Nasce moeda sul-americana

O germe da moeda sul-americana nasceu nessa segunda feira histórica em que os presidentes da Argentina, Cristina Kirchner, e do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, decidiram que o comércio entre os dois países, a partir de outubro, dispense o dólar.

Será realizado mediante troca de moedas dos dois países. O método, disseram, se entenderá, num segundo momento, para os demais integrantes do Mercosul, Uruguai e Paraguai. Influenciaria decisões nesse sentido aos demais países que, também, estão se filiando ao bloco comercial, Chile, Bolívia e Venezuela. Estará, na prática, intensificando-se, dialeticamente, integrando tanto o Mercosul como a Comunidade Andina. Estaria, portanto, cimentada a base da União Sul-Americana – Unasul – , para lançamento da moeda comum sul-americana. Depois, parlamento sul-americano, banco central sul-americano, forças armadas sul-americana, tribunal sulmericano. segurança sul-americana….

Os bancos centrais do Brasil e da Argentina providenciarão medidas de ajustamento nas relações das duas instituições, para coordenar as relações monetárias brasileiro-argentinas. Logo, naturalmente, as economias de ambos os países estarão se transformando numa só economia, trabalhando em conjunto no plano fiscal e monetário, para promover o sistema econômico bi-nacional. Uma potencia sul-americana global.

Trata-se de prática que disseminará comportamentos fiscais, monetários e creditícios no âmbito das duas economias integradas, sinalizando o futuro da integração efetiva da economia continental.  Caminha-se, portanto, para intensa relação direta que se traduzirá em remoção de velhos conceitos econômicos protecionistas.

O jogo da globalização, como destaca o economista Márcio Porchman, estabelece grandes grupos econômicos superiores aos estados nacionais, que se transformarem em reféns deles. A organização sobre-estatal, no plano dos blocos econômicos, coordenados por estados nacionais, torna-se necessidade como preservação do próprio Estado nacional que, sob o keynesianimso, vai se apodrecendo, de tantas de dívidas. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. A união sul-americana, cercada de riquezas por todos os lados, sob cobiça universal, vai se impondo como imperativo categório. Como comprova o plano de defesa continental que já está sendo discutido mediante visão geoestratégica da América do Sul, no cenário global, como condição de nova rica do mundo. Possui a riqueza real e não a riqueza fictícia, que está sumindo na bancarrota financeira neoliberal.

América do Sul no pré-sal

Ao mesmo tempo, o presidente Lula, no auge da euforia com a descoberta trilhonária das reservas de petróleo do pré-sal, destacou a necessidade de a Argentina participar, diretamente, do esforço brasileiro de explorar as jazidas de petróleo na costa que estão a seis mil metros de profundidade. Jogo binacional.

O propósito é o de criar infra-estrutura produtiva em torno da exploração petrolífera cujo resultado será agregação de valor industrial, traduzido em refinarias, petroquímicas e derivados industriais desse processo de industrialização ligado ao petróleo.

Se o capital argentino entra no negócio do pré-sal, por que os capitais do Uruguai, do Paraguai, da Bolívia, do Chile, da Venezuela, da Colômbia, enfim, dos 13 países sul-americanos não farão também? É o jogo da integração em marcha. A riqueza sul-americana dá a base material da integração, que já se realiza por intermédio de diversas obras de infra-estrutura em curso. O jogo se inverteu. A América do Sul está de bola cheia.

A visita de Cristina Kirchner ao país na semana da pátria entra para a história da relação Brasil-Argentina por ter dado pontapé inicial na unificação das moedas dos dois países para efeitos comerciais, abrindo espaço para uma nova realidade monetária sul-americana, no momento em que a economia mundial vive os estertores de grave crise monetária decorrente da bancarrota financeira produzida pela implosão do setor imobiliário dos Estados Unidos, espraindo destruição de riquezas na Europa e no Sudesde Asiático.

A estatização bancária nos Estados Unidos, tomada, inicialmente, em relação aos dois maiores bancos imobiliários, demonstra novo curso aos acontecimentos capitalistas, dado que a orientação do mercado está fracassando, colocando em risco a economia mais poderosa do mundo.

Novo contexto internacional

Tal situação dramática, potencializando a crise global, acelerada pelo empoçamento do crédito, devido às desconfianças dos bancos em emprestar em ambiente de falências dos mutuários, em face da queda dos preços dos ativos imobiliários, abre espaço para desorganizações monetárias nas relações de troca internacionais. Os efeitos de tais solavancos, como demonstra a história, balançam instituições, pois afetam o humor da população que é dominada pelo sentimento de perda do seu poder de compra, induzindo-o à ira política. O neoliberalismo jamais voltará a ganhar eleições, depois da crise bancária.

