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Nacionalismo socialista nascido no quartel

Categoria: (Cultura) por Beto Almeida em 04-02-2012

O golpe militar que o então tenente coronel Hugo Chavez chefiou em 1992 contra o governo do presidente Carlos Andrez Peres, em nome do nacionalismo político e econômico, em oposição às forças neoliberais, então dominantes, é um marco latino-americano diferenciado das quarteladas históricas patrocinadas, ao longo do século 20, pelos Estados Unidos, para derrubar tentativas de ensaios democráticos abalados pelas elites que sempre se uniram aos militares golpistas apoiados pelas doutrinas de segurança nacional ditadas pelas academias militares americanas. O feitiço virou contra o feiticeiro. Chavez, educado nessas academais, serviu-se delas para derrubar as elites financiadas por Tio Sam, mudando o script histórico tradicional, buscando o oposto, o apoio das forças populares. Num primeiro instante, sua tentativa foi frustrada; num segundo, foi consagrado nas urnas, e delas tem saído a confirmação da sua linha política nacionalista contra a qual se movem as forças conservadoras apoiadas pela Casa Branca, sem, ainda, conseguirem seu intenso. Tentaram uma vez sequestrar o presidente eleito pelo voto, para matá-lo, porém, as forças populares se mobilizaram e derrotaram tão tentação politicamente bárbara dos conservadores. Desde então, a orientação política, ancorada no apoio aos movimentos sociais, inverteu a lógica política venezuelana, cuja maior façanha foi a de tomar o petróleo antes dominado pelos capitais americanos, colocando-o a serviço de uma proposta socialista. O golpe de 1992 representou emergência de  movimento político quantitativo e qualitativamente dialético que vai consolidando as bases do poder sob orientação popular em escala ascendente, especialmente, depois da Assembleia Constituinte de 1999, cujos desdrobramentos, em marcha, são progressivas passagens da democracia meramente representativa para a democracia direta, hoje, saudada, inclusive, por velhas lideranças sul-americanas, antes aliadas de forças conservadoras,  agora, comprometidas com pregações de democracia mais  avançada, direta, participativa, como defendeu o senador José Sarney, presidente do Congresso, no discurso de abertura dos trabalhos parlamentares de 2012.   Eis a dialética histórica, que vai rompendo, abruptamente,  com o mecanicismo econômico ditatorial neoliberal reacionário, implodido na bancarrota capitalista global. 

Há 20 anos, a 4 de Fevereiro de 1992, uma corrente militar-revolucionária venezuelana, liderada pelo então tenente-coronel Hugo Chávez, organizou um levante destinado a substituir o governo impopular e neoliberal de Carlos Andrés Perez e convocar uma Assembléia Nacional Constituinte para que o povo, por meio de ampla participação popular, determinasse novos rumos para a Venezuela.

A convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte era o ponto fundamental do Projeto Nacional Simon Bolívar, programa de luta deste movimento militar, que contava com apoio civil. Com o fracasso do levante militar  -  apesar do apoio de 80 por cento que a insurreição  registrava em todas as pesquisas de opinião  -  o movimento tomou outras formas, outros caminhos, outras táticas. Mas, não perdeu o rumo histórico. Com o fracasso militar da iniciativa, mas não político, Chávez e seus companheiros seriam levados a anos de prisão, mas, ali, além de devorar vários livros fundamentais para qualquer dirigente político que pretenda legitimamente mudar a história, transformar-se-ia no mais popular cidadão venezuelano. Se a via militar não fora bem sucedida,  em 2 de Fevereiro de 1999, apenas 7 anos depois, após ter sido eleito por esmagadora maioria dos eleitores venezuelanos, o já presidente Hugo Chávez convoca a Assembléia Nacional Constituinte, que, entre outros dispositivos, decreta, com aprovação de um referendum democrático, a República Bolivariana da Venezuela.

A insurreição de 4 de Fevereiro de 1992 estava, portanto, legitimada, 7 anos depois, pelo voto direto dos venezuelanos e seguia o rumo traçado no Projeto Nacional Simon Bolíviar, escrevendo uma das mais avançadas constituições da América Latina. Ademais, submetida a referendo, o que jamais informado honestamente povos da América Latina pela mídia comercial.

Ditador nacionalista

Os caminhos da história não são lineares. A ditadura política de Getúlio Vargas, que chegou ao poder por meio de golpe militar, detonando, com os tenentistas prestistas, a Velha República oligárquica, lançou as bases da nacionalidade que levantariam a consciência social e a determinação popular em favor da luta pelos direitos econômicos nacionais. A vitória polítca de Vargas em 1950 é mais ou menos semelhante à que Chavez obteve na Venezuela sete anos depois de tentar um golpe que se frustrou. O de Getúlio foi vitorioso, permitindo-lhe construir os alicerces de um novo país, que levou o povo a elegê-lo em consideração pelo que fez. O mesmo aconteceu na Venezuela, onde a população saiu às ruas quando os golpistas da direita apoiados pelos Estados Unidos tentaram desalojar Chavez. A Assembleia Constituinte que desencadeou lançou as bases de uma ampla democracia popular que vai configurando a força da democracia direta diante da democracia representativa. Se não fosse o golpe militar frustrado de Chavez em 1992, cheio de significação revolucionária, chancelado em seguida por eleição direta, a democracia participativa, hoje, não estaria abrindo tão amplas picadas democráticas populares.

Vale recuperar esta linha da história porque o imperialismo e a oligarquia venezuelana desataram uma enorme campanha de desinformação sobre a realidade política transformadora em curso na Venezuela desde então, insinuando que tudo não passara de tentativa de golpe de estado ditatorial. Muito diferente disto, o movimento de 4 de Fevereiro era a reação da consciência da pátria bolivariana em gestação, manifesta na legítima fúria popular do Caracazzo, em 1989, em reação ao governo de Carlos Andrés Peres que implantou pacote de medidas  neoliberais, multiplicando abruptamente o preço dos alimentos, da gasolina,  e promovendo sanguinária repressão ao povo que , conforme estimativas de Hugo Chávez em entrevista a este repórter, teria causado a morte de mais de 3 mil pessoas, cujos corpos foram enterrados não se sabe onde. O 4 de Fevereiro era a nova reação da indignação popular contra o neoliberalismo corrupto, que entregava a preços negativos o petróleo venezuelano às petroleiras dos EUA e submetia a população a índices alarmantes de miséria, exploração, analfabetismo, doenças de toda sorte, desemprego, incultura e  violência social generalizada.

O povo Venezuela compreendeu em profundidade o alcance contido na insurreição, apesar de ter fracassado do ponto de vista militar, mas que triunfara do ponto de vista político. Da via armada, passa para a via eleitoral com o apoio construído a partir da percepção inteligente das grandes massas empobrecidas do país. O 4 de fevereiro tinha alcance histórico, não era uma quartelada apenas. Para render-se e preservar a vida dos insurretos Hugo Chávez exigiu como condição poder dirigir-se ao povo por rádio e televisão. Foram 47 segundos que mudaram a história da Venezuela. No rosto negro-indígena de Hugo Chávez,  o povo mestiço da Venezuela compreendeu imediatamente que era um dos seus, falando sua língua, sentindo a sua mesma indignação contra o regime opressivo, embora revestido de formalidade democrática. As enormes filas que visitavam Hugo Chávez e seus companheiros na prisão eram o indicativo que uma nova era começara na pátria de Miranda e Bolívar.

Apoio incompreendido ao algoz

Por apoiar Getúlio, a esquerda nunca perdoou Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, militar lider do movimento tenentista que despertou as forças nacionalistas que levaram à revolução de 1930. Depois de preso por Getúlio Vargas, tendo tido sua própria mulher enviada pelo ditador às masmoras hitleristas, onde foi assassinada, Prestes, sintonizado com o movimento da história, condenou o golpe contra Getúlio e apoiou sua volta ao poder em 1950, consciente de que sob o getulismo avançavam as forças progressistas. Os esquerdistas românticos romperam com Prestes e cairam nos braços do neoliberalismo udenista lacerdistas crentes de que estavam contribuindo com o avançar da história, quando, na verdade, estavam a serviço do retardamento que contribuiu para levar Getúlio à morte e, em seguida, depois do interregno democrático jusclelinista, ao golpe militar. Os nacionalismos nascidos nos quarteis sempre mereceram o repúdio da falsa consciência história da esquerda alienada latino-americana em sua eterna fuga em encarar o dragão da maldade contra o santo guerreiro glauberiano.

Uma parte importante da esquerda não teve a mesma compreensão inteligente manifestada pelas massas empobrecidas da Venezuela em torno daquele movimento e daquele momento histórico. Certa vez, convidado a falar sobre a experiência da Telesur na Universidade de Madri, ouvi de um dirigente de partido de esquerda espanhol que somente após o golpe midiático de abril de 2002 contra Chávez a sua agremiação tinha concluído, finalmente, que o dirigente venezuelano era realmente um homem progressista e que havia um processo de mudanças no país latino-americano. Não resisti e registrei que aquilo que muitos partidos de esquerda demoraram 10 anos para entender  -  que o movimento de Hugo Chávez é um processo revolucionário   -  as massas venezuelanas compreenderam em apenas 47 segundos naquele discurso em que o dirigente consciente pronuncia a celebra expressão “Por ahora”, e organiza a rendição que na prática era um recuo tático para a retomada da luta com outros métodos, mas com o mesmo objetivo.

Afinal, não surpreende que dirigentes comunistas tenham dificuldade na identificação e compreensão de processos revolucionários que surgem fora do leito tradicional dos partidos de esquerda. Sobretudo quando são iniciativas transformadoras dirigidas por correntes militares progressistas. Afinal, os comunistas também não entenderam a Revolução de 30, quando inspirada e impulsionada pelo tenentismo Vargas arma o povo e vem com ele armado até o Rio de Janeiro ponto fim ao regime oligárquico de Washington Luiz e inicia uma era de transformações. A relação de forças dos anos 30, a existência do nazi-fascismo, a insuficiência organizativa dos sindicatos dos trabalhadores cobraram prazos e táticas completamente sui-generis para a construção de uma nova maioria. Mas, as transformações sociais iniciadas então foram notáveis.

