Resgate de um herói sul-americano no Congresso

Sete anos depois da morte de Juruna, um dos herois da história nacional, o film de Armando Lacerda coloca no centro do palco a verdadeira nacionalidade e a defesa de um resgate popular esquecido pela falta de  memória nacional

(Sete anos depois da morte do cacique xavante, Mario Juruna, primeiro índio brasileiro a chegar ao parlamento, como deputado federal, pelo PDT-RJ, a Câmara dos Deputados homenageia nessa quinta feira, a partir das 9 horas, no auditório Freitas Nobre, o grande líder, exibindo o filme “Jururã, o espírito da floresta”, do documentarista Armando Lacerda. No sábado, repeteco, no Cine Vila Rica, Ouro Preto, no Festival de Inverno, será a vez dos mineiros assistirem a película, com 80 minutos de duração, ganhadora dois prêmios internacionais, em Portugal e Itália.)

É muito difícil entender as razões dos outros, se permanecemos no ponto de vista individual. O individualismo, não raro, coloca o indíviduo, com seu narcisismo, no exterior da realidade. Os outros são o inferno dele, como disse Sartre. O ser humano detesta o sucesso do outro. Não se perdoa um grande favor etc e tal. No individualismo, no egoísmo, próprio do sistema capitalista, egocentrista, o outro é um estorvo. Faz sombra. Dessa visão unilateral, culturalmente desenvolvida, para dispersar o homem de seu próprio ambiente, seu próprio eu, constroi-se consciência derrotada pela impossibilidade de ver o todo, pois o que lhe interessa não é o todo, mas o seu. Assim, querer entender a vida do outro, somente se for possível penetrar na consciência do outro.

Esse é um dos méritos mais importantes do filme do jornalista, fotógrafo e documentarista, Armando Lacerda, autor de “Jururã, o espírito da floresta”, com competente montagem de Liloye Boubli, que faturou nesse final de semana o Festival Latino Americano de Trieste, Itália, organizado pela União Latina, com sede em Paris, depois de ter sido elogiado no festival de Veneza e no do Rio de Janeiro, enquanto foi olimpicamente desdenhado pelo Festival de Brasília, mesmo sendo um filme financiado pelo Pólo de Cinema do Distrito Federal. Incrível a incompetência da Secretaria de Cultura e da organização do festival. Agora, certamente, terão que correr atrás do prejuízo.

O olhar do índio é o comandante do ponto de vista indígena sobre sua própria experiência diante do massacre sofrido pela civilização em busca da expansão dos seus negócios em escala crescente no contexto da globalização dos mercados. Essa é síntese fílmica de um trabalho cultural que insere Brasília no cenário da cultura internacional.

É um jogo que massacra o índio desde os descobrimentos. Uma alma massacrada, atemorizada, aterrorizada, sob constante perigo de morte a cada passo. A voz deles é a voz dos outros sobre eles. Os índios vivem tão atormentados, ou mais, que os judeus, assassinados por Hitler.

O ódio hitlerista à competência judaica de acumular riqueza e dominar políticamente o meio ambiente social-democrata ganhou ares de rascismo. Como os judeus, os índios são vítimas do mais cruel racismo, pois sua proposta de vida, a solidariedade, choca, frontalmente, com o seu oposto, a ganância. Pior do que os judeus: são tutelados. Não possuem sequer identidade como categoria social, para se disporem do direito positivo nascido dos romanos e aperfeiçoado pelo código napoleônico, erigindo o poder burguês, no século 18.

Os personagens do documentário de Armando Lacerda são heróis permanentes, que lutam, bravamente, contra o perigo, constanre, de extinção da raça, patrocinada pela civilização que alcançou os mais altos graus de aperfeiçoamento civilizatório dado pela superestrutura jurídica do estado capitalista. Diante dos índios, tal superestrutura simplesmente é colocada a serviço do lucro como deus da salvação.

O resultado, para o lado oposto dessa extroversão do poder legal, é uma tragédia exposta aos interesses que manipulam a legalidade constituída. Os alimentos faltam, a água está sendo contaminada, as reservas invadidas, saqueadas, as mandiocas comidas pelo gado dos invasores, a fome ronda… O suícido indígena aumenta diante da sua própria impotência. O Estado nacional, a propósito de tutelar o índio, confere autotutela aos que invadem as terras indígenas, destruindo-as, brutalmente.

O Estado nacional visto pelo olhar do índio é o Estado anti-nacional que não garante a sobrevivência indígena de maneira dígna. É como o jurista especulador que esfola o lombo do povo com os juros compostos. Uma farsa de civilização escravocrata como proposta de modelo de vida, totalmente, inviável, para a saúde da natureza.

 

História de destruição e morte

 

O filme ganhou prêmios na Itália e Portugal e foi saudado como uma obra de antropologia que coloca no centro do debate a relação do índio sulamericano com a civilização colonialista que elegeu o lucro como objetivo central da conquista territorial na América do Sul, enquanto desconsiderou a riqueza cultural que encontrou nas terras do novo mundo

O panorama é tétrico, para as comunidades indígenas, principalmente, depois dos anos de 1940, quando o Estado nacional getulista amplia as fronteiras nacionais, para interiorizar o capitalismo nacionalista , que alcançaria sua gloria com JK, em Brasília. O espirito nacionalista fascista-getulista, diante da guerra, ganha dimensão política extraordinária no sentido de fortalecer o estado, para preservar o território nacional de interesses externos que se digladiavam no conflito bélico e ideológico.

Com JK, a expansão continuou eufórica, à custa de endividamento externo, que traria desenvolvimentismo, mas, também, colonialismo financeiro via juros altos. O país foi cortado de norte a sul e de leste a oeste pelas rodovias , a fim de criar o mercado consumidor para os automóveis de luxo fabricados pelas indústrias importadas que haviam entrado em decadência na crise de 1929.

Enquanto nos Estados Unidos, os gastos do governo em guerra, produtos bélicos e espaciais, puxavam o capitalismo, com a moeda estatal inconversível, na periferia capitalista era imposta a proposta industrial baseada na indústria de bens duráveis, que já haviam entrado em crise desde início dos anos de 1930.

Essa indústria impunha uma exigência: precisa de estradas em todo o território nacional. O modelo de desenvolvimento, baseado na fabricação de produtos de luxo, que requeria concentração de renda numa classe média capaz de consumi-los, seria, historicamente, o inferno astral para a vida das comunidades indígenas brasileiras.

Aonde chegou o consumismo dos bens duráveis, dinamizadores do capitalismo concentrador de renda, chegou a destruição dos índios. Sucumbiram-se à violência civilizatória, pois a civilização não tinha a proposta de negociação política com os índios, que já estavam há séculos em suas propriedades. A propriedade é dada pelo trabalho, suor do rosto, de acordo com a visão indígena. Confronto total, pois a visão do branco é oposto, ou seja, a propriedade é um roubo.

O discurso do branco foi a bala dos armados com armas de fogo contra os armados com armas da floresta, arco e flexa. Massacre.

A febre juscelinista de interiorização do país ampliou as fronteiras e mexeu com o estômago nacional. Os militares, como destaca Alisson Paulinelli, ministro da Agricultura do presidente Geisel, perceberam que era preciso aumentar a oferta de alimentos para garantir a base alimentar nacional ampliada pelo espírito investidor de JK que se espalhou pelo Brasil afora.

Tal expansão bateria de frente com os índios. Ela se daria com a ampliação das fronteiras nacionais do Centro-Oeste, utilização dos cerrados para plantar soja, desenvolvida pela tecnologia revolucionária da Embrapa etc. Os índios, que estavam na frente dessa armação política militar de ocupação das terras produtivas pelo setor privado, dançaram no jogo da civilização ocupacionista. 
 

Consciência se rende ao líder xavante

 

Autêntico líder popular e indígena, Juruna tinha a altivez do estadista e a disposição de lutador que coloca pedra sobre pedra para erguer a resistência contra o massacre do seu povo, que, lamentavelmente, continua em marcha, na batida firme do capitalismo em busca insaciável de lucro, passando por cima das riquezas culturais

A temática do filme de Armando Lacerda situa esse momento histórico no qual nascerá o cacique Mario Juruna, que terá vida de resistência à invasão do branco sobre as terras do índio, até se transformar em celebridade política nacional e internacional, depois que é descoberto pela grande mídia, em reportagens de Memélia Moreira, Eliane Lucena, Chico Dias e Marcio Braga, repórteres, respectivamente, da Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Jornal da Tarde e Jornal do Brasil.

