Fracasso de Obama impõe multilateralismo

O pacote Obama está dançando porque os Estados Unidos não são mais capazes de sairem da crise sozinhos. Previsto para jogar 900 bilhões de dólares na praça, para reanimar a produção e o consumo, de um lado, e equacionar o falido sistema financeiro, afetado por créditos podres, de outro, o pacote econômico financeiro se mostra tímido e incapaz de lançar novas expectativas para o capitalismo em crise. A comprovação veio com o pragmatismo da bolsa. Wall Street despencou. Os demais mercados, idem. Obama eleva a desconfiança, quando se esperava dele a restauração da confiança perdida.Evidenciou o óbvio: os Estados Unidos precisarão dos aliados. Urge consertação global, germe de futuro governo mundial, multilateral.
 
Sobretudo, evidenciou-se que o presidente americano está amarrado a uma conjuntura internacional que somente será restaurada se houver consenso internacional. As dificuldades encontradas por Obama para  aprovar o seu pacote no Congresso representam derrota política, como destacou o repórter Merval Pereira, na GloboNews, e , sobretudo, expõem as contradições internas da disputa pela renda nos Estados Unidos, expressa nos antagonismos partidários. Como será feita a divisão dos recursos para a produção e o consumo e quem bancará os creditos podres?
 
Os antagonismos políticos dentro da sociedade americana disputam os despojos do império sem ainda estarem inteiramente conscientes de que não serão suficientes os recursos, sequer para pagar as dívidas das famílias. Os vencimentos das dívidas são os assombrações maiores, tanto para as famílias, como para as empresas. O quadro, como destacou Yoshiaki Nakano, em “A recessão da deflação de ativos”(Valor Econômico, 10.02), impõe a lógica depressiva de a sociedade armar-se não mais para consumir mas para poupar a fim de liquidar papagaios.
 
 
Nova psicologia social
 
A psicologia social desatada pela crise financeira global joga para baixo a característica básica do capitalismo americano, o consumismo estimulado pelas ilusões de Hollywood. Preocupados com as dívidas, como seguir o glamour caro holiudiano?
 
O estouro especulativo ultrapassou as possibilidades de o pacote Obama emplacar positivamente na medida em que ele inverte a lógica das expectativas, assustando a população, já que não tem condições de tranquilizá-la. Ele teria que se socorrer nos aliados que estiveram ao seu lado até agora, para continuar comprando os títulos da dívida pública americana. Do contrário, adeus “American way of life”.
 
Desde o pós guerra, a situação vinha sob controle monetário do dólar lastreado no endividamento dos Estados Unidos, despreocupados com os deficits fiscais e comerc iais, visto que sua moeda passou  ser emitida sem lastro real. Inicialmente, o governo americano ancorou ela no ouro, mas, em 1971, rompeu a relação dela com o metal, deixando-a autonomizar-se sem maiores regras de prudência financeira.
 
A bancarrota financeira, agora, depois de abusos imprudenciais acumulados, põe ponto final a esse privilégio do dólar , mantido até agora, de ser o bam-bam-bam das relações de trocas, afetado pela desconfianças lançadas pelos créditos podres. O governo, para acabar com os títulos bichados, orçados em mais de 4 trilhões de dólares, teria que se endividar em uma escala cujos efeitos seriam lançar desconfianças insuperáveis do mercado na moeda americana. O pacote Obama deixou claro que o mercado visa essa possibilidade terrível, de bancarrota do dólar, depois da bancarrota do mercado imobiliário.
 
Se a moeda americna está contaminada pelos créditos tóxicos e o governo americano encontra-se diante de aliados reticentes e, igualmente, quebrados, indispostos a apostarem no endividamento crescente de Tio Sam, como alternativa para o capitalismo, o pacote de Obama somente daria certo em caso de uma consertação global. Emergiria governo global.
 
 
 
Novo modelo monetário
 
Uma coordenação monetária global pode ser antecipada, se o pacote Obama não der certo. A crise deflacionária incontrolável vai levando a situação nesse sentido, principalmente, quando o próprio governo americano comprova que não tem cacife suficiente para bancar os créditos podres, quando chama a iniciativa privada para dividir o prejuízo.
É o fim da utilidade do estado keynesiano como única variável econômica verdadeiramente independente sob o capitalismo, na condição de irrigador e enxugador de moeda na circulação capitalista. Se ele precisa do setor privado para fazer essa tarefa, deixa de ser o único ou revela a sua impotência para continuar exercendo essa tarefa, na escala em que se deu desde o pós guerra até agora.
 
A confusão gerada pelo pacote Obama representa a confusão do governo americano em abordar a crise sem visão e humildade suficientes, capazes de convocar os parceiros globais mais importantes para dividir o prejuízo e as novas regras limitativas ao poder do dólar e, também, do euro, em uma nova conjuntura internacional.
 
Na prática, os aliados já se desesperam em favor de tendência para materializar novo Bretton Woods. Assim como a Inglaterra, depois da primeira guerra mundial, perdeu o mercado para os Estados Unidos, em decorrência das crises monetárias detonadas pelo enfraquecimento da libra esterlina diante das falências dos devedores dos bancos ingleses, da mesma forma, o dólar, que iniciou, no pós-guerra, o século 20 americano, perdeu gás, graças ao excesso de endividamento, estimulador de bolhas especulativas que acabaram detonado o sistema financeiro americano.
 
Depois da segunda guerra mundial, a macroeconmia capitalista – a nova divisão internacional do trabalho – estruturou-se em cima da capacidade de o governo americano emitir moeda enxugada pelos títulos da dívida americana enquanto os aliados comprariam tais títulos em troca da garantia das exportações aliadas para o amplo mercado consumidor dos Estados Unidos.
 
Os deficts comerciais e fiscais americanos dinamizaram a economia global enquanto o tesouro dos Estados Unidos acumulava superavits financeiros, graças ao poder de senhoriagem global do dólar como moeda dominante na intermediação das trocas internacionais. Os créditos podres, cuja destinação o pacote Obama não consegue definir com clareza,  lançam dúvidas terríveis nos aliados dos americanos, aumentando a resistência deles à tarefa de continuarem financiando o governo americano quando o sistema financeiro dos Estados Unidos se encontra quebrado e o governo se mostra impotente para dar suporte a ele em forma de ampliação da capacidade de endividamento dos Estados Unidos.
 
Conscientes dessa dificuldade do governo americano, atolado em deficits, que se aproximam dos 7% do PIB, podendo desgovernar-se para 10%, os aliados, sem o mercado americano para desovar suas mercadorias, como antigamente, recuam, estrategicamente, na tarefa de continuar bombeando a dívida americana em troca de títulos do tesouro dos Estados Unidos, como faziam até antes da crise estourar em setembro do ano passado.
 
