04 fev
2012Nacionalismo socialista nascido no quartel
Categoria: (Cultura) por Beto Almeida em 04-02-2012

- O golpe militar que o então tenente coronel Hugo Chavez chefiou em 1992 contra o governo do presidente Carlos Andrez Peres, em nome do nacionalismo político e econômico, em oposição às forças neoliberais, então dominantes, é um marco latino-americano diferenciado das quarteladas históricas patrocinadas, ao longo do século 20, pelos Estados Unidos, para derrubar tentativas de ensaios democráticos abalados pelas elites que sempre se uniram aos militares golpistas apoiados pelas doutrinas de segurança nacional ditadas pelas academias militares americanas. O feitiço virou contra o feiticeiro. Chavez, educado nessas academais, serviu-se delas para derrubar as elites financiadas por Tio Sam, mudando o script histórico tradicional, buscando o oposto, o apoio das forças populares. Num primeiro instante, sua tentativa foi frustrada; num segundo, foi consagrado nas urnas, e delas tem saído a confirmação da sua linha política nacionalista contra a qual se movem as forças conservadoras apoiadas pela Casa Branca, sem, ainda, conseguirem seu intenso. Tentaram uma vez sequestrar o presidente eleito pelo voto, para matá-lo, porém, as forças populares se mobilizaram e derrotaram tão tentação politicamente bárbara dos conservadores. Desde então, a orientação política, ancorada no apoio aos movimentos sociais, inverteu a lógica política venezuelana, cuja maior façanha foi a de tomar o petróleo antes dominado pelos capitais americanos, colocando-o a serviço de uma proposta socialista. O golpe de 1992 representou emergência de movimento político quantitativo e qualitativamente dialético que vai consolidando as bases do poder sob orientação popular em escala ascendente, especialmente, depois da Assembleia Constituinte de 1999, cujos desdrobramentos, em marcha, são progressivas passagens da democracia meramente representativa para a democracia direta, hoje, saudada, inclusive, por velhas lideranças sul-americanas, antes aliadas de forças conservadoras, agora, comprometidas com pregações de democracia mais avançada, direta, participativa, como defendeu o senador José Sarney, presidente do Congresso, no discurso de abertura dos trabalhos parlamentares de 2012. Eis a dialética histórica, que vai rompendo, abruptamente, com o mecanicismo econômico ditatorial neoliberal reacionário, implodido na bancarrota capitalista global.
Há 20 anos, a 4 de Fevereiro de 1992, uma corrente militar-revolucionária venezuelana, liderada pelo então tenente-coronel Hugo Chávez, organizou um levante destinado a substituir o governo impopular e neoliberal de Carlos Andrés Perez e convocar uma Assembléia Nacional Constituinte para que o povo, por meio de ampla participação popular, determinasse novos rumos para a Venezuela.
A convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte era o ponto fundamental do Projeto Nacional Simon Bolívar, programa de luta deste movimento militar, que contava com apoio civil. Com o fracasso do levante militar - apesar do apoio de 80 por cento que a insurreição registrava em todas as pesquisas de opinião - o movimento tomou outras formas, outros caminhos, outras táticas. Mas, não perdeu o rumo histórico. Com o fracasso militar da iniciativa, mas não político, Chávez e seus companheiros seriam levados a anos de prisão, mas, ali, além de devorar vários livros fundamentais para qualquer dirigente político que pretenda legitimamente mudar a história, transformar-se-ia no mais popular cidadão venezuelano. Se a via militar não fora bem sucedida, em 2 de Fevereiro de 1999, apenas 7 anos depois, após ter sido eleito por esmagadora maioria dos eleitores venezuelanos, o já presidente Hugo Chávez convoca a Assembléia Nacional Constituinte, que, entre outros dispositivos, decreta, com aprovação de um referendum democrático, a República Bolivariana da Venezuela.
A insurreição de 4 de Fevereiro de 1992 estava, portanto, legitimada, 7 anos depois, pelo voto direto dos venezuelanos e seguia o rumo traçado no Projeto Nacional Simon Bolíviar, escrevendo uma das mais avançadas constituições da América Latina. Ademais, submetida a referendo, o que jamais informado honestamente povos da América Latina pela mídia comercial.
Ditador nacionalista

