
Na vida, meus amigos e minhas amigas, uma hora a gente está prá lá, outra, prá cá, cês entendem?, sempre, naquele pragmatismo, nosso, na lição de Rio Branco. Claro que todos sabem que nós estamos apoiando o Ahmadinejad, com sua luta para ganhar autonomia na área nuclear. Nós lutamos por isso. Por que não apoiaríamos os da nossa classe de emergentes, contra a prepotência dos fortes? Mas, por outro lado, é claro que estamos lutando pela vida de Sakineh. Os aiatolás, pelamor de Deus, nesse ponto, estão no tempo das bruxarias.
A diplomacia brasileira está entre o futuro e o passado, simultaneamente, em relação ao Irã, nesse instante em que os ayatolás são colocados no banco dos réus do tribunal da consciência humana.
De um lado, o Itamarati avança em posições que lhe colocam na ponta de lança da diplomacia universal, ao contestar o direito dos mais ricos de imporem aos mais pobres proibições relativas à utilização da energia atômica, clamando pela democracia multilateralista, em que o Irã sairia favorecido, por tentar seguir esse caminho sob sanções internacionais; de outro, tem que combater o passado presente na brutalidade iraniana de condenar à morte por apedrejamento uma mulher acusada de adultério.
São simplesmente abomináveis as aparições de Sakineh Mohammadi Ashtiani na tevê iraniana para se auto-declarar adúltera e assassina, sabendo que, segundo seu advogado que fugiu do país para contar a farsa, o faz sob pressão de uma ditadura psicológica machista, culturalmente, bárbara, que sinaliza a vida medieval em plena era das comunicações instantâneas. As ditaduras merecem o inferno.
Como o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, vai se explicar ao povo brasileiro essa ambiguidade diplomática explícita?
Bruxaria medieval

Apedrejar mulheres? Quem perdoa governo que ousa matar a natureza que preserva e multiplica a natureza humana e a proibe de exercitar sua natureza sexual livre como impulso sagrado que deve ser respeitado e admirado como ato ao mesmo tempo divino e dionisíaco? Viva Sakineh!
Enquanto destaca, depois de despacho presidencial, que o presidente Lula, na quarta feira, assinou sanções comerciais contra o Irã contrariado por cumprir determinações do Conselho de Segurança da ONU, depois de ter articulado com a Turquia,, a pedido do presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, acordo capaz de evitar as penalidades contra o Governo Ahmadinejad, o titular do Itamarati, ao mesmo tempo, desdobra-se para tentar induzir Ahmadinejad a expatriar Sakineh para o Brasil. Daria curso ao apelo humanitário feito pelo presidente Lula em favor da vida da iraniana condenada pela desumanidade judicial ancorada no atraso cultural monstro.
Se o titular do Planalto não tivesse assinado as sanções comerciais, como o fêz, a contragosto, teria adquirido cacife extraordinário para cobrar dos aiatolás compromisso humanista em termos categóricos. Como não o fêz para não contrariar tradição diplomática brasileira de assinar embaixo do consenso tirado do conselho de segurança da ONU, quase sempre sob comando de voz imperialista, anti-equânime quanto à igualdade de oportunidades, pois a ONU obedece a uma divisão internacional do trabalho dada pelo poder econômico americano, desde a segunda guerra mundial, Lula, ao assinar as sanções, perdeu força relativa para clamar, fortemente, pela vida de Ashtiani. Faltou coragem? Que aconteceu, até agora, quando Israel deu e dá de ombros para a ONU, que tenta enquadrá-lo nas questões nucleares?
Uns podem, outros, não?

