Globo(quem diria!) estimula chavismo

Transversalmente, o jornal Globo, na linha neoliberal, está, curiosamente, apostando suas fichas políticas no movimento chavista nacionalista sul-americano. Se não aposta, estimula. A possibilidade de estar caminhando nesse sentido fica explícita com sua posição tendenciosa e alienada relativamente a providências econômicas do governo Lula que estabilizariam a economia e a sociedade, na hora de crise aguda, como é o caso da decisão governamental de incrementar os gastos sociais como prática econômica anticíclica, bombando o Programa Bolsa Família. Critica a providência que evitaria aprofundamento da deterioração econômica e social, dada pela crise mundial, levando ao avanço do desemprego e dos movimentos sociais em escala considerável com o discurso nacionalista chavista que tanto o sistema global esculacha, temendo avanço da promessa de democracia participativa bolivariana revolucionária na América do Sul.

O Globo combate ideologicamente o presidente da Venezuela, Hugo Chavez, mas condena decisões lulistas que arrefeciariam, no Brasil, caminhada chavista, expressas em melhor distribuição da renda como principal antídoto da crise, traduzido no investimento no Bolsa Família. Os herdeiros de Roberto Marinho atiram num rumo, mas podem acertar em outro, contrário aos seus próprios interesses. Qual seria o interesse dos Marinhos, fomentar Chavez ou opor-se a Chavez?

A manchete do Globo, quinta-feira, 29.01, “Lula amplia Bolsa Família um dia após cortar orçamento”, induz o leitor a concluir que o programa social é mero gasto público sem vinculação com a economia e a crise que amplia o desemprego, portanto, ônus para a sociedade, que, no ambiente de contenção de despesas, exigiria austeridade e corte de gastos e não ampliação deles. Os comentaristas globais carregaram a mão sobre o assunto, enfatizando, pelo tom da apresentação da (des)informação, ser a decisão inconveniente à luz dos acontecimentos, cujos desdobramentos não são possíveis, por enquanto, de serem contidos em sua arrancada deflacionária autodestrutiva do capitalismo mundial.

Correram os repórteres globais para escutarem a oposição. Seus oráculos pregaram prioridades – não falaram quais – e fim do desperdício. A manchete cumpria seu papel: caracterizar o programa Bolsa Família como um desperdício, criticado pela oposição, que já está em campanha para 2010, jogando contra o governo, incomodada por ele estar apertando os banqueiros, maiores anunciantes da grande mídia.

 

Alienação informativa

Na prática, a manchete global é pura alienação. Ora, se o pobre, que tem no seu cartão de crédito popular do programa Bolsa Família poder de compra para adquirir uma lata de óleo de soja, esta vai ser reposta na prateira do supermercado pela indústria que comprará da agricultura que irá ao comércio comprar máquinas, equipamentos e matéria prima. Ao mesmo tempo, o ato de consumir dos pobres, gerará circulação de dinheiro e, consequentemente, imediata arrecadação aos cofres do tesouro. 
No ato de gastar do consumidor, o governo já começa a arrecadar 40%, peso da carga tributária no lombo da população sem benefício social correspondente. Se a circulação abrange até cinco etapas – comércio, indústria, agricultura, serviços, transportes etc – , e sabendo que em cada etapa da circulação do dinheiro lançado pelo governo, entra no cofre do tesouro 40%, ocorre o milagre da multiplicação pela circulação. Se ele joga 100 reais no meio circulante, recebe de volta, no máximo, 500; no mínimo 350/400 reais. Grande negócio para o Estado, para dispor de investimentos públicos na hora da crise. Onde está o desperdício? Keynes diria: burrice global.
Na verdade, a grande mídia ainda não entendeu que o relativo desenvolvimento na Era Lula decorreu da opção lulista em matar a fome dos pobres com três refeições diárias, conforme prometeu em campanha eleitoral. Ampliando a oferta dos cartões de crédito do bolsa família terá cumprido a promessa que estabilizou relativamente a economia, por meio da distribuição da renda nacional via programas sociais. Entraria para a história.
A excessiva concentração da renda nacional, característica do modelo concentrador de renda e poupador de mão de obra, foi, sob Lula, melhor atacada socialmente. Ao colocar em circulação 50 milhões de quilos de comida-dia no mercado por meio do consumo dos miseráveis, keynesianamente, bancado pelo governo, o presidente Lula deu uma virada qualitativa na economia capitalista brasileira, relativamente, ao status quo colonial predominante de Cabral a FHC. Antes predominava capitalismo sem consumo, sustentado, apenas, pelos subsídios estatais à classe média consumista. Depois, com Lula, passou a predominar o consumismo popular, antes inexistente. De barriga cheia o miserável empreendedor vou ganhar um trocadinho a mais para consumir mais etc. Pragmatismo lulita distributivista é a contribuição histórica do operário que chegou à presidência da República, no panorama histórica da super-concentração da renda nacional.
Até então, ganhavam keynesianismo estatal apenas as empresas por meio do BNDES, o hospital-empresarial criado por Getúlio Vargas para tomar conta dos falidos empresários nacionais, eternamente dependurados na teta nacional.
Como disse Delfim: “Se não fizer chover nas cabeceiras….” Lula passou a chuviscar, também, para os excluídos. Evitou, garantindo comida aos miseráveis, a perigosa insuficiência crônica de consumo, subconsumismo, tema de tese de mestrado em economia nacional do governador tucano de São Paulo, José Serra.

Burguesia midiática burra

O programa Bolsa Família garantiu barriga cheia, que, segundo Fidel Castro, evita revolução. O consumo do pobre incrementou a indústria do rico. Evitou que os empresários caissem na armadilha da perversidade do modelo econômico capitalista tunipiniquim nos moldes neoliberais radicais.
A concentração da renda nacional tornara a economia dominada pelo subconsumismo, que levava sempre à formação de estoques, exigindo desvalorização cambial para exportar, cujo resultado final era hiperinflação, queda dos salários e aumento dos lucros, enfim, mais concentração.
O aumento do consumo interno, via barriga cheia da pobreza, expressa no poder de compra popular inserido no cartão de crédito do Bolsa Família, evitou a formação de estoques, valorizou a moeda e diminuiu a inflação importada, enquanto perdurou a farra da economia dos países ricos regada pelos derivativos que ficaram tóxicos na bancarrota imobiliária e bloquearam o crédito mundial, jogando o capitalismo no imponderável.  Mas, aí, é outra história. Não foi Lula que jogou o país no desemprego ascensional presente.
 