 
 
O rei está nu
 
Obama, a caminho do fracasso, se não encomendar sua alma a um novo Bretton Woods, para que os aliados, igualmente, falidos, criem novo sistema monetário internacional, capaz de eliminar os créditos podres, na canetada, com os americanos rendendo-se a um novo poder monetário compartilhado, poderá, já, já, enfrentar estouro bancário americano, que , por sua vez, explodirá a Europa, entupida de créditos podres, passados pelos bancos americanos.
 
Pode pintar umas quatro moedas. Continuaria o dólar, ancorado na riqueza americana, que é poderosa, mesmo baleada, graças ao poder de inovação tecnológica adquirido pela sociedade em seu conjunto. Ao lado da moeda americana, relativamente reavaliada em seu poder de troca, estariam, também, uma moeda européia, uma asiática e, provavelmente, uma sul-americana, se a América do Sul se unir para valorizar o seu potencial econômico em nova conjunutra internacional pós-dólar todo poderoso. Seria possível ainda uma moeda árabe, ancorada no poder do petróleo.
 
O pacote Obama, que abre expectativa de novo contexto, na medida em que obnubila o horizonte, ainda impossível de ser dimensionado em sua total complexidade, demonstra que o unilateralismo foi para o baú da história. Somente pelo multilateralismo será possível resolver o colapso americano e europeu, ou seja, a derrocadas das duas mais fortes moedas capitalistas erigidas ao longo da história do capitalismo, depois do predomínio da libra, nos séculos 18 e 19.
 
Nova divisão internacional do trabalho, no compasso dos desajustes do capitalismo, sinaliza necessidade de nova concertação internacional, governo mundial. A alternativa seria retorno ao protecionismo, isto é, ao retorno do fascismo e possível terceira guerra mundial. Enfim, destruição atômica. O rei está nu.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Crise fortalece comunismo

A violenta crise econômica em marcha está transformando o Estado em grande banqueiro, grande empresário, grande investidor e instrumento de combate à inflação, irrigando e enxugando a circulação monetária para tentar manter funcionando a produção e o consumo, a fim de evitar explosão do desemprego e do regime capitalista. Mas, para salvar o capitalismo o governo está ganhando, com seu aspecto interventor, a feição comunista, pregada por Lenin, na revolução soviética. Em seu famoso livro “Tacão de Ferro”, prefaciado, de forma entusiástica por Trotski, Jack London, em 1910, traçou em linhas gerais o que está acontecendo, agora, no auge da crise capitalista. 

 

Em nome do interesse público, previu,  o governo é obrigado a dominar a cena econômica, transformando-se em grande oligopólio geral, porque o sistema, sob a lei de mercado, se auto-condena ao suicídio econômico no estouro especulativo suicida. Ergue-se o oligopólio estatal financeiro para dominar o falido oligopólio financeiro privado, atolado nos créditos tóxicos, totalmente, podres, obstruindo o canal global do crédito, da produção e do consumo, jogando o sistema da deflação autodestrutiva.
Entra o Estado em campo para evitar que a moeda seja destruída , como corre perigo o dólar, se a crise bancária avançar perigosamente, e se o pacote Obama não for uma brastemp, como parece que não é, dadas as controvérsias lançadas no Congresso, onde o presidente tem maioria. Imagine se não tivesse…
Configura-se a emergência do governo nos moldes comunistas leninistas em que a interferência estatal na questão financeira se faz absolutamente necessária, para regular as relações de trocas deterioradas pela especulação que detona a desconfiança geral na moeda, predispondo o ser humano, diante da queda do seu poder de compra, a reações radicais. Lenin , em 1914, no auge da pre-primeira guerra mundial, disse que as crises monetárias representam a melhor propaganda para o movimento socialista internacional.

Bancarrota empresarial

O setor privado, falido pela interrupção da circulação do crédito, do qual depende, porque o crédito apodreceu na especulação, entrou em estresse total, recorrendo-se, em última instância, ao espectro político leninista global em ascensão. Sua restauração somente torna-se possível mediante interferência do governo em face da falência privada. Antônio Ermírio de Moraes, maior empresário nacional, que o diga. 
Como instituição que paira acima dos interesses do capital e do trabalho, para evitar desarranjo geral que lança um contra o outro em total autodestruição em forma de desemprego e falência deflacionária de empresas, o governo, que emite e que enxuga moeda, por ser, segundo Keynes, única variável econômica, verdadeiramente, independente sob o capitalismo, vira salvador da pátria.
Mas, ele terá, certamente, que adequar-se às novas correlações de forças políticas geradas no processo, pois este não se faz no exterior da realidade, mas em meio ao antagonismo social, que, na crise, radicaliza. Nesse contexto, os próprios capitalistas pedem água ao Estado, para socorre-los em sua total anarquia produtiva, voltada à sobreacumulação de capital especulativo que, agora, destrói o próprio capital. 
Evidencia-se, pela boca os próprios neoliberais de ontem, a necessidade de o capitalismo ser melhor organizado pela ação estatal. Vale dizer: comunismo em marcha no rastro da crise capitalista global para tentar salvar o próprio capitalismo altamente desorganizado. Ou para destruí-lo?

Moratória estatal comunista

Assim como nos Estados Unidos o presidente Barack Obama está entre a estatização bancária ou a quebradeira dos bancos, tecnicamente, falidos pelos excessos de créditos tóxicos, podres, em carteira, podendo gerar estouro mundial, no Brasil, também, diante da rápida desaceleração econômica e da resistência dos bancos em ampliar o crédito a juros mais baixos, sinalizando quebradeira de empresas grandes, pequenas e médias, o presidente Lula, pressionado pela avanço do desemprego,  está sendo obrigado a avaliar medidas econômicas salvacionista, que, na prática, representam moratória público-privada com dinheiro público  como antídoto à violenta bancarrota global. Comunismo em marcha com dinheiro do contribuinte.
A queda de 12% da produção industrial em dezembro de 2008 relativamente a novembro e de 14,5% em comparação a dezembro de 2007 está impondo a necessidade de o governo promover amplas renegociações das dívidas de empresas e de governos municipais e estaduais, todos falidos. Para tanto, deverá lançar mão, a partir de agora, das reservas cambiais que estão em torno de 207 bilhões, antes que elas possam virar pó, se o dólar despencar em face de quebradeira bancária americana em marcha acelerada.
Depois de salvar, temporariamente, grandes grupos econômicos que , na fase áurea da economia, abusaram das dívidas e das jogadas especulativas-derivativas, como foram os casos das empresas Votorantim, Aracruz Celulose, Sadia  entre dezenas de outros casos, as autoridades econômicas preparam novos socorros emergenciais, assumindo, agora, dívidas externas de 4 mil empresas exportadoras que perderam gás financeiro por falta de crédito interno e externo. Moratória em forma de estatização da dívida externa privada. Comunismo estatal a serviço do lucro privado?  São 36 bilhões de dólares de buraco financeiro, reservados pelo BC para socorro.

