O PT Balzaquiano

Aos 32 anos de idade, calejado, sofrido pela metamorfose dura de atravessar a infância, adolescência, juventude e chegar ao início da maturidade, quando as ilusões são desfeitas, quanto ao ontem, que já passou, e ao amanhã, que ainda vai chegar, sendo, portanto, obrigado a render-se, obrigatoriamente, ao hoje, essencialmente, pragmático, o PT se viu na contingência de negar a si mesmo: rasgou a fantasia, o seu palhaço, cheio de laço e balão. Faz, agora, alianças indesejáveis, manda ver na privatização e joga duro com os grevistas. A cara conservadora petista emerge em torno da governabilidade dilmilsta que impõe duro ajuste fiscal cujas consequências são as de acirrarem as lutas de classe, especialmente, no serviço público, tudo para atender as exigências dos banqueiros, a fim de alcançar uma economia forçada de R$ 140 bilhões de superavit primário, de modo a cobrir os serviços da dívida. Para a bancocracia, tudo; para o trabalho, contingenciamento drástico. Não há discurso petista que segura a durona titular do Planalto, responsável por afastar critérios político em nome da deusa gestão administrativa, instaurando o governo absolutamente técnico, mesmo em ano eleitoral.

Certa vez, o General Montgomery foi homenageado, por sua vitória contra o alemão Rommel, na IIª Guerra Mundial. Em seu discurso, Montgomery se gabou: “Não fumo, não bebo, não prevarico e sou herói” Churchill ouviu o discurso e retrucou: “Eu fumo, bebo, prevarico e sou chefe dele.”

Na minha opinião Winston Churchill foi o personagem mais decisivo para a história da humanidade no século XX. E entendo que um dos seus maiores méritos e chaves do sucesso foi enxergar nele próprio uma pessoa sujeita a paixões e tentações mundanas, as quais – mais do que esconder – fazia questão de ressaltar.

Daí a grande sabedoria do Premiê britânico em reconhecer que simplesmente somos o que somos; e não o que idealizamos a respeito de nós próprios. Talvez por conta dessa postura crítica, várias de suas frases de efeito se tornaram clássicas.

Para quem estiver interessado em um resumo dessa obra, clique aqui para ser redirecionado ao site ”pensador.info”. Mas, para essa postagem, estou interessado em uma frase falsamente atribuída à Winston Chuchill, provavelmente para valorizá-la. “Quem não foi de esquerda até os 30 anos não tem coração; quem continuou sendo depois disso, não tem cérebro”.

Dizem que, na verdade, esse foi um deboche do falecido Paulo Francis, o qual costumava ser bem ácido para desfazer as pessoas e idéias das quais não gostava. Apesar do tom intolerante da afirmativa, ela não chega a ser totalmente absurda no contexto da história brasileira e latino-americana.

Especialmente nos anos 60, 70 e 80 quase todos os países da América do Sul foram governados por ditaduras militares explicitamente identificadas com ideologias de extrema direita (leia-se fascismo). E quase que naturalmente, quem buscava se antagonizar com a falta de liberdade de expressão da época era abrigado pelo extremo-oposto da esquerda marxista e suas centenas de ramificações.

Isso aconteceu especialmente ao nível das universidades (também em sindicatos e em menor escala no meio militar), onde a natural teorização de mundos idealizados no protegido isolamento dos campus permitiram a prosperidade de teses que, necessariamente, não se enquadram como uma luva no mundo real do dia-a-dia.

Mas o importante, na época, é que para ser considerado uma pessoa “do bem” no meio social das universidades era necessário se opor à ditadura de direita; e o caminho aparentemente mais lógico para isso seria tornar-se “um subversivo de esquerda”. Ou seja, a disseminação do marxismo na juventude daquele tempo foi parcialmente a resposta a um grande apelo emocional por justiça, liberdade e direitos democráticos.

Lógico que esse vínculo ideológico acabava gerando decorrências naturais da forma como o mundo deveria ser interpretado. Daí, indiretamente por conta das ditaduras latino-americanas, prosperou pela geração de classe média do continente que hoje está na faixa etária entre 45 e 65 anos uma forte aversão ao capitalismo, visto como a ideologia dos déspotas e espoliadores.

Assim, tudo o que fosse favorável à livre iniciativa, à economia de mercado, passou a ser demonizado, por servir de base de apoio aos ditadores nacionais e imperialistas internacionais (mais notadamente os EUA e as multinacionais).

Explicada a questão, não vejo como condenar ou ridicularizar os jovens dos anos 60 a 80 que optaram pela associação com a esquerda. Seria mais ingenuidade ainda tentar ver os dois lados da moeda em um ambiente de repressão. A luta pela liberdade era uma necessidade e só poderia ser levada adiante na medida em que houvesse um antagonismo claro, de fácil compreensão.

E isso justifica a primeira metade da frase falsamente atribuída a Churchill (provavelmente de Paulo Francis) “Quem não foi de esquerda até os 30 anos não tem coração…”. No final dos anos 70, em paralelo à efervescência universitária, germinava rapidamente o movimento sindical do ABC paulista (e também no Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro), o qual foi extremamente hábil em associar suas demandas salariais e de direitos trabalhistas ao pensamento de esquerda das universidades (e de alguns “dinossauros” dos anos 20 e 30), com o tempero especial da crescente insatisfação da classe média brasileira, diante da estagnação que se seguiu ao fim do milagre econômico daquela década.

E foi nesse contexto histórico que nasceu o Partido dos Trabalhadores, liderados pelos então sindicalistas Lula, Olívio Dutra, José Fortunati & Cia, secundados por ideólogos da esquerda como José Dirceu, Hélio Bicudo, Tarso Genro, Eduardo Suplicy, Plínio de Arruda Sampaio, dentre outros.

Relegados a um eleitorado modesto no início dos anos 80, os petistas souberam usar primorosamente os preceitos práticos do manual da militância socialista e lograram sucesso em arregimentar crescentes contingentes para o seu lado do jogo. Isso ocorreu especialmente no âmbito da juventude da época e movimentos sindicais e sociais mais incisivos, como CUT, MST e frentes religiosas, o que – nesse último caso acaba sendo uma forte contradição com os preceitos do materialismo histórico (em outras palavras, marxista da gema não pode acreditar em Deus!).

De uma forma até rápida, o PT galgou crescente bancada nos legislativos municipais, estaduais e federal, conquistando prefeituras e governos de locais políticos importantes do país.

