Espetáculo ditatorial pré-eleitoral

As cúpulas partidárias manobristas bloqueiam a oxigenação político partidária no Brasil ao se posicionarem contra as prévias eleitorais que eliminariam os vícios de origem do processo eleitoral tunipiquim, alçando-o ao patamar das nações desenvolvidas, para deixarem como herança evolucionismo dialético. Evoluiram muito pouco em relação ao tempo da eleição a bico de pena.

No momento em que começa a esquentar a campanha presidencial, todos os partidos fogem da democracia político-partidária pré-eleitoral por intermédio das escolhas prévias dos candidatos pela comunidade políticamente organizada. A última determinação dentro do PT, por exemplo, é essa. Não há inocentes. O cultivo do vício é geral entre os partidos. Não estão acostumados com a democracia pré-eleitoral. As escolhas prévias não se dão democraticamente, mas pela ação ditatorial de coronéis  da política que mandam nos partidos, fazendo escolhas de cima para baixo e não o contrário, de baixo para cima. Contamina-se, dessa forma, todo o processo político eleitoral, lançando as bases da corrupção político partidária.  As ordens partem das cúpulas. Já pode ser considerado famoso o divórcio em 2010, por falta de prévias eleitorais, dos governadores de Minas, Aécio Neves, e de São Paulo, José Serra, porque não se entenderam sobre o modo democrático de escolha dos tucanos para disputar a presidência da República. O racha se acentuou e o famoso café-com-leite do PSDB não pode ser construído, pelo menos até agora, como evidenciou a resistência do titular do Palácio da Liberdade, essa semana em que Tancredo Neves, seu avô, completaria centenário de nascimento.

Como se verifica entre os tucanos, configurando lei geral, os rachas acontecem quando o império se desentende por dentro, desmoronando-se. A candidatura Serra é um ensaio de desmoronamento por dentro por ausência de democracia partidária. A democracia está cobrando seu preço por não estar sendo exercitada no interior dos partidos onde fluem os antagonismos sociais.  Os resistentes aos processos democráticos internos para se escolher melhor nome, para além das manipulações das cúpulas, estão por todos os lados. Dentro da aliança governista é fato corrente. A ordem dentro do PT, agora sob nova direção, do ex-senador e ex-presidente da Petrobrás, Eduardo Dutra, é evitar a disputa democrática por intermédio de prévias e buscar o consenso. A educação democrática é descartada, como processo de evolução política nacional. A palavra de ordem é buscar a qualquer custo acertos consensuais à revelia dos interesses comunitários aos quais as falsas lideranças dizem representar. O modo de agir das cúpulas petistas visa engordar, a partir de ordens de cima para baixo, a candidatura Dilma Rousseff.


Cúpulas invertem prioridades


As cúpulas fogem da oxigenação partidária porque se alimentassem ela poderiam desaparecer do mapa, já que suas existências estão ligadas não à democratização dos partidos, mas a transformação deles em armazéns de negócios por meio dos quais são negociadas a anti-democracia partidária, que mantém o país no eterno atraso político da governabilidade provisória.

As bases regionais, nesse sentido, não podem exercer o contraditório, lei natural da política, como fator de evolução democrática dos povos. Assim, em vários estados, como Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo etc, o impulso democrático da disputa é negado como evolução, para dar lugar à involução, que considera aquela um insulto. As prévias, que se constituem na arma da comunidade, para, através das agremiações partidárias, escolher os melhores representantes comunitários, de acordo com o princípio maior de que o poder popular está nos municípios, nas bases primárias da organização política, transformam-se em fantasma dos quais as cúpulas partidárias anti-democráticas fogem , desesperadamente. O vício antidemocrático, representado pelo repúdio às prévias, em favor da busca de consenso que representa, quase sempre, interesses contrários aos da comunidade, que repudia os costumes dos coronéis eletrônicos da política, ditadores das máquinas partidárias, constitui a mãe de todas as corrupções. O consenso, manipulado por pesquisas de credibilidade duvidosa, acaba se transformando em bloqueio às pressões, que são substituídas pelos interesses de grupos aliados, invariavelmente, pelo poder do dinheiro e das articulações, planejadas para perpetrar interesses, se mantidos no poder.

O maior partido do país, o PMDB, da mesma forma que o PSDB e o PT, dá mostra explícita de negação dos interesses das bases partidárias. Os defensores da disputa interna dentro do partido falaram alto na última reunião nacional dos peemedebistas. A pregação das prévias ecoou forte, mas a cúpula manobrou e evitou que o histórico PMDB, mais uma vez, compareça à eleição presidencial com candidato próprio a presidente. Vai, assim, ser formada possível chapa governista não escolhida em prévias eleitorais democráticas. De um lado, no dedaço, ao largo da discussão dentro do PT, o presidente Lula escolheu sua candidata, a ministra Dilma Rousseff; de outro, seu maior aliado, o PMDB, do mesmo modo, caminha para indicar um vice, possivelmente, o  deputado Michel Temer, presidente da Câmara, sem escolha prévia partidária. Ao mesmo tempo em que o repúdio às prévias partidárias se intensifica a partir dos comandos partidários coronelistas, no Congresso, todos os partidos se articulam para que não seja votado projeto de lei de origem popular, com quase dois milhões de assinaturas, colhidas em todo Pais, que proíbe participação, nas eleições, de candidatos fichas sujas, cujas origens se assentam no modo invertido, viciado, antidemocrático, de se fazer política no Brasil, isto é, sem a participação popular no âmbito partidário.

A inversão, por sua vez, constitui a raiz da corrupção e da conivência com legislação eleitoral laxista que desregulamenta objetivamente o poder do dinheiro para as campanhas eleitorais. As máquinas partidárias, construídas por pensamentos de cúpula, arredios à oxigenação partidária por meio de prévias eleitorais, que dão voz à comunidade, transformam-se, nesse contexto de inversão de prioridades, em balcões de negócio. Quem der mais leva o direito de ser candidato. Em vez de oxigenação, tal processo promove a intoxicação político-eleitoral.


Novo horizonte argentino


A realização das prévias eleitorais no dia 4 de agosto de todo o ano eleitoral de forma obrigatoria entre os partidos para escolha dos seus candidatos às eleições presidenciais e proporcionais por meio de filiados e não filiados das agremiações representa garantia de oxigenação democrática e fim do domínio das cúpulas antidemocráticas que freiam a evolução dos costumes políticos na periferia capitalista.

Os partidos deixam de constituir-se em sua essência, ou seja, condutos pelos quais circulam os antagonismos sociais, para se transformarem em moeda de troca que abomina o contraditório democrático. Como predomina, no Congresso, o poder do mercado financeiro, que impôs à Nova República a governabilidade por meio de MPs – medidas provisórias – , a escolha democrático partidária se transforma em incômodo, em problema em vez de solução.

O grande escândalo político que se desenrola no Distrito Federal, com a prisão do governador e a renúncia do vice, estando a sociedade sob perigo de intervenção pelo Supremo Tribunal Federal, é a expressão acabada da deterioração geral dos partidos políticos no ambiente em que inexiste a renovação partidária por intermédio das prévias eleitorais, que mobilizam a comunidade políticamente organizada. Nesse sentido, a grande evolução, na América do Sul, nos últimos tempos, expressa-se na reforma política e eleitoral ocorrida na Argentina, no final do ano passado. O Congresso aprovou lei eleitoral em que a base da renovação política se dá por intermédio da comunidade que comparece em todo o dia 4 do mês de agosto de ano eleitoral para escolher, simultaneamente, os candidatos dos partidos em prévias eleitorais obrigatórias. As escolhas são realizadas tanto pelos filiados como pelos não filiados dos partidos, de modo que se pode votar em prévias dos diversos partidos, como direito comunitário na escolha dos candidatos que irão às disputas majoritárias e proporcionais. Por esse processo, os e as candidatas escolhidas já saem com as fichas limpas, porque, evidentemente, os fichas sujas não passarão pelo crivo das prévias.