 A história do branco é a epopéia da conquista do território dos índios, cuja alma se expõe no filme com uma dor amarga, mas, igualmente, expressando uma tenacidade incrível de uma civilização que se mostra não apenas disposta a resistir, bravamente, mas, também, negociar, porque sua índole não é a guerra, mas a paz.

Mas será possível a paz com as palavras do branco? Como diz o sábio Aniceto Suzavera, “o branco conta histórias, usa as palavras, que não têm ‘práticas’ nenhuma”. Por trás da representação, do aparente, está o latente, isto é, a destruição, a voz da destruição.

E a voz dos destruídos, quem contará? Qual a sua versão?

“Jururã, o espírito da floresta” abre espaço para o universo mental dos índios, a sua cabeça, a sua inteligência – sua bordina – , a sua racionalidade, sua paciência e sua explosão calculada enquanto busca socorro no próprio humanismo desenvolvido pela civilização que causa a destruição.

Teria sido inevitável a destruição dos indíos , como se dá na história brasileira, ainda, agora, quando as tensões guerreiras se apresentam no contexto das demarcações das terras indígenas?

O raciocínio do branco é unilateral. Jamais cogitou de negociar com o índio, de forma diplomática, respeitando o outro, sua civilização, seus costumes, sua lógica, sua visão prática. Primeiro, as balas, depois da escravidão.

O governo brasileiro, dos anos de 1950 em diante, incentivou a ampliação das fronteiras nacionais, no rastro das rodovias que rasgaram as terras indígenas, mas não cuidou de apreciar, valorizar e intercambiar com o pensamento político indígena, que obedece, racionalmente, a leis naturais. Precisaria ter ocorrido a destruição violenta de seres humanos indefesos?

Disse: “Por que brigar. Tem terra para todos. Tem terra para índio, para posseiro, para fazendeiro, para agricultor, até para multinacional. Falta organizar e planejar, para que todos possam trabalhar”.

Lamentou não participar da Assembléia Nacional Constituinte. Não fora reeleito para novo mandato depois do período que frequentou a tribuna como o primeiro índio brasieleiro a chegar pelo voto ao parlamento, entre 1983 e 1987. Sua missão disse, seria levar adiante os trabalhos da comissão do índio. Seria a base da conscientização política sobre a nessidade de consolidar partidariamente o pensamento indígena nacional.

 

Verdadeiro estadista

 

Juruna venceu barreiras nacionais e internacionais e se transformou no primeiro índio brasileiro a chegar ao parlamento, onde o preconceito vigorou contra a sua determinação vigorosa de seguir adiante com a luta contra a exploração indigena que segue firme no Brasil apesar de todos os discursos oficiais de proteção aos índios, considerados, antropoloticamente, incapazes de dirigirem seu propiro destino pelo poder estabelecido

A voz política indígena é ancestral e nos Andes é forte, tanto que está no poder, na Bolívia, chegou, agora, ao poder no Paraguai e tem participação forte, igualmente, no Peru, na Colômbia e na Venezuela. Juruna via longe, pois sua meta era a supressão da tutela constitucional sobre o índio. Sua cabeça não cabia nesse molde escravocrata,nem a dos seus parentes, pois têm consciencia de que constituem uma nacionalidade.

Os depoimentos de  cacique Salvador, de Vitória Pedzerone, Aniceto Suzavera, Diogo Amho, José Maria Paratsé, cacique Damião , Juliano Xavante entre outros são o olhar e o ponto de vista político do índio, em um documentário que expõe plasticamente com vigor a beleza da vida natural e singeleza de um pensamento simples, sábio e consciente.

A passagem de Juruna pelo Congresso é a passagem de um grande estadista, que impressiona pela sua exuberante racionalidade dada pela vivência prática de um povo sofrido pela desvastação capitalista especulativa que domina a história nacional.

Darci Ribeiro sacou a genialidade de Juruna e abriu espaço para ele na política, idéia acatada por Brizola, que, merecidamente, representou primeira consciência político partidária nacional a reconhecer direitos políticos dos índios.

O Congresso devia alto tributo ao cacique Mário Juruna – Jururã entre seus pares – , porque traiu a causa indígena. Não respeitou a vontade nacional que levou o índio ao parlamento cuja missão, a de criar espaço político para os índios, nos partidos, como representatividade efetiva, merece o desprezo das cúpulas partidárias nacionais, adversárias arrogantes do pensamento indígena que reivindica maioridade política.

Juruna mostrou inteligência poderosa que incomodou os poderosos. Falou como representante de uma nacionalidade para outra nacionalidade. Comportamento altivo, dado pela consciência dessa nacionalidade e da necessidade de preservá-la.

Naturalmente, em defesa da sua nacionalidade, incomodou. Peitou de frente os militares, abrindo discussão internacional da causa maior indigena, isto é, a defesa da demarcação das terras.

 

Elites traem causa indígena 

 

Sobretudo, Juruna, como autêntico líder demonstrou, com extroversão e verdade, o caráter das lideranças políticas nacionais, que disse pensarem com a cabeça direcionada de fora para dentro, sem ter a verdadeira coragem de acreditar no verdadeiro potencila nacional, a in teligência e o destemor do povo brasileiro, na linha ressaltada por Darci Ribeiro, responsável por levar Juruna ao Tribunal Bertrand RusselNo Tribunal Bertran Russel, na Holanda, em 1983, chegou como ídolo de povo resistente à ditadura militar. O governo não conseguiu evitar sua viagem, dadas as pressões de organismos políticos europeus e americanos, dispostos e ouvir do líder discurso autêntico, socialista, humanista, espiritualista.

O filme de Armando Lacerda mostra, sobretudo, o humanismo indígena e a contribuição política que ele pode dar ao progresso do pensamento político humanista nacional. Da extrema exploração, da extrema pobreza, nascem os pensamentos mais nobres e gerais que abrem luz à humanidade.

A voz experiente e lúcida de Aniceto Suzavera, que veio, com Juruna, à pé da sua aldeia, São Marcos, até Goiânia, para chegar a Brasília, a fim de iniciar, nos anos de 1970,  a epopéia de Juruna, no cenário político nacional, a partir das denúncias dos massacres contra os índios,  é um caminho seguro para construção de diálogo político capaz de construir sociedade mais solidária.

O filme impõe uma necessidade, a de que haja reativação e fortalecimento do pensamento indígena no cenário político nacional, especialmente, no momento em que a humanidade vive os estertores de um modelo de vida ocidental que está falindo, por destruir a natureza, graças ao predomínio do egoísmo e do individualismo exacerbado.

A vida de luta, nobre e dura, dos índios, que os leva, no cotidiano, a um comportamento social solidário, oposto ao individualismo incontrolávelmente egoista, coloca em cena uma proposta racional que deve ser mesclada à irracionalidade civilizatória, para dar uma demão na razão e no bom senso.

A visão indígena, pelos personagens do filme, apresentando em cores vivas por uma comidade confiante na conquista da sua felicidade, é contribuição cultural indispensável à construção da própria nacionalidade.

Como disse, orgulhosamente, Juruna em discurso antológico: “Se o Brasil tivesse mais de 50 Juruna, já teria mudado há muito tempo”. O documentário é o resgate para a história de um líder político nacional de primeira linha a ser cultuado como herói.