Ora, se a crise aumenta o desemprego, que reduz o consumo já afetado pela desaceleração global, forçada pela escassez de crédito, o Bolsa Família revigorado para bancar o consumo não mais dos pobres, mas, também, dos desempregados, que engordarão as filas da pobreza, mantido o rítmo violento das demissões, resultará em relativa estabilização da própria produção nacional. O Globo, ao não entender a lógica do fator anticíclico do Bolsa Família, deixa de prestar serviço ao seu consumidor, o leitor. Não o informa, aliena-o.
O governo, gastando em programa social, estará gerando consumo, garantindo a produção industrial e a estabilidade do trabalho no ABC, por exemplo, onde gesta a insatisfação social, no ritmo deflacionário que vai destruindo, primeiro, os salários, em seguida, o capital.  O Globo ainda não entendeu que a inflação, sim, aleija, mas a deflação, mata. Escolha de Sofia. Os globais vêem a inflação sem o seu conteúdo político, de evitar a emergência do socialismo, como diz Lauro Campos, em “Inflação, instrumento de controle social”.
 

Governista ou oposicionista?

A manchete do Globo é totalmente desfocada da realidade. É pura ideologia marginalista. Dá o discurso errado para a oposição, que, sem discurso, está pegando qualquer porcaria. 
É, o poder global, quem sabe, manipulando o PSDB e o DEM, pode estar sendo útil para o presidente lula, embora simule querer destruí-lo. O tiro poderia sair pela culatra, se o Bolsa Família, engordado para sustentar o consumo que está sendo destruido pelo avanço do desemprego,  começar a esvaziar os estoques acumulados do setor privado.
A grande mídia colonizadamente está aplaudindo, sem restrições, o keynesianismo explícito  do presidente eleito Barack Obama. A cobertura do Congresso americano está mais quente do que a cobertura do Congresso nacional, onde o PMDB poderá ter , de agora em diante, Sarney com cara de Ulisses Guimarães, aaargh.
Já, relativamente, a Lula, o poder midiático impõe seguidas restrições, como se as finanças do governo americano não estivessem mil vezes piores do que as do governo brasileiro, cercadas de desconfiança global. Os governos dos países ricos demonstraram à grande mídia que não seguem o discurso que ditaram para ela relativamente aos países pobres. Por que os pobres não poderiam então seguir o exemplo dos ricos visto que a pregação deles para o mundo entrou em colapso?

Lula repete Getúlio sob ataque burguês

Getúlio Vargas, se vivo fosse, leria a manchete do Globo, coisa que Lula disse não gostar de fazer, deixando a tarefa para Franklin Martins, e concluiria: “Estou querendo ajudar esses capitalistas burros brasileiros e eles não estão entendendo”. Se o Bolsa Família não for acionado , o desemprego avançará, incontrolavelmente, e as barricadas urbanas serão levantadas, imediatamente, sinalizando guerra civil e emergência socialista. 

A manchete do Globo demonstra que a inteligência global não percebeu que o Estado, como disse Malthus, é o complemento da demanda que não se realiza pelo setor privado, visto que sua lógica é a de promover, no capitalismo, crônica insuficiência de consumo, de um lado, e sobreacumulação de capital, de outro, como diz Marx em O Capital.

Roosevelt é endeusado pela grande mídia por ter mandado plantar cactus no deserto de Tennesses, como forma de gastar para gerar consumo e arrecadação para o governo investir, mas, se Lula faz a mesma coisa com o Bolsa Família, é sacaneado como promotor do desperdício. Medidas anticíclicas não podem ser adotadas pela periferia capitalista, apenas pelo capitalismo cêntrico. 

Estado é capital

O fato é que, como diz Lauro Campos em “A crise da ideologia keynesiana”(Campus, 1980), um clássico da economia política,  o Estado é capital. O dinheiro estatal na economia monetária, que substituiu o padrão ouro do século 19, para salvar o capitalismo da crise de 1929, movimenta a circulação e eleva a arrecadação. 
Como representa desperdício, se , na circulação, o capital estatal arrecada 40% de imposto, que vai proporcionar investimentos públicos e consumo para bancar o setor privado, que está afogado na falta de demanda, em meio à derrocada global?
A incompreensão da grande mídia relativamente ao papel dos programas sociais, na Era Lula, de estabilizador do poder da própria burguesia nacional, eternamente, falida nos cofres do BNDES, é dada pelo vício do pensamento mecanicista midiático que raciocina como se a realidade fosse a priori dada por modelos matemáticos, sem perceber que a matemática, como disse Hegel, se realiza no exterior da realidade, não podendo, pois, determiná-la.  
Na prática, os programas sociais, na fase do capitalismo em que o emprego acabou, como destaca Jeremy Rifikin, em “O fim dos empregos”, são os bombeadores do consumo dos que ficaram excluídos socialmente. Como ainda lhes restam uma função essencial, sob o capitalismo, ou seja, a de consumir, pois , os pobres consomem, na medida em que tal consumo for assegurado, a insuficiência de consumo, que tende a destruir o capitalismo, como reconheceu Malthus,  estaria arrefecida, salvando o próprio sistema. 
Mas, vai tentar colocar essa dialética na cabeça global…. Perdidos no vendaval das falidas ilusões econométricas dos modelos capitalistas de reprodução do capital em condições ótimas de temperatura e pressão equilibristas, sujeitas a chuvas e trovoadas, os globais tentam adicionar mais neoliberalismo no fracasso neoliberal tóxico explícito. Inteligência global é isso aí.

Sarney, neo-Ulisses do PMDB?

Em ritmo econômico deflacionário, que vai espalhando medo nos trabalhadores e empresários, diante do avanço das demissões e da queda forte da produção industrial no último quadrimestre de 2008 – jogando o consumo e a taxa de lucro no chão, por falta de crédito a preços acessíveis para o salário com seu poder de compra cadente – , a história brasileira contemporânea vai produzindo, curiosamente, repetição de situações históricas passadas que podem vir a ser verdade ou pura farsa, no contexto da violenta crise mundial.

Há 24 anos, em 1985, o então vice-presidente José Sarney(PDS) subiu ao poder nacional, com a morte do presidente Tancredo Neves(PMDB), para transformar-se, na prática, em rainha da Inglaterra, sob domínio total do PMDB, comandado pelo então pelo todo poderoso Senhor Diretas e Senhor Cidadania, deputado Ulisses Guimarães(PMDB-SP). O PMDB era o tal.