Os presidentes do Senado e da Câmara, senador José Sarney e deputado Michel Temer, respectivamente, fugiram como o diabo da cruz desses assuntos nos últimos tempos, como dirigentes do PMDB. Do mesmo modo, a presidência da República fez corpo mole nas discussões parciais sobre reforma política. Não evoluíram, simplesmente, porque seria necessário encarar o câncer político que impede as reformas políticas, ou seja, o financiamento de campanha bancado pelos caixas dois eleitorais. Enquanto na reforma político eleitoral argentina torna-se obrigatória  verba pública orçamentária para financiar as campanhas, eliminando, com as prévias, os caixas dois, no Brasil vigora o laxismo criminoso em face da predominância dos interesses de cúpula que resistem à oxigenação político eleitoral que as prévias necessariamente representariam como evolução dos costumes políticos nacionais.

Serra ressuscita Lulécio para bombar Dilmécio

Lulécio - Lula + Aécio - pode estar por trás da jogada político eleitoral do governador mineiro em resistir à parceira com o governador José Serra, que rechaçou as prévias eleitorais dentro do PSDB, afastando Minas de São Paulo. Poderia pintar o mesmo jogo de Aécio no segundo turno da eleição de 2006 em que apoiou Lula e rifou Alckmim? Quem sabe não está em curso um jogo Lula-Aécio para 2014? Tancredo seria o espírito que está soprando algo nesses dias em que se completa centenário dele?

A impossibilidade da formação de uma chapa puro-sangue Serra-Aécio ou Aécio-Serra, para viabilizar o tucanato,  decorre da ausência total de democracia no processo eleitoral brasileiro na escolha dos candidatos partidários para as disputas presidenciais. O Brasil, nesse ponto, teria que aprender com a Argentina, onde essa questão foi, brilhantemente, superada pela presidente Cristina Kirchner ao final do ano passado, mediante reforma avançada. Se os tucanos tivessem realizado prévias eleitorais para escolha do seu candidato, base da reforma portenha, toda a angústia que se verifica, no momento, não existiria.

O governador de São Paulo, José Serra, resistiu, tenazmente, à proposta do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, nesse sentido. Ambos teriam percorrido o país de ponta a ponta na preparação da escolha, movimentariam as bases tucanas em todo o território nacional, teriam oportunidade de apresentar suas idéias, elaborariam, nesse processo, as linhas básicas de programa governamental, discutiriam a questão com a sociedade, a mídia , certamente, daria grande cobertura ao assunto etc e, consequentemente, emergiria aquela força energética decorrente da paixão político eleitoral vibrante na escolha político-partidária. Se desse Aécio, a chapa seria Aécio-Serra; se desse Serra, Serra-Aécio, conforme o desejo dos eleitores. Mas, não. Serra, demonstrando autoritarismo, não topou a parada. O ex-presidente FHC anteviu o impasse, pregou as prévias, mas não conseguiu emplacar proposta renovadora democrática dentro do tucanato.

Serra estaria com muito mais confiança, agora, para enfrentar Dilma Rousseff, se tivesse saído escolhido de prévias eleitorais, que atrairiam o apoio de Aécio a sua candidatura. Como quis impor seu nome, está deixando de somar, para dividir. Divididos São Paulo e Minas, o tucanato dança, porque não tem nome no Nordeste para rivalizar com Lula. Serra paga o preço de querer o todo para si e não perceber o outro em si mesmo.

O governador mineiro sentiu o poder paulista querendo se afirmar a ferro e fogo a partir do Palácio dos Bandeirantes e o assunto criou animosidade entre os dois líderes tucanos. Os mineiros, que se sentiram desrespeitados, prepararam o discurso de Minas, ou seja, silêncio e resistência. Os paulistas excitaram-se extraordinariamente.

Os mineiros, por sua vez, sentiram seus brios afetados. Dispuseram-se à ruptura, como aconteceu em 1930, diante da insistência paulista em continuar ocupando a presidência da República, rompendo com pacto histório. O café-com-leite não se configurou. Virou água com azeite. Por que teria que configurar-se diante de posições rígidas a união Minas-São Paulo, no momento em que os paulistas, sob Serra, tentam impor seu jogo no peito e na raça? Deu no que deu.

O problema é que se o café não misturar com o leite, dificilmente, os tucanos paulistas chegam ao Palácio do Planalto. O que farão os tucanos mineiros aborrecidos com o autoritarismo bandeirante?  O viés anti-democrático não se verifica, apenas, entre os tucanos.

Pode pintar defecções, como aconteceu na eleição passada, quando os tucanos mineiros abandonaram os tucanos paulistas e apoiaram Lula. Aécio pode fazer isso? Por que não, se aprendeu a desconfiar da arrogância serrista, que negou a Minas o direito das prévias eleitorais? Serra dançou ali, e pode pagar o alto preço. Aécio cuidaria da candidatura de Anastasia, igualmente, escolhido no dedaço, sem prévias, confirmando o anti-democratismo geral, ao Palácio da Liberdade. Deixaria o terreno aberto para Dilma, de leve. Ou seja, a ausência de prévias eleitorais em vez de unir rachou os tucanos. É a expressão anti-democrática explícita do processo eleitoral brasileiro.


Vicio anti-democrático


O Senador Eduardo Suplicy paga alto preço por ter insistido em disputar prévias eleitorais dentro do PT, desafiando o candidato Lula que viria a ser presidente. Violou o espírito coronelista que toma conta das cúpulas partidárias no Brasil, ainda não evoluídas para um processo político que respeita a escolha popular no interior dos partidos, como passa a acontecer na Argentina, depois da reforma eleitoral aprovada pelo Congresso no Governo Cristina Kirchner. Sem prévias, não há candidatos com suficiente credibilidade. Por meio delas, obtém-se os verdadeiros candidatos fichas limpas obtidas no processo de escolha comunitária. Serra está dançando por isso. É o preço cobrado pela democracia.

Dentro do PT rola a mesma coisa. A tentativa do senador Eduardo Suplicy encontra o mesmo autoritarismo petista pela frente na sua tentativa de introduzir práticas democráticas nas escolhas prévias. O senador paulista, um dos mais importantes políticos do país, conseguiu levantar a ira de toda a petelhada, quando, em 2002, decidiu disputar as prévias para a escolha da presidência da República com o presidente Lula. O líder metalúrgico se sentiu agredido e desde então Suplicy é tido como ovelha negra na família petista. Ousou enfrentar Deus, o onipotente Lula. As cabeças coronelistas das cúpulas partidárias estão assentadas em todos os partidos. Agora, o senador paulista tenta, novamente, lançar seu nome nas prévias, para disputar a sucessão de José Serra. De novo, a mesma resistência se levanta. É como se representasse um gesto autoritário e não democrático tal tentativa.

Os líderes do PT em São Paulo se movem de todas as formas para impedir o propósito suplicista. A democracia brasileira é pura fachada. A Constituição é amplamente divulgada e respeitada, em sua aparência, mas em sua essência é jogo de palavras. Os candidatos não seguem as regras do compromisso democrático. A começar pelo presidente da República. Escolheu sua candidata à revelia do partido e os petistas tiveram que engolir. O presidente Lula demonstra formalmente sua filiação aos preceitos democráticos, mas não segue a prática, quando diz respeito à candidata que tentará emplacar. Os modos de escolha são na base do dedaço. E quem ousou contrariar é jogado às feras, como ocorre com Suplicy.