Banco paga PAC para eleger Dilma

Banqueiros deixarão de ganhar mais de R$ 60 bilhões para que sobre mais recursos para o PAC  que tem a missão de dinamizar a economia e, consequentemente, eleger Dilma

Gasto público não é deficit, é investimento, portanto, gastar mais significa investir para gerar emprego, renda, consumo e, consequentemente, arrecadação tributária, que impulsiona novos investimentos. Essa virou a máxima maior do governo Lula para engordar o Programa de Aceleração do Crescimento(PAC), na reta final da administração da coalizão governamental PT-PMDB, atravessando aguda crise politica, ética e moral no Congresso.  A Lei de Diretrizes Orçamentárias(LDO), a ser aprovada até a próxima semana, antes do recesso parlamentar, livra o PAC de sofrer reduções orçamentárias, para formar superavit primário(receita menos despesas, excluindo pagamento de juro), destinado ao pagamento dos serviços da dívida pública interna. Sobrarão menos recursos para os banqueiros e mais para os investimentos públicos. Ao ficar fora do cálculo do superavit primário, o principal programa de investimento governamental, com o qual o presidente Lula conta para eleger sua candidata à eleição presidencial em 2010, ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, disporá adicionalmente de mais R$ 22,5 bilhões. Somam-se a esse total outros R$ 16 bilhões, correspondentes aos investimentos da Petrobrás, igualmente, retirados do cálculo feito para pagamento dos juros, e tem-se quase R$ 40 bilhões que os bancos credores do governo deixarão de ganhar em 2010, em plena campanha eleitoral. O Planalto assegura, com relativa tranquilidade, os recursos não apenas para o PAC, mas, igualmente, para o reajuste do salário mínimo, em patamar superior ao crescimento do PIB, que está em queda, com a crise global, bem como satisfaz a reivindicação dos aposentados, favoráveis a reajuste semelhante ao concedido ao mínimo. Além disso, acrescentem-se aos R$ 40 bilhões excluídos do superavit primário outros R$ 40 bilhões resultantes da redução da taxa de juro básica de 13,75% para 9,25%, de janeiro a junho. Nesse caso, em vez de o Planalto utilizar o dinheiro economizado para fomentar a infra-estrutura, deve aproveitá-lo para bancar as negociações salariais realizadas no ano passado, a serem liquidadas em 2009 e 2012, como destaca a repórte Claudia Safatle, do Valor Econõmico. As autoridades econômicas e monetárias fizeram, dessa maneira, economia forçada para compensar queda de 32%  das receitas do FGTS, algo em torno de R$ 2 ,3 bilhões, nos últimos seis meses, e de quase R$ 70 bilhões correspondentes à arrecadação tributária, segundo o ministro do Planejamento , Paulo Bernardo, decorrente da desaceleração da economia mundial. Esta, segundo relatório do FMI, divulgado essa semana, registrará recuo de 1,4% em 2009, podendo não reagir, satisfatoriamente, em 2010, em face das incertezas levantadas pela escalada dos deficits públicos em todo o  mundo, cujas consequências, como alertam os analistas em geral, poderão ser inflação, que implicará juros altos e, evidentemente, mais desaceleração. O pior dos mundos.

 

Novo conceito de contas públicas

 

Serra foi o primeiro a pedir mudança no conceito de superavit primário do FMI que considera gasto o que é investimento, para limitar o crescimento da economia

Faltava um motivo forte para os governos romperem com o conceito de superavit primário. A grande crise mundial ofereceu essa oportunidade. Desde a Era FHC, o governo se divide em torno dele. O ex-ministro do Planejamento e da Saúde do governo Fernando Henrique C ardoso, hoje,  governador de São Paulo, José Serra, candidato tucano à presidência da República em 2010, tornou-se adversário encarniçado do conceito de superavit primário, criado pelo Fundo Monetário Internacional, sob orientação do Consenso de Washington. Serra argumentava que os investimentos públicos, realizados pelas empresas estatais não se constituiam deficit, mas investimentos. Os recursos aplicados pela Petrobrás, por exemplo, dizia, representavam retornos seguros para o governo em forma de impostos, emprego, renda e consumo. Brigou dentro da administração neoliberal fernandina. Perdeu a parada. Durante  o governo Lula, até agora, não fora possível emplacar o argumento serrista. Diante da crise global, que desestruturou a economia mundial e ameaça a periferia capitalista , adquiriu consistência a defesa levantada, primeiramente, pelo governador paulista. A administração Lula conseguiu retirar do cálculo do superavit primário os “gastos” da Petrobrás, responsáveis maiores por puxar a demanda industrial brasileira. Chegou a vez de o argumento serrista valer, também, para o PAC. E não apenas para ele, pois gastos ampliados com salários dos servidores, aumento do salário mínimo e reajuste dos aposentados, que, com o chamado fator previdenciário, sofreram corte de 5%, em nome do ajuste fiscal, para formar crescentes superavits primários, passam a ser considerados, também, investimentos. O conceito de superavit primário encobre a lógica do FMI e dos banqueiros de criar, no âmbito do orçamento brasileiro, dois orçamentos distintos. De um lado, o ORÇAMENTO FINANCEIRO; de outro, o ORÇAMENTO NÃO-FINANCEIRO. O primeiro reserva recursos para o pagamento dos serviços da dívida. Jamais podem tais recursos serem contingenciados, conforme determina o artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b da Constituição. Já o segundo, que representa gastos com saúde, educação, segurança, infra-estrutura etc, pode ser contigenciado a torto e a direito. Ou seja, a prioridade do governo, de acordo com o texto constitucional, foi, até agora, o pagamento dos juros e não o desenvolvimento econômico. Ao enxugar, também, a partir da LDO de 2010, os recursos do ORÇAMENTO FINANCEIRO, e não apenas os do ORÇAMENTO NÃO-FINANCEIRO,  inicia-se reversão de processo histórico que determinava privilégio à categoria social dos banqueiros, enquanto as demais categorias sociais pagavam o pato. Como no rítmo da desaceleração econômica global, tornou-se politicamente impossível garantir superavit primário elevado – que chegou, na Era Lula, a quase 6% do PIB, caindo, seguidamente, para patamares inferiores até limitar-se ao atual de 2,5%, podendo despencar, ainda mais, chegando a 1,5%, ao final do ano, para ser eliminado em 2010, depedendo do andar da carruagem econômica avariada – não estaria afastada a hipótese de sua extinção.

 

Inflação, por enquanto, vira solução

 

Os governantes do G8 e do G5, todos quebrados, no cenário da grande crise global, unificaram seus discursos favoráveis aos aumentos dos gastos públicos, como alternativa para salvar o capitalismo do colapso geral

A reunião dos líderes mundiais do G-8 e do G-5, em LÁquila, Itália, condena, de morte, o superavit primário, no Brasil. Durante a semana, evidenciou a confluência de interesses dos governos capitalistas ricos e emergentes em favor do aumento dos gastos públicos de modo a garantir sobrevivência do setor privado em total bancarrota, em face da carência de crédito à produção e o consumo, para girar, satisfatoriamente, o comércio mundial. Até o Papa Bento VI lançou encíclica para clamar aos governantes que mantenham o Estado ativo, gastador em escala ampliada, como arma para dinamizar a produção e evitar escalada do desemprego, cuja taxa se aproxima dos 10%, na Europa e nos Estados Unidos, sinalizando tensões políticas globais. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, avisou aos seus colegas que o consumo americano não vai se sustentar na escala necessária para puxar a demanda global, como aconteceu durante as últimas décadas, desde o final da segunda guerra mundial, a partir do acordo de Bretton Woods, em 1944. Tal hipótese está descartada, por conta dos elevados déficits americanos, que precisam ampliar-se ainda mais como defendeu Warren Buffett, o maior empresário americano, embora destaque que haverá, com isso, pressões inflacionárias. A inflação virou solução conta o perigo de deflação. Os deficits americanos, ao longo dos últimos sessenta anos, serviram para realizar as exportações asiáticas e européias para os Estados Unidos, enquanto a economia americana, com o dólar, como equivalente monetário global, garantia superavits financeiros compensatórios aos deficits comerciais e fiscais. A bancarrota financeira americana, em outubro de 2008, pôs fim ao processo, abrindo nova etapa histórica. Os países, que antes dependiam da locomotiva econômica de Tio Sam, terão que incrementar seus mercados internos, se quiserem continuar sobrevivendo. Ou seja, para evitar que se formem grandes estoques produtivos, que não teriam como ser desovados senão via exportações, os governos, principalmente, os emergentes,  teriam que promover distribuição acelerada da renda, para incrementar consumo interno. Do contrário, emergiriam grandes deflações de preços que destruiriam as economias. Tal contexto, por sua vez, em meio às instabilidades monetárias desatadas pela crise global, tendem a produzir protecionismos crescentes. Cada um buscaria proteger seu espaço. As disputas comerciais , em escala global, virariam guerras comerciais. A China, nesse ambiente, dispondo de reservas de trilhões de dólares, já está produzindo deslocamentos dos produtos industriais brasileiros em todo o Mercosul. Não foi à toa que o presidente Lula e o presidente francês, também, afetado pela agressividade chinesa, combinaram-se em defesa de novo sistema monetário. Uma cesta de moedas seria a solução para evitar guerras comerciais encarniçadas no ambiente de ampla desvalorização do dólar.  O real brasileiro, que acaba de completar 15 anos, não teria fôlego suficiente para suportar a pressão chinesa. Talvez por isso, durante as comemorações natalícias, tenha o líder do governo, senador Aluízio Mercadante(PT-SP), pregado união nacional, para garantir sustentação da moeda. Caso contrário, o real, no cenário em que o governo gasta sem controle, para sustentar a produção e o consumo, a fim de garantir arrecadação para tocar o PAC, poderia ir para o brejo.