Nesse ambiente, as matérias primas essenciais, escassas, tendem a aumentar de preços, no contexto em que a moeda de troca referencial, o dólar, enfraquece-se, sofrendo deterioração cambial crescente. Ao mesmo tempo, os países industrializados têm seus produtos desvalorizados, no cenário global, graças à concorrência, impulsionada pelo desenvolvimento científico e tecnológico.

Tendem a inverter-se as deteriorações nas relações de trocas. O câmbio deixa de ser arma poderosa contra as mercadorias, que se transformam em poderosas armas contra o câmbio, fragilizado pelo excesso de moeda americana na praça, desvalorizando seu poder de compra e impondo, consequentemente, inflação mundial, que induz os governos ricos a baixarem os juros, promovendo a eutania do rentista.

Não estaria afastada possibilidade de emergência internacional capaz de levar os bancos centrais à discussão sobre necessidade de novo modelo monetário global, caso a crise se aprofunde e coloque em xeque a capacidade do tesouro americano continuar emitindo moeda para salvar o sistema financeiro da bancarrota neoliberal em curso. O neoliberalismo, como proposta econômica, perde utilidde. Nega a regra número um de Keynes: “Tudo que é útil, é verdadeiro. Se deixa de ser útil, deixa de ser verdade”.

O lançamento de nova modalidade nas relações de troca entre Brasil e Argentina que escanteia o dólar demonstra que se caminha para a moeda sul-americana? O lastro para garantir ela, pelo menos, já está dado nas riquezas potenciais continentais, bombando no cenário internacional, dando maior visibilidade ao continente sul-americano no plano global.

A bancarrota financeira global que reduz o poder relativo dos ricos em relação aos pobres que podem vir a ser mais ricos do que os que agora temem o fantasma da pobreza somente ajudará a dar novo colorido político ao nacionalismo sul-americano, anunciado por Cristina Kirchner e Lula da Silva. Pode representar plataforma política contra os efeitos destrutivos que poderão advir da crise bancária cuja duração ninguém prever, pois estão todos assombrados.

Bancarrota financeira neoliberal

A pregação neoliberal americana é para inglês ver. Vale da boca para fora. Aos países capitalistas da periferia, a solução é o neoliberalismo. Quando a situação fica preta na economia americana, a solução é estatal. O internacionalismo americano se transforma em nacionalismo bancário quase xenófobo. A estatização dos bancos imobiliários Fannie Mae e Freddie Mac, que têm  financiamentos imobiliários da ordem de 5 trilhões de dólares, demonstra a duplicidade da teoria americana. W. Bush, para evitar bancarrota financeira, entrou em campo. O tesouro americano vai assumir os prejuízos, jogando 200 bilhões de dólares na fogueira, para os consumidores, depois, pagarem a conta em forma de impostos, taxas e contribuições, já que não existe almoço grátis. Os aplicadores nas hipotecas dos dois grandes bancos privados, que atuam com o aval do governo dos Estados Unidos, para tocarem a política habitacional, estão dependurados na brocha. Governos asiáticos, que aplicaram suas reservas no Fannie Mae e Freddie Mac, podem levar prejuízos monumentais. As grandes exportações asiáticos, mediante moedas competitivas relativamente ao dólar, geram divisas que são gastas em compras de títulos da dívida americana e de grandes bancos dos Estados Unidos. A febre imobiliária, comandada pelos bancos Fannie Mae e Freddie Mac, atraiu muita grana asiática. Esta, agora, pode transformar-se em poeira. A ultra-especulação que se verificou, nos dois ultimos anos, no mercado imobiliário americano, espraiando-se pela Europa, deu-se com a proliferação do dólar derivativo. Dinheiro que gera dinheiro em escala global, levou o mercado imobiliário à esquizofrenia. Financiamentos para comprar casas se reproduziram em escala inimaginável no mercado de derivativos, alavancando negócios sem lastro, cujos efeitos, agora, são quedas violentas das cotações imobiliárias e perdas de hipotecas e falências generalizadas. Onze bancos já foram para o espaço. Os bancos, que alavancaram créditos podres, garantidos por outros créditos pobres, deslastreados, tiveram, diante da queda de preços dos imóveis, de suspender o crédito. A interrupção do mercado creditício levou ao empoçamento do dinheiro, que perde valor monetário. Sem a circulação do dinheiro no mercado, os prejuízos se avolumam. O capital, em sua fase puramente financeira, não consegue se reproduzir na produção porque a circulação das mercadorias se interrompe na bancarrota do crédito. Os bancos estão sendo condenados a registrarem prejuízos de bilhões de dólares. São quase 7 trilhões de dólares de prejuízos. Estes tendem a aumentar indefinidamente, especialmente, se os dois bancos estatizados tivessem ido à falência. O governo americano banca a estatização bancária como alternativa para evitar o colapso do capitalismo americano. Evidencia-se que na economia meramente monetária, bancada pelo dólar sem lastro, a estatização dos bancos vai se transformando em necessidade imposta por um fenômeno caracterizado pelo próprio colapso da moeda deslastreada, da qual os investidores, apavorados, fogem. O momento é de pânico na economia mundial, que, sob o dólar apodrecido no mercado de derivativos, gera tensões sociais e políticas, altamente, explosivas. Este é o momento mais crítico para a economia capitalista, segundo Lenin, pois, diante do perigo de perda de poder aquisitivo da moeda, as reações humanas se tornam irracionais. Nada mais adequado para as teses socialistas. Na verdade, as crises monetárias, conforme destacou o líder da revolução comunista soviética, em 1917, são as parteiras do socialismo, a melhor propaganda do movimento socialista internacional. Muitas tensões à vista nos próximos tempos de grande recessão na economia mais poderosa do mundo, cujos reflexos estão se fazendo sentir na Europa, podendo balançar os alicerces da social-democracia ocidental.