Lula saca reservas contra crise

Ao mesmo tempo, o governo está sendo chamado a renegociar, urgentemente, dívidas dos governos estaduais e municipais, que, na crise de realização da produção no consumo, perdem receitas e se vêem impedidos de cumprir seus compromissos com o governo federal relativamente aos seus endividamentos. Tornam-se necessárias, dessa forma, amplas renegociações, que, como a história tem demonstrado, se estendem no tempo. Na sequência da moratória privada, entra em campo a moratória pública. Comunismo público-privado. Nova China em ascensão?
Dependurados nas dívidas junto ao INSS, prefeitos não podem dispor de cadastro limpo, legalmente, exigido, para realizar convênios com o governo federal que repassa por intermédio deles verbas para realizar obras conjugadas – governo federal-prefeituras. O dinheiro repassado para dinamizar investimentos públicos, entre eles os referente ao PAC, engordado em mais de R$ 142 bilhões, para bombar a candidatura da ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, significa aquecimento da produção e consequentemente da arrecadação tributária dos estados e municípios etc. 
Trata-se, portanto, de socorrer prefeituras e governos estaduais, renegociando prazos e juros de dívidas federativas que nunca são inteiramente pagas, mas, eternamente, esticadas, para abrir espaço para novos negócios que seriam trazidos pela circulação do dinheiro previsto para o PAC.  Agora, a negociação se faz com prazos de 20 anos – outros 20 já haviam sido dados – e juros pela TJLP(6,5%/ano) em vez de Selic(12,75%), sendo a fatura bancada, claro, pelo tesouro. O resultado é ampliação do endividamento governamental e maiores tensões financeiras que se traduzem em juros altos, bloqueadores das atividades produtivas em geral. O comunismo renasce cheio de dívidas e pepinos gerais.
O governo, em rítmo comunista, endivida-se, forçosamente, como arma para tentar dinamizar a economia. Prefeituras precisam estar saneadas para enfrentar novos projetos, novas dívidas, novas inadimplências , dentro da lógica do modelo de desenvolvimento concentrador de renda e poupador de mão de obra, enfrentando suas violentas contradições no balanço da crise global, sob batida estatal pró-comunista. Lenin está chegando ao poder.

Esperteza da Febraban

A elasticidade da capacidade governamental para endividar-se no momento de crise estende-se, ainda, à possibilidade de aceitar a proposta dos bancos privados de criar fundo de crédito para emprestar dinheiro para as pequenas empresas sujeitas à inadimplência. Espertamente, os banqueiros querem fazer favor com o pescoço do enforcado, pois pregam que o risco seja bancado pelo governo na intermediação do dinheiro – cerca de R$ 5 bilhões –  que emprestarão, cobrando juros de mercado, ou seja, extorsivos. As pesquisas do Banco Central, demonstrando que os juros no crédito pessoal e no cheque especial alcançam até 1.400% ao ano, colocam os banqueiros nacionais como maiores agiotas do mundo, candidatos ao fuzilamento em praça pública, se um novo Lenin subir ao poder, como resultado da implosão capitalista.
Cairá o Planalto nesse canto de sereia neoliberal da Febraban, ou vai ampliar a estatização bancária leninista , como forma compensatória pelo recuo dos grandes bancos privados em exercer, como concessionários do Estado,  o papel de emprestadores com recursos do depósito compulsório a custo zero como forma de minimizar a crise do crédito?
O contexto econômico em franca deterioração desenha o governo Lula em transformação quantitativa e qualitativa, tomando forma  de banqueiro-empresário-investidor – retrato acabado da proposta comunista de 1917 – , ao mesmo tempo em que vira instrumento de combate à inflação, evitando a expansão da deflação, como aconteceu em dezembro e janeiro, materializando a recessão braba em marcha no setor industrial. 
A resposta de Lula – neo-Lenin? – foi a de redobrar as apostas no aumento dos gastos públicos, lançando mão, de agora em diante, nas reservas cambiais de 207 bilhões para bancar moratórias público-privadas explícitas e implícitas, enquanto avança na estatização bancária forçando os bancos públicos a cobrarem juros mais baixos, para forçar o oligopólio financeiro privado a entrar na concorrência do mercado de dinheiro. Está, por enquanto, perdendo a parada
Volta a ocorrer fenômeno semelhante ao registrado na crise monetária dos anos de 1980, quando, diante da redução da oferta de crédito internacional às empresas privadas, o governo, emergencialmente, lançou mão das empresas estatais, para levantar recursos nos bancos internacionais, a fim de fechar deficits do balanço de pagamento. A crise internacional de 2008/2009, ao fechar, dessa vez, o crédito até para as grandes empresas governamentais, obriga o governo a lançar mão de suas reservas cambiais salvacionistas ou a emitir dinheiro para engordar o Fundo Soberando Brasileiro(FSB), para tentar bancar o PAC, tendo como contrapartida perigosa o avanço excessivo do endividamento governamental..
 

Milagre do PAC rousseffiano leninista

O governo, como banqueiro irrigador e enxugador de dinheiro, entrou num rítmo sobre o qual não tem controle. Ao salvar os bancos inadimplentes, de um lado, e os empresários e executivos estaduais, de outro, configurando a moratória público-privada em ascensão, amplia-se, por sua vez, o deficit público, cujos limites extrapolados deixarão os credores da dívida pública interna ainda mais desconfiados da saúde financeira governamental, reconhecidamente, precária.
 
Nesse contexto, no qual busca espaço para preservar o seu principal triunfo, o PAC, o Planalto, com recursos limitados pela enorme dívida interna, que impõe desembolsos, em forma de juros, da ordem de R$ 200 bilhões por ano, tenta fazer das tripas o coração. Promete colocar mais R$ 120 bilhões nos cofres do BNDES, para sustentar a dinâmica econômica privada e anuncia, como fez na quarta, 05, mais R$ 142 bilhões para o PAC, previsto para ser desembolsado até 2010. Parece mágica.
 