No início, é verdade, cometeram grandes barbeiragens na condução dos executivos, mas também é verdade que, em vários casos, aprenderam com os erros e foram amadurecendo sob alguns aspectos da gestão pública. E em outros aspectos não!

Entendo que o principal mérito petista é a própria organização partidária e de sua militância. Foi essa a força motriz que os levou a conquistar por três vezes consecutivas o governo federal.

Porém, o exercício do poder tem seus custos e embates de consciência. Talvez um dos maiores seja o reconhecimento de que a prática do trato com seres humanos não foi mapeada com competência por nenhum manual, nem mesmo o marxista. Também pudera, o bicho gente é demasiadamente complicado: somos um animal ao mesmo tempo social e individualista; entendemos as regras da sociedade e concordamos com elas até o momento em que nossos interesses pessoais sejam contrariados; somos sujeitos a mudar de opiniões conforme a conveniência do momento.

Em resumo, o ser humano é dono de uma consciência predominantemente ingovernável no sentido mais absoluto da palavra. Apenas leis punitivas colocam a sociedade nos eixos.

Nesse ponto, o capitalismo vence o socialismo de goleada em termos de reproduzir a essência humana. Afinal, o que está em jogo na economia de mercado é o conceito da não-ideologia (a esquerda chama isso de neo-liberal) em favor da multiplicação da ambição pessoal por riqueza. Se esse movimento de caráter individualista pode beneficiar terceiros, não há restrições quanto a isso, o que acaba tornando o capitalismo imbatível em termos de desenvolvimento econômico.

O empresário e mesmo o empregado produz pelo seu próprio interesse de ganhar dinheiro, enquanto nos modelos econômicos mais “solidários”, a motivação prioritária é o ganho comunitário, o que invariavelmente gera ineficiências crônicas, lembrando que, afora alguns altruístas de verdade, humano só pensa em beneficiar o próximo, se isso traz alguma compensação em proveito próprio.

E voltando a história do PT, esse reconhecimento da natureza humana, o qual está distante do ideal que as pessoas deveriam ser segundo a índole socialista, acabou gerando um forte choque de consciência daqueles universitários que hoje estão grisalhos.

Afinal, a prática confirmou a antiga profecia do compositor Belchior, de que “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”.

O reencontro com a antítese das certezas mobilizadoras do passado faz parte de qualquer processo de amadurecimento, quando há a busca de harmonização. Neste caso, coincidentemente o PT está em plena idade balzaquiana ( a mulher de 30 anos), onde a beleza começa a se misturar com as experiências reais da vida, mandando embora a ingenuidade (daí a segunda parte da falsa frase de Churchill: … quem tem mais de 30 anos e continua de esquerda não tem cérebro).

É de se entender que a equipe econômica de Lula não mudou as diretrizes da política monetária do governo de FHC por medo de fazer alguma porcaria; também é parcialmente compreensível a política de alianças feita pelo PT para chegar ao poder, do tipo “toda maneira de amor vale a pena”.

Entretanto, o passo dado na direção de promover a privatização dos aeroportos é um fato integralmente novo, feito de livre e espontânea vontade por uma cúpula partidária que hoje reconhece a pouca capacidade da gestão pública em administrar competentemente negócios de características privadas.

Foi realmente uma criativa chacota, a ex-musa das privatizações, Elena Landau (Ex-BNDES), ter passado o título de beleza para a presidente Dilma Rousseff. Sem maiores brincadeiras, o significado da ação de privatização é forte.

O PT – na prática – rompeu com sua própria base de formação, em nome do pragmatismo da implacável realidade.

Considero isso excelente e dou os parabéns aos líderes desse processo histórico. Só falta, agora, a cúpula petista se convencer de que é bobeira defender idéias de controle da imprensa e de tentar montar uma logística na administração pública de perpetuação no poder.

Daí chegaremos à democracia realmente plena, onde os pontos de debate político passarão a ser centrados em questões objetivas, ao invés de uma seqüência intermináveis de xingamentos entre partidos políticos.

Em tempo: a oposição também tem que amadurecer.

Vejo que mesmo diante de tantos escândalos ao nível dos ministérios, estamos tateando uma linha divisória na qual poderemos evoluir para um modelo de construção democrática de qualidade espanhola (sem Rei, é claro) ou regredir para a repetição dos ciclos populistas do passado à la Argentina.

Tudo depende da inteligência… ou burrice dos governantes. No primeiro caso, segue-se à decisão histórica dos aeroportos um longo caminho fiscal e administrativo ao nível da federação, estados e municípios.

Orgulho nacional sujeito a chuvas e trovoadas

EIS AS CATARATAS DO IGUAÇU. BELÍSSIMAS. Brasil, sexto PIB do mundo. Viva! Passou a Inglaterra! Está chegando lá como emergente global que decidiu ousar na crise de 2008, fazendo o contrário do que os economistas neoliberais recomendam, ou seja, arrochar o bolso do povo, para sobrar mais uma rendazinha para os banqueiros. A ousadia relativa deu certo. Não dará também certo seguindo outras orientações ousadas, como a de se partir para maior afirmação social, priorizando-a em relação às orientações meramente econômicas, excessivamente, racionalistas, positivistas, mecanicistas, para equilibrar o pavoroso desnível de renda vigente?  Claro, o país somente sairá do sufoco histórico se der um chega prá lá na bancocracia que cobra o juro mais alto do mundo, escravizando o consumidor por meio do capital, a escravidão moderna. Enquanto isso não acontecer, a população continuará caminhando no fio da navalha, acordando alegre sem saber se dormirá feliz ou atormentada. Também, não se pode orgulhar-se muito porque os países ricos em ritmo de empobrecimento relativo estão nos impondo guerra cambial que faz dos números focos de enganações, evidenciando algo que pode ser o seu oposto. De qualquer forma, a sociedade brasileira aprende no decorrer da grande crise mundial que arrasa os ricos que somente acreditando em si e no potencial econômico brasileiro será possível construir a nação de todos e não apenas de alguns, dominadores da maioria por meio de um sistema político-eleitoral, socialmente, excludente, necessitando ser eliminado do mapa, a fim de materializar democracia mais direta e menos indireta. Só então será possível dizer com segurança que os brasileiros em sua maioria tomaram o seu destino nas mãos em vez de ficarem sendo manipulados por meia duzia de espertos que chegaram com Pedro Álvares Cabral e continuam até hoje no leme do barco, levando-o sem rumo para as incertezas decorrentes da ausência de projeto nacional. Cadê a reforma política, presidenta Dilma? Sem ela, haja  equilibrismos e muito risco de quedas!

Já dá para antecipar!