Cristina pressiona Congresso por Chavez

Cristina Kirchner, presidente argentina, que virou manchete nesses dias por ter anunciado retomada dos pagamentos da dívida externa de 6 bilhões de dólares ao Clube de Paris, suspensos desde 2002, chega ao Brasil, na semana da pátria, em meio à crise bancaria mundial, que derruba as bolsas internacionais e sinaliza recessão na Europa e Estados Unidos, perigando espraiar-se mundo afora.

Ela vem sentir a euforia brasileira com a riqueza descoberta na camada pré-sal, que guardaria reservas de 70 bilhões de barris de petróleo, para poder conferir redenção econômica e social brasileira, segundo promete o presidente Lula,  mas, também, pretende fazer pressão sobre o Congresso Nacional em favor da aprovação da proposta de entrada da Venezuela no Mercosul.

Há um bloqueio a essa possibilidade, depois que o presidente venezuelano, Hugo Chavez, considerou o Congresso brasileiro papagaio de Washington. De certa forma, é, porque passou a ser governado, na Nova República, por medidas provisórias, que interessam, basicamente, aos banqueiros internacionais, em prejuízo dos interesses nacionais.

Exemplo clássico dessa subserviência continua sendo, conforme determinou o FMI, sob orientação de Washington, a forma de avaliar o ainda vigente critério de contabilidade das contas nacionais segundo o qual gastos de empresas estatais significariam déficit e não investimento, enquanto pagamento de juros representaria não despesa, mas superavit operacional. Inversão total.

O episódio Chavez-Congresso brasileiro criou resistências político- psicológico-ideológicas equivocadas, cujo desfecho foi, até agora, radicalismos, a despeito de estar em curso integração econômica entre os dois países, movimentando significativos investimentos da parte de grandes empreiteiras nacionais na Venezuela, realizando a infra-estrutura venezuelana, abastecida pela fonte financeira do petróleo.

Um dos maiores grupos empresariais brasileiros, Norberto Odebrechet, tem sua receita ampliada, atualmente, em grandes investimentos no país de Chavez, tocando obras que integrarão, futuramente, os dois países, no contexto sul-americano.

O ex-presidente , senador José Sarney(PMDB-AC), aliado do presidente Lula, é o principal desafeto de Chavez, no Congresso, onde estaria fazendo resistência contra a entrada da Venezuela, sob chavismo, no Mercosul, por considerá-lo caudilho antidemocrático. Reagiu energicamente e rompeu com o titular venezuelano-bolivariano por conta dos seus ataques ao parlamento nacional.

Chegou, por isso, a receber visita de cortesia e apoio do embaixador dos Estados Unidos, Clinfford Sobel. Logo em seguida, foi homenageado em Nova York por comunidades de lobistas anti-chavistas, propagandistas da posição anti-Chaves, abraçada pelo presidente W. Bush.

A oposição, que, por sua vez, tenta, desesperadamente , no Congresso, uma bandeira de campanha eleitoral, talvez na defesa de uma CPI dos grampos, vai fazer de tudo para azedar a vida de Chavez, a fim de impedir a materialização do apelo de Cristina Kirchner.

A titular da Casa Rosada , devedora de Chavez, que compra títulos da dívida pública argentina, para salvar o país do bloqueio financeiro internacional, certamente, não entraria em bola dividida. Lançaria bandeira supra-partidária, nacionalista e sul-americana, para pedir agilização aos congressistas no fortalecimento do Mercosul. Emplacará?

Se a tentativa de Cristina der certo, terá sido dado pontapé para união do Mercosul com a Comunidade Andina, da qual a Venezuela faz parte, traduzindo-se, naturalmente, em alto negócio para a economia de todo o oeste brasileiro, que faz fronteira com a América do Sul.

No geral, fortaleceria a União das Nações Sul-Americanas(UNASUL), que tem em seu horizonte o parlamento sul-americano, o banco central sul-americano, a moeda sul-americana, o tribunal sul-americano e defesa sul-americana.