Lula o isola, completamente, mesmo sabendo que o grande triunfo político do governo tem suas raízes, também, na luta de Suplicy para garantir renda mínima aos miseráveis, o que não deixa de representar uma variação do Programa Bolsa Família. Nunca, dentro do Palácio, o presidente Lula jogou para cima o feito político estratégico de Suplicy como contribuição do partido às políticas sociais no país. O titular do Planalto não gosta de dividir com o outro o prestígio dele. A frieza petista à nova investida supliciana é manifestação de espírito anti-democrático partidário, concernente ao comportamento dos demais partidos em matéria de democracia eleitoral.

O PMDB é outro poço eterno de anti-democracia, embora o espírito democrático peemedebista furado seja cantado em prosa e verso. Não se dignaram os comandantes do PMDB a batalhar a democratização partidária pela promoção das prévias. Escolhe-se de cima para baixo os caciques e o resto tem que engolir. O governador nacionalista do Paraná, Roberto Requião, defende as prévias. Mas, por ser, justamente, pregador da democracia partidária, recebe o esfriamento político peemedebistas necessário.


Coronelismo eletrônico ditatorial


A pregação das prévias eleitorais ecoou no último congresso nacional do PMDB, mas as lideranças taparam os ouvidos olimpicamente, para alinhar ao partido à vice-presidencia da República, enquanto capava a formação de lideranças peemedebistas nacionais, que ambicionam disputar democraticamente a presidência da República, como o governador Roberto Requião

A proposta requiana, a exemplo da de Suplicy,  é vista como um insulto.

Os democratas, idem. É tudo acerto de cúpula, jogada de coronéis eletrônicos. Tudo se subordina a uma armação anti-democrática. O presidente Lula escolhe ditatorialmente sua candidata e acerta com os líderes dos partidos da coalizão governamental o palanque no cenário político eleitoral nos 27 estados da federação.

Não se tem nenhum estímulo à democratização político partidária. Em Minas Gerais, por exemplo, o ministro Patrus Ananias, do PT, propõe prévias eleitorais dentro do partido, porque deseja ser candidato, mas a cúpula é contra, para que haja acerto prévio, a fim de armar a coligação entre PT-PMDB, dispondo os peemedebistas da cabeça de chapa com o ministro Hélio Costa, tendo como vice o petista Virgilio Guimarães.

E os eleitores , na comunidade, que, na democracia verdadeira, escolheriam os candidatos para a disputa, como é que ficam?

Na Argentina, Cristina Kirchner conseguiu aprovar no Congresso a reforma que daria exemplo ao Brasil. A cada agosto de ano eleitoral, os partidos vão aos urnas, simultaneamente, para escolha dos seus representantes, com o detalhe de que eleitores e eleitoras com ou sem filiação partidária possam comparecer às prévias de um ou vários partidos, para influir, democraticamente.


Divórcio São Paulo-Minas


Os petistas dão as costas a um a liderança autência do PT que deseja disputar as prévias, porque precisam atender os acertos de cúpula entre o presidente Lula e a coalizão partidária, para favorecer o PMDB nas Gerais em nome do interesse maior que é eleger Dilma. Mas, e os eleitores que desejam as prévias, não são consultados?

Ou seja, o candidato sai das prévias para a disputa nacional devidamente avalizado, com ficha limpa.

Essa prática, no Brasil, no contexto em que as cúpulas coronelísticas eletrônicas determinam os resultados a partir das cartas puxadas do bolso dos coletes, significa sonho de noite de verão.

Em vez de a oxigenação democrática vir de baixo para cima, influenciando as decisões em escala crescente, como é o caso do processo eleitoral, nos Estados Unidos, em que o espetáculo das prévias eleitorais conduzem o sentimento popular ao qual as cúpulas se rendem, nas terras tupiniquins ocorre o oposto, as ordem vêm de cima para baixo, em escala decrescente. Não há democracia efetiva, apenas, formal, sem carimbo popular vibrante.

O governador José Serra é um exemplo acabado de resistência à democracia partidária. Como não emergiu como fruto da vibração político partidária tucana , obtida em prévias que promovem a emulação eleitoral irresistível, cuida de atrasar o anúncio da própria candidatura, pois encontra ela parcialmente queimada em Minas Gerais.

Cuidou, o tempo todo, de não abrir mão da cabeça de chapa, recusando a escolha pré-eleitoral. Compreensivelmente, está inseguro, sem vibração, vendendo , em vez de vitalidade, medo. Medo da democracia pré-eleitoral.

Por ter fugido dela, dividiu o partido , impedindo a união dos dois colégios eleitorais mais potentes do país, Minas e São Paulo. Como Minas não viu seu direito respeitado, não aceita, consequentemente, ser empurrada para uma situação esdrúxula por São Paulo.

Pode pintar o mesmo que aconteceu no segundo turno da eleição de 2006. O governador Aécio Neves jogou discretamente a favor de Lula e vendeu ao diabo a alma de Geraldo Alckmim.Não estaria já sendo costurada entre Lula e Aécio alguma jogada para 2014?

Vai pintando repeteco não muito afinado com o que aconteceu em 1930, cujo desfecho foi revolução, enquanto que , agora, em 2010, está sendo evolução. Minas e São Paulo se encontram no centro dos acontecimentos.

A separação entre ambos provoca atritos. Em 1930, Minas se uniu a um candidato do Rio Grande do Sul, depois de separar-se de São Paulo. Deu Minas e Rio Grande do Sul, com um gaúcho chegando ao poder, rompendo-se o histórico café-com-leite.

Em 2010, Minas se aparta de novo de São Paulo, para se unir a quem? A uma candidata que fez carreira no Rio Grande do Sul, sendo mineira de nascimento, herdeira do poder popular lulista? Ou emergiria a candidatura Aécio, percebendo Serra que será uma fria sair sem o titular do Palácio da Liberdade como companhia segura? O titular dos Bandeirantes preferiria disputar segundo mandato?

Que traumatismo ou que evolucionismo político decorreria de eventual nova separação São Paulo-Minas?

Jogo da eterna dependência

A secretária de Estado lança a casca de banana da relação falsamente problemática Brasil-Irã, quando, na verdade, está interessada é em aplaudir a política monetária do Banco Central brasileiro que favorece os interesses comerciais e financeiros americanos, ao mesmo tempo em que, também, pressiona o presidente Lula a comprar aviões americanos, forçando para escanteio a negociação Brasil-França. Os americanos querem é o mercado sul-americano, depois que o mercado americano entrou em bancarrota, instaurando-se a era do não-consumismo, afetado pelo medo dos filhos de Tio Sam da escalada do desemprego nos Estados Undos.

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, desembarca, hoje, em Brasília, para falar com o presidente Lula, bastante satisfeita com a política monetária brasileira, comandada pelo presidente do Banco Central, ministro Henrique Meirelles, de sinalização de juros altos como arma de combate à inflação, mas, também, de sobrevalorização do real, que eleva as vantagens dos Estados Unidos no mercado interno brasileiro, tanto para os investimentos produtivos, como, igualmente, para os especulativos. O juro mais alto que o titular do BC sinaliza para a partir do próximo mês muda o perfil do comércio Brasil-Estados Unidos, favorecendo as exportações americanas, e ao mesmo tempo fortalecendo os investidores da terra de Tio Sam. A estratégia deles é a de aproveitar oportunidades de investimento, no país, como forma de continuar concorrendo com a China, em ritmo de grandes aplicações no Brasil, por intermédio de empresários de peso, como Eike Batista, no setor mineral, estratégico para a expansão industrial chinesa no mundo. No contexto da política monetária, agradável aos americanos e aos chineses, quem leva chumbo são os industriais brasileiros. Estes perdem competitividade nas suas exportações, ao mesmo tempo em que o real sobrevalorizado pelos juros meirellianos compra mais mercadorias americanas, elevando o deficit comercial. Esse é o objetivo principal da política econômica dos Estados Unidos, no espaço global, no momento.