Responsável maior pela formação do governo, especialmente, da equipe econômica, em mãos de um empresário, Dilson Funaro, que levaria o país à moratória diante da falência nacional, decretada e induzida pela crise monetária mundial desencadeada nos anos de 1980 pelos Estados Unidos, quebrando a periferia capitalista, Ulisses era a maior força do Congresso nacional. 
Saído do movimento das Diretas-84,  politicamente, fortalecido, embora o poder efetivo fosse exercido pelo Consenso de Washington, subordinado aos banqueiros internacionais, que garantiram na Constituição o pagamento dos serviços da dívida, no artigo 166, parágrafo terceiro, ítem II, letra b, Ulisses Guimarães encarnava o poder civil, revitalizado depois do fim da ditadura.. Sarney comeu na mão dele.
Em 2009, a situação muda de figura relativamente ao ex-vice que virou presidente sem voto popular , em meio à crise global capitalista paralisante, que joga os trabalhadores nas ruas em protesto pela ascensão do desemprego. 
Mantidas as proporções relativas da história, caso o senador amapaense seja eleito, na próxima segunda feira, 02, presidente do Senado, terá, com o poder aliado do possível novo presidente da Câmara, deputado Michel Temer(PMDB-SP), espaço para exercer influência semelhante à de Ulisses, como dirigente do poder legislativo, sobre o presidente da República. O aval para tanto estará seguro, ou seja, a força peemedebista, amplamente majoritária, como no tempo do incontrastável domínio ulissista.

Da ditadura à democracia

Passadas duas décadas, a situação se inverte. Sarney, que a história considera um dos consolidadores da democracia, depois de ter servido por 20 anos a ditadura militar,  se ergue, como eventual presidente do Senado, com a mesma estatura de Ulisses Guimarães, não mais dominado pelo PMDB, mas, ao contrário, aclamado pelos peemedebistas, podendo. Dispõe, dentro das características peculiares da Constituição brasileira, da possibilidade de combinar presidencialismo e parlamentarismo,  transformando-se, virtualmente, em primeiro ministro. 
Ou seja, poder compartilhado entre Executivo e Legislativo, garantido e abençoado pelas medidas provisórias, cuja utilização, no rítmo da crise econômica, poderá ser amplificada com a dobradinha Sarney-Lula. O adversário de Sarney, na eleição do Senado,  senador Tião Viana(PT-AC), pode ter cometido erro estratégico, do ponto de vista político-econômico, ao prometer fazer guerra contra as MPs. Condenaria o governo Lula-Sarney, em rítmo estatizante, à morte.
O presidente Lula, que se omitiu, mais uma vez, de participar da sucessão parlamentar 2009, para emplacar aliado de sua confiança total, que poderia ser o senador Tião Viana(PT-AC), optando por subir em cima do muro, na disputa, tenderia  a ser o Sarney de 1985, nos dois últimos anos de mandato, enquanto o Sarney 2009 se assemelharia muito ao Ulisses de 1985. Ao ficar no muro, Lula sinalizou temor do PMDB. 
Estaria reservado ao titular do Planalto, nos dois últimos anos de seu governo, o papel de Sarney em 1985 – raínha da Inglaterra -, quando o Executivo foi monitorado pelo Legislativo, graças às novas correlações de forças políticas que situam o PMDB com o poder mais forte no cenário nacional depois das eleições municipais de 2008?
Em 1985, Sarney, como vice de Tancredo, subiu ao poder a contragosto dos peemedebistas, que tentaram emplacar Ulisses de qualquer jeito, como presidente da Câmara – passando a terceira via sucessória, presidência da Câmara dos Deputados, por cima da primeira, a vice-presidência da República, mediante manipulação juridico-constitucional. Agora, os atores mudaram de lado.
Com apoio total do PMDB, em 2009, o que não ocorreu, absolutamente, em 1985, Sarney, saindo vencedor, ganha estatura para exercer, praticamente, o mesmo poder que Ulisses exerceu, no ambiente constitucional dúbio nacional presidencialista-parlamentarista, adequado à governabilidade via medidas provisórias. 
Tal possibilidade decorre objetivamente do fortalecimento substancial do PMDB relativamente ao PT no contexto da coalizão governamenal lulista. O PT sem Lula mostrou ser fraco nas urnas. A subida de Sarney, levando-o à altura de fator imprescindível para Lula, a fim de enfrentar a crise, não apenas relativiza o poder do titular do Planalto, mas, fundamentalmente, abala o PT, que pode, pragmaticamente, perder Lula para o PMDB.

Novo comandante da sucessão lulista


A voz sarneysiana influiria diretamente sobre o comando do governo do presidente Lula, no plano econômico, político e sucessório, em 2010, tendo o Congresso sob domínio total do PMDB, embora não tenha ascendência sobre Lula na mesma intensidade em que Ulisses tinha sobre ele, durante o primeiro governo da Nova República. Lula-2009, fenômeno político popular, testado nas urnas, não é nem o Sarney-1985, sem voto, nem o Sarney-2009, com voto, mas sem suficiente carisma popular.
Ao contrário de Lula, que chegou ao poder nos braços do povo, cantado pela história como resistente à ditadura e profeta da democracia, Sarney escalou espertamente pela via indireta, tendo por trás um histórico político camaleônico controvertido. Havia servido aos interesses golpista da UDN lacerdista, nos anos de 1950, e, depois, ao udenismo golpista-militarista de 1964 a 1984, sempre nas águas anti-democráticas.
O senador, no entanto, quando chegou ao Planalto, deu a volta por cima, realizando governo amplamente democrático, renegando a condição de herdeiro da ditadura, pulando do golpismo reacionário ditatorial para o reformismo político como necessidade de adequar-se ao discurso do PMDB, embalado pelas Diretas Já que gestaria, febril e democraticamente, daí em diante, Constituição de 1988.
Sarney, atualmente, poderá assumir o Senado, não apenas como campeão da democracia, mas como virtual primeiro ministro neorepublicano, tal como ocorreu com Ulisses, com  poderes, amplamente avalizados pelo forte PMDB, para dar cartas na sucessão lulista.
A correlação de forças políticas no âmbito da coalizão governamental muda com a emergência sarneysista, avalizada pelo PMDB, que ficou ainda mais poderoso depois de vencer as eleições municipais. O lado forte da coalizão governista não é mais o PT, mas o PMDB, cuja representação é um Sarney com cara de Ulisses.

Voluntarismo x pragmatismo 

A nova correlação de forças políticas, pendendo o lado mais forte para o PMDB, dentro da coalizão, cria novo cenário para a sucessão do titular do Planalto.
Certamente, Sarney, que, no governo, lançou o slogan lulista antecipado de “Tudo pelo social” e o programa do leite, semelhante, nas intenções, ao programa bolsa família, avalizaria, amplamente, a decisão lulista, adotada na quarta feira, 28, de aumentar investimentos nos programas sociais, bombando o bolsa família. Mais recursos para a pobreza consumir representa mais arrecadação para o governo dispor de mais investimentos públicos anti-cíclicos, evidenciando que o bolsa família, antes de ser assistencialismo, representa arma de política econômica e social.
Sarney, igualmente, assinaria em baixo, também, a disposição governamental de ampliar a influência do Estado sobre a economia, no momento em que o setor privado perde gás diante da desaceleração econômica global, sendo socorrido às pressas pelo dinheiro do contribuinte passado pelo BNDES. 
O possível novo presidente do Senado reclamou que o seu projeto econômico e político, entre 1985-86, o fracassado Cruzado, não foi adiante porque não obteve apoio político no Congresso. Quando diz que como presidente do Legislativo ajudará o Brasil a enfrentar a crise, pode estar dando resposta antecipada a Lula da forma em que o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama gostaria de ouvir da sua base congressual diante do pacote financeiro salvacionista com o qual pretende tirar a economia americana da deflação destrutiva. Ou seja, o papel de Sarney, no novo cenário, torna-se estratégico.