Real em crise pode provocar Dilmécio: Dilma+Aécio

 

A disputa entre Serra e Aécio dentro do PSDB pode implodir para levar o titular de Minas a aliar-se com Lula , compondo com Dilma, em 2010, criando fato totalmente novo no cenário da sucessão presidencial

A  grande crise mundial tende a reservar surpresas ainda não admitidas pela racionalidade política, mas que podem pintar, principalmente,  se  a instabilidade econômica aprofundar-se por força do tsunami hiperinflacionário que vai se formando no ambiente de elevado endividamento governamental decorrente da necessidade de o Estado entrar em cena para salvar da bancarrota os setores produtivos em geral, elevando o endividamento público, mediante déficits incontroláveis. Aparentemente, a inflação está cadente, mas, seu conteúdo oculto, real  e latente, a dívida pública interna em expansão sem controle, crescendo, dialeticamente, no lugar da própria inflação, demonstra estar em andamento outra essência, muito mais perigosa. Não apenas para o governo Lula, mas, para todos os governos capitalistas atuais, sufocados pelas contradições que pegaram o capitalismo pelo pé e o viraram de ponta cabeça. O décimo quinto aniversário do Plano Real, que uniu, para comemorações, fragilizadas lideranças governistas e oposicionistas, sacos vazios que, isoladamente, não se sustentam, deixou claro que os enigmas e perigos estão no ar. Evidentemente, o governo Lula não suportará, por muito tempo, a combinação demoníaca de drástica redução da carga tributária, gerada pela desaceleração da economia, com a sustentação do Programa de Ac eleração do Crescimento(PAC), que, para ser materializado, exige ingressos tributários crescentes, no rítmo em que vinha ocorrendo antes da falência financeira americana que contaminou a praça mundial, paralisando tudo. Se , no tempo da bonança, o ritmo do PAC já era criticado, por conta de sufocante burocracia, no tempo oposto, instalado pela grande cirse, nem se fala. Por falta de recursos, o programa governamental vive de encenação midiática, pura mentira. Mais alguns meses de previsível queda de arrecadação, a situação tenderia a ficar dramática, evidenciando a incapacidade do Planalto, no ambiente de desaceleração ou lentíssima recuperação, de evitar desajuste cujas consequências sugeririam, no plano político, soluções cesaristas , tipo terceiro mandado, se a política, em clara deterioração ético-moral, não der conta do recado, fazendo valer a democracia. Nesse contexto, em que o governador tucano de São Paulo, José Serra, admitiu, segundo o Valor Econômico, não disputar a eleição de 2010, talvez por perceber, intuitivamente, que seu objetivo não seria alcançado, salvo via quimérica união política nacional, dadas as circunstâncias, nacionais e internacionais, cujos desdobramentos não podem, racionalmente, ser percebidos a priori, não estaria afastada a possibilidade de, no vácuo aberto por ele, surgir o que sugeriu o senador Aluísio Mercadante(PT-SP), em seu discurso de síntese sobre o décimo quinto aniversário do real, ou seja, a imperiosa necessidade da união. Abriu chances ao até agora inimaginável, à convergência entre governistas e oposicionistas.

 

De Gerson para Pelé

 

Com visão extraordinária de futuro, Mercadante pregou a união governo-oposição para manter a sobrevida do plano real ameaçado pela grande crise global

Roubando a cena, que estava montada pelos tucanos, para endeusar o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Mercadante, sem dúvida, a melhor cabeça do Senado, na atualidade, demonstrou extraordinário descortínio, ao destacar acertos e erros do Plano Real. Ressaltou, equilibradamente, acertos e erros da oposição petista ao real, quando foi lançado, primeiro, pelo presidente Itamar Franco(1993), em seguida, pelo presidente FHC(1994), e, igualmente, destacou  acertos e erros da oposição tucana, na sequência do real, na Era Lula. Num rasgo de premonição, o senador paulista previu que a estabilidade, no embalo da crise mundial, dependeria de  acerto e combinação das duas partes , na sequência histórica do Plano. Abriram-se, consequentemente, amplas possibilidades para eventual materialização da pregação seguinte do governador tucano de Minas Gerais, Aécio Neves, de que o interesse nacional impõe a sabedoria política da união para a preservação da obra econômica e política maior da Nova República, herdeira da ditadura militar. Subitamente, um manto de concórdia se espraiou durante a valsa juvenil do real em um plenário lotado do Senado em simbólica sessão histórica, na terça, 07. Um quadro inverso ao que se tem verificado nas últimas semanas, em que oposição e governo estão totalmente rachados por conta da crise administrativa da casa senatorial, manchada de corrupção por todos os lados, sem que se possa dizer quem tem ou não razão, senão os 81 senadores que, juntos, são os responsáveis pela obra final.  As palavras de Mercadante, segundo as quais se fazem necessários encontros mais assíduos entre o ex-presidente FHC e o presidente Lula, para acertos de rumos e traçados de futuros, retumbaram forte. Em sua fala final, FHC, rendendo-se à tal proposta, sensibilizou-se e destacou que sugestão nesse sentido deve ser feita à autoridade maior. O passe genial  de longa distância lançado por Mercadante, qual Gerson para Pelé matar no peito e bombar as redes da Tchecoslováquia, em 1970, consagrando o tri-campeonato mundial, foi dado para Lula na boca do gol. José Prates, prefeito de Salinas, Minas Gerais é a síntese que levará à formação de correlação de forças que unirá o país para vencer as forças conservadoras que impedem o verdadeiro desenvolvimento de uma agenda nacional com enfase no mercado interno, para romper as articulações históricas que construiram uma elite que atua com a cabeça alienada dominada de fora para dentro a serviço dos interesses que marginalizam a população em favor de uma minoria que eterniza privilégiosNo compasso da grande crise, em que nem oposição nem situação tem a chave para, isoladamente, resolver os impasses emergentes, o titular do Planalto desperdiçará ou emplacará? Se Lula está com a bola toda, traduzida em 80% de popularidade, que o credenciam  a bancar a candidatura da sua preferida, ministra Dilma Rousseff, que vai vencendo, galhardamente o câncar linfático; se Serra, que cometeu pecado político capital por estar ausente em Brasília em dia histórico, parece jogar a toalha em face dos problemas que requerem despreendimentos totais da individualidade política, para serem ultrapassados; e se Aécio, num rasgo de sabedoria e esperteza mineiras, viu o clarão, que foi percebido como escuridão pelo governador de São Paulo, estaria aberta a possibilidade da pregação em marcha do prefeito de Salina, José Antônio Prates(PTB-MG), para 2010, favorável à chapa DILMÉCIO = DILMA + AÉCIO? Ou seria ADIL? O capital de Aécio para formação da unidade nacional já foi dado. O de Serra ainda não. Basta perceber a ação dos dois nas últimas eleições municipais. Aécio, em Minas, costurou com o PT a vitória do prefeito Márcio Lacerda(PS-MG); em São Paulo, Serra, opostamente,  partiu para o pau, rachando seu próprio partido, na disputa com o candidato petista, para dar vitória ao prefeito Gilberto Kassab(DEM-SP). Ambos, Aécio e Serra, foram vencedores, mas, enquanto o titular do Palácio da Liberdade, deixou rastro de concórdia, o titular do Palácio dos Bandeirantes salpicou o chão paulista de discórdia. Por que a estratégia mineira não poderia ser repetida no plano nacional?