O que interessa aos investidores americanos é um comportamento compreensivo do Banco Central em relação ao dólar em desvalorização, acumulando-o e esterizando-o em forma de reservas, para jogar nos títulos americanos e evitar que eles sejam investidos internamente para desenvolver o país, como faz Cristina Kirchner, na Argentina, nesse momento.

O dólar, que se encontra em quantidade excessiva, no mercado internacional, enxarcando a base monetária global, transforma-se em pé de cabra de Tio Sam para ir abrindo mercado, como alternativa à redução do consumo interno americano, afetado pela bancarrota financeira global que promove o conseqüente empobrecimento relativo das famílias, super-endividadas e apavoradas com o aumento do desemprego nos Estados Unidos e, igualmente, na Europa. Clinton considera, do ponto de vista americano, altamente, positiva a ação de Henrique Meirelles, que aumenta os juros para combater a inflação, mas, ao mesmo tempo, com a valorização do real frente ao dólar eleva a dívida interna e salva os empresários americanos da falência, na medida em que, com o dólar desvalorizado vai abrindo mercado na América do Sul. O maior investidor especulativo dos Estados Unidos, Warren Buffett, destacou que o papel da política externa americana, de agora em diante, para valorizar os ativos dos investidores, nas empresas que lançam suas ações nas bolsas, é abrir mercados nos países emergentes, mediante diplomacia comercial agressiva. Trata-se da melhor forma de valorizar os ativos americanos, compensando a débâcle decorrente da bancarrota financeira do dólar e do euro, em setembro de 20008, responsável por destruir a forma em que a reprodução capitalista estava se dando, ou seja, na hiper-especulação.


Pé de cabra para abrir negócio



A diplomacia comercial americana junto aos países emergentes, que dispõem de mercado interno, relativamente, mais forte que os mercados internos dos países ricos, deve ser cada vez mais agressivas, para favorecer os acionistas das grandes empresas dos Estados Unidos, que perderam espaço na redução do consumo americano e europeu. Essa é a lógica defendida pelos grandes investidores internacionais, como Warren Buffett, para quem juros altos como os vigentes no Brasil significam visão do paraíso.

A salvação das grandes empresas americanas, segundo Buffett, está nos países emergentes. Assim, quanto mais os bancos centrais dos países da América do Sul, por exemplo, mantiverem políticas monetárias restritivas, como arma para bancar a inflação, mais enfraquece o parque industrial sul-americano e mais abre espaço para as empresas multinacionais, que, com os dólares em desvalorização, utilizam-nos para participar da construção da infra-estrutura no continente, onde tudo está por fazer. Valoriza o que está em processo de desvalorização.  Ao mesmo tempo, os juros altos acumulam excessivas reservas em dólares que são praticamente esterilizadas internamente, já que predomina o conceito, na periferia capitalista, de que elas não devem se destinar aos investimentos internos, mas à compra de papéis dos países capitalistas ricos. Não é à toa que é grande a reação da banca internacional à decisão da presidente da Argentina, Cristina Kirchener, de romper com essa lógica, redirecionando as reservas, tanto para pagar dívidas internas, como para aplicar nos investimentos internos. Cristina, nesse sentido, joga contra os interesses de Hillary Clinton, porque a titular da Casa Rosada passa a fazer com as reservas internacionais argentinas o mesmo que os chineses estão fazendo com as reservas em dólares deles, isto é, desovando-as na produção, em vez de mantê-las na esterilização, como ocorre no Brasil, onde já se acumulam mais de 250 bilhões de dólares esterilizados. Esterilizar dólar, no atual momento, é eternizar o jogo da DEPENDÊNCIA econômica nacional.

Como não se pode utilizar as reservas para investir, porque a autoridade monetária está prisioneira de conceito que faliu na crise, os europeus e americanos aplaudem tal estratégia dependente. Aproveitam as oportunidades de investimentos em infra-estrutura, setor que, na Europa e nos Estados Unidos, está esgotado.  As grandes empresas multinacionais americanas, segundo Warren Buffett, terão, nesse novo contexto, de buscar capital fora das suas fronteiras onde estão as oportunidades. Torna-se indispensável às multinacionais disporem dos dólares desvalorizados, que não rendem nada na Europa e nos Estados Unidos, para ganharem tanto na especulação como na produção. Nesta, aplica na infra-estrutura, que tem nos governos os clientes seguros, e naquela esquenta a especulação com os juros altos, multiplicando os rendimentos nos derivativos que entraram em colapso nas praças dos países ricos.

A sobrevalorização do real via política monetária jurista-altista do Banco Central vai  transformando o real em ativo atrativo para quem tem dólares em desvalorização acumulados na praça global. A estratégia monetária na periferia capitalista vira fonte de reprodução ampliada do capital, que deixou de se sobreacumular na esfera dos países ricos. A quebradeira iminente dos países integrantes do PIGS – Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha -, todos dependurados nos bancos alemães, que exigem austeridade fiscal, para liquidação dos papagaios, transformou-se em escoadouro de investimentos para a América do Sul. Os investidores fogem do perigo de colapso na Europa. O juro alto meirelliano brasileiro representa, para esses investidores, visão do paraíso.


Casca de banana iraniana



A diplomacia americana tenta vender a prioridade falsa de que o maior problema dos Estados Unidos na relação com o Brasil é a opção de independência da diplomacia brasileira no cenário internacional, quando, na verdade, o que interessa, mesmo, a Tio Sam é o jogo da dependência econômica expressa nos juros altos que valorizam o empresário americano em terras brasileiras enquanto condena o empresário nacional à eterna submissão aos conceitos caducos como o da formação de reservas cambiais elevadas e sua esterilização como ativo, impedindo-o de ser utilizado no desenvolvimento interno. Mahmoud Ahmadinejad é pura cortina de fumaça.

As empresas nacionais, nesse ambiente, tenderiam a fragilizar-se, relativamente, enquanto as multis, abarrotadas de moeda desvalorizada, poderiam realizar aplicações no ambiente econômico nacional sem precisar sofrer na carne os efeitos dos juros altos internos, que bloqueiam os investimentos e, igualmente, elevam os preços internos, dificultando a competitividade das empresas brasileiras tanto no mercado interno como internacional. Enquanto a grande mídia tenta colocar em primeiro plano a polêmica da relação Brasil-Irã, como se fosse o interesse maior de Hillary Clinton, no Brasil,a diplomacia americana vai comendo pelas beiradas, saindo-se, amplamente, favorecida, em relação aos interesses americanos, pela política monetária adotada pelo Banco Central.

Conjuga-se força interna que favorece o jogo do BC em favor dos interesses estratégicos norte-americanos, enquanto vai se tornando voz isolada o ministro da Fazenda, Guido Mantega, que está falando o óbvio, mas ninguém, na grande mídia, dá o tamanho exato da controvérsia no ambiente da estratégia de defesa econômica nacional. Diz Mantega que se há excesso de moeda na circulação interna brasileira, o que deveria ocorrer é a queda e não a alta da taxa de juro. Se sobe o custo do dinheiro, os investidores internos reduzirão seu instinto animal, perdendo espaço para os investidores internacionais, não dependentes do juro extorsivo interno. Se o investidor interno é prejudicado pelo juro alto e o investidor externa não pecisa da poupança interna cara para alavancar negócios no Brasil, ocorre o óbvio: os ativos nacionais vão, paulatinamente, mudando de mão.