Os números do PAC, apresentados pela ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, demonstram falibidade do programa ao longo dos dois anos de sua existência. O orçamento fiscal de 2008 destinou ao PAC R$ 18, 9 bilhões, dos quais R$ 17 bilhões foram empenhados, mas somente R$ 3,8 bilhões , efetivamente, pagos. Mais papel que realidade. 
No acumulado de 2007 e 2008, os empenhos somaram R$ 33 bilhões, sendo pagos a metade, R$ 18 bilhões. Ou seja, somente 50% de execução. Tal fato demonstra excessivo otimismo governamental quando diz que vai gastar em 2009 e 2010 R$ 145 bilhões, aproximadamente. 
Difícil dissociar tal otimismo inflado dos propósitos lulista de embalar a candidatura Dilma, que avançou dos 10% na pesquisa Sensus, evidenciando dispor de dispor de vigor para crescer. No compasso da crise, o presidente Lula vai tentando chupar cana e assoviar ao mesmo tempo.
De um lado, joga com a moratória público-privado, como esforço de estabilização econômica anticíclica; de outro, tira leite de pedra, inventando recursos para bombar o PAC e candidatura da sua preferida na sucessão presidencial 2010.

Globo(quem diria!) estimula chavismo

Transversalmente, o jornal Globo, na linha neoliberal, está, curiosamente, apostando suas fichas políticas no movimento chavista nacionalista sul-americano. Se não aposta, estimula. A possibilidade de estar caminhando nesse sentido fica explícita com sua posição tendenciosa e alienada relativamente a providências econômicas do governo Lula que estabilizariam a economia e a sociedade, na hora de crise aguda, como é o caso da decisão governamental de incrementar os gastos sociais como prática econômica anticíclica, bombando o Programa Bolsa Família. Critica a providência que evitaria aprofundamento da deterioração econômica e social, dada pela crise mundial, levando ao avanço do desemprego e dos movimentos sociais em escala considerável com o discurso nacionalista chavista que tanto o sistema global esculacha, temendo avanço da promessa de democracia participativa bolivariana revolucionária na América do Sul.

O Globo combate ideologicamente o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, mas condena decisões lulistas que arrefeciariam, no Brasil, caminhada chavista, expressas em melhor distribuição da renda como principal antídoto da crise, traduzido no investimento no Bolsa Família. Os herdeiros de Roberto Marinho atiram num rumo, mas podem acertar em outro, contrário aos seus próprios interesses. Qual seria o interesse dos Marinhos, fomentar Chavez ou opor-se a Chavez?

A manchete do Globo, quinta-feira, 29.01, “Lula amplia Bolsa Família um dia após cortar orçamento”, induz o leitor a concluir que o programa social é mero gasto público sem vinculação com a economia e a crise que amplia o desemprego, portanto, ônus para a sociedade, que, no ambiente de contenção de despesas, exigiria austeridade e corte de gastos e não ampliação deles. Os comentaristas globais carregaram a mão sobre o assunto, enfatizando, pelo tom da apresentação da (des)informação, ser a decisão inconveniente à luz dos acontecimentos, cujos desdobramentos não são possíveis, por enquanto, de serem contidos em sua arrancada deflacionária autodestrutiva do capitalismo mundial.

Correram os repórteres globais para escutarem a oposição. Seus oráculos pregaram prioridades – não falaram quais – e fim do desperdício. A manchete cumpria seu papel: caracterizar o programa Bolsa Família como um desperdício, criticado pela oposição, que já está em campanha para 2010, jogando contra o governo, incomodada por ele estar apertando os banqueiros, maiores anunciantes da grande mídia.

 

Alienação informativa

Na prática, a manchete global é pura alienação. Ora, se o pobre, que tem no seu cartão de crédito popular do programa Bolsa Família poder de compra para adquirir uma lata de óleo de soja, esta vai ser reposta na prateira do supermercado pela indústria que comprará da agricultura que irá ao comércio comprar máquinas, equipamentos e matéria prima. Ao mesmo tempo, o ato de consumir dos pobres, gerará circulação de dinheiro e, consequentemente, imediata arrecadação aos cofres do tesouro. 
No ato de gastar do consumidor, o governo já começa a arrecadar 40%, peso da carga tributária no lombo da população sem benefício social correspondente. Se a circulação abrange até cinco etapas – comércio, indústria, agricultura, serviços, transportes etc – , e sabendo que em cada etapa da circulação do dinheiro lançado pelo governo, entra no cofre do tesouro 40%, ocorre o milagre da multiplicação pela circulação. Se ele joga 100 reais no meio circulante, recebe de volta, no máximo, 500; no mínimo 350/400 reais. Grande negócio para o Estado, para dispor de investimentos públicos na hora da crise. Onde está o desperdício? Keynes diria: burrice global.
Na verdade, a grande mídia ainda não entendeu que o relativo desenvolvimento na Era Lula decorreu da opção lulista em matar a fome dos pobres com três refeições diárias, conforme prometeu em campanha eleitoral. Ampliando a oferta dos cartões de crédito do bolsa família terá cumprido a promessa que estabilizou relativamente a economia, por meio da distribuição da renda nacional via programas sociais. Entraria para a história.
A excessiva concentração da renda nacional, característica do modelo concentrador de renda e poupador de mão de obra, foi, sob Lula, melhor atacada socialmente. Ao colocar em circulação 50 milhões de quilos de comida-dia no mercado por meio do consumo dos miseráveis, keynesianamente, bancado pelo governo, o presidente Lula deu uma virada qualitativa na economia capitalista brasileira, relativamente, ao status quo colonial predominante de Cabral a FHC. Antes predominava capitalismo sem consumo, sustentado, apenas, pelos subsídios estatais à classe média consumista. Depois, com Lula, passou a predominar o consumismo popular, antes inexistente. De barriga cheia o miserável empreendedor vou ganhar um trocadinho a mais para consumir mais etc. Pragmatismo lulita distributivista é a contribuição histórica do operário que chegou à presidência da República, no panorama histórica da super-concentração da renda nacional.
Até então, ganhavam keynesianismo estatal apenas as empresas por meio do BNDES, o hospital-empresarial criado por Getúlio Vargas para tomar conta dos falidos empresários nacionais, eternamente dependurados na teta nacional.
Como disse Delfim: “Se não fizer chover nas cabeceiras….” Lula passou a chuviscar, também, para os excluídos. Evitou, garantindo comida aos miseráveis, a perigosa insuficiência crônica de consumo, subconsumismo, tema de tese de mestrado em economia nacional do governador tucano de São Paulo, José Serra.