Arte, política e revolução

Glauber Rocha, o maior cineasta brasileiro, teve sua trajetória política confusamente entendida pela esquerda como equivocada, quando, na verdade, ele seguiu a lógica da caminhada politica nacionalista latino-americana, nascida nos quarteis, para dar credibilidade a ela, embora tenha, nas mãos dela, sofrido penalizações. Geisel o mandou punitivamente para o exterior, depois do lançamento de "Terra em transe", uma alegoria espetacular do golpismo político continental sempre financiado pelas forças de Tio Sam, mas, no exílio, foi o primeiro a identificar manifestação positiva e politicamente renovadora na ação militar nacionalista geiselista, por ocasião do rompimento do acordo militar Brasil-Estados Unidos, de modo a abrir as pesquisas nucleares em favor do desenvolvimento nacional, como faz, hoje, Ahamadinejad, no Irã, sob pressão de Washington. Viu ali as sementes da redemocratização, apostou nelas, foi demonizado pela esquerda, mas, ao final, demonstrou estar com razão em sua visão premonitória da histórica que anda de forma tortuosa, como a dizer que Deus escreve certo por linha tortas. No fim, espiritulizadamente, Glauber, antes de morrer, declarou: "A morte não existe. A vida é eterna"

A industrialização, o direito de voto à mulher, a fundação da educação pública brasileira, a nacionalização do sub-solo e  a criação do Conselho Nacional do Petróleo como bases para o surgimento da Petrobrás, a criação da Cia Vale do Rio Doce, da Cia Siderúrgica de Volta Redonda, os direitos trabalhistas, o salário mínimo, a Rádio Nacional, o Instituto Nacional do Cinema Educativo, foram algumas das conquistas daquela Era Vargas, que Fernando Henrique Cardoso, mais tarde, colocou como o alvo fundamental a demolir.

Não será inútil dimensionar que aqueles que contribuíram para separar Prestes de Vargas em 1930 podem ter atrasado enormemente o curso da história no Brasil. Vale registrar que o bravo Cavaleiro da Esperança, depois de ter dado entrevista pedindo a renúncia de Vargas em 24 de agosto de 1954, no jornal Tribuna Popular, recolhido pelos dirigentes do PCB ante a fúria popular desatada pela morte do presidente, termina seus dias como Presidente de Honra do PDT de Leonel Brizola, um dos  principais herdeiros do varguismo.

Hugo Chávez ao organizar o levante cívico-militar de 4 de fevereiro também esperava contar com o apoio de correntes e partidos da esquerda, mas foi por elas abandonado na hora H, o que também contribuiu para o fracasso da operação, do ponto de vista exclusivamente militar.

Os comunistas também não compreenderam o movimento de Perón, na Argentina, que transformou aquele país em um dos mais prósperos do mundo, com estatização dos principais setores da economia, a eliminação do analfabetismo, o desenvolvimento de indústria e de tecnologia próprias em automóveis, aviões, ferrovias, energia nuclear etc. Tudo isto, com a oposição dos comunistas que uniram-se aos segmentos oligárquicos e imperiais para desatar uma campanha que taxava Perón de nazista. Parte central da popularidade e dos êxitos de Nestor e Cristina Kirchner hoje, é porque representam a continuidade história possível do peronismo popular na atualidade.

Populismo, fenômeno progressista

O genial Trotski, em seu exílio no México, percebeu o fenômeno político populista latino-americano, dos anos de 1930 em diante, desencadeado pela crise capitalista deflacionária de 1929. Destacou ser ele fruto da impotência dos partidos políticos, então, dominados pelas elites reacionárias ligadas ao capital internacional, na condição de dirigentes de economias monocultoras - do açucar, do café, do fumo etc - produtoras de contextos políticos repressoras ao pensamento popular, impondo-lhe a força policial. Por essa razão, as massas trabalhadores, sem alternativa, para se expressarem por meio de agremiações partidárias, viram saídas nos movimentos militares resistentes à demagogia política dos coronéis da democracia tocada a bico de pena. Apoiaram eles por perceberem motivações modernizadoras em marcha favoráveis aos interesses populares. O imperialismo chamou de populistas essas forças nacionalistas, nascidas nos quartéis, como foi o caso de Getúlio Vargas, de Perón, Cardenas, Zapata, Alvarado etc. O populismo é alternativa popular à fragilidade dos partidos conservadores por meio dos quais se tornava impossível a manifestação dialética dos antagonismos sociais, visto que não passavam de fantoches dominados pelas forças externas. O populismo varguista, peronista, destacou Tr0tski, representa força progressista, que incomoda, até hoje, as elites reacionárias que comandam o poder midiático sul-americano.

O movimento comunista também chamava de gorila o general Juan Velasco Alvarado que dirigia a Revolução Inca , no Peru, nacionalizando o petróleo, os minérios, iniciando a reforma agrária, a alfabetização em massa, retirando os meios de comunicação das mãos da  oligarquia e entregando-os aos trabalhadores, com o que transformou o país andino em uma referência de luta antiimperialista naquela época. Hoje, em boa medida, Humalla Ollanta, representa a retomada de muitos dos ideais de Alvarado e sua equipe, que também inspiraram a Hugo Chávez, como já declarou o venezuelano.

Superados estes desencontros que no passado separaram as forças populares, o importante hoje, no momento em que a pauta da integração ganhou, finalmente, um patamar de consolidação na Comunidade dos Estados de Latino-América e Caribe (Celac), é organizar para que estes episódios sejam compreendidos em toda a sua profundidade pelos povos do sul. Isto porque movimentos como o 4 de Fevereiro de 1992 estão indissoluvelmente ligados ao 2 de fevereiro de 1999 quando é convocada a Assembléia Constituinte da Venezuela que viria a escrever a Constituição Bolivariana. E o Partido Comunista da Venezuela já não hostiliza Chávez,  tem postura correta, ativa e construtiva como parte do processo transformador bolivariano. Nas fileiras de esquerda já se discute com mais dialética e menos preconceito o papel das correntes militares, na luta contra o imperialismo e a oligarquia em vários países.

Tanto a Constituição Bolivariana, como a liberação da Venezuela do analfabetismo, como a renacionalização da PDVSA, como o nascimento da Petrosul, do Banco do Sul, da Unasul, da Telesur, da Alba e, mais recentemente da Alba, estão umbilicalmente vinculados à luta dos povos da América Latina e Caribe, das quais, o 4 de fevereiro foi uma alavanca, uma faísca, um estímulo, e assim deve ser valorizado historicamente no momento em que completa seus 20 anos.

Assim como o levante popular de 2001 na Argentina, a Guerra do Gás na Bolívia, a resistência às privatizações na Uruguai, a eleição de Lula com o apoio das forças populares no Brasil, a retomada gradual do curso sandinista na Nicarágua, a Revolução Cidadã no Equador, todos estes movimentos tiveram no 4 de fevereiro de 1992 um forte impulso, um brado de que era chegada a hora de organizar em nova dimensão a rebeldia dos Caracazos, enterrar o neoliberalismo, todas as  ALCA e vencer as  democracias fraudulentas suplantando-as pelas democracias verdadeiramente participativas. Assim como também é chegada a hora, agora,  de pensar o papel dos militares dentro de uma estratégia de soberania e de independência, formando parte, como já se delineia na criação do Conselho Sul-Americano de Defesa, no âmbito da Unasul,  de um processo de integração que construa na região uma área de cooperação, de solidariedade e de prosperidade e justiça social para seus povos, com capacidade de enfrentar os desafios da agressividade imperial.

Beto Almeida

Membro da Junta Diretiva da Telesur

4 de fevereiro de 2012

O Brasil engarrafado pelos gringos

Categoria: (Cultura, Economia) por Adriana Lacerda em 29-01-2012

Não falta gente astuta neste mundo. A última de uns espertalhões americanos foi lançar uma “interessante” campanha publicitária para uma marca de pinga chamada Cabana Cachaça ($15). Bom, até aí nada de mais. Um dos problemas, porém, está exatamente em como os caras estão trabalhando essa campanha. Primeiro, o clichê escolhido pela agência novaiorquina Avrett Free Ginsberg é um velho conhecido para divulgar a imagem do Brasil no exterior. Até porque as alternativas são limitadas: futebol, carnaval ou mulher. A opção, desta vez, foi pela “beleza e sensualidade da mulher brasileira”. Aliás, bota sexualidade explícita (vejam o filminho de abertura no website da empresa). Segundo, a farsa publicitária também está em tentar criar uma conexão emocional com os consumidores americanos alicerçado no posicionamento Authentically Brasilian. Ora, o produto, lançado nos EUA, não é bem genuinamente brasileiro. Muito embora a cachaça seja produzida no Brasil, utilizando um processo artesanal e bi-destilada (pelos menos é o que diz a escassa informação disponível sobre esse produto); tanto o jovem empreendedor norte-americano, Matti C. Anttila, ex-analista que trabalhava no Brasil no banco de investimento J.P.Morgan, quanto a agência de publicidade são de Nova Iorque. É o caso clássico de start-up para enrolar gringos. E, ao que tudo indica, a estratégia parece estar funcionando. A cachaça divulgada em baladinhas caiu no gosto de algumas atrizes e socialites. Também, belas garrafas e rótulos, investimento pesado em comunicação apelando para fortes associações à imagem do Brasil no exterior e, por fim, um produto de qualidade duvidosa. Para não dizer que o pessoal não vende a Cabana Cachaça por aqui, segundo informações, ela é encontrada no Fasano e certas lojas em São Paulo e no Rio. Se é uma boa cachaça eu não sei, mas que a propaganda é apelativa isso ela é. ENQUANTO O GOVERNO BRASILEIRO NÃO CUIDA DO QUE É AUTETICAMENTE NACIONAL PROMOVENDO NO MUNDO NOSSAS MARCAS, OS GRINCOS VÃO E TOMAM, FATURANDO EM CIMA  DOS TROUXAS, QUE FICAM BEBENDO UISQUE FALSIFICADO NO PARAGUAI.

A cachaça foi fundamental para a economia do Brasil colônia e teve grande influência nos rumos da nossa história. Do canavial ao boteco, essa bebida ajudou a moldar a identidade nacional do brasileiro

Em 13 de setembro de 1649, uma carta assinada pelo então rei de Portugal, dom João 4º, proibia a fabricação da cachaça no Brasil. Motivo: desde aquela época, a aguardente de cana-de-açúcar estava se tornando, em detrimento do vinho português, a bebida predileta da colônia – e da costa oeste da África também. E a Companhia de Comércio de Portugal, descontente, recorreu à Coroa para que providências fossem tomadas. Não queria perder mercado, mesmo que fosse para fregueses pouco abonados, escravos e mestiços que só tinham mesmo condições de consumir a cachaça. O destilado, que já era produzido nestas terras, tinha preço muito mais acessível que o vinho, trazido de navio do outro lado do oceano Atlântico.