A notícia que saiu esses dias nos jornais britânicos vai se transformar no grande instrumento da propaganda ufanista nacional no início do ano: de acordo com o Centro de Pesquisa Econômica e de Negócios (CEBR, na sigla em inglês), o Brasil papou a sexta posição do Reino Unido no ranking das maiores economias do planeta.

Tentando arrumar argumentos para esconder o orgulho ferido, a imprensa especializada do que já foi o maior império do mundo atribui a ascensão brasileira a uma série de fatores pontuais, dos quais se destacam o crescimento do país como fornecedor de recursos naturais e a emergência de consumo de uma população predominantemente pobre, suja e boa de bola.

Dessa forma, fica mantido o orgulho britânico do poderio de sua indústria e o consolo de que dentro de cinco anos eles deverão superar o tamanho da economia dos tradicionais rivais franceses.

Entretanto, se eles simplesmente decidissem parar de tentar camuflar um possível fracasso e investigassem a fundo a subida brasileira no ranking em questão, encontrariam uma explicação fácil e coerente para o fenômeno.

Olha só que dado interessante: pegando as informações consolidadas do Banco Mundial entre 2003 e 2010, a participação brasileira na economia global pulou de 1,47% para 3,31%. Ou seja, evoluiu em 125%, superando inclusive a expansão da participação da toda poderosa China (passou de 4,38% para 9,39%, aumentando 114% em termos de participação).

Por outro lado, em termos reais o crescimento econômico do Brasil no período em questão foi de 41,8%, diante de 11,23% do britânico.

Então, vamos fazer uma simples conta de aritmética. Em 2002 o Produto Interno Bruto do Brasil era de US$ 504 bilhões, enquanto o do Reino unido chegava a US$ 1,6 trilhão. Com o crescimento desses países, identificado no parágrafo anterior, o PIB brasileiro deveria ter passado para US$ 715 bilhões, enquanto os súditos da Rainha Elizabeth ficariam com US$ 1,79 trilhão.

Peraí: tem alguma coisa errada nessa conta. Se estão dizendo que a riqueza gerada pelo Brasil em 2011 superou a inglesa, como é que os números mostram uma situação bem diferente?

Com um pouco de paciência dá para entender o que aconteceu.

Você reparou como de uns anos para cá ficou mais barato comprar uísque escocês, carros de outros países, computadores, brinquedos e qualquer outra coisa importada? Pois bem, isso aconteceu simplesmente porque o real se valorizou frente às demais moedas. E já que o cálculo do PIB comparativo tem o dólar como padrão, não é difícil entender que com a nossa moeda valendo bem mais nos últimos oito anos, a contrapartida natural é que o padrão monetário norte-americano (assim como o Euro, Libra, Iene, Yuan, etc) passe a valer menos nas contas dos brasileiros.

Dessa forma, sem termos reais a economia de nosso país cresceu para o 41,8% no período em questão, a contabilidade amalucada da variação cambial fez com que o PIB brasileiro ultrapassasse o patamar de US$ 2,2 trilhões, papando o posto inglês de sexta maior economia do planeta.

Gangorra da incerteza global

Agora, vamos à pergunta sacana: Isso é verdade?

É e não é.

É verdade na medida em que as circunstâncias da contabilidade nacional mostram isso de maneira precisa. Mas é mentira na medida em que tal situação não tem sustentação eterna. Cedo ou tarde o real terá de passar por um ajuste na direção da sua desvalorização, o que fará com que os britânicos retomem seu status, da mesma forma em que o PIB  italiano, indiano, canadense, russo, espanhol, mexicano e sul-coreano também tendam a ultrapassar o Brasil, conforme a intensidade da correção cambial.

A figura a seguir mostra muito bem o funcionamento do fenômeno em questão. Na medida em que o real foi tendendo a ficar mais próximo do dólar (valorização, portanto), a participação brasileira no PIB mundial foi aumentando rapidamente.

Nosso país ultrapassou a economia britânica dentro de um contexto no qual o Dólar Médio ficou em R$ 1,66. Entretanto, nos últimos meses, com o agravamento da insegurança global – por conta do aprofundamento da crise (especialmente européia) – o valor da moeda brasileira diante da norte-americana vem mudando de patamar e se situando ao redor de R$ 1,85.

De acordo com tal cotação, o Reino Unido já teria retomado sua tão zelada 6ª posição.

É lógico que a explicação que acabei de dar tende a ser ignorada por aqueles com senso de marketing político.

Imagina só que prato? O próprio concorrente (no caso, os britânicos) dizer que foi derrotado! Dentro da tradição da política de palavras (e não de atos) brasileira, esse é um piquenique que deverá ser degustado por muito tempo, apesar de estar sendo baseado em um distorção dos fatos.

No momento em que os juros caírem no Brasil (se caírem…), os investidores estrangeiros perderão o interesse em deixar dinheiro por aqui e o real vai se desvalorizar, fazendo com que o tamanho da economia nacional retorne a patamares mais realistas.

Enquanto isso não ocorrer, as autoridades econômicas vão continuar saboreando o sucesso da circunstância que, se por um lado dá notabilidade ao Brasil, por outro deixa o país cada vez mais pobre em termos de indústria e emprego industrial.

É esperar para ver.

Inflação e Dólar: Deixa Rolar!

O que a bela Vera tem a ver com a inflação e o dólar que dançam o minueto no compasso da grande bancarrota financeira internacional, motivo de pânico geral?  Starosta argumenta que, a partir da decisão de la Fischer de ficar internada mais um tempo, numa clínica de recuperação de drogados, para curar do seu vício, com medo de sair de lá e ter uma recaida, pode se ver como tal receio se relaciona com a pobre e subdesenvolvida macroeconomia brasileira, envolvida no vai e vem dos interesses externos, desde sempre, de modo a impedir que haja suficiente disposição, descortínio e vontade de potência, como diria Nietzsche, para romper os limites, a fim de se afirmar como ser em si, para si, por si mesmo, confiante no grande potencial do Brasil em face do colapso capitalista em curso. Belo artigo(CF). 

Quem, de vez em quando, não pega uma revista ou navega em um site de fofocas para ver o que está acontecendo de engraçado com as pessoas que gostam de aparecer na qualidade de celebridades? Dia desses me chamou atenção o destaque para a ex-miss Brasil Vera Fischer.

Já tem alguns meses que a loira está internada em uma clínica para recuperação de drogados no Rio de Janeiro. A curiosidade do fato  é que ela, segundo os médicos, já poderia ter alta, mas optou por permanecer hospedada no estabelecimento, temendo ter recaída na sua volta ao convívio social do dia-a-dia da vida.