Dilma precisará dele

Tal apoio sarneysista, no entanto,  teria por trás o peso do PMDB a exigir compensações correspondentes, ao mesmo tempo em que o partido faturaria as benesses das medidas governamentais em maior intensidade nas bases eleitorais nacionais onde os peemedebistas passaram a dar as cartas depois das últimas eleições municipais. 
A candidatura de Dilma, nesse novo ambiente, não obedeceria mais ao desejo individual, voluntarista, do presidente do Executivo em emplacá-la, mesmo que a contragosto do seu próprio partido, o PT, ainda resistente a ela, Teria de ser compartilhada com o presidente do Legislativo, onde o PMDB, adepto do pragmatismo, dá as cartas em nome da sustentação da governabilidade da coalizão governamental. Como o PMDB está interessado é em Lula e não no PT, como destacou o ministro do Desenvolvimento Regional, deputado Geddel Vieira Lima(PMDB-BA), o jogo de interesse sucessório terá o partido de Sarney como protagonista e não assessorialista.
Não haveria mais espaço para o voluntarismo lulista em levar adiante a qualquer custo a candidatura Dilma. Impor-se-ia a necessidade da negociação nesse sentido com o aliado que ficou mais forte, o PMDB, representado pela reencarnação de Ulisses em Sarney. 
Vale dizer, o candidato da coalizão não seria mais do presidente nem da força predominante, PMDB, isoladamente, mas do entendimento entre as duas forças, que, por sua vez, serão submetidas ao pragmatismo e não ao voluntarismo. 
A candidatura Dilma, por enquanto, baixa na cotação das pesquisas, é voluntarismo lulista, não opção consensual coalizacionista.
Nesse contexto, de preponderância do PMDB sobre o PT, a sucessão presidencial 2010, com a subida de Sarney no topo do Legislativo, ganharia outro colorido.

Sarney enrola Lula e abala PT

Vai ficando evidente que o ex-presidente, senador José Sarney(PMDB-AC) deu uma tremenda manobrada, espetacular, em cima do presidente Lula, no episódio da sucessão parlamentar 2009. Pode ser que a situação mude até segunda feira próxima quando serão realizadas eleições na Câmara e no Senado, mas, por enquanto, vai configurando possível vitória sarneysista, na marcha dos prognósticos.  Se o deputado Michel Temer(PMDB-SP) emplacar, na Câmara, onde a maioria do partido e as coligações que realizou se mostram forças amplas e consistentes, será a hecatombe petista e nascimento do parlamentarismo peemedebista, em nova etapa histórica da Nova República em meio a crise global capitalista deflacionária, com Sarney virtualmente de primeiro ministro.
Delfim Netto disse que Sarney, em matéria de política, faz croché com sete agulhas. Sabe tudo do ofício. Começou na bossa nova da UDN golpista de Carlos Lacerta, na década de 1950, depois,  rendeu-se, no lombo da Arena, ao militarismo golpista udenista por 20 anos(1964-1984), dobrou, em seguida, montado no PDS-PFL, a esquina da democracia como primeiro presidente da Nova República(1985), substituindo Tancredo Neves, dramaticamente, morto, e, praticamente, no PMDB, dominou o Congresso Nacional ao longo dos governos neorepublicanos. Primeiro, exercendo o poder executivo, depois, no comando do Legislativo, na Era Lula, exponenciando-se  com o senador Antônio Carlos Magalhaes, na Era FHC. Foi presidente do Congresso na etapa inicial da era Lula e pode repetir a dose na etapa final lulista. Um negociador político da mais alta cepa, urdido na segunda metade do século 20, entrando século 21 adentro. Fora do comando do poder direto, cria seu espaço; no efetivo exercício dele, amplia-o, extraordinariamente. 
 
Se ele faturar mais essa presidência do Senado, pontuando de forma sensacional sua carreira de político conservador, reacionário e renovador, simultaneamente, no cenário político nacional, como, verdadeiramente, única, repetiria pregação do senador Lauro Campos, relativamente, ao senador Antônio Carlos Magalhães, na Era FHC. 
A dobradinha FHC-ACM, disse Lauro, exercitou a ditadura compartilhada sob o regime político neorepublicano eternamente provisório subordinado à bancocracia. Claro, FHC, na segunda metade do seu mandato, enxotou ACM, sob danação da anti-ética política que tomou mandato parlamentar do senador baiano do PFL-DEM, depois, retomado, democraticamente.
 
Emergiria, agora, no mesmo diapasão, a dobradinha Lula-Sarney, na reta final da era lulista, podendo o ex-presidente, poderoso senador do Acre, igualmente, compartilhar uma neo-ditadura provisória neorepublicana na etapa final do falido neoliberalismo que dominou amplamente a Nova República, revertendo-se agora em apelo salvacionista para o nacionalismo protecionista? 
Os fatos apontam para essa possibilidade, embora a política seja pura mudança, impondo, frequentemente, surpresas.
 
A Nova República – democracia política eternamente provisória – ,mais uma vez, tende a permanecer nas mãos dos caciques políticos conservadores da política nacional que inteligentemente souberam adequar-se às novas circunstâncias sempre que são impostas novas e problemáticas formas de reprodução do capital na periferia capitalista.
Curtido, primeiro, no ambiente dos decretos leis militares, depois, no reinado das medidas provisórias neorepublicanas, adequadas aos interesses dos banqueiros, que, de fato, deram as cartas nos governos da Nova República, prisioneira do neoliberal fracassado Consenso de Washington, José Sarney  arrancou com grande disposição de velha raposa astuciosa para tentar conquistar novo mandato no Senado, depois que, ingenuamente, o presidente Lula abriu o galinheiro do PT para ele.
 
Ao deixar correr solto o conto do vigário do aparente desejo sarneysista de não disputar a presidência do Senado – um não desejo desejado – , salvo se fosse chamado para construir consenso, o presidente Lula caiu na conversa de Sarney.
 