Só que ninguém deu bola para essa lei seca no Brasil. Não que o país fosse território de cachaceiros ou alcoólatras incuráveis. Havia outra questão por trás: a economia de Portugal – e era isso que decidia o destino de sua colônia mais lucrativa, o Brasil – dependia consideravelmente da produção e do consumo da aguardente.

A Coroa precisava vender açúcar. A produção de açúcar nos engenhos da colônia, por sua vez, dependia de muito trabalho pesado: aí entravam os escravos, uma vez que “a civilização do açúcar não teria sido feita” sem o negro, como escreveu Gilberto Freyre em seu livro Nordeste. E o valor desses escravos muitas vezes era mensurado em cachaça. Sim, pois a pinga produzida no Brasil passou a servir, junto com o tabaco, de moeda de troca por escravos na costa africana.

A moeda cachaça

A desvalorização da criatividade brasileira começou na escravidão. Os trabalhadores escravos nas usinas de açucar se ligaram no fermento da danada e acabaram produzindo o aguardente de qualidade que se aprimoraria pelos tempos afora, transformando-se, hoje, num orgulho nacional, ainda limitado, dados os preconceitos imbecis espalhados pelo espírito de uma elite que sempre banqueteou os restos dos banquetes dos poderosos no exterior, mas que, internemnte, sempre rejeitaram o produto brasileiro. Apesar de tudo isso, a cachaça brasileira se transforma, cada vez mais, em produto de qualidade, que, agora, atrai investidores internacionais, enquanto o governo vai dormindo de toca , em vez de criar um programa nacional de desenvolvimento da produção de cachaça, levando o produto a ganhar o mundo. A presidenta Dilma tinha que entrar nessa, visitando, por exemplo, a Confraria da Cachaça de Brasília, que se reúne, mensalmente, para dar aquela força, a partir de um marketing bem organizado e competente. Ou vamos continuar escondendo aquilo que temos de melhor, a cachaça e, claro, as mulheres maraviilhosas, que já dominam a cena política nacional?

A produção de aguardente de cana-de-açúcar surgiu como uma conseqüência das lavouras açucareiras. A cachaça teria sido resultado da produção do melaço, uma das etapas da fabricação do açúcar. No processo, a borra adocicada que se concentrava sobre a garapa borbulhante era removida com uma espumadeira e jogada numa tábua – daí o termo português “cachaça” que, derivado do espanhol cachaza, era o nome da espuma do caldo. Ali, a borra açucarada fermentava, transformando o que é doce em álcool. Rapidamente, a tecnologia portuguesa de produção de bagaceira adaptou-se aos engenhos, e daí surgiram os alambiques para destilar a bebida. E pronto, eis a cachaça: “A revelação gostosa e catastrófica para negros africanos e amerabas brasileiros. Dissolvente dinástico, dispersador étnico, perturbador cultural”, escreveu o folclorista Luís da Câmara Cascudo, em seu livro O Prelúdio da Cachaça.

Antes dela, tanto os negros como os índios desconheciam bebida tão poderosa. Sabe-se que os índios produziam um tipo de bebida fermentada a partir da mandioca mastigada e cuspida. Chamava-se cauim. Os africanos também bebiam um vinho obtido do caldo de palma. Mas, segundo Câmara Cascudo, nada chegava aos 18 ou 22 graus alcoólicos da cachaça produzida na época (as caninhas modernas chegam a superar os 50% de álcool). Na África, aos poucos, o consumo do vinho de palma foi sendo substituído pela cachaça. Isso não se deu por acaso: os colonizadores deliberadamente trabalharam para criar um mercado consumidor dos destilados produzidos na Europa e na América. “À medida que a substituição se processou, foi criado o mercado onde a aguardente foi utilizada como ‘moe¬¬da’ no tráfico de escravos”, afirma o pesquisador Carlos Magno Guimarães, historiador da UFMG. A cachaça, assim, passou a ser um “cheque descontável do Daomé à Angola, do delta do Níger à foz de Cunene”, escreveu Luís da Câmara Cascudo.

Daí a explicação de por que de nada adiantou a proibição real de 1649. Tampouco uma outra, dessa vez assinada por dom Pedro 2º (o rei português que sucedeu João 4º, não o imperador brasileiro), que também proibia o envio de cachaça para Angola. Proibindo a produção, o consumo e a venda da cachaça, o que se tinha, segundo Câmara Cascudo, era o contrabando “inevitável e prolífero”. E muito lucrativo, pois todos os riscos que a operação envolvia – e mais um pouco – eram embutidos no preço ao comprador. Calcula-se que, em média, 310 mil litros de cachaça foram enviados por ano para Angola, o que correspondia a quase 80% das bebidas alcoólicas que chegaram àquela colônia (as demais eram vinho e bagaceira, de Portugal). Aproximadamente 25% dos escravos trazidos para o Brasil – entre 1710 e 1830, ao menos – foram trocados por cachaça. “Se acrescentarmos também o tabaco da Bahia, chega-se à cifra de quase a metade dos cerca de 2 milhões de escravos trazidos no século 17 tendo sido trocada pela cachaça e pelo tabaco”, diz o historiador Henrique Carneiro, em seu livro Pequena Enciclopédia das Drogas e Bebidas.

O contrabando de drogas, aliás, já naquela época, não era apenas coisa nossa, não. O tráfico de álcool já era comum no mundo quando o Brasil aderiu à moda. “Há milênios existe o tráfico de álcool, especialmente do vinho, no mundo mediterrâneo. A partir do século 16, ele se expandiu e se ampliou enormemente com a emergência dos destilados”, diz Carneiro. Segundo ele, outros ciclos comerciais também se fincaram na história em torno das drogas, além do comércio de aguardente que marcou a economia colonial americana no século 17. As bebidas quentes e estimulantes, desde aquela época, aprofundaram o desequilíbrio da balança comercial inglesa com a Ásia, por causa da crescente compra de chá. Isso foi o estopim de duas guerras da Inglaterra contra a China, no século 19, as chamadas Guerras do Ópio. Os britânicos queriam forçar os chineses a aceitar ópio, e não prata, como pagamento pela quantidade monstruosa de chá que compravam.

Preconceito anti-popular

O preconceito contra os trabalhadores, no Brasil, por parte de uma elite vendida ao capital internacional, dominando uma grande mídia, completamente, alienada, sintonizada com as modas externas, enquanto combatem as modas internas, caiu de pau em cima do ex-presidente Lula, simplesmente, porque ele, como todo o povo brasileiro, aprecia uma cachacinha. Foi ele tomar umazinha em público e logo começaram a espalhar que ele era um tremendo cachaceiro. Estimularam os tupiniquins de baixo escalão, especialmente, nas altas esferas elitizadas, que tomam uisque, muitas vezes falsificado, a maldizerem o presidente. Claro, o povo não caiu nessa, porque, afinal, um representante legítimo dele, chegara ao poder, para iniciar um processo de distribuição da renda, de modo a tirar o país da crise em que sempre esteve mergulhado por conta da excessiva concentração da renda nacional. Mas, os idiotas da objetividade, como diria Nelson Rodrigues, tanto fizeram que conseguiram que o New York Times publicasse reportagem de correspondente do jornal no Brasil, detratando o ex-titular do poder nacional, taxando-o de cachaceiro e outros bichos. Claro, as elites gostaram. Lula, no entanto, falhou por não ter reafirmado, publicamente, que ama a cachaça, promovendo-a nos mercados internacionais. Agora, os gringos estão faturarando em cima do produto. Não seria a hora de a presidenta Dilma copiar Lula e tomar um traguinho, em público, para abrir o apetite, em encontro nas confrarias das cachaças, que se espalham por todo o país?

Além de ser moeda de troca para a compra de escravos, havia ainda outro motivo que tornava a cachaça imprescindível para o Brasil colonial: para os negros africanos, ela funcionava como amortecedor tanto da fome quanto da tristeza que embalavam a longa viagem de travessia do Atlântico. Na dieta diária dos escravos, vinha ainda da cana o consolo e a anestesia para suportar as agruras do regime escravocrata. “Confirmando desde então a tese sempre atual de que a humanidade, em todas as épocas históricas, sempre teve um pendor por buscar substâncias químicas que aliviem suas dores”, diz Henrique Carneiro.

E o Brasil Colônia dispunha de matéria-prima suficiente para produzir alívio para uma multidão de sofredores cativos. A pinga era o combustível do trabalho forçado. A tal ponto que a viajante inglesa Maria Graham, visitando o Recife em 1821, chegou a anotar sobre os escravos que a cachaça era o “incentivo pelo qual fazem qualquer coisa”. Com o eixo da economia se deslocando para Minas Gerais e seu ouro, os negros transferiram do Nordeste para lá o hábito e a tecnologia da produção de aguardente (e deram início ao que hoje é uma das marcas mais sagradas de Minas, a cachaça artesanal).
Por essas e outras é que, insustentável, a proibição real à aguardente caiu em 1661.

Governos da capitania de Minas Gerais ainda tentaram, pontualmente, inibir a proliferação dos alambiques porque – claro, é de sua natureza – a danada também fazia lá seus estragos. Em terras mineiras, não combinava com os poços profundos, nos quais, não raro, os escravos tinham que adentrar para buscar ouro. Além disso, também se temia que a cachaça estimulasse a rebeldia dos negros. Mas essas proibições dos governos das capitanias também caíam rapidinho. De modo que nenhuma outra restrição apareceu, segundo Câmara Cascudo, após 1759 (salvo hoje, em dia de eleição) ao direito de embriagar-se de cachaça até entortar a língua e cair duro com a cara no chão.

Rebeldia

Cachaça boa com gelo é melhor do que uisque. Quem atesta é o empresário Sebastião Gomes, fabricante da Cachaça do Piloto, frequentador assíduo da Confraria da Cachaça de Brasília. Por que o Ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, de Mina Gerais, onde se fabricam as melhores cachaças do Brasil, como as de Salinas, por exemplo, não organiza encontro nacional dos fabricantes de cachaça para discutir uma política capaz de promover o produto, tanto no mercado interno, como internacional.? No momento em que o país avança com o seu mercado interno vigoroso, depois que se descobriu que distribuir a renda é a melhor solução, para o desenvolvimento e para o combate à inflação, simultaneamente, fugindo da deflação que afoga os ricos, teria chegada da classe média emergente, beber, moderamente, claro, a cachaça, em vez de cair na tentação das vodkas com estimulantes que estouram a cabeça da juventude, comprometendo sua saúde. Educação, evidentemente, é tudo. Mobilizar a sociedade para se orgulhar da cachaça nacional seria uma boa, Fernando. Toma uma, vai.