A inflação será combatida com mais importações, por um lado, e mais desindustrialização e aumento da dívida pública interna, de outro. Esse é o novo jogo estratégico do capitalismo americano, em sua ação na periferia, para compensar a perda de mercado interno nos Estados Unidos. Hillary Clinton joga essa moeda, enquanto ao mesmo tempo põe na frente a casca de banana da polêmica Brasil-Irã, mero disfarce. Com seu Cavalo de Troia, a secretária de Estado norte-americana desembarca para faturar a guerra comercial em terras sul-americanas. Tenta, para tanto, fechar acordos bilaterais para tudo quanto é lado. Salve-se quem puder.

Lula envergonha em Cuba

Reina Luísa Tamayo inicia movimento de caráter universal que demonstra ser a força do direito mais forte do que o direito da força para construir o socialismo verdadeiramente democrático na pátria cubana. Se as mães das praças de mayo do mundo gritarem em solidariedade à batalha da grande mulher cubana, a quem Lula não dirigiu nenhuma palavra, para lembrar , talvez, a luta de sua própria mãe, dona Lidu, a fortaleza de Fidel e Raul, construída para preservar o socialismo, pode balançar. A contradição está em marcha dentro de Cuba para o aperfeiçoamento do próprio sistema socialista cubano.

O presidente Lula, em Cuba, pediu que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, seja ousado e termine logo com o bloqueio comercial – que pode ser entendido, também, como um ato anti-humano, portanto, sintonizado com os propósitos lulistas relativos a uma política justa de direitos humanos. Infelizmente, porém, não teve ousadia suficiente, na frente dos líderes cubanos, presidente Raul Castro e o ex-presidente Fidel Castro, para pedir mais direitos humanos na Ilha. Pegou mal o silêncio do titular do Planalto sobre a morte de Zapata na cadeia por crime de opinião. Indiretamente, condenou o sacrificado, que optou pela renúncia à vida como opção de protesto contra a falta de liberdade, mas não fez o mesmo em relação ao sacrificante, o encarcerador. Soou covardia. Não entrou na essência, ficou na aparência. Não teve coragem suficiente para enfrentar a contradição dada pela dinâmica do princípio dos direitos humanos que implica na liberdade de opinião e não a condenação por ter opinião. Tratou dos efeitos, a morte de Zapata, mas não a causa, o que o levou à morte. Se Obama precisa , na avaliação de Lula, ser mais valente para enfrentar uma injustiça história, faltou, igualmente, ao presidente brasileiro mais valentia para encarar de frente, na terra de Fidel, a questão que coloca Cuba no centro do debate mundial durante a semana. A mãe de Zapata, a valente Reina, teria mentido quando disse que seu filho ficou, na prisão de Camague, dezoito dias sem beber água? Onde está a medicina avançada dos cubanos que não tratou o prisioneiro à morte por via endovenosa? Raul, com suas declarações arrogantes aos jornalistas, culpando os Estados Unidos pela morte do prisioneiro político, destacou que o semi-morto foi encaminhado aos melhores tratamentos da medicina, o que representa um escárnio total. O jogo de palavras de Lula foi falta de respeito à inteligência. Na prática, teve medo de falar a verdade, ou melhor, de defender os direitos humanos na terra dos outros. Convocou Barack Obama para uma ousadia maior, mas adotou, em terras cubanas, ousadia menor. Em terras chinesas, o titular da Casa Branca não titubeou em defender os direitos humanos, embora tais direitos não sejam respeitados pelos Estados Unidos nos Estados Unidos, nas prisões de Guantânamo onde morrem os Zapatas muçulmanos sem direito de defesa. Há como que um respeito excessivamente obsequioso da diplomacia brasileira pelo grande Fidel Castro, revolucionário que enfrentou o capitalismo e o venceu, abrindo espaço para uma nova consciência universal. No entanto, não é o líder cubano uma onipotência que não mereça crítica do ponto de vista do próprio marxismo do qual o fidelismo se alimenta, porque Marx, ídolo de Fidel, não renunciou à crítica, por exemplo, àquele que fez a sua cabeça, Hegel, pregador da máxima de que tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda, no processo histórico social. E a hora da mudança chega quando a sinceridade de uma mãe entra em cena para dar o testemunho do filho assassinado por falta de assistência adequada no momento oportuno. Zapata, segundo ela, não cometeu nenhum crime contra o Estado, senão o da crítica que não é aceita pelo Estado excessivamente policial. Certamente, a lei da física explica o Estado policial cubano. A toda ação corresponde uma reação em contrário com idêntico poder e força. Os Estados Unidos, ao bloquearem Cuba, impedindo-a de relacionar-se comercialmente com os países capitalistas, por força da pressão do dólar, atuaram imperialmente e perderam, por isso, a condição moral de falar em direitos humanos. O desrespeito vem de longe. Ao longo do século 19 e 20, como destaca Luiz Alberto Moniz Bandeira, em seu monumental livro “Formação do império americano”, os Estados Unidos, para enfrentarem o imperialismo inglês, cercaram toda a América do Sul e América Central para si, transformando os dois continentes em quintais de Tio Sam. Impuserem títeres ditatoriais obedientes a Washington, enquanto as resistências internas eram combatidas a ferro e fogo. Cuba, a ação revolucionária espetacular em contrário, com seu povo admirável e a liderança socialista de Fidel, Guevara, Cienfuegos etc, rompeu o cerco. Paga, por isso, ao longo de mais de cinquenta anos, preço exorbitante, para garantir sua dignidade e autodeterminação frente ao agressor. A dialética, no entanto, cobra seu preço, demonstrando que o desenvolvimento envolve a tese, a antítese e a síntese, em eterno movimento do real em seu vir a ser. A antítese vira tese, enquanto não se alcança a síntese. Os que, ao longo desses anos, ousaram, como antítese, criticar a evolução dos acontecimentos, têm encontrado pela frente a tese expressa no Estado policial. A reação ao bloqueio americano , que expressa antítese à tese imperialista, vira em seu contrário, em nova tese, na sua relação com os dissidentes, que se transformam em nova antítese. Predomina receio ao exercício da liberdade interna como resistência à ameaça externa à liberdade nacional em sua ação global. Certamente, o argumento político partidário entra em cena para construir as racionalidades diversificadas, a fim de justificar o princípio da segurança nacional. Como ocorreu no tempo da ditadura no Brasil, o conceito de segurança nacional é sempre o de conter as forças internas, principalmente, porque os impérios, necessariamente, começam a ser destruídos, não de fora para dentro, mas, essencialmente, de dentro para fora. A história de Roma é isso aí. A morte de Zapata é uma força interna que busca superar a contradição entre o reino da liberdade e o da necessidade, que exige, de acordo com o pragmatismo construído, quase sempre abstratamente, comportamentos pragmáticos ligados a interesses cuja preservação impõe, invariavelmente, o direito da força sobre a força do direito. O direito à vida, negado pela necessidade de acabar com a vida para evitar a reafirmação da vida, é negado aos críticos. Não se tem notícia de que a resistência de Zapata tenha sido realizada pelo conceito do direito da força, mas porque não conseguiu impor a força do direito. A capacidade de o ser humano reagir com a sua própria força de vontade de se expressar em si por si mesmo, no processo político contraditório em movimento dialético de negação, dançou em Cuba. O movimento, contudo, não pára. A força da decisão em favor da morte como arma de luta, expressando a força do direito de viver e morrer lutando sem armas, bate de frente com o estado policial cubano que exercita o direito da força, da arrogância, como produto do raciocínio de que as minorias precisam ser tratadas exemplarmente em nome do interesse político pragmático. Castro mentiu e Lula, sem coragem de enfrentar a mentira, mentiu, também, ao inverter a realidade em forma de crítica ao condenado e não ao algoz. O fato é que no momento em que o mundo entra na era da quinta densidade muldimensional – o ser humano é, essencialmente, muldimensional – , em que o planeta terra sofre os efeitos de uma movimentação energética universal em seu eixo, verticalizando-se, corrigindo sua inclinação de quase 25%, configurando mudanças que balançarão geral, como destacam os estudiosos da física quântica, no ambiente de estudo da telemática avançada, não dá mais para suportar a morte de um ser humano pela ação do Estado, acusado por crime de opinião. No mundo multidimensional, o ser-outro-em-si-mesmo é o poder estabelecido, estágio avançado da quinta densidade, que deixa para trás a terceira densidade, na qual vigoram as misérias humanas, as intolerâncias, estabelecidas pela luta de classe, que ainda vigoram no estágio tanto capitalista quanto socialista. A morte política é a expressão do Estado assentado nas lutas de classes, é a negação do ser-outro-em-si-mesmo, como disse Marx em “Manuscritos Econômicos e Filosóficos” ao caracterizar o ser humano como ser genérico universal, deformado pelos regimes seja de partidos ideologicamente diferenciados em que predomina o individuo sobre o coletivo, como no capitalismo, seja de partidos únicos, em que o coletivo destroi o individuo, como no socialismo, na fase histórica em que se encontra. Constituindo-se um dos textos mais fantástico de todos os tempos, dado o seu caráter de introjetar-se na consciência e balançá-la, energicamente, para frente e para o alto, destronando conceitos à esquerda e à direita, os manuscritos marxistas incomodam os machistas direitistas e esquerdistas e exalta a mulher, a deusa que, no compasso da superação dos contornos da ideologia construída para a eterna preservação dos poderes, rompe com a contradição e se expressa na prostituição universal, depois de se livrar do contrato de direito positivo inquiridor representado pelo casamento burguês. E aí é que está o problema e ao mesmo tempo a solução: a mulher, a mãe, a resistente, a que enfrenta ditadura. Reina Luisa Tamayo gritou contra Fidel e Raul. Outros cinco prisioneiros, depois do sacrificio do filho dela e do grito universal que ela deu, conferindo força à resistência do filho morto, dispuseram-se, igualmente, ao sacrifício. O estado policial cubano, opressor das minorias, em nome da ditadura do coletivo sobre o individual, pode ruir, se as mães dos prisioneiros se reunirem ao protesto de Reina, saindo às ruas de Cuba e do mundo. Afinal, a sonoridade é global na sociedade do conhecimento dominada pela tecnologia da informação instantânea. O próximo e o distante são UM e TODOS ao mesmo tempo. Foi isso que aconteceu com as Mães da Praça de Mayo na Argentina. Se elas sairem à calle para solidarizar-se com a grande Reina, pode pintar movimento universal em favor da libertação dos prisioneiros cubanos. Por que não podem eles em liberdade pregar a sua resistência, se estão desarmados frente a um Estado instituido, que, como toda a obra humana, reforma-se, dialeticamente, no compasso da história? Fidel e Raul são a tese; Zapata, a antítese, Reina, a síntese. A história está girando. Lula não teve suficiente descortínio histórico para se pronunciar em Cuba. O Itamarati viu as razões do poder cubano, não as razões do poder brasileiro em Cuba, independente, para afirmar-se, democraticamente, na terra dos outros, sem medo. Constrangeu-se, extraordinariamente, ficando pequeno e obediente a Fidel e a Raul em face de assunto que interessa à humanidade genérica. Com todo o acerto, gritou Lula em terras cubanas o direito do governo de Cuba de espernear contra o bloqueio dos americanos. Mas, por que, tambem, não gritou em favor do sagrado direito de Zapata de espernear contra o socialismo cubano, obra que, por estar em construção, é , justamente, cheia de virtudes e defeitos que precisam, ambos, serem expostos, sem medo? Zapata, ao morrer, pôs a contradição em marcha. Será uma jogada burra do poder cubano se adotar em relação aos companheiros do martir o mesmo tratamento para produzir outros mártires. O simbolismo político tem a força superior à do estado policial, que nega o ser-outro-em-si-mesmo. A força da morte como defesa da força do direito mexe planetariamente com o eu genérico universal que se levanta instintivamente contra o direito da força. Getúlio Vargas é um exemplo de que a morte buscada como opção política movimenta a realidade emocional e bruscamente. Não dá para falar em socialismo onde o estado socialista deixa um opositor do socialismo dogmático morrer de inanição na prisão por crime de opinião. Total contradição em termos.