Omissão lulista bloqueia Tião

O sonho de Sarney foi embalado pela omissão lulistada mesma forma que tal omissão, igualmente, virou fantasma para a candidatura Viana.
A esperta disposição manifesta por Sarney ao presidente de não disputar não mereceu resposta manifesta do titular do Planalto em forma de apelo e sugestão de cobrança em favor do candidatao Tião, um homem do norte, como Sarney. Ou seja, candidato da coalizão ao Senado com apoio do senador maranhense não disposto a disputar.
A ingenuidade petista-lulista se manifestou na crença em uma regra congressual não escrita de que os poderes nas duas Casas do Congresso não podem ficar em mãos de um só partido. Se o PMDB já tinha costurado , com Michel Temer(SP), a candidatura na Câmara, no Senado, seria a vez do PT. Sarney não acreditou nas coisas não escritas.
Lula acreditou num pressuposto abstrado. Se, como Sarney, não acreditasse, estaria armando estratégia favorável ao senador Tião Viana(PT-AC). Como acreditou, desarmou a candidatura vianense. Vale dizer, condenou Tião Viana à instabilidade, abalando sua força.
Mas, como  “tudo muda, só não muda a lei do movimento, segundo a qual tudo muda”(Hegel), a aparência sarneysiana deu lugar à essência sarneysiana, enquanto a essência lulista, minada pela omissão política, transformou Tião Viana na aparência sem essência.
 
A não solicitação de  Lula a Sarney relativamente a um compromisso de apoiar candidato da coalizão governista foi lida pela águia política maranhense como o pulo da onça no cangote do bezerro: “Ele não me pediu apoio para o candidato dele; significa que não preciso apoiá-lo”, psiocologizou certamente a sabedoria política manhosa sarneysiana. E estamos conversados.
A partir daí, Lula ficou marolando o assunto, sem sair do lugar. Era o que Sarney queria. Desgastaria Tião Viana, disseminando sua instabilidade-debilidde intrínseca, ao mesmo tempo em que proporcionaria oportunidade cada vez mais ampla para a retórica sarneysiana, engordando-a no vácuo criado pela indecisão do titular do Planalto.
Os petistas não aprenderam com o fiasco na sucessão vitoriosa do deputado pernambucanao Severino Cavalcanti. Deixaram, de novo, de aprender, dessa vez, acreditando em conversa de papai noel. Abriram a guarda para Sarney que passou a atacar por todos os flancos, tricotando com sete agulhas, materializando a pregação delfiniana. Enquanto isso, Tião Viana, sem experiência, espeta o dedo com duas agulhas rombudas, sem a lima necessária, dada por Lula para afiá-lo no jogo sucessório parlamentar 2009.
Lula foi neutralizado pela malícia política do ex-presidente. Esta se expressou em efeito paralisante sobre o presidente em relação ao senador aliado Tião Viana, que ficou sem jogo. Afinal, seu líder maior se recusou a jogar. Em política não tem três erros. Errar uma vez é pecado mortal. Duas, é a morte certa. Tião Viana, com cara de padre piedoso, escorregou no quiabo de Sarney, espalhado com sabedoria no caminho entre a liderança do PT e o Palácio do Planalto.
 
Tião, frango de granja, saiu correndo para um lado, sem apoio de Lula, enquanto Sarney, frango caipira, catador de minhoca, saiu por outro, certo de que Lula ficaria em cima do muro, para não desagradar o PMDB.
Sobretudo, o ex-presidente jogou com a carta maior do partido, tornado mais poderoso depois das eleições municipais do ano passado, conferindo-lhe base capaz de sustentar candidatura presidencial. A capitalização dessa força é a âncora fundamental da candidatura Sarney.

Camelo velho conhece o deserto

O que fará o PSDB? Esperará o voto do governador José Serra, que tem suas divergências profundas com o senador maranhanse, por ter armado cama de gato contra a filha dele, inviabilizando sua candidatura em 2002, envolvendo-a em denúncias de corrupção praticada pelo seu marido, em armação espetaculosa comandada pela polícia federal em plena campanha eleitoral?
Certamente, Serra, de olho em 2010, não teria porque não aproveitar a oportunidade de ouro para remover mágoas passadas em troca de oferta de juros políticos futuros.  Atuaria de modo contrário, criando contencioso sem necessidade, que viesse, amanhã, fazer entrar areia nos seus planos grandiosos de governar o Brasil com eventual apoio de Sarney?
 
Ou Sarney estaria pensando em Minas Gerais, para formar a dobradinha Aécio Neves-Roseana Sarney 2010, a fim de dar um troco em Serra, atraindo o governador mineiro para o PMDB? 
Resta saber qual seria o compromisso de Sarney com a candidatura Dilma Rousseff, ministra da Casa Civil, preferida do rei.
Se for verdade que o presidente Lula ficou pê da vida com a disposição de Sarney de votar atrás e se dispor a disputar a eleição, estaria o possível novo presidente do Senado livre de compromisso explícito com a ministra em 2010. A insatisfação lulista soou temor por eventual vitória sarneysista, pois poderia colocar areia na candidatura da ministra. Cabeças inchadas em profusão  no Planalto.
Lula, certamente, continuará com muito poder, mas Sarney, consciente da hierarquia equivalente entre os poderes da República, não deixaria de exercer sua soberania. E essa será dada pelo pragmatismo político, expresso no apoio da opinião pública. Se as pesquisas favorecerem Dilma, ok; senão… 
Se nem o próprio PT, até o momento, disse sim à Dilma, por que a velha raposa seria a primeira a fazê-lo, sem antes saber o que reserva o futuro? 
O camelo velho, que conhece de cor e salteado o caminho do deserto, que enrola Lula e anula o PT, caminha mais uma vez para atravessar o deserto do Senado , sem beber água suja, profetiza o empresário Sebastião Gomes.
 

Moratória americana à vista

A situação da economia mundial ficou tão crítica diante da evidência de que o sistema bancário americano está, totalmente, falido, que pode caminhar para um beco sem saída, levando o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama,  a decretar moratória, como última alternativa capaz de remover os títulos podres que bloqueiam o crédito internacional e a sobrevivência do capitalismo, perdido no vendaval da especulação desenfreada, sem regras, estimulada pelo próprio governo. Os tombos seguidos da bolsa, depois da posse de Obama, sinalizaram o contexto explosivo.

 

A moratória, que já aconteceu outras vezes, na história americana, no século 19 – em 1971 a desvinculação do dólar do ouro foi um beiço fenomenal no mercado – , seria a troca de títulos públicos emitidos pelo tesouro por títulos hipotecários-derivativos, gerados pela bancarrota imobiliária, alongando prazos de resgates, quem sabe para além dos trinta anos. O negócio ficou tão feio no mercado financeiro que somente o Estado tem moral e poder capaz de desobstruir as artérias entupidas do crédito, sem o qual o sistema capitalista implodiria geral. Seria fundamental apoio político, o que não aconteceu, por exemplo, no Brasil, em 1986, com o ex-presidente José Sarney, primeiro presidente da Nova República.