E, se a cachaça foi importante para a manutenção da economia açucareira e, depois, para o ciclo do ouro, ela também teve seu papel na resistência e na luta contra a escravidão. “Na realidade colonial, a aguardente evidenciava o seu caráter contraditório”, escreveu o historiador mineiro Carlos Magno Guimarães, em artigo na coletânea Álcool e Drogas na História do Brasil. “Ao mesmo tempo em que contribuía para a manutenção da ordem escravista, era combatida como ameaça a essa mesma ordem.” Que a aguardente esteve associada a eventos de rebeldia, isso é inegável. “Mas que ela tenha sido a causa da revolta é, no mínimo, questionável”, diz Carlos Magno. Obviamente, pois a verdadeira causa de rebeliões de escravos era a própria situação lastimável da escravidão.

Os negros dominaram rapidamente as técnicas de destilação da pinga, e a aguardente de cana passou a ser produzida e consumida nos quilombos – inclusive no quilombo dos Palmares, entre Pernambuco e Alagoas, que era o maior de todos e acabou destruído em 1710. Tanto nas senzalas quanto nos quilombos, a marvada já era elemento de rituais e danças negras. E, como afirma Carlos Magno, que pesquisou o papel da cachaça nos quilombos de Minas Gerais (segundo ele, de 1733 a 1748, pelo menos 49 núcleos de negros fugidos foram descobertos e destruídos pelas autoridades da capitania), ela cumpriu um papel importante para a manutenção dessas comunidades.

Isso porque, para os quilombolas, a cachaça também era, sim, dinheiro. Até eles, que eram fugitivos do governo, conseguiam trocar a bebida por alimentos, no comércio ilegal feito nas vendas, que eram o equivalente ao que hoje conhecemos como botecos, mercearias – diferença é que, naqueles tempos, eram clandestinas e, como tal, faziam um comércio ilícito. Como o de trocar alimentos pela cachaça dos negros fugidos – e, assim, ajudá-los a viabilizar os quilombos.

Cachaça é coisa nossa

Alguém aí sabe que a cachaça Maria da Cruz, deliciosa, é fabricada no alambique criado pelo ex-presidente da República, José Alencar Gomes da Silva, um dos maiores empresários brasileiros? É isso aí. Está passando da hora de o governo perder a vergonha de promover o produto nacional que os escravos criaram e que levaram os portugueses a proibi-lo em território nacional, para não fazer concorrência com o vinho português, no tempo da colonização. Tudo que é nacional e bom tende a ser bloqueado ao confrontar interesses poderosos. A Copa do Mundo está chegando. Não seria uma oportunidade mais do que indispensável capaz de mobilizar a classe produtiva, apoiada por uma política governamental, a fim de promover a cachaça, para conquistar o coração do torcedor, em vez de deixá-lo submeter à propaganda bilionária das coca-colas da vida, narcóticos açucarados que, como comprova a medicina, compremetem, aceleradamente, a saúde da juventudade, dominada pela propaganda mentirosa? Tomar uma Maria da Cruz, geladinha, ou a Cachça do Ministro, fabricada por Carlos Átila, diplomata aposentado, ex-ministro do governo Figueiredo, é a grande pedida.

Se a cachaça está presente na história do Brasil desde o começo, a ponto de ter sido um tanto responsável por sua trajetória, nada mais lógico que ela seja a bebida alcoólica nacional por excelência. Há tempos que a pinga tem sido mencionada como o trago favorito destas bandas. Entre os anos de 1816 e 1822, o naturalista francês Auguste Saint-Hilaire já anotava ser “a cachaça a aguardente do país”.

Hoje, estima-se que existam de 40 mil a 50 mil produtores espalhados pelo país. “Muito embora, pela natureza da fabricação, seja muito difícil quantificar”, diz o químico Douglas Wagner Franco, do Laboratório para o Desenvolvimento da Química da Aguardente, da USP em São Carlos – o cientista se refere aos numerosos alambiques de fundo de quintal que podem passar em branco nas estatísticas. Mais de 500 apelidos para a dita cuja, de branquinha a dengosa, assovio-de-cobra e meu-consolo, já foram catalogados em tentativas de se formar um léxico de como a cachaça é falada na boca do povo, de norte a sul do país.

Fabricada inicialmente pelos negros, passou a ser consumida por todos – até pelo presidente do Brasil. E foi usada como símbolo de nacionalidade desde que o Brasil Colônia brigava para se livrar de Portugal e ser Brasil somente. Na Revolução Pernambucana de 1817, o vinho foi substituído por cachaça em algumas missas. Era uma forma de protesto e de afirmação em prol da República.

Na Confederação do Equador, em 1824, que foi uma reação contra o absolutismo de dom Pedro 1º, a mesma coisa: líderes revolucionários brindavam vitórias com cachaça. E até na guerra contra o Paraguai, quando entre 1864 e 1870 cerca de 300 mil paraguaios morreram, os soldados brasileiros (ao todo eram aproximadamente 160 mil homens) se abasteciam de cachaça. Embora presente na história social, política e econômica desde o começo do Brasil, tecendo laços, tampando dores, dando alegria e coragem, apenas em 2001 um decreto presidencial instituiu a bebida mais democrática do país como a bebida nacional. Demorou!

Prelúdio da Cachaça – Luís da Câmara Cascudo, Global Editora, 2006.
Nordeste – Gilberto Freyre, Global Editora, 2005.
Pequena Enciclopédia da História das Drogas – Henrique Carneiro, Editora Campus, 2005.
Álcool e Drogas na História do Brasil – Henrique Carneiro e Renato Pinto Venâncio (organizadores), Editora Alameda, 2005.

Infarto do capitalismo exige superação da economia de guerra pela economia da paz

Categoria: (Cultura, Economia, Política) por Conselho Editorial Sul-Americano em 27-01-2012

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL. A estrutura produtiva e ocupacional sobre a qual se assenta o capitalismo - a guerra e a especulação financeira - levaram a humanidade a um beco sem saída. Faz-se, necessário, portanto, superar a economia de guerra -a negação - , que deixou de ser útil à própria reprodução do capital, para dar lugar ao seu oposto, ou seja, a economia da paz - a negação da negação - a fim de salvar o ser humano dos perigos fatais produzidos pelo impasse decorrente do desenvolvimento das forças produtivas, de um lado, e o das relações sociais antagônicas, de outro, de modo a abrir possibilidades a expansão do espírito humano a uma nova era, ancorada na vontade solidária de construir nova estrutura produtiva e ocupacional, tirando da frente os empecilhos que colocam em risco a sobrevivência humana no planeta terra.

Implode o estado capitalista

O capitalismo está no banco dos réus em Davos e em Porto Alegre.

Destacam generalizadamente que chegou a hora de melhor distribuição da renda para que ocorra uma reinvenção do sistema capitalista.

O chato, no capitalismo,  é que quando tudo vai, relativamente,  bem, não tem porquê distribuir; quando tudo vai, relativamente, mal, como agora, não tem o que distribuir. É ou não é?

Fica esse cinismo aí!

Na verdade, o de que se trata é saber se a lei geral do capital permite o que se está pregando, isto é, a igualdade.

No tempo de Delfim Netto, ditadura militar, ele preferiu destacar que, primeiro, era preciso fazer crescer o bolo, para, depois, distribui-lo.

O bolo cresceu, veio o milagre econômico,  mas foram poucos os que o abocanharam.

Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, onde avançaram práticas políticas sociais democráticas, ancoradas no Estado do Bem Estar Social, emergem os impasses.

Excessivamente, endividados, os governos, garantidores desse Estado do Bem Estar, sob pressão dos credores, são obrigados a cortar os benefícios sociais, de modo a sobrar mais para os banqueiros, os que compram os títulos do governo com o dinheiro do governo, a moeda papel sem lastro, fictícia.

Tem um problema: para continuarem pagando os seus credores, os governos precisam continuar se endividando. Essa é a função deles: gastar para distribuir.

Agindo assim, produzem consumo, sem aumentar a produção, freiando as forças produtivas e atenuando as relações sociais da produção, evitando, consequentemente, as tensões políticas produzidas pelas próprias contradições detonadas pelo capitalismo.

José Graziano, o brasileiro que chegou à direção da FAO, dá o tom da nova economia da paz para substituir a economia de guerra. Ela se voltaria para garantir aos seres humanos socialmente excluídos o direito de consumo como alternativa econômica fundamental para girar a produção global, impulsionando os mercados internos, assegurando aos governos arrecadações capazes de impulsionarem os investimentos em infraestruturas indispensáveis para resgatar os marginalizados pelo sistema capitalista que deixa de ser socialmente útil.

Se o governo não pode endividar-se, por já ter dívidas demais, não pode, também, distribuir, nem pode, portanto,  arrecadar, perde sua função e utilidade, deixa, de acordo com a ideologia utilitarista, que dá vida ao capitalismo, de ser verdade.

Não é à toa, portanto, que o calote na dívida se transforma, nos países ricos, em solução, mediante prática de juro zero ou negativo, para que haja espaço capaz de permitir que o endividamento governamental continue.

O juro perde a função no sistema: se existir, quebra o governo, do qual o sistema, na economia monetária, depende, visceralmente.

Deixa de existir, especialmente, nos países ricos, em crise total, a preocupação com a preferência pela liquidez, bloqueadora dos investimentos, mas estes, igualmente, ficam comprometidos, pois, se o governo não pode gastar, devido aos excessos de dívidas, quem investirá, mesmo se o juro for zero ou negativo?

Ou seja, elimina-se, simultaneamente, tanto a preferência pela liquidez como a opção pelo investimento, ambas anuladas, na medida em que o governo, cheio de papagaios, não pode mais gastar para puxar a demanda global, na escala necessária capaz de sustentar a reprodução ampliada do capital.

Se, realmente, o Estado,  como disse Lenin, é a expressão acabada da luta de classes, existindo, sob o capitalismo, para satisfazer os interesses dos capitalistas em detrimento dos interesses dos trabalhadores, o baque capitalista global compromete a capacidade da classe capitalista de continuar no comando do processo político, porque, em obediência à própria ideologia utilitarista, suprassumo do capitalismo, deixa de ser útil.