Plataforma nacionalista

Está em jogo a ampliação do Mercosul no cenário sul-americano e possível transformação de tal expansão em plataforma política nacionalista continental, no compasso em que analistas internacionais prevêem, sem muita convicção, resistências dos países emergentes à onda recessiva que começa a ser feita a partir dos países ricos, afetados por crise de crédito. Esta, indubitavelmente, os coloca em perigos monetários e cambiais, tornando mais difícil o histórico exercício que praticaram de promover deterioração nos termos de troca nas suas relações com os países mais pobres.

Em tal contexto, o nacionalismo sul-americano avança na Venezuela, Argentina, Bolívia, Equador, Paraguai e, agora, no Brasil, na fase das descobertas petrolíferas, embalado pelo aquecimento do mercado interno, expresso no crescimento de 9% da indústria, de janeiro a julho, em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com a Confederação Nacional da Indústria(CNI).

O apelo à mobilização em defesa da riqueza brasileira e sul-americana, sob intensa observação internacional –  como comprova o deslocamento da quarta frota norte-americana, desativada desde a segunda guerra mundial, pelos mares da América do Sul, nesse instante – deverá, no Brasil, ser dado no dia da Independência , 7 de setembro, a ser prestiado por Cristina Kirchner.

Seria uma resposta à manobra naval dos Estados Unidos no continente?

Não apenas o presidente Lula prepara discurso retumbante, ancorado na riqueza emergente do petróleo, que poderá trazer a rendenção econômica e social do país, mas, igualmente, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, anunciará plano de defesa nacional que visa reformar e valorizar as forças armadas.

Cristina Kirchner, portanto, chega ao país com o clima nacionalista em ascensão nas hostes governistas, embaladas pela antevisão da riqueza do petróleo e da necessidade que ela impõe em termos de fortalecimento da segurança nacional.

Seria tal clima ingrediente político que trabalharia a favor do discurso de Cristina Kirchner em seu apelo, nacionalista e sul-americano, ao Congresso por Chavez?


Dependencia argentina

Certamente, a presidente portenha deve grande favor a Chavez,  salva pelo tesouro venezuelano chavista, abastecido pelas receitas do petróleo.

Não seria, apenas, isso. O peso estratégico argentino nas relações com o Brasil é poderoso e poderá falar alto na relação com o Congresso brasileiro, dado que 40% do total das exportações brasileiras se destinam à Argentina. O Mercosul, fortalecido pela entrada da Venezuela, puxaria a comunidade andina e ampliaria os propósitos estratégicos da UNASUL.

Seriam fortalecidas ainda mais as relações brasileiro-portenha. São unha e carne, apesar do futebol. Sem o consumo argentino, o deficit em contas correntes brasileiro entraria em colapso, no momento em que a moeda nacional sobrevalorizada frente ao dólar sobredesvalorizado reduz exportações e potencializa importações.

O ex-presidente Sarney ficaria em sinuca de bico. Não pode combater Chavez por entrar no Mercosul e muito menos criticar suas posições nacionalistas, porque seu principal aliado no governo Lula, ministro das Minas e Energia, senador Édson Lobão(PMDB-MA), abraçou a causa nacionalista com paixão, à moda Chavez.

O Congresso brasileiro estará diante de um desafio sul-americano na semana da pátria.

Deixará de consolidar o Mercosul, por conta de idiossincrasias políticas, atiçadas no calor das disputas ideológicas nacionalistas?

Ou pensará grande no contexto da formação de alicerces fortes para ajudar consolidar a União Sul-Americana,  sinalizando interesses geoestratégicos sul-americanos no contexto globalizado?

Condenado à forca

O pensamento econômico midiático brasileiro acaba de sofrer uma derrota histórica. Enforcamento. Está condenado por ter-se alinhado ideologicamente ao fato óbvio de que a contabilidade nacional, sob orientação do FMI e credores, estava e continua trabalhando contra os interesses do país.

Ao longo dos últimos vinte e três anos de Nova República, em que predominou o consenso favorável aos interesses financeiros, na cobertura dos fatos econômicos, muitas vezes produzidos em laboratórios com teorias abstratas, a grande mídia nacional abraçou apaixonadamente o crítério de superavit primário, obra prima do pensamento bancário,  para balizar a contabilidade nacional relativamente ao cálculo do deficit público nacional.

Enquanto o mundo inteiro segue o critério do deficit e do superavit nominal, que computa tudo, receitas e despesas, inclusive o pagamento dos juros da dívida governamental, no Brasil, o FMI, sob orientação dos bancos e sob supervisão da Casa Branca, empurrou goela abaixo o conceito de superavit primário, que consiste no balanço das receitas e despesas, excluindo, os juros.

Ou seja, os custos financeiros da dívida pública deixaram de constar como despesa. Enquanto isso, os investimentos das empresas estatais passaram a ser contabilizados como déficit. Seria cômico, se não fosse trágico.

Se a semi-estatal Petrobrás investe 100 milhões para extrair óleo de um poço estaria realizando um gasto ou um investimento?