Burguesia midiática burra

O programa Bolsa Família garantiu barriga cheia, que, segundo Fidel Castro, evita revolução. O consumo do pobre incrementou a indústria do rico. Evitou que os empresários caissem na armadilha da perversidade do modelo econômico capitalista tunipiniquim nos moldes neoliberais radicais.
A concentração da renda nacional tornara a economia dominada pelo subconsumismo, que levava sempre à formação de estoques, exigindo desvalorização cambial para exportar, cujo resultado final era hiperinflação, queda dos salários e aumento dos lucros, enfim, mais concentração.
O aumento do consumo interno, via barriga cheia da pobreza, expressa no poder de compra popular inserido no cartão de crédito do Bolsa Família, evitou a formação de estoques, valorizou a moeda e diminuiu a inflação importada, enquanto perdurou a farra da economia dos países ricos regada pelos derivativos que ficaram tóxicos na bancarrota imobiliária e bloquearam o crédito mundial, jogando o capitalismo no imponderável.  Mas, aí, é outra história. Não foi Lula que jogou o país no desemprego ascensional presente.
 
Ora, se a crise aumenta o desemprego, que reduz o consumo já afetado pela desaceleração global, forçada pela escassez de crédito, o Bolsa Família revigorado para bancar o consumo não mais dos pobres, mas, também, dos desempregados, que engordarão as filas da pobreza, mantido o rítmo violento das demissões, resultará em relativa estabilização da própria produção nacional. O Globo, ao não entender a lógica do fator anticíclico do Bolsa Família, deixa de prestar serviço ao seu consumidor, o leitor. Não o informa, aliena-o.
O governo, gastando em programa social, estará gerando consumo, garantindo a produção industrial e a estabilidade do trabalho no ABC, por exemplo, onde gesta a insatisfação social, no ritmo deflacionário que vai destruindo, primeiro, os salários, em seguida, o capital.  O Globo ainda não entendeu que a inflação, sim, aleija, mas a deflação, mata. Escolha de Sofia. Os globais vêem a inflação sem o seu conteúdo político, de evitar a emergência do socialismo, como diz Lauro Campos, em “Inflação, instrumento de controle social”.
 

Governista ou oposicionista?

A manchete do Globo é totalmente desfocada da realidade. É pura ideologia marginalista. Dá o discurso errado para a oposição, que, sem discurso, está pegando qualquer porcaria. 
É, o poder global, quem sabe, manipulando o PSDB e o DEM, pode estar sendo útil para o presidente lula, embora simule querer destruí-lo. O tiro poderia sair pela culatra, se o Bolsa Família, engordado para sustentar o consumo que está sendo destruido pelo avanço do desemprego,  começar a esvaziar os estoques acumulados do setor privado.
A grande mídia colonizadamente está aplaudindo, sem restrições, o keynesianismo explícito  do presidente eleito Barack Obama. A cobertura do Congresso americano está mais quente do que a cobertura do Congresso nacional, onde o PMDB poderá ter , de agora em diante, Sarney com cara de Ulisses Guimarães, aaargh.
Já, relativamente, a Lula, o poder midiático impõe seguidas restrições, como se as finanças do governo americano não estivessem mil vezes piores do que as do governo brasileiro, cercadas de desconfiança global. Os governos dos países ricos demonstraram à grande mídia que não seguem o discurso que ditaram para ela relativamente aos países pobres. Por que os pobres não poderiam então seguir o exemplo dos ricos visto que a pregação deles para o mundo entrou em colapso?

Lula repete Getúlio sob ataque burguês

Getúlio Vargas, se vivo fosse, leria a manchete do Globo, coisa que Lula disse não gostar de fazer, deixando a tarefa para Franklin Martins, e concluiria: “Estou querendo ajudar esses capitalistas burros brasileiros e eles não estão entendendo”. Se o Bolsa Família não for acionado , o desemprego avançará, incontrolavelmente, e as barricadas urbanas serão levantadas, imediatamente, sinalizando guerra civil e emergência socialista. 

A manchete do Globo demonstra que a inteligência global não percebeu que o Estado, como disse Malthus, é o complemento da demanda que não se realiza pelo setor privado, visto que sua lógica é a de promover, no capitalismo, crônica insuficiência de consumo, de um lado, e sobreacumulação de capital, de outro, como diz Marx em O Capital.

Roosevelt é endeusado pela grande mídia por ter mandado plantar cactus no deserto de Tennesses, como forma de gastar para gerar consumo e arrecadação para o governo investir, mas, se Lula faz a mesma coisa com o Bolsa Família, é sacaneado como promotor do desperdício. Medidas anticíclicas não podem ser adotadas pela periferia capitalista, apenas pelo capitalismo cêntrico. 

Estado é capital

O fato é que, como diz Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”(Campus, 1980), um clássico da economia política,  o Estado é capital. O dinheiro estatal na economia monetária, que substituiu o padrão ouro do século 19, para salvar o capitalismo da crise de 1929, movimenta a circulação e eleva a arrecadação. 
Como representa desperdício, se , na circulação, o capital estatal arrecada 40% de imposto, que vai proporcionar investimentos públicos e consumo para bancar o setor privado, que está afogado na falta de demanda, em meio à derrocada global?
A incompreensão da grande mídia relativamente ao papel dos programas sociais, na Era Lula, de estabilizador do poder da própria burguesia nacional, eternamente, falida nos cofres do BNDES, é dada pelo vício do pensamento mecanicista midiático que raciocina como se a realidade fosse a priori dada por modelos matemáticos, sem perceber que a matemática, como disse Hegel, se realiza no exterior da realidade, não podendo, pois, determiná-la.  
Na prática, os programas sociais, na fase do capitalismo em que o emprego acabou, como destaca Jeremy Rifikin, em “O fim dos empregos”, são os bombeadores do consumo dos que ficaram excluídos socialmente. Como ainda lhes restam uma função essencial, sob o capitalismo, ou seja, a de consumir, pois , os pobres consomem, na medida em que tal consumo for assegurado, a insuficiência de consumo, que tende a destruir o capitalismo, como reconheceu Malthus,  estaria arrefecida, salvando o próprio sistema. 
Mas, vai tentar colocar essa dialética na cabeça global…. Perdidos no vendaval das falidas ilusões econométricas dos modelos capitalistas de reprodução do capital em condições ótimas de temperatura e pressão equilibristas, sujeitas a chuvas e trovoadas, os globais tentam adicionar mais neoliberalismo no fracasso neoliberal tóxico explícito. Inteligência global é isso aí.

Sarney, neo-Ulisses do PMDB?

Em ritmo econômico deflacionário, que vai espalhando medo nos trabalhadores e empresários, diante do avanço das demissões e da queda forte da produção industrial no último quadrimestre de 2008 – jogando o consumo e a taxa de lucro no chão, por falta de crédito a preços acessíveis para o salário com seu poder de compra cadente – , a história brasileira contemporânea vai produzindo, curiosamente, repetição de situações históricas passadas que podem vir a ser verdade ou pura farsa, no contexto da violenta crise mundial.