Tal comportamento pode estar revelando uma boa dose de sabedoria da paciente. É muito mais fácil não ter a tentação de voltar às drogas em ambiente controlado, onde o acesso ao objeto de vício é, em tese, impossível. Entretanto, caso essa decisão de permanecer protegida dentro dos muros da clínica se prolongue por muito tempo, Vera Fischer pode correr o risco de adquirir um medo fóbico do próprio mundo e optar pela clausura permanente, o que seria uma pena.

Com essa reflexão na mente, continuei a buscar notícias interessantes na Internet. E a principal manchete do meio da manhã da última quinta feira foi a do dólar rompendo a barreira do R$1,95, o que provocou a intervenção do Banco Central no sentido de conter a desvalorização da moeda brasileira. O argumento das autoridades econômicas para justificar essa ação foi o de não alimentar a inflação e evitar graves problemas de caixa para as empresas brasileiras muito endividadas em moeda estrangeira.

O problema é que há controvérsias a respeito da correção de tais medidas. Para entender o raciocínio, precisamos investigar um pouco o passado recente da economia brasileira.

Há cerca de 17 anos, o então ministro da fazenda do governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, resolveu capitanear a estratégia de estabilização desenvolvida em conjunto por pessoas geniais, como Pérsio Arida e André Lara Resende.

Naquela época o Brasil já acumulava várias derrotas sucessivas na guerra contra a hiperinflação. A partir do Plano Cruzado, não foram poucas as iniciativas de congelamento de preços e salários, ou até aventuras mais ousadas, como o confisco do Plano Collor. A principal falha  daqueles fracassados planos de estabilização é que eles se contentavam em tratar apenas dos sintomas aparentes do problema.

Imagina se você está com problemas digestivos e vai comer aquela feijoada completa e bem gordurosa no sábado, acompanhada de algumas caipirinhas, torresmo e cerveja. Não seria de estranhar que depois da soneca digestiva, o despertar fosse acompanhado daquela SENHORA DOR DE CABEÇA. Nada que algumas aspirinas não resolvam momentaneamente, apesar de continuar o mal-estar. E no próximo sábado, dá-lhe feijoada novamente, recomeçando o ciclo até que o fígado vai para o beleléu…

Até o plano Real, o combate à inflação acontecia de forma similar: anestesiavam a dor de cabeça dos governantes (os índices de inflação) sem tratar das causas.

E nesse ponto foi que Arida e Resende acertaram a mão: reconheceram que além da chamada memória inflacionária (termo em moda naquela época), a inflação era especialmente causada pelo excesso de gastos públicos, em patamares muito além da receita tributária.

Economicismo efêmero e contraditório

Arquitetos da eleição de FHC: amarraram o real ao dólar e soltaram os juros. A inflação, que era hiper, voltou à civilização, mas a dívida pública interna jamais daria sossego aos governanantes, como atração principal dos especuladores internacionais que estavam vivendo um mundo financeiro completamente desregulamentado, para adequar o capitalismo ao novo status decorrente da separação do dólar do ouro, nos anos 70, configurando uma globalização financeira implacável, sob o impacto do Consenso de Washington, pregador da livre circulação de capitais. Hoje, os governos superendividados, sem poder mais manejar os juros, tem que derrubá-los, para não ver destruída a arma de combate à inflação, ou seja, a dívida pública, que se transformou em perigo de hiperinflação, que convive, contraditoriamente, com a marcha da economia global para a deflação. Os dois piores mundos lado a lado, dialética e contraditoriamente.

Voltando à analogia com o vício em drogas contra o qual Vera Fischer está tentando vencer, podemos comparar a “memória inflacionária” com a parte psicológica do vício, ou seja: a sensação eufórica ou alucinógena  causada pelo uso do tóxico que proporciona a “chapação”. Mas por trás disso há o vício químico, no qual o corpo passa a entender que necessita da droga para continuar vivendo e sofre com sua abstinência. Esse papel, na história econômica brasileira coube ao déficit público.

Feito o diagnostico, os chefões da economia daquela época trataram de ministrar os medicamentos para conter o efeito psicológico. Para evitar a especulação de preços internos atrelaram o Real (a nova moeda) ao Dólar, ao mesmo tempo em que botaram os juros na estratosfera. Paralelamente, desenvolveram e implantaram a Lei de Responsabilidade Fiscal para combater o vício químico (déficit público exagerado).

O certo é que a receita funcionou, mas com efeitos colaterais  previstos,  tidos como temporários. O primeiro foram os já citados juros altos que, ao mesmo tempo em que incentivavam a poupança interna, atraiam investidores do mundo inteiro na busca por rentabilidade alta e fácil (isso  também foi refletido na Bolsa de Valores).

Esse mesmo fator até ajudou o controle do dólar (vinculado inicialmente ao sistema de bandas cambiais), fazendo com que o real se valorizasse além do razoável, barateando os produtos importados (agrícolas e industriais), ao ponto de estrangular o setor produtivo brasileiro (especialmente a indústria).

Como não poderia deixar de ser, o que deveria – no papel – funcionar como um relógio teve seus momentos de confusão. Crises internacionais, como a russa, mexicana, argentina e o famoso 11 de setembro de 2001 provocaram verdadeiros ataques de epilepsia nas variáveis de maior zelo por parte das autoridades econômicas brasileiras (repetindo: câmbio, investimentos internacionais e juros para controlar a inflação).

Mas no final das contas, o plano de estabilização deu certo. Porém, até hoje somo forçado a conviver com um câmbio supervalorizado e os juros mais altos do mundo.

Comandante de uma contradição 

Rendido ao Consenso de Washington, fator emergente depois da crise monetária dos anos de 1980, impulsionada pelos Estados Unidos, para combater o deficit produzido pela guerra fria – 15 trilhões de dólares, segundo o Instituto Peel – , o ministro Pedro Malan administrou o Brasil para os especuladores ganharem, enquanto o endividamento preparava o futuro do desastre configurado nas crises cambiais intermitentes cujas causas ele apontou para fatores externos, sem ter a coragem suficiente para discutir abertamente que elas foram produzidas pelas próprias contradições intrínsecas ao Plano Real, desinflacionário, sim, em relação aos preços, mas inflacionário em relação às dívidas, já que o contropolo da inflação se revelou presente na dívida pública, que , agora, exige a queda dos juros na base do porrete, sob pena de levar o país, também, à bancarrota. 