Os caminhos da história não são lineares. A ditadura política de Getúlio Vargas, que chegou ao poder por meio de golpe militar, detonando, com os tenentistas prestistas, a Velha República oligárquica, lançou as bases da nacionalidade que levantariam a consciência social e a determinação popular em favor da luta pelos direitos econômicos nacionais. A vitória polítca de Vargas em 1950 é mais ou menos semelhante à que Chavez obteve na Venezuela sete anos depois de tentar um golpe que se frustrou. O de Getúlio foi vitorioso, permitindo-lhe construir os alicerces de um novo país, que levou o povo a elegê-lo em consideração pelo que fez. O mesmo aconteceu na Venezuela, onde a população saiu às ruas quando os golpistas da direita apoiados pelos Estados Unidos tentaram desalojar Chavez. A Assembleia Constituinte que desencadeou lançou as bases de uma ampla democracia popular que vai configurando a força da democracia direta diante da democracia representativa. Se não fosse o golpe militar frustrado de Chavez em 1992, cheio de significação revolucionária, chancelado em seguida por eleição direta, a democracia participativa, hoje, não estaria abrindo tão amplas picadas democráticas populares.
Vale recuperar esta linha da história porque o imperialismo e a oligarquia venezuelana desataram uma enorme campanha de desinformação sobre a realidade política transformadora em curso na Venezuela desde então, insinuando que tudo não passara de tentativa de golpe de estado ditatorial. Muito diferente disto, o movimento de 4 de Fevereiro era a reação da consciência da pátria bolivariana em gestação, manifesta na legítima fúria popular do Caracazzo, em 1989, em reação ao governo de Carlos Andrés Peres que implantou pacote de medidas neoliberais, multiplicando abruptamente o preço dos alimentos, da gasolina, e promovendo sanguinária repressão ao povo que , conforme estimativas de Hugo Chávez em entrevista a este repórter, teria causado a morte de mais de 3 mil pessoas, cujos corpos foram enterrados não se sabe onde. O 4 de Fevereiro era a nova reação da indignação popular contra o neoliberalismo corrupto, que entregava a preços negativos o petróleo venezuelano às petroleiras dos EUA e submetia a população a índices alarmantes de miséria, exploração, analfabetismo, doenças de toda sorte, desemprego, incultura e violência social generalizada.
O povo Venezuela compreendeu em profundidade o alcance contido na insurreição, apesar de ter fracassado do ponto de vista militar, mas que triunfara do ponto de vista político. Da via armada, passa para a via eleitoral com o apoio construído a partir da percepção inteligente das grandes massas empobrecidas do país. O 4 de fevereiro tinha alcance histórico, não era uma quartelada apenas. Para render-se e preservar a vida dos insurretos Hugo Chávez exigiu como condição poder dirigir-se ao povo por rádio e televisão. Foram 47 segundos que mudaram a história da Venezuela. No rosto negro-indígena de Hugo Chávez, o povo mestiço da Venezuela compreendeu imediatamente que era um dos seus, falando sua língua, sentindo a sua mesma indignação contra o regime opressivo, embora revestido de formalidade democrática. As enormes filas que visitavam Hugo Chávez e seus companheiros na prisão eram o indicativo que uma nova era começara na pátria de Miranda e Bolívar.
Apoio incompreendido ao algoz

Por apoiar Getúlio, a esquerda nunca perdoou Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança, militar lider do movimento tenentista que despertou as forças nacionalistas que levaram à revolução de 1930. Depois de preso por Getúlio Vargas, tendo tido sua própria mulher enviada pelo ditador às masmoras hitleristas, onde foi assassinada, Prestes, sintonizado com o movimento da história, condenou o golpe contra Getúlio e apoiou sua volta ao poder em 1950, consciente de que sob o getulismo avançavam as forças progressistas. Os esquerdistas românticos romperam com Prestes e cairam nos braços do neoliberalismo udenista lacerdistas crentes de que estavam contribuindo com o avançar da história, quando, na verdade, estavam a serviço do retardamento que contribuiu para levar Getúlio à morte e, em seguida, depois do interregno democrático jusclelinista, ao golpe militar. Os nacionalismos nascidos nos quarteis sempre mereceram o repúdio da falsa consciência história da esquerda alienada latino-americana em sua eterna fuga em encarar o dragão da maldade contra o santo guerreiro glauberiano.
Uma parte importante da esquerda não teve a mesma compreensão inteligente manifestada pelas massas empobrecidas da Venezuela em torno daquele movimento e daquele momento histórico. Certa vez, convidado a falar sobre a experiência da Telesur na Universidade de Madri, ouvi de um dirigente de partido de esquerda espanhol que somente após o golpe midiático de abril de 2002 contra Chávez a sua agremiação tinha concluído, finalmente, que o dirigente venezuelano era realmente um homem progressista e que havia um processo de mudanças no país latino-americano. Não resisti e registrei que aquilo que muitos partidos de esquerda demoraram 10 anos para entender - que o movimento de Hugo Chávez é um processo revolucionário - as massas venezuelanas compreenderam em apenas 47 segundos naquele discurso em que o dirigente consciente pronuncia a celebra expressão “Por ahora”, e organiza a rendição que na prática era um recuo tático para a retomada da luta com outros métodos, mas com o mesmo objetivo.
Afinal, não surpreende que dirigentes comunistas tenham dificuldade na identificação e compreensão de processos revolucionários que surgem fora do leito tradicional dos partidos de esquerda. Sobretudo quando são iniciativas transformadoras dirigidas por correntes militares progressistas. Afinal, os comunistas também não entenderam a Revolução de 30, quando inspirada e impulsionada pelo tenentismo Vargas arma o povo e vem com ele armado até o Rio de Janeiro ponto fim ao regime oligárquico de Washington Luiz e inicia uma era de transformações. A relação de forças dos anos 30, a existência do nazi-fascismo, a insuficiência organizativa dos sindicatos dos trabalhadores cobraram prazos e táticas completamente sui-generis para a construção de uma nova maioria. Mas, as transformações sociais iniciadas então foram notáveis.
Arte, política e revolução