Está em jogo o controle do poder do Estado, visto que o governo capitalista, simplesmente, enfartou na crise de 2008 e não demonstra competência para continuar no comando do processo político, no compasso do aprofundamento do antagonismo de classe em marcha inexorável.

Apodrece estrutura produtiva

FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL. A confusão é geral em Davos. Cada um vai para um lado. A Alemanha, a mais rica, diz que não pode emprestar aos mais pobres. Os mais pobres, como Portugal, dizem que não podem pagar. Os remediados,como os ingleses e os franceses, que estão em queda livre, querem fugir, os primeiros, da Europa, os segundos, de si mesmos. Os Estados Unidos, divididos entre si, estão sem rumo, entre a deflação e a inflação, propensos a dar a calote no mundo. Os europeus debatem se vale ou não a pena continuar com o capitalismo, que deixou de ser útil, para atender as demandas sociais. Estas, ao contrário, têm que ser eliminadas para aqueles que detêm o poder do Estado capitalista, ou seja, os banqueiros, continuem garantindo sua lucratividade. Está em cena, mais do que nunca, o acirramento da luta de classes pelo comando do poder estatal. A direta se esfacela, desunindo-se internamente. Já a esquerda se encontra desorganizada, porque acreditou na eficácia do remédio da direita que se desmancha, ou seja, o estado do bem estar social. Emerge o estado do mal estar social que joga uns contra os outros, gerando incompatibllidades gerais. O clima revolucionário se acirra, mas como os revolucionários, simplesmente, estão desorganizados, abre-se o campo para o fascismo, que se fortalece no ambiente em que o medo social quanto ao futuro domina as mentes fragilizadas pelas incertezas. Mas, a economia capitalista, em sua versão, essencialmente, fascista demonstra ser inviável.

Torna-se indispensável, como diz Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”, Campus, 1980, ver o sistema do alto da montanha e não do meio da floresta.

Do alto, se percebe que o que se esgotou é a estrutura produtiva e ocupacional.

Que estrutura é essa?

Aquela que emergiu depois da crise de 1929, muito bem expressa no conselho de Keynes a Roosevelt, em 1944, diante do colapso do padrão ouro, sob economia de mercado:

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego -, exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, aprenderão a conhecer a sua força”.

Ou seja, a estrutura produtiva e ocupacional que se ergue no rastro do crash de 1929 é, nada mais, nada menos, do que a economia de guerra.

Por isso, é preciso voltar a Marx, quem melhor teorizou e dissecou o sistema capitalista.

O autor de O Capital disse que o capitalismo desenvolveria ao máximo as forças produtivas, entraria em senilidade e passaria a desenvolver ao máximo as forças destrutivas, na guerra, mediante os gastos do governo, algo que ele não descreveu, largamente, apenas, esboçou, porque morreu antes.

Evidencia-se que agora o que sofreu infarto não é apenas as forças produtivas, mas, também, as destrutivas, de modo que o edifício desabou, como os três prédios na tragédia recente no Rio de Janeiro.

O pensamento de Keynes poderia ser aperfeiçoado à luz da pregação marxista, no momento em que o capitalismo se encontra infartado:

“Penso ser incompatível com a democracia capitalista que o governo eleve seus gastos na escala necessária capaz de fazer valer a minha tese – a do pleno emprego -, exceto em condições de guerra. Se os Estados Unidos se insensibilizarem para a preparação das armas, acabarão destruindo suas forças”

Ou seja, está em jogo a democracia, diante da crise capitalista.

Trata-se, portanto, de, seguindo as pegadas de Marx, discutir tanto o esgotamento das forças produtivas, impulsionadas pelos departamentos I – de produção de bens de consumo – e II – produção de bens de produção(bens de capital) – e das forças destrutivas, alavancadas pelo departamento III – gastos do governo, alavancador, depois da crise do lassair faire, da economia de guerra.

Em 1929, entraram em colapso, os departamentos I e II, detonados pelo processo deflacionário, como fruto final da economia de livre mercado; em 2008, implode o departamento III, nascido para salvar o lassair faire, por meio do desenvolvimento de nova estrutura produtiva e ocupacional dependente da ampliação dos gastos do governo – produção bélica e espacial, especulação financeira, desregulamentação bancária etc.

O infarto capitalista se dá, agora, no departamento III, configurando uma crise completa do sistema.

Desenvolvimento das contradições

CABEÇA DIALÉTICA REVOLUCIONÁRIA. Marx demonstrou que o desenvolvimento das forças produtivas, impulsionado pela ciencia e tecnologia colocadas a serviço da produção e da produtividade, entraria em choque, sempre, com as relações sociais da produção, organizadas para manter os trabalhadores em posições subalternas no processo político, levando-os a se organizarem, para construir a opção socialista. A deflação, como fruto do processo capitalista competitivo, entraria em colapso, abrindo espaço para o sistema tentar se eternizar por meio da inflação, impulsionadora das forças destrutivas, comandadas pelo o dinheiro emitido pelos governos capitalistas. A estrutura produtiva e ocupacional criada a partir desse projeto, cuja função seria a de tentar frear as forças produtivas explosivamente deflacionárias, entrou em crise de realização em 2008, com a falência da financeirização econômica global. Os antagonismos de classe voltam a se acirrar. Entra em cena, o fundamental: o controle político do Estado, visto que os que o comandam no momento deixaram de ser úteis aos interesses sociais, que despertam do sono profundo da alienação produzida pelo capital que sofreu violento infarto.

A economia capitalista, até final do século 19, como teorizou, largamente, Marx, sustentava-se no bimetalismo(ouro e prata) monetário, dinamizador dos dois departamentos econômicos em desenvolvimento contraditório: o departamento I, bens de consumo; segundo, o departamento II, bens de produção.

A interação entre ambos desenvolveu ao máximo as forças produtivas sob a lei geral do capitalismo, ou seja, a busca do lucro,  cujo pecado capital, disse o mestre, é o de produzir crônica insuficiência de demanda global.

Por que?

Marx gozou a cara de Jean Baptiste Say, o pai dos neoliberais, segundo o qual toda oferta gera demanda correspondente, de modo que o sistema capitalista viveria eterno moto  continuo, sem crises de realização.

A famosa Lei de Say, disse Marx, seria válida, se toda mercadoria que vai para as prateleiras dos mercados fossem vendidas sem lucro. Gastou 100 para produzir, vende por 100. Oferta e demanda iguais, eternas, ótimo. Aí, tudo bem, não haveria crise.

Porém, o empresário, quando bota seu dinheiro no negócio, quer ter retorno lucrativo – joga 100 para recolher 150, por exemplo – , pois, caso contrário, exerce a preferência pela liquidez, deixando seu dinheiro render no juro composto, é claro.

Como é o lucro que move o capital, o empreendedor, ensina Marx, compra capital fixo(C) – máquinas e equipamentos -  e capital variável(V) – trabalho assalariado e matérias primas -, para produzir mercadorias, a fim de vendê-las, lucrativamente.

Ou seja, ele gasta C + V, mas precisa recolher C + V + S, sendo S o lucro. De onde vem S, perguntará, sempre, Marx, para concluir que não vem. Por que?

Simples: o valor que o empresário recolhe da venda das mercadorias que fabrica tem que ser maior do que o valor que o trabalhador recebe em forma de salário para produzi-la.

Desse modo, a totalidade do valor gerado pelo trabalho será sempre inferior à totalidade do valor obtido pelo empresário.

Haverá, portanto, um gap eterno entre esses dois valores, cujo resultado é a insuficiência crônica de demanda global, no sistema.

Na prática, ocorre o óbvio: a diferença entre esses dois valores é apropriada pelo capitalista em forma de salário não pago. Roubo.

Se falta uma parte da renda do trabalhador, que se transforma em lucro do capital, faltará sempre renda disponível para manter em equilíbrio produção e consumo.

O desequilíbrio é a expressão real do capitalismo. O equilíbrio é uma ficção inventada nos laboratórios dos economistas neoliberais.

Marcha para a deflação

PACIÊNCIA SOCIAL ESGOTADA COM CAPITALISMO. As massas, ameaçadas pela debache capitalista, que destroi o estado do bem estar social, que a social democracia capitalista ergueu, precariamente, para conviver com a sobreacumulação de capital, na base da especulação, vão às ruas para contestar a continuidade do sistema, que deixou de ser funcional. De agora em diante, está em jogo o controle político do Estado. Este, como produto do antagonismo de classe, que estava a serviço do capital, reproduzido na base da especulação, entrou em colapso, não podendo mais ser referência para a sustentabilidade social. Uma nova etapa de desenvolvimento da humanidade se abre com a crise do departamento III da economia capitalista voltada para sustentação da economia de guerra. O interesse social aponta que a alternativa adequada a ela é o seu oposto, a economia da paz, incompatível com o individualismo, o egoismo e ambição sem limites, a conduzirem a humanidade ao impasse total.

Evidentemente, o sistema, em permanente desequilíbrio, como expressão da sua verdade essencial, caminha, inexoravelmente, para a deflação, pois haverá sempre sobra de mercadoria para a falta de salário capaz de consumi-la.

A menos que haja distribuição da renda. Mas, essa não é a função do capitalismo.

A produção dos dois departamentos – o de bens de consumo e de bens de produção – caminharia, evidentemente, em termos cabais, para uma eterna sobreacumulação de capital geradora de pressões deflacionárias, visto que o ideal, para o sistema, como disse Marx, é a vigência do salário zero ou negativo, na sua expressão matemática do termo.

O desequilíbrio estrutural do capitalismo, apoiado nos departamentos I e II, motivou grandes polêmicas entre os economistas clássicos, com destaque para Malthus, na primeira metade do século 19, quando reconheceu que a economia é uma ciência essencialmente triste, porque produz não a felicidade, mas a desgraça do ser humano.

O desenvolvimento das forças produtivas, no compasso do avanço científico e tecnológico, potencializador da produtividade, entrará, sempre, em choque com o desenvolvimento das relações sociais da produção, que precisam ser contidas, via arrocho salarial, para sustentar a lucratividade do capital, embora esta seja alcançada sob pena de levar o sistema à deflação, isto é, a sua própria destruição.

Por isso, Malthus, gênio, revelou que o sistema capitalista é incompativel com a eficiência que ele próprio gera, pois quanto mais eficiente, mais produtivo, mais potencial, mais deflacionário ele se torna. Qual seria a alternativa?

O inverso da deflação, ou seja, a inflação.

