carro-chefe do capitalismo global puxado pelos gastos americanos em produção bélica e espacial, cujo retrato falado é a construção de mais de 180 bases militares do império espalhadas nos cinco continentes.

Já nos anos 1970, o fôlego esgotado se prenunciava; os déficits, produzidos pela guerra do Vietnan, haviam, desde 1944, alcançado 140% do PIB; Nixon, pressionado pelos que tinham ouro depositado no Forte Knox, como a Alemanha de Willy Brant, decidiu descolar o dólar do ouro, deixando a moeda flutuar, selvagemente.

Acompanhava essa decisão imperial pregação pela liberação geral da circulação de capital financeiro pelo mundo, ancorado no dólar, deslastreado do ouro, mas lastreado nas bombas atômicas, no poder bélico e espacial em constante expansão; o colapso desse novo cenário, em 2007-2008, demonstraria a impossibilidade de continuidade eterna do remédio keynesiano; a dívida pública mundial alcançara os 65 trilhões de dólares, enquanto, no mercado global, a circulação de dólares e seus derivativos superava 700 trilhões de dólares.

Repeteco do crash de 1929, com muito maior virulência; assim como deixara de ser funcional produção de automóveis, para dinamizar a taxa de acumulação capitalista, porque preços foram ao chão, da mesma forma, emitir dinheiro em cima de mais dinheiro, apenas, desvalorizaria ainda mais, a própria moeda americana.

Inicialmente, os banqueiros recolheram as moedas podres, para emitir novas moedas, jogando-as, mais parcimoniosamente, na circulação; porém, a capacidade de endividamento dos estados, em escala global, para continuar esse jogo, deixou de funcionar; a moeda de Tio Sam se desvaloriza como desvalorizaram os carros diante da superprodução, virando moeda podre.

Quem vai comprar máquinas novas, para colocar no lugar das que estavam paradas?; quem vai emitir novas moedas, para substituir as que deixaram de ter valor?

Eis o dilema da nova crise global em marcha.

Blá, blá, blá neoliberal

A bancarrota do departamento III(gasto estatal), como carro chefe da demanda global, está á vista; os neoliberais, como Paulo Guedes, orientado por Chicago, pregam retorno aos departamentos I e II, como se essa etapa histórica não tivesse sido já ultrapassada há 88 anos; ora, o departamento III, como anteviu o excomungado Marx, surge, exatamente, para tirar os departamentos I e II da crise de realização de lucros, sob a economia de mercado, sob o lassair faire.

Sem o departamento III, os departamentos I e II não sobrevivem.

Acabar com o Estado seria solução ou mais problema?

A falta de saída do capitalismo tem deixado a classe média propensa ao fascismo, como aconteceu, no Brasil, na eleição de 2018; o mesmo ocorre, agora, na Espanha; em toda a Europa, a mesma ladainha; acena-se para a direita, como boia de salvação; essa alternativa, porém, é pura miragem; o capitalismo de guerra, que viera para salvar o capitalismo de mercado, entrou, também, em crise; abre-se, dessa forma, tempo de incerteza.

Não há, na proposição neoliberal, saída para o maior problema da economia: o desemprego, já na casa dos 20%, se for levada em consideração a massa de desalentados, que deixaram de procurar trabalho.

Os países capitalistas, atolados de desempregados, discutem direito de consumo; o ser humano deixa de trabalhar por falta de oferta de trabalho, mas não deixa de comer; continua consumidor; se não comer, entra em cena o mesmo dilema que o sistema entrara no final do século 19: reforma ou revolução?

O keynesianismo produziu a reforma, o estado do bem estar social; mas o esgotamento do Estado como produtor de dívida, que cresce no lugar da inflação, sinaliza nova crise.

Certamente, por isso, The Economist lança a discussão incômoda para os capitalistas: socialismo ou barbárie.

 

https://www.economist.com/leaders/2019/02/14/millennial-socialism

Com Boechat rádio supera tevê

Resultado de imagem para boechat

Comoção popular

A impressionante repercussão imediata da morte, aos 66 anos, do jornalista argentino-brasileiro Ricardo Boechat, da Band, deu a medida exata do seu enorme talento desenvolvido plenamente em jornal, tevê e rádio, em diversas empresas: Diário de Notícias, Globo, JB, Estadão, Isto É etc; no rádio, porém, ele se superou, revelando-se comunicador fenomenal; demonstrou ser o rádio o veículo de comunicação de maior utilidade popular para expressar a capacidade criativa do profissional; sua empatia com o público se revelou completa, tornando-se extensão natural da vida e do sentimento das pessoas no exercício da própria existência diária.

No rádio, Boechat, por se soltar mais, extrovertida e vorazmente, ao lado do, igualmente, talentoso José Simão, provavelmente, seu sucessor, produziu interatividade comunicativa genial com a comunidade; construiu rede de informações, Brasil a fora, que lhe permitiu captar a alma nacional, sua graça,  seu tormento, sua angústia, seus interiores e exteriores tragicômicos etc.

Para Boechat, o ouvinte lhe reservava o melhor de si e as melhores estórias cotidianas, para ele transmitir do modo que somente ele sabia fazer; o ouvinte compreendia que, com Boechat, transmitindo seu recado, comentado com humor por Simão, ambos às gargalhadas, sentia-se pleno em seu desejo de ser talvez igual ao jornalista a se expressar como se pretendia expor, em toda a sua dramaticidade, sua indignação, alegria e tristeza.