Ok, perto do vício de antes, a situação atual é bem mais branda. Seria trocar uma heroína, ou cocaína por alguma coisa mais leve e natural para fins terapêuticos de transição, como a maconha, por exemplo.

O problema é que o tratamento em questão já dura 17 anos e a economia brasileira nunca se aventurou a provar sua sustentabilidade sem o uso de drogas.

Vera Fischer decidiu ficar alguns meses há mais na clinica para evitar o convívio com o ambiente que lhe causou o vício e aumentar suas chances de cura. Mas imagina se ela resolvesse ficar dentro dos muros do hospital por aproximadamente duas décadas. Seria o mesmo que renunciar à vida; viver permanentemente de forma artificial e, portanto, nunca plena.

Esse é exatamente o caso da economia brasileira. O medo da não cura vem perpetuando o país em um tratamento que já virou novo vício. Por conta dos juros altos, o Brasil cresceu muito menos do que poderia (apesar dos dados positivos do final da década passada, alavancados por um contexto internacional favorável) e o cambio supervalorizado detonou com várias frentes da competitividade industrial do país.

Feita essa retrospectiva inspirada na belezoca da Vera Fischer, vamos dar uma olhada panorâmica do que está acontecendo hoje com a economia brasileira:

1 – O Real está se desvalorizando de forma inesperada por conta das últimas turbulências internacionais, seguindo a velha máxima na qual se a economia norte-americana tem problemas, paradoxalmente, são os ativos dos EUA que se tornam os mais seguros. Daí, o dinheiro aplicado em títulos do Brasil e na Bolsa vai às pencas para a América do Norte, fazendo a paridade do Real despencar;

2 – Em função de frustrações de safras, alta das commodities internacionais e outras milongas mais, a inflação está irremediavelmente extrapolando as metas estabelecidas para 2011;

3 – O Brasil está assistindo a uma intensa desaceleração de sua economia. A indústria está entrando em recessão, o consumo vem arrefecendo, a inadimplência aumentando e por aí afora;

4 – No ano passado, talvez por conta das eleições, o governo federal enfiou o pé na jaca no que se refere ao aumento dos gastos públicos. Isso está pesando na gestão dessa primeira fase da gestão de Dilma Rousseff, que tenta gastar menos com o corte de orçamento e caça aos sanguessugas de ministérios (reagindo às investigações e denúncias da imprensa, é verdade).

 Enfim, o quadro mostra que o muro que protege a economia brasileira de testar a sua verdadeira cura está ruindo. É certo que a situação não está tão grave ao ponto de impedir medidas de reforço à proteção dos fundamentos econômicos atuais.

Mas será que isso realmente vale a pena? Será que não é chegada a hora de testar se o Brasil está finalmente curado da hiperinflação? Ou seria mais prudente continuar do jeito que está?

Se houvesse uma enquete nesse sentido, pessoalmente eu optaria pelo risco da cura. Tenho a consciência de que isso aumentaria temporariamente a inflação e quebraria algumas empresas importantes dado o seu grande endividamento em moeda estrangeira. Mas isso faz parte do jogo. E o melhor para qualquer sociedade é trabalhar curada, mesmo que isso envolva alguns perigos (facilmente controláveis).

Lá em 2003, quando Luis Inácio da Silva assumiu a presidência, pensei que ele e seus aliados estariam ansiosos por promover a libertação da economia brasileira de seus muros de contenção, eliminando a âncora cambial, promovendo a redução efetiva dos juros.

Mas como se diz popularmente, campanha é uma coisa; governar é outra.

Anti-estado nacional, presente!

FHC foi o primeiro a reconhecer que estaria comandando uma conjuntura que tinha como premissa as bases do fortalecimento do anti-estado nacional, expresso nas razões da dependência financeira externa. O Plano Real, ao derrubar os preços e garantir a ele dois mandatos, aprofundou a dependencia externa, que , somente, foi rompida no momento em que Lula decidiu não acatar as determinações do capital externo para que entrasse em duro ajuste fiscal e monetário depois da crise de 2008. Fez o contrário, impulsionou o desenvolvimento, apostando no potencial econômico nacional, enquanto, sob o tacão do Consenso de Washington, FHC se rendeu ao crescimento potencial estabelecido pelo FMI, ou seja, às possibilidades acanhadas e envergonhadas da capacidade de os brasileiros enfrentarem as crises. Não acreditou no Brasil. Agora, diz que está sendo precipitado diminuir os juros. É a demonstração cabal de que não teria peito de enfrentar a grande crise global, dada sua submissão aos ditames dos interesses externos, anti-nacionais. 

Aparentemente, as novas autoridades econômicas da época (Palocci & Cia) se acovardaram em implantar uma nova condução à política econômica do país, quando isso já se fazia necessário. A situação foi muito bem retratada pelo humorístico Casseta & Planeta (Rede Globo) que dramatizava os membros da equipe de governo consultando os arquivos e manuais do ex-ministro Pedro Malan para saber o que fazer com a economia.

O medo era fazer alguma coisa que desse errado e matasse o Plano Real, eliminando chances de reeleição. No final, a receita original de Pérsio Arida e André Lara Resende foi mantida. O que era para ser transitório, acabou se perpetuando até os dias atuais.

Nesse segundo semestre de 2011 o mundo está em um momento muito especial no qual a credibilidade dos principais atores da economia global está em baixa e eles próprios não estão dando muita bola para isso. O importante é resolver a crise, mesmo que isso custe a coerência dos discursos ideológicos e morais (isso se recupera depois…).

Sendo assim, se o dólar já está mesmo fora de controle e a inflação extrapolou a meta, talvez tenha chegado o oportuno momento de o Brasil se libertar das âncoras que evitam que cresçamos, senão como a China, pelo como em parâmetros similares à Índia.

Sim, soltando o dólar e reduzindo juros, os preços vão subir – em um momento inicial – mais do que o considerado razoável. Mas além de diminuir a dívida pública (o chamado imposto inflacionário) teremos a chance de saber se o Brasil está curado ou não da hiperinflação.

 Se a resposta for positiva, o país estará pronto para o maior ciclo de desenvolvimento da sua história (com a melhoria da competitividade dos produtos brasileiros no exterior. Pena que o uísque escocês e o azeite de oliva espanhol vão ficar mais caros).

Caso contrário, basta restabelecer as âncoras e pagar o preço político da ousadia, que provavelmente já estará absorvido até as próximas eleições para presidente e governador, em 2014.