Como obter o apoio da humanidade para a construção da bomba atômica, se Ahmadinejad comanda um poder que brutaliza as mulheres que desejam exercitar livremente sua liberade sexual, ultrajada por uma justiça medieval?
Aos olhos e ouvidos de Ahmadinejad e dos aiatolás, caiu o prestígio de Lula, que estava alto, depois das articulações diplomáticas Brasil-Turquia, favoráveis ao direito iraniano de enriquecer o seu urânio para utilizar para fins pacíficos – sem destacar, é claro, que tal enriquecimento, de 3,5% para 20%, permite conquista tecnológica capaz de fabricação da bomba atômica. Prá que disfarçar?
O episódio dramático da condenação à morte de Sakineh, que mexe com a consciência universal, em fase de engajamento total, para evitar a consumação da barbárie, coloca a diplomacia brasileira em seu drama particular e, ao mesmo tempo, geral.
Obriga-se Lula a intensificar a sua defesa favorável à Sakineh, mas num ambiente em que Ahmadinejad já se sente não capaz de apedrejar, mas de estar se sentindo apedrejado pelo presidente brasileiro.
Celso Amorim, nesse interim, conjuga dois discursos conflitantes: busca intervir para salvar a iraniana, mas, da mesma forma, ressalta que está disposto a retomar contatos com a Turquia, para reaver o acordo que o Conselho de Segurança rasgou ao defender e aprovar as sanções, avalizadas, também, pelo Brasil. É como se tivesse o governo arrependido de ter assinado as sanções, dispondo-se, em seguida, tirar a assinatura, insistindo numa causa que não considera perdida. Vai e vem diplomático.
Figuras horríveis

Qual a diferença entre um regime em que o reu confesso assassinou covardemente a namorada atirando pelas costas, mas mantém a justiça enrolando para dar decisão capaz de trancafiar o meliante machista e a justiça que manda apedrejar? Esse Pimenta éuma figura horrível.
Lula se diz contrariado por assiná-las, mas Ahmadinejad, igualmente, se diz contrariado por Lula não ter endurecido o discurso contra o CS da ONU, para dar consequência lógica aos desdobramentos das ações diplomáticas, caracterizadas por resistência à tendência que se consolidou, de as sansões comerciais se materializarem.
Na prática, as coisas se misturam, no plano da conscientização social e popular, para conferir desvantagem ao regime dos aiatolás: se vigora visão jurídico-machista-bárbara num país que busca conquistar a bomba atômica, para se defender do vizinho Israel, armado e rearmado pelos Estados Unidos,como estratégia de dissuassão, já que dois inimigos sabendo que ambos são poderosos e iguais em suas forças se anulam – num repeteco de guerra fria entre EUA-URSS – , tal visão não contaminaria o entendimento geral sobre as intenções maiores iranianas?
Tal abstração, embora passível de questionamento, dado que as más intensões não podem ser creditadas, apenas, ao Irã, no seu afã e direito de conquistar a cadeia produtiva nuclear – por que uns podem e outros, não? – , passa a garantir base de argumentação para os inimigos do Irã.
A secretária de Estado, Hillary Clinton, pede fim da barbárie, mas não tem moral suficiente para fazê-lo, visto que a barbárie, também, vigora nos Estados Unidos, em forma de pena de morte, sem contar o histórico imperialista registrado pela economia de guerra americana como impulsionadora da nação mais rica do mundo à custa de barbáries econômicas e políticas espalhadas na periferia econômica mundial.
Interesses conflitantes

As atrises pornôs, como Elisa Salmudio, correm, ainda, mais perigo contra os machões famosos, quando se engrvidam deles, podendo ser assassinadas pelos amigos do machão, cuja disponibilidade de dinheiro confere à personalidade doentia a sensação de poder tudo, como parece ser o caso do ex-goleiro do Flamengo, Bruno, tipo dos mais repelentes.
E barbárie por barbárie, da mesma forma, o caráter bárbaro do machismo brasileiro não está muito longe do homólogo iraniano, como se verifica no espantoso número de mortes de mulheres, assassinadas, brutalmente, pelos homens incapazes de aceitar o direito dos sexos em porções iguais..
No frigir dos ovos, a posição política iraniana de resistência à tentativa de proibir o Irã de conquistar a tecnologia nuclear se contamina negativamente pela cultura iraniana calcada no barbarismo jurídico, somando antipatias gerais.
Os acontecimentos, por sua vez, divulgados por uma mídia acomodada aos interesses das grandes potências, que se articulam midiativamente a favor da voz ideológica do império, contribuem para fragilizar relativamente a posição do Irã no cenário internacional, como se uma coisa, a tentativa da conquista da tecnologia nuclear, se misturasse com a outra, o comportamento bárbaro da justiça iraniana.
O Itamarati, como se verificou pelo esforço desdobrado do ministro Amorim, ao longo da semana, de tentar levar as duas faces do problema, sem abandonar a racionalidade, enfrenta a ambiguidade de suas posições, nesse instante, como sua principal adversária. Fica dificil separar o que considera o joio do trigo. Haja discurso diplomático capaz de acomodar interesses conflitantes.