Se os departamentos I, produtor de bens de consumo, e o II, de bens de produção, levam o capitalismo, graças ao excesso de eficiência e produtividade, à tensão deflacionária, que destroi tanto o capital como o trabalho, teria que haver uma força compensatória em forma de ineficiência e dissipação, indispensável a uma busca de relativo equilíbrio precário, claro, visto que o desequilíbrio, levado às ultimas consequências, implodiria o sistema.

Começa, portanto, com Malthus, a nascer aquele que, no século 20, seria o departamento III, o governo, consumidor não de mercadorias, geradas pelas forças produtivas, mas de não-mercadorias, impulsionadas pelas forças destrutivas, na guerra.

Os departamentos I e II, organizados sob o padrão ouro, viviam em busca do equilibrismo orçamentário esquizofrênico, de modo a evitar as deflações, jamais freadas, no compasso do desenvolvimento das forças produtivas em choque com o desenvolvimento das relações sociais da produção, desembocando em sobreacumulação de capital, sinalizadora de radicalizações políticas.

A contradição do processo de desenvolvimento dos dois departamentos levaria ao impasse, ao acirramento do antagonismo de classe, enfim, à emergência do socialismo.

Tal fato conduziria à necessidade de superação do padrão ouro, para que fosse materializada a opção salvacionista expressa na construção do departamento III, cujo perfil desembocaria na estrutura produtiva e ocupacional que dependeria da expansão dos gastos do governo, como aconteceu ao longo do século 20 até agora.

Brecar a deflação, produzida pelo padrão ouro, eis a função do novo padrão monetário que surgiria, depois da crise de 1929.

Emergência do departamento III

Malthus teorizou que a economia é uma ciência triste, porque leva a humanidade a um beco sem saída. O excesso de eficiência, propulsora da produtividade, no ambiente de acumulação excessiva de capital, joga o sistema capitalista na deflação. Seria necessária, segundo ele, a compensação dada pela inflação, ou seja, a expansão da ineficiência, como contrapolo dialético, capaz de dissipar capital como forma de garantir a sobrevivência do próprio capital, por intermédio dos gastos do governo. Tentar ver o governo, na economia, como agente eficiente, a exemplo do que pregam os católicos liberais e neoliberais equilibristas, que pululam na grande mídia capitalista, é não entender, de acordo com o pensamento malthusiano, o próprio capitalismo. A proposta de Malthus, porém, entrou em crise, porque o excesso de endividamento do governo impede a continuidade da solução que virou problema.

Keynes confrontou os neoliberais de Cambridge para defender Malthus, a quem considerou o maior economista do mundo, por entender ter ele percebido, claramente, que a necessidade de dissipação de capital representava salvação do capitalismo, via inflação, disfarçada de dívida pública, financiada pela moeda estatal inconversível, rompendo o padrão ouro, que considerou relíquia bárbara. A solução malthusina-keynesiana, porém, não seria eterna. Duraria, apenas, enquanto a incapacidade de o governo se endividar eternamente se manifestasse por intermédio do estouro das bolhas financeiras, como aconteceu, para valer, na crise de 2008, pondo fim à solução que virou problema.

O desenvolvimento do departamento III, essencialmente, inflacionário, promotor das forças destrutivas, tornara-se fundamental para exercer o papel de freio ao processo deflacionário desencadeado pelo desenvolvimento dos departamentos  I e II, promotor das forças produtivas, cujas consequências  são, no capitalismo, a deflação estrutural.

Como emissor de moeda, o governo capitalista joga  dinheiro na circulação, com uma mão, e lança, com a outra, títulos da dívida pública, para enxugar parte da base monetária alagada, a fim de evitar enchente inflacionária.

Ou seja, o modelo malthusiano, imaginado para conferir ao governo – o departamento III -  ineficiência como antídoto à eficiência expressa nos departamentos I e II – bens de produção e bens de consumo – tem como sustentáculo a inflação que se expressa dialeticamente no crescimento da dívida pública.

A dívida – o governo, o departamento III – cresce  no lugar da inflação, para atuar como mecanismo de reprodução ampliada do capital que fora bloqueado pela deflação como produto do desenvolvimento contraditório dos departamentos I  e II.

Assim, para garantir a reprodução do capital, torna-se necessária a promoção das forças destrutivas – gastos inflacionários do governo em produção bélica e espacial –, de modo a garantir, precariamente, a sobrevivência das forças produtivas, impedindo estas de se desenvolverem exponencialmente.

O governo gasta inflacionáriamente, destrutivamente, para conter a expansão das forças produtivas, aumentando o consumo, sem aumentar a oferta.

Como? É isso aí.

Passa a vigorar, com o fim do padrão ouro e início do novo padrão, ancorado nas emissões monetárias governamentais, o inusitado: o desenvolvimento do departamento III, que depende da capacidade de endividamento dos governos, freia o desenvolvimento das forças produtivas, evitando que elas caminhem para a deflação, gerando, consequentemente, crises políticas que levariam à superação do capitalismo pelo socialismo.

A inflação, desse modo, transforma-se, como teoriza Lauro Campos, em uma técnica, um instrumento de controle social, ao evitar a emergência socialista.

Teórico das não-mercadorias 

DESCONHECIDO PELA GRANDE MÍDIA ALIENADA. Em "A crise da ideologia keynesiana", Campus, 1980, e em "A economia política do não - crise completa do capitalismo", Boitempo, 2002, Lauro Campos, bem antes do estouro global em 2008, teoriza o desenvolvimento das forças destrutivas produtoras das não-mercadorias, que passam a dinamizar o capitalismo, depois da crise de 1929, seguindo os passos de Marx, atento, sobretudo, às contradições em marcha do sistema, sempre caminhando para o impasse decorrente do avanço das forças produtivas em choque com as relações sociais da produção, desembocando em processos deflacionários, sob o reinado dos departamento I e II, complementados pelo processo inflacionário, gerado no departamento III, que, de solução, se transforma em problema, quando o modelo malthusiano-keynesiano deixa de promover a reprodução ampliada do capital sobreacumulado, produzindo, consequentemente, o infarto fulminante do sistema.

Quando o governo lança moeda em circulação, para promover as forças destrutivas – guerras, produção bélica e espacial, movimentos especulativos, expansão da máquina pública, enfim, dinamização da ineficiência via dissipação necessária de capital para garantir a reprodução do próprio capital – ele garante a sobrevivência das forças produtivas, porque:  1 – eleva os preços, 2 – reduz os salários, 3 – perdoa a dívida dos empresários contraída a prazo e 4 – reduz a taxa de juro.

Desperta, consequentemente, o espírito animal, que passa a ver na sua frente a eficiência marginal do capital, ou seja, o lucro, como disse Keynes.

Sob padrão ouro, os salários eram arrochados, diretamente; sob o novo padrão, eles são contidos, indiretamente.

Ou seja, escolha de Sofia: a inflação, sim, aleija os salários, indiretamente, ao elevar os preços consumidos pelos assalariados; mas, a deflação destrói, não , apenas, os salários, diretamente, mas, também, o capital.

A sobrevivência do departamento III é o dinâmo da reprodução capitalista vigente ao longo do século 20, utilizado para superar a crise deflacionária de 1929.

Porém, a crise de 2008 detona esse mecanismo, porque o esgotamento da capacidade de endividamento governamental impossibilita a continuidade da reprodução ampliada do capital sobreacumulado na especulação que se transforma em perigo simultâneo de explosão tanto da inflação como da deflação.

A bancarrota financeira capitalista em curso impõe a necessidade de superar a estrutura produtiva e ocupacional erguida com a moeda estatal inflacionária visto que a capacidade de sustentá-la pelo governo está esgotada.

Historicamente, portanto, constata-se que o capitalismo, ao longo do século 20, desenvolveu ao máximo as forças destrutivas, pelo departamento III(inflação), depois de desenvolver ao máximo as forças produtivas, no século 19, pelos departamentos I e II(deflação), encontrando-se, agora, no início do século 21, em impasse total, sob ameaça da combinação mortífera de deflação e inflação exponenciais.

A economia de guerra – forças destrutivas – , que se expressa na estrutura produtiva e ocupacional característica do estado industrial militar, impulsionadora da reprodução ampliada de capital, de um lado, e de contenção da forças produtivas, de outro, deixa de ser útil à sobrevivência do sistema.

Assim, a superação da crise, expressa no colapso da economia de guerra, estaria no desenvolvimnto do seu oposto, ou seja, na economia da paz, ou melhor, na superação da estrutura produtiva e ocupacional ora em colapso.

A esquerda está organizada para enfrentar esse desafio?

Racismo sexual global

Categoria: (Cultura, Economia) por Cesar Fonseca em 18-01-2012

Daniel Echaniz, negro, 31 anos, e Monique Amin, morena clara, cor de jambo, 23 anos, ambos cheios de saúde, beleza e dominados pelo desejo de aparecer, utilizando, para tal, todas as armas disponíveis para o enredo sob o qual estão inseridos, ou seja, o da banalização geral da sexualidade, e, principalmente, sentindo-se em casa, no Programa BBB12, ou melhor, no motel montado pela Globo, dispondo de toda comodidade, luxo, motivações e estímulos psicológicos diretos e indiretos, liberaram seus instintos sexuais, especialmente, depois de tomarem umas e outras, no embalo daquelas músicas eletrônicas horríveis, bem adequadas ao clima de putaria. Ora, o que queria a direção da tevê Globo: que os rapazes e moças, incensados a uma disputa de egos sem limites, motivados pelo dinheiro, sempre o dinheiro, ficassem, como na música de Raul Seixas, parados, bocas abertas, escancaradas, cheias de dentes, esperando a morte chegar? Claro, foram namorar, como dizem os casais aos filhos, ensinando-os como papai e mamãe estão fazendo sexo, para satisfação natural, sustentação do casal e saúde geral da relação matrimonial. A Rede Globo, aparentemente, não gostou do ato total de liberdade dos jovens adultos, cheios de energia e tesão, transando em frente às câmeras , como se não tivessem patrocinando escândalo de repercussão internacional. Levantou-se a tese do estupro. O negro, lobo mau, comeu chapeuzinho vermelho, a ovelhinha branca, inocente, que não obedeceu os conselhos da vovó. Daniel teria molestado sua companheira, forçado a barra e rompido as convenções. Mas, e as imagens, que dizem? Não há luta, não se vê ataques encarniçados, não se evidencia agressividade, motivada pelo desejo do homem de possuir, à força, a mulher, ou vice-versa. Pelo contrário, o que ocorre é o movimento normal dos corpos em acelerada excitação, antes de partirem para suposta deliciosa penetração e, depois, a gostosa lassidão. Normal, minha gente. Levaram os amantes para a delegacia. Ambos negaram ter tido relações sexuais. Praticaram, disseram, apenas, o namoro mais quente, debaixo do edredon, embora, para bom entendedor, as cenas excitantes – exatamente, o que o programa global cuida de criar e estimular – digam tudo, sem precisar de explicações. Diz a direção da emissora que foram recolhidas provas nos lençóis, para averiguações. Quem está mentindo? Depois de fichados pelo delegado, a bem da moral e dos bons costumes, em ambiente que a Globo produz para serem exercitadas a imoralidade e os maus costumes, Daniel, o negro, foi expulso do programa, sem antes a emissora explicar que as imagens completas do affaire sexual não foram apresentadas, exceto para os que compraram o direito de vê-las. Trata-se de um moralismo barato o episódio global, principalmente, porque a relativa insistência na tese do estupro procurou focar o rapaz negro como culpado do que foi, de acordo com o moralismo falso global, uma imoralidade. Na prática, prá valer, o que fica no ar é que se está praticando criminoso racismo sexual, na tentativa de se apontar um culpado diante de uma jovem indefesa, inocente, que teria caído na armadilha de um tarado, não devidamente percebido pelo trabalho de triagem moralista da emissora, em fuga de suas responsabilidades. Tenta o poder global justificar que está a serviço de uma pretensa formulação cultural, quando, na verdade, apresenta ao público puro lixo anti-cultural. É prá isso que o Estado brasileiro libera, de acordo com a legislação, a concessão, para exploração dos programas apelativos, destituídos de qualquer proposta, minimamente, contributiva para o fortalecimento moral, ético e educacional da sociedade brasileira? Quem tinha de ser fichada na delegacia era a Globo!