Configura-se o que vários economistas, ao longo dos últimos anos, têm alertado: que o deficit americano, chegando perto dos 7% do PIB de 14 trilhões de dólares, alavancou dívidas, por meio do sistema bancário, desregulamentado, mais de 50 vezes superiores ao próprio deficit. Especialistas, como o economista Adriano Benayon, professor da Universidade de Hamburgo, autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, dão conta de que o estoque de títulos de crédito, inclusive derivativos, ultrapassa 500 trilhões de dólares, incluídos os chamados “junk bonds”, títulos podres. 

Os ativos financeiros cresceram de 150% do PIB, em 1980, para 400% em 2005, nos países ricos do chamado G7, segundo David Roche, presidente da Corretora Independent Strategy, de Londres. Os ativos financeiros, no mundo, superavam 118 trilhões de dólares, em 2004, 10 vezes mais que o total registrado em 1980, representando 3 vezes o PIB mundial, segundo relatório do McKinsey Global Institute. 

A proliferação é muito maior, incluindo os derivativos, títulos podres imobiliários, estimados em 278 trilhões, calculados pelo BIS, o banco central dos bancos centrais. Ao lado disso, no mesmo contexto, o endividamento das famílias americanas é superior a 25 vezes a sua base salarial. A podridão creditícia fictícia implodiu geral  no mercado imobiliário.

 

Falência explícita

Os bancos americanos, detentores dos papeis, por eles mesmos emitidos, sem controle do Banco Central americano, repassaram-nos para frente, especialmente, aos banqueiros europeus e japoneses. Estão todos micados. Em tal situação, perderam a capacidade de fazer fluir a circulação capitalista, simplesmente, porque ninguém acredita em ninguém, sabendo que todos estão falidos e mentindo uns para os outros, batendo às portas do governo por socorro.

Somente o governo, como poder institucional que se sobrepõe, subjetivamente, sobre as categorias sociais em conflito pela renda que se perdeu na crise, seria capaz de reiniciar o jogo, distribuindo bolas para os agentes econômicos, enquanto, por pressão social, política e econômica, vai entrando, mediante emissão monetária, no capital dos bancos privados, a fim de reanimá-los.

Emerge situação qualitativamente diferente na gestão do Banco Central dos Estados Unidos, em face do avanço financeiro estatal no campo econômico, para reanimar o crédito. Antes, o tesouro americano emitia os títulos da dívida pública que os bancos privados compravam com o dólar emitido por eles. A emissão de dinheiro não é atributo do tesouro, mas dos banqueiros privados. Kennedy tentou reverter essa situação. Acabou assassinado. Lindon Johnson, ao assumir, reverter a medida Entretanto, com a crise atual, os banqueiros , perdidos na alavancagem exagerada da sua base de crédito, passam a depender do tesouro, que entra na circulação dos bancos privados, cobrando o pedágio expresso em maior participação acionária do Estado no capital privado.

Tal mecanismo, forjado pela crise, torna-se única forma capaz de permitir ao governo americano encaminhar solução para os créditos podres que impedem abertura de novos horizontes para o capitalismo americano e mundial. Como a absorção da montanha de dinheiro especulativo não poderá ser feita de uma vez só, pois implicaria em implosão inflacionária global do tesouro tanto americano como dos demais países capitalistas, a jogada seria flexibilizar no tempo a renegociação do papagaio financeiro. 

Renegociar – moratoriamente – é preciso. Adam Smtih, em “A riqueza das nações”, é claro: dívida pública não se paga, renegocia. A capacidade de o tesouro americano endividar-se, seguindo o remédio keynesiano, expresso no avanço dos gastos governamentasis, dependeria, fundamentalmente, da moratória. O que era problema, alardeado como calote, pelos analistas em geral, pode representar solução.

 

MacCaim emplaca proposta

A moratória tende a avançar, nas próximas semanas, como forma de impedir a expansão do desemprego. São 11 milhões de demitidos, nos Estados Unidos. No Brasil, somente, em dezembro, foram 650 mil para o olho da rua. Na Europa, a Alemanha prevê 2009 como pior do que 1949, no pós-guerra. No Chile, que depende da exportação de cobre, a miséria emergiu violentamente, com quebradeira impressionante no comércio. A China está em rítmo cada vez mais lento, sinalizando explosões sociais que implodiriam o sistema misto de socialismo-capitalismo-ditatorial etc. As negociações entre empresas e sindicatos tendem à explosão política ideológica.

A solução de renegociação geral, que se expressaria em ação governamental via moratória, foi, aliás, proposta, em campanha eleitoral, pelo adversário de Barack Obama, o republicano John MacCain. Ele perdeu a batalha eleitoral, mas pode ganhar a guerra. Disse que não haveria outra saída, senão o perdão da dívida dos mutuários que não poderão pagar. Sem condições para tal, os bancos que os financiaram ficaram na mesma situação, ou seja, com dinheiro no caixa que não tem nenhum valor porque a garantia, as casas, foi perdida com a violenta queda dos preços especulativos.

A tarefa do governo Obama seria, fundamentalmente, restituir a interrompida confiança na relação creditícia entre vendedor e comprador, não porque as duas partes tenham entrado em conflito intransponível. Pelo contrário. A culpa não é deles, mas do sistema financeiro, que extrapolou às regras para fazer negócios fictícios, cuja durabilidade se extinguiu na derrocada do mercado imobiliário.

O presidente americano ficou numa sinuca de bico. Ou programa rapidamente a moratória, com a autoridade do Estado, tornando-se oligopólio financeiro, para tirar do atoleiro o oligopólio financeiro privado, limpando seus passivos entupidos pelos “junks bonds”, títulos podres, ou poderá enfrentar corrida bancária. A necessidade urgente de socorrer, há uma semana, o maior banco americano, o Citibank, de falência irremediável teria que ser repetida, sucessivamente, pois a banca privada, como destaca o economista americano Nouriel Roubini, está, literalmente, falida. Sobrevive como mera representação aparente sob amparo indispensável do governo.

Como o governo precisará, não apenas de desbloquear o crédito interrompido, mas, também, de elevar os gastos governamentais para puxar a demanda global, visto que o setor privado perdeu força para executar tal tarefa, se não remover os títulos podres, jogando seu resgate para as calendas, não teria a menor condições de cumprir o papel que a sociedade dele espera no momento de estresse total da crise mundial. 

A necessidade de continuar se endividando, como prega o economista Paul Krugman, prêmio nobel de economia 2008, significa , igualmente, a necessidade de ir esticando, não apenas o novo endividamento, mas, também, o antigo, expresso nos créditos podres, algo somente possível mediante moratória, expressa no avanço do poder financeiro estatal no capital dos bancos privados falidos.