Para os credores-FMI, seria gasto. Sendo gasto, aumenta o déficit, que sinaliza incertezas, cujos efeitos são juros altos. Um conceito de déficit que bombeia a taxa de juros. Genial. Mas, não seria investimento a aplicação daquele montante? Não garante retorno ao capital aplicado, com juros e correção monetária, no mercado do ouro negro, o mais rentável do mundo?

É deficit ou investimento? Jamais essa discussão prosperou, para valer, na grande mídia, que enfiou a cabeça na areia, dando uma de avestruz.

Só no Brasil o conceito de superavit primário foi levado a sério. Há vinte anos, a grande mídia, com um esforço monumental de cobertura falsa, martela na cabeça dos brasileiros tal conceito, sem desconfiar de que ele é que aumenta o déficit governamental e não os gastos em si do governo, na escala considerada pelas avaliações do mercado, dadas pelos economistas dos bancos, os quais encontram espaços privilegiados para expor suas teses abstratas ancoradas na irrrealidade do conceito.

O abstrato sobrepôs à realidade. O que é a realidade? A vida normal. Os juros de 51,9%(BC) que a sociedade paga para bancar o crediário na casa dos R$ 600 bilhões são despesas normais. Na contabilidade pública jurista-bancária da Nova República, não. Já, investir é despesa. Show.

Os brasileiros são vítimas das inversões ideológicas. A maiora dos empresários nacionais, por exemplo, considera salário despesa e não renda, valor que se valoriza, potencializando o próprio capital. E quando não precisar mais de mão de obra que gera o lucro extra, no compasso do desenvolvimento cientifico e tecnologico, sinalizador de futuro cheio de lazer para ser explorado economicamente?

Ainda não se chegou ao liberalismo desenvolvido europeu bancado pela social democracia. O superavit primário brasileiro importado é a expressão da barbárie neoliberal que impede o país, com a ajuda da mídia, a conquistar economia sustentável.

Consumido, exageradamente, pelo pensamento midiático, o superavit primário representa uma das grandes aberrações da história econômica nacional e, igualmente, do jornalismo econômico verde-amarelo. Teatro do absurdo no reino da abstração alienada.

A decisão do governo Lula de rever a contabilidade nacional está sendo vista com abestalhamento total pelos editorais. Vai ficar chato. Será preciso muita humildade para reconhecer a subserviência do pensamento midiático ao conceito abstrato que tem imposto sacrificio social ao país há vinte e tantos anos.

Grande Freud: “As palavras[e os conceitos] servem para esconder o pensamento.


A construção do absurdo

O superavit primário nasceu, nas águas da crise monetária dos anos de 1980, para ancorar a justificativa de existência de dois orçamentos na contabilidade nacional. De um lado, o orçamento não-financeiro, onde entra a vida dos brasileiros, no quotidano, as despesas e as receitas, inclusive, os juros; de outro o orçamento financeiro, à parte.

No contexto do ajuste nacional, o orçamento financeiro, de interesse direto dos credores do governo, cuidou de se garantir na Constituição. Sua bela vitória se deu com a fixação, como causa pétrea, do direito do sistema financeiro de estar fora do contingenciamento de gastos em forma de pagamento dos serviços da dívida.

Dois pesos, duas medidas. O art. 166, parágrafo terceiro, II, letra b, privilegia o interesse financeiro e deixa descoberto o interesse social. Contingencar despesas da saúde, da educação, da segurança, da infra-estrutura nacional, pode. Contingenciar recursos ao pagamento do juros, não.

De um lado, o orçamento financeiro, privilegiado, não pode ser mexido. Do outro, o orçamento não-financeiro, perfeitamente mexível, por meio de contingenciamentos generalizados.

O conceito de superavit primário , ao considerar o orçamento financeiro priviligiado, transforma-se em parcela do deficit nominal que não é contabilizada, para sobreviver como um príncipe herdeiro do trono, que não pode ser contestado.

Tremenda fraude contábil. Todas as demais formas de desvio de dinheiro, perante essa manobra, é pinto. Mensalão? Brincadeira. São bilhões, minha gente.

De janeiro a julho, foram liberados R$ 106 bilhões para os serviços da dívida. Se for na mesma batida, até dezembro, mais de R$ 200 bilhões. Oito anos de Governo Lula x R$ 200 bilhões = R$ 1,6 trilhão. O peso do PIB. Nos últimos 12 meses, foram desembolsados, R$ 174 bilhões.

O conceito de superavit primário é bombeamento de liquidez financeira poderosa que inviabilizou o jornalismo econômico nacional de ganhar maturidade no sentido de investigar as causas dos juros altos no Brasil.

A explicação não está, obviamente, nas causas econômicas, mas, fundamentalmente, políticas. A governanaça provisória nacional é fruto do pensamento determinado pela orientação dada no conceito de superavit primário.Poder bancocrático.