Há 24 anos, em 1985, o então vice-presidente José Sarney(PDS) subiu ao poder nacional, com a morte do presidente Tancredo Neves(PMDB), para transformar-se, na prática, em rainha da Inglaterra, sob domínio total do PMDB, comandado pelo então pelo todo poderoso Senhor Diretas e Senhor Cidadania, deputado Ulisses Guimarães(PMDB-SP). O PMDB era o tal.

Responsável maior pela formação do governo, especialmente, da equipe econômica, em mãos de um empresário, Dilson Funaro, que levaria o país à moratória diante da falência nacional, decretada e induzida pela crise monetária mundial desencadeada nos anos de 1980 pelos Estados Unidos, quebrando a periferia capitalista, Ulisses era a maior força do Congresso nacional. 
Saído do movimento das Diretas-84,  politicamente, fortalecido, embora o poder efetivo fosse exercido pelo Consenso de Washington, subordinado aos banqueiros internacionais, que garantiram na Constituição o pagamento dos serviços da dívida, no artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, Ulisses Guimarães encarnava o poder civil, revitalizado depois do fim da ditadura.. Sarney comeu na mão dele.
Em 2009, a situação muda de figura relativamente ao ex-vice que virou presidente sem voto popular , em meio à crise global capitalista paralisante, que joga os trabalhadores nas ruas em protesto pela ascensão do desemprego. 
Mantidas as proporções relativas da história, caso o senador amapaense seja eleito, na próxima segunda feira, 02, presidente do Senado, terá, com o poder aliado do possível novo presidente da Câmara, deputado Michel Temer(PMDB-SP), espaço para exercer influência semelhante à de Ulisses, como dirigente do poder legislativo, sobre o presidente da República. O aval para tanto estará seguro, ou seja, a força peemedebista, amplamente majoritária, como no tempo do incontrastável domínio ulissista.

Da ditadura à democracia

Passadas duas décadas, a situação se inverte. Sarney, que a história considera um dos consolidadores da democracia, depois de ter servido por 20 anos a ditadura militar,  se ergue, como eventual presidente do Senado, com a mesma estatura de Ulisses Guimarães, não mais dominado pelo PMDB, mas, ao contrário, aclamado pelos peemedebistas, podendo. Dispõe, dentro das características peculiares da Constituição brasileira, da possibilidade de combinar presidencialismo e parlamentarismo,  transformando-se, virtualmente, em primeiro ministro. 
Ou seja, poder compartilhado entre Executivo e Legislativo, garantido e abençoado pelas medidas provisórias, cuja utilização, no rítmo da crise econômica, poderá ser amplificada com a dobradinha Sarney-Lula. O adversário de Sarney, na eleição do Senado,  senador Tião Viana(PT-AC), pode ter cometido erro estratégico, do ponto de vista político-econômico, ao prometer fazer guerra contra as MPs. Condenaria o governo Lula-Sarney, em rítmo estatizante, à morte.
O presidente Lula, que se omitiu, mais uma vez, de participar da sucessão parlamentar 2009, para emplacar aliado de sua confiança total, que poderia ser o senador Tião Viana(PT-AC), optando por subir em cima do muro, na disputa, tenderia  a ser o Sarney de 1985, nos dois últimos anos de mandato, enquanto o Sarney 2009 se assemelharia muito ao Ulisses de 1985. Ao ficar no muro, Lula sinalizou temor do PMDB. 
Estaria reservado ao titular do Planalto, nos dois últimos anos de seu governo, o papel de Sarney em 1985 – raínha da Inglaterra -, quando o Executivo foi monitorado pelo Legislativo, graças às novas correlações de forças políticas que situam o PMDB com o poder mais forte no cenário nacional depois das eleições municipais de 2008?
Em 1985, Sarney, como vice de Tancredo, subiu ao poder a contragosto dos peemedebistas, que tentaram emplacar Ulisses de qualquer jeito, como presidente da Câmara – passando a terceira via sucessória, presidência da Câmara dos Deputados, por cima da primeira, a vice-presidência da República, mediante manipulação juridico-constitucional. Agora, os atores mudaram de lado.
Com apoio total do PMDB, em 2009, o que não ocorreu, absolutamente, em 1985, Sarney, saindo vencedor, ganha estatura para exercer, praticamente, o mesmo poder que Ulisses exerceu, no ambiente constitucional dúbio nacional presidencialista-parlamentarista, adequado à governabilidade via medidas provisórias. 
Tal possibilidade decorre objetivamente do fortalecimento substancial do PMDB relativamente ao PT no contexto da coalizão governamenal lulista. O PT sem Lula mostrou ser fraco nas urnas. A subida de Sarney, levando-o à altura de fator imprescindível para Lula, a fim de enfrentar a crise, não apenas relativiza o poder do titular do Planalto, mas, fundamentalmente, abala o PT, que pode, pragmaticamente, perder Lula para o PMDB.

Novo comandante da sucessão lulista


A voz sarneysiana influiria diretamente sobre o comando do governo do presidente Lula, no plano econômico, político e sucessório, em 2010, tendo o Congresso sob domínio total do PMDB, embora não tenha ascendência sobre Lula na mesma intensidade em que Ulisses tinha sobre ele, durante o primeiro governo da Nova República. Lula-2009, fenômeno político popular, testado nas urnas, não é nem o Sarney-1985, sem voto, nem o Sarney-2009, com voto, mas sem suficiente carisma popular.
Ao contrário de Lula, que chegou ao poder nos braços do povo, cantado pela história como resistente à ditadura e profeta da democracia, Sarney escalou espertamente pela via indireta, tendo por trás um histórico político camaleônico controvertido. Havia servido aos interesses golpista da UDN lacerdista, nos anos de 1950, e, depois, ao udenismo golpista-militarista de 1964 a 1984, sempre nas águas anti-democráticas.
O senador, no entanto, quando chegou ao Planalto, deu a volta por cima, realizando governo amplamente democrático, renegando a condição de herdeiro da ditadura, pulando do golpismo reacionário ditatorial para o reformismo político como necessidade de adequar-se ao discurso do PMDB, embalado pelas Diretas Já que gestaria, febril e democraticamente, daí em diante, Constituição de 1988.
Sarney, atualmente, poderá assumir o Senado, não apenas como campeão da democracia, mas como virtual primeiro ministro neorepublicano, tal como ocorreu com Ulisses, com  poderes, amplamente avalizados pelo forte PMDB, para dar cartas na sucessão lulista.
A correlação de forças políticas no âmbito da coalizão governamental muda com a emergência sarneysista, avalizada pelo PMDB, que ficou ainda mais poderoso depois de vencer as eleições municipais. O lado forte da coalizão governista não é mais o PT, mas o PMDB, cuja representação é um Sarney com cara de Ulisses.