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POLÊMICA EM CENA


Onde Lula envergonhou?

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cesar,

há uma guerra de baixa intensidade entre a primeita potência imperial do mundo e uma ilhapequena que ousou rebelar-se contra o capitalismo! Há dissidentes que são colaboradores remunerados dos gringos e este talvez tenha sido um dos responsáveis poara mais de 3 mil atentados que Cuba sofreu em todos esses anos, inclusive com o bombardeio de escolas, com guerra bacteriológica, confessada pelo ex-ministro da saúde dos EUA, que denunciou a difusão de virus da dengue por avionetas destes terroristas pagos por Miami.

– Ocultar texto das mensagens anteriores –

Onde que Lula envergonhou? Lula não cede ao côro que a direitona fascista quer impor a ele contra Cuba e contra o Irã também. Por isso vem a nazistinha da Hillary aqui para pressionar, ilegalmente, indevidamente, e Lula já deu uma aresposta por antecipação! Para a honra e orgulho do povo brasileiro, diz que viaja ao país que quiser e que só deve explicação aos brasileiros!!!

Mais que isto: quantas vidas os mais de 700 médicos cubanos terão salvo no Haiti agora? Cuba tem mais de 7o mil médicos espalhados pelo mundo trabalhando solidariamente em países pobres, em zonas inóspitas, onde nenhum destes dissidente imagina por os pés um dia, pois querem apenas enriquecer em Miami.

Foi Lula quem defendeu os palestinos ante a carnificina bárbara israelense, é Lula que quer ampliar os laços de cooperação com o iRÃ,  foi lula que apoiou até o fim a luta de Zelaya e do povo hondurenho contra o golpe gringo lá, é Lula que mandou construir uma usina hidrelétrica e 30 postos de saúde no Haiti.

Quantos médicos tem os EUA espalhados pelo mundo?????? No Timor não tinha nenhum, mas há 400 médicos cubanos lá. E o embaixador gringo revelou seu veneno ao pressionar o jornalista Ramos Horta, meu amigo, para que não aceitasse médicos de Cuba. Ele apenas perguntou: quantos médicos voces tem aqui?

Lula não envergonha ninguém em Cuba, aliás, está construindo o porto de Mariel, está apoiando a produção de alimentos com a presença da Embrapa. Todos estes dissidentes querem que a REvolução termine, que ninguém ajude o povo cubano, e a esmagadora maioria dos cubanos apoia esta revolução.

Aqui, o Heráclito Fortes mandou condolências à família`pela Embaixada de Cuba. Quantas vezes foi solidário com as vítimas da ditadura de Honduras  –  aliás, anteontem mais uma militante foi assassinada sem nenhuma cobertura da mídia aqui   –  quantas vezes mandou condolências pela montanha de cadáveres palestinos que Israel promove diariamente????

Discordo veementemente, meu caro

abs,

Beto Almeida


Quanta hipocrisia dessa

gente de direitos

humanos seletivos.

Atacam Cuba

para atingir Lula

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A greve de fome de pessoa que cumpre pena em presídio é uma arma de desobediência e um desafio às determinações do Estado  que pode assumir caráter político ou de reivindicação por melhores condições carcerárias. Manifestação de vontade individual ou coletiva, deve ser respeitada e criteriosamente avaliada.  Ao tomar, conscientemente, a grave decisão de iniciar a greve de fome o preso sabe – e é informado – que a conseqüência pode ser fatal. Alguns entregam sua vida por um ideal mais nobre. Esses contam com defensores de fora da prisão que pressionam as autoridades a fim de que o objetivo da greve de fome seja alcançado. Outros priorizam sua própria vida e ainda assim esperam ver acatadas suas exigências. Quando ocorre a morte, os verdadeiros humanistas se condoem.