Inversão de fatores. O Banco Central dos Estados Unidos, quando fixa os juros, leva em consideração o todo da atividade produtiva; no Brasil, o BC, sob a legislação atual, feita por um Congresso de joelhos, observa tão somente a preservação financeira do orçamento financeiro, enquanto taca juro alto em cima do orçamento não-financeiro, em nome do combate à inflação. Só uma parte, a sociedade, paga o pato. A outra, o sistema financeiro, os aplicadores, fica de fora.

Não há um comentarista econômico da grande mídia que ousou provocar a falta de equidade no tratamento desses dois orçamentos. Compreensível. Não há espaço para essa liberdade. Não é possível exercitar o mandamento número um do jornalismo sob o manto da dominação financeira sobre o mundo midiático. De um lado, o privilegiado, orçamento financeiro, nepotista. Do outro, descaradamente, prejudicado, a população, ancorado no orçamento não-financeiro, todo furado de bala. O tratamento equitativo aos dois lados não foi, ao longo da Nova República, liberada da ditadura militar, exercitado. Teria predominado a ditadura financeira ou não?

O Congresso, dominado pelas medidas provisórias, que interessam aos credores, não poderá reclamar, se o Supremo Tribunal Federal for acionado, por conta dos prejuízos ao povo brasileiro, decorrente do conceito de superavit primário.

Está na cara. A grande mídia brasileira precisa ter um encontro consigo mesma. Se ela continuar submissa ao conceito ideoligizante do superavit primário, vai, naturalmente, ser, ideologicamente, contra os investimentos públicos, barrados por um conceito abstrato.

Está na hora de botar o pé no chão, no plano da cobertura econômica, para focar no principal. O país não aguenta mais pagar essa taxa de juro escorchante, que, nos últimos seis anos já sangrou o tesouro em mais de R$ 1 trilhão.

A repórter Cláudia Safatle, do Valor Econômico, marcou grande tento, na sexta, 29, ao entrevistar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre o assunto. A proposta dele, de instaurar o conceito, nacionalista, de déficit e superavit nominal, jogando por terra a falsidade do conceito de superativ primário – abstração inteligentíssima da direta financeira – pega o jornalismo de calças curtas, viciado no viéz neoliberal contido no conceito de superavit primário, essencialmente, alienante.

Ideologia entra no debate econômico

Certamente, vai emergir, proximamente, uma versão nacionalista para a contabilidade nacional, escanteando a contabilidade neoliberal ditada ao país depois da crise monetária dos anos de 1980.

Marx destaca que as crises monetárias nascem nos países cêntricos por conta da sobreacumulação de capital, e se espalha pela periferia em forma de dívida externa, fundamentalmente, instrumento de dominação internacional.

Para tentar salvar o dólar, Washington, em 1979, subiu os juros de 5% para quase 17%. Quebradeira geral e necessidade de, no rastro de tal quebradeira, ministrar a vida dos quebrados, para que eles não dessem  calotes nos credores.

O superavit primário nasce nesse contexto e passa a ser disseminado pelo Consenso de Washington, ao longo da década de 1980, tendo como operador o FMI.

Seria conveniente continuar com o conceito de superavit primário no momento em que a inflação começa a tomar conta da economia americana e européia, sinalizando tentações para elevação dos juros, como arma para enxugar o excesso de dólares derivativos, derivodólares, que estão bombando a bancarrota financeira?

O capitalismo já viveu a crise do eurodólar, do nipodólar, do petrodólar e, nesse momento, emerge o derivodólar.

O excesso de derivodólares pode ser um perigo para as finanças brasileiras, caso continue predominando o conceito de superavit primário. Armadilha financeira pura. O deficit aumenta sob o derivodólar impulsionado pelo conceito de superavit primário.

A crise monetária dos anos de 1980 colocou a Nova República de joelhos diante das determinações de Washington, a serviço dos bancos, para proteger seu capital aplicado na periferia.

A história vai se repetir como farsa?

Depois da emocionante sucessão presidencial nos EUA, pode pintar outra dose de arrocho, na tentativa de Washington salvar o dólar, ameaçado pela inflação, que está batendo perto dos 5%, graças à bancarrota financeira.

Tio Sam vai deixar o barco afundar ou reagir?

O jornalismo econômico nacional, se vier uma trolha por ai, embarcaria novamente na armadilha de um conceito abstrato?

O governo Lula coloca no debate o deficit e o superavit nominal em contraposição ao superavit primário; a realidade, nacionalismo, contra a abstração, neoliberalismo, detonado pela implosão do derivodólar.

Nacionalismo contra juro alto

O governo Lula está colocando última pá de cal sobre o caixão do FMI relativamente as suas determinações sobre a contabilidade pública nacional nos últimos vinte e três anos de Nova República. Detona a contabilidade neoliberal e busca instaurar a contabilidade nacionalista, para tentar diminuir o pagamento dos juros sobre a dívida pública interna, que alcançou R$ 173 bilhões nos últimos doze meses, inchando, incontrolavelmente, o endividamento governamental em R$ 1,63 trilhão, em julho, equivalente a 55,6% do PIB. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, deu o tom da orientação do novo neo-nacionalismo contábil anti-jurista-lulista, na sexta, 29,  à repórter Cláudia Safatle, no Valor Econômico.