Boechat, politicamente, conservador, sintonizado com orientação editorial da Band, à frente do seu programa diário, virou matéria obrigatória que produzia outras inumeráveis matérias obrigatórias, cheias de motivações capazes de preencher o dia a dia da população.

Os melhores momentos da cobertura da morte dele vieram, justamente, dos depoimentos dos populares, donas de casa, comerciantes, motoristas de taxi, profissionais liberais, homens e mulheres, ouvidos pela Band/Globo, ao longo do dia; parece que ele escolheu para morrer na hora que permitiu a exploração de toda a carga emocional popular com o momentoso acontecimento.

A construção da comunicação, realmente, maravilhosa com o público, com o qual mantinha, diariamente, preenchia vidas cheias, vazias, meio cheias e esvaziadas, dando-lhes motivos para explorar seus próprios inconscientes, numa rede interativa infinita.

Dizem que Boechat era depressivo, que se tratava ou se tratou com psiquiatras; seu ritmo frenético de trabalho, de manhã à noite, envolvido com a sua eterna paixão, a notícia, serviu, certamente, como a melhor terapia para curar seus tormentos interiores; seria uma grande tortura mental se não tivesse como extravasar tamanha inquietude, que o transformou em verdadeiro globetrotter da comunicação brasileira; ali ele expulsou seus deuses e demônios de que os humanos são construídos em sua dualidade intrínseca faustiana.

Dificilmente, pintará outro camarada comunicativo como ele, com toda a sua extroversão espetacular, sua capacidade de construir climas, tudo gerado a partir da dissecação da informação em seus detalhes e dimensões reproduzidas pelo turbilhão da multiplicação da voz popular; somente os craques são capazes de tal proeza.

Controvertido, produziu genialidades e barbaridades; escandalosa e cretina, por exemplo, foi a sua tirada machista e ridícula de que Dilma fazia visitas íntimas a Lula na cadeia; absurdo; também, exagerado foi o seu endeusamento – como da mídia em geral – da Operação Lavajato, conduzida pelo juiz Sérgio Moro, elemento ambíguo, dissimulado, que a história desvelará em sua grandeza e miséria, mais cedo ou mais tarde; afinal, ele lançou mão, no julgamento e condenação do ex-presidente, de delações premiadas e da teoria do domínio do fato,  em que suposições se sobrepõem às provas para incriminar alguém etc; tudo isso, porém, e muito mais, para o bem e para o mal, não empana a extraordinária arte de comunicar que Boechat carregava consigo 24 horas por dia.

A vida segue

Hoje, dia seguinte ao trágico acontecimento, o lamento é geral em todo o país com o silêncio da voz do grande comunicador; sua ausência produz a sensação de perda de uma joia preciosa que enchia os olhos de quem a possuía disponível, diariamente, para ser reproduzida em mil e uma variações, versões  e entonações, sempre acompanhadas de gargalhadas, dado o sensacional humor do artista.

A dupla Boechat-Zé Simão representou acontecimento capital da história do rádio e tevê brasileira.

Sobretudo, a impulsividade inerente a Boechat, dada pela vontade de comunicar o fato, vem da paixão e loucura pelo furo jornalístico que move todos os jornalistas em diferentes graus de intensidade, tornando-os, invariavelmente, presa da falsa sensação de onisciência ; é, como dizem os coleguinhas, produto da necessidade de ter de matar um leão por dia, para galgar postos nas empresas; ao lado disso, emerge o prazer indescritível de servir aquele prato quente gostoso aos ouvintes, aos leitores e telespectadores, cuja sensação, diante dele, é variada, podendo, inclusive, e quase sempre, ser de indiferença; certamente, não o é para o próprio profissional; frente ao concorrente, ou seja, o próprio colega de profissão, representa um triunfo impagável, que dá prestígio, honra e vaidade – e menos dinheiro do que merece.

A superioridade do rádio, nesse contexto, foi explorada, genialmente, por Boechat, que levou aos limites máximos a sua arte, como autêntico ginasta olímpico, colecionador de medalhas de ouro; rompeu barreiras do inconsciente para se comunicar; expressou-se, nesse sentido, mais pelos sentidos do que pela racionalidade, ou ambos combinados, quanto mais burilou sua capacidade de interagir com a população; por meio da sua inimitável voz, cheia de bossa, numa cadência bem brasileira, fez explodir, de várias formas, os corações dos seus e suas fãs.

Boechat fez e fará escola pela vida afora; os profissionais buscarão nele a exata medida do seu próprio talento, para reproduzir seus desejos de comunicar, extraindo de si suas próprias originalidades; como todo ser humano, não nasceu pronto; foi, pouco a pouco, se soltando e acabou, tal como Pelé, aquela enormidade profissional, fruto do desenvolvimento da própria essência natural que vem de uma simplicidade inata; somente se revela em seu fulgor maravilhoso ao longo de muito trabalho, muita suadeira, muita correria, muita renúncia, muita humildade, até que o rio, tormentoso, se pareça, enganosamente, manso, no transcurso de sua trajetória.

A consciência, como disse Hegel, é como pássaro de Minerva, só voa quando a noite cai; a noite caiu na hora do almoço para Boechat; sua morte, porém, revelou imensa claridade típica da capacidade brasileira de se superar e se fazer respeitar.

Viva o jornalismo.

Adeus, mestre.