 

Plano traçado por Washington

 

FHC se disse pronto a estender as mãos ao acordo político capaz de garantir a estabilidade econômica sob o real ameaçada pela crise internacional, como solução adequada ao interesse nacional

Os inumeráveis discursos de loas ao Plano Real não focaram o principal: o olho do capital. O capitalismo, em sua evolução contraditória, somente pode ser entendido, segundo Marx, se acompanhado pelo olhar do próprio capital. Os adoradores do real olharam-no com o olhar dos subordinados ao capital.  O Plano Real foi concebido em pleno domíno das determinações do Consenso de Washington pelos países credores. Os ajustes macroeconômicos adotados pela periferia capitalista obedeceram estritamente as ordens da Casa Branca nas linhas principais da política monetária, fiscal e cambial. O câmbio flutuante, o superavit primário e as metas inflacionárias são imposições dadas de fora para dentro, que ajustaram, de acordo com o interesse do capital externo, a bagunça hiperinflacionária decorrente , não dos erros da política econômica interna, mas do ajuste brutal da economia americana, adotado no final dos anos de 1980, mediante aumento exorbitante da taxa de juro americana em nome do combate à inflação. O excesso dólares, eurodólares, nipodólares e petrodólares, que inundavam a praça mundial desde o final da segunda guerra mundial – primeiro para salvar a Europa dos braços do comunismo e, segundo, para sustentar a guerra fria, a fim de derrotar os comunistas – , ameaçava a credibilidade do dólar e levava o sistema financeiro internacional a desconfiar da saúde da moeda americana já no início dos anos de 1970. Os pacoteiros brasileiros não entenderam a lição de Marx: leram o movimento do capital pelo olhar dos dominados e não dos dominantes. Só poderiam inverter a realidade, fetichistamente.Em 1974, Washington, sob ameaça da social democracia alemã, que queria resgatar seu ouro nos cofres do tesouro americano,  rompeu a paridade ouro-dólar, deixando a moeda americana flutuar. Beiço geral de Tio Sam na praça global. Em seguida, em 1979, a Casa Branca aumentou a taxa de juros de 5% para 17%. Na ocasião, o ministro do Planejamento do governo Figueiredo, Delfim Netto, sob pressão para justificar o desarranjo geral da economia brasileira e mundial, justificou que Tio Sam tinha a missão de salvar o ocidente do comunismo. A questão política essencial não foi discutida, como sempre, pela grande mídia, dependente do capital externo, que mandava no jogo, de forma imperial. A subida dos juros americanos, evidentemente, quebrou os países devedores em dólares, caso do Brasil. O governo brasileiro lançou mão das empresas estatais para levantar empréstimos, a fim de fechar balanços de pagamentos. A dívida, que já era alta, ficou insuportável. Os preços especulativos fugiram do controle. Os planos de ajustes, como o Plano Brady, emergiram imperialmente, para enquadrar a periferia capitalista. Os embaixadores americanos eram, na ocasião, os verdadeiros governantes na América Latina. Os militares brasileiros tentaram maxidesvalorizações, para levantar dinheiro via exportações. Como o mercado interno não era levado em conta, dada a insuficiência crônica de consumo decorrente de modelo de desenvolvimento econômico, essencialmente, exportador, o resultado foi hiperinflação. Os economistas que subiram ao poder com a queda de Delfim e dos militares, em vez de buscarem a raiz do problema, correram para a Casa Branca, culpando Delfim por tudo, de modo a receber as novas ordens ditadas pelos planos salvacionistas, que configuraram a essência do Consenso de Washington. Os pacoteiros da Nova República tentaram sacrificar Delfim Netto em vez de mergulharem nas verdadeiras causas da inflação que a abalou a periferia capitalista depois da crise monetária dos anos de 1980No ambiente de restrição de empréstimos externos e de pressões inflacionáridas, decorrentes das maxidesvalorizações cambiais, o resultado não poderia ser outro senão hiperinflação. Os governos neorepublicanos , a começar pelo do presidente José Sarney, foram engolfados, totalmente. Os planos antiinflacionários surgiam ao sabor das pressões do FMI, que determinavam as premissas básicas das políticas monetárias, fiscais e creditícias. O salário mínimo era anuncia por Ana Maria Juhl, a célebre chefe da missão do Fundo. Os demais que a substituiram fizeram o mesmo. O Palácio do Planalto apenas cumpria a ordem externa e ponto final. O Plano Real, depois dos fracassados planos cruzado, collor, cruzeiro novo, bresser, feijão com arroz etc, mudou a aparência hiperinflacionária expressa no descontrole geral dos preços, para traduzir a essência hiperinflacionária oculta e latente na dívida pública interna, mediante sobrevalorização cambial, ou seja, o famoso populismo cambial. Os preços, com a mudança de moeda, cairam, graças ao novo real sobrevalorizado, que passou a importar barato. A inflação desabou. FHC faturou seus dois mandatos, mole. Contudo, o seu oposto, em movimento dialético, se realizou na expansão incontrolável da dívida pública interna, que passou a crescer no lugar da inflação, como destacou Lauro Campos, em “Capitalismo e barbárie”(2000, Senado). O desajuste fiscal, para não se aprofundar, em meio a um contexto em que os empréstimos externos diminuiram, dado o risco que o próprio FMI viu na emergência do real, obrigou o governo a subir a carga tributária de forma irracional. O poder se centralizou absolutamente em Brasília sob comando das forças financeiras paulistas. A Federação virou caricatura. Ao mesmo tempo, o Congresso, prisioneiro das ordens dos credores, já havia, em 1988, segundo o autor da “Crise da ideologia keynesiana(1980, Campus), inserido na Constituição o artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, para proibir contingenciamento de recursos orçamentários destinados ao pagamento dos serviços da dívida. Ajoelhou-se à governabilidade eternamente provisória, abrindo espaço ao avanço da corrupção. A prioridade total da Nova República, portanto, passara a ser não o desenvolvimento , mas o pagamento dos juros compostos aos banqueiros. Escravidão jurista. O maior crítico da Era FHC, totalmente, ignorado pela grande mídia, viu o Plano Real, como Marx, pelo olhar do capital externo, que mantém domínio sobre a economia brasileira, desde o tempo da independencia, impondo seu jogo e exigindo recompensas altas em forma de juros compostos, que desarticulma a economia e garentem governos subordinados a ele, para o bem e para o mal, sempreAs crises externas que os tucanos dizem que a Era FHC enfrentou – a mexicana, a russa, a argentina, a asiática e, claro, a brasileira – foram, evidentemente, produzidas pelos Estados Unidos em nome da salvação do dólar. Inexistia soberania nacional para falar mais alto do que as pressões de Tio Sam. Lula substitui FHC , prometendo seguir o figurino. Deu sorte, porque no seu período, houve bonança mundial especulativa. A grande crise, agora, jogou tudo para os ares, e as premissas sobre as quais o Plano Real se sustenta, a partir das ordens de Washington, implodiram. No ambiente em que o Estado entra na economia para salvar o setor privado da bancarrota, não dá mais para bancar o câmbio flutuante, nem metas inflacíonárias e muito menos superavit primário. Até a Igreja Católica entrou em campo para afirmar que o mercado, pregado pelo Consenso de Washington, que escravizou governos neorepublicanos, acabou. O futuro do real , portanto, está nas mãos da política, e não mais da economia. O senador Aluísio Mercadante, ao pregar união da oposição e da situação, para enfrentar o que vem por aí, demonstrou grande lucidez. Certamente, para não sentar ao lado do senador José Sarney, como fez Aécio Neves, o governador Serra, que ficou calado, talvez não acreditando nessa pregação mercadantina, imaginando, quem sabe, que a implosão pudesse favorecê-lo, perdeu grande oportunidade ao não vir a Brasília, nessa terça, para engrossar a corrente político-unionista traçada pelo senador paulista. O governador mineiro não deixou a oportunidade passar. Montou no cavalo arriado, possivelmente, na garupa de Dilma. Se vai dar certo a proposta de José Prates, só a história dirá, mas ela se sintoniza com a lógica, no compasso da derrocada do real, cuja salvação depende da união nacional.