A estatização bancária em marcha – o estado como sócio da banca privada, como emergência de uma grande parceria público privada financeira(PPP) – vai se transformando no maior acontecimento econômico do século 21.

 

Lula-Sarney, dobradinha na crise

O presidente Lula, que já percebeu que não haverá outra saída, senão essa, pois os grandes bancos privados, que ele convocou para ajudá-lo, na salvação dos bancos privados pequenos, fugiram da raia, agiu, durante a semana, ainda mais agressivamente. Injetou, ou seja, emitiu dinheiro, R$ 100 bilhões para engordar o caixa do BNDES, a alavanca da industrialização nacional. 

Ao mesmo tempo, passou a pressionar os bancos públicos a baixarem os juros, a fim de forçar os bancos privados a fazerem o mesmo,depois que levou o Banco Central a reduzir a selic de 13,75% para 12,75%. Oligopolização financeira estatal, igualmente, forçando a ação da oligopolização financeira privada no mesmo sentido.

Nesse rítmo, estariam em cogitações outras estatizações, como produto natural de um novo processo em marcha, no campo dos seguros, podendo, inclusive, reverter privatizações, casos as empresas privatizadas vêem bater à porta do governo para pedir socorro, como chegam as do setor privado. 

É o caso, ocorrido durante a semana, da fusão entre a Votorantim e a Aracruz Celulose, com dinheiro do BNDES, o hospital estatal-empresarial. 

O titular do Planalto não vive mais a bonança internacional que permitiu à economia brasileira, incrementada no mercado interno, graças aos investimentos sociais lulistas, registrar taxa de desemprego recorde de 6,8%, segundo o IBGE. Sem o Estado botando para quebrar nos gastos, o desemprego poderia subir para 20%, rapidamente. 

Ficaria impossível manter o PAC e a candidatura da ministra Dilma Rousseff. 

Lula poderia ficar, isso sim, prisioneiro do novo jogo político que vai se formando, com a emergência do PMDB, dominando totalmente, o Congresso, colocando, possivelmente, o ex-presidente José Sarney, na prática, como primeiro ministro, para compartilhar o poder com Lula, caso vença eleições no Senado. 

 

Ressurreição de Adam Smith

Vai ficando evidente que o jogo econômico global dependerá das soluções dadas por dois grandes economistas ingleses dos séculos 19 e 20. 

No século 19, Adam Smith, autor de “A riqueza das nações”, profetizou que dívida pública não se paga, renegocia. No século 20, John Maynards Keynes destacou que o livre mercado sendo incapaz de puxar a demanda global capitalista, necessitaria do endividamento público, como fator propulsionador do consumo, incapaz de ser mantido, apenas, pela ganância privada. 

A solução keynesiana foi adotada no século passado à larga, em maior escala pela maior economia – de guerra – do mundo, os Estados Unidos. O limite foi alcançado pelos déficits acumulados que geraram excessiva alavancagem financeira privada de forma totalmente desregulamentada. 

A contiuidade do remédio keynesiano, que virou veneno, somente seria possível com a ressurreição de Adam Smith. Sua recomendação seria a renegociação da dívida, para reiniciar o jogo capitalista, visto que a dívida pública, keynesiana, acumulada e transformada, atualmente, em créditos podres, em várias escalas, obstaculiza a continuidade da reprodução capitalista. 

Afinal, segundo ele, não se paga, renegocia, sempre, o débito público, esticando os prazos e flexibilizando as proporções entre dívida e PIB, para manter a moeda relativamente estável. 

Sem a solução smithiana, não poderia ocorrer a recomendação keynesiana de Paul Krugman. Sem o remédio de Adam Smith, a capacidade de sobrevivência dos governos capitalistas ocidentais ficaria seriamente comprometida. Obama perderia, rapidamente, seu capital político, se fosse atacado por uma corrida bancária, em meio à explosão do desemprego e da falta de expectativa dos agentes econômicos. 

 

 

 

 

 

 

 

 

Obama impedido de repetir Roosevelt

O sonho da economia global, nesse momento, é que Barack Obama, que promete mudar com o mundo que mudou, se transforme em Frank Delano Roosevelt.
 
O presidente democrata , diante da crise de 1929, puxou a demanda global com gastos em programas sociais, entre 1933 e 1936, e em seguida, a partir de 1938/39, em guerra, para tirar o capitalismo do crash, à moda keynesiana. O déficit americano, em 1946, chegou a 144% do PIB.
 
A opção pela política monetária ativa em substituição ao velho padrão ouro do século 19, que fixava regras rígidas, para ditar o fluxo de moeda, a fim de controlar deficit de balanço de pagamento dos governos, colocou a economia americana na vanguarda do desenvolvimento econômico global, sob comando do dólar. A moeda americana já dava as cartas depois da primeira guerra mundial e tornou-se soberana depois da segunda grande guerra.
 
A esperança de que Obama faça a mesma jogada de Roosevelt, expandindo os gastos públicos – não necessariamente em guerras, mas em outras demandas estatais a serem descobertas, quem sabe jogar dinheiro pela janela ou ampliar os investimentos inflacionários no espaço etc, porque guerra virou opção incompatível com a nova pregação multilateral obamiana – , implicaria conjugá-la em dois momentos históricos distintos.
 
A distinção é matematicamente simples. Nos anos pós-guerra, a saúde da economia americana era uma, mais potente, viril. Não haveria déficit, mas superavit, além de ampla confiança na moeda. Agora, não há superavit, mas déficit, enquanto a confiança na moeda periclita. No início do século 21, depois de tantas guerras e desgastes, geradores de déficits, que levaram o capitalismo para a jogatina financeira suicida como fator de reprodução do capital, o fôlego não é mais o mesmo.
 

Tio Sam precisa de viagra

Se Roosevelt poderia fazer o que fez, sem precisar de viagra, porque eram mais que suficientes, para tanto, a juventude, a energia e a potência americana no pós-guerra, que estabeleceu a divisão internacional do trabalho sob controle do dólar, Obama, ao contrário, não estaria com essa bola toda.
Depois de tantos déficites acumulados ao longo de mais de sessenta anos, Tio Sam precisaria de uma injeção de potência cavalar. Poderia ser fatal , sabendo que estado do carro é precário, com lataria estourada em cima de pneus totalmente carecas. Essa é a diferença substancial entre Obama e Roosevelt.
 
Sob Roosevelt, Tio Sam, no pós-guerra, era a grande potencia mundial. Sob Obama, seis décadas depois, envelhecido, corcunda, adiposo, asmático, sexualmente baleado e enfartado – como se encontra nesse momento, no auge da crise capitalista – , o titio precisa de ajuda do Boston Medical Group.
 