Voluntarismo x pragmatismo 

A nova correlação de forças políticas, pendendo o lado mais forte para o PMDB, dentro da coalizão, cria novo cenário para a sucessão do titular do Planalto.
Certamente, Sarney, que, no governo, lançou o slogan lulista antecipado de “Tudo pelo social” e o programa do leite, semelhante, nas intenções, ao programa bolsa família, avalizaria, amplamente, a decisão lulista, adotada na quarta feira, 28, de aumentar investimentos nos programas sociais, bombando o bolsa família. Mais recursos para a pobreza consumir representa mais arrecadação para o governo dispor de mais investimentos públicos anti-cíclicos, evidenciando que o bolsa família, antes de ser assistencialismo, representa arma de política econômica e social.
Sarney, igualmente, assinaria em baixo, também, a disposição governamental de ampliar a influência do Estado sobre a economia, no momento em que o setor privado perde gás diante da desaceleração econômica global, sendo socorrido às pressas pelo dinheiro do contribuinte passado pelo BNDES. 
O possível novo presidente do Senado reclamou que o seu projeto econômico e político, entre 1985-86, o fracassado Cruzado, não foi adiante porque não obteve apoio político no Congresso. Quando diz que como presidente do Legislativo ajudará o Brasil a enfrentar a crise, pode estar dando resposta antecipada a Lula da forma em que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama gostaria de ouvir da sua base congressual diante do pacote financeiro salvacionista com o qual pretende tirar a economia americana da deflação destrutiva. Ou seja, o papel de Sarney, no novo cenário, torna-se estratégico.

Dilma precisará dele

Tal apoio sarneysista, no entanto,  teria por trás o peso do PMDB a exigir compensações correspondentes, ao mesmo tempo em que o partido faturaria as benesses das medidas governamentais em maior intensidade nas bases eleitorais nacionais onde os peemedebistas passaram a dar as cartas depois das últimas eleições municipais. 
A candidatura de Dilma, nesse novo ambiente, não obedeceria mais ao desejo individual, voluntarista, do presidente do Executivo em emplacá-la, mesmo que a contragosto do seu próprio partido, o PT, ainda resistente a ela, Teria de ser compartilhada com o presidente do Legislativo, onde o PMDB, adepto do pragmatismo, dá as cartas em nome da sustentação da governabilidade da coalizão governamental. Como o PMDB está interessado é em Lula e não no PT, como destacou o ministro do Desenvolvimento Regional, deputado Geddel Vieira Lima(PMDB-BA), o jogo de interesse sucessório terá o partido de Sarney como protagonista e não assessorialista.
Não haveria mais espaço para o voluntarismo lulista em levar adiante a qualquer custo a candidatura Dilma. Impor-se-ia a necessidade da negociação nesse sentido com o aliado que ficou mais forte, o PMDB, representado pela reencarnação de Ulisses em Sarney. 
Vale dizer, o candidato da coalizão não seria mais do presidente nem da força predominante, PMDB, isoladamente, mas do entendimento entre as duas forças, que, por sua vez, serão submetidas ao pragmatismo e não ao voluntarismo. 
A candidatura Dilma, por enquanto, baixa na cotação das pesquisas, é voluntarismo lulista, não opção consensual coalizacionista.
Nesse contexto, de preponderância do PMDB sobre o PT, a sucessão presidencial 2010, com a subida de Sarney no topo do Legislativo, ganharia outro colorido.

Sarney enrola Lula e abala PT

Vai ficando evidente que o ex-presidente, senador José Sarney(PMDB-AC) deu uma tremenda manobrada, espetacular, em cima do presidente Lula, no episódio da sucessão parlamentar 2009. Pode ser que a situação mude até segunda feira próxima quando serão realizadas eleições na Câmara e no Senado, mas, por enquanto, vai configurando possível vitória sarneysista, na marcha dos prognósticos.  Se o deputado Michel Temer(PMDB-SP) emplacar, na Câmara, onde a maioria do partido e as coligações que realizou se mostram forças amplas e consistentes, será a hecatombe petista e nascimento do parlamentarismo peemedebista, em nova etapa histórica da Nova República em meio a crise global capitalista deflacionária, com Sarney virtualmente de primeiro ministro.
Delfim Netto disse que Sarney, em matéria de política, faz croché com sete agulhas. Sabe tudo do ofício. Começou na bossa nova da UDN golpista de Carlos Lacerta, na década de 1950, depois,  rendeu-se, no lombo da Arena, ao militarismo golpista udenista por 20 anos(1964-1984), dobrou, em seguida, montado no PDS-PFL, a esquina da democracia como primeiro presidente da Nova República(1985), substituindo Tancredo Neves, dramaticamente, morto, e, praticamente, no PMDB, dominou o Congresso Nacional ao longo dos governos neorepublicanos. Primeiro, exercendo o poder executivo, depois, no comando do Legislativo, na Era Lula, exponenciando-se  com o senador Antônio Carlos Magalhaes, na Era FHC. Foi presidente do Congresso na etapa inicial da era Lula e pode repetir a dose na etapa final lulista. Um negociador político da mais alta cepa, urdido na segunda metade do século 20, entrando século 21 adentro. Fora do comando do poder direto, cria seu espaço; no efetivo exercício dele, amplia-o, extraordinariamente. 
 
Se ele faturar mais essa presidência do Senado, pontuando de forma sensacional sua carreira de político conservador, reacionário e renovador, simultaneamente, no cenário político nacional, como, verdadeiramente, única, repetiria pregação do senador Lauro Campos, relativamente, ao senador Antônio Carlos Magalhães, na Era FHC. 
A dobradinha FHC-ACM, disse Lauro, exercitou a ditadura compartilhada sob o regime político neorepublicano eternamente provisório subordinado à bancocracia. Claro, FHC, na segunda metade do seu mandato, enxotou ACM, sob danação da anti-ética política que tomou mandato parlamentar do senador baiano do PFL-DEM, depois, retomado, democraticamente.
 
Emergiria, agora, no mesmo diapasão, a dobradinha Lula-Sarney, na reta final da era lulista, podendo o ex-presidente, poderoso senador do Acre, igualmente, compartilhar uma neo-ditadura provisória neorepublicana na etapa final do falido neoliberalismo que dominou amplamente a Nova República, revertendo-se agora em apelo salvacionista para o nacionalismo protecionista? 
Os fatos apontam para essa possibilidade, embora a política seja pura mudança, impondo, frequentemente, surpresas.
 