Direto da Praia do Prado-BA

Cinismo, mesquinharia e racismo, racismo sexual global. O jogo da Globo é manjadíssimo.

Eles passam meses pesquisando os comportamentos mais hedonistas em processo de expansão na sociedade dominada pelo consumismo exacerbado.

Todos estão carecas de saber que a banalização do sexo se torna cada dia mais algo comercial.

Tem que ser faturado ao máximo, porque o poder global precisa sintonizar-se com a onda, ou melhor, ele cria a demanda para o seu produto, a fim de faturar, mas o cálculo pode, às vezes, sair pela culatra.

Quando isso acontece, emerge um monte de explicações estapafúrdias, vagabundas, exorbitantes, incapazes, é claro, de convencer, sequer, uma criança, já que os meninos e meninas estão tão ou mais sabidos que os adultos, mais desprendidos, extrovertidos, autênticos, verdadeiros, liberados dos falsos moralismos pelos quais foram criados pelos pais.

Mas, vamos ao que interessa.

Vem William Bonner, no Jornal Nacional, nessa terça feira, com aquela fleuma de falso moralista, para anunciar que teria havido um estupro no BBB12, promovido com todos os apelos possíveis, sob chancela de patrocínios bilionários.

O participante negro, jovem, bonito, doido para aparecer, como todos os demais que integram aquele circo de mau-gosto, seduzira aquela maravilhosa jovem, morena clara, filha, talvez, da classe média alta, tributária dos mais altos valores da sociedade cínica, fingida, política e culturalmente manipulada.

Gata deveras sensual e provocante, na dela, cumprindo seu papel, sem disfarces, igualmente, disposta, conscientemente, a aparecer, mediante exposição de sua maior vantagem, beleza e sensualidade sem freios.

Depois de uma bebedeira federal, à qual teria faltado, para completar, um pozinho e um baseado, para dar aquele toque de foguetório legal, para soltar todas as amarras, os dois foram para debaixo do macio e cheiroso cobertor de algodão aveludado, supõem os e as telespectadoras, induzidos à total excitação.

Rolou ou não  sexo gostoso?

Agitador do lixo anti-cultural

Tudo pela audiência. Quanto mais pimenta melhor. Mas, ao estimular o clima, os organizadores podem perder o controle dos enredos que buscam armar, porque, afinal, ninguém é de ferro. Bial, um craque da reportagem, passou a ter o seu talento utilizado pela Globo para promover baixarias, a fim de levantar a audiência global, que vai, a cada dia, perdendo poder relativo, visto que a sociedade percebe estar o poder global a serviço dos interesses mais alienantes possíveis, em vez de engajar-se em programação que tivesse por fim uma outra sinalização para o divertimento da juventude que não fosse a promoção do hedonismo narcisista e do consumismo em niveis ilimitados, como necessidade de satisfação essencial dos interesses da emissora, ou seja, potencializar o seu lucro, levantando os instintos sexuais da população, para conquistar telespectadores capazes de serem, claro, alvos dos patrocinadores bilionários, em busca, igualmente, da lucratividade sem fim de suas mercadorias, no contexto de uma economia dominada pelo oligopólio, produtor da crescente corrupção em escala incontrolável. Bial, o agitador do lixo anti-cultural global está como o pinto na imundice total.

Lobo Mau e Chapeuzinho Vermelho, Blake and White, White and Blake, para lá e para cá, mexendo e remexendo, na barraquinha do edredon,  sob olhares das câmeras para delícia dos e das assinantes excitados.

William Bonner destaca em manchete, com ares de escândalo, que o belo negro teria molestado a bela clara cor de jambo.

Coitadinha, inocente, estava sendo assediada brabo, sem condições de dizer não ao monstro estuprador, tarado sexual, dominado pela volúpia do desejo, embalado pelas bebidinhas que o programa BBB12  deixa rolar para pintar aquele clima gostoso ao qual se rende aquela rapaziada, doida para aparecer e, evidentemente, para ganhar o prêmio de 1,5 milhão de reais.

Sexo e dinheiro!

Não é uma combinação mais do que integracionista, irresistível, inconscientemente desejada e conscientemente estimulada pela psicologia do BBB12, apresentado por Bial, que não consegue esconder as motivações estruturais e psicológicas do programa?

Não se trata de algo que motiva a turma, dominada pela alienação, a topar, quem sabe, toda e qualquer parada inescrupulosa, digna do mau-caratismo estimulado pela programação global?

Parêntesis: é essa a liberdade que a Globo cuida de estimular em nome da “criatividade”, quando, na verdade, significa pura apelação digna de ser colocada em discussão pela sociedade quanto ao seu conteúdo adequado à educação ética social?

Se se parte para este debate, os cínicos e inescrupulosos gritam que querem cercear a liberdade de imprensa, buscando o exercício da censura etc.

Mas, vamos em frente: aí, diz Bonner, ao lado da bela e competente Patrícia Poeta, que a Globo analisou todas as imagens, não mostradas no horário aberto e livre, e concluiu pela sua indesejada apresentação, retirando Daniel do ar, depois de ambos prestarem depoimentos à polícia.

Dois pesos, duas medidas. O negro dançou.

Cara da alienação global

Aí estão os novos ídolos do hedonismo nacional narcísico, construídos pela máquina de publicidade global, para serem alvos preferenciais de um público ávido por aventuras excitantes, capazes de revolver os inconscientes coletivos, de modo a gerar motivações permanentes nos patrocinadores bilionários, na tarefa de utilizar a tela da Globo para vender suas manufaturas. O noticiário global tentou esconder o escândalo que a própria programa da emissora insensa sem parar. A postura diante do resultado da obra que se ergue não passa de moralismo barato. A concessão para exploração de tevê no Brasil tem que ser repensada à luz da falta de escrúpulo de uma programação que tem no espírito educativo sua última prioridade, e olhe lá.

Foi uma indecorisidade, sugere o apresentador, como se a Globo fosse inocente, tivesse sido traída pelo comportamento que ela mesma estimula, de forma consciente, para atender o inconsciente insaciável de um público dominado pela mediocridade.

Evidentemente, quem devia ser convocado não deveria ser outra que não a própria Globo,  patrocinadora e estimuladora do comportamento que levou os dois jovens ao livre jogo do sexo ao vivo, certamente, para atender uma audiência ávida, claro, por sexo e escândalos.

Se fosse a sociedade mais exigente com a qualidade daquilo que a tevê oferta ao povo já teria acionado na justiça a emissora em nome da moralidade pública etc.

Ressalte-se que o BBB12 foi lançado, agora, em janeiro, quando as famílias estão em férias, nas praias, curtindo o verão e, claro, o BBB12, com toda a avidez possível,  para curtirem a  diversão e o entretenimento global.

O cinismo deveria ser rasgado.

O oculto não se revela, é claro, mas, o que está por trás da reação moralista global é o sentimento racial.

Um negro transando com uma branca na tela da Globo, como culminância de um processo de promoção geral de entretenimento inescrupuloso, merece ou não um grande debate nacional?

Trata-se ou não de tremendo falso moralismo a decisão da direção da Globo de excluir do programa o negro, em nome da preservação dos bons costumes que a própria emissora cuida de banir, sem contudo, ter condições de esconder suas falsas motivações?

Cuida a Globo, com o noticiário do escândalo, que ela própria induziu, preservar as aparências, demitindo quem ela contratou, por ter se excedido em suas sensualidades, com as quais ela conta para manter em alta a audiêncica.

Eis o cinismo global.

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DESTAQUE PARA UMA OPINIÃO DO SITE UOL

Robervaldisse:

17 de janeiro de 2012 às 15:21

Coloquem homens e mulheres juntos em uma casa,onde tem bebida piscina,e tudo do bom e do melhor o resultado é suruba da grossa,e se juntar o povo que adora ver uma safadeza e um apresentador babaca o resultado é a vergonha que as famílias decentes estão sentindo.

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BIG BROTHER BRASIL UM PROGRAMA IMBECIL.

Cabra bom do sertão baiano, Antônio Barreto desancou, pra valer, a mediocridade global exposta pelo apresentador do lixo anti-cultural Pedro Bial.

Autor: Antonio Barreto

 

 

Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo/Um programa tão ‘fuleiro’/Produzido pela Globo/Visando Ibope e dinheiro/Que além de alienar/Vai por certo atrofiar/A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Da muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social

Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer”
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados

Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal.
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal.