Em tempo, caso essa for a opção, é bom nos prepararmos para jogar tomate podre na cara de quem propor o retorno da velha indexação de preços e salários. Isso mataria qualquer chance de cura real da economia brasileira.

Por fim, meus votos de que Vera Fischer se recupere plenamente, saia da clínica e volte a conviver livremente com a vida.

Liberdade para oráculo da verdade

A verdade explodiu em forma de singeleza humilde e destruidora. Caminhou com os pés cansados enfiados nas sandálias dos pescadores de Carfanaum, chegando a Jerusalém, para ditar a nova ordem cristã, fora da verdade não há salvação. Encalacrou-se o império americano, ardiloso na construção das mentiras e das intrigas, para dividir o seu reino global, para melhor administrar os antagonismos que ele mesmo espalha, à moda eterna de Maquiavel. O culpado? Claro, as ovelhas que estão bebendo as águas limpas que contrariam o grande lobo. Assange sujou a água do lobão. Mas, seu exemplo, de divulgador das verdades, é uma ponta do iceberg. No tempo da informação on line, como esconder os verdadeiros mentirosos diante dos novos profetas? WWW.INDEPENDENCIASULAMERICANA.COM.BR apoia movimento mundial para libertar o grande Assange, repetindo a mobilização vitoriosa para salvar Sakined das garras do medievalismo iraniano ainda vivendo na idade da pedra.

O maior mentiroso de todos é aquele que diz não saber mentir. De acordo com várias fontes da psicologia, o ser humano é um Pinóquio por excelência, bastando estar acordado para faltar com a verdade.
Isso não é uma coisa boa, nem ruim. Apenas reflete, simplesmente, o que somos.

E cá entre nós, o grande problema não é contar lorotas, mas sim vê-las desmascaradas. E esse é um papel social importantíssimo atribuído a aquelas pessoas que publicamente odiamos, mas portadoras de um magnetismo irresistível. Falo dos fofoqueiros. Se não fosse por eles, a vida dos artistas e políticos não teria a menor graça e eles não ocupariam tanto espaço na mídia.

E dentre esses maravilhosos desmascaradores de figuras públicas, eis que emerge o fofoqueiro do milênio; o Pelé dos fofoqueiros. Falo do australiano Julian Assange, líder do site wikileaks, especializado em receber e divulgar documentações que mostram verdades nada honrosas no âmbito das relações diplomáticas internacionais.

Por conta da iniciativa de Assange ficamos sabendo de coisas importantíííísimas, das quais ninguém desconfiava: – os norte-americanos mataram gente no Iraque; – a Coréia do Norte é mimada; – o Presidente da Venezuela é completamente biruta; tem macaquinhos no sótão; – o PT não gosta dos Estados Unidos, mas o ministro da defesa adoora; – a China quis acabar com o google por lá; – o Presidente da França é delicado (será meio fru-fru?) e autoritário.

Cá entre nós, nenhuma dessas revelações do wikileaks é algo surpreendente. São coisas óbvias para quem é ao menos um pouco informado sobre política internacional.

Mas então por que isso deixou tantos governos furiosos, a ponto de mandar prender o pobrezinho do Julian Assange por ter feito sexo sem camisinha (que nojo!)? Ora, simplesmente por ter liderado a divulgação de documentos onde os fofoqueiros com autoridade eram simplesmente identificados. Então, o Assange pode ser enquadrado como o fofoqueiro que faz fofoca dos outros fofoqueiros… Meio confuso, não?

Mas é essa a verdade mais nua e crua.O mais grave de tudo é que o cara, dentro de sua estratégia de divulgação, está apenas usufruindo de um dos direitos publicamente considerados dos mais sagrados pelo “mundo livre”, qual seja: a liberdade de imprensa, o que inclui a proteção às fontes de informação (com o que o Wikileaks é primorosamente cuidadoso).

E observe o seguinte: até agora nenhum dos desmascarados pelo site falou em mentira, difamação ou calúnia. Apenas mostraram desgosto por terem sido dedurados, o que gerou uma ingênua vontade de torcer o pescoço do australiano.

Tomara que os governos da Suécia, Reino Unido, EUA e outros deixem de bobeira e libertem logo o Julian Assange. Por mais que as autoridades desses países queiram, agora é tarde para deter o espírito do Wikileaks.

O site pode até ser tirado do ar; mas outros surgirão, partindo da mesma tecnologia de proteção de fontes de informação, inundando o mundo virtual com algo que o mundo real insiste em estranhar: a singela verdade.


 

Economia à la Asimov

No espaço, os terrestres mais poderosos lançam mão da dívida pública para alavancar a produção bélica e espacial em busca de mercadorias que estão escassas na terra, como a água, por exemplo, a fim de que continuem impondo seu domínio, administrando a escassêz, via aumento de preços, sobre os pobres, na base do porrete, como sempre aconteceu na história da humanidade
No espaço, os terrestres mais poderosos lançam mão da dívida pública para alavancar a produção bélica e espacial em busca de mercadorias que estão escassas na terra, como a água, por exemplo, a fim de que continuem impondo seu domínio, administrando a escassêz, via aumento de preços, sobre os pobres, na base do porrete, como sempre aconteceu na história da humanidade

Uma das grandes frustrações que tenho é não ter lido algum romance inteiro de Isaac Asimov – o papa da ficção científica. Até o final do ano pretendo não deixar essa lacuna em branco. Mas os contos e trechos que tive oportunidade de ler do citado autor foram realmente provocantes. Ele consegue fazer com que a mente fervilhe de imagens de um universo que o senso comum não admite.

Se alguém sair falando que Asimov fala de coisas reais, é provável que seja taxado de louco, lunático, ou outro predicado do mesmo sentido.

Mas vamos voltar um pouco no tempo, mais exatamente para 1870, quando Júlio Verne publicou Vinte Mil Léguas Submarinas. Naquela época, os leitores também tinham suas mentes provocadas por um mundo futurista, aparentemente, nada palpável.

O problema é que ao cabo de algumas décadas, o submarino virou realidade, assim como a metralhadora, a volta ao mundo em um balão, a viagem a lua e outras imaginações do escritor francês.

Voltando, então a Asimov, será que suas idéias de impérios galácticos, robôs com sonhos e sentimentos, dentre outras previsões, são tão absurdas assim?