A Nova República – democracia política eternamente provisória – ,mais uma vez, tende a permanecer nas mãos dos caciques políticos conservadores da política nacional que inteligentemente souberam adequar-se às novas circunstâncias sempre que são impostas novas e problemáticas formas de reprodução do capital na periferia capitalista.
Curtido, primeiro, no ambiente dos decretos leis militares, depois, no reinado das medidas provisórias neorepublicanas, adequadas aos interesses dos banqueiros, que, de fato, deram as cartas nos governos da Nova República, prisioneira do neoliberal fracassado Consenso de Washington, José Sarney  arrancou com grande disposição de velha raposa astuciosa para tentar conquistar novo mandato no Senado, depois que, ingenuamente, o presidente Lula abriu o galinheiro do PT para ele.
 
Ao deixar correr solto o conto do vigário do aparente desejo sarneysista de não disputar a presidência do Senado – um não desejo desejado – , salvo se fosse chamado para construir consenso, o presidente Lula caiu na conversa de Sarney.
 

Omissão lulista bloqueia Tião

O sonho de Sarney foi embalado pela omissão lulistada mesma forma que tal omissão, igualmente, virou fantasma para a candidatura Viana.
A esperta disposição manifesta por Sarney ao presidente de não disputar não mereceu resposta manifesta do titular do Planalto em forma de apelo e sugestão de cobrança em favor do candidatao Tião, um homem do norte, como Sarney. Ou seja, candidato da coalizão ao Senado com apoio do senador maranhense não disposto a disputar.
A ingenuidade petista-lulista se manifestou na crença em uma regra congressual não escrita de que os poderes nas duas Casas do Congresso não podem ficar em mãos de um só partido. Se o PMDB já tinha costurado , com Michel Temer(SP), a candidatura na Câmara, no Senado, seria a vez do PT. Sarney não acreditou nas coisas não escritas.
Lula acreditou num pressuposto abstrado. Se, como Sarney, não acreditasse, estaria armando estratégia favorável ao senador Tião Viana(PT-AC). Como acreditou, desarmou a candidatura vianense. Vale dizer, condenou Tião Viana à instabilidade, abalando sua força.
Mas, como  “tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda”(Hegel), a aparência sarneysiana deu lugar à essência sarneysiana, enquanto a essência lulista, minada pela omissão política, transformou Tião Viana na aparência sem essência.
 
A não solicitação de  Lula a Sarney relativamente a um compromisso de apoiar candidato da coalizão governista foi lida pela águia política maranhense como o pulo da onça no cangote do bezerro: “Ele não me pediu apoio para o candidato dele; significa que não preciso apoiá-lo”, psiocologizou certamente a sabedoria política manhosa sarneysiana. E estamos conversados.
A partir daí, Lula ficou marolando o assunto, sem sair do lugar. Era o que Sarney queria. Desgastaria Tião Viana, disseminando sua instabilidade-debilidde intrínseca, ao mesmo tempo em que proporcionaria oportunidade cada vez mais ampla para a retórica sarneysiana, engordando-a no vácuo criado pela indecisão do titular do Planalto.
Os petistas não aprenderam com o fiasco na sucessão vitoriosa do deputado pernambucanao Severino Cavalcanti. Deixaram, de novo, de aprender, dessa vez, acreditando em conversa de papai noel. Abriram a guarda para Sarney que passou a atacar por todos os flancos, tricotando com sete agulhas, materializando a pregação delfiniana. Enquanto isso, Tião Viana, sem experiência, espeta o dedo com duas agulhas rombudas, sem a lima necessária, dada por Lula para afiá-lo no jogo sucessório parlamentar 2009.
Lula foi neutralizado pela malícia política do ex-presidente. Esta se expressou em efeito paralisante sobre o presidente em relação ao senador aliado Tião Viana, que ficou sem jogo. Afinal, seu líder maior se recusou a jogar. Em política não tem três erros. Errar uma vez é pecado mortal. Duas, é a morte certa. Tião Viana, com cara de padre piedoso, escorregou no quiabo de Sarney, espalhado com sabedoria no caminho entre a liderança do PT e o Palácio do Planalto.
 
Tião, frango de granja, saiu correndo para um lado, sem apoio de Lula, enquanto Sarney, frango caipira, catador de minhoca, saiu por outro, certo de que Lula ficaria em cima do muro, para não desagradar o PMDB.
Sobretudo, o ex-presidente jogou com a carta maior do partido, tornado mais poderoso depois das eleições municipais do ano passado, conferindo-lhe base capaz de sustentar candidatura presidencial. A capitalização dessa força é a âncora fundamental da candidatura Sarney.

Camelo velho conhece o deserto

O que fará o PSDB? Esperará o voto do governador José Serra, que tem suas divergências profundas com o senador maranhanse, por ter armado cama de gato contra a filha dele, inviabilizando sua candidatura em 2002, envolvendo-a em denúncias de corrupção praticada pelo seu marido, em armação espetaculosa comandada pela polícia federal em plena campanha eleitoral?
Certamente, Serra, de olho em 2010, não teria porque não aproveitar a oportunidade de ouro para remover mágoas passadas em troca de oferta de juros políticos futuros.  Atuaria de modo contrário, criando contencioso sem necessidade, que viesse, amanhã, fazer entrar areia nos seus planos grandiosos de governar o Brasil com eventual apoio de Sarney?
 
Ou Sarney estaria pensando em Minas Gerais, para formar a dobradinha Aécio Neves-Roseana Sarney 2010, a fim de dar um troco em Serra, atraindo o governador mineiro para o PMDB? 
Resta saber qual seria o compromisso de Sarney com a candidatura Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, preferida do rei.
Se for verdade que o presidente Lula ficou pê da vida com a disposição de Sarney de votar atrás e se dispor a disputar a eleição, estaria o possível novo presidente do Senado livre de compromisso explícito com a ministra em 2010. A insatisfação lulista soou temor por eventual vitória sarneysista, pois poderia colocar areia na candidatura da ministra. Cabeças inchadas em profusão  no Planalto.
Lula, certamente, continuará com muito poder, mas Sarney, consciente da hierarquia equivalente entre os poderes da República, não deixaria de exercer sua soberania. E essa será dada pelo pragmatismo político, expresso no apoio da opinião pública. Se as pesquisas favorecerem Dilma, ok; senão… 
Se nem o próprio PT, até o momento, disse sim à Dilma, por que a velha raposa seria a primeira a fazê-lo, sem antes saber o que reserva o futuro? 
O camelo velho, que conhece de cor e salteado o caminho do deserto, que enrola Lula e anula o PT, caminha mais uma vez para atravessar o deserto do Senado , sem beber água suja, profetiza o empresário Sebastião Gomes.