Contudo, a reação que se leu, viu e ouviu nesses dias a respeito do caso do cubano Orlando Zapata Tamayo passa longe da natural comiseração. O cadáver de Zapata é agora exibido como um troféu coletivo. Os grandes meios de comunicação já vinham antecipando o desenlace com intenções pouco dissimuladas de utilização com premeditados fins políticos. Zapata não fazia parte dos chamados dissidentes que foram julgados em março de 2003, não era um dos 75. Tinha um longo histórico delitivo comum, nada vinculado à política. Transformado depois de muitas idas e vindas à prisão em ativista político, era um homem prescindível para os opositores da Revolução. Cumpria uma sentença de privação de liberdade de 25 anos depois de ter sido inicialmente sentenciado em 2004 a três anos por desordem pública, desacato e resistência. Vinculou-se aos dissidentes após contactos com Oswaldo Payá e Marta Beatriz Roque. Declarou-se em greve de fome em 18 de dezembro. Apesar de se negar a tanto, recebeu, de acordo com o que estabelece o Tratado de Malta, a assistência médica necessária, inclusive terapia intermédia e intensiva e alimentação voluntária por via parenteral endovenosa e enteral. Transferido para um hospital geral foi-lhe diagnosticado pneumonia, tratada com os procedimentos mais avançados. Ao ter comprometido ambos os pulmões, foi assistido com respiração artificial até que ocorreu o óbito.

Vou à história, curioso em saber como a grande imprensa cobriu greves de fome de presos que terminaram ou não em morte e como selecionam os direitos humanos.

Ao assumir o governo inglês em 1979, Margareth Thatcher deflagrou uma ofensiva militar e política contra os movimentos pela libertação da Irlanda do Norte. A virulenta tentativa de criminalização do republicanismo irlandês passava pela supressão de qualquer diferença entre o tratamento dispensado, nos cárceres, aos soldados do Exército Republicano Irlandês (IRA), do Exército de Libertação Nacional Irlandês (INLA) e a criminosos comuns. Em resposta, combatentes irlandeses encerrados nos blocos H da prisão de Maze, deflagram em 1º de março de 81 uma greve de fome. Suas reivindicações: não usar uniformes de presidiário; não realizar trabalhos forçados; liberdade de associação e organização de atividades culturais e educativas; direito a uma carta, uma visita e um pacote por semana; e que os dias de protesto não fossem descontados quando do cômputo do cumprimento da pena. Recusando-se a ser tratados como criminosos, defendiam, a um só tempo, sua dignidade pessoal e a legitimidade da luta pela libertação de seu país. A um custo inimaginavelmente alto – onze homens morreram de inanição após longa agonia de 63 dias – os grevistas conseguiram uma vitória moral, ao fazer com que os ingleses retrocedessem quanto ao regime carcerário poucos meses após o fim do movimento; e uma vitória política, ao frustrar os planos de Thatcher de expor os que lutavam pela liberdade da Irlanda como criminosos aos olhos do mundo. O funeral de Bobby Sands, o líder do movimento, foi assistido por mais de 100 mil pessoas.

Thatcher, insensível, fez ouvidos moucos aos apelos. Teria o Estadão, a Folha ou o Globo ou El Pais, The New York Times, Die Welt, Le Fígaro, Clarin, estampado em sua manchete principal acusando Thatcher de homicida? Evidentemente, não!

Em meio século, nada mudou na Turquia, onde os presos políticos continuam fazendo greve de fome, não pela liberdade, como Nazim Hikmet, mas para recuperar a dignidade. Nazim Hikmet, o grande poeta turco, a quem a escritora Charlotte |Kan chamou de “o comunista romântico”Condenado a uma pena pesada, Nazim Hikmet estava preso em Bursa há doze anos quando começou uma greve de fome para recuperar a liberdade. condenado a uma pena pesada, em um longo processo construído nos mínimos detalhes, estava preso em Bursa, fazia doze anos, quando começou uma greve de fome para recuperar a liberdade. E ainda teve forças suficientes para escrever o poema “O quinto dia de uma greve de fome”, dedicado a seus amigos franceses que lutavam por sua libertação. Acaso os editoriais da nossa imprensa acusaram os governantes turcos de perpetradores de um crime continuado? Nem pensar.

Na base militar de Guantanamo, aqueles que as autoridades norte-americanas chamam de “combatentes inimigos” fizeram, entre fevereiro de 2002 e fim de setembro de 2005, seis tentativas conhecidas – e talvez centenas ignoradas – de desafiar seus carcereiros do Pentágono com greves de fome. Alguém leu ou ouviu acusações a Obama de violador dos direitos humanos elementares por não ter cumprido a promessa de encerrar esse centro de tortura e humilhação?

Recentemente, a aviação norte-americana dizimou, no espaço de dias, famílias de cidadãos afegãos, a maioria mulheres e crianças. A mídia abriu espaço para o pedido de desculpas dos generais e nem um milímetro para acusá-los e a Washington de estar perpetrando uma política de terrorismo de Estado e de violação da Convenção de Genebra.

Passaportes britânicos de cidadãos israelenses de dupla nacionalidade foram utilizados pelo serviço secreto do Mossad para executar extrajudicialmente em Dubai o líder do Hamas, Mahmoud AL-Mabhouh. Por acaso, a mídia abriu suas colunas para acusar o governo Netanyhau de criminoso e fora-de-lei?

Na confrontação dos Estados Unidos e Cuba, ao largo de mais de meio século, milhares de cubanos foram vítimas de atos de terrorismo arquitetados em solo norte-americano com pleno conhecimento da Casa Branca, incluindo diplomatas assassinados no exterior. Quando Havana se dispôs a tomar medidas de inteligência para prevenir esses ataques, cinco de seus concidadãos foram presos e condenados, em processo totalmente viciado levado a cabo em Miami, a penas draconianas que chegaram a duas prisões perpétuas mais 15 anos para um deles. Jamais a mídia internacional e a nossa mídia trataram do assunto.

Os ataques virulentos a Cuba por parte da direita, das oligarquias, dos setores reacionários e dos segmentos conservadores e seus porta-vozes não são novidade. Não se conformam de a Revolução Cubana ter resistido sozinha, graças à firmeza de sua liderança e apoio valente de seu povo, à opressão e aos desígnios do Império. Nenhum outro governo da região a apoiou. Hoje diversos governos da região a apóiam. A solidariedade, simpatia e defesa da gente simples e dos progressistas em todo o mundo nunca faltou.

A visita de Lula a Havana coincidiu com a morte de Zapata. Nossa mídia rebaixou a assinatura de 10 acordos de cooperação entre os quais se destaca a modernização do porto de Mariel. No entanto, o criticou furiosamente pretendendo vinculá-lo ao desrespeito a direitos humanos. No fundo querem destruir sua imagem de grande líder nacional e internacional em proveito de seus interesses ideológicos permanentes e eleitorais de agora.

Lula soube se comportar como chefe de Estado. E pessoalmente foi leal aqueles que ao longo de décadas se constituiram numa referência de soberania, independência, auto-determinação mas também de dignidade, heroismo e solidariedade.

Max Altman

27 de fevereiro de 2010

BC entra na polêmica eleitoral

A decisão do Banco Central coloca o presidente Lula em situação de risco. Juro mais alto diminui o consumo, a arrecadação e o investimento do governo no PAC, que sustenta a candidatura Dilma. Já, Serra fica solto para dizer que o juro mais alto sobrevaloriza o real e pressiona a indústria nacional que perde competitividade no cenário global. Se o desempre sobe, com o juro em ascensão, a popularidade do governador paulista tenderia a se manter relativamente acima da de Dilma, podendo, assim, ganhar a eleição. Só se os juros aumentarem o nível de emprego e de arrecadação teria chances a candidatura governista. Aconteceria esse milagre?