Apostando na nova contabilidade, que altera conceito de déficit público e poderá proporcionar despesas menores com os serviços da dívida, a administrração lulista, no embalo da euforia da descoberta dos estimados 70 bilhões de barris de petróleo do pré-sal( multiplicados por 100 dólares o barril, uma baba de dinheiro), acelera, em vez de conter, os gastos para o ano que vem, acima das receitas, de olho em antecipações financeiras oriundas do ouro negro.

Tenta trazer o futuro para o presente, algo em que os investidores nacionais e internacionais se mostram interessados em bancar, em parceira com a União, dona das reservas, buscando óleo no fundo do mar, possivelmente, sob coordenação institucional estatal a ser dada pela nova lei do petróleo a ser enviada ao Congresso depois das eleições municipais.

No momento em que as economias desenvolvidas balançam sob o impacto da crise bancária, a intenção nacionalista do presidente Lula de inverter a sangria financeira, mudando o conceito de déficit, e de alavancar investimentos do petróleo sob coordenação estatal, poderia merecer aplausos, principalmente, porque ajudaria a desempoçar recursos estancados pela estagnação do crédito internacional.

Permitiria reprodução do capital ameaçado por recessão, que, aliás, não se sabe se virá à tona, dado que a economia americana, no trimestre do ano, cresceu, em termos anualizados, 3%. Proporcionou, durante a semana, surpresa e alívio aos mercados, por enquanto, graças ao dólar desvalorizado, que aumenta exportações americanas e desembolso governamental, de caráter nacionalista, do presidente W. Bush para proteger o consumidor da falência decorrente do estouro do setor imobiliário.

Não estaria, por isso,  afastada possibilidade de que as grandes reservas brasileiras de petróleo, nesse instante de fortes incertezas internacionais, viessem a se transformar em fator de estabilização econômica global, proporcionando ao país novo papel na correlação de forças econômicas e políticas internacionais.

Os paradigmas estão mudando, com a inversão na deterioração das relações de troca. Basta observar a disposição dos Estados Unidos nesse sentido. Barack Obama, candidato do Partido Democrata, promete, se eleito, livrar os americanos da subordinação ao petróleo do Oriente Médio. Está de olho em parceria mais intensa na América do Sul, como destacam seus assessores. A quarta frota naval americana em mares sul-americanos não seria mera coincidência.

Ao mesmo tempo, em meio a esse novo clima, o Planalto, otimista, pomposamente, anuncia aumento dos gastos com pessoal em 4,8% e do salário mínimo em 13%, acima da inflação(6%, em 2008, provavelmente), de acordo com o orçamento previsto para o próximo ano.

Sonhos de bonança. Tempo de sucessão presidencial antecipado em época de eleição municipal. Pode pintar uma lavada das forças governisas sobre as oposicionistas nas eleições municipais em outubro.


Fim da inversão ideológica

Depois dos anos de 1980, com a desvalorização do dólar, que elevou os juros nos Estados Unidos em nome do combate à inflação e quebrou a economia capitalista periférica,  mudaram os conceitos contábeis para os cálculos do deficit público estabelecidos pelo Fundo Monetário Internacional, sob orientação do Consenso de Washington, nascido para monitorar as finanças dos governos dos países falidos.

Tais cálculos sempre correram em favor dos credores, inchando o déficit público, de modo a tornar permanentemente gorda a conta dos serviços da dívida pública interna. Parece, agora, que o governo chegou ao limite do estresse com o conceito de déficit do FMI – que ainda sobrevive como fantasma sobre as contas públicas – , depois que o Banco Central, na quarta, 28, informou ser a conta financeira jurista, nesse ano de R$ 106 bilhões, no primeiro semestre.

Ou seja, sangria desatada pela taxa de juro alto como produto da sobrevalorização cambial em resposta às pressões inflaacionárias detonadas pelo dólar sobredesvalorizado. Contêm-se os preços, mas alarga-se, incontrolavelmente, o endividamento governamental, que sinaliza perigos macroeconômicos desestabilizadores.

O novo conceito de contabilidade nacional mudará visão sobre o déficit público. Os gastos das empresas estatais, sob a orientação contábil do FMI, passaram a representar déficit e não investimentos, que realizam retornos financeiros, expansão do emprego, da renda, do consumo e da arrecadação.

Essa interpretação, resultando em deficit elevado, implicaria maiores riscos aos credores, expressos em juros altos, que elevam, por sua vez, o próprio déficit, uma corrida contra o próprio rabo. Armadilha financeira.