O limite é o ilimitado e vice-versa. O grande professor encantou o mundo com as suas teorias apoiadas na idéia de que o universo é um bicho em expansáo, gerando alternativas no rítmo do seu movimento eterno de renovação, elevando a imaginação para produzir incansavelmente a si mesma num eterno retorno que se repousa em permanente turbilhão.
O limite é o ilimitado e vice-versa. O grande professor encantou o mundo com as suas teorias apoiadas na idéia de que o universo é um bicho em expansáo, gerando alternativas no rítmo do seu movimento eterno de renovação, elevando a imaginação para produzir incansavelmente a si mesma num eterno retorno que se repousa em permanente turbilhão.

Pelo que se sabe, a robótica – mesmo que ainda esteja atualmente engatinhando – vem registrando notáveis avanços em termos de locomoção de robôs e, em conjunto com a informática, está tendo sucesso em desenvolver crescentes níveis de raciocínio abstrato em máquinas.

Mas falar em viagens intergalácticas, naves fantásticas e seres de outros mundos seria um certo exagero. Será?

Bem, sempre surgem fatos novos na ciência. Há algumas horas a NASA divulgou a descoberta de um planeta em outro sistema solar da Via Láctea que contém água, metano e dióxido de carbono. Em outras palavras, esses são os requisitos químicos para a criação de moléculas mais complexas, o que é quase sinônimo de vida. E mais: esse tal de HD 209458b (nome um tanto quanto inóspito para um astro tão importante) é o segundo planeta encontrado com tais características.

De acordo com os cientistas, se eles (os dois planetas) não fossem gigantes gasosos, seria bem provável que alguns bichinhos e plantas estivessem passeando por lá. Mas o importante é que o padrão da receita básica da vida se repetiu, o que torna a situação um tanto quanto comum.

Agora só falta aprimorar a lente dos telescópios para conseguir perceber planetas rochosos (para ter uma idéia, em um planeta gasoso, tipo Júpiter, cabem mais de 2000 terras). Já se sabe que são milhares em nossa vizinhança astronômica – cerca de 200 anos-luz da terra – e é elevadíssima a probabilidade de que pelo menos algumas dezenas deles tenham a sopa básica da criação da vida.

 

 

Ficção e realidade se beijam

 

 

Os elementos básicos da vida em HD estimulam as formulações filosóficas, econômicas e utilitaristas, para potencializar investimentos elevados que se realizam em busca de retorno lucrativo-estratégico de dominação, pois essa é a essência do capital sem lastro que Tio Sam emite para expandir seu mundo financeiro movedor da imaginação econômica lucrativa sideral
Os elementos básicos da vida em HD estimulam as formulações filosóficas, econômicas e utilitaristas, para potencializar investimentos elevados que se realizam em busca de retorno lucrativo-estratégico de dominação, pois essa é a essência do capital sem lastro que Tio Sam emite para expandir seu mundo financeiro movedor da imaginação econômica lucrativa sideral

Nem vamos entrar na questão a respeito de que tipo de bicho podem vir a morar em lugares tão distantes. Se eles não torcerem para a seleção argentina, já são aptos a serem respeitados.

Agora, sem brincadeira, não é apenas por curiosidade científica que os EUA, a União Européia, Rússia, China e outros países gastam centenas de bilhões de dólares por ano em pesquisas espaciais. Se estão investindo na descoberta de vida fora da nossa terrinha, é porque o conhecimento adquirido em tais prospecções seguramente tem algum significado econômico.

Um cara mais chato, nesse momento, pensaria que a maior velocidade possível de se atingir é a da luz. Então, para ir e voltar de HD 209458b demoraria 300 anos, sem os astronautas terem sequer o direito de parar para tomar um cafezinho em alguma padaria espacial.

Deixo aos físicos a atribuição de responder essa questão. Mas eles mesmos dizem que o universo é curvo e prevêem uma coisa parecida com buracos de minhoca, onde se poderia, em tese, atalhar distâncias espaciais.

Aos aventureiros, sugiro desenvolver uma espaçonave com motor total-flex (se dentro do Brasil encontramos tanto combustível estranho, imagina no universo…).

Mas para os que preferem ficar com os pés mais no chão indago: por que será que a pesquisa espacial de novos corpos celestes se intensificou tanto nos últimos anos? Qual o interesse prático nisso?

Bem, acho que a resposta não é muito difícil. Vejamos os principais produtos que tendem a ser irremediavelmente escassos no nosso planeta, de acordo com o atual estágio da civilização humana: 1) energia; 2) água; 3) conhecimento, especialmente em produção otimizada de alimentos, habitação, locomoção e comunicação.

A energia é a questão mais fundamental; é indissociável do conceito de desenvolvimento. Desde a década de 70 o mundo tem a plena certeza disso, com a primeira crise do petróleo.

O problema é que o recurso em questão – na forma como é predominantemente obtido na atualidade – além de ser caro (barateou em função da crise global) gera impactos ambientais já perceptíveis, podendo tornar o planeta inabitável em algumas décadas, segundo o que já foi declarado pelas principais lideranças mundiais.

 

 

Festa no céu, inferno na terra

 

 

Se o mundo é energia e a mente é insaciável para conhecer a sua origem, sob o capitalismo, essa busca se faz através da guerra, onde os sonhos de domínio imperial são livres, necessariamente, desperdiçadamente, inflacionários,  para que os gastos do governo insuflem essa insaciedade global pelo novo, alavancando os lucros na terra pelo desenvolvimento tecnológico. O negócio é construir novidades para os terráqueos consumirem até explodirem.
Se o mundo é energia e a mente é insaciável para conhecer a sua origem, sob o capitalismo, essa busca se faz através da guerra, onde os sonhos de domínio imperial são livres, necessariamente, desperdiçadamente, inflacionários, para que os gastos do governo insuflem essa insaciedade global pelo novo, alavancando os lucros na terra pelo desenvolvimento tecnológico. O negócio é construir novidades para os terráqueos consumirem até explodirem.

As soluções renováveis, tipo biodiesel, parecem ser um paliativo transitório: ocupam muita área agrícola (que poderia ser destinada à alimentação ou reflorestamento), além de gerar sua própria poluição (são considerados combustíveis limpos por um conceito amplo de balanço ambiental – quando o insumo é planta, produz oxigênio, ganhando créditos para gerar gás carbônico no tanque dos carros).

A energia eólica é “tudo de bom”, mas aparentemente fraquinha para suprir as necessidades geometricamente crescentes da humanidade; as atuais indústrias nucleares (fissão) apresentam riscos radiativos; a fusão nuclear ainda é uma incógnita – só será testada em aproximadamente 6 ou 10 anos.

Enfim, nos momentos em que a economia mundial não está bombando, o consumo energético do planeta aumenta a uma razão média de 5% ao ano (mesmo com programas de eficiência energética). Isso significa que a cada 14 anos a produção tende a dobrar.