Não se tem certeza de nada. É jogo de varetas. Tenta-se afastar uma, mexe com as outras, e o perigo é sempre o edifício desabar. Os bancos centrais dos países ricos deixaram de ter credibilidade, justamente, porque se tornaram laxistas na adoção de regras para conter a especulação e levaram o mundo à explosão especulativa. E o Banco Central do Brasil, que sustenta uma das taxas de juros mais alta do mundo, como entraria nessa classificação, quando adota medida para enxugar a liquidez, cuja conseqüência tem sido sempre elevação do custo do dinheiro, em nome do combate à inflação? Estaria ou não favorecendo a especulação, para elevar o custo da dívida pública e ao mesmo tempo sobrevalorizar o real, comprometendo o desenvolvimento industrial? A candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, passa a sofrer os impactos da decisão do BC, nessa quarta feira, 24, de elevar os recolhimentos compulsórios, que pressionam a taxa de juro, ao mesmo tempo em que o seu adversário, governador José Serra, de São Paulo, dispõe de assunto para tentar levantar seus índices de popularidade junto ao eleitorado na corrida presidencial, na qual entrará a partir do final de março, como anunciou, na quinta, o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra.

Indiscutivelmente, pode sofrer impacto, com a enxugada do dinheiro no mercado interno, a arrecadação do governo, que movimenta os investimentos do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento. O ministro Henrique Meirelles joga uma lipoaspiração no mercado de dinheiro, justamente no momento em que o discurso desenvolvimentista de Dilma depende dos juros mais baixos, para aquecer o consumo interno, para assegurar a arrecadação capaz de bancar o PAC. O oposto dessa estratégia, que começa a ganhar força, é o aumento do juro para conter o consumo interno, que segura a arrecadação, que diminui os investimentos, a fim de segurar a inflação, para que não haja, segundo o argumento dos bancos, ameaça de o país superar os limites das possibilidades do seu PIB potencial.


Discussão ideológica


Meirelles diz que visa impedir aventuras, mas quem não aventura com um jurinho mais alto? Ele não sabe precisar exatamente o PIB potencial brasileiro, para tomar medidas precisas capazes de conter pressões inflacionárias decorrentes da superação daquela potencialidade, justamente , porque o conceito de PIB potencial é pura abstração, cujas consequências, quase sempre, é a teoria não corresponder à prática, como já rolou de vezes passadas.

Trata-se de discussão mais abstrata do que concreta. Ao longo dos anos de 1990-2003, predominava, sob o Consenso de Washington, a verdade bancocrática segundo a qual o país não podia jamais crescer acima de 3%. Esse seria o PIB potencial. Subiu mais do que isso qualquer coisa, haveria, sempre, pressão inflacionária. Era e sempre continua sendo arma de política econômica aumentar os juros para segurar o crescimento potencial tendente sempre a ser superado, porque, afinal, o Brasil é um continente em desenvolvimento e tudo ainda está por fazer em grande parte do território nacional, carente de infra-estrutura dinâmica que o capitalismo moderno requer.

Como os brasileiros são teimosos, querem, de qualquer jeito, crescer, porque, como disse Cazuza,  o tempo não pára,  a ameaça inflacionária se torna constante. A tentação é sempre o atleta superar os seus limites. Mas, aí, o BC, que se subordina aos interesses do mercado, rende-se ao critério do abstracionismo que está na base da construção do PIB potencial.

O presidente do BC, ministro Henrique Meirelles, em entrevista ao repórter Cristiano Romero, no Valor Econômico, deixou imprecisos, como sempre, os critérios corretos, científicos, consistentes e convincentes sobre a exatidão do PIB potencial. Até 2004, o PIB potencial era de 3,5%. Foi superado na Era Lula e a inflação não explodiu, como os bancos previram.

Na Era Lula, com o aumento do consumo interno por conta dos aumentos dos gastos governamentais com as classes sociais D, E e C, o PIB potencial, no compasso da valorização do real, dada pelo maior poder de compra popular, que evitou desvalorização cambial para exportar excedente, teve que ser alterado. E essa alteração decorreu em queda da inflação. Maior consumo interno, menor o excedente exportável e menor a desvalorização cambial. Consequentemente, menor a taxa de inflação.

Ou seja, o mercado interno fortalecido elevou o PIB potencial para 6%. Só que quando passa o PIB potencial de 3,5% para 6%, reduzem-se os superávits primários, antes realizados mediante política monetarista ortodoxa. Ou seja, sobra menos recursos para pagamento dos juros da dívida, porque juro mais baixo incidente sobre o montante da dívida – na casa dos R$ 1,5 trilhão – representa  despesa menor de juro. Assim, a ameaça do PIB potencial de 6% emerge aos olhos dos bancos como fenômeno que requer austeridade monetária para evitar a inflação.

Mas, se  a superação do PIB potencial de 3,5% não se revelou inflacionária, como previa o mercado financeiro, para segurar superávit primários, a superação do PIB potencial de 5%, 5,5% , 6% seria potencialmente inflacionária?


Espaço para Serra crescer


Mantega tenta segurar os gastos para não dar argumento aos bancos para pressionarem o BC em favor de juros altos, ao mesmo tempo em que trabalha para evitar que enxugamentos fiscais e monetários invertam tendência desenvolvimentista em marcha para tendência restritiva que reduza arrecadação, diminuindo ritmo do PAC. Caso contrário, favorecerá a candidatuara Serra, que vai se enchendo de argumentos, principalmente, se os empresários começarem a chiar contra o juro alto.

Não há confirmação sobre isso, porque a tese é fruto de abstração matemática, ciência, segundo Hegel, que se desenvolve no exterior da realidade, não podendo , pois, determiná-la. Dessa forma, a decisão do BC, nessa quarta-feira, 24, de elevar os depósitos compulsórios, para enxugar a liquidez interna, de modo a conter pressões inflacionária, evitando a superação do novo PIB potencial na casa dos 6%, pode dar certo ou não, simplesmente, porque é uma experimentação.

A tese gera antítese. Vale dizer: se, por um lado, o enxugamento de liquidez força a taxa de juro para cima, para tentar conter a pressão inflacionária detonada pelo desejo do povo de crescer acima de 6%, por outro, haverá maior atração de capital externo , produtivo e especulativo, que sobrevalorizará a moeda e prejudicará , certamente, o setor industrial, que ficará, com o real mais forte, sem competição para enfrentar os concorrentes, sendo a China o dragão que está comendo todo mundo, vomitando mercadoria barata produzida pelo Yuan desvalorizado. No mundo capitalista em convulsão, não certeza de sucesso. Se o juro sobe pode ser que não haja queda da inflação, porque as empresas passam aos preços o custo do juro , diminuem  a produção e sustentam preço alto, na base do oligopólio, para manter constante a taxa de lucro.

As incertezas, decorrentes da manobra adotada pelo BC, que está gerando controvérsias generalizadas, no meio econômico e político, em ano de eleição, colocam Dilma Rousseff vulnerável aos  ataques da oposição. No jogo de varetas dos juros o contexto é de imbricação de fatores, internos e externos, além das tensões contraditórias produzidas pela concentração excessiva da renda nac ional. Dessa forma, a decisão do BC vira assunto de campanha eleitoral. O BC, em tempo de eleição, agindo para ser solução, pode virar problema, no ambiente de bancarrota financeira global. De qualquer forma, os especuladores estão achando ótimo os juros subirem, porque nos países ricos predominam a eutanásia do rentista para não quebrarem os governos já excessivamente deficitários.