Enfim, Roosevelt ergueu o que viria a ser o unilateralismo econômico americano ao longo do século 20. Obama não aguentaria essa barra. Terá que optar pelo multilateralismo, como anuncia Hillary Clinton, Secretária de Estado do novo governo. Os deficits acumulados criaram os limites expressos pela desconfiança do mercado na capacidade de endividamento do tesouro americano. 
 
 

Bancarrota à vista

Nas próximas semanas, podem quebrar mais bancos nos Estados Unidos. Haveria necessidade urgente de novos socorros estatais, levando a uma completa estatização bancária dos grandes segmentos de crédito. A era da dominação dos bancos privados dando orientação ao FED, banco central americano, como ocorre desde 1913, quando foi criado, pode estar chegando ao fim.
Pode fragilizar a posição dos bancos, no compasso da bancarrota, impulsionada pelos créditos podres, principalmente, se o fôlego do governo para absorvê-los não for suficiente, levando o mercado a uma corrida especulativa.
Os próximos anúncios de contabilidades bancárias atuarão como terremotos, mostrando o tamanho fenomenal dos créditos podres irresgatáveis. O governo estaria diante de dois pólos: de um lado, os bancos pedindo socorro; de outro , a população criticando os privilégios concedidos aos bancos por meio de emissão monetária estatal salvacionista com o suor da comunidade.
Opção radical nesse sentido baixaria imediatamente o capital político inicial de Barack Obama. Correria esse risco perigoso para salvar os especuladores, vistos criticamente pelo povo americano?
Se houver percepção aguda pela sociedade de que o buraco sem fundo exigirá empobrecimento social relativo para salvar os bancos, pode emergir pressão política contrária à continuidade de medidas salvacionistas no Congresso.
 
 

Teste para democracia americana

O debate democrático, no ambiente economicamente caótico, tenderia a chocar com os fatos contingentes que exigem pressa e põem pressão incensante, estressante, politicamente, explosiva.
A complexidade do novo contexto em que vive a economia exige decisões rápidas, mas as respostas, em ambiente democrático, não vêm com a velocidade requerida pela situação contingencialmente explosiva. Vem aos poucos, no compasso dos antagonismos sociais que permeiam o debate nacional a desembocar-se no Congresso.
Contradição em marcha que colocaria em teste a democracia americana. A marcha do processo deflacionário, mais ou menos intensa, seria o termômetro.
A agitação que a própria dinâmica produz implica representação econômica e política americana totalmente oposta àquela representação que vigorou no tempo de Frank Delano Roosevelt.
Sob Roosevelt, o capitalismo americano tinha futuro radioso pela frente; com Obama, a radiosidade futura é opacidade congestionante do presente que não deixa ver o horizonte com nitidez.
Os relatórios dos bancos centrais dando conta de crescimento entre zero e  1% dos EUA e Europa, em 2009, significa bola de neve.
 
Com Roosevelt, o dólar, que derrubava a libra e o capitalismo inglês, todo poderoso no século 19, tinha a confiança do mundo. Com Obama, o dólar torna-se a própria desconfiança do mundo.
Sem poder sacar contra o futuro, Obama, ao contrário de Roosevelt, que tinha o vigor e a juventude da moeda americana no pós guerra, tem que buscar aliados. O poder absoluto de Tio Sam se transformou em absolutamente relativo.
A relatividade cadente do poder americano inicia na Era Obama nova fase histórica mundial.
 

Tensões protecionistas balizarão dólar

As controvérsias levantadas pelo Congresso sobre a real capacidade financeira do tesouro para sustentar a demanda americana, que puxaria, por sua vez , a demanda global, evidenciam os limites da própria capacidade americana de exercer o velho papel de locomotiva econômica do mundo.
Um deficit gêmeo – fiscal e monetário  – da ordem de 6% do PIB, em meio à recessão global, representa barreira à ousadia monetária de Tio Sam. As palavras de Lawrence Summers, principal assessor econômico da Casa Branca, com Obama, são de alerta sobre a fragilidade e os limites das finanças americanas nesse momento. Tio Sam está baleado.
 
Por isso, as esperanças em Obama podem ser dissipadas, se predominar o comportamento protecionista da elite econômica americana que vigorou depois da primeira guerra mundial e da crise de 1929.
 
A novidade tende a ser a de que o livre comércio pode não ser mais totalmente interessante para a economia americana, se as grandes indústrias tentam recuperar mercado diante da avalanche de importações baratas, fortemente competitivas com a produção interna nos Estados Unidos.
O livre comércio era bancado pela capacidade infinita de endividamento do tesouro americano, para sustentar saldos comerciais positivos para os aliados e negativos para os EUA, sob o dólar-ouro.
A continuidade desse jogo, iniciado no pós guerra, está em questão. Para complicar, a emergência do desemprego eleva a taxa de nacionalismo econômico.
 
A rejeição relativa ao livre mercado, que deixaria de ser interessante para os Estados Unidos, financeiramente, falidos, sinalizaria, por sua vez, tensões cambiais a serem produzidas pelo acirramento da concorrência internacional, cuja expressão maior poderia ser desvalorizações aceleradas de moedas nas trocas comerciais globais, como fatores compensatórias.
Todos buscariam se salvar.

Construção abstrata, midiática

Todo o complexo econômico americano, sob o governo Obama, no ambiente da crise mundial em curso, desenha conjuntura qualitativamente oposta à que vigorou no tempo de Roosevelt, acrescentando dificuldades e não facilidades.
 
A força da economia americana em 2008, em termos de potencial de endividamento, mediante crença regeneradora do mercado financeiro, não é mais aquela do pós-segunda guerra mundial.
Não existe mais a ilimitada força propulsora de plena confiança dos aliados, que depositaram todas suas esperanças na economia americana para liderar o mundo.  
Um novo Bretton Woods, hoje, teria desfecho diametralmente oposto.
Em 1944, sob o dólar forte, inaugurava-se uma nova divisão internacional do trabalho, ditada pela força econômica dada pelos gastos governamentais em programas sociais e guerra. Em 2009, sob dólar fraco, ocorre o funeral daquela divisão, que abre discussão para novo modelo monetário global, enquanto Obama sinaliza diálogo pacífico.
O complexo industrial militar americano que Roosevelt ergueu depois do New Deal, para dinamizar a economia de guerra, como principal política anti-desemprego, vai berrar.
Ou seja, a aproximação tentada entre Obama e Roosevelt representa construção abstrata, midiática, salvacionista, que tem grandes chances de dar errado.
Tornaram-se estreitos os limites da capacidade de endividamento de Tio Sam e a confiança que ele desperta no mercado, estando abarrotado de dívidas, que levam o ativo americano – cercado de monumental quantia de créditos podres – a apresentar risco que assombra geral a economia mundial.