O déficit cresce por conta de conceito contábil enganoso. Tal fato levou o FMI a criar uma representação falsa, abstrata, enganadora, para disfarçar tal fenômeno estapafúrdio: o de considerar que, quando, por exemplo, a Petrobrás investe 100 milhões de dólares para furar e extrair petróleo, realiza déficit e não lucro, já que o óleo será vendido no mercado nacional e internacional a preço elevado. Absurdo.

Tal representação recebeu o nome de superavit primário, que considera a receita e a despesa, excluindo o pagamento dos juros. Em vez de ser considerado deficit governamental o natural deficit nominal, que envolve tudo – receitas, despesas, serviços da dívida etc – , o superavit primário elimina a maior conta do deficit, para ser considerada à parte.

Superavit combina com sobra de recursos, que faz o Congresso resistir aos aumentos de gastos, quando, na verdade o conceito representa sacrifício dos investmentos públicos para sobrar recursos ao pagamento dos serviços da dívida.


Interesses poderosos

A separação das denominações deficit nominal e superavit primário esconde interesses poderosos por trás: grana pura.

O combate ao deficit nominal implica impor sacrifícios generalizadamente, tanto ao setor produtivo como ao financeiro, em busca de um juro mais barato para equilibrar oferta e demanda agregadas, de modo a evitar expansão inflacionária ou derrocada deflacionária.

Esse combate, naturalmente, jamais interessou aos banqueiros. Propuseram, via FMI, com supervisão da Casa Branca, sofisticação ideológica para as economias emergentes, escravizadas pelos juros: criação do conceito de superavit primário , que esconde o fato de que juro não é despesa, enquanto desembolso com investimento produtivo representa déficit.

Deixariam os juros de ser despesas normais para contraporem às receitas, na contabilidade geral, a fim de se submeterem a uma contabilidade particular.

Tal particularidade ganhou corpo na Constituição, com ajuda decisiva do ex-deputado constituinte, hoje, ministro da Defesa, Nelson Jobim. Em seu art 166, parágrafo terceiro, II, b, fica estabelecida a regra de que não se pode contingenciar recursos destinados ao pagamentos dos serviços da dívida. Ou seja, a obrigação de pagar a dívida, bombado por conceito de deficit invertido, virou causa pétrea. Tremendo privilégio, que, segundo o ex-senador e professor de economia da UnB, Lauro Campos, autor de “A crise da ideologia keynesiana”, inagurou no Brasil o reinado da bancocracia.

A decisão histórica do governo de eliminar a velha contabilidade e instaurar uma nova, que considere investimentos rentáveis os gastos das empresas estatais e não déficit, e a mudança do conceito de deficit, adotando o mais abrangente, o deficit nominal, e abandonando a artificialidade, o superavit primário, representa, na prática, controle nacionalista sobre as contas públicas e remoção da influência neoliberal sobre elas.

Roteiro da alienação

Há quase vinte anos vem sendo martelado na cabeça dos brasileiros, pela grande mídia, o conceito de superavit primário e a conceituação invertida de considerar gasto quando se realiza investimento, para que haja não o combate ao déficit, mas, sim, expansão do mesmo, sinalizando risco, para sustentar juros altos. Cama de gato.

A partir de agora, se os investimentos das estatais deixam de ser considerados déficits e o conceito de déficit muda, para englobar todas as despesas, que a sociedade precisa conhecer, haveria, não a tendência de aumento do deficit, mas a sua queda, que, consequentemente, se traduziria em juro mais baixo.

A remoção do conceito de superavit primário significa transparência que remove, também, enganação ideológica. Esta, indiscutivelmente, representou tremenda lavagem ideológica cerebral no jornalismo econômico nacional, baixada pelos técnicos do Fundo Monetário Internacional.

Prisão mental mecanicista, que, agora, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, busca eliminar. Na prática, restaura-se o que acontece no mundo desenvolvido. Nele, as contas nacionais levam em conta o conceito de deficit nominal. A Nova República tentou inventar a roda para fazer graça ao sistema financeiro, à moda neoliberal excessiva. Deu com os burros nágua.

Superavit primário só existe no Brasil, atualmente. Talvez nem em Gana. É  piada de mal gosto que os banqueiros empurram goela abaixo da platéia, obrigando-a a achar graça da sua própria alienação.

A detonação do conceito contábil neoliberal de superavit primário, substituído pelo nacionalista, o do déficit nominal, realista, transparente, colocaria em confronto o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o apóstolo dos juros?

A jogada de Mantega pode representar reversão histórica contra o juro alto, ou seja, fuga da armadilha financeira armada pelo FMI, sob orientação dos bancos, superivionados pela Casa Branca, aplaudida pelo BC brasileiro.

O fator que impedia tal reversão era o conceito ideológico mentiroso do superavit primário, que transformou a Nova República em escrava da banca internacional.

A história sobre as armadilhas ideológicas idealizadas pelo poder dá razão a Freud: “As palavras servem para esconder o pensamento”.