FIM


 

Inflação eleva emprego e populariza Dilma

Categoria: (Cultura, Economia, Política) por Cesar Fonseca em 04-01-2012

A taxa de desemprego no Brasil é uma das mais baixas da história. Está em torno de 5,5%. Tende a cair ainda mais porque ao afirmar que o governo vai elevar mais os seus gastos para puxar investimentos em infraestrutura, a presidenta Dilma sinaliza ao mercado de trabalho e à produção geral de insumos que a demanda relativa global na economia aumentará, levando os empresários a uma frenética atividade decorrente da ação governamental. A inflação puxada pelos gastos do governo desperta o espírito animal do empreendedor, levando-o a refazer suas contas. A meta inflacionária - variável de 4,5% a 6,5% - vai se tornando algo bastante flexível com o qual se convive sem traumas, como se fosse adequada às necessidades de crescimento do país, onde tudo ainda está por fazer, ao contrário do que se verifica nas economias ricas, onde, praticamente, tudo já está feito, razão pela qual são menores as tensões inflacionárias. Os analistas conservadores, temerosos quanto o desenrolar da crise global, prevêem que o PIB esse ano não alcança 3%, mas o Palácio do Planalto trabalha com expectativa de crescimento na casa dos 5%. Chegará lá? Não chegará? O fato é que , na prática, a tensão sobre os preços das matérias primas e dos salários eleva o nível de ocupação geral, o que favorece a popularidade presidencial em ano de eleição. O Brasil, nesse sentido, caminha na linha oposta ao que está acontecendo nos países capitalistas ricos onde o que se verifica é a tensão deflacionária, ou seja, a morte do capital e do trabalho. Os investidores internacionais, sem opção, podem estar muito bem tendo a economia brasileira no seu horizonte como opção fundamental, porque a decisão política governametal é a de apostar todas as fichas no mercado interno e na manutenção de política social capaz de melhorar distribuição da renda, dinamizando o consumo, a arrecadação e o investimento.

A inflação, como se sabe, lesa os salários, mas, em contrapartida, aumenta o volume de ocupação. O preço da unidade de trabalho cai, mas como no conjunto ocorre maior oferta de emprego, verifica-se, no plano geral, não, apenas, o maior volume de ocupação, mas, igualmente, o aumento da renda nacional. O contrário da inflação é a deflação que destroi não apenas os salários, mas, também, o capital.Portanto, trata-se de escolha de Sofia.

Enquanto a taxa de emprego sobe por conta da inflação que aleija os salários, mas garante o capital, tem-se que o processo inflacionário, do ponto de vista do capital, representa, como disse Lauro Campos, instrumento de controle social. Afinal, o oposto, o processo deflacionário, ao desestruturar o capitalismo, destruindo a moeda,  prepara o terreno para o socialismo.

Com o aumento da oferta de emprego sob salário aleijado pela inflação, o trabalhador é, psicologica e ideologicamente, ludibriado pelo fenômeno da homogeneização das classes sociais, que, no plano geral, subentende que o aumento da renda nacional representa, também, aumento e não redução do salário, enquanto, no plano individual, do trabalhador, seu poder de compra cai sob o efeito da exploração da mais valia.  Há, sim, o arrocho de salários, quando os preços para o consumo dos bens salários sobem, mas, como, no conjunto, o volume de ocupação aumenta, o trabalhador, prisioneiro das rendas fixas, opta, sem outra alternativa, pela oferta salarial disponível, pois a alternativa é o desemprego, a fome.

Vai, assim, como diria Keynes, aumentando o desemprego involuntário. Quer dizer, o trabalhador assalariado só fica desempregado se quiser por não se dispor a trabalhar pelo salário vigente. Por isso, desemprego involuntário, na visão ideológica de Keynes, um gênio, significa, pleno emprego. O valor da unidade de salário cai, relativamente, aos preços que sobem, elevando a margem de lucratividade dos capitalistas.

O que permite esse arrocho salarial sutil, indireto, via inflação, diferente daquele que era proposto, no século 19, pelos economistas clássicos, materializado na diminuição direta do valor nominal do ganho salarial? O aumento inflacionário dos gastos do governo, na medida em que é ele que manipula a única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, conforme Keynes, ou seja, a quantidade da oferta de moeda na circulação capitalista.

Quando ele faz isso, provoca, simultaneamente, 1 – o aumento dos preços, 2 – a diminuição dos salários, 3 – o perdão das dívidas dos empresários contratada a prazo e 4 – a redução da taxa de juros. Nesse ambiente, desperta-se, como destaca o economista inglês, o espírito animal dos empresários que leva eles aos investimentos, já que enxergam, nitidamente, diante de si o que denominou de eficiência marginal do capital, vale dizer, o lucro.

A inflação diminui indiretamente os salários e eleva diretamente a taxa de emprego. Há emprego, mas pelo salário dado pela inflação provocada pelo governo, quando lança moeda na circulação, com uma mão, a fim de aquecer a demanda global, e títulos da divida pública, com a outra, para enxugar parte da alagada base monetária, a fim de evitar a enchente inflacionária, de modo que a dívida cresce, dialeticamente, no lugar da própria inflação, conforme o modelo keynesiano colocado em ação pela presidenta Dilma Rousseff, a fim de puxar os investimentos do PAC.

Estado gera euforia empresarial

O governo aposta que em 2012 a inflação estará sob controle, com o aumento da produção gerando oferta compatível com a demanda, ao mesmo tempo em que a desaceleração da economia mundial estará proporcionando menor pressão altista sobre os preços das matérias primas. Nesse ambiente, o câmbio ficaria relativamente apreciado para importar barato, como contrapeso às altas internas, que ocorreru diante do aumento do poder de compra do salário mínimo. E para diminuir os juros, a arma do governo são suas reservas financeiras, bem como o grande volume de depósitos compulsórios que certamente serão utilizados para diminuir o custo de financiamento das prestações via juro mais baixo ao crédito direto ao consumidor. Trata-se de ano difícil, que exigirá monitoramento de sintonia fina.

Em 2012, portanto, como a promessa da titular do Planalto é sustentar os investimentos, mediante ampliação dos gastos do governo, para dinamizar a infraestrutura, a fim de dar conta das obras indispensáveis à realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, além das que são reclamadas pelo dinamismo econômico, dado pela opção pelo incremento do mercado interno, alternativo à retração da economia dos países ricos, a resposta dos empresários é, igualmente, a de investir para atender a demanda governamental.

Por isso, precisam ir ao mercado de trabalho contratar trabalhadores e insumos básicos à produção. A competição decorrente dessa demanda aumenta os custos de produção das empresas que repassam tudo aos preços das mercadorias, em escala superior aos preços que desembolsam em forma de pagamento dos salários.

O valor total da receita com as mercadorias produzidas, claro, é maior do que o valor total pago em salários. Como o valor total recebido pelo trabalhador em forma de salário é inferior ao valor total das mercadorias vendidas, ocorre um gap histórico,como demonstrou Marx, traduzido em crônica insuficiência relativa de demanda global.

Tal defasagem entre o valor vendido das mercadorias pelos empresários e o valor pago aos trabalhadores sinaliza, do ponto de vista macro, a deflação, ou seja, a morte do capitalista, só combatida, de acordo com a visão do capital, por mais investimentos do governo, já que se torna essencial manter diferença entre preço – a mais -  e salário – a menos -, capaz de assegurar ao investidor o lucro necessário para evitar que ele faça opção pela liquidez, ou seja, decida aplicar seu dinheiro no juro em vez de fazê-lo na produção.

A preferência fundamental pela liquidez é combatida, diretamente, pelo aumento dos gastos do governo, pois, caso contrário, os investimentos privados não se realizam. Nesse contexto, o desafio do governo, em 2012, é diminuir a taxa de juro, para que ele possa continuar gastando, sem forçar, relativamente, de forma mais intensa, o endividamento governamental, cujo montante, se o custo do dinheiro não cair, se elevará, perigosamente, provocando mais deficit e , claro, mais inflação, agora, em uma escala que pode se tornar disfuncional, macroeconomicamente, falando.

Juro ameaça nova classe média

A nova classe média brasileira que vai às compras em escala crescente no crédito direto ao consumidor teve acesso a bens de consumo que elevaram seu padrão de qualidade de vida cuja essência é a de torná-la mais exigente em relação tanto às demandas econômicas, como, igualmente, às políticas, como se verificam os movimentos que se espalham em favor do combate à corrupção. O grande perigo que o governo enfrenta relativamente às novas classes sociais em ascensão, nas quais ele aposta para manter a demanda global aquecida, é a taxa de juro elevada, verdadeiramente, característica da maior agiotagem em vigor no planeta, responsável pela nova escravidão, moderna, do capital financeiro. Se o custo das compras a credito não for reduzido mediante diminuição do juro no crediário, a inadimplência tende a crescer e a bloquear a satisfação social com a emergência do seu novo padrão de vida, cuja sustentação se rompa em favor do maior enriquecimento dos agiotas. A presidenta Dilma sofreria, certamente, as consequências políticas, inviabilizando sua disposição de disputar a reeleição em 2014, se as expectativas das novas classes sociais mudarem de positivas para negativas diante da conjuntura econômica em acelerada mutação quantitativa e qualitativa em interação dialética.

A funcionalidade do sistema depende, portanto, do manejamento da dívida por parte do governo, para que ela não seja vista pelo seu lado oculto, para além da mera aparência: hiperinflação exponencial, se o mercado financeiro, desconfiado, resistir em resgatar os papéis goveramentais, como já acontece, largamente, na Europa, tendendo a ampliar tal atitude, também, nos Estados Unidos, principalmente, se ocorrer impasse entre os dois principais partidos, o republicano e o democrata, ao longo da campanha eleitoral americana, nesse ano.

Se o juro  não começar a cair prá valer,  evidentemente, o espírito animal investidor se arrefece, porque o governo não poderá, de forma vigorosa, continuar puxando os investimentos, mediante aumento da oferta de moeda na circulação, para continuar 1 – reduzindo, relativamente, os salários, de forma indireta; 2 – elevando, diretamente, os preços; 3 – perdoando as dívidas dos empresários contraídas a prazo e 4 – diminuindo relativamente o juro, como ocorre na oferta de empréstimos subsidiados à produção por meio dos bancos oficiais, Banco do Brasil, à agricultura, e BNDES, à indústria de transformação.

Sem os investimentos públicos, os empresários, igualmente, param seus investimentos, suspendem as contratações de trabalhadores, consequentemente, caem os salários, aumentam os excedentes, que – em meio ao juro alto que bloqueia a competitividade das empresas nacionais por meio da valorização cambial -, provocam a deflação, geradora da inevitável insuficiêcia relativa de demanda por conta da queda do consumo e, claro, da arrecadação, bloqueadora, por sua vez, dos investimentos no PAC. Aí, Dilma dançaria feio.