Sucessão com hiperinflação

Serra, temeroso quanto ao futuro de possível descarrilamento hiperinflacionário, mantém-se quieto para não se queimar antes da hora, jogando o jogo do esconde-esconde

A sucessão do presidente Lula pode rolar em ambiente de hiperinflação global. O aparente otimismo, tanto na cena mundial, como na brasileira, esconde o essencial: a crise ainda não mostrou sua verdadeira cara, que se expressa no avanço incontrolável do excessivo endividamento hiperinflacionário dos governos em geral, a fim de tentar salvar os setores privados em bancarrota, graças à queda acentuada do consumo, cujas consequências desatam guerras comerciais. Os últimos relatórios do BIRD , Banco Mundial, e BIS, Banco de Compensações Internacionais, não deixam dúvidas: avança o fantasma hiperinflacionário. O jogo da hiper em marcha é claro: com uma mão, os governos jogam dinheiro na circulação para ativar a produção; com a outra, lançam títulos, para enxugar parte da liquidez monetária, de modo a evitar enchente inflacionária. A dívida, dialeticamente, cresce no lugar da inflação. Mas, até quanto terão fôlego para bancar o  jogo keynesiano, que tende a deixar de ser solução para virar problema?

A corrida dos governos, inclusive, o do Brasil do presidente Lula, ao endividamento generalizado, como alternativa econômica anticíclica, esconderia a verdadeira natureza da grande crise, desatada pela bancarrota financeira americana em outubro do ano passado, que se espraiou, primeiro , pela Europa, derrubando o euro, em seguida , aos países asiáticos, dependentes, visceralmente, do mercado consumidor americano, onde desovavam suas mercadorias, mediante moedas desvalorizadas, e , finalmente, nos mercados emergentes.

Ou seja, o pior ainda não aconteceu. Os alertas começam a ser dados, de forma contida, mas o medo é geral na praça internacional, medo esse que procura ser expresso em forma de aparência de recuperação. No fundo, esconde-se a preocupação central quanto à verdadeira essência do que poder vir por aí. Cauteloso, o governador de São Paulo, José Serra, economista, estudioso de crises financeiras, suspendeu especulações sobre sua possível candidatura. Disse aos aliados, conforme adiantou o jornal Valor Econômico, que pode, inclusive, não sair candidato. Teme, no fundo, estouro geral. Sua posição estratégia, também, é de esconder o jogo, porque eventual descarrilhada geral da economia reservaria surpresas que ultrapassariam todas as considerações postas por enquanto na mesa dos analistas políticos.

 

Tio Sam está falido

 

Greenspan, que foi , excessivamente, laxista no comando do banco central dos estados unidos, agora, apavorado, com as emissões de títulos americanos, para tirar o setor privado da crise, antevê a grande inflaçãoobama sem pose, não pode lançar mão da força outrora poderosa de tio sam para enxugar o excesso de dólares, jogando os juros para cima, porque haveria corrida especulativa global, lançando a economia americana no abismo, à beira do qual já se encontraO ex-presidente do Banco Central dos Estados Unidos, Alan Greenspan, começou a alertar para a possibilidade de volta da inflação, por conta da generalizada corrida governamental, tanto nos Estados Unidos, como Europa e Japão, ao endividamento incontrolável. Deixou visível seu assombro quanto a um possível descontrole das dívidas governamentais. As taxas de juros nos países desenvolvidos, em face dessa perspectiva sombria, estão sendo mantidas no patamar negativo, justamente, para não forçar ampliação do endividamento, que avança, incontrolavelmente, apesar disso.

Na prática, o governo Barack Obama, já, excessivamente, endividado, por força dos deficits americanos acumulados, ao longo das últimas décadas de expansões monetárias, que fragilizaram o dólar, sequer poderia imaginar aumentar os juros, como seus antecessores fizeram, nos anos de 1980, quando a moeda americana se viu diante de ameaças inflacionárias perigosas. Caso partisse para essa opção, simplesmente, teria que enfrentar a desconfiança generalizada do mercado na saúde do dólar, contra o qual poderia gerar corridas especulativas irresistíveis.

Por enquanto, a China, que está abarrotada de dólares – mais de 2 triblhões – , tenta desovar moeda americana na praça internacional, sobrevalorizando as moedas dos países emergentes  em geral, para que os produtos chineses , cotados mais baratos, destruam a concorrência. Para o economista Carlos Lessa, a agressivida comercial chinesa, ancorada no excesso de moeda americana em franca desvalorização, transformou-se no maior perigo para a economia brasileira.

Os conflitos que se aprofundaram , na última semana , entre a Argentina e o Brasil, tendendo a intensificar, ainda mais, nos próximas semanas e meses, têm por trás a onda chinesa, impulsionada pela desova dos dólares desvalorizados. O ambiente de terror contido é claro: a moeda americana sofreu, nos últimos quatro meses, segundo a Bovespa, desvalorização recorde, proxima de 18%.

 

China divide Argentina e Brasil

 

A China bloqueia a integração sulamericana e joga Lula contra Cristina

Os produtos da China deslocam os concorrentes brasileiros , fabricados pelas indústrias paulistas e gaúchas, na praça portenha, onde o protecionismo praticado pelo governo Kirchner, não os deixam mais entrar. Os chineses, com a força dos dólares desvalorizados, conseguem vencer a onda protecionista kirchenista, mas o real sobrevalorizado pela onda chinesa, não dá consegue competir. Bingo.

Desesperados, os empresários correm ao governo Lula pedindo desoneração fiscal, para tentar evitar o pior, ou seja, a queda da taxa de lucro e, consequentemente, o aumento do desemprego, por conta da diminuição de mais de 40% das exportações brasileiras para o maior mercado brasileiro no Mercosul, amplamente dominado pelas mercadorias chinesas. O mesmo ocorre nos demais países sul-americanos, bloqueando, na prática, a tão sonhada integração econômica continental.

Resultado: a desoneração fiscal lulista, aumenta, por sua vez, o endividamento do governo, que deixa de arrecadar tributos, cuja receita teria que ser distribuída, constitucionalmente, para os governos estaduais. Cobre-se, temporariamente,  a cabeça  dos empresários, mas descobre-se o traseiro dos governadores e prefeitos.
Graças às renúncias fiscais, para tentar salvar grandes fabricantes de bens duráveis, o tesouro nacional, segundo as contas preliminares anunciadas pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, na quarta, 01, deverá arcar com deficits superior a R$ 3,5 bilhões. Pode ser  muito mais.
 
Por outro lado, o governo vê-se  obrigado , também, a tentar salvar, igualmente, com mais déficits, ou seja, mais pressão inflacionária, os pequenos e médios empresários, da mesma forma, financeiramente, sufocados.

Cerca de R$ 1,2  bilhão foram anunciados por Mantega para sustentar dois fundos garantidores de crédito para as empresas de pequeno porte. O tesouro – leia-se deficit inflacionário expresso em expansão monetária em marcha batida incontrolável – colocará dinheiro no Banco do Brasil e no BNDES , para apoiar empréstimos a micro, pequenas e médias empresas, bem como a microempreendedores, que não estão tendo acesso aos bancos privados, fechados e temerosos quanto a estouros de inadimplência generalizadas.
 

Vomitador de dólares desvalorizados

 

dragão vomitador de dólares desvalorizados que estouram as moedas e deixam os produtos chineses competitivos na praça mundial, assombrando geralInicialmente, seriam jogados nos fundos garantidores, R$ 4 bilhões, com poder de alavancar 12 vezes esse valor, vale dizer, R$ 48 bilhões, talvez, a fundo perdido. A capitalitação inicial ocorreria por meio de ações de sete empresas: Banco do Brasil, Eletrobrás, Petrobrás, Tractebel, Gerdau, Coelce e Usiminas, todas com aval do tesouro nacional. O objetivo dos dois fundos é subsidiar risco de inadimplências.
 