Hoje a capacidade instalada do mundo gira em torno de 16 mil megatoneladas de petróleo (equivalência que abrange todos os tipos de gerações) e deverá voltar a crescer a partir do ano que vem, com o provável abrandamento da crise global.

O esgotamento das reservas não renováveis (mesmo com descobertas de petróleo tipo pré-sal) e seu dano ambiental na escala atual estão obrigando os países mais dependentes de energia a extrapolar as fronteiras do planeta.

Experiências de captação da energia solar por espelhos orbitais estão em fase adiantada. Mas é lógico que isso – mesmo sendo um total sucesso – em algum tempo, não será mais suficiente.

 

 

Cotidiano de santos e loucos

 

 

Os japoneses, com sua fantástica capacidade de miniaturizar a tecnologia, foram os mais rápidos , na terra, para transformar em produto manufaturado - e faturar superavits comerciais fantásticos - as criações científico-literárias de Asimov, que, na imaginação, tornou o espaço sideral via de encontros da felicidade e da frustração retumbantes.
Os japoneses, com sua fantástica capacidade de miniaturizar a tecnologia, foram os mais rápidos , na terra, para transformar em produto manufaturado - e faturar superavits comerciais fantásticos - as criações científico-literárias de Asimov, que, na imaginação, tornou o espaço sideral via de encontros da felicidade e da frustração retumbantes.

Imagina daqui a 100 anos, por exemplo: o consumo, de acordo com os padrões atuais, deverá estar beirando 2 milhões de megatoneladas de equivalência petróleo, o que é energia para valer.

A solução: sair do planeta em busca de outras fontes. E se isso não for feito, provavelmente a terra estará com sérios problemas habitacionais em função da falta de sustentabilidade ambiental (a não ser que a população humana diminua drasticamente, o que é algo menos razoável do que pensar em expandir as fronteiras da vida).

Entramos, então, no problema da água. O aquecimento global (por causa da geração energética) está aumentando áreas desertificadas e, juntamente com o avanço da geração de efluentes, diminuindo a quantidade de água potável por habitante. As tecnologias de dessalinização do mar (que também já apresenta níveis importantes de contaminação) não se mostraram eficazes em grande escala.

Sem mais delongas, a água também tem grandes chances de virar produto de importação espacial (descobriram indícios de água em marte e há algumas semanas jogaram sonda contra uma cratera lunar para ver se há H2O no solo do satélite). Minérios também fazem parte do jogo.

É tudo uma questão de viabilidade econômica: redução de custos operacionais; escala de produção e logística.

A questão da água pode parecer meio banal no Brasil. Mas hoje mesmo o presidente vizinho, Hugo Chaves, pediu aos venezuelanos para que não tomem banho por mais de 3 minutos ao dia (oportunidade de exportar desodorantes?); na África, dezenas de milhões de pessoas tiram sua água de beber da lama, por meio de canudos com filtros improvisados.

Finalmente, entramos na questão do conhecimento. Vários dos avanços necessários para dar sustentabilidade humana ainda não são sequer sonhados fora dos livros de ficção à la Asimov. Mas em qualquer contexto, nosso padrão de vida inclui 4 condições necessárias, quais sejam: como nos alimentamos; moramos; locomovemos; e nos comunicamos. O resto são produtos e serviços secundários, também importantes, mas não essenciais para viabilizar a sobrevivência.

 

 

Eternidade de possibilidade positiva-negativa

 

 

Asimov está na base da inspiração da convivência planetária que leva o governo americano a desenhar as possibilidades futuras em laboratório como estratégia para dominar o espaço global como consequência da concepção do modelo de desen volvimento capitalista que tem na guerra a motivação permanente para as inovações, descobertas, patentes , dominações....

Asimov está na base da inspiração da convivência planetária que leva o governo americano a desenhar as possibilidades futuras em laboratório como estratégia para dominar o espaço global como consequência da concepção do modelo de desen volvimento capitalista que tem na guerra a motivação permanente para as inovações, descobertas, patentes , dominações….

Os norte-americanos, dentro dessa lógica, estão fazendo interessantes experiências de simulação de sobrevivência de pequenas comunidades em redomas de vidro isoladas, para avaliar as necessidades em lugares como Marte. Evidentemente, o governo daquele país não está fazendo isso é simplesmente para jogar no lixo bilhões de dólares. É conhecimento com claros objetivos de aplicabilidade.

Em resumo, está ficando cada vez mais evidente que a economia desse nosso mundinho vai ter que extrapolar suas próprias fronteiras em um tempo que não pode mais ser chamado de longuíssimo prazo.

Há algum tempo alguns cientistas de ponta se reuniram para avaliar o sentido da vida. A conclusão deles foi interessante: se o universo está em expansão acelerada, é porque ele produz energia. E para equilibrar tal superávit, a função da vida, sob ótica universal, seria simplesmente gastar essa energia.

E isso é o que a humanidade está fazendo. Mas a forma de gasto atual é crescentemente ineficaz, devendo ser aprimorada. Daí a necessidade de transcende as fronteiras planetárias.

Se pensarmos nas nossas origens tribais, isso não passa de mais um salto de desbravamento de fronteiras, que sempre foi viabilizado pelo conjunto básico dos quatro elementos associa ao conhecimento que citei antes: alimentação; habitação; locomoção; e comunicação.

Olhando por essa ótica a coisa fica mais palpável; depende apenas de um aumento de visão de escala. Afinal, os países que tem esses elementos atualmente equacionados de forma razoável, são, hoje, classificados como desenvolvidos.

Não custa lembrar: o fato gerador desse tipo de sucesso é a aplicação de conhecimento adquirido, normalmente via processo educacional. E as conseqüências são melhores condições de acesso a bens serviços e relacionamentos que realmente dão o sabor especial a vida.

Sendo assim, a essência do futuro, mesmo transcendendo a esfera planetária, é a mesma do presente e do passado, havendo apenas variações de formas e escalas de produção e consumo.

Em resumo, o universo previsto por Asimov não é tão diferente do nosso e fica parecendo cada vez menos fantasioso. Tanto isso é verdade, que até o desenho dos Jetsons ( desenho animado de família do futuro, criado pelos estúdios de Hanna Barbera) virou, em certos aspectos, algo retrô: o videofone já é acessível; e andar em esteiras rolantes se tornou tecnologia banal… os Flinstones (família da idade da pedra), por outro lado, ficaram bem mais divertidos.

 

Eduardo Starosta – economista

http://estplan.blogspot.com