Glauber Rocha, o maior cineasta brasileiro, teve sua trajetória política confusamente entendida pela esquerda como equivocada, quando, na verdade, ele seguiu a lógica da caminhada politica nacionalista latino-americana, nascida nos quarteis, para dar credibilidade a ela, embora tenha, nas mãos dela, sofrido penalizações. Geisel o mandou punitivamente para o exterior, depois do lançamento de "Terra em transe", uma alegoria espetacular do golpismo político continental sempre financiado pelas forças de Tio Sam, mas, no exílio, foi o primeiro a identificar manifestação positiva e politicamente renovadora na ação militar nacionalista geiselista, por ocasião do rompimento do acordo militar Brasil-Estados Unidos, de modo a abrir as pesquisas nucleares em favor do desenvolvimento nacional, como faz, hoje, Ahamadinejad, no Irã, sob pressão de Washington. Viu ali as sementes da redemocratização, apostou nelas, foi demonizado pela esquerda, mas, ao final, demonstrou estar com razão em sua visão premonitória da histórica que anda de forma tortuosa, como a dizer que Deus escreve certo por linha tortas. No fim, espiritulizadamente, Glauber, antes de morrer, declarou: "A morte não existe. A vida é eterna"
A industrialização, o direito de voto à mulher, a fundação da educação pública brasileira, a nacionalização do sub-solo e a criação do Conselho Nacional do Petróleo como bases para o surgimento da Petrobrás, a criação da Cia Vale do Rio Doce, da Cia Siderúrgica de Volta Redonda, os direitos trabalhistas, o salário mínimo, a Rádio Nacional, o Instituto Nacional do Cinema Educativo, foram algumas das conquistas daquela Era Vargas, que Fernando Henrique Cardoso, mais tarde, colocou como o alvo fundamental a demolir.
Não será inútil dimensionar que aqueles que contribuíram para separar Prestes de Vargas em 1930 podem ter atrasado enormemente o curso da história no Brasil. Vale registrar que o bravo Cavaleiro da Esperança, depois de ter dado entrevista pedindo a renúncia de Vargas em 24 de agosto de 1954, no jornal Tribuna Popular, recolhido pelos dirigentes do PCB ante a fúria popular desatada pela morte do presidente, termina seus dias como Presidente de Honra do PDT de Leonel Brizola, um dos principais herdeiros do varguismo.
Hugo Chávez ao organizar o levante cívico-militar de 4 de fevereiro também esperava contar com o apoio de correntes e partidos da esquerda, mas foi por elas abandonado na hora H, o que também contribuiu para o fracasso da operação, do ponto de vista exclusivamente militar.
Os comunistas também não compreenderam o movimento de Perón, na Argentina, que transformou aquele país em um dos mais prósperos do mundo, com estatização dos principais setores da economia, a eliminação do analfabetismo, o desenvolvimento de indústria e de tecnologia próprias em automóveis, aviões, ferrovias, energia nuclear etc. Tudo isto, com a oposição dos comunistas que uniram-se aos segmentos oligárquicos e imperiais para desatar uma campanha que taxava Perón de nazista. Parte central da popularidade e dos êxitos de Nestor e Cristina Kirchner hoje, é porque representam a continuidade história possível do peronismo popular na atualidade.
Populismo, fenômeno progressista

O genial Trotski, em seu exílio no México, percebeu o fenômeno político populista latino-americano, dos anos de 1930 em diante, desencadeado pela crise capitalista deflacionária de 1929. Destacou ser ele fruto da impotência dos partidos políticos, então, dominados pelas elites reacionárias ligadas ao capital internacional, na condição de dirigentes de economias monocultoras - do açucar, do café, do fumo etc - produtoras de contextos políticos repressoras ao pensamento popular, impondo-lhe a força policial. Por essa razão, as massas trabalhadores, sem alternativa, para se expressarem por meio de agremiações partidárias, viram saídas nos movimentos militares resistentes à demagogia política dos coronéis da democracia tocada a bico de pena. Apoiaram eles por perceberem motivações modernizadoras em marcha favoráveis aos interesses populares. O imperialismo chamou de populistas essas forças nacionalistas, nascidas nos quartéis, como foi o caso de Getúlio Vargas, de Perón, Cardenas, Zapata, Alvarado etc. O populismo é alternativa popular à fragilidade dos partidos conservadores por meio dos quais se tornava impossível a manifestação dialética dos antagonismos sociais, visto que não passavam de fantoches dominados pelas forças externas. O populismo varguista, peronista, destacou Tr0tski, representa força progressista, que incomoda, até hoje, as elites reacionárias que comandam o poder midiático sul-americano.


