O ceticismo é geral no governo quanto à possibilidade de os bancos privados virem a participar desse empreendimento arriscado. Trata-se de dinheiro jogado no escuro da grande crise. Os empréstimos para capital de giro terão limite de R$ 150 mil e para investimento, R$ 500 mil. O Planalto partiu para o tudo ou nada.
Some-se a essa sangria a violenta queda de arrecadação tributária – 6% em média nos últimos seis meses – , sinalizando perdas de R$ 100 bilhões, até final do ano, e tem-se quadro que colocaria o governo em situação crítica, caso os prognósticos desencontrados dos analistas não confirmem recuperação das atividades produtivas, dadas as incertezas mencionadas , durante a semana, pelos relatores do Banco Mundial e do BIS.

Nesse ambiente de alta incerteza, marcado por turbulências políticas que desestabilizam a base política da coalizão governamental, com a Crise Sarney, o presidente Lula voltou do exterior vendendo otimismo, ao destacar que o pior já passou. Repete a onda da marolinha, em vez de falar claro, para a sociedade sobre a complexidade do quadro internacional e, consequentemente, nacional.

Tal situação, evidentemente, obriga o governo a aumentar, ainda mais, o deficit público, para evitar falência das empresas. A ampliação do déficit ganharia nova característica. A declaração presidencial de que é melhor, de agora, em diante, jogar dinheiro público, não mais nas empresas, reduzindo seus impostos, mas no bolso dos consumidores , para que se dirijam às compras, a fim de que o governo possa estimular a arrecadação, em vez de renunciar a ela, como está fazendo, demonstra tentativa desesperada. Haveria aposta no consumo e não mais na produção, que já se encontra com elevada capacidade ociosa.

 

Papel de parede à vista

 

moleque-zimbabue , diante da hiperinflação em seu país, saiu às ruas para vender papel moeda que apodreceu, como aconteceu na Alemanha, nos anos de 1920, e pode acontecer , se houver invação de podridão monetária dolarizada na praça mundial, se a crise se aprofundar, graças ao excessivo aumento das dívidas do governo para conter a onda de falência mundial, sinalizando que keynes, em ver de ser solução pode ser problema

Certamente, mais dinheiro no bolso do consumidor, resultando em mais arrecadação, diminuiria o défecit que se amplia com as desonerações fiscais, mas a resposta a essa ação desataria antagonismo cada vez mais intenso entre capital, que está levando a parte do leão, e trabalho, que padece com elevação do desemprego, decorrente da sobrevalorização cambial, que desarticula a economia, com a violenta ação chinesa, ampliada com os dólares desvalorizados, cujo remédio se expressa na corrida aos deficits.

O bode expiatório que tentam, no Palácio do Planalto e no Ministério da Fazenda, exorcizar é a secretária da Receita Federal, Lina Vieira, acusada, na última semana, de culpada pela queda dos ingressos tributários do tesouro por falta de eficiente fiscalização. Piada.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, nesse contexto, se continuar mantendo tímida a redução da taxa de juro básica, selic(9,25%, nominal, 5%, real, excluída inflação),  que remunera os títulos públicos, estaria contribuindo, efetivamente, para acelerar a hiperinflação governamental, escondida na dívida pública crescente. As autoridades monetárias entraram em sinuca de bico.

O Conselho Monetário Nacional(CNM) fixou meta de inflação de 4,5% para 2010, em ambiente de superinflação disfaçarda de dívida pública, porque se fixasse abaixo desse percentual, por exemplo, 3,5%, como defendem os grandes bancos, sinalizaria necessidade de subida dos juros, para alcançar tal patamar. Mas, se subir os juros, mata Lula e sua candidata Dilma e elege, por antecipação, José Serra.

Democracia direta apavora udenismo golpista latino-americano

micheletti errou o tempo histórico, pensando que teria apoio dos estados unidos para a sua aventura golpista, quando washington não tem mais bala para garantir os ditadores como outrora. dançouzelaya joga com o favor da história latino-americana que repudia golpistas e busca abrir as veias da america latino aos ventos das mudanças democráticas pela via direta já que as democracias representativas apodreceram sob governabilidades eternamente provisóriasjose_miguel_insulza é a onva face da OEA, que não aceita mais os desmandos das elites golpists contas os governos democraticamente eleitosA voz da ONU falou alto em favor da democracia e apagou as possibilidades dos golpistas conquistarem espaço salvo em banho de sangue que colocaria o continente em mobilização para intervenção democrática em Honduras

 

 

 

 

 

O que sempre apavorou as elites latino-americanas, ao longo da história, foi a livre manifestação popular. Por isso – na velha linha da carcomida UDN lacerdista, da qual origina-se, por exemplo, o presidente do Congresso Nacional, senador José Sarney, em plena bancarrota – elas sempre cuidaram de sustentar golpes anti-democráticos ou modelos eleitorais, permanentemente, restritivos, para garantir o nível de acumulação do capital em detrimento do trabalho em terras sul-americanas e centro-americanas. Caso contrário, podendo manifestar-se contra a exploração do capital sobre o trabalho, que impõe privilégios à produção, enquanto trata o consumo como algo marginal, eliminando o real concreto em movimento, que é a equivalência produção-consumo, expresso na máxima de que consumo é produção e produção é consumo, as elites estariam fora do poder há muito tempo. 

O golpe das elites udenistas lacerdistas de Honduras contra o presidente constitucionalmente eleito Manuel Zelaya é mais um capítulo dessa triste e horrenda história. História de medo do povo, pelas elites,   em sua livre manifestação política, que, consequentemente, leva à organização social politicamente consciente em pleno movimento dialético.

O que aconteceu? Simples. A sociedade, no ambiente da evolução científica e tecnológica, que eleva a capacidade de produção, possibilitando rompimendo definitivo da miséria social, quer melhor distribuição da renda, equivalência produção-consumo.

Como, no ambiente democrático, alcançar tal objetivo? Pela participação, pela organização e pela decisão da maioria em benefício de uma institucionalidade mais abrangente, configurando sistema político-eleitoral capaz de alterar as contradições produzidas pelo desenvolvimento das forças produtivas, amplas,  de um lado, e as relações sociais da produção, restritivas, de outro. Implosão histórica.

Roberto Micheletti, presidente do Legislativo de Honduras, o Carlos Lacerda golpista hondurenho, errou o time histórico, ao aliar-se aos militares, para detonar governo constitucional de José Manuel Zelaya, que propôs referendo constitucional para respaldar nova Constituinte, que, entre outras determinações, suprimiria limite para mandatos presidenciais, como ocorre nas democracias européias.

O gorila hondurenho, respaldado pela Corte Suprema de Honduras – vergonha total –  sofreu imediata resistência do presidente da OEA, José Miguel Insulza, sob pressão da totalidade dos governos sul-americanos, centro-americanos e norte-americano. A ONU, comandada por Miguel D’Escoto, foi na mesma linha, condenando o golpe.

Haverá banho de sangue, nessa quinta feira, quando Zelaya, acompanhado os membros da OEA, da ONU e dos presidente da Argentina e Equador , Cristina Kirchner e Rafael Correia, desembarcam em Tegucigalpa, para reassumir o poder? Eis o grande drama latino-americano

 

Papel fundamental da Telesur

 

peron preconizou posição que desagradou washington que o expulsou do poder pois tornar-se incompatível com os interesses americanos na america do sulgetulio reagiu ao golpe suicidando-se e virando, temporiamente, o jogo políico em favor do povo, enquanto os golpistas continuarem tentanto chegar ao poder por meio das vozes do capital, cujos interesses demonstraram ser ilimitados na América Latina, principalmente, depois da segunda guerra, quando o dólar passou a dominar a cena internacional, reagindo às posicoes nacionailistas em todos os quadrantes da terracarloslacerda , inteligentíssimo e genial, colocou todas as suas energias a serviço do capital ameicano para desajolar Getúlio, tornando-se expressão máxima do conservadorismo latino-americano contra o avanço político em terras que os EUA julgaram ser o seu quinta, tendo como port estandartes elites tipo lacerdachavez foi fundamental ao colocar telesur no ar direto para resistir ao golpe das elites apoiada por militares hondurenhos que não entenderam os sinais da história

 

 

 

 

 

As relações sociais da produção, na América do Sul e na América Central, indiscutivelmente, fixaram, sob comando de elites políticas, historicamente, golpistas,  condições macroeconômicas, essencialmente, restritivas ao pleno desenvolvimento das forças políticas da sociedade de modo a ampliar o potencial econômico dos países sul-americanos e centroamericanos, ricos em matérias primas, eternos doadores de sangue aos exploradores.

Durante todo o século 20, foi a mesma ladaínha. Getúlio Vargas, em 1954, caiu por que? Por que nacionalizou o petróleo e sinalizou reformas econômicas que romperiam com o domínio das elites que sempre se eternizaram no poder por meio de modelos eleitorais elitistas, reacionários. Perón, na Argentina, idem. Em 1955, o líder peronista, em Bandung, Indonésia – reunião histórica que as elites reacionárias resistem em colocar nos livros de história – , pregou a “Tercera Posicion”, equidistante entre capitalismo e socialismo, no calor da guerra fria, ao mesmo tempo em que implementava política social de ampla redistribuição da renda nacional. Tratava-se de algo inaceitável para Washington, que considerava a América do Sul seu eterno quintal.

Depois da segunda guerra mundial, os Estados Unidos, de posse do dólar saído poderoso do Acordo de Bretton Woods, em 1944, responsável por fixar nova divisão internacional do trabalho, impuseram seu jogo à  América do Sul e América Central. Os latinoa-americanos passaram a penar sob as elites golpistas que arregimentaram militares obedientes a Washington, para tentar eternizar o mando político ditatorial, impedindo a democratização da renda nos países latino-americanos.

A deterioração dos termos das relações de troca, imposta pelo dólar, que garantia superavit financeiro nas contas correntes americanas, de modo a compensar deficits comerciais crescentes dos Estados Unidos para com o mundo, tornando-se locomotiva econômica global keynesiana guerreira, favorecia, amplamente, as elites conservadoras, aliadas aos militares golpistas, capacitados nas escolas militares do norte. Bloquearam , a ferro e fogo, a  materialização da liberdade de ação econômica e política na  América Latina.

Roberto Micheletti, comandando as elites políticas conservadoras hondurenhas, resistentes à renovação institucional, que permitiria o povo de Honduras manifestar-se livremente por mudanças políticas fundamentais, não avaliou bem o novo tempo em que o dólar não é mais aquele de outrora, avalista dos golpistas. O novo tempo coloca em xeque as democracias representativas que Micheletti e asseclas gerenciam, para travar o avanço popular, dominando, principalmente, os meios de comunicação. As novas correlações de forças latino-americanas, no entanto,  estão permitindo alterações no quadro midiático.

O exemplo é a Telesur, criada pelo presidente Hugo Chavez, da Venezuela, para tentar fugir do massacre das informações ideológicas comandadas pelo capital americano no seu outrora quintal. Desde o primeiro instante do golpe, Chavez mobilizou os latino-americanos, colocando no ar, 24 horas, a Telesur, agitando. Se isso tivesse ocorrido em outros tempos, certamente, Getúlio e Peron não teriam caído.

 

Obama descartou golpismo lacerdista

 

Tio Sam perdeu a força de sustentar golpes no momento em que o dolar , graças aos elevados deficites americanos, deixa de puxar a demanda global, o que garantia arrogancias políticas manifestas em todos os lugares, principalmente, na America latina

Historicamente, está acabando, com a grande crise global em curso, o tempo em que o dólar punha e dispunha o poder político a qualquer custo na América do Sul e na América Central. A crise joga o poder monetário dolarizado no chão. Deixa, consequentemente, as elites políticas em desespero e desperta nas massas o desejo irreprimível de liberdade de ampla participação, que os modelos de democracia representativa impedem de forma plena, via modelos eleitorais regados por caixas dois, de forma generalizada.

O golpe contra Manuel Zelaya é  estertor desesperado dessas elites que não podem mais se agarrar ao dólar. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, sem escada, dependurado na brocha dos grandes deficits, que colocam a América em situação que a torna incapaz de continuar sendo o farol econômico do mundo, cuidou, imediatamente, de tirar o seu da reta. Negou-se a fazer o que outrora presidentes americanos fizeram, ou seja, avalizar os golpistas latino-americanos.

Roberto Micheletti e seus aliados momentâneos nos quarteis militares de Honduras tentam resistir aos avanços da história, expressos em materialização do desejo democrático das massas, organizadas, cada vez mais, em movimentos populares, comunitários – responsáveis, falando nisso, pela eleição de Obama. Simplesmente, Micheletti e comparsas tentam voltar ao útero materno. Nem Freud explica mais. Trata-se de cadáver insepulto que a história repele dialeticamente.

O que queria Zelaya? Referendo popular. O povo diria se deseja ou não supressão do limite para mandatos presidenciais. Pe cado mortal para as elites inseguras. Os gorilas reagiram anti-democraticamente, incomodados, adicionalmente, pelo fato novo que domina a cena política latino-americana, que é pulverização de blocos econ^micos no contexto sul-americano e centro-americano, com suas respectivas cargas político ideológicas sujeitas, naturalmente, aos plebiscitos e referendos.

Essa novidade histórica terrível para os reacionários deixam-nos desesperados, sem chão, levando-os à loucura em face da iminência do desalojamento do poder no qual se situam para servir de barreira ao avanço democrático.

 

Oportunidade perdida

 

sarney está sendo consumido pelas suas próprias contradições e poderia escapar de destino trágico se Lula tentasse fazer o que fez Zelaya, levando o titular do legislativo , desgastado, a uma aventura desastrada, que jogaria o país na ditadura, o que não faria o seu feitio

 

 

 

 

 

A queda iminente do senador José Sarney(PMDB-AP) se insere nesse contexto latino-americano conservador reagente às mudanças democráticas. Até as moscas que estão rodeando seu gabinete, nesse instante, já sabiam que sua eleição para o Senado não representaria avanço democrático, mas conservação de forças resistentes a uma alteração no modelo eleitoral que condena a democracia representativa brasileira ao baú da história. Se ele, no primeiro momento , colocasse em discussão a superação da conservação reacionária expressa em tal modelo, criaria ambiente para ampla discussão que anularia as forças que estão derrubando-o, ou seja, aquelas mesmas que o levaram a ficar aonde está, à beira do precipício. Sem discurso de ampla renovação das práticas viciadas de um legislativo comprometido com as forças do atraso, Sarney revela-se, como certa vez disse o ex-presidente FHC, “vanguarda do atraso”. Não teve força suficiente para remover os vícios que o estão derrubando, materializado em práticas executadas por personagens que prontificaram em transformar o Congresso no esgoto nacional da corrupção.

Perdeu oportunidade de democratizar o Legislativo, cuja prioridade não é promover as forças produtivas, mas conservar as relações sociais da produção, tão bem expressas no artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b da Constituição, origem maior da governabilidade eternamente provisória sob MPs que domina a cena nacional, na medida em que a prioridade maior do governo é o interesse dos credores e não os da sociedade em sua formação essencialmente antagônica. Tal artigo proibe contigenciamento dos recursos orçamentários destinados ao pagamento dos juros aos banqueiros, mas mantém livre aperto e arrocho sobre os demais setores como educação, saúde, segurança , infra-estrutura etc. Pura neorepública bancocrática, como diz o senador Lauro Campos.

A bancarrota sarneysista é o sinal do fracasso do modelo político cuja contradição exige superação dialética irreversível. Se o presidente Lula, hoje, colocasse em discussão a supressão do limite para mandato presidencial, como colocou Zelaya, correria perigo de sofrer o mesmo golpe, talvez, quem sabe, sendo substituido pelo próprio Sarney, que poderia exercitar, sob modelo eleitoral golpista vigente, o vergonhoso papel que executa , nesse instante, a caricata figura de Roberto Micheletti? Não assinaríamos embaixo essa possibilidade, dada a história cheia de espertezas e oportunismos do titular do Congresso brasileiro, mas o fato é que ele perdeu excelente oportunidade histórica, para desgarrar-se das suas vestes conservadoras, a fim de dar fecho de ouro na sua carreira política, ao não jogar na lata de lixo sua herança udenista-lacerdista-continuista.